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História Mil Acasos - Capítulo 50


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, minha gente. Tudo certo com vocês?
Bom, oficialmente na reta final da fic, bora pros refrescos? rsrs.

Sem mais, sobre o capítulo de hoje: Ponto de equilíbrio.

Boa leitura!

Capítulo 50 - Relações sólidas


- A Marina disse que queria um irmãozinho, né? E promessa que se faz pra filho.... – a empresária começou a atacar o pescoço de Lica.

- Safada você, hein? – a Gutierrez abafou um gemido.

- Sorte a sua – Samantha devolveu e....

Bom... sim. Ela era safada.

 

E como era. Lica amanheceu no dia seguinte que faltou não sentir as próprias pernas. Se espreguiçou toda quando os primeiros raios de sol perpassaram a cortina e o cansaço de seu corpo denunciou as peripécias da noite passada. As peripécias e a satisfação, diga-se de passagem. Amém, Samantha Lambertini. Aquela mulher era não só a pessoa mais incrível e linda e perfeita da face da terra. Ela sabia muito bem como levar qualquer um à loucura.

Qualquer um não. Pausa aqui, porque esse posto era só e somente só de Heloísa. Nesse ponto ela era bem egoísta sim e não negava. Samantha lhe trazia do céu ao inferno para depois lhe deixar em estado elevação a um simples toque.

Suspirando e gemendo baixinho em deleite, Lica virou-se para o lado para encontrar com a mulher que amava. Sentir o calor que emanava do corpo dela, aquele cheiro maravilhoso de flor de cerejeira, a textura dos fios dela esparramados no travesseiro... Lica adorava enfiar o nariz naquela cascata castanha de Samantha ao acordar. Era seu sopro de vida O problema foi que ao se virar pronta para se agarrar à mulher que amava com o “bom dia” que ambas mereciam, encontrou um colchão vazio.

Primeiro tateou ainda sem querer abrir os olhos. Vendo que ali não encontraria nada, abriu um olho apenas para encontrar o vazio. Ai, fala sério!

- Samanthaaaa – entoou com um misto de frustração com chateação.

Deduziu que sua noiva estivesse no banheiro, mas o silêncio do chuveiro denunciou que estava errada. Bufando, Lica se levantou, escovou os dentes, passou uma água no rosto e foi à missão resgate de sua mulher. Ao pisar na sala (e ela nem fazia ideia de que horas eram, só que teriam ONG naquela manhã), Lica ouviu ao longe uns acordes do ukelelê. Foi involuntário o sorriso que se abriu em seu rosto. Seguiu para a direção de onde o som vinha só para encontrar Samantha languidamente recostada à varanda, dedilhando o instrumento enquanto observava lá de cima São Paulo ganhar vida.

E não só São Paulo.

O coração de Heloísa acelerou tão vergonhosamente para mostrar que dentro dela também havia algo bem vivo. Em silêncio, Lica se recostou ao portal e ali ficou de braços cruzados, admirando a mulher que amava embalar o nascer do sol. Samantha parecia feliz e, a despeito do contorno da luz do sol em sua silhueta, parecia brilhar.

Linda. Perfeita.

Sem nem pensar duas vezes, Lica aproveitou que ela estava absorta e com os pensamentos longe e retornou para o quarto onde pegou na mesa de cabeceira uma caderneta e uma caneta. Posicionou-se novamente quietinha no portal da varanda e se pôs a fazer os primeiros rabiscos de sua arte retratando Samantha fazendo arte. E sua noiva parecia realmente distante, porque demorou um bom tempo para perceber que ela estava ali. Quando o fez, até a carinha de surpresa que se formou foi fofa.

Lica se apaixonou mais uma vez.

- Te acordei? – sua noiva perguntou, deixando o ukelelê de lado.

- Não, não – Lica pediu em um gesto que ela mantivesse o instrumento ali – Continua, Sammy. Eu quero terminar... – e mostrou o caderno em mãos.

Rindo, Samantha voltou a posicionar o ukelelê e a dedilhar algumas notas aleatórias, suspirando e virando o rosto para a cidade lá fora.

- Você é perfeita, sabia? – Lica foi quem falou, concentrada em seu desenho – A mulher mais linda do mundo. E eu tenho muita, muita sorte em te ter na minha vida.

Samantha não respondeu nada. Apenas riu baixinho, ainda entoado uma música qualquer.

- Sabe, Samantha. Eu achava que no fim das contas eu ficaria sozinha. Não tem aquelas pessoas que aprendem a conviver com a solidão? Eu seria uma delas. Relações passageiras, tudo passa, nada fica. Eu seria uma espécie de ralo. Não retém nada.

Samantha riu e negou com a cabeça, ainda contemplando a cidade lá fora enquanto Lica rabiscava.

- Se eu sou um ralo, você seria meu tufinho de cabelo que entope o ralo. Eu espero que você entenda essa metáfora – a artista se concentrou em seu desenho – Melhor: eu seria como uma tela em branco. Aí você foi lá e jogou tinta nela. No começo, o desenho parecia não fazer tanto sentido, mas depois... ah, depois ele virou quase uma tatuagem. Ficou gravado, não apaga mais de jeito nenhum. Você é como a tatuagem na minha pele, a tinta da minha tela. O desenho perfeito.

Ainda em silêncio, Samantha suspirou e mordeu o lábio.

- Se eu fosse um brinquedo, seria um carrinho sem pilha. Você pode ser a pilha do meu carrinho – Lica franziu o cenho para a própria sentença – Ok, essa não foi legal. Mas você entendeu o que eu quis dizer. Você pode ser a pilha e o controle remoto do meu carrinho – e riu baixinho absorta nas próprias metáforas e piadas – Pro meu caminhãozinho, você já é assim... o Saara inteiro de areia. Não sei se deu pra pegar. Espero que tenha dado.

Samantha negou com a cabeça, ainda dedilhando o ukelelê e o com o olhar distante.

- Da minha arte, você é a musa. ‘Cê já sabe disso, né? Espero que saiba, porque você é. Eu vou fazer uma releitura de Picasso e transformar Les Demoiselles d’Avignon em Les Demoiselles d’Heloísa. Só vai ter você no quadro. Demoiselle é musa em francês, caso você não saiba. Eu posso te ensinar francês, se você quiser. E você pode me ensinar italiano. Nossos filhos vão poder ser poliglotas.

Samantha apertou os lábios um no outro como se estivesse se contendo para não vacilar bem ali. Lica tinha ideia do significado das coisas que lhe dizia? Estava sendo quase impossível para ela ficar impassível àquilo.

- Se eu fosse uma caverna, você seria meu sol. Um sol entrando numa caverna e fazendo ela se revelar inteira. Pode parecer estranho, mas eu acho o máximo a luz irrompendo pela escuridão. Adoro esse jogo de claro-escuro. Você é o sol do meu universo todinho. É calor e é vida. Você me fez gostar mais de viver. Fez valer à pena. E eu te amo por isso.

A primeira lágrima teimosa escapou dos olhos de Samantha. Mas mesmo assim, continuou dedilhando o ukelelê, agora uma melodia mais desconexa.

