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História Mil Acasos - Capítulo 49


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, minha gente! Tudo bom com vocês?
Bom, não vou me alongar por aqui, porque hoje o capítulo, eu diria que ele está bem movimentado, então vamos direto para ele.
E sobre o que vocês vão ler aqui hoje: rapidez e agilidade.

Boa leitura!

Capítulo 49 - Fim da linha


- Papai, pra onde a gente está indo? – Marina se esticou toda para dar uma olhadinha pela janela do carro, vendo a cidade passar veloz por ela – A minha feirinha ainda não acabou.

- A gente vai dar uma volta, filha – Henrique respondeu lá de onde estava, no banco do motorista, os olhos concentrados no trânsito e não só nele. Precisava ficar atento a qualquer movimentação estranha – Eu estava morrendo de saudade de você, meu amor. Você não estava com saudades de mim?

- Estava. Mas a mamãe disse que você estava de castigo. Você já terminou o castigo?

Henrique suspirou e apertou a direção. Não precisava ser nenhum gênio pra entender o que Samantha havia dito à menina. E sinceramente, ele não sabia se era bom ou ruim: bom o fato de ela ter amenizado a situação. Ruim o fato de que ela expusera a situação.

- Já sim, filha. Está tudo bem – o advogado mentiu e acelerou. Mas Marina, ela tinha assunto. E como tinha.

- Você me viu cantando na feirinha? Eu cantei com a mamãe a música da mamãe Lica.

Henrique frenou duma vez, o que quase causou um engavetamento. Os carros atrás buzinaram alto e Marina mesma só não foi para frente, porque estava presa pelo cinco na cadeirinha. “Mamãe”? Sua filha chamara aquela mulher de “mamãe?”

- Ela não é sua mãe – foi tudo que disse e apertou mais a direção, afundando mais o pé no acelerador, fazendo o carro cantar pneu no asfalto pelo arranque – Sua mãe é a Samantha. Não existem duas mãe.

- A mamãe disse que existe sim. E que não tem problema eu chamar a mamãe Lica de mamãe. Ela é legal. Ela me ensina a desenhar e é ela que cuida de mim. Que nem a mamãe.

- Chega, Marina! – Henrique quase gritou, fazendo a menina se calar e se encolher. Henrique aproveitou um sinal vermelho para se virar para ela – Não existe isso de mãe. A Heloísa não é sua mãe nem nunca vai ser! A sua mãe é a Samantha e eu sou seu pai, eu! – e quase fuzilou a menina com os olhos. Marina abriu a boquinha umas três vezes na tentativa de dizer alguma coisa, mas não conseguiu, então se calou e arriou os ombrinhos.

- Eu gosto dela.

- Não tem que gostar! – Henrique estava implacável – Aquela mulher é uma maluca, não merece sua confiança nem nada que venha de você.

- Ela é legal, papai. A mamãe Li...

- ELA NÃO É SUA MÃE, MARINA! – Henrique berrou, fazendo Marina soluçar. Diabos! Era só o que faltava. Respirando fundo, ele se virou para ela – Ninguém tem duas mães. Família é mãe, pai e os filhos. Eu, você e sua mãe. Ponto.

- Mas a mamãe disse que pode – Marina entoou um tanto chorosa.

- Mas não pode.

Marina se encolheu mais e deixou sair uma lágrima teimosa.

- Pra onde a gente está indo? Eu quero ficar com a mamãe.

- Ela vai encontrar a gente lá – mentiu de novo o advogado, acelerando mais o carro – E tira essa história de chamar a Heloísa de mãe da cabeça. Ela não é sua mãe e nem nunca vai ser. Você tem mãe e pai, isso que importa.

- Mas você nem mora mais com a gente.

Henrique suspirou e apertou mais a direção.

- Eu vou resolver isso.

Só que se dependesse de um certo grupo de pessoas do outro lado da cidade, não resolveria não. Lica nunca tinha dirigido tão rápido na vida. Era um pé fundo no acelerador, os olhos fixos no caminho à frente e as mãos segurando a direção com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Samantha, ao seu lado, ia guiando o caminho com o celular em mãos checando o GPS como se daquilo dependesse sua vida. E talvez dependesse mesmo. Gabriel ia no banco de trás falando com a delegada, enquanto Samantha, com o próprio aparelho no viva-voz, mantinha contato com Ellen que seguia no carro de trás com Tina na direção e Keyla e Benê no banco de traseiro.

Em outro veículo logo atrás delas, MB dirigia com Guto, Anderson, Clara e Juca. A loirinha berrando aos quatro cantos mandando ele acelerar, enquanto Guto pedia calma, dizendo que aumentar a velocidade aumentaria, também, os riscos de um acidente. Em um cruzamento, ouviram sirenes e três viaturas da polícia se juntarem ao grupo. No telefone Gabriel repassando as informações de placa, modelo e cor do carro para Giovanna.

- Heloísa, reduz que nós vamos assumir – a mulher pediu passagem, a voz dela soando pelo celular de Gabriel.

- Aqui não – Lica foi firme.

- Heloísa, isto é uma ordem, não um pedido. Reduz que nós vamos assumir a dianteira.

- Eu não vou reduzir merda nenhuma, tem um louco com a minha filha levando ela só Deus sabe pra onde, então não me manda parar! – Lica quase gritou.

- Samantha, por favor, conv....

- Não – a Lambertini foi firme – A gente não vai sair da frente.

A delegada suspirou e mandou seu agente cercar pelo outro lado, fazendo uma formação. Lica e Samantha à frente com Tina, Ellen, Keyla e Benê logo atrás, seguidas de Guto, MB, Anderson, Clara e Juca. Os três carros cercados pelas viaturas. E quando as sirenes soaram mais alto e mais claras, foi que caiu a ficha. Estavam no meio de uma perseguição policial e as chances daquilo não terminar bem, elas eram enormes. E se Henrique estivesse armado? E se ele tentasse alguma coisa com Marina?

Samantha começou a chorar quase em desespero e abandono no banco do motorista, debruçando-se sobre a janela. Se alguma coisa acontecesse com sua filha, ela não saberia nem o que fazer de sua vida. Só tinha uma certeza: mataria Henrique com as próprias mãos e de resto..., realmente não sabia. Sentiu a mão de Lica procurando pela sua e entrelaçando os dedos firmes.

- Vai ficar tudo bem, Sammy. Eu prometo – Lica proferiu e levou a mão dela aos lábios em um beijo casto – Eu prometo.

Então apertou o pé no acelerador, fazendo o carro ganhar mais velocidade.

- A Polícia Federal em Guarulhos já está a postos, Samantha – a voz da delegada soou no viva-voz de Gabriel – De lá, o Henrique não sai. Nós vamos conseguir chegar na Marina e acabar com isso de uma vez por todas. Eu também prometo.

E foi em um cruzamento qualquer que Lica conseguiu avistar o carro com as descrições que Ellen havia dado. A pedido dela, Gabriel meteu a cabeça para fora pela janela para tentar ver a placa.

