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História Mil Acasos - Capítulo 51


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, minha gente. Tudo certo com vocês?
Vamos viver momentos de paz? rsrs.
Sobre o capítulo de hoje: Kairós.

Boa leitura!

Capítulo 51 - Bate a poeira


Pais e filhos não deviam se separar. Nunca, jamais, em hipótese alguma. Quando Samantha deixou Marina aos cuidados da mãe para passar uma semana na companhia de Lica fazendo um tour pelas praias do Nordeste brasileiro, o fez achando que estava cometendo um crime. Só viajava sem sua filha quando era coisa de trabalho e despedir-se dela no aeroporto lhe pareceu assim uma sessão de tortura chinesa... e uma crueldade.

- Eu vou te levar com a gente – Samantha anunciou por fim sem querer se soltar da cria – Decidido, ponto final. Ainda dá pra acrescentar mais uma passagem, não dá?

- Samantha, nosso voo já está sendo chamado – Lica explicou, mas também compartilhava do sentimento de sua esposa (e que coisa linda era poder chama-la assim). Deixar Marina parecia inapropriado. Muito inapropriado, embora ela soubesse que era só coisa de sua cabeça mesmo. Tão inapropriado quanto uma lua de mel na praia. Foi essa a primeira discussão do casal: Lica deu um leve ataque novamente quando soube para onde sua mulher tinha feito as reservas.

- Vem cá, meu mozinho – Lica pegou Marina nos braços – Você perdoa a gente por estar indo viajar sem te levar? Mesmo sendo pra praia? Porque assim, praia não é tão legal, então... – levou uma cotovelada de Samantha.

Marina soltou uma risadinha esganiçada, se aconchegou toda faceira a Heloísa e soltou a última coisa que alguém no mundo esperaria ouvir.

- A tia Clara disse que você a mamãe vão namorar e me trazer meu irmãozinho.

- Hã? – Lica ficou que nem bocó e Samantha corou violentamente. Piorou a gargalhada que Clara soltou fazendo alguns olhares no saguão de embarque se virarem para o grupo.

- Vem cá... – Samantha chamou a cunhada – Isso é coisa pra ficar dizendo pra minha filha?

- Ué, eu não menti, menti? – Clara se fez de rogada – Gente, vamos deixar de drama? É só uma viagem de uma semana, passa rapidinho. E lua de mel é pra ser... diferente e inesquecível. Se virar passeio em família, vai ser praticamente a mesma coisa de todo dia só que em um lugar diferente. Vocês deviam me agradecer por isso.

É, pensando assim.... Mas mesmo assim, Samantha meio que ainda se sentia culpada. Quando o nome das duas foi chamado no alto-falante do aeroporto, porque do tanto de chamego com a filha, já tinham entrado para o rol dos atrasados do embarque, foi o jeito se soltarem. Marina nem esperou que Samantha e Lica se virassem direito para sair e se jogou nos braços de Clara. A Gutierrez mais velha se sentiu traída. E teve a certeza que no fundo, tudo ficaria bem sim. Marina estava em ótimas mãos, se falariam todos os dias e elas....

- Sabe que eu acho lindo mulher de farda? – Samantha comentou, quando passaram pelo corredor que levava ao avião e cruzaram com uma moça enfiada em um uniforme de aviação vindo na direção contrária – Dá um charme, sabe....

- Agora pronto... – Lica meio riu, meio choramingou – Vai querer me enfiar em um uniforme da Aeronáutica?

- Até que não seria uma má ideia – sua mulher brincou e lhe roubou um beijinho – Você de uniforme... Nossa Senhora... – e deu uma conferida descarada em Lica de cima abaixo para depois morder o lábio.

- Me chama de capitã Gutierrez – Lica disse baixinho ao ouvido dela, trazendo-a para si. Seguiram o restante do caminho agarradas e só se separaram para ocupar os assentos na aeronave.

A viagem em si não durou mais que três horas. Com Samantha praticamente deitada sobre ela, lendo alguma coisa no Kindle, e Lica mexendo no celular, nem sentiram o tempo passar direito. Aliás, a Lambertini sequer viu a foto que sua mulher havia feito dela concentradíssima em sua leitura sendo atingida de leve por um raio de sol insistente que escapava pelo basculante do avião.

O momento de mal estar mesmo não foi por causa da subida ou da descida, ou da mudança brusca de pressão, nem nada disso. Samantha se levantou para ir ao banheiro e quando retornou para a poltrona, encontrou uma comissária de bordo com o corpo moldado à perfeição naquela roupa apertada, servindo um lanche para sua esposa. E com os peitos praticamente enfiados na cara de Heloísa. Uma Heloísa sorridente, toda faceira (demais da conta, por sinal) e interessadíssima no que a mulher dizia.

Samantha se fez presente com um pigarro, pediu licença à mulher para poder acessar sua poltrona e no movimento de Lica para se levantar e lhe dar passagem, ela se sentou no seu banco, puxando sua mulher para um beijo tórrido e no mínimo, avassalador. Quase matou Heloísa sem ar. Uma Heloísa pega de surpresa, que demorou a responder o gesto, mas que quando o fez... Samantha só sentiu as mãos dela firmes em sua cintura. E foi a Lambertini mesma que separou as bocas deixando Lica necessitada e em completo abandono.

- Continua tentando entrar nos peitos dessa mulher, e eu te arremesso daqui de cima feito uma bola de basquete – disse baixinho, antes de se dirigir para a comissária de bordo com um sorriso cínico – Você pode me trazer uma água, por favor? Com gás?

A mulher assentiu visivelmente vermelha e se retirou.

- E-ela s-só estava m-me falando q-quanto tempo ainda f-faltava p-p-p-pra gente... – Lica bem que tentou formular sua frase toda, mas nem isso conseguia. A mulher voltou com a água de Samantha e foi a Gutierrez mesma quem pegou o copo e virou todo de uma vez para dentro. O gás da bebida fazendo seus olhos lacrimejarem.

Mas se Lica pensou que aquela seria a única vez naquela viagem de lua de mel que derramaria lágrimas, se enganou bastante. E como se enganou. Chorou feito um condenada quando, no meio de um passeio noturno na primeira noite delas em Jijoca, no Ceará, Samantha achou divertido tomar de conta do microfone do cantor do barzinho e fazer as vezes de estrela da noite interpretando Marisa Monte para ela.

Era Samantha cantando “É você, só você que na vida vai comigo agora” e Lica passando vergonha tentando conter o chororô. Depois dali, quase chorou de desespero quando do nada, sua mulher resolveu que queria dar um mergulho no mar e simplesmente tirou a roupa de cima, ficando só de roupas íntimas no meio da orla onde um grupo de jovens ali perto fazia uma fogueira e uma festinha. Depois seus olhos lacrimejaram, mas foi de raiva dos olhares daqueles marmanjos para cima de sua mulher. Em resposta, Lica venceu seu ódio de areia e água salgada e entrou de roupa e tudo na praia para agarrar Samantha e mostrar que enquanto eles só podiam olhar, ela podia desfrutar muito bem daquilo tudo. A vontade que deu foi de estender o dedo do meio e entoar um “chupa!” bem alto na cara daqueles idiotas.

E no quarto... quis chorar também, e se ajoelhar em agradecimento numa prece silenciosa, quando saiu do banheiro e deu de cara com Samantha na beira da piscina na varanda da cobertura, de costas para ela, coberta apenas por uma fina camisola de seda. Era aquela a parte em que elas providenciariam o irmãozinho de Marina, não era? Porque estava ansiosíssima para aquilo. Mal tiveram tempo de aproveitar uma à outra na noite do casamento. Passaram dois dias no hotel ainda, mas como Samantha queria passar cada segundo com a filha antes da viagem (e Lica que não reclamou, porque a companhia de Marina era das melhores), nem foram a diante em nada.