Lica seguiu para o último rabisco de seu desenho.

- Pode relaxar se quiser – a artista anunciou – Desculpa te fazer ficar parada na mesma posição esse tempo todo. É que eu não podia perder a oportunidade e essa luz está linda.

Samantha se virou para Lica lentamente com os olhos marejados. A Gutierrez foi pega de surpresa.

- Que foi, Sammy? Era pra você ficar feliz, não chorando assim – e com um sorriso meio incerto, virou o desenho para Samantha ver. Fiel, traços firmes e perfeitos.

- Sabia que eu amo o jeito que eu sou a seus olhos? – Samantha soltou do nada com um sorriso tímido, limpando as lágrimas teimosas que insistiam em cair – É a minha melhor versão.

- Você é a minha melhor obra de arte – Lica devolveu e se aproximou mais dela, gentilmente tirando o ukelelê de suas mãos – E eu amo te olhar assim.

- Assim como? – Samantha quis saber, permitindo-se fechar os olhos ao toque sutil de Heloísa em seus cabelos.

- Como a mulher mais linda do mundo, meu amor, minha Sammy – respirou fundo – Todo artista precisa de uma musa, você é a minha. E obrigada por me escolher.

- Te amo – Samantha teve tempo de sussurrar baixinho antes que Lica fechasse de vez o espaço entre elas e capturasse seus lábios em um beijo sutil, lânguido, delicado e repleto de significados. Havia segurança, paz, proteção, cuidado e amor. Muito amor.

E promessas também. Mas elas... elas precisavam ser verbalizadas.

- A gente pode marcar a data do nosso casamento agora? – Lica foi que pediu baixinho no meio do beijo – Porque eu também te amo e não quero mais esperar.

Samantha riu que gargalhou.

- Pode sim, mas eu só tenho uma exigência a te fazer.

- O que você quiser, meu amor.

(...)

- Ah, não! – Lica entoou pelo que pareceu ser a milésima vez – Eu não vou fazer isso!

- Você disse que eu podia fazer a exigência que quisesse. Essa é a minha.

- Samantha... – Lica tentou remendar, mas sem sucesso.

- Licaaaa, vai. Vai ser lindo, amor – a empresária se animou e bateu palminhas. Clara, sentada ali no sofá da sala com Guto do lado, Keyla, Ellen, Tina e Benê jogadas na outra poltrona, já faziam suas conjecturas.

- Lindo, Sammy? Casar na praia? – não, não mesmo! Até as exigências de sua noiva tinham limites – Amor, pensa no tanto de areia... pensa no vento desfazendo seu figurino.... Pode chover também, sabia? E se chover, a maré sobe e nossa festa pode virar....

Samantha nem ouvia mais. Estava entretida com Clara e Keyla pensando em modelos de vestido. Lica que ficasse ali bodejando, ela já havia decidido: casariam na praia sim e ponto. Tivera uma cerimônia convencional quando subira ao altar com Henrique. Toda aquela pompa de provas e mais provas de vestido, buffet, lista de trezentos convidados... queria e tinha o direito de querer algo diferente desta vez. Algo mais a cara dela. Algo mais Lica e Samantha.

Um luau em um hotel à beira mar seria perfeito. A praia do Guarujá, que foi a primeira parada do mochilão que fizeram quando adolescentes, seria o lugar perfeito e tinha todo um significado especial para elas. Samantha não esqueceria nunca de como foi fazer amor com Lica na beira da praia, tendo só a lua e as estrelas de testemunhas. O vai e vem das ondas, os braços de sua então namorada lhe dando segurança, carinho e proteção... ok, que Lica reclamara horrores da areia, mas e daí? Ela aproveitou bem, que Samantha lembrava. E como aproveitou! A areia não foi problema nenhum.

- ... E o sol! A gente vive nos trópicos, o sol desse país é quase uma arma letal. Ele mata, ele queima! Sim, ele queima e eu sou branquinha. Minha pele não aguenta sol por muito tempo! Você vai casar com um camarão e eu não quero parecer um crustáceo frito no alho e óleo nas nossas fotos....

- Samantha, você tem hotel na praia? – Benê quis saber. Era o ramo dela, certo? Nada mais justo que a empresária casasse em um de seus empreendimentos na beira-mar.

- Tenho e não tenho, Benê – a Lambertini respondeu, dando um sorrisinho para ela – O Jequitimar tem participação da Meliã. Eu estou em tratativa pra tentar comprar a rede e ampliá-la, mas nada concluído ainda.

- Você pode casar lá com a Lica. Eu nunca fui, mas pelas fotos... – e começou a mexer no tablet com Ellen – O lugar é muito bonito.

- Eu e a Lica nos hospedamos lá no mochilão que fizemos. Ela só esqueceu desse detalhe.

- ... A areia fica grudando! O sol queimando! Aí vem o vento e deixa a pele ressecada e parece assim que a gente passou um mês dando voltinha pelo Saara....

- O vestido é meu, vou logo falando. O vestido das duas.

- A Lica disse que não quer vestido, Key – Samantha ponderou.

- Ela vai casar sem roupas? – Benê soltou do nada, o que arrancou uma gargalhada geral. Até Guto riu que se sacudiu.

- Não, Benê. Eu espero que não... – Tina fez uma careta – Deus me livre, não! Eu não sou obrigada a ver a Lica sem nada. Credo!

- Ela é linda. Assim, só pra constar.

- É a minha irmã, Samantha! – Clara gritou quase em desespero.

- E eu podia passar sem imaginar esses detalhes – Guto engrossou o coro.

- ... E a maresia estraga tudo. Vai ficar tudo úmido e pegajoso... eu não vou comer docinho banhado no sal....

Lica seguia andando de um lado para o outro na sala, gesticulando, presa no próprio monólogo. Será que ninguém via que fazer festa na praia, ainda mais seu casamento, não tinha como dar certo?

- Ela disse que quer um terninho. Eu que não me opus. Meu mozão fica lindo de terno – Samantha riu grande feito uma menina travessa.

- Branco. Ou azul. Ou amarelo, talvez. Um amarelinho claro... pendendo pro creme, talvez... talvez um rosinha claro – Keyla deu as coordenadas – Terninho preto na praia só funciona no cinema quando o mocinho vai atrás da mocinha correndo na beira-mar.

- Se você vier com um terno rosinha claro pra Lica, Key, o casamento vai virar um velório. E o seu – Tina alertou.

- Qual a cor, Samantha? – a estilista se virou foi para a Lambertini, como se Heloísa não estivesse bem ali à sua frente. Se bem que Lica estava, mas parecia não estar. Continuava gesticulando e conversando com o vento, elencando as impropriedades de um casamento na praia.

- ... Vai que a maré sobe? Vai inundar tudo. Nosso casamento vai ser no meio de um tsunami e eu não quero isso. Odeio água salgada, ainda mais vestida sem trajes apropriados. Ela gruda na roupa e fica pregando....

- O dela pode ser branco, mas o meu vestido vai ser creme. Já casei de branco uma vez e essa tradição aí não me rendeu muita coisa boa. Pelo contrário. Do meio pro fim, deu muito foi errado.