- Confere. É ele! – Gabriel avisou na deixa para Lica desviar da fila de carros que se formava à sua frente e tentar chegar nele pela direita. Com a delegada brigando pela manobra ousada, ela acelerou. A viatura foi pelo outro lado enquanto Tina acelerou para assumir a posição inicial de Heloísa e ficar logo atrás. Seguiam quase cercando o veículo de Henrique.

A sirene soou alta do lado esquerdo.

- Polícia, senhor Henrique Mondego, encoste o carro – a voz da delegada Giovanna deu a ordem de parada. Henrique, pego de sobressalto, socou a direção proferindo meio mundo de impropérios. Marina se encolheu. Nunca tinha visto o pai daquele jeito. Aliás, aquele homem sequer parecia com seu pai.

- Papai, estão falando com o senhor.

- Cala a boca, Marina! – ele quase gritou, fazendo-a se encolher. Então acelerou, desviando de um motoboy que seguia à sua frente e pegando uma pista livre pela direita. Lica acelerou com tudo que tinha.

- A gente vai morrer – Gabriel choramingou no banco de trás quando foi lançado de uma vez no encosto quando a Gutierrez pisou fundo no acelerador.

Tina foi atrás dela para dar cobertura.

- Acelera essa coisa, Tina, anda! – Keyla berrou.

- Tina, é contra as leis de trânsito andar a esta velocidade, mas neste caso, as leis não importam. Você pode ir mais rápido se quiser – Benê suplicou ao seu jeito.

- Vai, Samurai. Acelera! – Ellen entoou em coro. O resultado: Tina pisou fundo no acelerador, fazendo o carro cantar pneu no asfalto e se pôs quase lado a lado com Lica enquanto a viatura da delegada seguia pelo outro lado para se posicionar na frente de Henrique e obriga-lo a reduzir na marra. Se não fosse por bem, seria por mal.

- Ele não está parando, velho. Está é acelerando – MB constatou e mudou de pista meio sem aviso, quase batendo na lateral de um outro carro que vinha próximo.

- Cara, MB, cuidado! Quer matar a gente? – Guto se desesperou, respirando fundo.

- Eu quero é pegar aquele filhote de satanás e jogar num moedor, Gutinho. Ninguém mexe com nossa Lagostinha e fica por isso mesmo não. E pisou fundo.

- Eu te ajudo com o moedor, MB – Clara apoiou o amigo.

Foi no exato momento em que Lica conseguiu emparelhar o carro com Henrique. Um olho na lateral e outro na pista. Samantha quase se jogou em cima dela para tentar achar a filha, mas o fumê do carro que ele escolhera era poderoso.

- Mamãe Lica! – Marina gritou em êxtase do lado de dentro do carro – Papai, para, eu quero ir com elas.

- Ela não é sua mãe, Marina! – o homem quase berrou e meteu mais o pé no acelerador.

- Mas eu quero ir com ela e com a mamãe! – Marina gritou junto talvez entendendo o que estava acontecendo ali.

- Você é minha filha e vai pra onde eu for!

E em uma manobra arriscada, o advogado mudou de pista, atingindo a pontinha dianteira da viatura da polícia, que teve que reduzir um pouco para não perder o controle.

- Esse homem enlouqueceu – a delegada proferiu assustada – Anda, Avelar! Acompanha!

Mas Henrique ganhou alguma vantagem. Só que não por muito tempo. A delegada só teve tempo de ver o carro de Tina passar por ela com tudo, seguindo por onde ele havia seguido. Abriu caminho para Lica.

- Anda, Lica! Cola em mim! – pediu no viva-voz. MB, assumiu a pista direita e assim seguiram por uns bons minutos até entraram em uma rodovia. Henrique à frente, com Tina na direção do carro à esquerda, Lica atrás e MB à direita.

- Samurai, tenta encostar comigo! – MB falou no viva-voz do celular de Guto que estava em ligação com Benê.

- Isso não vai dar certo, Tina! Pode causar um acidente! – Keyla pediu em desespero – Ele está indo muito rápido.

E sim, a mãe de Tonico tinha razão. Mesmo cercado, Henrique não reduzia a velocidade. Na verdade o advogado via tudo vermelho. Era Lica de um lado e a polícia de outro, Marina chorando no banco de trás dizendo que queria ir com a mãe e mais à frente..., ah não! Relanceando, Henrique viu uma barreira policial formada alguns metros à diante. Sirenes bruxuleantes, os carros parados um ao lado do outro. Mas ao invés de reduzir, acelerou em direção a eles. Não iria ficar por ali, mas não mesmo.

- Papai, para! – Marina quase gritou. A delegada Giovanna, vendo que ele não reduziria, deu as ordens.

- Abre, abre! ABRE LOGO! – gritou no comunicador com as demais viaturas que compunham a barreira para que elas abrissem caminho, porque não, Henrique não pararia: ou sairia dali arrastando tudo na frente, ou destruiria tudo na frente e se destruiria junto. A ele e a quem estivesse perto. O que, no caso, era uma criança de cinco anos.

Apressadamente, as viaturas saíram para que ele pudesse passar sem maiores danos, mas MB e Tina seguiram junto com ele.

- Samurai, encosta comigo! – MB quase gritou.

- MB, isso não vai dar certo! – Guto implorou.

Mas Tina o fez. Levou o carro, fazendo menção de encostar a lateral dele no de Henrique. Do outro Lado, MB fez o mesmo e Lica ainda atrás, se aproximando. Do outro lado, saindo só Deus sabia de onde, a delegada Giovanna apareceu na viatura, passando por eles e se posicionando na frente, reduzindo a velocidade e obrigando Henrique a reduzir também. Sentiu o solavanco quando ele acelerou e bateu na lataria traseira.

- Teimoso esse cara, hein?

- Aperta, Tina, aperta! – MB pediu – Bora, Liquinha, esse saco de estrume agora para!

Lica encostou o parachoque do próprio carro no de Henrique, imprensando-o contra a viatura, com MB e Tina um de cada lado. Só que, mesmo assim, ele não reduzia. Mais à frente, outra barreira policial se formava. A delegada deu alguns comandos pelo rádio e se virou para Avelar.

- Vai reduzindo, ele não vai ter mais pra onde ir – deu as ordens e se virou para olhar para trás seu alvo com um brilho alucinado nos olhos, o que deixava transparecer a loucura interior. Henrique parecia completamente fora de si, um maluco. E o pior, um maluco com um carro na mão e uma criança no banco de trás.

Ele acelerou mais uma vez dando outro solavanco na viatura. Enquanto isso, MB e Tina seguiam “imprensando o carro” e Lica atrás para tentar fazê-lo parar. Até que o loirão e a Samurai não conseguiram mais seguir, por conta do entroncamento de um viaduto. Se MB fosse à diante, bateria de frente no concreto e Tina do mesmo jeito do outro lado.

- Tina, para! Para, ow! – MB gritou no viva-voz do celular de Guto para falar com ela. Tina frenou de uma vez bem em cima de bater de frente com uma barreira de ferro, MB fez o mesmo do outro lado. Mas Henrique seguiu, só que com a viatura da delegada à frente reduzindo a velocidade e obrigando-o a parar e com Lica atrás, acabou perdendo o controle da direção e foi direto na mureta de proteção lateral, colidindo com tudo com ela.