Ali, elas teriam que ir mais a fundo sim e Heloísa não podia ficar mais agradecida por aquilo. Serviu champanhe em duas taças e foi se juntar a Samantha na varanda. Envolveu-a pela cintura em um abraço gostoso, quente e aconchegante, apoiando o queixo no ombro dela. Sentiu Samantha suspirar em seus braços, enquanto pegava a taça da mão dela. A empresária se virou para poder olha-la. Ergueu a bebida.

- A nós? – sugeriu.

- À nossa vida – Lica completou.

- Ao nosso futuro – Samantha entoou.

- A gente pode começar ele agora – Heloísa sorveu o líquido sem tirar os olhos de sua mulher, que repetiu o gesto mantendo o contato visual.

- Me mostra como esse futuro pode ser bom – Samantha proferiu calmamente e se afastou um passo de Lica, deixando a taça sore o parapeito da varanda. Então deslizou a camisola pelos ombros, fazendo o tecido fino escorregar sobre seu corpo, expondo suas curvas e a pele bronzeada e macia. Ela não usava nada por baixo.

E se Samantha já ardia em desejo e antecipação, quando viu as pupilas de Heloísa dilatando e aquele brilho alucinado de paixão e ardência tomar de conta da expressão dela, quase foi ao céu e voltou. Em um gesto ousado, a Gutierrez derramou um pouco do próprio champanhe sobre o colo de sua mulher. Viu a pele de Samantha arrepiar com a sensação do líquido gelado escorrendo, algumas gotículas ficaram ali, mas outras escorregaram pelo vale dos seios.

- Bom e... – Lica umedeceu os lábios – E bem gosto também.

Delicada e gentilmente, encostou o lábio na pele de sua mulher, sugando fraquinho as gotículas que haviam ficado pela clavícula. Samantha suspirou agastado. E então, Lica arrastou a língua para capturar as outras gotas teimosas que seguiam para os seios. Samantha suspirou agastado e gemeu baixinho na proporção em que a Gutierrez sentiu uma contração gostosa no baixo ventre. Aquela mulher lhe deixava louca sem nem precisar lhe tocar. Sentindo a língua quente de Lica percorrer sua pele em desenhos aleatórios, os lábios marcando por onde passavam, Samantha fechou os olhos e entreabriu a boca, deixando escapar ao vento gemido um pouco mais alto que o anterior.

Lica riu durante sua brincadeirinha provocativa contra a pele dela, fazendo Samantha estremecer e dirigir as mãos para os cabelos dela, como se a guiasse. Como se Heloísa precisasse de guia e não conhece cada centímetro, cada reentrância de seu corpo. Apertou mais forte quando sua mulher deixou uma mordidinha afoita em um mamilo intumescido. E como se o paladar não fosse suficiente, Lica resolveu usar do tato: espalmou uma mão em um seio enquanto brincava com a boca no outro. Com a mão que ainda segurava a taça, derramou mais um pouco de champanhe sem tirar os lábios de onde estava e sorveu o líquido misturado ao gosto da pele de Samantha. Sem se aguentar mais, empurrou gentilmente sua mulher contra o parapeito da varanda. A empresária se apoio nele com os braços e se abriu inteira para ela em uma súplica silenciosa.

Lica que não se faria de rogada, porque de rogada... ela não tinha nada. Tinha era de necessitada.

Foi descendo uma carreira de beijos pela barriga, baixo ventre, até chegar no meio das pernas de Samantha. Virou a taça de champanhe de uma vez só antes de reclamar com a boca a intimidade dela. Envolveu-a com os lábios, sugando lentamente, fazendo sua mulher estremecer sem pudor nenhum e lhe devolver o gesto com uma insinuação do quadril para frente, apertando-a mais contra si. Em sua língua, Samantha gemeu e choramingou e quando Lica pensou que não tinha como ficar melhor, sentiu o aroma e sabor levemente adocicado do champanhe em sua boa novamente. Olhando para cima, viu que sua esposa tinha a própria taça em mãos e derramava o líquido exatamente na região onde Lica trabalhava.

Samantha Lambertini e champanhe demi-sec tinha acabado de se tornar sua mistura preferida no mundo. Invadiu sua esposa com a língua sem dó nem piedade, guiada pelo desejo e pela necessidade. Tocou um ponto sensível, porque sentiu Samantha apertando-se mais contra ela e soltado um gritinho sôfrego. Repetiu o movimento, envolvendo a intimidade dela toda com os lábios, enquanto com a língua, massageava o ponto de prazer dela. Sentiu as unhas de sua mulher arranharem em desespero sua nuca, apertando-lhe os cabelos e pressionando-a contra si. Lica não teve outra saída, que não largar a taça de champanhe e guiar as duas mãos para a bunda de Samantha, onde segurou com firmeza, colocando-se por inteiro no meio das pernas dela. Necessitada, ela passou o joelho da empresária por cima de seu ombro, deixando-a praticamente sentada sobre si. Samantha rebolou sem pena nenhuma dela, apoiando-se um braço no parapeito, o outro, mantendo a cabeça de Lica onde tinha que estar.

Quanto tempo passaram naquela posição, não sabiam dizer, mas a última lembrança que Samantha teve foi Lica embaixo dela, com o rosto desaparecido no meio de suas pernas dizendo um “vem pra mim, Sammy” abafado e sôfrego. Ah, e ela foi. Já dizia sua música “se o amor chamasse, ela iria”. Foi mesmo e com vontade. Deixou-se derramar inteira sobre Lica, matando a sede dela ou talvez só tornando-a ainda maior. Quando as ondas de prazer se expandiram de seu baixo ventre para todo seu corpo em torrentes incontroláveis, Samantha permitiu-se extravasar tudo com um grito sôfrego e desesperado. Se os demais hóspedes do hotel ouviriam, azar o deles. Estava em lua de mel, sua mulher estava lhe fodendo com vontade, estava gostoso, ela não que não iria se conter em mostrar aos quatro cantos do mundo que passava muito bem, obrigada, quando o assunto era sexo e Heloísa.

Teve que se segurar no parapeito da varanda para não vacilar nas próprias pernas, as quais ela mal sentia depois que o torpor todo começou a se esvair de seu corpo. Lica retornou para ela deixando um trilha quente de beijos pelo seu corpo, parando na boca e olha... ela tinha que admitir: seu gosto com champanhe com Heloísa era assim algo perto de um néctar dos deuses.

- Cansou? – Lica quis saber, com um sorriso travesso no rosto. Ela era maluca ou o quê?

Samantha respondeu de outro jeito, porque palavras não dariam conta. Deixou um beijo desesperado nos lábios dela, terminou com uma mordidinha, caminhou até a piscina e pulou lá dentro, nadando até a borda oposta. A água azul cristalina permitia entrever a claridade proveniente das luminárias na parte de baixo do azulejo e aquele efeito só fez Samantha parecer que estava brilhando. Talvez ela o estivesse mesmo. E querendo. Querendo muito.

A Lambertini ergueu a mão e com o indicador, chamou Lica com uma sobrancelha arqueada. Sem nem pestanejar, Heloísa se desfez com pressa do próprio pijama, deixou jogado ali mesmo no chão e pulou na água, indo emergir diante de Samantha. Nem sentiu o frio que tomou conta de seu corpo, porque o calor que emanava de sua mulher seria suficiente para aquecê-la e coloca-la em fogo. Já estava em fogo.

- Te amo – foi tudo que disse, antes de tomar a boca de Samantha para si. Beijou, mordiscou, as línguas serpentearam... pareciam querer se fundir, mas para isso... – Samantha....

- Ssshhh... – a empresária entoou baixinho no meio do beijo – Vem comigo.

