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História Mil Acasos - Capítulo 53


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, minha gente! Tudo certo com vocês?
Olha, eu tentei postar ontem aqui, mas o site do Spirit parece que andou caindo e não consegui, então estou vindo hoje com o capítulo hoje.
Ele virou o penúltimo, então ainda teremos mais um capítulo, o último, no final de semana que vem, creio eu. No mais, vamos ao de hoje e sobre ele: Lica, eu quero te matar.

Boa leitura!

Capítulo 53 - Completude


O que te faz entrar em estado de elevação? Tem gente que consegue isso ouvindo música. Tem gente que recorre a químicos. Tem gente que se coloca no limite do próprio corpo, que sente na aventura, no risco, a plenitude na alma. E tem gente que consegue se elevar com coisas mais simples como... um bate-papo aninado entre a esposa e seu filho que sequer nasceu ainda. Relaxamento, conforto e Lica.

- ... e aí, mini Mozinho, eu vou te ensinar um monte de coisa. Vou te ensinar a andar de bicicleta, vou te ensinar a desenhar, a pular catraca....

E há momentos em que a realidade é dura demais para que você consiga se manter elevado.

- Pular catraca, Lica? – Samantha ralhou interrompendo aquela conversa dela com sua barriga – Nenhum filho meu vai pular catraca.

- Samantha, pular catraca é um ato político. É uma forma de você mostrar que não existe opressão que nos cala, de você se fazer ser visto e ouvido pelo mundo.

- E nosso filho não pode ser visto e ouvido pelo mundo sei lá... compondo uma música ou fazendo um show? Dando uma entrevista na TV? Tem que ser pulando catraca. Ele vai ser é preso, isso sim.

- Tudo bem, Donatello, a mamãe só não entende a essência da coisa, mas ela vai concordar com a gente depois.

- Donatello? – Samantha repetiu se ajeitando na cama e quase chutando Lica de cima dela. A mulher tinha o rosto na altura de seu ventre – E quem disse que nosso filho vai se chamar Donatello, Lica?

- Qual o problema? – a Gutierrez se ajeitou na cama parecendo um tanto decepcionada – Donatello é um escultor renascentista dos mais influentes.

- Donatello também é o nome de uma Tartaruga Ninja! – os hormônios, eles já estavam fervilhando e Lica, ela parecia lhe testar – Vai querer também o Michelangelo? O Rafael e o Leonardo?

- Se você quiser... eu não reclamaria. Inclusive a gente pode ir começando a treinar, né? – Heloísa veio toda faceira para cima da mulher, mas se enganou se pensou que conseguiria algo. Ou melhor, conseguiu sim. Só não foi o que queria.

- Continua chamando meu filho de Tartaruga Ninja pra você ver o treino que a gente vai fazer – e sem aviso, Samantha se levantou da cama para ir ver Marina. A menina estava demorando demais no banho e dali a pouco esvaziaria a caixa d’água do prédio. Com o movimento que ela fez, Lica literalmente caiu de cara no colchão. E o fez resmungando frustrada.

No quarto do outro lado do corredor, a mulher nem precisou bater à porta da filha. Marina apareceu de cabelinhos úmidos e um livrinho de histórias infantis nas mãos. Samantha só conseguiu olhar para os cachinhos dela pesados com a água e completamente ensopados.

- Marina... filha, eu não falei que não era pra molhar o cabelo? O tempo está frio, assim você vai pegar um resfriado, meu amor... – choramingou, entrando no quarto para pegar uma toalha e enxugar os cabelinhos da menina direito.

- Mas o chuveiro é grande, mamãe – Marina se justificou como pôde.

- Vem comigo – Samantha passou por ela de toalha na mão. Entraram no quarto para encontrar Lica esparramada sobre a cama, rindo feito uma completa idiota encarando o teto – Que cara é essa?

- Nada, só estou feliz – e parecendo uma completa bocó, Samantha quis acrescentar. Mas nem julgou não. Ela estava tão bocó quanto ela, só conseguia dosar mais e tinha outras preocupações no momento, como a filha de cabelos molhados pingando e ensopando a camisa do pijama.

- Vem cá, minha vida – Marina se pôs entre as pernas de Samantha na lateral da cama para que ela lhe enxugasse os cachos – Bora abrir os presentes?