O barulho do metal do carro se partindo contra o concreto soou aos ouvidos de Samantha com a ferocidade de um campo minado em explosão. De longe, só conseguiu ouvir os ecos se formando em sua mente para voltar a si em um átimo e descer feito uma louca desesperada do carro em direção ao amontoado de placas de metal e alumínio retorcidas que tinha virado o automóvel de Henrique.

De Henrique com Marina.

- MARINA! – a empresária se jogou sobre o veículo para encontrar a filha chorando em completo desespero e abandono no banco de trás segura pela cadeirinha ligeiramente envergada.

- Mamãe! – Marinha se esgoelava, estendendo os bracinhos para a mãe.

- ALGUÉM TIRA ELA DAQUI PELO AMOR DE DEUS! – Samantha berrou, o trânsito começando a congestionar, barulho de sirene ao fundo e o carro soltando fumaça pelo capô e um cheiro horrível de óleo e gasolina e asfalto queimado.

Na mesma hora apareceram três agentes da polícia e Lica no encalço deles. Dois quebraram o vidro da porta retorcida, arrancando-o com tudo, enquanto Samantha se jogava para dentro do carro para tirar Marina da cadeirinha. Mas tremendo como estava, mal conseguia ter controle dos próprios gestos.

Lica foi que se jogou lá dentro ao lado dela, para ajudá-la. Com um puxão nada delicado, conseguiu desprender o objeto do banco e sacarem Marina. A menina chorava em puro desalento um choro desesperado e incontido, mas, ao menos agora, nos braços da mãe.

- Filha! – Samantha se agarrou a ela como quem fosse morrer se por acaso a soltasse. E talvez morresse mesmo – Filha, pelo amor de Deus! – e apertou Marina contra si tanto, mas tanto, que parecia querer coloca-la para dentro. A criança se agarrou a ela como uma tábua de salvação em meio a um oceano em fúria.

- Mamãe... – Marina ainda chorava copiosamente e assustada. Samantha a levou para longe daquilo tudo sendo guiada por braços que ela não sabia nem de quem eram – E-e-e-eu... – a menina não conseguia formar uma palavra sequer, o rostinho molhado em lágrimas e vermelho.

- Sshhh... está tudo bem, meu amor. Tudo bem – e deixou beijinhos na cabecinha da filha – Está tudo bem, eu estou aqui. Está tudo bem.

Os lábios de Marina estremeceram e ela se agarrou com força a Samanta, os dedos se dobrando com tudo no tecido da camisa dela. Enfiou o rostinho na curva do pescoço dela e foi só assim que conseguiu respirar fundo e começar a se acalmar. Mas ainda chorando. Samantha teve que cortar um dobrado para conseguir tranquilizar aquele corpinho.

Afastou-se sendo guiada por Lica. O susto do momento dando lugar à compreensão do que acontecia à volta. Sua noiva a levou até o carro de Tina, onde MB, Keyla, Ellen, Clara, Guto e Juca aguardavam. Benê havia corrido com Anderson até um posto ali perto onde comprou o que pareceu ser o estoque de água inteiro. Samantha se sentou no banco do passageiro com Marina nos braços ainda embalando-a.

- Tudo bem? – Lica quis se certificar, se agachando diante dela.

- Filha... – Samantha chamou. Marina ainda tinha o rostinho enfiado no pescoço dela, tentando se acalmar – Você está sentindo dor em algum lugar? Está machucada? Olha pra mim, por favor.

Marina balançou a cabecinha dizendo um “não tô dodói”, mas olhou para a mãe. Buscou o olhar de Samantha como que para finalmente se certificar de que sim, estava tudo bem afinal.

- O papai... – a menina sequer sabia o que dizer.

- Sshh... – Samantha voltou a lhe embalar – Agora não. Agora não – e a apertou contra si. Lica fazendo um carinho nas costas da menina, foi como ela percebeu que havia mais alguém ali.

Marina virou o rostinho para olhar para ela e, em um gesto espontâneo, buscou com a mão minúscula, a palma de Heloísa. Um gesto simples, singelo, mas de um significado absurdo. Lica teve que fungar e limpar o rosto quando o entendimento lhe atingiu. O coração veio ribombar feito um louco quase na garganta, os olhos se enchendo daquele brilho e vivacidade que só aquela menina ali era capaz de lidar. Ela e a mãe dela.

- Estou aqui, Mari. Eu estou aqui – Lica disse baixinho e levou a mãozinha dela até os próprios lábios em um beijo firme como quem dizia que estava mesmo e que não sairia de perto.

Mas não conseguiu cumprir a promessa por muito tempo. Ouviu movimentação atrás. O cheiro de gasolina ficando forte, o vai e vem de gente aumentando, e mais à frente, um Henrique desacordado com o rosto enfiado no airbag do carro, preso pelo cinto.

- Samantha... – buscou o olhar da noiva e ela entendeu o recado.

- Me dá ela, Samantha – Clara pediu, estendendo os braços para receber Marina. A menina relutou em ir, mas foi. Se agarrou à madrinha que se dirigiu até o carro de MB, mais afastado, a passos rápidos. Aquilo estava além do que um corpinho e uma mente de cinco anos pode aguentar. Vivo ou não, definitivamente não era uma cena que Marina precisava ver.

Clara se afastou o máximo que pôde com a afilhada nos braços sendo ajudada por Guto e Benê.

- O cheiro de gasolina está ficando forte – Keyla comentou.

- Eu preciso que vocês saiam de perto – um agente rodoviário se aproximou, afastando todo mundo – Temos um acidente com vítima inconsciente aqui e um veículo quase em ponto de combustão, por favor, se afastem

“Vítima ferida e veículo em ponto de combustão”. Lica só conseguiu processar aquilo.

- É o pai da minha filha – Samantha informou. E uma pessoa. Não valia nada, mas ainda era uma vida. Deixariam Henrique ali esperando o carro ser tomado pelas chamas? A filha dela estava a apenas alguns passos!

- Senhora, por favor – o homem insistiu.

- Deixa elas comigo – a delegada Giovanna se aproximou, respirando pesado – Ele está preso pelo cinto, não sabemos o que está ou não quebrado, mas os bombeiros já estão vindo pra fazer a retirada.

- Esse carro pode explodir! – Lica foi quem verbalizou – Pode explodir com uma pessoa dentro!

- Nós já sabemos e estamos tomando providências. A PRF está fazendo o resfriamento e o corte das ferragens pra facilitar o trabalho enquanto os bombeiros chegam, mas não podemos mexer na vítima enquanto... Heloísa!

Samantha só ouviu a delegada berrando aos quatro cantos quando Lica furou a barreira de policiais e correu até o carro, o cheiro forte de gasolina impregnando seus sentidos e ela inteira.

- Lica, sai daí! – Samantha berrou e fez menção de ir atrás, mas foi segura pela delegada – LICA!

- Não, seu filho da mãe, você não vai morrer assim, você não vai escapar desse jeito – ela proferia enquanto tentava desatar o cinto. Um policial se aproximou dela, a segurou pelo braços mandando-a sair de perto, mas ela se livrou fácil dele com um safanão fazendo cambalear e ir para o chão. Voltou a se agachar, agora tentando destravar a fivela do cinto, presa na lateral do banco – Você não vale nada, eu te odeio mais que tudo, mas por mais que você mereça... hum! – conseguiu soltar o cinto – Sua filha não merece te ver acabar assim.