E lenta e delicadamente, Samantha penetrou um dedo. Beijou Lica com mais intensidade, quando entrou com outro. Gemeu em deleite e enfiou os dentes nos lábios dela, quando sentiu ela lhe repetir o gesto e juntas, uma dando prazer à outra, iniciaram aquela coreografia na qual eram experts. Com a mão livre, Samantha espalmou as costas de Lica, trazendo-a mais para si, fincando as unhas na pele dela. Dor foi a última coisa que ela sentiu. Chegaram a um ponto em que o silêncio da noite era cortado apenas pelos gemidos e gritinhos abafados, pelas interjeições de prazer e pela agitação da água da piscina denunciando o que faziam.

Em determinado ponto da noite, e elas realmente não faziam ideia de como tinham terminado daquele jeito, Samantha estava recostada de pernas abertas na parte mais rasa da piscina, sobre uns batentes que faziam as vezes de escada, enquanto tinha Lica com o rosto enfiado no meio e, meio deitada, meio sentada, dava prazer à sua mulher na mesma proporção em que recebia. Lica fazia peripécias com a língua e ela com os dedos. E depois disso, mesmo com os corpos pedindo socorro em exaustão, a empresária ainda se viu exercendo todo seu poder de equilíbrio quando literalmente ajoelhou-se sobre o rosto de Heloísa, permitindo-lhe que ela fizesse o que queria e bem entendesse com sua intimidade pairando sobre sua boca.

Completamente acabadas, mas satisfeitíssimas, se embolaram toda numa espreguiçadeira acolchoada que havia ali, em silêncio, apenas contemplando a imensidão negra que se erguia acima, parecendo um manto aveludado salpicado de pequenas estrelas e apreciando o barulho do mar à frente. Samantha queria contar quantos pontinhos haviam no céu, mas sempre se perdia levada pelo toque sutil de sua esposa e o conforto e relaxamento que só ela lhe proporcionava. Parecia clichê, mas se fosse um sonho, por favor, que não a acordassem. Não agora.

- Contente? – Lica perguntou, enfiando aquele nariz de nós todos nos cabelos de sua mulher.

- Feliz – Samantha devolveu e apertou-a mais contra si – Tão feliz que não cabe em mim – e virou-se para ela – Obrigada por tudo, meu amor. Por isso, por esse momento, por todos os outros... obrigada por tudo que você é e traz pra minha vida.

Seria eufemismo dizer que Lica se sentira gigante. Só Samantha mesmo para fazê-la assim. Riu baixinho e inspirou o restinho de perfume que ainda exalava dela.

- Eu te amo, Samantha – ela entoou – Acho que isso explica muita coisa. E eu prometo que vou cuidar de você como meu bem mais precioso, zelar pela nossa relação e te fazer a mulher mais feliz desse mundo inteirinho. Melhor! Da galáxia inteira! A mulher mais feliz da galáxia! Prometo de dedinho.

E estendeu o mindinho para Samantha entrelaçar, o que ela o fez sem nem hesitar. E ao gesto, as alianças se tocaram em um leve tilintar. Duas argolas fininhas e dourada com os nomes uma da outra gravadas no interior da forma mais clichê do mundo. “Lica da Sammy” na de Heloísa. E “Sammy da Lica”, na de Samantha. Nem tinha como ser diferente, porque era a única certeza que as duas possuíam na vida: uma ser da outra. Não no sentido de posse, mas no sentido de entrega. As “duas minas mais pegadoras da escola” e que “não se entregavam fácil” haviam se colocado uma nas mãos da outra para finalmente poderem sentir. Talvez fosse aquele o sentido de tudo, de todos os rolos, de todos os problemas, de todos os casos e percalços do caminho: elas serem juntas.

- Juntinhas? – Samantha quis selar mais uma vez o acordo.

- Juntinhas sempre – e Lica atendeu ao chamado dela como era para ser.

(...)

Os seis dias que se seguiram permitiram a elas notaram coisas pontuais uma sobre a outra que talvez só o fenômeno chamado “casamento” seja capaz de desnudar: Samantha percebeu que Lica era meio bocó para certas coisas e se distraía fácil com tudo. No terceiro dia, foram fazer um passeio de lancha e ela quase ficara esquecida em uma ilha no meio do nada, porque se afastara demais do grupo para fazer umas fotos. Samantha, de tão absorta que estava, conversando com o guia sobre as atrações da região, só foi dar falta dela quando se virou para o lado e viu o assento da lancha vazio. Lica lhe gritava com os braços para cima e a plenos pulmões lá de onde tinham acabado de sair.

O bocó ficava na questão “mulheres”. Começou com a comissária de bordo, passou pela garçonete do hotel, a garçonete da barraca da praia, a atendente da agência de turismo onde reservaram um pacote de passeios... todas elas faltavam esfregar os seios na cara de sua mulher e ligar uma plaquinha neon sobre as cabeças dizendo um “ei, olha pra mim e veja como sou gostosa”, mas Lica mesma... ou não notava ou se fazia de doida. Samantha acreditava que fosse a primeira opção, porque em mais de um desses episódios, flagrou sua esposa mirando-lhe completamente atônita e abobalhada enquanto as atendentes e as garçonetes lhe lançavam olhares furtivos e sugestivos. Amou saber que no fim das contas, “Lica ser bocó” significada “ser doida por ela e não ter olhos para mais ninguém”.

Já Samantha... em casa, Lica já sabia da fama de general do “tirou, botou no lugar” e do “sujou, vai ter que limpar”. Mas isso parecia ter subido a níveis absurdos durante aquela viagem. Mais de uma vez, Samantha arremessou peças de roupa dela dizendo que estavam sujas e que não era para misturar com as roupas limpas.

- Samantha, eu não lembro de ter usado essa camisa – Lica cheirou a peça e a ela parecia limpinha.

- Heloísa, ela tem uma mancha do caldo de sururu que a gente comeu ontem, pelo amor de Deus! Será que nem no que você veste, você presta atenção? Não mistura com as roupas limpas, que daqui a pouco seu guarda roupas inteiro está só a peixaria.

Lica virou a peça e se deparou com a tal mancha. Bom... lembram da parte do “distraída...”?

- Caramba, é mesmo. Eu nem tinha visto – e jogou a peça no primeiro cesto que viu por ali.

- Lica, isso é o lixo! – Samantha correu lá para pegar e devolver a camisa para ela com um brilho colérico nos olhos – As roupas sujas estão ali pro pessoal do hotel recolher... – a empresária choramingou.

- Ih... desculpa, amor – Lica se aproximou dela e deixou um beijinho nos lábios – Eu vou recolher as roupas sujas. Hoje a gente podia sair pra dançar, sabia? Eu soube de um lugar aqui que....

Do que era que Samantha estava reclamando mesmo?

(...)

Dizem que é na rotina que as relações são testadas verdadeiramente. É na repetição, no convívio, nas observações do dia a dia e nas inobservâncias também. No quesito “rotina familiar”, Lica e Samantha realmente não tinham do que reclamar. Estavam no mesmo passo, na mesma página e eram raríssimos os momentos em que uma se desencontrava da outra. E quando isso acontecia, não era nada que uma boa conversa e uns puxões de orelha não resolvessem. Acordavam cedo, deixavam Marina na escola e de lá iam cada uma cuidar de seus afazeres. Enquanto Samantha passava a manhã com a cara enfiada em contratos e participando de reuniões infindáveis, Lica mergulhava de corpo e alma na escola de seu avô guiada por Clara e Bóris.

No almoço, geralmente Lica ia com Marina para casa e Samantha as encontrava lá. À tarde, a Lambertini deixava a filha na atividade extra curricular do dia e retornava para a empresa enquanto Heloísa seguia para a galeria. Isso quando Lica não arrastava a filha junto. E lembram dos momentos de desencontros? Pois bem, eles geralmente aconteciam quando Marina aparecia lavada de tinta até a alma depois das peripécias que aprontava com a outra mãe com um pincel na mão e uma tela em branco.

