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História Mil Acasos - Capítulo 48


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Notas do Autor


Olá, minha gente! Tudo certo com vocês?
Bom, não vou me alongar. Só queria dizer que no capítulo de hoje, seria legal vocês lerem apreciando o álbum das músicas dos Lagostins e das Garotas do Vagão que foi lançado hoje rsrsrs. A coincidência do lançamento das músicas com o capítulo de hoje foi perfeita rsrs.

E sobre o que vocês vão ser aqui hoje: Uma feira é uma feira

Capítulo 48 - Colégio Grupo


Lica acordou com o cheiro de café lhe invadindo os sentidos. Tateando o colchão, encontrou Marina ainda toda estirada ali do lado, mas ela sabia bem que a casa voltara a ser povoada por mais alguém além delas. Suspirando, saiu da cama silenciosamente, escovou os dentes e seguiu para a cozinha, agora com o aroma do pão quentinho tomando conta do ambiente. Se recostou à soleira da porta com os braços cruzados e um sorriso do tamanho do mundo. Era pura felicidade por dentro e por fora.

Samantha terminava de coar o café de costas para ela. O corpo envolto por uma camiseta e um shortinho curto, as pernas à mostra, os cabelos de cachos revoltos presos em um coque frouxo, a tatuagem reluzindo na nuca. Perfeição definia bem. Sem se aguentar, e sabendo que se não se mexesse ela nunca notaria sua presença ali, Lica se aproximou em três passos e a envolveu por trás, enterrando o nariz no pescoço dela.

- Ai, que susto, Lica! – sua noiva ralhou, mas amoleceu toda com seu toque. Samantha suspirou e fechou os olhos – Oh saudade que eu estava disso.

Lica a apertou mais contra si deixando alguns beijinhos pela nuca, as mãos firmes na cintura por baixo da camisa do pijama.

- Meu Deus, Sammy – Heloísa meio choramingou, meio se deleitou – Não viaja mais assim não. Eu estava pra enlouquecer de sentir sua falta.

- Então vem cá pra gente resolver isso, vem – Samantha girou nos braços dela, envolvendo-a pelo pescoço – Oi – e riu travessa.

- Oi – Lica devolveu o gesto antes de mergulhar os lábios nos dela. E havia muita, mas muita saudade acumulada mesmo. Apertou Samantha contra si, colocou o corpo todo ao dela que não havia um ponto sequer em que eles não se tocassem. Com a língua, explorou a boca, mordiscou, aprofundou o gesto, gemeu baixinho e foi para o pescoço em busca de ar – Saudades de você, Sammy. Do seu cheiro, do seu toque... do seu corpo – voltou pela mandíbula até a boca.

Aquilo fez um estrago na empresária. Samantha teve que refrear um gemido ou cederia bem ali e elas estavam no meio da cozinha com menino pequeno em casa. Menino pequeno esse que podia a qualquer momento irromper pela porta da cozinha.

- Eu também estava morrendo de saudades, meu amor, mas é melhor a gente... Lica! – se assustou quando sentiu a mão dela querendo entrar pelo cós de seu short – A Marina, sua louca!

- Quê que tem a Marina? – Lica estava mais interessada em beijar seu colo agora. E se deixasse, ela iria mais para baixo.

- Mamãe? – a vozinha fininha veio lá da sala.

- Meu Deus, a Marina! – Heloísa deu um pulo.

- Eu falei! – Samantha devolveu, ajeitando a roupa – Aquieta esse fogo que eu apago ele depois. Oi, filha!

Pronto. Sabem encontro de almas? Foi bem isso. Marina chegou à porta da cozinha anda meio sonolenta, mas foi só ver a mãe ali a alguns passos com um sorrisão do tamanho do mundo, que ela acordou na mesma hora.

- Mamãe! – e correu até Samantha, que se agachou para recebe-la – Você chegou! Você chegou!

- Ai que saudades, meu pingo de gente! – e apertou a filha tanto contra si que parecia querer coloca-la para dentro de novo! Marina riu, gargalhou e se enganchou nela pelo pescoço – Que vontade que eu estava de te ver, de te abraçar....

- Eu também estava com saudade de você, mamãe – Marina se derreteu toda – A gente sentiu sua falta, não foi, tia Lica?

- O tempo todo – Lica respondeu sorrindo e checando o café. Terminou de colocar a mesa – Casa cheia de novo, Mari.

- Eba! – a menina se jogou nos braços de Samantha que se levantou com ela.

- Filha, bora começar a usar mais essas perninhas, hum? A mamãe não tem mais condição de te carregar no braço não. Olha seu tamanho.

- Eu sou seu bebê – e se enroscou nela toda faceira.

- É sim e vai ser sempre, mas não no tamanho. A coluna uma hora arrebenta. Andaram te dando o quê pra comer esses dias? Fermento?

- Eu comi pizza e pão e pãozinho de queijo e lasanha... – a menina começou a enumerar.

- Uma fruta que é bom, nada, né? – Samantha olhou feio para Lica.

- Serve cacau? Tinha muito na barra de chocolate que a gente detonou ontem, não foi, Mari?

- Tinha um monte – Marina foi na dela, recebendo um estreitar de olhos da mãe.

- O que eu faço com vocês, hein? Adiantou nada eu deixar mil recomendações pra não se entupirem de besteira – e ralhando, Samantha colocou a filha sentada na cadeira e foi ajudar Lica com o café. Aproximou-se dela e deixou um beijinho sutil na bochecha, sussurrando ao pé do ouvido – Obrigada por ter cuidado bem dela.

- Não me agradece – Lica devolveu baixinho, concentrada em terminar de cortar um mamão – A gente cuida de quem a gente ama – e se virou para deixar um selinho nos lábios de Samantha.

(...)

Sabe quando uma criança ganha o melhor presente do mundo? Quando um artista se depara com sua musa, com a visão e inspiração perfeitas? Ou quando um musicista consegue entoar e ouvir a mais bela melodia existente? A expressão de êxtase e satisfação destas três situações não foram nada comparadas ao brilho que iluminou o olhar e as feições de Clara Gutierrez quando finalmente viu o painel de sua feirinha cultural pronto.

E ele era enorme. Põe enorme nisso. Lica teve que cotar um dobrado para conseguir colocá-lo no carro sem amassar e quase foi obrigada a ir empurrando o veículo atrás, por conta do espaço para si que se tornou diminuto com aquela coisa tomando tudo. Mas valeu pela cara que a irmã fez quando o viu.