Tinham chegado há alguns minutos da festa de aniversário de Marina que, cá para nós, tinha sido um festão, e só Deus sabe a dificuldade que não foi as duas convencerem a filha de que ela precisava tomar banho e se livrar daquele suor e dos resquícios de bolo que lhe cobriam a pele e o vestidinho. Foi preciso Samantha falar mais firme para fazê-la rumar para o banheiro enquanto Lica dava duas voltas ao carro para conseguir carregar os presentes todos para cima. Samantha bem que tentou ajudar, mas ela foi taxativa: sem carregar peso. Cuidados que a empresária achou fofo mas que sabia que seriam motivos de atritos mais à frente.

Por mais que ela dissesse “estou bem, estou grávida, não doente”, parece que Lica entendia “estou mal, estou morrendo, socorro”.

- Eu vou lá pegar a caixa – Lica se adiantou e pulou da cama, retornando minutos depois com uma caixa repleta de embrulhos. Tinha embalagens grandes, enormes, pequenas... redondas, quaradas, triangulares... era tanto brinquedo que Samantha tinha certeza que não caberia no quarto da filha somados aos que ela já tinha – Pronto, Mozinho – e depositou o objeto sobre o colchão.

E aí pronto. Dormir era uma coisa que ninguém ali faria tão cedo. Marina vibrava a cada nova embalagem rasgada e a cada novo presente desvendado. Eram livros, joguinhos educativos, bonecas, pecinhas de roupa... Definitivamente o quarto dela precisaria de mais duas prateleiras, no mínimo.

Mas bem que dizem que o melhor, ele sempre fica para o final. Ao abrir a embalagem do último presente, Marina fez festa quando encontrou um quebra-cabeças enorme de Frozen. Aquele ali, pela etiqueta, havia sido presente de Tonico e Keyla. Ela sabia que a menina adorava o clássico da Disney e o menino era dono de montar quebra-cabeça com ela. Juntaram as informações e deram o que parecia ser o presente perfeito.

E Marina quis começar a montar na hora. Já foi logo abrindo a caixa para espalhar as pecinhas pelo colchão, mas teve que ser parada por uma Samantha cansada demais e grávida demais. Conhecia a filha que tinha: se ela começasse a montar aquelas pecinhas, não pararia até encaixar a última. E no momento, ela tinha um assunto mais sério e urgente a tratar com ela. Seu presente também não podia mais esperar.

- Amanhã a gente monta o quebra-cabeça. Agora vem cá – abriu os braços para receber a filha, que foi ainda resmungando.

- Mas mamãe a gente pode montar agora. Eu não estou com sono – Marina entoou como se fosse a única moradora da casa.

- Depois, filha. Agora a gente tem uma coisinha pra conversar – Lica explicou e se ajeitou de pernas cruzadas na cama diante de Samantha.

- ‘Cê gostou da festa? – Samantha quis saber, fazendo um carinho nos cabelos dela.

- Gostei. Foi beeem legal e eu ganhei um monte de presente. E o bolo da tia Leide também estava bem bom – ah, as preocupações de uma criança....

- Que bom filhota – Samantha enfiou o nariz nos cabelinhos dela – Que bom que ‘cê gostou. E sim, o bolo da Leide estava maravilhoso mesmo – a empresária suspirou – E os presentes? Você gostou deles?

- Muito, mamãe. Tem um monte e são bem legais. Eu queria montar o quebra-cabeça... – claro que ela insistiria.

- A gente vai montar numa outra hora, eu prometo. Porque agora... eu quero te dar meu presente. Ou você vai dizer que não sentiu falta do meu?

Marina riu faceira. Os presentes de aniversário que ganhava da mãe eram sempre os melhores. Talvez por conhece-la tão bem, talvez por saber sempre do que ela estava precisando... quais seus gostos do momento. Samantha nunca errava. Precisa e certeira em todos os cinco aniversários da filha. E por que não no sexto?

- Você vai me dar um presente também? – a menina perguntou cautelosa.

- Ué. Eu não sempre dei? Por que agora seria diferente?

- A mamãe Lica me deu coisinhas de pintar. Você também vai me dar coisinhas de pintar? Eu gostei.