- Vem cá, o quadro era você? – Samantha ralhou de mão na cintura e tudo, bem mãe raivosa mesmo, e a cara de pouquíssimos amigos – Lica, olha a cor da nossa filha!

- Samantha, arte é assim. A Mari só estava se expressando. Deixa ela.

- Deixar ela? Deixar? A menina me aparece coberta de tinta parecendo um... um... e você vem me pedir pra deixar ela? Não, Lica, eu não vou deixar a Marina. Eu crio minha filha pra andar limpinha e cheirosinha, não toda suja por aí! NO SOFÁ NÃO, MARINA LAMBERTINI! – ela berrou quando viu pelo canto do olho a filha indo se instalar muito bem obrigada em seu estofado impecável, estando coberta de tinta verde nos braços e no short.

- Sammy... – Lica tentou ser cautelosa, pisou em ovos, mas há momentos em que não dá – Você está de TPM, não está?

- EU NÃO ESTOU DE TPM, HELOÍSA! – ela respirou fundo – Trata de limpar nossa filha e vê se toma um banho também ou na minha cama, você não deita.

Sim, ela estava de TPM. Lica não julgou: também tinha seus momentos. Sempre terminavam mesmo do melhor jeito possível, uma nos braços da outra e com Marina no meio lendo alguma historinha ou fazendo seus rabiscos. O que era uma TPM perto disso? Lica já levou um tiro, ajudou a colocar três bandidos na cadeia, arriscou a própria vida para salvar quem não merecia... a montanha russa emocional de sua mulher era fichinha.

Mas como toda família tradicional brasileira, aquela ali também tinha seus problemas. Nem tudo são flores afinal, e se o fosse, estaria geral reclamando de tédio. Lica nunca tinha feito tanto exame na vida. Sério, não aguentava mais visitar hospital, enfrentar salas de espera, gente que parecia ter prazer em lhe espetar com agulhas... checa dali, remarca consulta dali... Ao menos fazia isso ao lado de Samantha. E em sendo sincera, aquilo tudo seria só o percalço antes da bonança.

Em fevereiro, receberam a melhor notícia que poderiam receber naquele momento: tudo em ordem, poderiam fazer a inseminação no mês seguinte. O passatempo de Samantha agora era escolher um doador que tinha características físicas semelhantes às suas. Os cabelos cacheados e aquela boca maravilhosa foram uma exigência de Lica. Como ela mesma dizia “nosso Limanthinho vai ser a mistura perfeito de nós duas”.

- Eu quero que ela ou ele tenha seu nariz – Samantha externou um dia.

- Filho de nariguda, narigudinho é – Lica brincou enquanto terminava de escorrer uma massa – A gente tem que começar a pensar nos nomes, Sammy. Nosso filho não pode nascer sem saber como vai ser chamado. Ele pode ter uma crise de identidade.

Samantha riu pelo nariz. Se não fosse apressada, não seria Heloísa.

- Calma, tá? Vamos primeiro fazer a inseminação, providenciar todos os exames direitinhos e aí depois a gente pensa com calma no nome – e vendo a cara de Lica... – Amor, a gente vai ter todo o tempo do mundo. E outra: nosso Limanthinho não é nem uma sementinha ainda. Cada coisa no tempo certo.

Só que o tempo certo, ele não veio.

As recomendações médicas eram claras: repouso, evitar desgaste e estresse, nada de baques emocionais. A única coisa que Samantha teria que fazer era cuidar de si mesma e aguardar. Bom, ela cuidou de si. Lica também o fez em uma escala que beirou o absurdo, mas mesmo assim... nada impediu que um belo dia a empresária acordasse incomodada com uma cólica chatinha lhe latejando o baixo ventre. Ela conhecia aquela dor. Conhecia e sabia o que ela queria dizer. O prenúncio de que dali a uns dias ela estaria de novo em uma TPM. E o indício de que tudo pelo qual vinha lutando e se esforçando nos últimos meses não tinha dado certo.

A comprovação veio em um teste de farmácia comprado às pressas numa manhã qualquer. O negativo diante de seus olhos naquele bastão parecia lhe atingir com a sutileza de marretadas. Samantha sacudiu o objeto, arremessou-o na parede do banheiro, chorou, quis socar o espelho, se desesperou a ponto de protagonizar uma cena digna de novela das vinte e uma: recostou-se na parede e saiu deslizando até o chão. Foi acudida por Lica, que entrou no banheiro na intenção de usá-lo.

A Gutierrez quase caiu dura ao ver sua mulher indefesa e com o rosto lavado em lágrimas encolhida no canto do aposento. Não precisou de muito para entender o que havia se sucedido. Ao deixar Samantha tomando um chá debaixo de mil cobertores, Lica retornou para tomar um banho e encontrou o bastãozinho jogado no chão perto da lixeira. Não mentiu que buscou na internet o que um tracinho apenas queria dizer. E suplicou aos céus de que o Google estivesse errado, mas dado ao estado de Samantha....

Foram dias difíceis, dos mais torturantes. A empresária calada demais, na sua, enquanto Lica tentava a todo custo amenizar a situação. Numa noite qualquer, depois de colocar Marina na cama, foi o jeito cercar Samantha de modo que ela não tivesse escapatória. Odiava aquilo, mas precisava que sua mulher saísse daquela torpor em que parecia haver entrado.

- Samantha, olha pra mim – Lica pediu pela milésima vez desde que havia se sentado ali na beirada da cama enquanto a Lambertini fingia ler um livro – Você está há cinco minutos na mesma página e na mesma linha, se parar com isso, pode ser mais fácil.

A muito custo, Samantha aceitou o olhar dela. Não sabia nem o que encontrar ali. Parecia que Lica sentia tudo e ao mesmo tempo, nada. A Gutierrez suspirou e se aproximou, se arrastando sobre o colchão, gentilmente tirando o livro das mãos dela.

- Eu não quero falar sobre isso – Samantha tinha tornado o assunto da inseminação mal sucedida quase um tabu dentro daquela casa. Um tabu entre ela e Lica. Só que a Gutierrez mesma não aguentava mais. Sua mulher precisava lhe ouvir.

- Mas a gente vai ter que falar, porque eu preciso que você me escute – Lica suspirou antes de continuar – Samantha, a gente tem uma vida inteira pela frente. Eu sei que é ruim, que é... horrível a gente ver nossas expectativas não se concretizarem, só que o que a gente pode fazer é ir à diante – recostou-se à cabeceira e trouxe Samantha para junto de si, iniciando um carinho nos cabelos dela.

- Eu frustrei você, Lica.

Oi?

- Samantha, presta atenção numa coisa – Lica a afastou para poder olhá-la diretamente – Eu não vou mentir que fiquei mal. Fiquei sim, tanto quanto você, só que se tem uma coisa que eu não estou, é frustrada com você. É um procedimento que tem chances de dar certo e de dar errado. A gente só deu a má sorte de ficar no lado errado da equação. Em momento nenhum eu te culpei por isso, Sammy, e acredite: eu não vou fazer isso. Não fiz e nem vou fazer nunca. São coisas que acontecem. É ruim? É, mas é mais natural do que a gente pensa.

- Lica, seria nosso fil....

A Gutierrez nem deixou que ela continuasse.

- Samantha... pode ser nosso filho. Ninguém disse que porque não deu certo agora, não pode dar depois. E outra... não seria nosso primeiro filho, né? Tem uma bacurizinha danada pra cacete dormindo no quarto da frente e ela me chama de mãe, então... – Lica riu e finalmente conseguiu colocar uma expressão amena no rosto da mulher que amava depois de dias naquela situação – Já diria a poeta contemporânea Karol Conka: seja o que tiver que ser, seja o que quiser ser... se for pra ser, ótimo, nós vamos ser as mulheres mais felizes do mundo. Mas se não... a gente bate a poeira e vai pra frente.

Samantha suspirou cansada e engatinhou de volta para o colo de Heloísa.