- Lica, ficou... aaaaah! – e se jogou com tudo sobre a Gutierrez mais velha – Eu te amo! Eu já disse que te amo? Porque eu te amo!

- Interesseira, isso que você é – Lica rebateu se fazendo de ofendida – Diz que me ama porque eu te dou o que você quer, mas bastou atrasar um dia esse painel pra você não me chamar de gente.

- Ficou maravilhoso, Lica! – Clara vibrou, os olhos escrutinando cada centímetro de tinta e papel picado com um brilho lindo – Você é uma artista e tanto!

- Ah, isso eu sei – Lica não era de se convencer com elogios, deixava esse departamento para Samantha, exceto quando se tratava da sua arte. Aí sim ela adorava levar todos os créditos e bajulações. Riu orgulhosa de si mesma e se empertigou.

- Tia Clara eu também fiz – Marina estava ali também, ow! Merecia sua parcela naquilo.

- Meu Deus, minha sobrinha é a maior arista que São Paulo já viu. Vem cá, meu filhotinho de poodle, vem! – e pegou Marina nos braços, enchendo-a de beijos – Essa feirinha vai ficar a coisa mais linda do mundo só por sua causa. Sua e da tonta da minha irmã.

Marina riu faceira e se agarrou a ela enquanto Lica tratava de chamar os seguranças para lhe ajudarem com o painel e leva-lo até o almoxarifado onde ficaria guardado até o dia da feirinha, o que, pelas contas dela... seria em três dias.

- Cuidado com a ponta aí – ela pediu. Se maculassem sua obra de arte em um centímetro que fosse, ela cometeria um crime de ódio com Clara como comparsa.

Naquela tarde, o encontro tinha endereço: o Galpão d’As Five. Mas naquele dia em especial, ele tinha se tornado o Galpão d’Os Lagostins, com participação especial de Juca. O noivo de Clara terminava de montar a bateria enquanto MB brincava de fazer solos na guitarra e Guto afinava seu teclado. Lica chegou com Marina e Samantha e a menina desembestou a correr atrás de Tonico enquanto a artista se acomodava numa poltrona ali perto e sua noiva assumia o lugar que era seu de direito.

- Tirou a tarde de folga, Lica? – Keyla inquiriu, se aproximando com um copo de suco e o laptop em mãos.

- Eu não perderia isso por nada – a Gutierrez respondeu faceira e relanceou a amiga concentrada na tela diante de si – Trabalhando?

- Minhas roupas não vão se desenhar sozinhas, meu amor – ela respondeu simplesmente – E sem mim, aquela loja não anda.

- Eu admiro quem consegue trabalhar de casa – Lica comentou – Eu particularmente acho horrível. Parece que o horário do expediente nunca acaba.

- Sua noiva também deve achar horrível – Keyla devolveu – Da última vez que você resolveu fazer home office, o apartamento da Samantha quase virou uma piscina de papel picado.

- As pessoas não entendem a arte – Lica deu de ombros – Um artista, ele precisa de espaço pra se expressar. É essa a lógica: inspiração e expressão. Eu estava me expressando, ponto.

- Se você diz... – Keyla não prolongou o assunto, o que Lica agradeceu, porque depois da visão que teve ali, não queria e nem tinha condições de se ater a mais nada que não fosse sua mulher de baixo pendurado nos ombros.

Correção: sua mulher de baixo pendurado nos ombros e uma cara de quem é gostosa e sabe. Uma cara de quem é gostosa e sabe lhe encarando com olhos famintos. Deus do céu, se Samantha mandasse, ela se ajoelharia, diria “au au” e ainda daria a patinha. Heloísa desfaleceu inteira.

- Que foi, meu amor? – e Samantha provocou de propósito, falando ao microfone – Tudo bem aí?

- T-tudo – Lica mal conseguiu verbalizar. Engoliu em seco, se ajeitando na poltrona – T-tudo ótimo.

- Cadela – ouviu Keyla resmungar ali do lado – Limpa a baba, Heloísa.

- Vai se catar, Keyla Maria – Lica proferiu sem nem tirar os olhos de Samantha. Ela parecia tomar tudo para si – Sammy, meu amor, você está linda.

- Trouxa – Keyla de novo.

Com um “shiu!” repentino, Lica mandou que ela calasse a boca ainda mirando sua mulher atônita.

- Eu não estou, Lica. Eu sou, vê se aprende – Samantha devolveu, o que fez o corpo de Heloísa responder de forma vergonhosa.

- Liquinha, fiquei magoado agora – MB se fez ouvir – Você nunca me olhou assim quando a gente namorava, pô.

- Fala sério, MB – Guto nem quis rir, mas foi impossível.

- Você não tem peitos, MB, dá licença – Lica respondeu, fazendo Keyla dar um tapa no braço dela em aviso.

- Tem criança no recinto, Heloísa!

- É pra hoje ou não é? – a voz de Samantha irrompeu firme e decidida pelo microfone – A gente pode começar?

- Na hora que você quiser, minha deusa – MB deu a deixa. Guto riu e negou com a cabeça, relanceando Juca para iniciar a contagem. E ao terceiro toque das baquetas....

(...)

- Lica! – Samantha tentou afastá-la pela milésima vez, mas sua noiva parecia um polvo com tantos braços – Tem criança em casa!

- A criança está no quinto sono, Sammy! Não me manda parar agora, não dá! – a Gutierrez meio choramingou, meio ralhou e foi para cima de novo – Eu preciso de você, amor....

- E eu preciso tomar um banho – Samantha conseguiu se desvencilhar dela para tirar a roupa, ao que Heloísa assistiu quase que literalmente babando. Deus quando fez aquela mulher não poupou na beleza. Pelo contrário, usou doses cavalares. Os olhos de Samantha pareciam faiscar aquele brilho acastanhado. O corpo esculpido à perfeição, a pele reluzente e macia pronta para receber um aconchego e aquela boca... aquela boca era a definição de pecado. Lica, como boa humana que era, adorava pecar. Pecava sem dó nem piedade.

- Gostosa – ela proferiu, contemplando a noiva se livrar do sutiã e depois da calcinha. Queria aplaudir de pé a beleza de Samantha, mas provavelmente acordaria Marina, que dera uma trabalheira para pegar no sono – ‘Cê é muito gostosa, Sammy.

- Eu sei – claro que ela sabia sim. Dando de ombros, Samantha se virou para ir para o boxe do chuveiro. Lica se pôs de pé, se livrando das botas com presa e jogando a jaqueta longe – Pra quê a pressa? Eu vou só tomar banho.