- LICA SAI DAÍ! – Samantha voltou a berrar e tentou correr até ela quando a fumaça ano capô ficou mais alta, mas foi segura por mais braços – LICA, VAI EXPLODIR!

- Vocês são inúteis assim mesmo? TIREM ELA DE LÁ! – a delegada esbravejou para os policiais assistindo à cena atônitos. O cheiro de gasolina agora consumindo o ar inteiro. E de óleo também.

Lica tentou puxar Henrique, mas o pé dele ficou preso em alguma coisa lá embaixo.

- Até pra ser salvo, você é imprestável! – e colocou força para puxar de novo. O pé seguiu preso. Então sem pensar, Lica enfiou metade do corpo debaixo do banco para conseguiu livrar o advogado fosse do que fosse que o estivesse prendendo. Sentiu mãos em sua cintura, puxando-a, se virou de uma vez, deixando uma cotovelada na cara de alguém que ela nem sabia quem era. Voltou a mergulhar debaixo do banco – Vambora, seu merda! Eu não vou te dar esse gostinho! Por mais que você mereça, a Marina não merece ficar sem o pai assim!

E em um puxão mais forte, conseguiu arrancar parte do pedal já quebrado onde o pé de Henrique estava preso. Só sentiu o calor subindo por seu corpo e um grito de desespero vindo lá longe como um eco. Tirou o corpo de lá de baixo, puxando um Henrique desacordado de qualquer jeito para fora. O peso do corpo dele caiu com tudo sobre o dela e se arrastando pelo chão, Lica conseguiu leva-lo para longe o suficiente para apenas assistir ao carro ser consumido pelas chamas.

Assistir. Não ser consumida por elas junta.

- LICA! – distinguiu o berro anterior como sendo de Samantha. Empurrou um Henrique inconsciente no chão, fazendo-o cair com um baque surdo ao seu lado. Imediatamente mil e uma mãos surgiram ao se redor. Algumas verificando centímetro por centímetro do homem ao seu lado. Outras nela. Um mais forte, veio para cima dela em um pulo. Sentiu braços lhe rodeando.

- Você é maluca? Você enlouqueceu? – Samantha meio gritava, meio choramingava, conferindo cada centímetro dela.

Tiveram que ser retiradas dali pelos bombeiros que haviam chegado e tentavam controlar as chamas do carro. Ali no meio, um Henrique inconsciente era atendido pelo paramédicos. Sem nem pensar duas vezes, Lica correu até lá, levando Samantha consigo.

- Ele está vivo? – era só o que queria saber.

- Pulsação fraca, mas constante, aparentemente há ossos quebrados, mas vivo – uma paramédica a informou sem interromper seu trabalho de estabilizar o homem em cima de uma maca.

- Graças a Deus – Lica exalou o ar preso nos pulmões, avistando Tina, Ellen, Keyla e Benê se aproximarem correndo pelo outro lado. Mas ela mesma buscou foi a delegada Giovanna, que caminhava a passos firmes até elas – Pronto – e soltou o ar em um assobio – Agora você pode prender ele.

- Quem devia ser presa era você por agredir dois agentes federais e desobedecer as ordens de parada! – a mulher exclamou visivelmente possessa – A sua sorte é que uma vida foi salva e por sua causa. Mas na próxima vez que isso acontecer, eu dou voz de prisão é pra você!

- Não vai ter próxima vez, delegada – Lica seguia tentando compassar a respiração – Dessa vez, não vai ter mais.

Era uma constatação, mas também uma prece silenciosa. Lica se virou para Samantha, mas foi agarrada por braços. Braços raivosos e vozes alteradas visivelmente lhe chamando de tudo, menos de gente. Tina deu tapas, Ellen também. Keyla chacoalhou e Benê mandou “tomar vergonha na cara, porque ela não era super-heroína de quadrinhos”.

Broncas à parte, Lica sabia bem que elas só queriam um jeito de descarregar a emoção. Não as culpou. Mas tinha assuntos práticos para resolver naquele momento.

- Você está bem? – perguntou a Samantha, analisando cada centímetro do rosto dela.

- Estou. Você? – e a empresária se pôs a verificar cada centímetro dela.

- Inteira e todinha pra você – queria um beijo. Ganhou um murro de punho fechado no braço – Ai, Samantha!

- Eu devia te matar! – a Lambertini se pôs a ralhar – Você ficou maluca? Se enfiar num carro prestes a explodir pra...

- Salvar a vida daquele filho da mãe? – as duas se viraram para observar agora Henrique sendo levado numa maca para a ambulância – Nem nos meus sonhos mais malucos eu podia ter pensado nisso – Lica suspirou, abraçando Samantha, ainda contemplando a ambulância – É melhor a gente saber pra onde vão levar ele.

Suspirando, Samantha assentiu e se deixou guiar por Heloisa até a ambulância, onde a delegada Giovanna dava ordens. Ela se virou assim que as viu.

- Vocês podem seguir a gente – ela informou – Ele vai ficar internado, mas sob custódia até ter condições de prestar algum depoimento.

- E depois? – Samantha quis saber, embora já tivesse ideia da resposta.

- Bom, depois nós vamos cumprir o mandado de prisão e então ele vai ser levado pra uma unidade prisional. E acreditem, lá ele fica um bom tempo.

E era isso que vinha martelando na cabeça da empresária. Ok, oficialmente seu ex-marido e pai de sua filha seria preso. Merecia, certo? Fizera por onde e deveria pagar por cada passo errado que tinha dado. Mas isso não deixava de incomodar Samantha, afinal, ali era também o homem com quem tinha passado os últimos cinco anos casada, a quem dedicara os últimos tempos de sua vida e que lhe dera seu maior bem. Não tinha como ser fria diante daquilo.

- Ei... tudo bem? – Lica quis saber, chamando-a de volta à tona. Samantha suspirou e assentiu – Certeza? – sua noiva quis se certificar. A empresária balançou a cabeça afirmativamente, mas ou externava, ou externava.

- Preocupada em como vai ser agora – deixou sair – Com relação à Marina, principalmente.

Lica respirou fundo e segurou o rosto de Samantha com as mãos, fazendo-a olhar para ela.

- Vai ser como tem que ser, Sammy – e deu de ombros – A gente vai conversar com a Marina e explicar tudo direitinho. O pai dela tentou tirá-la de você, colocou a vida dela em risco, quase se matou tentando fugir... ela não pode e nem vai ficar alheia a isso. E a gente vai explicar tudo pra ela como tem que ser explicado. E mostrar que apesar de tudo, a gente está ali e que ela vai ter..., bom, ela vai ter...

- Duas mães incríveis pra dar conta de reparar o dano que um cara sem escrúpulos e mal caráter fez? – Samantha se viu sorrindo, tomada pela coragem e a força que as palavras de Lica lhe transmitiram – Topo.