- Eu sei o que está se passando nessa sua cabeça – Lica disse, apertando-a contra si – E se você ao menos pensar em me pedir desculpa por qualquer coisa, a gente vai ter uma briga feia aqui. E a gente não pode brigar feio, porque mal fizemos quatro meses de casadas e nossa filha não merece ver as mães dela discutindo. E também porque eu te amo.

Samantha sussurrou um “eu também te amo” de volta, e se permitiu cair na inconsciência agarrada à mulher que amava. Seu maior conforto no mundo, seu lugar de paz.

Aos poucos, com o passar dos dias, ela foi pegando de novo aquele ritmo anterior a tudo. A rotina ajudou bastante. E sua filha também. Marina percebeu que tinha acontecido algo e por causa disso, o apego e chamego com a mãe parecia ter assim triplicado. Pouco mais de um mês depois, Samantha finalmente deu o último passo em retorno ao seu normal quando entrou de cabeça na organização do Fest Gutierrez daquele ano. Clara e Lica faziam aniversário com uma semana de diferença de uma para a outra. Então eram sete dias de festejos. Seria o primeiro aniversário que as duas comemorarias juntas em anos.

Naquela tarde, o Galpão simplesmente ficou apinhado de gente, que Keyla ficou com medo de não caber todo mundo. Juntaram os convidados de Lica e Clara, mais os amigos em comum, mais as famílias.... A coisa toda teve direito até a apresentação dos Lagostins e tudo, e gente participando por vídeo chamada do outro lado do mundo. Felipe deu o ar da graça por meio virtual. Pelo que ele contara, estava morando junto com uma colega do trabalho e seria questão de tempo até quem sabe o casamento. Lica desejou felicidades sinceras, Clara disse esperar que ele fosse um pouco mais ciente do próprio relacionamento dessa vez, MB solto um “aê, Felipinho! Passando o rodo desse lado aí do mundo”, e Samantha gargalhou e soltou um “Gente, quem é essa mulher? Amigo, ‘cê tem certeza que ela te entende quando você fala?”.

- Mamãe, quem é aquele menino? – Marina perguntou nos braços de Lica enquanto equilibrava um pratinho de salgados na mão.

- É o Felipe, filha. É amigo das suas mães. A gente estudou juntos no Grupo. Nos conhecemos quando tínhamos sua idade.

- Ah... – Marina fez uma carinha fofa de entendimento – A barba dele é feia.

Lica se engasgou e Samantha teve que ir lá socorrer a filha, mas não sem antes soltar um “também acho, filhote. O Felipe devia era tirar aquilo. Coisa de adolescente. Nem combina mais com ele”.

Depois do que pareceu um dia inteiro, finalmente todo mundo ali chegou em consenso de que era hora de cantar os parabéns. MB puxou o coro enquanto a vela fazia um verdadeiro show pirotécnico sobre o bolo. No final da música, foi uma confusão só com alguns entoando o nome de Clara e outros o nome de Lica. Um mal entendido, entendido.

A festa terminou no melhor estilo “balada no Galpão” com os amigos mais próximos jogados nos sofá aproveitando os últimos momentos de companhia uns dos outros. MB estava era estatelado mesmo, com as pernas sobre as de Tina, que ralhava por mais espaço enquanto se espremia entre Anderson e Juca.

Para permitir que ela se sentasse mais confortavelmente, e vendo que MB não cederia espaço, Samantha pulou para o colo de Lica permitindo que os demais afastassem. Ficou bem mais confortável ali. Marina, àquela hora, já estava no décimo sono, então resolveram aproveitar e ficaram por ali se curtindo e namorando mesmo sob os olhares alheios. A verdade era que estava todo mundo entretido no próprio mundinho.

Inclusive Ellen, que levara um amigo do trabalho de nome engraçado mas de sorrisão aberto e super simpático (e as meninas já shippavam Ellito antes mesmo de saber se aquilo era sério ou não); e Keyla, que finalmente apresentara um de seus casos a elas, o que as levava a crer que não, aquele ali não seria só mais um. Por coincidência, o rapaz era garoto-propaganda da rede de hotéis de Samantha, o que colaborou para a aprovação geral.

Agora, vamos lá: existe uma expressão grega chamada Kairós, que significa “Tempo de Deus” ou “Tempo certo”. Kairós é o famoso “o que tiver que ser será, no momento em que for para ser”. Do mesmo jeito que existe a tal Lei de Murphy, que diz que tudo que está ruim ainda pode piorar, há o Kairós, que diz que o que está bom, também pode sempre melhorar. Neste exato momento, o Kairós de alguém pode estar acontecendo no mundo. Ou prestes a acontecer.

Lica beijou o pescoço de Samantha e automaticamente, a empresária enfiou o nariz na pele dela, como sempre fazia. Deu uma mordidinha e inspirou fundo.

E sentiu o mundo à sua volta dar um giro em trezentos e sessenta graus ao mesmo tempo em que seu estômago revirou. Separou-se de Heloísa em um átimo, sentindo o bolo que comera mais cedo querendo voltar. Sem entender nada, Lica buscou o olhar dela e encontrou uma expressão....

- Que foi, Sammy? – ela realmente não entendeu – Tudo bem?

- S-sim, quer dizer... mais ou menos – e Samantha fez uma careta para colocar de volta para dentro o bolo de comida que ameaçava voltar – Que perfume horrível é esse, Lica?

- Horrível? – Lica realmente não entendeu e checou as próprias axilas e a própria roupa – É o meu perfume de sempre, Samantha. Aquele francês que você adora. Vem cá, vem – e toda faceira, ela tentou trazer sua mulher para si de novo. Só que Samantha colocou uma cara de nojo, o que fez Lica se retesar – Samantha?

E sem aviso, a Lambertini se levantou de um salto e correu Galpão adentro, direto para o banheiro, onde levantou a tampa do vaso e colocou para fora tudo que havia comido até ali. O movimento chamou a atenção dos demais. De repente havia um burburinho do lado de fora do lavabo e Lica enfiada lá dentro junto com ela, tentando ajudá-la. Mas só fez foi piorar tudo.

- S-Sammy... – ela não entendia nada. Se aproximava e Samantha vomitava de novo. Deus do céu, sua mulher estava com nojo dela?

 - Gente, afasta que a Samantha precisa respirar! – Keyla pediu. Ficou péssima quando Lica contara a ela e às demais sobre a inseminação mal sucedida, mas presenciando aquela cena ali... seu sexto sentido de mãe não falhava. Não mesmo – Lica, chispa daqui!

- Mas a Samantha está passando mal! – ela que não arredaria pé.

- E você aqui só está piorando. Anda, chispa! – Keyla a expulsou – E toma um banho, tá? Passa bastante sabonete e troca de roupa. Procura alguma roupa minha que te sirva.

- Keyla, que porra é essa? – Lica quase gritou, enquanto Samantha ainda permanecia ajoelhada ao vaso.

- Tirem ela daqui! – a general Keyla Romano deus as ordens e seu exército de três pares de mãos obedeceu. Ellen, Tina e Benê arrastaram a amiga casa a dentro. A mãe de Tonico então se virou para Clara, ainda distribuindo imperativos.

Mandou MB, Juca, Anderson e Guto fazerem o que faziam de melhor: nada com coisa nenhuma, mas bem longe dali. Guto ainda resistiu. Foi o que fez Keyla aceitar a ajuda dele. A mãe de Tonico deixou ele com Samantha enquanto corria atrás de uma camisa limpa para ela. Clara havia sumido.

- Ow! – Lica quase berrou na cara de Keyla quando ela irrompeu pela quarto, fuçando o armário – Que porra é essa, Keyla?