Lica acabou abrindo um sorrisão do tamanho do mundo ao ouvir aquilo. Era um misto de orgulho de si mesma com orgulho da filha. Um sentimento bem gostoso afinal.

- Olha... eu vou deixar esse departamento de desenho... arte... com sua outra mãe – Samantha riu e ajeitou um cachinho de Marina atrás da orelha – Mas meu presente... eu acho que você vai gostar. Eu espero muito, muito mesmo que você goste.

- O que é? Ele está onde? Eu posso ver?

- Calma, tá? – Samantha pediu suspirando e rindo feliz da vida – Ele está aqui sim, só que você ainda não pode ver. Mas vai poder daqui a um tempinho.

- Quando? O que é, mamãe? – Marina era pura curiosidade.

- É um presente conjunto. Meu e da Lica. Um presente que nós planejamos muito e que a gente espera que você receba com todo o amor e carinho do mundo.

- É de comer?

Lica gargalhou, foi impossível se segurar. Claro que uma criança de seis anos iria associar presente perfeito e recebimento com amor e carinho a somente duas coisas na vida: brinquedo ou comida.

- Não, não é de comer não – Samantha explicou – Essa pancinha aqui já está cheinha demais da conta, nem pensar em comer mais nada hoje – e fez cócegas na filha – Pronta?

- Sim! – Marina ajeitou a postura.

- Mesmo, mesmo?

- Mesmo, mesmo.

Lica quis agarrar e morder mãe e filha diante de tamanho fofura.

- Bom... nosso presente está aqui – e estendeu um embrulho pequeno para Marina – Só cuidado pra quando abrir, é um pouquinho frágil.

Marina segurou a embalagem com todo o cuidado do mundo e, conforme a mãe orientara, abriu bem devagar para evitar danos. Dentro, encontrou uma pequena caixinha de veludo que guardava um cordão dourado fininho com três pingentes de bonequinhas presos por mini-argolas. Um bonequinha de cabelos lisos e franja, e duas bonequinhas de cachinhos, uma maior e uma menor. Só que havia uma argolinha a mais no meio e ela estava sem bonequinho nenhum.

- É bonito, mamãe – os olhinhos de Marina brilharam – Mas está quebrado. Falta uma bonequinho – e mostrou a pulseirinha para a mãe.

- Hum-hum – Samantha negou com a cabeça – O quarto bonequinho está aqui, só que você ainda não pode vê-lo. Ele só não está aí – e apontou para o cordãozinho – Porque a gente não sabe ainda se é um bonequinho ou uma bonequinha pra poder colocar.

Marina fez um biquinho como quem tentava processar as coisas.

- Aqui é a mamãe Lica, aqui é você, aqui sou eu... – e saiu contando os pingentes – O outro bonequinho está onde?

Samantha riu toda derretida e pegou a mão da filha, colocando-a gentilmente sobre o próprio ventre. E o entendimento pareceu atingir Marina como um estalo.

- Está bem aqui, ó. Esperando a hora de sair pro mundo – a Lambertini respondeu.

- É um irmãozinho? – a primeira reação foi de incredulidade e incerteza – É um irmãozinho, mamãe? – a segunda foi de surpresa – É um irmãozinho! – e por fim, a confirmação – É meu irmãozinho, mamãe! Você vai me dar meu irmãozinho! Mamãe Lica, eu vou ganhar um irmãozinho!

Marina desatou a pular sobre a cama, que foi preciso Samantha pedir cuidado por conta de sua barriga.

- E eu vou ganhar um filho, mozinho! – Lica vibrou com ela – Eu também ganhei presente e olha que meu aniversário já passou.

- Eu vou ter um irmãozinho – Marina veio para o rumo de Samantha toda faceira – Ele vai ser bonito que nem eu – ah, claro.

- Com certeza vai – Lica foi quem falou – Filho da Sammy e meu, e ainda por cima irmão da mina mais linda que esse mundo já viu? Claro que vai ser lindo! Ou linda, né? Pode ser uma menina.

- Mamãe, eu posso escolher o nome? Se for menina, pode chamar Marina que nem o meu.

Samantha riu com vontade, negando com a cabeça. Lica se juntou a ela. Espontaneidade e inocência são tudo.