- Eu, você... dois filhos e uma gata? – Lica cantarolou. Nem viu a delegada ali do lado revirando os olhos e sorrindo.

- Não eram quatro? – Samantha provocou e a envolveu pelos ombros com os braços.

- Você disse que pararia no próximo – Heloísa lembrou – Ou mudou de ideia? Se tiver mudado, eu aceito.

- Vocês podem planejar a árvore genealógica de vocês mais tarde? – a delegada teve que interromper, por mais que o momento fosse... fofo – Me sigam.

Lica e Samantha assentiram e seguiram em direção ao carro da artista, encontrando com Clara e os demais por ali. Marina agora estava adormecida nos braços de Keyla que a embalava gentilmente com aquele tato que só quem já tinha colocado filho no mundo parecia ter. Marina ergueu os olhinhos cansados e sonolentos para buscar Samantha e estendeu os braços para ela quando a viu.

Automaticamente, a empresária se esticou para pegá-la. Marina tinha um arranhãozinho no braço direito e na bochechinha. Nas pernas, uma raladura no joelho e na altura da canela. E quando viu os machucados, o momento anterior de vislumbre de compaixão por Henrique se esvaiu na mesma hora. Aquele filho da mãe merecia tudo de ruim que acontecesse na vida dele a partir daquele momento.

- Doendo muito, filha?

Marina negou com a cabeça e se aconchegou a ela.

- Mamãe, cadê o papai?

Samantha suspirou e a apertou mais contra si.

- Seu pai ficou um pouco mais machucado que você e precisou ir pro hospital. Nós estamos indo pra lá e a senhorita vai também, porque precisam te olhar.

- Mas eu não estou dodói – Marina rebateu.

- Mas vai do mesmo jeito, eu não vou me aquietar até te revirarem do avesso e me garantirem que está tudo em ordem com você. Bora?

- Tá bom – Marina assentiu e voltou a deitar a cabecinha no ombro de Samantha.

- A gente vai pro hospital também, Lica – Ellen anunciou – E nem adianta dizer que não, porque ninguém aqui vai ouvir. Vai indo na frente que a gente te segue.

Lica realmente quis muito encontrar as palavras certas para poder agradecer as amigas como elas mereciam, mas há momentos em que nem o mais amplo vocabulário existente dá conta do que a gente leva dentro. Em resposta, sorriu agradecida e assentiu brevemente com a cabeça antes de rumar para seu próprio carro onde Samantha já acomodava Marina.

(...)

Samantha nunca gostou muito de hospitais. Quando era pequena, sempre que precisava fazer visitas ao médico, enrolava como podia e até onde podia na tentativa de fazer Laura desistir. E como a mãe era sempre quem dava a última palavra, as birras dela nunca davam em nada. Resultado: a maior parte, se não todas as experiências dela em salas de espera e consultórios médicos, eram emburrada.

Chegou ao ponto de um dia levar uma chamada de atenção da mãe pela “falta de educação”. O médico que lhe cumprimentou com um “Oi, Samantha, tudo bom?”  e a Samanthinha de oito anos de idade, óculos no rosto e trancinhas no cabelo devolveu com um “Não está não, se estivesse, eu não teria vindo. Estou com dor no estômago, o senhor tem um remédio pra parar ou eu já posso ir embora?”.

Não a julguem. Quem é que pergunta a um paciente em um consultório médico se está tudo bem? Tem horas que a polidez e educação do ser humano não fazem sentido nenhum. E depois daquele episódio, as lembranças de hospitais não se tornaram das melhores não. Aliás, como poderiam? Com dez anos, perdeu o avô para uma meningite e foi no corredor do hospital que recebeu a notícia. Com quinze anos, sua mãe precisou ser internada depois que um maluco bateu no carro dela no sinal. Quase morou naquelas cadeiras esperando que Laura fosse finalmente liberada. Com dezessete anos, viu Anderson ficar entre a vida e a morte em um acidente de moto horrível. Bom, nem tão acidente assim: o rapaz só fora parar lá por causa dos malfeitos da mãe de Tina. E naquela época, ela tinha se envolvido com Anderson, o que justificava o apego e o desespero.

Aos vinte e cinco anos, duas vezes hospital em intervalos de tempo curtíssimos. Primeiro, com Clara. Segundo, com Lica. Beirou o desespero, então não. Hospitais decididamente não eram seu lugar preferido no mundo. Na verdade, passava longe disso. Ainda bem que Marina não era muito adepta de unidades médicas: eram pouquíssimas as vezes em que Samantha precisava levar a filha para atendimento especializado. E a menina... bom, assim como a mãe, ela parecia correr de hospitais. Exceto quando no hospital tinha uma tal de Heloísa por perto. Quando Lica estava como paciente, Marina não queria arredar pé. E ali, como acompanhante dela... Samantha se sentiu traída.

Lica segurava Marina na horizontal, a menina de bracinhos abertos, como quem voava pelos corredores. Fazendo um “vruuuu” com a boca, a Gutierrez fazia da criança um bimotor perfeito. E ele só “pousou” quando chegaram à porta da pediatra de Marina.

Com ela sentadinha na maca, a mulher a revirou pelo avesso. Ainda tiveram que fazer um tour pelas salas de exame onde Marina passou por uma tomografia e um raio-x para se certificarem de que estava tudo certinho em seu devido lugar dentro dela. Não demorou muito para MB, as meninas junto com Clara, Guto, Anderson e Juca se juntarem a elas. Laura chegou quase ameaçando de morte quem se metesse entre sua neta e ela. Faltou sacudir Samantha para ter certeza de que Marina estava de fato bem enquanto Miguel gritava com um enfermeiro pedindo que ele lhe desse notícias de sua neta. A menina estava na sala de curativos “sendo remendada”, como Lica havia dito a ela por brincadeira. E por falar em Lica, enquanto Samantha resolvia a burocracia do atendimento, foi a Gutierrez que ficou ali acompanhando Marina. Segurando firme a mãozinha dela, tentava puxar assunto para mantê-la distraída dos medicamento ardendo em sua pele.

Quando retornou para a sala de curativos vendo a filha rodeada de gente, foi que Samantha resolveu ir fazer o que já tinha planejado. Correu atrás do balcão de informações perguntando por Henrique e recebeu a indicação de que ele estava sendo tratado em uma unidade de terapia semi-intensiva e que seria transferido para a sala de recuperação em algumas horas. Aguardaria. Depois que ele saísse dali, talvez não tivesse mais outra oportunidade. Na verdade, teria sim, só não sabia se ainda suportaria a pauta nem a pessoa Henrique Mondego em sua vida depois daquele dia.

Retornou para a sala de curativos onde encontrou a filha ainda sendo paparicada pelos avós, por Clara e por Lica. Mas bastou se anunciar para se tornar o centro das atenções.

- Mamãe! – Marina estendeu os bracinhos com os curativos e aquilo doeu em Samantha na mesma proporção em que seu ódio por Henrique crescia.

- Ei, filhota – suspirando, se sentou ao lado dela na maca, trazendo-a para si – Tudo bem? Se sentindo melhor?

- Eu estou – Marina se agarrou a ela – A gente pode ir embora?

Samantha riu fraquinho.