- Eu vou te acompanhar – não tinha ficado óbvio? – Você sabe que eu adoro transar no chuveiro.

- E eu acabei de dizer que vou só tomar banho, Lica – Samantha devolveu – Eu realmente só quero relaxar um pouco.

- Eu te faço relaxar – se livrou da calça, ficando só em roupas íntimas. A boca de Samantha salivou – Eu te faço relaxar como ninguém – e lentamente, envolveu a noiva pela cintura, colando o corpo dela a si – Você não precisa fazer nada.

E a passos firmes, guiou Samantha até o chuveiro, se livrou das últimas peças e tomou sua noiva para si reclamando o corpo dela por inteiro. Teve como quis e se deu como quis para terminarem a noite emboladas naquela cama enorme no aconchego uma da outra. Era para ser assim, então era assim que seria.

(...)

- De onde foi que saiu tanto aluno, meu Deus? – Lica parou na porta do Grupo observando o vai e vem frenético de gente pelo pátio, tentando entender o que diabos se passava ali. Quer dizer, ela sabia o que se passava, só não imaginava que o evento fosse reunir tanta gente. Acabou atravancando a entrada.

- Com licença – um homem pediu a ela para abrir passagem e entrou acompanhado de um adolescente.

- Samantha, tem certeza que a gente veio pro lugar certo? – Lica perguntou para ela baixinho ao ouvido.

- Não está reconhecendo a própria escola, Lica? Eu hein – a empresária riu travessa e entrou com Marina tagarelando. E sendo sincera, a menina queria ter pelo menos uns quatro pares de olhos para poder capturar tudo sem perder nenhum detalhe.

A tal feirinha cultural a que Clara se referia feito um mantra nos últimos meses na verdade era uma feirona. O pátio do Grupo poderia ser facilmente confundido com um mercado público naquele momento. Apinhado de gente, a maior parte deles estudantes trajando a camisa branca do evento com a logomarca que Lica criara. Quer dizer, que a Larinha do oitavo ano criara e que ela elegera como sendo a que mais atenderia às expectativas do evento.

Celebrar a diferença: era isso que Clara queria, então foi isso que Heloísa deu. Ao fundo do palco, o painel que ela tanto infernizara para ter. Na arte, cinco mãos dadas ao centro como a logomarca do evento, e ao redor, rostos de diferentes formas, cores, tamanhos... gente como a gente e única como a gente. Quem visse mais de perto veria que o rostos eram formados por uma colagem de uma infinidade de outros rostos. O pesadelo de Samantha (a piscina de papel picado em sua sala) justificado.

Mas essa celebração do diferente ia além da arte ao fundo e nas camisetas dos alunos. Em uma rápida olhada pelo ambiente, elas distinguiram um estande de culinária oriental, um estande com manifestações religiosas de matriz africana, um estande destinado aos amantes do rock ao lado de um que lembrava uma fazenda e destinado àqueles que amavam um modão sertanejo... O diferente compartilhando o mesmo espaço.

- Até que enfim vocês chegaram! – a voz de Clara atraiu a atenção de Samantha, que conversava com a mãe de um coleguinha de turma da filha – Samantha, eu vou só fazer a apresentação dos trabalhos e aí vocês sobem, tá bom?

- Os meninos já chegaram também? – ela quis saber.

- O Juca veio comigo e eu já vi o Guto dando uma volta com a Benê. O MB deve estar estourando por aí.

- Certo, hã... Eu vou entregar a Marina pra professora dela e... Lica... – se virou para falar com a noiva, mas o lugar onde ela estivera segundos antes era o mais limpo do mundo – Ué?

- Sammy! – ouviu aquela voz rouca se sobrepondo ao burburinho e à música ao fundo e buscou por ela. Encontrou Lica brincando com uma instalação do estande de “Tecnologia e Inovação”. Sua noiva tocou em um globo metálico e do nada, seus cabelos começaram a levantar. Literalmente parecia ter levado um choque. Heloísa ria de orelha a orelha.

- Meu Deus... – Clara acenou negativamente em um lamento e enterrou o rosto nas mãos – Samantha....

- É, eu sei – a Lambertini declarou mortificada – Eu vou me casar com uma criança de três anos. Vai ver é até crime.

- Mamãe, eu vou brincar também! – e a criança de verdade largou da mão da mãe para ir correndo até Lica.

- Espera, espera, Mari. Pega na minha mão – a Gutierrez pediu e segurou na mãos da menina. Automaticamente, os cabelos dela começaram a subir também.

- Mamãe, a gente está levando um choque! – Marina gargalhou esganiçado.

- Samantha, tira a Lica dali pelo amor de Deus! É experimento dos alunos da robótica, não playground.

Samantha bufou e foi até lá.

- Lindo as duas Edward Mãos de Tesoura. Maravilha. Agora será que dá pra gente terminar de chegar? Eu tenho um show pra fazer e a senhorita a sua turma pra ajudar – e pegou Marina pela mão, alguns fios de cabelo querendo subir também. Lica agora tentava interagir com um robô de lata com os olhos piscando – Anda, Heloísa! Depois você volta pra... brincar mais.

Seguiram as três Grupo a dentro. Lica acabou ficando pelo meio do caminho quando encontrou com Keyla, Tonico, Tina e Ellen. Entregou o baixo de Samantha que levava a tiracolo e se juntou às amigas enquanto sua noiva seguia para deixar Marina aos cuidados da professora de sua turma.

- Gente, que estrutura, viu? A Clara realmente deu um show nessa feirinha – Keyla comentou.

- E eu amei essa ideia de trazer um representante pra cada estande.

- Essa ideia foi minha, tá? Só pra constar – Lica quis os créditos, óbvio. Clara havia comprado sua sugestão, mas a ideia inicial de fato tinha sido sua. Afinal, como que fariam uma feira cultural tratando das diferenças sem levar para o público os verdadeiros representantes de cada coisinha que eles retratavam ali?

Acabou que no estande de comidas típicas nordestinas tinha uma baiana preparando os acarajés, no de culinária oriental, havia um sushiman, no estande da cultura arábica, uma professora de dança do ventre testava a flexibilidade dos quadris dos visitantes.... Quem via de fora poderia achar aquilo informação demais e desordem. Mas o que não é a cultura brasileira se não a mescla de um pouco de tudo? Pois pronto, o Grupo também tinha um pouco de tudo.

- Lica, se você continuar olhando assim para a professora de dança do ventre, a Samantha não vai gostar – Benê pontuou sabiamente arrancando Heloísa do torpor em que havia entrado.