- Certo, e vai ser como? Marina Dois? Duas pessoas com o mesmo não dá certo, filha. Se eu chamar Marina, quem vai responder? Vou ter que etiquetar vocês – a empresária explicou e a trouxe para si. Lica foi junto e se aconchegou à cabeceira da cama, deixando Samantha deitar a cabeça em seu ombro.

- Tá bom... se for menino, a gente pode chamar ele de Bruno?

Samantha bem que tentou segurar a gargalhada presa na garganta. Mordeu o lábio, a bochecha, deu tudo de si, mas não conseguiu quando encontrou a cara de Lica atônita, oscilando entre o desespero e a perplexidade.

- Marina, Bruno não – ela foi taxativa – Já tem Bruno demais no mundo, filha... tem tanto nome bonito de menino pra colocar....

- Tipo qual? Renoir? – Samantha debochou – Já sei, já sei! Picasso! Picasso Lambertini Gutierrez.

- Não vem debochar, Samantha – Lica se emburrou – A gente está falando de verdadeiros gênios da arte.

- Ok, então se for pra homenagear os gênios da arte, a gente pode colocar Gilberto, Caetano... Elis, Marisa... Gênios e de nomes mais... usuais pra gente. Não quero meu filho sofrendo bullying depois.

- Sabe que eu acho lindo nomes e sobrenomes com a mesma inicial – Lica comentou e trouxe Samantha mais para si – Por exemplo, Laura Lambertini é lindo. Soa bem e combina.

- Quer homenagear minha mãe? – Samantha brincou – Olha, que ela vai ficar se achando, hein?

- Quem escolheu o nome da Mari? – Lica se interessou.

- O Gabriel. Na verdade, cada um deu uma opção e eu fui na dele. Marina quer dizer “aquela que veio do mar” e você sabe que eu sempre fui apaixonada por essas coisas.

- Sei mesmo. Seu desenho favorito da Disney era Pequena Sereia, seu estojo no prézinho era de estampa do fundo do mar e sua lancheira tinha o formato de uma conchinha – Lica riu saudosa e então se ateve a algo – A decoração do quarto da Marina tem alguma coisa a ver com isso?

Samantha soltou uma risadinha e enterrou o rosto na curva do pescoço dela. Era tão bom estar ali.

- Eu também gosto de mar – Marina, que estava distraída folheando o livro infantil ali sobre o colchão, se manifestou – Quando eu for grande e a mamãe deixar, eu quero ver uma baleia.

- Um dia eu vou te levar pra nadar com os golfinhos, mozinho – Lica prometeu e suspirou mais, se aconchegando a Samantha – Agora, falando em quarto... a gente tem que começar a pensar na decoração do quarto do nosso mini mozinho, Sammy. E numas coisinhas que a gente vai ter que mudar aqui em casa. Por exemplo, tapar as tomadas, colocar borrachinhas na quina dos móveis....

- Calma... – Samantha pediu, deixando uma fungada gostosa na pele de Lica – A gente vai ter todo o tempo do mundo pra isso. Nosso filho nem um rostinho tem ainda, nem nome, nem nada. Uma coisa de cada vez.

- Ok, ok... – Lica se deu por vencida e virou-se para a mulher, sussurrando bem baixinho. Baixinho, mas claro – E quanto ao nome, Bruno não é uma opção. Não vou colocar o nome daquele menino pimpão no nosso filho. A gente convence a Mari a sugerir outro.

- Para de implicar com o Bruninho! – Samantha deu um beliscão na esposa – Que coisa, meu Deus! Ele tem só cinco anos e é um amor de criança. Educado, inteligente... e faz aulas de teclado. A Mari e ele podem formar uma dupla um dia. Já pensou? Bruno e Marina?

- Não inventa, pelo amor de Deus! – Lica quis se desesperar – E eu sei que ele é todo perfeitinho, isso que me irrita. Gente perfeitinha demais não é digna de confiança. Pelo contrário, são as piores.

- Vai continuar? – Samantha questionou com uma sobrancelha arqueada – Se a Marina quiser chamar o irmãozinho dela de Bruno, eu não me importo. Acho o nome lindo e soa bem com nosso sobrenome. Mas se te consola, até ele nascer, ela vai mudar de ideia umas cem vezes. Feliz agora? A gente já pode dormir? Eu estou morrendo de cansaço e o dia hoje foi pauleira.