- Calma, tá? A gente ainda vai receber o resultado dos seus exames. Só podemos ir embora depois disso.

- Mas eu não estou mais dodói. Já sarou – e mostrou os curativozinhos pelo corpo.

- Eu sei que sim, mas só pra garantir, hum?

Quando a médica retornou, tudo em ordem, enfim. Marina estava bem por dentro e por fora e dessa vez com os exames atestando isso. E a menina nem pensou duas vezes antes de se jogar nos braços de Samantha e entoar um “a gente pode ir embora agora, mamãe?”. Podiam sim, finalmente. Só que ela, Lambertini, ainda um assunto para resolver.

- Filha, olha aqui pra mamãe – pediu com toda a calma e paciência do mundo. Marina lhe mirou com aquele olhar amendoado que estava vez mais parecido com o dela mesma – Seu pai está aqui também. Dodói nesse hospital – a menina balançou a cabecinha – Você quer vê-lo?

Marina franziu o cenho, colocou uma carinha pensativa e fez um biquinho.

- Eu posso?

- Claro que pode. Quer dizer, se os médicos deixarem, sim.

- Você deixa, mamãe?

Samantha suspirou e ajeitou a roupinha dela. Teria que deixar, ou pai e filha não teriam outra oportunidade. Henrique iria dali direto para um presídio e num lugar daqueles, ela não colocaria sua filha. Não permitiria a ela assistir ao pai enjaulado como se fosse um animal. Por mais que Henrique o fosse mesmo, era Marina que não merecia passar por aquilo. Não tão cedo. Tudo ao seu tempo.

- Ele é seu pai, filha. É claro que eu deixo. Se você quiser vê-lo, tem minha permissão. Você quer vê-lo? – perguntou de novo.

- Sim – Marina acenou afirmativamente. Samantha suspirou e se levantou para falar com Lica. Uma Heloísa parada ali do lado de mãos nos bolsos da calça observando aquela cena atentamente.

- Eu vou levar ela lá – explicou para a noiva. Lica se limitou a assentir e perscrutar o rosto de Samantha com os olhos.

- Quer que eu vá com você? – quis a permissão dela. Sabia do que se tratava ali, então não iria se meter se não tivesse autorização para isso. Samantha respondeu afirmativamente com um balançar de cabeça e, juntas, seguiram em direção à ala na qual ela fora informada de que Henrique estaria.

Não deu em outra. Foi fácil achar o apartamento onde ele estava. Havia dois policiais no corredor vigiando o perímetro. Se apresentou e, para sua surpresa, sua entrada já havia sido autorizada de antemão pela delegada Giovanna. Passou pela porta com Marina do lado segurando sua mão. Entrou só para encontrar um Henrique estirado na cama, a cabeça com um corte profundo em um curativo enorme, arranhões pelos braços e pelo colo por conta dos estilhaços do vidro do carro, um hematoma feio no lado direito do rosto e os olhos... estes completamente vazios de vida e expressão.

Se questionou ali se fez bem em ter permitido que Marina fosse até lá.

- Oi, papai – e foi a menina quem assumiu a dianteira. Henrique abriu os olhos lentamente para encontrar mãe e filha paradas em riste ao lado da cama. Lica havia ficado lá no corredor – Você está dodói.

Henrique quis rir, mas sentia que se movesse muito de sua face, provavelmente seria acometido por uma dor excruciante, então fez o que pôde para mostrar à filha que estava contente em vê-la ali.

- Bem dodói – ele soltou um esgar – Você... você se machucou muito?

- Meu bracinho e minha perninha – ela mostrou os curativos – Você estava muito rápido.

E se tem um sentimento que mata o ser humano de dentro para fora com a delicadeza de mil navalhas cortando na pele, ele se chama culpa. Henrique sentiu-a em cada centímetro de si, em cada poro. Engoliu com dificuldade.

- Desculpa – foi tudo que conseguiu proferir – Me desculpa, filha, eu não... – e uma lágrima teimosa lhe escapou os olhos. Ardeu quando tocou em cima da parte machucada de seu rosto. Um choro, ele não deveria doer. Mas até nisso nele parecia ser defeituoso – Eu não queria... eu... eu sinto muito – respirou com dificuldade – Você não merecia o que eu fiz. Você não merece nada de ruim nesse mundo. Você, Marina, é o melhor ser humano que existe. E que bom que você é. Me perdoa, filha.

- Tudo bem. A mamãe Sammy e a mamãe Lica salvaram a gente, não foi, mamãe? – e se virou para Samantha, pedindo uma confirmação – Eu só machuquei o bracinho.

Henrique virou o rosto para o outro lado, incapaz de encarar Marina. Samantha viu o peito dele soluçando. A menina pareceu entender que tinha alguma coisa de muito errada ali, porque soltou a mão da Lambertini e subiu na escadinha do lado da maca, se esticando toda para deitar a cabecinha no peito do pai. Pego de surpresa, Henrique congelou. Ergueu o braço involuntariamente para tocar os cabelos da filha, mas estacou quando encontrou Samantha lhe mirando. Com um breve acenar de cabeça, ela permitiu que ele fosse à diante. Delicadamente, Henrique fez um carinho nos cabelinho de Marina.

- A mamãe disse que você vai ficar de castigo agora. Quando você terminar, a gente pode ir comer hambúrguer com milk-shake e brincar de brinquedo no shopping. Eu, você, a mamãe Samantha e a mamãe Lica.

A inocência de uma criança, ela deveria permanecer intocada independentemente de idade. Parece que crescer endurece a gente. Uma pena, porque o mundo, ele realmente não precisa de mais dureza.

- A gente vai, filha. Eu prometo – Henrique chorava sim e era sem pudor nenhum, aproveitando o toque sutil da filha sobre si. Marina ficou deitada com a cabecinha sobre o peito dele pelo que pareceu uma eternidade até que se afastou dizendo um “tchau, papai” e voltou para o lado da mãe. Samantha a guiou porta a fora para entregar a filha para uma Heloísa pacientemente aguardando no corredor, mexendo ao celular. Mas com um olhar para a noiva, retornou para o quarto. Ainda precisava resolver umas coisas.

O silêncio que se instalou ali entre ela e Henrique pareceu se sustentar por uma eternidade.

- Ficou para tripudiar? Eu não preciso disso – ele proferiu primeiro e virou o rosto, cansado.

- Nem eu – Samantha foi firme. Era a vez dela agora – Eu só queria te perguntar uma coisa: valeu à pena? – não obteve resposta, então insistiu – Se juntar com gente da pior laia, acobertar os podres do seu pai, seguir pelo mesmo caminho dele, roubar, matar...? Valeu à pena, Henrique?

Ele permaneceu em silêncio, o que deu a deixa dela.

- Valeu à pena terminar sozinho e acabado desse jeito? – e Samantha foi sem dó nem piedade – A despeito da Marina, a minha vontade é de te matar. Você colocou a vida dela em risco! Você com essa sua loucura podia ter matado a nossa filha! Me diz, você pensou nisso quando colocou ela dentro daquele carro e saiu dirigindo feito um maluco desgovernado? Você pensou nela quando tentou leva-la pra longe de mim? – deu um segundo, mas a resposta não veio – É óbvio que não, né? Você só pensa em si mesmo. É tão egoísta a ponto de não enxergar um palmo na frente do nariz, nem quando a pessoa é a sua própria filha! Ficar todo arrebentado e mofar numa cadeia é o mínimo!