Heloísa tinha os cabelos molhados e vestia uma camisa cinza surrada de Keyla e calça moletom preta. Sem dizer nada, Keyla se aproximou da amiga e saiu cheirando-a inteira. O que diabos ela tinha? Enlouquecido? Foi a esse gesto dela, que Tina e Ellen pareceram entender a situação e trocaram um olhar sugestivo. Benê tentou ser prática.

- O que eu faço com as roupas da Lica?

- Coloca pra lavar, Benê, por favor – Keyla pediu.

- Chega! Vocês querem me contar o que está acontecendo? Cadê a Samantha? Eu vou atrás dela!

- Você vai esperar aqui! – Keyla quase gritou e se colocou à frente dela, tapando a porta – Espera aqui, Lica, por favor. Está tudo bem, a Samantha está bem, foi só uma indigestão.

- Será que o bolo estava estragado? – Benê se preocupou – Se sim, todos nós vamos ter uma intoxicação alimentar, já que todos comemos.

- Não, Benê – Tina sorriu pelo nariz – Com certeza não foi o bolo.

- Mano do céu – Ellen ria completamente abobalhada e buscou o olhar de Keyla, que assentiu quase que imperceptivelmente antes de correr porta a fora.

- Eu vou atrás da minha mulher – Lica fez menção de correr, mas foi parada de novo. Dessa vez por uma Marina sonolenta, esfregando os olhinhos, brotando na porta do quarto, de bracinhos estendidos querendo colo.

- Mamãe Lica – chamou fraquinho. Sem saber muito o que fazer, mas sem querer deixar a filha em desalento, Lica a pegou nos braços. Marina enfiou o rostinho na curva do pescoço dela – Você está cheirosa.

- Pelo visto só você acha isso aqui.

(...)

- Na mão – Clara passou a embalagem para Keyla. Samantha riu sem humor nenhum.

- Eu vou chamar a Lica pra ir embora – a empresária negou com a cabeça e se levantou, o que foi um erro. O chão pareceu ondular sob seus pés e ela quis ceder nas próprias pernas. Se apoiou numa coluna e com a ajuda de Clara.

- Samantha, não dificulta – Keyla pediu.

- Eu não vou fazer isso! Sério, o que vocês têm na cabeça?

- Samantha, vai. Não custa nada – Clara suplicou – Eu nunca dirigi tão rápido na vida atrás de uma farmácia vinte e quatro horas. Não faz meu esforço ter sido em vão.

- Desculpa te informar, Clara, mas ele foi em vão. Vocês querem me dar licença?

- Samantha, olha pra mim – Keyla pediu, e como tinha conhecimento de causa... – Você não percebeu nada de diferente nos últimos dias? Em você, eu quero dizer?

- Keyla, eu também já fui, mãe, eu sei quando acontece e acredite, não é o caso. Faz um mês e duas semanas da inseminação, eu senti cólica na semana passada e o teste deu negativo. Pronto? Já posso ir embora agora?

- Passada? – Clara se alarmou – Você sentiu cólica na semana passada e... veio?

- Hã?

- A menstruação, Samantha! – Keyla e Clara exclamaram em uníssono – Ela veio?

Opa.

De tão aturdida que ficara, de tão apegada ao resultado daquele teste que fizera, Samantha sequer se dera ao trabalho de notar que os absorventes que comprara há mais de dez dias continuavam intactos na embalagem na primeira gaveta de seu armário no banheiro. Contar os dias para ver se realmente atrasara ou não foi a última coisa que fez quando tinha um teste de gravidez reluzindo um negativo em sua cara.

E quando o entendimento lhe atingiu....

- Bebe água! – Keyla já tinha o copo em mão. E foram preciso mais três para Samantha sentir o começo da vontade de ir ao banheiro, depois que colocara tudo para fora pela boca minutos antes.

Sentar em um vaso sanitário nunca pareceu tão doloroso para ela. Piorou mais ainda quando ouviu a voz de Lica irromper do lado de fora quase esbravejando e cobrando explicações sobre onde ela estava.

- Ela ainda hoje está nesse banheiro? – quase gritou. E então, as batidas na porta – Samantha, fala comigo! Está tudo bem aí?

- Tudo! – Samantha tentou se manter firme – Está tudo sim, eu só... – engoliu em seco, o coração na boca, martelando com um zumbido chato – Eu saio já. Não precisa se preocupar.

- Tem certeza? Você estava vomitando... – Lica choramingou.

- Vomitar é normal, Lica – Samantha rebateu. E na minha situação, é mais ainda, ela teve vontade de acrescentar. Um sorriso enorme rasgando o próprio rosto. E algumas lágrimas teimosas querendo molhá-lo.

- Vomitar não é normal, Samantha.

- Deve ter sido alguma coisa que ela comeu que não caiu bem – Benê justificou no momento em que ouviram barulho de descarga dentro e a porta se abrindo. Samantha parecia um tanto cansada e abatida. Lica correu até ela.

- Ei... tudo bem?

Sem responder nada, a envolveu em um abraço apertado com direito a fungada no pescoço. E dessa vez, sem enjoo. Bendita seja Keyla Maria e suas sacadas.

- Tudo sim, foi só um mal estar – Samantha entoou firme – Eu te beijaria se não tivesse colocado os bofes pra fora – e riu fraquinho.

Mas foi Lica mesma quem capturou os lábios dela em um beijo rápido.

- Bobagem – é... o amor tem dessas coisas mesmo – Melhor a gente ir, né? Tomar um remédio, um antiácido... se você não melhorar dessa indigestão, a gente vai no médico e nem adianta dizer que não.

- Vai pegando a Marina que eu já encontro vocês – Samantha pediu, teve mais um beijo roubado de Lica e se virou para Keyla e Clara. Tina, Ellen e Benê se juntaram a ela.

- E aí? – Clara perguntou.

- E aí o quê? – Benê realmente não entendeu.

Samantha abriu um sorrisão. O maior sorriso no mundo que alguém pode dar.

- Benê... a Lica me contou uma história uma vez de que quando o Tonico nasceu, você queria dar um nome pra ele que fosse uma combinação dos nomes de vocês.

- Meu Deus! – Clara exclamou e saiu pulando pelo galpão feito uma gazela. Tina foi abraça-la e pular junto, enquanto Keyla envolvia Samantha nos braços junto com Ellen com um “parabéns, mamãe” dito baixinho e Benê ainda tentava processar tudo.

- Sim. Eu sugeri chamar o filho da Keyla de Benellen Tilica. Por quê?

- Curiosidade – Samantha brincou – Eu acho que vou precisar das suas sugestões – e piscou para Benê antes de seguir galpão à fora. Pouco depois, encontrou com Lica perto do carro segurando uma Marina dormindo nos braços. Enquanto Heloísa acomodava a filha segura no banco de trás, a empresária se virou para Keyla e Clara.

- Eu acho que nunca vou esquecer disso que vocês fizeram – brincou.

- Você vai contar quando pra Lica? Porque a minha língua está coçando – Clara bateu palminhas – Aquela desgraçada me deixou pra titia, que ódio!

Samantha gargalhou, o que chamou a atenção de Heloísa logo atrás.

- Amor, vai acordar a Marina!

- Desculpa – Samantha ergueu as mãos em defesa, sorrindo – Eu vou contar pra ela, claro, mas no tempo certo. Antes eu quero fazer os exames, ter toda a certeza do mundo. Com tudo nos conformes, eu falo.

- A Lica vai endoidar – Tina cochichou animada. Só não perceberam uma Heloísa parada ali atrás delas com as mãos na cintura e um olhar inquisidor. Ela estava engraçada usando as roupas de Keyla, Samantha tinha que admitir.

- Vem cá, o que tanto vocês cochicham aí? – quis saber.

- Pelo que entendi, a Saman...

- BENÊ! – as outras cinco berraram em uníssono, fazendo Benedita se calar e se encolher.

- O que tem a Samantha, Benê? – Lica foi no lado mais fraco. Jogo sujo – Conta aqui pra mim, vai.