- Ok... vestido creme pra noiva e terninho branco pra outra noiva... Longo, viu, Sam? Eu te imagino usando uma fenda daquelas – Keyla vibrou.

- Seja como for, valoriza meus atributos, por favor.

- ... A roupa fica voando, subindo... sem falar que se molhar, fica pesada....

- Lica! – Samantha chamou para tirá-la daquele modo gravador. Pega no susto, Heloísa parou do nada no meio de mais um argumento para ninguém e a mirou – Só pra constar, a gente vai casar em um hotel a beira-mar, não dentro da água. Se não quiser ir, manda uma procuração e alguém assina por você, mas eu vou me casar no pôr-do-sol com ou sem você. A gente pode pular essa parte e resolver os próximos detalhes?

O silêncio que se instalou ali foi ensurdecedor, mas confortável e cômico. Lica encarava sua noiva, abrindo e fechando a boca sem saber nem o que começar a responder. Poxa, sua lista dos “porquês de casar na praia ser uma cilada” não valeu nada? Ela também tinha suas vontades. Samantha que a desculpasse, mas teriam que conciliar aquilo. Não aceitaria nada assim.

- Pode sim, amor. Qual o hotel? É seu? – Lica suspirou e relaxou. Talvez não fosse de todo ruim.

Clara riu pelo nariz.

- Lica dela... – a loirinha assobiou – Dela, Samantha – e emendou, recebendo um olhar inquisidor da irmã – Você e a Sam são fofas sendo uma da outra... me comove.

Tina, que havia pego o trocadilho, riu pelo nariz. Guto suspirou e se ajeitou na poltrona.

- Uma relação é assim: manda quem pode e obedece quem tem juízo – Keyla soltou – Que bom que a Lica é uma menina ajuizada.

Samantha, apertando os lábios para não deixar sair o riso preso, estendeu a mão para Heloísa, chamando-a para se acomodar junto consigo.

- Vem cá, vem. A gente vai decidir tudo juntas. E eu sei que você não é muito fã de praia, mas a gente vai casar em um hotel com o mar ao fundo, não dentro dele. E eu prometo que vai ser tudo perfeito.

- Eu sei que vai, Sammy – Lica se deixou cair ao lado dela no sofá, deitando a cabeça no ombro – É só não deixarem juntar areia e escolherem uma direção onde o vento não faça meu cabelo parecer que levei um choque. E terem cuidado com a maré. Ah, e prestarem atenção pros docinhos não salgarem. A gente vai ter docinhos, não vai?

Deus do céu. Ela parecia uma criança querendo fazer birra e ganhar a mãe.

- É claro que a gente vai. Com direito a bem casad... bem-casadas e tudo – Samantha brincou e a apertou mais contra si.

Nem perceberam os olhares abobalhados que recebiam dos demais. Tina sorria feito uma bocó e Clara como uma completa idiota. Felizes, de uma maneira geral.

- Tá legal, às coisas práticas. Vocês são fofas, mas fofura não faz uma festa sair do papel – Keyla, como boa promoter que era (as baladas do Galpão d’As Five eram, em sua maioria, coordenadas por ela na organização), deu as cartas – Tina, a música é por sua conta. Conversa com elas, tenta seguir direitinho o gosto musical das noivas, dos convidados e algo que combine com o ambiente. Ah, e pensa tamb....

- Keyla, eu sou DJ! – Tina ralhou e interrompeu a amiga – Não vem querer me dar aula de como montar uma playlist não, que não é seu departamento. Vai querer ensinar o padre a rezar a missa?

- Padre? – Benê entrou na conversa – Mas você acabou de dizer que é DJ, Tina.

- É força de expressão, Benê – Guto explicou, suspirando – E eu tenho certeza que se a gente não resolver esses probleminhas internos, esse casamento não sai do papel.

Foi preciso ele assumir a dianteira para conseguirem se entender. No final das contas, Keyla ficou com o figurino das noivas e dos padrinhos, Ellen com a parte de iluminação e decoração junto com Benê e Clara, Guto foi cuidar de ver com Samantha sobre a reserva do hotel onde a cerimônia aconteceria, enquanto Gabriel cuidava da parte burocrática da coisa resolvendo com um juiz de paz. MB apareceu no final da tarde anunciando que além de ser “o padrinho preferido das noivas”, ficaria responsável pelas bebidas que seriam servidas.

- O hotel não tem um buffet, Samantha? – Benê quis saber.

- Ter tem, Benê, mas se meu loirão disse que as bebidas são por conta dele, é com ele que eu fecho – Samantha fez um high-five com MB – E por falar em fechar, eu preciso resolver uma coisa.

A empresária correu para dentro do quarto e retornou com um cartãozinho em mãos e o celular ao ouvido. Tratava com alguém sobre os comes da festa. E Lica, vendo que estava completamente aleatória ali, resolveu que sua ausência não seria notada. Pegou a bolsa e já iria sair de cena, quando recebeu um puxão de Samantha pelo braço, mantendo-a ali. Ela encerrou a ligação e se virou para sua noiva.

- Vai pra onde? – ela quis saber intrigada.

- Humm... pegar a Mari na aula de violão – Lica explicou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

- Cedo demais pra isso. Ela só sai às dezoito, não são nem dezessete direito ainda.

Marina tinha ido passar a tarde com os avós sendo paparicada como bem merecia, o que deu um tempinho para que Lica e Samantha pudessem aproveitar um pouco. O problema era que ela, Heloísa, não se via com tanta serventia no meio daquela discussão toda. Fora-se o tempo em que tomava a dianteira na organização dos eventos da escola e do Galpão. Hoje, seu único objetivo na vida era tocar sua galeria, viver em paz com a mulher que amava, com a filha que a vida lhe dera de bônus e estava muito bem obrigada. Quanto menos afazeres, melhor.

Samantha viu a cara que a noiva fez.

- Vai fugir da organização do próprio casamento? – ela brincou e envolveu-a pelo pescoço com os braços – Eu vou mesmo ter que te arrastar até o altar?

Sorrindo, Lica se deixou envolver pelo gesto dela e relanceou o burburinho que tomava conta da sala. Keyla discutindo algo com Clara sobre a renda de alguma coisa que não sei quem usaria. Tina, Ellen e Benê debatendo sobre a decoração e as músicas, enquanto MB tentava convencer Guto a participar de uma degustação das bebidas que os convidados tomariam.

- MB, bebida é uma só – o rapaz explicou o óbvio – Não tem que provar, porque ela tem um padrão...? Vem engarrafada e etiquetada? Não é docinho, cara, se liga.

- Gutinho, deixa eu te explicar uma coisinha... – e passou o braço pelos ombros do amigo, que assumiu uma expressão cansada – Bebida é a coisa mais importante de uma festa, é ela quem anima e põe os convidados pra cima. Tem que ser testada antes.

- Discordo – Tina entrou na conversa, iniciando um debate – A música é mais importante. Experimenta fazer uma festa sem um som bacana. Ela vira um enterro facinho.

- Tininha, presta atenção....

E foi aí que Lica perdeu o fio da meada. Decididamente ali eles discutiriam tudo, menos o principal. E isso era, em fato, preocupante.