- E eu imagino sua felicidade com isso – Henrique cuspiu, agora se atrevendo a mirá-la. Samantha riu sem humor algum e negou a coma cabeça.

- Eu não sou como você, Henrique, que parece gostar de ver o sofrimento alheio. Não tenho esse sadismo – proferiu com intensidade – Na real, a única coisa que eu sinto te vendo aqui agora é pena. Pena do que você se tornou. Pena dessa... coisa que você é, que nem a própria filha conseguiu poupar. Você, Henrique, só é digno de pena.

O silêncio que se instalou ali foi ensurdecedor. O advogado se limitou a mirar a empresária completamente impassível e então virou o rosto só e somente só por não conseguir mais reunir forças em se ver julgado por ela. Pela mulher que amava. Sim, porque no fundo amava Samantha. Se esse sentimento tinha se perdido no meio do caminho... bom, ele esperava mesmo que não.

Mas Samantha ainda não tinha terminado. Não mesmo.

- Não espera que eu leve a Marina pra te ver no inferno onde você vai ficar. Eu não quero expor minha filha a um ambiente insalubre daquele, ao menos não por enquanto. Ela não merece te ver enjaulado. Vou conversar com o Gabriel pra ver como a gente vai fazer e garantir que vocês não percam contato de vez. Porque, independentemente do que você fez, ainda é o pai e a lei te garante direitos. E bom... – ela que não perderia aquela oportunidade – Se você não está acostumado a cumprir as leis, eu estou.

Henrique assentiu com a cabeça em um claro pedido para que ela encerrasse com aquilo. Samantha achou por bem fazê-lo, ou acabaria sendo presa por acabar com a vida de um moribundo. Sim, porque era isso que Henrique havia se tornado e o que materializava naquela cama de hospital: um ser completamente despido e valor e dignidade. Com um “boa sorte, meus advogados vão te procurar”, ela se virou para sair, mas antes mesmo que pudesse alcançar a maçaneta da porta, a voz de Henrique a parou.

- A Heloísa está aí? – Samantha congelou e se virou para ele visivelmente intrigada – Eu queria falar com ela.

Ela devia ter esperado por aquilo, claro. Deviam ter contado a Henrique como ele havia saído do carro em chamas. Como conseguira sobreviver, afinal. Suspirando e assentindo, Samantha abriu a porta para encontrar Lica tagarelando com Marina no corredor. Assim que o olhar da Gutierrez encontrou com o dela, ela se levantou.

- Ei... tudo bem? – quis se certificar de que aquele homem lá dentro não tinha feito nada à sua noiva.

- Tudo – Samantha exalou pesado – Ele quer falar com você.

- Comigo? – Lica se assustou e sua noiva afirmou com um acenar de cabeça. A Gutierrez abriu e fechou a boca umas duas vezes antes de se virar para Marina – Mari, fica com sua mãe um minutinho, eu já volto – e fazendo um carinho nos cachinhos da menina, se apressou até o quarto de Henrique, passando pelos policiais. E teve que admitir: se assustou ao ver o homenzarrão que o advogado era, completamente acuado e indefeso todo arrebentado naquela cama de hospital. Ele mirava o teto tão contemplativo, que Lica teve que falar para poder se anunciar – A Samantha disse que você queria me ver.

- Queria sim – ele falou em um tom impassível e inexpressivo – Eu queria agradecer por você ter salvado minha vida. Me contaram que foi você que... que me tirou do carro antes que ele explodisse.

Lica foi pega de surpresa com a sentença. Esperava qualquer coisa: que o advogado viesse com piadinhas, com ofensas, que caísse atirando... mas um agradecimento? Sinceramente, ela nem sabia se a gratidão de Henrique valia alguma coisa.

- Eu não fiz isso por você, você sabe – Lica anuiu depois de uns segundos de silêncio, processando aquilo – Fiz porque eu quero que você pague consciente por tudo que fez pra gente... pra mim, pra Sammy e pra Marina. Principalmente pra elas duas. Te salvar foi o de menos. Eu só estava garantindo que você sentisse a culpa e o remorso por todo o mal que causou – Lica engoliu em seco – E a Marina não merecia que o pai dela se acabasse daquele jeito.

- Eu não mereço a filha que tenho – Henrique externou, voltando a mirar o teto.

- Não mesmo – Lica foi cruel – Ela é totalmente o oposto de você. Aliás, que bom que ela é – suspirou e exalou pesado – Sabe, Henrique.... eu cresci em um ambiente familiar todo lascado e o meu maior medo no meio disso tudo era descobrir que eu era na verdade uma cópia melhorada do meu pai ou tão ruim quanto ele era. Eu passei a vida inteira tentando não ser como o Edgar, lutando pra não cometer os mesmos erros que ele... eu sei bem como é ser filha de um cara que não vale nada... ou ao menos, que não valia. E acredite, eu não quero isso pra Marina. E eu vou fazer questão de dizer e mostrar pra ela todo santo dia que ela é bem diferente do pai que tem. Que ela é melhor que ele. Que ela é mais.

- Se ela for como você, já vale – Henrique externou do nada. Lica levou um susto que quase caiu para trás.

- Oi? – perguntou.

- Eu fodi com a sua vida e você me salvou – Henrique suspirou, parecendo cansado e buscou o olhar de Lica – Eu quero que a Marina seja a pessoa que salva também – e diante do silêncio que se instalou – Ela é completamente diferente de mim e não merece alguém como eu na vida dela. Eu só ia acabar com tudo e não quero isso pra minha filha. Cuida dela pra mim. Cuida dela e da Samantha como eu... – Henrique não completou a frase, virou o rosto para o lado e lá mesmo ficou.

Lica se viu atônita e sem saber o que fazer. Retorceu os dedos da mão, abriu a boca, mas não emitiu som nenhum, até que o advogado voltou a mirá-la. Não careciam de mais nada a ser dito não. Heloísa assentiu com um breve acenar de cabeça e se retirou para encontrar Samantha fazendo um trancinha nos cabelos da filha do lado de fora.

- Tudo certo? – a empresária quis saber, levantando-se com Marina e indo até ela.

- Tudo, tudo sim – Lica respondeu com um sorrisinho e plantou um beijo suave nos lábios da noiva – A gente pode ir? Você quer que a Marina ainda... – e apontou meio sem jeito para a porta.

- Um-hum. A gente pode ir pra casa – Samantha suspirou – O dia hoje foi um inferno e eu só quero um bom banho e cama.

- Certo. Eu vou só falar rapidinho com as meninas. Elas só iam embora quando estivesse tudo ok.

- Claro, eu vou com você – Samantha acenou e entrelaçou os dedos firmes nos de Lica, deixando-se conduzir por ela com Marina ali do lado. O problema era que a menina tinha ficado ligeiramente silenciosa. E esse silêncio, ele permaneceu quando chegaram em casa e enquanto a menina tomava banho. Lica foi preparar alguma coisa para o jantar enquanto Samantha fiscalizava a higiene da filha e a preparava para dormir.