- Será que a Sammy sabe dança do ventre? – se viu querendo saber.

- É melhor você perguntar para ela. Você pode pedir para ela dançar para você no lugar de ficar encarando a professora do estande dos alunos. Isso é falta de educação.

Lica deu de ombros e se pôs a acompanhar a movimentação.

- Alguém quer um acarajé? – ofereceu e se adiantou para a barraca da baiana.

Estava no meio de seu lanche quando foi surpreendida pela voz de Clara soando pelas caixas de som espalhadas pelo pátio. E foi só ela começar a falar, que o burburinho imediatamente cessou. Nem queria, mas Lica acabou inchando de orgulho da irmã. Clara parecia tão segura de si se dirigindo aos pais de seus alunos e a seus alunos mesmo....

- Boa tarde a todos e as todas – ela começou – Bom, pra quem está visitando pela primeira vez, eu sou Clara Gutierrez, diretora do Colégio Grupo e uma das organizadoras dessa feirinha que, pelo visto, de feirinha não tem nada – arrancou uma risadinha dos presentes – Sério, gente, isso aqui ficou maior do que o que a gente havia planejado inicialmente e eu confesso que deu medo de não caber todo mundo. Mas isso é ótimo, no final das contas, não é? Significa que a gente tem muito a dizer e a mostrar e que vocês estão dispostos a ouvir – respirou fundo – Esse ano, o tema escolhido foi a celebração das diferenças e... bom, eu queria que vocês me fizessem o favor. Deem uma olhadinha pra quem está ao lado de vocês agora – ela pediu e algumas cabeças se viraram apenas para fazer o que foi dito ou só sem entender mesmo – Eu aposto que tem gente aqui que nunca se viu, certo? Todos no mesmo espaço e ao mesmo tempo. Advogados, médicos, empresários, jornalistas, musicistas, dançarinos, cozinheiros... eu acho que hoje a gente tem de tudo um pouco aqui. E o que vocês vão ver aqui também é um pouco de tudo, porque no fim das contas, é isso que nós somos: vários em um só e saber reconhecer as especificidades do outro é também saber reconhecer a si mesmo, porque é na diferença com o outro que a gente se encontra e se entende como únicos. Celebrem a diferença sem medo, conheçam sem julgamentos e se permitam conhecer um pouco da vivência do outro. Obrigada.

Sob uma chuva de aplausos e assobios, Clara fez menção de devolver o microfone para seu lugar, mas parou a meio caminho. Quase esquecera.

- Gente, rapidinho aqui – pediu – Eu queria agradecer ao pessoal que ajudou a erguer tudo isso aqui, aos funcionários da escola, o pessoal da empresa de som... e também à minha irmã, a Heloísa. Foi ela que me deu esse painel enorme aqui – e apontou para a arte atrás de si – E é ela quem me ajuda a tocar essa escola junto com o professor Bóris. Lica! – procurou pela Gutierrez mais velha, que no momento mordia um pedaço generoso de acarajé. Engoliu como pôde, empurrou ele para Tina e correu para o palco, limpando a boca num guardanapo – Senhora e senhores, Heloísa Gutierrez. Sem ela esse evento aqui também não teria acontecido.

E um tanto sem jeito, Lica sorriu e fez um aceno, negando com a cabeça quando Clara lhe ofereceu o microfone. Aquele momento ali era dela, a glória era toda dela. Ali, Lica era apenas coadjuvante. Abraçou a irmã, mas não perdeu a oportunidade.

- Eu estou muito orgulhosa de você, irmãzinha – falou ao ouvido.

Clara riu que quis gargalhar.

- Repete que eu quero gravar isso pra esfregar na sua cara depois.

- Vai pro inferno – Lica riu e deixou um abraço de quebrar os ossos na irmã. Mas ao descer do palco, foi puxada para as coxias por um braço que perpassou a cortina lateral – Ai!

Mas quando viu quem tinha sido a autora daquele gesto atrevido... riu de orelha a orelha. Samantha se apossou de sua boca como quem fosse morrer no dia seguinte. Bom, quem quase teve foi um passamento foi Lica. E por falta de ar.

- Parabéns, meu amor. A feirinha está linda.

Lica se derreteu toda? Claro que se derreteu.

- Te amo – disse baixinho e voltou a beijar a noiva.

- Gente, bora? – mas Guto teve que interromper – Clara chamou.

- Arrasa lá em cima – Lica deixou mais um beijinho nos lábios dela e se retirou para se juntar novamente às meninas. Mas seu acarajé... bom... – Ai, fala sério, Tina!

- Eu pensei que você tinha me dado! – a amiga respondeu de boca cheia.

- Pra segurar, caramba! – a Gutierrez se emburrou – Eu vou pegar outro pra mim e achar a Marina.

Bom, Lica conseguiu outro acarajé, mas a filha de sua noiva... não a encontrou na sala onde deveria estar, nem nos banheiros. A professora fora clara: ela saíra de lá com um homem. Foi impossível não se retesar ao ouvir aquilo.

- Um homem? – repetiu ligeiramente atônita.

- Sim, ele disse que era amigo da mãe dela e a Marina fez festa quando o viu.

- M-mas... – Lica nem teve tempo de terminar. Só ouviu o gritinho esganiçado lhe chamando. Virou o rosto para a fonte do ruído para encontrar Marina muito bem acomodada nos ombros de Gabriel na primeira fila em frente ao palco. Heloísa soltou o ar que nem sabia que estava prendendo – Desculpa, eu vou lá onde eles – despediu-se da professora e correu até a dupla – Caramba, eu quase morri quando não te achei na sala, mozinho – pegou Marina nos braços.

- Ih, relaxa, Lica. Eu tinha avisado a Samantha que ia pegar a Mari pra ver o show. Você acha mesmo que a filha da dona da festa não ia assistir tudo do front? – Gabriel informou, mas vendo a cara da Gutierrez.... – Desculpa, eu não quis te assustar. É que eu pensei que...

- Não, tudo bem Gabriel – ela atestou e sorriu em alívio – Sério, tudo bem. É que por um momento eu pensei que....

- Eu sei, eu sei, mas relaxa, tá?

- Ele está quieto demais – Lica externou aquilo que vinha martelando em sua cabeça nos últimos dias desde que a delegada Giovanna ligara informando a Samantha que Henrique havia entrado para a lista de foragidos mais procurados da polícia brasileira. E ela fora taxativa: o caso extrapolara São Paulo, porque ele poderia estar em qualquer lugar. E era esse “qualquer lugar” que andava tirando o sono da Gutierrez.