- Sammy, você tem certeza que vai deixar o momento das nossas vidas nas mãos desses malucos? – apontou para MB que agora discursava sobre a importância do limão em um drinque bem feito.

Samantha acabou rindo e enterrando o rosto na curva do pescoço dela.

- Está vendo? É por isso que eu preciso de você aqui – brincou.

Mas as duas tiveram que se separar quando o celular da Lambertini tocou uma chamada de Gabriel. Ela atendeu na mesma hora. Como ele estava cuidando da parte legal da coisa, o primeiro pensamento que lhe veio foi que tinha dado alguma merda no divórcio com Henrique e ela não pudesse ainda se casar no civil com Lica. Graças aos céus, foi apenas um pensamento.

- Fala, Gabe – ela começou.

- Minha deusa, cadê a data? Não dá pra eu marcar uma cerimônia com o juiz se não tiver uma data pra apresentar.

O óbvio e o principal... e elas haviam esquecido. Pediu a Gabriel um tempo para escolherem a melhor ocasião e, bom... não conseguiriam. Não ali.

- Número par dá sorte – Tina.

- Eu ouvi dizer que ímpar que dá – Keyla.

- Vocês são idiotas de acreditarem nessas coisas – Ellen.

- É só uma data. Temos que ver uma que seja boa para todo mundo poder viajar e comparecer, já que o casamento não será em São Paulo – Benê pontuou sabiamente.

- A gente está em setembro... podíamos marcar pra dezembro?

- Mês de Natal. Um-hum – Samantha cortou – Alta temporada, os hotéis começam a receber turistas de todo canto e evento nessa época do ano vira um pandemônio.

- Pode ser esse mês – Lica tentou sua sorte. Tinha que tentar – Semana que vem, Sammy! Aí a gente casa no Galpão mesmo, hum? Olha que perfeito!

Só ela achou perfeito. Samantha arqueou as sobrancelhas e um silêncio esquisito se instalou na sala.

- Jura que você quer me dobrar com isso?

Lica arriou os ombros e suspirou derrotada. Um drama explícito que à Lambertini lembrou bastante um serzinho de cinco anos que habitava aquela casa e que costumava fazer aquilo quando era voto vencido. Descobriu onde Marina havia aprendido aquele trejeito.

- Novembro? – Guto tentou – É ruim, Samantha?

- Não, novembro é um mês bom. Inclusive foi o mês que você voltou da França e que a gente se aproximou mais... Na verdade, foi o mês que eu percebi que estava perdida com relação a você – Samantha buscou o olhar de Lica com uma expressão saudosa e linda. E isso fez qualquer resistência que ela ainda tinha cair por terra. Com aquela mulher, ela casaria até no meio da selva.

- E eu uma bocó doida por você, mas com medo de me jogar.

- Doze de novembro – Samantha abriu um sorrisão e mordeu o lábio.

- Você lembra a data?

- Claro que eu lembro, Lica. Foi nesse dia, com você na minha frente, que eu me toquei que não tinha pra onde eu correr. Você me fez entender muita coisa naquele momento.

Haviam entrado em uma bolha e deixado todo os demais presentes ali de fora. Mas ela foi furada por Gabriel ligando novamente.

- Cadê a data, Samantha?! – ele quis saber – Não dá mais pra esperar.

- Doze de novembro, caramba!

- Não é muito longe não, Sammy? Eu ainda acho que podia ser esse mês – Lica tentou de novo.

- Doze de novembro, Gabe – a empresária repetiu – A gente casa no dia doze de novembro. Nem antes, nem depois.

(...)

Nem antes, nem depois.

- Samantha, calma! Eu hein, parece que está indo pra forca!

- É mais ou menos isso, Clarinha.

- MB, o que você está fazendo aqui, hum? – a loirinha quase rugiu – Vai ver suas bebidas! Está só me atazanando.

- Eu vim ver como minha Lagostosa está, ow! Vim dar apoio.

- Ela está pra me pôr louca, isso sim! Vocês dois estão. Chispa daqui! – abanou a mão para fazer MB sair, mas o rapaz não se moveu um centímetro.

- Samantha, você está ma-ra-vi-lho-sa! – Keyla apreciou lá de onde estava sua obra de arte. O vestido que desenhara e costurara para a Lambertini tinha o caimento perfeito. Longo, como ela havia dito, creme... e aquela fenda... Ah, aquela fenda!

- E gostosa também, Samanthinha – MB resumiu tudo – A Liquinha vai ter um treco quando te ver.

Samantha riu de nervosa.

- Ela não pode ter treco, MB. É um casamento, não um velório – e claro que ela tentaria o que vinha querendo fazer há horas – Eu posso ir vê-la? – e já fez menção de sair dali, mas foi parado por braços e um MB em riste na frente dela.

- Daqui você não passa, Samantha! – Clara ralhou – Ver a noiva antes da hora dá azar.

- Ai, gente... eu não acredito nessas coisas.

- Mas a gente sim – MB, Clara e Keyla entoaram em uníssono, fazendo-a parar em choque.

- Vocês são insuportáveis – e cruzou os braços em birra.

(...)

- Vocês são insuportáveis! – Lica entoou em inconformismo quando tentou pela terceira vez furar a barreira que Tina, Ellen e Benê formavam à sua frente – Eu só quero ir ver minha noiva, caramba! Qual o problema?

- O problema é que isso azeda tudo – Tina foi taxativa e ajeitou a manga do blazer que a amiga trajava. Então deu um confere de cima a baixo e lançou um olhar sugestivo – Lica... eu te pegava, viu?

- Ai, começou... – Ellen se lamuriou. Daquele jeito, não sairiam dali nunca.

- Pegar a Lica? Por que? Ela está na sua frente – Benê sendo Benê.

- Eu quero dizer que ficaria com a Lica, Benê – Tina explicou – Daria uns beijos, entendeu? Ela está a maior gata nesse terno e, nossa... deixa qualquer um fraca.

- Mas se você beijar a Lica, será traição com a Samantha – Benedita pontuou sabiamente – E pior, no dia do casamento delas.

- Vocês querem parar? – Lica arrulhou – A gente já pode ir agora? Eu preciso ver a Samantha e a Marina. Aliás... cadê minha filha?

- Está com o Tonico terminando de se aprontar – Marta entrou no quarto contemplando a filha diante de si – Olha... eu nunca pensei que ia viver para assistir esse momento. Você, Lica, casando.

Nem Lica pensava. A verdade, era que se seu eu de dezessete anos a visse enfiada naquele terninho, se preparando para dizer “sim” a um juiz diante de um altar, entraria em desespero e provavelmente sairia quebrando tudo o que visse na frente perguntando o que tinham feito com sua vida. Mas a Lica de vinte e cinco... bom ela só queria era apressar as coisas. Ir até Samantha, verbalizar o que já vinham fazendo na prática (sim, porque já viviam praticamente casadas) e toma-la nos braços como vinha sonhando nos últimos dias.