Se reuniram de novo à mesa enquanto comiam. Lica e Samantha conversando sobre tudo e sobre nada, e Marina mais uma vez caladinha. E aprendam: silêncio e Marina Lambertini eram duas coisas que definitivamente não combinavam.

 - Filha? – Samantha chamou, buscando a mãozinha dela. Na outra, a colherinha, brincando com a comida – Não está com fome?

Marina acenou afirmativamente e levou mais uma colheradinha de arroz à boca. Samantha trocou um olhar com Heloísa antes de insistir novamente.

- Marina? – a menina levantou o olhar para ela. Havia uma sombra sobre ele – Filha, conversa com a gente. Daqui eu estou vendo que você não está com apetite e caladinha demais pro meu gosto.

Marina suspirou e arriou os ombrinhos. Mirou de Samantha para Lica e de volta para a mãe.

- O papai disse que eu não posso chamar a mamãe Lica de mamãe e que não existe duas mães. É verdade?

Samantha suspirou e descansou os talheres, Lica repetiu o movimento e sua vontade foi voltar no hospital e presentear Henrique com mais outro hematoma no rosto, desta vez do lado esquerdo. Maior um pouco, talvez. Será que mesmo longe, aquele homem não daria paz?

- Não é – Samantha foi firme encarando a filha – O que for que o seu pai te disse hoje, não é pra você dar importância, porque não é verdade.

- Ele disse que família é a mamãe, o papai....

- Marina, família é quem a gente ama. Quem a gente tem por perto nos momentos bons, nos momentos ruins. É quem cuida da gente, quem cria, quem dá carinho e quem protege. Não necessariamente quem colocou no mundo – Samantha explicou bem explicadinho. Buscou o olhar de Heloísa – Quando você me perguntou aquele dia se podia chamar a Lica de mãe porque ela iria se casar comigo e ser mãe do seu irmãozinho, o que foi que eu respondi?

- Que eu podia chamar sim, porque ela também era minha família e que me amava que nem você me ama – Marina repetiu com a voz fraquinha. Aquilo condoeu Lica na mesma medida em que fez seu coração disparar feito um louco no peito.

- E você, hum? Lembra o que você tinha me dito? Que...

- Que eu gosto da tia Lica que nem eu gosto de você.

- Se você gosta da Lica, se você a ama como mãe, qual o problema de chama-la assim? Qual o problema dela ser sua mãe também? – Samantha perguntou e Marina se virou para Heloísa ainda calada, completamente muda. Nem se atreveria a entrar naquela discussão.

- Mamãe Lica, você quer ser minha mamãe também? – a menina questionou um tanto receosa. Bom, a reação de Lica foi a mais óbvia: abriu o maior sorriso que alguém é capaz de abrir na vida. Nem tinha que pensar muito.

- Você ainda tem alguma dúvida? – e se levantou da mesa, indo se ajoelhar ao lado de Marina, virando a cadeira dela para si – É claro que eu aceito ser sua mãe também, meu amor. É tudo que eu mais quero no mundo! Você quer mesmo...?

- Sim – Marina respondeu com um sorrisão – A mamãe disse que eu posso, então eu quero. Você pode ser minha mamãe também, tia Lica.

Até ela pegar no jeito....

Samantha soou um pigarro e bebeu um gole do suco, arqueando uma sobrancelha e dando uma piscadela para Lica antes de soltar despretensiosamente voltando a cortar seu filé.

- Tia?

- Mamãe Lica – Marina se corrigiu ao que pareceu música aos ouvidos de Heloísa – Eu posso chamar a mamãe de mamãe e você de mamãe Lica, tá bom?

- É mãe demais uma frase só – Samantha voltou a brincar, percebendo Lica mirar Marina como uma completa bocó – O jantar vai esfriar, Heloísa.

E dessa vez, Marina comeu que quis repetir. E deu uma trabalheira para conseguirem fazê-la cair na cama. A menina se agarrou a Lica de um jeito que não tinha no mundo quem soltasse. Quando ela pegou no sono, foi que foram cuidar de si. Samantha entrou no quarto e encontrou a banheira terminando de encher. Heloísa e aquela coisa por banhos que só ela tinha. Nem precisou de muito, foi ela mesma que a despiu e a guiou até a água quentinha e perfumada. Lica se pôs atrás logo em seguida, fazendo com que Samantha se recostasse sobre ela, pele com pele, a respiração exalando relaxada e em conforto.

- Finalmente você cumpriu sua promessa de um banho de banheira com uns cremes e uns óleos – a empresária provocou e deu espaço para que Lica brincasse com a pele exposta de seu pescoço, fechando os olhos e suspirando.

- Demorou, mas finalmente rolou – Lica proferiu baixinho, sorrindo contra a pele dela – E dessa vez eu espero que que role sem mais problemas.

Samantha riu pelo nariz e apertou os braços de Lica contra sua cintura, colando-a mais a si.

- Sabe o que também está demorando e que já podia rolar? – Samantha começou – A proposta que um dia a senhorita me fez de formar uma família tradicional brasileira comigo e terminar aquele álbum de figurinhas.

Lica riu que arriou a cabeça para trás.

- Eu amo a sua sutileza em me cobrar as coisas – brincou – Quer marcar logo essa data ou....

Mas Samantha... um-hum. Ela tinha outros planos para aquele momento.

- Que data o quê? – e se virou nos braços da noiva – Eu prefiro começar pela parte de aumentar a família.

- É? – Lica provocou sentindo sua noiva sentar em seu colo?

- A Marina disse que queria um irmãozinho, né? E promessa que se faz pra filho.... – a empresária começou a atacar o pescoço de Lica.

- Safada você, hein? – a Gutierrez abafou um gemido.

- Sorte a sua – Samantha devolveu e....

Bom... sim. Ela era safada.


Notas Finais


E aí, bora fechar essa fic? Oficialmente, nos momentos finais e é isto. Mais uns quatro ou cinco capítulo e Mil Acasos vai ter seu fim rs.
Bom, sobre o capítulo de hoje, eu poderia chamá-lo facilmente de "livramento". Henrique quase morreu e quase machucou feio a própria filha. E se não fosse Heloísa... que tenso, né? Salvar a vida do cara que lascou com tua vida todinha? Mas é bem isso: nobreza que se chama. Não poderia ter desfecho melhor pro Henrique do que literalmente viver por causa da Lica kkkkk. Na cara foi pouco.
Agora é isto, o Mondego filho preso, Marina sendo uma fofa como sempre (até com o pai maluco) e nossa família tradicional brasileira finalmente estabelecida e (eu espero) em paz rsrs. Acho que dessa vez a paz deva vir mesmo rs.
Teorias sobre o desfecho das nossas Limanthas? Já ficou meio óbvio, né? Elas precisam fechar o álbum de figurinhas delas rs.
PS: Um salve para o MB e as Five na perseguição com a polícia. Amizade é isto: você perseguir e ajudar a prender o embuste que mexeu com sua coleguinha rsrs.

No mais, agradeço a leitura e nos vemos no próximo capítulo!


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