- Ele está acuado, Lica. Não vai ser louco de tentar nada. Relaxa – Gabriel garantiu, apertando o ombro dela. Mas Heloísa mesmo não teve tempo de mais nada. Os primeiros acordes da guitarra de MB soaram no palco, onde ele, Guto, Juca e Samantha assumiram suas posições. E Deus do céu, fosse o que fosse que Lica estivesse sentindo minutos antes, se esvaíra com a velocidade da luz.

Samantha estava simplesmente majestosa naquela batinha com colete preto por cima, um chapéu da mesma cor na cabeça e uma calça colada que dava perfeitamente o contorno de suas pernas. Nos pés, uma bota marrom. Era algo entre rock e garota do campo que quase tirou Heloísa de órbita. Se os outros gritaram em êxtase, ela babou. Se os outros aplaudiam e assobiavam em ansiedade, ela ficou totalmente sem palavras. Abriu e fechou a boca umas três vezes sem proferir som algum.

Sua mulher estava maravilhosa. E lembrando bastante a Samantha de dezessete anos que fazia um estrago nos corações alheios sem pudor nenhum. A Samantha que agitava as baladinhas da turma, que conseguiu a proeza de fazer Tina descer do salto por ciúmes, que lhe virou a cabeça com um simples match e lhe ensinou que no fim das contas, até alguém todo quebrado pelas atitudes alheias consegue sentir e ser mais.

E aquela menina-mulher que ria de orelha a orelha, claramente amando aquela atenção toda, cruzou o olhar com o dela e lhe deu uma piscadela antes de morder o lábio e começar a dedilhar seu baixo enquanto Juca dava o ritmo e Guto e MB preenchiam a música. Lica teve que devolver Marina para Gabriel eu cairia feito uma jaca mole com a menina nos braços. Ficou fraca a ponto de suas pernas quererem cambalear.

Ao som de Top Top, Samantha fez dancinhas, encantou com aquele vozeirão, tomou o palco inteiro para si e só para si. Desculpem MB, Guto e Juca: talentosíssimos e tudo, a música com certeza não seria a mesma sem eles. Mas a vocalista... ela tinha um brilho todo especial, chamava a atenção, exalava simpatia, presença e parecia capturar os olhares com o magnetismo de um ímã. Lica ficou com medo de piscar e perder algum detalhes.

Na ponte para a segunda música, um solo de guitarra do loirão. E como se o tempo não tivesse passado um segundo sequer, MB fez e causou: firulas, aquele trejeito de astro do rock e o agudo do instrumento sendo cortado somente pelos gritinhos apaixonadas de algumas adolescentes e Lica reconheceu inclusive algumas mães de alunos lutando por espaço para conseguir chegar mais perto. Mas também, quem não? Aqueles olhos azul piscina pareciam hipnotizar, as covinhas quando ria e a expressão marrenta de quem sabe que pode e faz, fariam qualquer um se derreter mesmo. Lica já se derretera um tempo. E MB merecia. Muito.

Segunda trilha do show: Tigresa. Foi a vez de Guto assumir os vocais e brilhar. E olha... se tinha uma palavra que poderia descrever o noivo de Benê, ela seria “performático”. Quem via o rapaz cantar com aquela atitude e desenvoltura, nunca imaginaria ele enfiado em um smoking, seríssimo, tocando piano na orquestra. Ali, Guto parecia se libertar. E tendo Samantha de backvocal então... a mistura ficou ainda mais linda. Era impressionante e extremamente agradável aos ouvidos como as vozes dos dois se encaixavam tão bem.

E foi justamente de Guto o solo seguinte. O rapaz dedilhava aquele teclado com anta destreza e rapidez que deixaria um tonto. E foi impossível não abrir um sorrisão do tamanho do mundo quando Lica se virou para o lado para encontrar Benê completamente alheia ao barulho do público, contemplando Guto concentradíssimo em seu instrumento. Havia uma admiração no olhar de sua amiga que beirava a reverência. Todo mundo sabia do significado que o rapaz tinha na vida de Benedita e ali, talvez sem nem se dar conta, ele fazia jus ao lugar que ocupava.

Ao solo de Guto, o grupo emendou Pomar. Lica corou mais que um pimentão quando MB disse no microfone que a música tinha endereço para a musa inspiradora dos Lagostins. Fazer o quê? Aquele posto ali era um privilégio. E era dela. Só e somente só dela.

Uma acelerada nas batidas ao final de Pomar, um solo para lá de animado de Juca, que quase levou Clara ao delírio (e ela podia ser facilmente confundida com a presidente de algum fã-clube ensandecido), e eles entraram no hino dos hinos para uma geração daquela escola. Quando Samantha abriu a boca e entoou um “Você não vive o agora, só pensa em depois”, Lica resolveu perder a compostura e dane-se o mundo. Oitavo B era e sempre iria ser a música-tema delas. Deles, na verdade.

Até a concorrência, leia-se as Garotas do Vagão, desataram a cantar com os braços erguidos. Lica faria diferente? Nem a pau!

Eu sei que eu te quero

Eu sei que você vê

Você já é meu crush...

Samantha nem precisou cantar o final do refrão. Metade do público que era cria do Grupo e do Cora Coralina e conhecia os Lagostins da época do Ensino Médio, sabia como completar. E o coro foi lindo. Até Marina entrou no embalo, batucando na cabeça de Gabriel. Um Gabriel pulando e cantado com ela lá no alto.

Mas claro que depois de toda tempestade – e nesse caso, no melhor sentido da palavra – vem sempre uma calmaria. Respirando acelerado e bebendo de sua água, Samantha agradeceu aos convidados, pais, alunos, e anunciou a última daquela tarde. Sob protestos, que fique claro: se dependesse de todo mundo, Os Lagostins fariam um festival inteiro.

- Bom, essa próxima música, ela não é minha, mas se tornou minha. Na verdade minha e de uma pessoa muito, muito especial – e buscou os olhos de Lica que congelou no olhar dela – Quando a gente a incluiu no nosso repertório ainda lá no Ensino Médio, foi um pedido meu – tomou ar – Um pedido meu e uma tentativa de mostrar pra pessoa que eu gostava que eu estava ali e que queria que desse certo. Pelo visto, deu – riu baixinho ao microfone – Demorou? Sim, claro... mas finalmente rolou. E hoje, pra gente encerrar com ela, eu queria fazer esse momento ainda mais especial e chamar um convidado. Na verdade, uma convidada.