Mas nos últimos dias, mal tivera tempo de ver sua noiva. Na última semana, parecia assim que todo mundo havia entrado no modo “desespero” e se ligado nos 220 volts. MB, todo dia acrescentava um drinque novo no menu de bebidas a ser servido aos convidados, que foi preciso explicarem a ele que era um casamento, não uma versão brasileira do Oktober Fest. Keyla quase enlouquecera e colocara todo mundo louco também com provas, testes de tecidos, ajustes de medidas... Lica tinha perdido as contas de quantas alfinetadas (literalmente) havia levado da amiga.

Tina toda hora aparecia com uma playlist diferente pedindo opiniões, enquanto Benê e Guto praticamente moravam em cima do piano compondo a valsa para as noivas e Ellen endoidava porque o pessoal da iluminação parecia ter sérios problemas em entender que o casamento seria realizado ao pôr-do-sol e que à noite eles precisariam de outra luz que não a natural. A lua sozinha não daria conta dos quase cem convidados que estariam ali para prestigiá-las. Sim, quase cem. Oitenta por cento deles, de Samantha.

- Sammy, precisa mesmo esse monte de gente? – Lica choramingou num dia qualquer depois que a noiva colocara a lista de seus convidados em sua mão.

- Lica, eu tenho tios e primos – a Lambertini devolveu – Gente que esteve presente em todas as etapas da minha vida. Minha família é grande.

- Sério? – Heloísa franziu o cenho e mirou a lista em mãos. Mais de cinquenta nomes – E a gente pensando que você nem casa tinha.

Só teve tempo de sentir uma embalagem de algum hidratante voando sobre sua cabeça. Desviou a tempo.

- Eu tenho família, beleza? E ela é enorme. Eles só respeitavam meu espaço e não faziam da minha vida um inferno onde eu fosse.

- Ao contrário da minha, que era pequena, mas pesava cem toneladas – Lica riu-se e baixou a vista para os nomes – Ei, eu conheço essa sua prima. A Lorena era a maior gata. Ela foi convidada?

Dessa vez o que voou por sobre a cabeça dela foi um sabonete. E sabonete francês.

- Continua e ela vai ser tirada da lista junto com a outra noiva – foi tudo que Samantha disse.

Bom, o fato é que se a intenção era reservar uma parte do hotel para o evento, ela foi por água abaixo. Tiveram que praticamente fechar o espaço para a cerimônia. Eram pais, tios, primos, amigos... e Clara berrando feito uma condenada na cara de todo mundo, distribuindo ordens e querendo ser obedecida a todo custo.

As flores... ah, as flores tinham sido uma dificuldade. Samantha viu o brilho de fúria e ódio nos olhos dos floristas para sua cunhada a cada “aí não, melhor aqui”, que ela dizia. E isso se repediu assim umas vinte vezes no perímetro onde elas subiriam ao altar e mais umas trinta nos arredores. Mas se Clara se esgoelava, Ellen era prática. Cuidando da decoração também, a programadora havia desistido de dar instruções aos técnicos na segunda vez. Na terceira, ela mesma foi lá e o fez.

Enquanto isso, na cozinha do hotel, o território era de Leide e do pessoal do buffet. A mulher tinha batido o martelo: o bolo de casamento seria presente dela. O resultado era uma obra magnífica de três andares em glacê creme todo decorado, com os dizeres “Limantha Endgame” em cima. Este detalhe não havia sido ideia de Leide, claro, e Lica desconfiava bem de onde surgira aquilo. Em cima, duas bonequinhas se beijando: uma com um pincel e um tubinho de tinta na mão, e a outra com um baixo e um microfone. Isso sim era obra sua. Na verdade, fora essa a única coisa que lhe permitiram fazer na organização inteira. Esculpira a mini Lica, a mini Samantha e, claro... uma mini Marina sentadinha perto delas com uma miniatura de um gato na ponta. Óbvio que Celeste teria seu lugar de honra.

E por falar nela... a gata exalava plenitude, muito bem acomodada em sua caminha acolchoada ali perto do altar, lambendo tranquilamente seus pelos, envolta em uma coleirinha branca e véu na cabeça. Sim, Lica colocara um véu na gata. Era um casamento, todo mundo tinha que estar vestido a caráter.

E por falar em vestimenta....

- Cadê minha outra noiva?! – Keyla brotou na porta do quarto de Heloísa para conferir cada detalhe de sua obra – Dobra a barra da calça, Lica. O desenho dela foi feito pra usar dobrada.

- Vai entrar mais areia no meu sapato – a Gutierrez protestou.

- Dobra a calça, Heloísa! – a mãe de Tonico ralhou e assim ela o fez e olha... tinha que admitir. Estava bem melhor daquele jeito.

- Pode arregaçar as mangas do blazer se quiser. É um casamento na praia, não um encontro com a rainha.

Lica o fez de bom grado. O blazer era um pouco grosso e quente, mas segundo Keyla, era necessário um tecido mais pesado para evitar ele ficar voando nas fotos.

MB irrompeu pela porta com um sorrisão do tamanho do mundo.

- A outra noiva está pronta!

Lica respirou fundo e o mundo pareceu girar ao seu redor, mas se manteve firme sobre as pernas.

- Partiu.

Dirigiu-se para a área externa acompanhada das amigas e de MB. E tinha que admitir: eles haviam feito um trabalho e tanto. A cerimônia aconteceria na área ao ar livre do hotel, em um deque. Mas todo o entorno havia sido especialmente decorado para ocasião. O caminho dos quartos até o tablado de madeira era todo iluminado com tochas e luzes que vinham por entre os arbustos. Do outro lado, uma tenda onde os comes e bebes haviam sido instalados e Lica quis bater palmas para o serviço de buffet, porque eram tantos doces que ela não saberia nem por onde começar a contar.

Mais à diante, um piano de cauda enorme que ela se pegou pensando como diabos haviam conseguido colocá-lo ali sem que ele afundasse na areia. Só depois que viu que era um mini palco armado e provavelmente onde ela e Samantha teriam a primeira dança como casadas. Todo o espaço era decorado com luminárias que lançavam uma claridade fosca mais intensa à medida que o sol começava a dar sinais de que se retiraria.

Ao lado esquerdo, um tablado um pouco mais alto que os demais fazia as vezes de altar. Uma mesa decorada com vasos de rosas salmão dos dois lados e ao centro, um livro que Lica supôs ser o registro de união. Foi à visão daquele negócio repousando tranquilamente ali que ela entendeu o real significado daquilo.

Dentro de poucos instantes, se casaria com a mulher que amava. A mulher que queria e felizmente, a mulher que teria para o resto da vida. O que mais poderia pedir além de uma família linda daquela? Se fosse clamar por algo mais, poderia parecer ousadia.

- Nervosa, filha? – Marta entoou ao lado dela e foi só aí que Lica se deu conta de que não estava sozinha.

- Tremendo feito vara verde – brincou e riu nervosa – É um casamento, né? Eu nunca pensei que chegaria nessa fase.

- Você está zerando o jogo, Liquinha – MB brincou e brotou ao lado dela com uma flor que pendurou na lapela do paletó que ela usava.

- É sério isso? – Lica estranhou.

- Ordens da Samanthinha, Lica. É a mesma flor do buquê dela – MB ergueu a mão em rendição.