- Tchau pra quem fica – Samantha deu um beijinho em cada uma e rumou para o carro, entregando as chaves para Lica – Você leva. E apressa, que eu só quero um bom banho e cama. Não esquece que passei mal.

- Eu sei, amor. Mas espera rapidinho, que eu tenho um assunto com a Benê – a Gutierrez seguiu parada – Fala Benê. O que tem a Samantha?

Acuada, Benedita soltou a resposta mais óbvia.

- Você devia perguntar para ela. Ela que é casada com você, não eu.

- Au! – Tina colocou lenha na fogueira.

- Vai ser assim? – Lica fez foi murchar – Beleza, eu só não vou insistir mais porque minha mulher está doente e precisando de colo.

- Eu acho que não é bem doença o que a Samantha tem.

- BENÊ! – cinco vozes em uníssono e uma manhosa no banco de trás do carro.

- Eu tô com soninho – Marina resmungou e virou para o lado, esfregando os olhos.

- Lica! – Samantha chamou firme no banco do passageiro – Anda logo ou eu chamo um carro.

Dando-se por vencida, Lica se despediu da irmã e das amigas e assumiu o volante.

Mas não desistiria fácil. Era um mulher feita, de 26 anos recém completados e não ficaria com respostas pela metade ou sem resposta nenhuma. Naquela noite, antes de dormir, fez sua última tentativa.

- Tem alguma coisa que você queira me contar? – inquiriu a Samantha, com a mulher aconchegada em seus braços tomando um chá de camomila. Desde que haviam chegado, Lica era só preocupação com ela. Até uma canja ela se propôs a fazer para Samantha se ela lhe garantisse que comeria.

- Tem sim – Samantha descansou a xícara sobre o criado mudo e se virou para ela, massageando seus ombros. Respirou fundo – Eu te amo, você é a melhor pessoa do mundo e não precisa se preocupar. Eu só tive uma indigestão mas já estou bem.

- Certeza que isso é tudo? – Lica insistiu, capturando os lábios dela em um beijo terno.

- Um-hum – Samantha negou e mordeu o lábio, pondo-se de joelhos sobre ela – Tem outra coisa que eu quero te contar, mas acho que é melhor na base da mímica.

E sem aviso, tomou Heloísa para si. E, bom... é, de fato Samantha estava muito bem. Bem demais da conta.

E isso ficou atestado em exames devidamente registrados. Tinha marcado com Clara naquela manhã. Sua cunhada apareceu na Meliã por volta das nove horas e de lá seguiram para a clínica onde ela tiraria a prova definitiva de que estava mesmo gestando uma criança. Entrou ainda meio receosa, embora no fundo já sentisse que não tinha mais para onde correr. Aquilo lhe ficou claro quando recebeu o resultado em mãos com um “positivo” em negrito reluzindo a seus olhos e o tempo de gestação comprovando que seu filho no momento tinha... um tamainho menor que um caroço de ervilha. Mas ainda assim, ele existia. Ele definitivamente existia.

Lica ia pirar quando soubesse. Talvez não tanto quanto a pessoa ao seu lado, que saiu dando pulinhos e gritinhos animados pelo meio da recepção da clínica entoando um “eu vou ser tia. Você sabia que eu vou ser tia?” para todo mundo que aparecia.

Foram comemorar a boa nova em um café antes de se separarem e ir cada uma de volta a seu afazeres. E bastou Clara passar pela porta para a torrente Heloísa Gutierrez vir com tudo.

- Que porra é essa, Clara? – ela ralhou com uma expressão nada amigável – Você esqueceu que tinha reunião hoje? O encontro de pais e mestres? Começa daqui a pouco e eu vim mais cedo pra gente poder discutir umas coisas e aí você vem e resolve chegar atrasada....

Clara perdeu completamente o fio da meada, a voz de sua irmã se tornou tão somente um eco difuso à medida que ela contemplava os jeitos e trejeitos dela indo e voltando, gesticulando as mãos, se atropelando nas palavras, fazendo caras e bocas enquanto falava, claramente em um monólogo. Era tão, mas tão fofo. Será que seu sobrinho seria assim? Ou sobrinha, né? Será que ele ou ela teria aquele jeito maluco de demonstrar insatisfação? Será que franziria a testa quando falasse levado demais pela emoção? Será que sacudiria as mãos em impaciência? Será que ele seria impaciente? Se puxasse para aquela mãe ali, as chances eram enormes.

A diretora do Grupo se viu rindo feito uma completa bocó.

- ... e aí se a gente chegar lá sem ter nem combinado direito o que vai falar, vai pegar mal porque vão dizer que... – Lica encontrou Clara rindo para o nada com um brilho esquisito nos olhos – Clara! – caminhou até ela e estalou os dedos na frente do rosto – Clara, que merda tá acontecendo?

Só assim a Gutierrez mais nova saiu de seu torpor.

- Nada, nada! Eu só estava pensando – externou o óbvio e se virou para sua mesa – Você é tão engraçada, Lica – e soltou do nada – Eu acho fofo esse seu jeito meio desastrado e emocionado demais.

- Eu? – ok, tinha algo de muito errado ali – Você está me chamando de fofa e dizendo que eu sou engraçada? Bebeu?

- Não, eu só... – Clara suspirou. Se Samantha lhe visse dando tanta bandeira, provavelmente teria um troço – Ai, você tira a emoção toda da coisa!

- Que coisa, Clara? – Lica realmente não entendia – Tem um encontro daqui a pouco com os pais dos alunos e você está aí sem falar coisa com coisa e atrasada! A gente pode discutir a reunião?

(...)

Samantha saiu mais cedo da empresa naquela noite. Deixara com Lica a missão de pegar Marina na aula de violão e se pôs a preparar um jantar especial. Até pensou em contar logo para sua mulher que sim, tudo não passara de um mal entendido e que de fato estava grávida, esperando o filho que tanto haviam planejado. Mas no meio do caminho deu para trás, porque queria que o momento fosse o mais perfeito de todos. E também porque ainda estava muito no comecinho da gestação. Preferiu esperar mais algumas semanas para ter certeza de que tudo realmente correria bem e que poderia contar a Lica com segurança que elas teriam sim o Limanthinho delas. Criar expectativas demais no momento era tudo que ela não precisava.

Estava absorta checando se o molho de seu ravióli estava no ponto certo quando ouviu chaves girarem na fechadura e por ela passar as duas criaturas mais barulhentas que ela conhecia na vida. Sério, quando Lica e Marina estavam, silêncio decididamente era uma palavra que não existia. E dessa vez, elas tinham um companheiro a mais. Um quadro quase do tamanho da Gutierrez que ela trazia seguro nas mãos enquanto pedia para a filha sair do meio porque poderia machuca-la.

- Mamãe, a gente chegou! – Marina gritou lá da sala e irrompendo na cozinha com tudo. Bem atraída pelo cheiro da comida.

- Até que enfim! Pensei que tinham se perdido no caminho – Samantha se agachou para receber a filha. Marina pediu colo, mas um-hum. Ela começaria a cortar aquilo. A menina estava espichando e ela mesma não poderia mais colocar muito peso. Tinha uma outra criança dentro dela. Levantou-se com a filha nos braços, dizendo logo que era para ir perdendo o costume, e encontrou com Lica depositando cuidadosamente um quadro embrulhado na parede oposta da sala – Que é isso?

- Isso é pra depois – Lica anunciou e caminhou até ela, deixando um beijinho nos lábios – Oi – veio toda sorridente.

- Você me viu não tem nem cinco horas direito, Heloísa – Samantha brincou e buscou os lábios dela novamente.

- Sério? Pra mim pareceram assim cinco séculos! – e roubou mais um beijo antes de esticar o pescoço para a cozinha onde uma panela fervia algo – ‘Cê preparou o jantar?