Lica nem viu quando Gabriel andou mais para frente levando Marina consigo. Só foi entender que havia uma movimentação atípica ali quando deu de cara com a menina em cima do palco sob aplausos.

- Hã...? – nem abrir a boca Heloísa conseguia direito.

- Senhoras e senhores, com vocês, meu featuring de hoje, Marina Lambertini, também conhecida como minha filha – Samantha riu sendo seguida pelos demais. E sob outra chuva de aplausos, a empresária colocou a menina sentadinha em um banco e lhe passou um ukelelê enquanto se posicionava com outro.

- Eu não acredito! – Tina vibrou mais que uma líder de torcida em final de campeonato. Sacou o celular do bolso e saiu atropelando um grupo na frente para poder filmar aquilo do melhor ângulo possível. Aquela cena era ouro puro.

- Lembra do que a gente ensaiou? – Samantha perguntou baixinho para a filha, tapando o microfone.

- Lembro – Marina respondeu firme e segura.

- Pronta? Bora fazer nosso show?

- Pronta, mamãe.

A menina ganhou um acenar de cabeça e um sorriso encorajadores e ficou esperando a mãe começar. E no primeiro acorde que Samantha deu, Marina acompanhou no segundo. E no terceiro, Marina veio com o quarto. Sem errar nada, sem nem hesitar. De linguinha entre os dentes, ele só tinha olhos para os dedinhos apertando firmes as cordinhas do instrumento.

Eu não quero mais conversa

Com quem não tem amor

Gente certa é gente aberta

Se o amor me chamar...

Samantha buscou o olhar de Lica.

Eu vou.

Só que Lica não foi não. De tão encantada e fascinada que estava com aquilo, sequer conseguiu se mexer. Sabe quando você vê algo que transcende, que te eleva e te faz parecer que está fora de órbita? Bom, Heloísa ficou fora de órbita. Era as duas pessoas que mais amava no mundo cantando sua música favorita no mundo e dedicando-a a ela. A delicadeza de Samantha e o esforço de Marina em não errar uma nota sequer. Pode chamar de idiota, de trouxa, de bocó, do que fosse, mas que ela chorou, chorou. Primeiro uma lágrima teimosa, depois outra vindo atrás, e mais outra... e quando deu por si, Lica tinha o rosto ligeiramente banhado por gotinhas salgadas. Limpou com as mãos e se permitiu rir quando a surpresa inicial deu lugar à felicidade própria do momento.

Riu em estado de elevação, em êxtase. Riu que quis gargalhar. O sorriso mais bobo e mais fácil do mundo.

Ao último acorde, o silêncio que precedeu o deleite dos convidados. Samantha e Marina encerraram a música sob aplausos animadíssimos, gritinhos, assobios, quase ovacionadas. A menina... ah, recebendo aquela atenção toda, ela parecia estar em casa. MB recolheu o ukelelê dela e Samantha a pegou nos braços com o sorrisão de orelha a orelha.

- Eu acertei tudo, mamãe? – Marina quis saber.

- Você é a maior estrela da música que esse mundo já viu, meu amor! – e deixou um beijo estalado na bochechinha dela – Foi lindo, filha. Lindo, lindo, lindo! – e apertou Marina contra si que a menina foi sem nem resistir. Sorriu grande e envolveu a mãe pelo pescoço.

- A gente tocou bonito, mamãe – ela disse se deleitando com os aplausos.

- Sandy e Júnior que se cuidem! – Samantha brincou e deixou outro beijinho no rosto dela. Despediu-se do palco e se retirou pela lateral sendo praticamente engolida por Clara e Gabriel que já a aguardavam ali perto.

- Samantha, você é maravilhosa! – a loirinha proferiu – E a minha afilhada é talentosíssima, meu Deus! Eu estou muito, muito orgulhosa de você, Marina!

- Puxou ao padrinho, dá licença – Guto entrou na conversa – Herdou o talento pra música de mim.

- E eu sou nada, né? – Samantha ralhou – A mãe que colocou no mundo, toca mais três instrumentos além do baixo e ainda canta, não vale nada. Bonito pra minha cara.

- Oi – Lica se fez ver. Mas não teve tempo nem de se aprumar direito. Marina se jogou em cima dela, que teve que agachar para recebe-la.

- Tia Lica, você me viu tocando? Eu toquei a música que a mamãe fez pra você! E eu não errei.

- Vi sim, meu amor, claro que vi! E eu adorei! – apertou tanto Marina que parecia querer coloca-la para dentro de si – Amei, achei lindo, maravilho! A coisa mais linda que eu já vi na vida. Você tocando minha música, mozinho!

- A mamãe me ensinou.

- Vocês duas quase me mataram do coração.

- E desidratada – Keyla tinha que avisar, claro – Chorou feito uma condenada.

- Você chorou, tia Lica? – Marina se preocupou.

- Foi de felicidade, meu amor – e ela achou por bem explicar – Quando a gente fica muito, muito feliz de verdade, as vezes a gente chora. Mas é de alegria. Uma felicidade que não cabe aqui dentro – e apontou para o próprio peito – E foi por sua causa. Você, Marina Lambertini, é minha felicidade todinha. Você e a sua mãe.

E se agarrou a Marina que não tinha no mundo quem soltasse. Sentiu a menina lhe envolvendo com os bracinhos pelo pescoço, sentiu a respiração dela se acalmar contra sua pele e inspirou profundamente o cheirinho de morango daquele perfuminho que ela sempre usava. O aroma fez cada poro do corpo de Heloísa relaxar, fez sua alma se aquietar. Estava em casa, afinal.

- Eu também fico feliz com você, mamãe.

Lica se retesou. Pensou ter ouvido errado. De repente todo o barulho ao redor se desfez em um eco distante. Vozes e sons indistintos. Clareza mesmo, só o timbre de Marina repetindo um “mamãe” dentro de sua cabeça. Não era bem a menina, era só sua mente proferindo aquilo em um loop. E de repente foi o “mamãe” que virou um eco até que os sons indistintos se fizeram claros de novo. Eles eram de MB fazendo algazarra com a apresentação da criança.

- Aê, Mari! Não nega o sangue não, hein! Filha de Lagostosa, Lagostinha é!

Marina riu de orelha a orelha para ele.

- Eu posso aprender a tocar guitarra, tio MB? – estava demorando....

- Me mata de orgulho essa menina, meu Deus! – MB pegou Marina e a ergueu no ar, pulando com ela sobre os ombros. Aos poucos, o Grupo foi se afastando até só restarem Samantha e Lica ali. E a Lambertini percebeu a inércia da noiva.