- Mamãe, conta historinha pra mim? – Marina estendeu o livrinho na direção de Samantha. Porque ser mãe também tem dessas coisas: anular a si mesma pela cria. E em breve, ela teria mais uma a quem se doar inteira. E não podia estar mais feliz por isso.

- Partiu história – Samantha abriu espaço para que Marina deitasse entre ela e Lica. A Gutierrez se levantou só para guardar a caixinha do cordãozinho da filha bem numa gaveta do armário e para pegar o controle do ar – Vai dividir comigo?

- Claro – Lica respondeu, voltando para as cobertas – Você é minha melhor parceira de cena.

E juntas iniciaram a leitura revezando as vozes dos personagens. Não demorou muito para que Marina pegasse no sono. Ao menos alguém ali naquela casa conseguiria dormir o sono dos justos. Ao menos no quarto da frente haveria calma e sossego pelos próximos meses. Porque naquele quarto ali....

(...)

Sabe aquele momento em que tudo parece tão, mas tão perfeito que você pensa que está sonhando? Bom, Lica estava. Com certeza ela estava. Mergulhada em seu inconsciente, se via em um cenário que lhe pareceu ser sua galeria, entre quadro e tintas, Samantha ali do lado, Marina também... ouvia ao fundo as vozes e as gargalhadas das pessoas que gostava... e uma se sobressaiu ao burburinho.

Começou com um “Lica” ligeiramente ecoado. E o eco foi ficando mais firme e mais claro à medida que a voz parecia se aproximar.

- Lica! – sentiu o timbre de Samantha lhe envolver por inteira no exato momento em que no sonho, ela lhe envolvia nos braços.

- Humm... Sammy... – entoou seu mantra em conforto e deleite, deixando-se envolver pelo toque de sua mulher. Se era real ou não, pouco importava, porque era perfeito.

- Lica, acorda!

- Sammy... – Lica meio gemeu, meio se deleitou com aquela sensação.

- Heloísa de Almeida Gutierrez!

E há momentos em que o sonho, ele vira pesadelo. E quando você é arrancada dele com a sutileza de um puxão desesperado, não é legal. Não mesmo.

- Sammy...! – Lica acordou meio desorientada e se virou na cama. Abriu os olhos lentamente deixando-se envolver pela escuridão. Nem dia era ainda – Oi, amor. Que foi? Você está sentindo alguma coisa?

Lica tinha que saber, afinal uma mulher grávida de quatro meses lhe acordar assim do nada no meio da noite.... Se fosse mais para frente, poderia ao menos ser a bolsa estourando, mas ali.... Samantha se ajeitou na cama, encostando-se na cabeceira.

- Na verdade... estou sim.

- O quê? – e aí Lica acordou de vez – Fala pra mim, amor, o que ‘cê tá sentindo? É alguma coisa com o bebê? É...? – ela se alarmou, sentando-se na cama em um salto.

- Não, não... tudo bem com o bebê e comigo também é só que... – Samantha mordeu o lábio e soltou em uma espécie de desabafo incontido – Eu estou louca pra comer um japonês.

Oi?

- Hã? – Lica franziu o cenho.

- Um japonês, Lica... – Samantha choramingou o óbvio – Fome, sabe? Vontade de um sushi com salmão....

- T-tudo bem – poderia ser pior, Heloísa pensou – Eu vou comprar um japonês pra você. Uma barca todinha se você quiser, meu amor – deixou um beijinho nos lábios de Samantha e se virou para pegar o celular e pedir uns suhis pelo aplicativo. Mas ficou em riste – Duas horas da manhã, Samantha.

Lica voltou a encarar a esposa completamente atônita. Encontrou a Lambertini com um riso nervoso pintando o rosto. Coisa de menino que fez coisa errada e foi pego no flagra. Só faltou dizer um “ops!”.

- Eu sei mas é que... eu acordei com desejo e não vou conseguir dormir de novo enquanto não comer um japonês.

- São duas horas da manhã, Samantha – Lica repetiu, ainda meio fora de órbita com o celular aceso em mãos – Não tem mais nada aberto nessa cidade, meu amor. Onde eu vou arrumar japonês pra você comer?

- Ai, Lica... – Samantha choramingou e se agarrou a um travesseiro parecendo uma criança contrariada. Marina se orgulharia daquilo. Aliás, a empresária lembrava bastante a filha em uma versão duas vezes maior e vinte anos mais velha – Você vai negar o desejo da sua mulherzinha grávida?