- Umhum. E vocês vão me fazer perder o ponto do meu molho – Samantha suspirou e depositou Marina no chão – E você, MiniMe, pode ir tratando de achar o caminho do banheiro. Bora!

Marina nem reclamou naquela noite. Lica seguiu a filha para tomar seu banho, entoando um “a sobremesa é comigo!” antes de virar no corredor. E Samantha queria não ter se apegado ao duplo sentido que aquela frase continha.

E sim, a sobremesa realmente ficou com Lica e era nada melhor que um belo de um bolo de cenoura com cobertura de chocolate que ela fizera em tempo recorde enquanto jantavam. Estavam as três esparramadas no sofá da sala com Marina esticada sobre Samantha, tentando montar um cubo mágico enquanto devorava uma fatia generosa de bolo.

- Mamãe, o amarelo não junta com o outro amarelo – e mostrou o cubo para Samantha.

- Tenta girar esse outro aqui ó – a empresária apontou para o outro lado. Marina fez o movimento e finalmente deixou um lado todo amarelo. A menina vibrou sobre o colo da mãe e foi toda exibida mostrar sua façanha para Heloísa, que estava concentradíssima em terminar seu quebra cabeça.

- Mamãe Lica, ganhei.

Lica levantou a vista e soltou um muxoxo.

- Isso foi injusto – ela arriou os ombros – Sua mãe te ajudou no final que eu vi. E eu não tive ajuda de ninguém – apontou para o quebra-cabeça da Capitã Marvel montado pela metade no chão.

- Eu montei duas fileiras de peças – Samantha falou lá de onde estava, ainda concentradíssima em sua leitura – Só pra constar.

Marina riu esganiçado e isso amoleceu Lica inteira.

- Tudo bem, eu me dou por vencida – e sem aviso, começou uma sequência de cócegas na menina que gargalhou e se contorceu toda sobre as pernas de Samantha.

- E era uma vez minha leitura. Será que vocês duas nunca desligam? – ela meio ralhou, meio entrou na delas, desligando o kindle – Querem ajuda pro quebra-cabeça?

- Um-hum – Lica negou com a cabeça – A gente quer sua ajuda sim, mas com outra coisa.

- Que coisa? – Samantha realmente não entendeu – Por favor, nada que envolva sair de casa ou pensar demais.

Lica se levantou sorrindo e roubou um beijo dos lábios dela dirigindo-se até o quadro com o qual chegara em mãos.

- Não envolve sair de casa, nem pensar muito. Eu só preciso que você use seu senso estético e me diga o que acha desse quadro aqui. É uma co-criação.

- Co-criação? – Samantha repetiu intrigada e se ajeitou no sofá. Marina na mesma hora correu para o colo dela.

- É o meu quadro com a mamãe Lica, mamãe – anunciou toda orgulhosa.

- Oi? Vem cá, e você já está pintando quadro desse tamanho? – ela inchou de orgulho – Mas é muito artista mesmo minha filhota, meu Deus! – e encheu Marina de beijinhos. Um Marina cheia de si e gargalhando esganiçado.

- Justamente. Isso só prova que nossa filha aqui já é a maior artista que essa cidade vai ver – deixou um beijinho carinhoso nos cachinhos dela, enquanto posicionava o quadro diante de Samantha.

- Gente, agora eu estou curiosa. O que foi que vocês fizeram aí? Você vai expor na galeria?

- Eu ainda não pensei nisso – Lica foi despretensiosa – Mas se for, vou precisar da sua autorização antes – e vendo a cara de Samantha... – Pode desembrulhar.

A empresária o fez um tanto cautelosa demais. Lentamente, desfez a parte de cima do embrulho e foi aos poucos desnudando a tela à sua frente. E não precisou nem chegar na metade para perder o fôlego. Se reconheceu em um olhar e no olhar. E depois no nariz, na boca (claro, inconfundível), em cada traço e em cada pincelada. O rosto de uma Samantha encarando majestosamente quem a encarava de volta. Um sorrisinho de canto de lábio, a expressão relaxada e um tanto displicente como quem diz nas entrelinhas “eu sou demais, se achar que não: prove”. Ninguém provaria, porque, enfim... sim, ela era demais.

Uma Samantha em cores quentes, cores vivas, um sol todinho como Lica costumava dizer. Prendia, aquecia o olhar de quem se atrevesse a mirar, ao mesmo tempo que fazia queimar com aquela beleza única de menina-mulher. Ardia. Samantha parecia arder naquele frame. Arder e inflamar também.

- S-sou eu? – nem julguem, porque nem tinha como não ser incerta nas palavras. Aliás, estas lhe faltaram – Vocês me desenharam?

- A ideia foi da Mari – Lica deu todos os créditos – Eu só fiz os traços. Quem deu as pinceladas e preencheu tudo, foi ela. Nos detalhes eu guiei, mas de resto... é tudo by Marina Lambertini.

- Você gostou, mamãe?

Samantha soltou aquela lágrima teimosa. Poderia culpar a gravidez que parecia começar a deixar seus hormônios à flor da pele. Poderia culpar sua rinite querendo atacar, mas tinha como negar que era por causa daqueles dois seres ali na frente dela todas suas lágrimas de alegria e encantamento?

- Eu adorei, filha... eu... – nem tinha muito o que dizer não – Está lindo! Lindo, lindo, lindo, meu amor! – e abriu os braços para aconchegar Marina ali bem apertado – É a coisa mais linda que eu já vi!

- Ah, eu também acho – Lica brincou – Concordo... essa modelo aqui ó... – e fez um joinha com as mãos.

- Ai, para sua besta! – Samantha corou.

Oi? Em que mundo paralelo elas tinham entrado? Samantha “dona da porra toda” Lambertini corando para um elogio? Ela não se empertigou, ela não se achou, ela... ficou vermelha? E sem jeito?

- Ih... ficou tímida agora? – Lica provocou. Samantha derramava uma cascata todinha de seus olhos já – Meu Deus, Sammy, não era esse o efeito que a gente queria – riu e puxou a mulher para o próprio colo com Marina agarrada a ela – Cadê minha leoa rainha dessa selva aqui?

- Para, Lica! – Samantha enfiou o rosto no pescoço de Heloísa, que gargalhou com vontade, ganhando um tapa em resposta – Eu não posso me derreter por minha mulher e minha filha?

- Pode sim, claro que pode – Lica respondeu rindo baixinho, enterrando o nariz nos cabelos dela – Inclusive eu adoro te ver toda derretidinha assim. E fico toda boba sabendo que é por nossa causa. Te amo, minha tigresa.

Em resposta, Lica recebeu uma mordidinha gostosa no pescoço, onde Samantha seguia com o rosto enfiado. Ficaria uma marca, mas e daí? Como boa tigresa ou como boa leoa que era, ela marcaria território sim. No fim das contas, era isso: Lica e Marina eram seu habitat natural. Não queria e nem podia estar em outro lugar.


Notas Finais


Parece que vem aí mesmo rsrsrs.
Ainda bem que deu tudo certo, porque nem eu aguento mais tombo na vida nesta fic. Samantha oficialmente grávida do Limanthinho ou Limanthinha, amém. E essa família tradicional brasileira sendo linda. Acho que nem tem muito o que dizer. Só esperar a Lica cair dura quando souber que vai ser mãe de novo, e que dessa vez talvez venha mesmo um tucaninho.
PS: no próximo capítulo, vamos poder matar saudades de um personagem que eu tenho certeza que todo mundo aqui está ansioso pra ver (ou não, né?) kkkkkkkkkk. Mas não é tombo não, viu? Eu espero.
PS2: Palmas pra Keyla Maria e seu senso de maternidade. E eu acho que a Lica vai ter um pequeno probleminha com os sabonetes franceses dela por um tempo kkkkkkkkkkkkk.

No mais, eu agradeço a leitura e nos vemos no próximo capítulo.


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