- Ei, tudo bem? – perguntou, buscando os olhos de Lica e segurando as mãos dela em um carinho com o polegar – Ficou quietinha de repente. A gente não errou a letra da música não, né?

Lica riu ainda meio aérea.

- Não, não... nem tem como errar, né Sammy? – e plantou um beijinho nos lábios dela – Eu adorei. Foi lindo, meu amor. A coisa mais linda que eu já vi na vida – e voltou a beijá-la dessa vez como Samantha merecia. Separaram-se por falta de ar.

- Então por que essa carinha, hum? Estou te achando meio aérea. Tem alguma coisa que você queira me contar?

Lica negou com a cabeça, mas com Samantha não. A empresária buscou o olhar dela.

- Lica? – foi mais firme – Lembra do nosso trato, hum? Tem alguma coisa que você queira me contar?

Lica respirou fundo. O quão idiota pareceria se dissesse aquilo? Bom, só saberia se tentasse, certo? Certo. Resolveu arriscar.

- Eu acho que... – engoliu em seco – Eu tive a impressão de que a Marina ela... – remexeu os dedos meio sem jeito – De que a Marina me chamou de “mãe”.

E riu sem graça. Samantha, por outro lado, suspirou e se aproximou mais erguendo o rosto de Heloísa com a ponta dos dedos.

- Isso é algum problema? Te incomodou de alguma forma?

- Não! Não, Samantha, claro que não! – Lica se apressou em responder – É justamente o contrário. Eu... eu adoraria ouvir a Mari me chamando de “mãe”. Na verdade, é tudo que eu mais quero, mas também... – ficou desconfortável – Mas também não quero ficar em cima pra ela não se sentir pressionada, sabe?

- Você acabou de dizer que ela te chamou – Samantha manteve a voz leve e riu divertida.

- Eu não sei, talvez tenha sido só coisa da minha cabeça. Eu estava tão numa bolha com ela que posso ter, sei lá, ouvido coisa que não existe. Às vezes acontece isso da gente querer muito uma coisa e acabar imaginando que é verdade.

- Ei, olha pra mim – Samantha pediu compassadamente e respirou fundo – Talvez não tenha sido só impressão sua.

- Hã? – Lica franziu o cenho e Samantha abriu um sorriso lindo – Samantha...?

A empresária suspirou.

- Ontem a Marina veio conversar comigo uma coisa. Quando eu fui deixa-la na aula de violão.

- Que coisa, Samantha? – o coração de Heloísa ribombava no peito.

- Ela quis saber se tinha algum probl....

- Churros pra minha afilhada... ué, cadê a Mari? – foram interrompidas por Guto. O rapaz carregava dois churros enormes numa cestinha e refrigerantes – Eu trouxe esses churros pra ela.

- Ela foi com vocês e o MB – Samantha respondeu – Acabou de sair daqui, Guto. Eu hein – e riu sem humor nenhum. Se fosse uma brincadeira de seu amigo, era de péssimo gosto.

- Eu sei, só que a Mari pediu pra ir ao banheiro e a Clara foi levar dizendo que de lá vinha te devolver ela. Sabe como é, diretora... tem que ficar dando conta do evento. Ela não trouxe a Marina ainda? A gente ficou de se encontrar aqui pra fazer um tour pelos estandes.

Samantha franziu o cenho.

- Não, ainda não. Eu vou lá no banheiro – e sem mais, Samantha seguiu a passos firmes em direção à parte interna do Grupo. Encontrou Clara conversando com uma mulher que ela deduziu ser mãe de aluno. Iria interromper, desculpa – Oi, licença... Clara, cadê a Marina? O Guto disse que ela pediu pra vir ao banheiro, ela sentiu alguma coisa?

- Não, não Sam – a loirinha respondeu – Ela queria fazer xixi – e riu amena – Está aqui terminando – então entrou no banheiro e chamou pela afilhada – Mari, tudo bem aí?

E obteve silêncio de resposta. O coração de Samantha a essa hora já martelava na boca, um zumbido chato lhe atazanando o juízo.

- Marina! – Samantha chamou mais firme que a diretora do Grupo – Filha, responde, tudo bem por aí?

Nada.

Lica foi mais eficiente e se jogou no chão do banheiro conferindo por baixo da porta de boxe por boxe. Nenhum sinal de pezinhos balançando. O lugar estava completamente vazio. Sem pensar, chutou a primeira porta do boxe. A segunda, depois a terceira... chegou na quinta. Ninguém além dela.

- MARINA! – Samantha gritou a plenos pulmões. Guto e MB irromperam pelo banheiro quando ouviram o berro.

- Gente, o que foi que aconteceu aqui?

- A Marina, ela está com algum de vocês? Me diz que sim, pelo amor de Deus! – Clara suplicou.

- Não, ela tinha ficado com você, Clarinha. Pediu pra vir ao banheiro. Que foi? – MB respondeu.

- A Marina sumiu – Lica anunciou antes de sair correndo banheiro afora. Guto tentou amparar Samantha que hiperventilava enquanto Clara chispou atrás da irmã. Correu até a barraquinha dos professores chamando por Bóris.

- A Marina, Bóris. A Marina sumiu – estava beirando o desespero – Pelo amor de Deus, me ajuda a achar minha afilhada.

- A-aqui dentro? Sumiu aqui dentro? – Bóris se alarmou – Meu Deus do céu, mas da escola ela não pode ter saído – e correu em direção aos seguranças para dar ordens expressas. Portões fechados, ninguém saía, ninguém entrava.

Do outro lado do pátio, Lica subiu no palco, interrompendo o set do DJ que animava o evento. Ouviu um burburinho se formar.

- Desculpa, mas isso é urgente, então foda-se a música. A menina que cantou aqui em cima agora há pouco. Marina Lambertini. Alguém a viu por aí?

Rostos curiosos e olhares em incompreensão varreram o ambiente. Ninguém dizia nada com nada.

- A MENINA QUE ACABOU DE CANTAR EM CIMA DA PORRA DESSE PALCO, A MINHA FILHA, ELA SUMIU! ENTÃO SE ALGUÉM A VIU POR FAVOR SÓ FALA! – Lica berrou ao microfone.

Mais burburinho de gente sem entender nada. No desespero e começando a pensar o pior (e isso é tendência nesses momentos), ela jogou o microfone no chão e começou a andar desesperada em cima do palco, já querendo se descabelar.

- A Marina sumiu? – Benê entoou entre Tina e Ellen.