- A mulherzinha grávida quer comer sushi às duas horas da madrugada e adivinha só... – Lica fez um floreio teatral – Não tem nada funcionando nessa cidade, muito menos japonês, às duas horas da madrugada! – e se pôs a rolar a tela do celular no aplicativo de delivery – Nem no app vinte e quatro horas tem!

- Amor... – Samantha agora quase chorava. Merecia um Oscar na categoria Melhor Drama – Não se nega desejo de mulher grávida. Nosso filho pode nascer com cara de niguiri! Você quer que nosso filha nasça assim?

- Nosso filho não vai nascer com cara de niguiri, Samantha, porque isso não existe! É só seu psicológico pregando peça – Lica se emburrou – E nessas horas, eu sigo a filosofia da minha falecida avó, dona Maria Heloísa Gutierrez: pra matar fome, é só beber água gelada. Eu vou pegar pra você – e fez menção de se levantar da cama. Mas foi bem segura pelo braço de Samantha.

- Se você ousar sair dessa cama se não for pra trazer meu japonês, eu juro que te deixo dormindo na sala até nosso filho nascer – Samantha quase rosnou. Parecia uma leoa pronta para arrancar a pele de alguma presa. Deus do céu, e a presa ali era Lica! Um tucaninho narigudinho lindo e indefeso diante das garras de uma predadora selvagem e faminta.

- Samantha, não tem como eu mandar abrir um restaurante japonês pra você a essa hora, eu não sei fazer sushi e não conheço ninguém que saiba! – será que ela não via que tudo conspirava para que seu desejo não pudesse ser satisfeito?

Ou... quase tudo. Porque Deus, ou seja lá em que força superior você acredite, parecia estar ao lado dela, pelo menos daquela vez.

Samantha emburrou a cara. Lica assumiu uma expressão iluminada, como se de repente o mundo lhe fizesse sentido. Em um salto, se levantou da cama e correu para o banheiro onde escovou os dentes e jogou uma água no rosto para terminar de acordar. Retornou para o quarto vestindo uma camisa qualquer por cima de um top, ainda com a calça do pijama.

- Eu posso saber o que foi isso? – Samantha, que assistia aos movimentos ágeis dela sem entender nada, perguntou.

- Eu vou trazer seu japonês, meu amor. E nosso filho não vai nascer com cara de niguiri. Eu prometo ou não me chamo Heloísa Gutierrez – e com um beijo rápido nos lábios de Samantha, se pôs apressada em direção à sala, onde passou a mão na chave do carro e já saiu de casa com o celular ao ouvido.

(...)

- Eu te odeio

- Mentira. Você me ama e é por isso que está aqui agora – Lica devolveu com um sorriso descarado e passou pela porta do apartamento sem nem ser convidada.

- Eu podia estar transando, sabia? Você podia ter interrompido meu orgasmo!

Tina tinha o rosto meio amassado, a cara de quem tinha realmente pulado (ou sido arrancada) da cama e a expressão de poucos amigos.

- O desejo da minha mulher é mais importante que o seu orgasmo, Cristina – Lica devolveu e se sentou ao balcão da cozinha, depositando algumas sacolas sobre o mármore – Eu trouxe o que o Google me disse que é preciso pra fazer sushi. Tem algas... arroz japonês... salmão. A sua sorte é que eu achei um supermercado vinte e quatro horas no caminho daqui e não quis esvaziar a sua despensa.

- A sua sorte é que eu ainda não acordei direito pra poder te bater – Tina resmungou e foi revistar as sacolas – Duas e meia da madrugada, Lica! Duas e meia!

- A Samantha está com desejo e o meu papel enquanto mulher dela é prover o que ela quer, nem que isso envolva acordar minha melhor amiga do mundo todo no meio da madrugada.

- Se as meninas te ouvirem me chamando de “melhor amiga do mundo todo”, você é uma mulher morta – Tina resmungou e começou a enfileirar os ingredientes sobre o balcão – E que fique bem claro que eu só estou fazendo isso por causa do meu afilhado e porque vou ser a madrinha preferida dele.