- Pronta? – Tina quis saber – Porque a gente vai pro nosso lugar.

Lica se virou para ela e quis matar Cristina por aquelas lágrimas insistentes que empoçaram em seus olhos. É que a amiga visivelmente segurava o choro. Buscou alentou em Keyla para evitar chorar e borrar sua maquiagem. Um erro, porque a mãe de Tonico estava pior que Tina. Ellen, era só fungando para esconder que também queria se derramar em lágrimas, enquanto Benedita piscava à velocidade da luz para manter segura as gotículas salgadas que ameaçavam lhe escapar.

- Vocês são péssimas – Lica meio riu, meio chorou.

- Ai, cala a boca. Você ama a gente – Keyla devolveu e em um movimento automático, se agarrou a Lica que não tinha no mundo quem a soltasse. E Ellen veio junto. E Tina.

E Benê.

Todo mundo sabia das resistências que ela tinha a qualquer tipo de toque e abraços. E todo mundo sabe também que quando você deixa de lado suas limitações ou as supera, é porque há um objetivo maior ou alguém com quem você se importa no final. Lica se sentiu a pessoa mais importante, a maior pessoa do mundo quando sentiu os braços de Benê se fecharem em torno de seus ombros e ela dizer baixinho um “você está muito bonita, Lica”.

No final, foi ela que precisou de um lenço.

Tiveram que se separar porque Clara apareceu ralhando por conta da demora para começar. Pelo que ela havia dito, Samantha estava para colocar aquele hotel abaixo caso não a deixassem sair logo. Pior que um animal enjaulado.

-Ih, Liquinha... melhor se apressar, ou vai passar a lua de mel no sofá – MB provocou. E ela não duvidava de que Samantha seria capaz daquilo mesmo. E foi por conhecer a noiva que tinha, que permitiu às meninas seguirem para o altar com o amigo.

Deu o braço a Marta e respirou fundo. Mas antes que pudesse dar um passo à diante.

- Filha? – Edgar apareceu vindo de trás. Fora convidado, claro. Não era que a relação tivesse se tornado a melhor do mundo. Era só que aquela ira e inconformismo e vontade de matar alguém toda vez que seu pai aparecia pareciam ter arrefecido – Você está linda.

Edgar tinha um sorrisão de orelha a orelha enfiado em uma camisa social azul clara e calça de alfaiataria. Lembrou bastante a figura que se pavoneava pelo Grupo infernizando a vida da filha e de quem quer que fosse.

- Obrigada – Lica agradeceu com um sorriso – Obra da Keyla. Aliás, se não fosse ela e as meninas....

Edgar acenou brevemente para Marta, trocou mais duas palavrinhas com a filha e fez menção de se retirar. Mas só o fez. Foi Lica mesma quem o chamou.

- Entra comigo também.

Edgar estacou feito um dois de paus. Marta arregalou os olhos e chamou a atenção da filha com um leve puxão de braço.

- Lica, minha filha, você tem certeza?

- Tenho – respondeu simplesmente – Você pode entrar comigo também se quiser.

Edgar ponderou pelo que pareceu uma eternidade. Olhou de Marta para Lica umas dez vezes antes de soltar um suspiro.

- Você não se incomoda? – perguntou à ex-mulher. Marta deu de ombros e riu fraquinho.

- Edgar, quem tem que saber disso é a Lica – devolveu – Mas não, eu não me incomodo. Você é tão pai dela quanto eu sou mãe, só... foi se tocar disso um pouco tarde.

Edgar assentiu e buscou o olhar de Lica.

- Você tem certeza? Porque eu ficaria honrado – e abriu um sorrisão.

- Bora – a Gutierrez estendeu o braço para ele, que o entrelaçou um tanto extasiado, respirou fundo e ajeitou a postura, mirando o caminho à frente – Partiu casar.

Deram o primeiro passo em direção ao altar à primeira nota do piano. E o segundo passo, e o terceiro... Lica se sentia como um cachorrinho sendo guiado pela coleira em um desfile. Distinguiu rostos conhecidos, quase deu um pulo do susto que tomou quando encontrou Alice e Renata sentadas lado a lado em uma fileira ao meio; a delegada Giovanna com uma mulher alta e magra (e linda, diga-se de passagem), que ela deduziu ser sua a esposa dela... mas seu coração, ele se aquietou rapidinho quando o fim do seu caminho entrou em campo de visão e deu de cara com Ellen ao lado de MB; Keyla ao lado de Gabriel; Tina ao lado de Anderson; Benê ao lado de Guto e Clara ao lado de Juca.

Nunca tinha visto tantos padrinhos juntos. Respirou fundo para o ar invadir seus pulmões e entender de uma vez por todas que era sério, era muito real e que estava de fato acontecendo. Viva. Vivíssima e casando. Em alguns, aquilo meteria medo. Mas para Lica, depois de tudo ela passara e que acontecera, lhe dava a sensação de completude, de que finalmente acertara na vida. E que a vida reconhecera seus esforços e lhe dava a maior recompensa que ela poderia ter: relações sólidas. Laços palpáveis e inquebráveis.

Foi deixada no altar com um beijinho de Marta e um abraço de quebrar os ossos de Edgar. De tão aturdida que estava, nem viu o high-five que MB fizera com ele entoando um “aê, seu Ed” animado. Mas se seu coração havia se aquietado um pouquinho, ele voltou a ribombar feito um louco descontrolado no peito quando ouviu os primeiros acordes de uma marcha nupcial ao piano. As notas se perderam no ar. Ao fundo, o sol se pondo na linha do horizonte lançando uma claridade avermelhada no céu. Mais lindo e majestoso que o espetáculo que ele dava, só a mulher que apareceu no campo de visão de Lica.

Se ela pudesse descrever Samantha em uma única palavra, ela seria “etérea”. Algo tão perfeito aos olhos que sequer parece real. Trajando um vestido longo de alças finas, tecido cor de creme, a fenda na perna esquerda com aquele toque velado de sensualidade que só ela tinha... os cabelos presos no alto com os cachos caindo sobre as costas em uma cascata perfeitamente moldada... sua noiva a deixou simplesmente sem fala, como se de repente sua alma tivesse se dissociado de seu corpo tamanho o estado de elevação em que se encontrava.

Cruzaram olhos com olhos e entraram em uma bolha. Samantha abriu um sorriso do tamanho do mundo, o mesmo que tomou de conta do rosto de Lica. Respirou fundo e deu o primeiro passo, sendo guiada até a Gutierrez por Miguel e Laura. E o segundo... e o terceiro... sempre atrás de... ah, não....

De tão fascinada pela beleza de sua noiva, Lica nem tinha notado os dois seres de meio metro que caminhavam firmemente à frente dela. Tonico com os cabelos impecavelmente penteados para trás em um terno igual ao de Lica, segurando uma caixinha. E Marina, com um vestido à semelhança do da mãe, com uma tiarinha de flores na cabeça, levando um pequeno buquezinho. E sabe aquela lágrima teimosa que a gente não tem como segurar? Ela caiu nesse exato momento.