- Gente, a gente tem que achar ela – Ellen externou o óbvio e juntas, abandonaram seus lanches e correram em direção a Clara, que no momento esbravejava com os seguranças. A ordem era clara: varrerem aquela escola inteira atrás de Marina e checar as imagens das câmeras. Ela não poderia ter saído dali sem ninguém ter visto. Não tinha nem como. Lica foi tirada de cima do palco por Ellen e Keyla enquanto Tina tentava remendar a situação, pedindo para que o DJ continuasse com a música e dizendo que tudo já estava sendo resolvido.

- Lica, calma! – Keyla pediu.

- Calma? Como eu vou ter calma, Keyla? Ninguém sabe onde a Marina está, ninguém... – e quis vacilar.

- Segura ela aqui – Tina pediu ajuda a Anderson. Samantha já estava sendo amparada por Guto e MB enquanto Bóris corria para lá e para cá com os seguranças. Clara discutia alguma coisa com o chefe do monitoramento eletrônico.

- Dá licença aqui rapidinho – Ellen chegou quase jogando o homem para o lado e se posicionou na frente do computador. Em dois cliques e alguns comandos, a tela se dividiu em oito miniaturas: a visão simultânea das câmeras de segurança do Grupo – Essa aqui é a da frente... a portaria... – e saiu vasculhando as gravações... – Caralho.

- Que foi Ellen? Que foi? – Samantha se aproximou em desespero e completo abandono – ME FALA O QUE FOI?

- Calma, Samantha – MB pediu.

Ellen tocou na tela, uma gravação de dez minutos atrás Marina saindo da escola de mãos dadas com uma pessoa. Uma figura masculina trajando camisa cinza por baixo de uma jaqueta preta e um capuz. Um zoom foi suficiente.

- Aquele filho da mãe! – foi Clara quem externou.

- Eu estou ligando pra polícia – Gabriel anunciou de celular em mãos.

Samantha só sabia se debater em desespero. Lica, por outro lado, tomada pela ira, se virou e chutou a lixeira ali perto fazendo o conteúdo dela voar para todo lado. Na mente, pensamentos cruéis, homicidas. Mataria aquele homem. Mataria sem dó nem piedade. O faria sentir dor a ponto de ele pedir para acabar com seu sofrimento de vez. Mil vezes ela, mas com sua filha não. Nem a pau!

- Samantha, me empresta seu telefone – Ellen pediu e foi Guto que a entregou o aparelho, porque a Lambertini mesmo só sabia chorar em desespero. Não tinha forças para nada.

Em alguns dígitos, Ellen encontrou o número de contato de Henrique na agenda e conseguiu entrar nas redes sociais dele como se fosse o dono do perfil. A última postagem havia sido há meses. Com base no endereço de e-mail cadastrado na conta, Ellen extraiu o histórico de buscas feitas no navegador e entre os últimos cliques estavam locação de automóvel e o site de uma companhia aérea. Mais burro que aquilo, impossível. Admirou-se foi de a polícia ainda não ter chegado nele.

- O que ‘cê tá fazendo, Ellen? – Tina quis saber ante o silêncio da amiga.

- Fazendo o óbvio, né Tina. Catando aquele filha da puta – e olha que Ellen nem era de proferir xingamentos. Aliás, das cinco, excetuando-se Benê, ela costumava ser das mais polidas. Acessou o site da última locadora de carros buscada por Henrique e entrou em contato com eles. Em uma ligação de meros dois minutos se passou por alguém interessada em alugar um veículo e tirou algumas dúvidas sobre o sistema de segurança e monitoramento por GPS deles.

E em mais alguns cliques, conseguiu acessar o sistema da start-up que fazia esse monitoramento de tráfego para a locadora e acessar o registro dos veículos. O problema: não havia nenhum Henrique Mondego entre os registros monitorados. Ele provavelmente locara o carro usando uma identidade falsa.

- Merda! – Ellen externou seu descontentamento. Tanto trabalho para nada? Para ficarem ali parados.

- Você está jogando corrida, Ellen? – Benê, que espiava por sobre o ombro da amiga, inquiriu.

- Corrida, Benê? – a programadora franziu o cenho.

- Sim. Esses carros se movendo não são um joguinho?

- Não, são veículos de locadoras monitorados por GPS. Tipo aqueles mapinhas de carro de aplicativo.

- Curioso – Benê seguia em suas observações enquanto Gabriel e Samantha relatavam o ocorrido no viva-voz da ligação com a delegada Giovanna – Parece que este carro aqui está apostando corrida com alguém. Está se movendo muito rápido e perto de uma escola, o que é errado.

Ellen seguiu o indicador da amiga. E o veículo para o qual ela apontava tinha claramente passado pelo Grupo na rota e seguia em direção ao....

- O Henrique está em um Civic se movendo em direção à saída pra Guarulhos. Te mandei a placa por mensagem, Lica – Ellen anunciou.

E sem nem pensar duas vezes, Lica correu até o próprio carro com Samantha em seu encalço. Ali sim ela estava disposta a fazer o trabalho da polícia sem nem pestanejar. Era com sua filha que estavam mexendo, e já dizem os sábios: quando é com a cria da gente, a gente passa por cima com um trator.


Notas Finais


Eu não tenho muito o que dizer deste capítulo, porque eu gosto de ver é o circo pegando fogo. Começa fofo e termina uma merda. Prazer kkkkk.
Parabéns pra Ellen e o conhecimento dela pra conseguir fazer em segundos o que a polícia não faz. E parabéns mais ainda pra Benê que pelo visto adora um joguinho de corrida e entende das leis de trânsito.
Agora às amenidades: Samantha cantando Top Top é minha religião, gente. Tem nem como. E ela trucidando o Henrique se achar ele (tomara que ache mesmo a tempo) vai ser lindo de ver também. Samantha segura e Lica bate. Esperemos.
E, óbvio, o demorou mais finalmente rolou mais aguardando desta fic. Sim, porque Licarina pelo visto roubou a história. Marina chamando a Lica de mãe foi a gente que pediu sim. E foi tão sutil que a pobre da Heloísa acha que alucinou kkkkkk. Enfim, esperemos o desenrolar.
No mais, me identifiquei com a Tina: eu também roubaria o acarajé da minha amiga.
E bom, teorias? Eu diria que agora sim Mil Acasos entrou no final de fato. Já está bom, né? 48 capítulos é muita coisa. E a fic vai fazer um ano em setembro. Tá ótimo já rsrsrs.
Mas o que vocês acham que vem aí?

No mais, obrigada pela leitura e nos vemos no próximo capítulo!


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