E quando recebeu Samantha diante de si, o rosto já se encontrava praticamente lavado. Ainda bem que a maquiagem, segundo Clara, era à prova d’água. Ela já previra o dilúvio.

- Me diz que esse choro é de felicidade, pelo amor de Deus – Samantha brincou quando a encontrou.

- É sim, Sammy, e você está perfeita, meu amor. Perfeita – Lica riu feito uma bocó.

- E você, além de perfeita está bem... – Samantha deu um confere descarado e sem pudor nenhum em Lica na frente dos convidados. Se alguém percebeu, não falou. Mas ela ouviu Gabriel soltar um “aprendeu comigo, minha menina” atrás.

Num gesto automático, Lica se inclinou para capturar os lábios dela no beijo que vinha pelejando para dar nas últimas vinte e quatro horas em que a mantiveram longe de sua noiva. Mas foi parada dessa vez pelo pigarro de Miguel. Um Miguel seríssimo, de pé quase entre elas, medindo Heloísa.

- Cuida muito bem da minha filha, está ouvindo? E da minha neta – avisou e estreitou os olhos – E só pra constar... eu também tenho porte de arma e fiz aula de tiro – e então do nada, o homem amenizou a expressão e riu – Felicidades, filha – deixou um beijinho na bochecha de Samantha.

Lica riu de nervosa e engoliu em seco. Sentiu Samantha entrelaçando as mãos firmemente e virando-se para a juíza de paz que aguardava pacientemente diante delas.

- Estamos aqui reunidos para celebrar a união de Samantha Nogueira Lambertini e Heloísa de Almeida Gutierrez – a mulher abriu um sorrisão do tamanho do mundo – Me perdoem a quebra de protocolo, mas isso é lindo – e arrancou uma risada geral dos convidados – Mais do que uma união civil matrimonial, nós estamos celebrando o amor e pro amor... bom, pro amor, não existem diferenças. Pode parecer clichê o que vou dizer, mas é bem isso: quem ama, não vê gênero, não vê cor, não ver raça, não vê credo.... Quando duas pessoas se amam, elas amam além do corpo, além da forma, além da língua que se fala... nada, simplesmente nada se torna uma barreira, porque quem ama, faz tudo, supera tudo. Supera julgamentos, supera preconceitos... eu sei que é uma pena que em pleno século vinte e um ainda seja preciso falar disso. Nossa sociedade infelizmente ainda está muito, muito aquém do nível de evolução essencial e necessário para entender que a forma como o outro ama e enxerga o mundo em nada interfere na forma como eu amo e vejo o mundo. Porque ele é plural. Se fosse uma coisa só, estaria todo mundo reclamando de tédio. O mundo, ele é vários em um e o amor, igualmente: ninguém ama igual. E que bom que ninguém ama igual, porque a graça está justamente em viver essas diferenças. Em se permitir acolhê-las e enxergar nelas aquilo que nós somos. A Heloísa é quw ama a Samantha, a Samantha que ama a Heloísa. E elas amam a Marina, que ama o Tonico, que ama a Keyla, que ama o Gabriel, que ama o Augusto, que pode ou não amar a Cristina... quantas formas de amor nós vemos aqui? Experimentem olhar para o lado e reconhecer a pessoa que está próxima.

Algumas cabeças se viraram.

- Por que o sentimento e o respeito que vocês têm pela pessoa que os acompanha aqui essa noite pode ser diferente do sentimento e respeito que a Heloísa e a Samantha têm uma pela outra? Nenhuma forma de amor é superior. Nenhuma forma de amar é inferior, não existe isso. No final está todo mundo no mesmo barco, então pra quê viver apontando e julgando enquanto se esquece de viver a própria vida e cultivar os próprios laços e viver seu amor à sua maneira? Acreditem, gente: aproveitar a vida é muito melhor que taxar as pessoas e condená-las por simplesmente estarem... vivendo. Então me permitam fazer Uma correção: estamos reunidos aqui para celebrar a união, o amor, a forma de amar e a vida de Samantha Lambertini e Heloísa Gutierrez. Duas mulheres, duas pessoas, duas amantes que decidiram somar forças e enfrentar o mundo juntas.

- Gabriel onde foi que você arrumou essa juíza? – completamente abobalhada pela fala da mulher, Ellen perguntou ao advogado, que inchou o peito e abriu um sorrisão do tamanho do mundo.

- É a minha sogra.

- Oi? – Ellen quase gritou.

- Que sogra, Gabriel? – Keyla cutucou o irmão – Eu tenho um cunhado e não sabia?

- Depois, Keyla Maria. Depois – o rapaz sorriu para disfarçar.

- Heloísa Gutierrez, você aceita Samantha Lambertini como sua legítima esposa?

- Sim – Lica entoou firme e segura, encarando a noiva à sua frente – Com essa mulher, eu aceito tudo.

- Samantha Lambertini, você aceita Heloísa Gutierrez como sua legítima esposa?

- Sim – Samantha tinha um sorriso enorme no rosto – Finalmente, sim – e gargalhou em felicidade sabendo que dali, não teria mais volta.

- As alianças, por favor – Marina se apresentou prontamente com Tonico. O menino estendeu uma caixinha para ela – Repita comigo, Heloísa.

- Eu, Heloísa, te recebo, Samantha, como minha mulher e prometo-te ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de minha vida – Lica entoou à medida que deslizava o arco dourado pelo anelar esquerdo de sua noiva. Já poderia chamar Samantha de sua mulher oficialmente?

- Repita comigo, Samantha.

- Eu Samantha, te recebo, Heloísa, como minha mulher e prometo-te ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias de minha vida – e à semelhança de Lica, ela deslizou a aliança pelo dedo dela sem em momento nenhum desgrudarem os olhos.

- Na forma da lei, esperamos e desejamos às duas que este matrimônio seja duradouro e estável. Pelo poder a mim conferido pela Constituição Brasileira, na data de doze de novembro do corrente ano, eu as declaro casadas – se virou para Lica – Heloísa, agora sim você pode fazer as honras.

E sem nem pestanejar, Lica envolveu Samantha pela cintura com firmeza e decisão e lenta e delicadamente, pousou os lábios sobre os dela em um beijo lânguido e cadenciado. Provou dela como se fosse a primeira vez e, sendo sincera, talvez o fosse. A primeira vez do resto de suas vidas.

Com uma mordidinha afoita no lábios inferior de sua... esposa (e era lindo pensar em Lica assim), Samantha sorriu no meio do beijo e voltou a afundar os lábios nos dela. No momento, não precisavam de palavras.

Ou... talvez sim.

- Eu te amo, Sammy – Lica declarou tudo que levava dentro.

- Também te amo, Lica – Samantha devolveu em puro deleite e voltaram a se beijar sob a chuva de gritinhos e assobios e um “Limantha é endgame, porra!” de Tina.

Tiveram que se separar para fazerem as fotos. Lado a lado, abraçadas, se beijando, com Marina toda faceira ao meio... foto com As Five, com As Five os Bônus Track das Five (leia-se MB, Anderson, Clara e Juca, Gabriel e Guto)... fotos com os pais... o rosto de Lica já estava doendo de tanto sorriso dado. Foi massageando as bochechas, que se juntou a Samantha no meio do palco montado ao lado para uma valsa. Nunca tinha valsado na vida e esperava mesmo que não passasse vergonha. Resultado: foi Samantha que conduziu a dança, graças a Deus. Aos poucos, foram sendo engolidas pelos convidados que tomaram a pista ao som dos arranjos de Tina.

A empresária aproveitou a oportunidade em que elas deixaram, por míseros minutos, de ser o centro das atenções, e arrastou Heloísa para um canto mais afastado. Era uma espécie de caminho ladeado por mais tochas e luminárias que agora faziam mais sentido depois que a noite caiu. Onde ele ia dar... bom, descobririam. Seguiram trilhando por ali de mãos dadas, um andar lento.

- A gente está fugindo da festa e dos nosso convidados, é isso? – Lica brincou.

- Eles podem esperar. Eu preciso de um tempo sozinha com você – Samantha respondeu sorrindo e se virou para sua esposa com a expressão leve e serena – Oficialmente casadas, hum?

- É muito estranho? – Lica riu e soltou a mão dela só para envolve-la pela cintura.

- Diferente, eu diria. Mas um diferente bom demais que ainda parece que não é verdade.

- Parece? – Lica brincou – Bom, então talvez isso aqui mostre que é de verdade sim.

E gentilmente, inclinou-se para tocar os lábios de Samantha de forma sutil. Não havia pressa, não permitiu que apenas o desejo guiasse o movimento, mas sim tudo que levava dentro. O coração veio bater como um louco no peito, a respiração acelerada, o arrepio percorrendo a pele de maneira gostosa, até sentir as digitais dela sobre sua pele, arranhando levemente a nuca. Colocou o corpo inteiro ao de Samantha em um recado claro de que ali não havia espaço para mais nada. Que finalmente estavam juntas como deveria ser, que eram elas e só elas a partir de agora.

Demorou. Demorou muito, mas finalmente rolou. E que bom que rolou. Elas precisavam daquilo.

Em estado de elevação, Samantha ainda permaneceu alguns segundos de olhos fechados sentindo o gosto e o toque de Lica em si. Suspirou fundo antes de permitir que suas íris encontrassem com as dela e o que viu ali... ah, o que viu ali ia muito além de paixão e amor. Encontrou casa, lar, aconchego, seu lugar no mundo. Sua vida em começo, meio e fim. Encontrou sua melhor versão, a melhor parte de si. Sem palavras diante da magnitude que ali tudo tinha, permaneceu muda como estava, limitando-se a observar e absorver Lica.

- Que foi? – a Gutierrez perguntou intrigada e franzindo o cenho, querendo rir – ‘Cê ficou calada de repente.

- Nada – Samantha externou – Eu só estou feliz. Quando a gente está feliz, às vezes as palavras somem.

- Você está feliz, então? – rindo, Lica a envolveu pela cintura, Samantha deitou a cabeça em seu pescoço respirando fundo o perfume francês que ela exalava. Seu perfume preferido no mundo – Importante isso.

- Besta – Samantha riu baixinho contra a pele dela, a vibração do som ecoando nos poros da Gutierrez, acordando-a inteira. Viva, afinal. Muito, muito viva.

- É tu – Lica a apertou em seu braços – Te amo, Sammy. Te amo pra caralho. Te amo tanto que nem cabe em mim.

- Importante isso – Samantha repetiu o que ela havia dito e sorrindo, virou-se para ela, a lua atrás de si refletida em suas íris escuras – Eu também te amo pra caralho e nunca vou me cansar de repetir isso. Todos os dias, todas as horas, cada minuto, em cada segundo da minha vida.

- Cada segundo é muita coisa, hein? Olha que vou cobrar.

- E ai de você se não fizer isso – Samantha brincou e voltou a beijá-la lenta e cadenciadamente – Mas eu te chamei aqui por outro motivo além de te aproveitar mais um pouco.

Papo sério, Lica percebeu.

- Algum problema?

- Um-hum – Samantha negou com a cabeça – Soluções, talvez – respirou fundo – Quando você falou em aumentar a família, era sério, não era? Não era... coisa de momento.

- Seríssimo – Lica afirmou com certeza – É claro que é sério, Sammy. É tudo que eu mais quero agora que nós casamos. Aumentar a família, dar assim uns cinco irmãozinhos pra Mari....

- Cinco... – a empresária riu pelo nariz – Daqui só sai mais um, eu já falei – mas ficou séria – Eu sei que pode parecer apressado demais falar isso no dia do nosso casamento, mas eu levei a sério e quero ir à diante. Estou falando agora, porque mês que vem, é mês de exames de rotina. Todo final de ano eu faço meu check-up anual e se a gente for mesmo seguir com esse plano, é o momento certo de deixar tudo em ordem.

Os olhos de Lica brilharam em êxtase, entendendo o recado.

- Eu também vou fazer um check-up, se for isso que você está dizendo – riu do tamanho do mundo – Não quero mais esperar, Sammy. E tenho certeza que nosso Lagostinho também não.

Samantha gargalhou.

- Ah, claro. Porque ele nem existe ainda, mas já é apressado e impaciente que nem a mãe.

- Qual delas? – Lica se fez de desentendida – Eu sou um poço de calmaria.

- Umhum – Samantha era zero convencimento – Um poço todinho de calmaria.... Se você fosse calmaria, eu definitivamente não estaria aqui agora. Lembra qual é meu lance?

- Escolher o caminho mais difícil – Lica repetiu o que ela lhe dissera no dia em que finalmente se acertaram – Eu acho que nunca fiquei tão feliz em ser... difícil na vida.

- Você, Heloísa Gutierrez, não é para amadores e a sua sorte é que se tem uma coisa que eu não sou nessa vida, é principiante.

- A gente combina, Sammy – Lica trouxe-a para si – E ao mesmo tempo somos dois opostos. E que bom que encontramos um meio termo.

- Um ponto de equilíbrio – Samantha disse por fim – Você é meu ponto de equilíbrio.

Aquilo valeu mais que qualquer “eu te amo” já dito antes. Para alguém que sempre viveu nos extremos, ouvir que era o equilíbrio de alguém, ainda mais da pessoa que se ama, é tudo o que se quer. Era tudo que Lica queria e era tudo que ela precisava.

Heloísa respirou fundo em paz consigo mesma, finalmente.

- Juntinhas? – perguntou, beijando delicadamente a mandíbula e o pescoço de sua mulher. Oficialmente sua.

- Juntinhas sempre – Samantha entoou por fim e permitiu enlevar por tudo que ela era.


Notas Finais


Gol! kkkk.
Gente, não tenho muito o que dizer não. Só sentir rsrsrs.
Não vou nem perguntar teorias, porque já ficou meio óbvio, né?
Coisa mais fofa essas duas casando rsrsrs. Lambertini-Gutierrez. Sente bem aí a força do nome. Eu me acharia tendo um sobrenome desses rsrs.
É isto, em três capítulo, talvez quatro, nós encerraremos nossa participação em definitivo aqui em Mil Acasos rsrs.

No mais, obrigada pela leitura e nos vemos no próximo capítulo!


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