- Se as meninas te ouvirem falando de “madrinha preferida” do meu filho, você que é uma mulher morta – Lica devolveu e apoiou a mão no queixo – Quer ajuda?

- Quero. Já que você me acordou no meio da noite pra ser sushi woman, abre ao menos um saquê.

(...)

- Sammy! – Lica quase gritou lá da sala para receber um “ssshhh a Marina” de sua esposa assim que ela apareceu pelo corredor – Sushi!

A Gutierrez tinha em mãos uma barca enorme repleta de tudo quanto era tipo de sushi que se possa imaginar. Ou ao menos aqueles que Tina teve disposição e ingredientes para fazer. No final das contas, a DJ havia caprichado naquele trabalho ali: os olhos de Samantha brilharam quando viram o objeto de seu desejo parecendo reluzir diante de seus olhos. E só aquela satisfação no olhar dela já valeu todo o estresse da noite para Lica.

- Você conseguiu! – Samantha bateu palminhas animada e correu para tirar a barca das mãos dela e levar para a mesa enquanto Lica ia atrás dos hashis na cozinha – Samantha nem esperou que ela trouxesse os pauzinhos, pegou o primeiro uramaki com a mão mesmo. E gemeu de prazer e deleite enquanto mastigava – Meu Deus, que delícia!

- Japonês by Cristiana Yamada. Minha samurai não brinca em serviço.

- Me lembra de reservar minha melhor suíte pra ela e pro Anderson em agradecimento – Samantha devolveu, agora se deliciando com um kappamaki – Caralho, que coisa gostosa.

Lica esqueceu completamente de como se respirava quando se pegou observando os gestos de sua esposa mais feliz que criança no Natal devorando sushi atrás de sushi. Não era com comicidade, não era com curiosidade. Era com devoção mesmo que ela contemplava Samantha. Um olhar que beirava a reverência.

- Que foi? – a empresária quis saber, estranhando a inércia dela, com os olhos parados sobre si.

- Nada, eu só... – nem encontrar direito as palavras Lica conseguia – Você é linda.

- Eu sei – claro, óbvio – E eu agradeço, a propósito, mas por que você está dizendo isso. Que dizer, agora?

- Ah, não sei, é que... – sem jeito, Lica coçou a nuca – Você está diferente, Sammy. Parece que está brilhando, sabe? É de um jeito novo. Mais linda ainda do que já é.

Agora foi a vez de Samantha ficar sem jeito. Riu um tanto encabulada enquanto molhava uma pecinha de sushi no shoyo.

- Obrigada, eu acho – ela também não sabia muito o que dizer. A verdade é que aquela pose de “sou foda, nada me abala” sumia completamente quando Lica lhe desnudava toda com olhar daquele jeito. Talvez por ela lhe ver como era por inteira, conhece-la tão bem, conseguir chegar a lugares no seu íntimo que mais ninguém conseguia acessar – Isso tudo é só pra eu te agradecer pelo japonês? – e riu divertida.

- Um-hum – Lica negou com a cabeça e saiu da cadeira onde estava, ajoelhando-se diante de Samantha, fazendo-a se virar para ela – Isso tudo é porque eu te amo e você vai me dar o maior presente que eu poderia ganhar. É porque você é a mulher da minha vida e mãe dos meus filhos, a pessoa mais linda do mundo por dentro e por fora e eu tenho muita, muita sorte mesmo em ser sua

Lica se inclinou para capturar os lábios de Samantha em um beijo apaixonado, quando sentiu a mão gentilmente pousada sobre o ventre dela se mexer a um toque sutil. Mal tocou a boca de sua mulher, virou o rosto para lá em um átimo.

- Sammy? – Lica arregalou os olhos para a própria mão.

- Ih... eu acho que alguém aí acordou.

Era a primeira vez que o bebê mexia para elas sentirem. A médica que acompanhava Samantha no pré-natal já havia dito que ele poderia dar sinais de movimento a partir da décima sexta semana. Pelas contas, a gestação estava na sua décima sétima semana, chegando aos quatro meses. Então sim, definitivamente tinha alguém bem acordado ali.

- Samantha, ele mexeu – Heloísa constatou o óbvio – Sammy, Deus do céu, ele se mexeu! Ele... – mexeu de novo. Dessa vez um leve chute contra a mão dela ainda pousada ali – Sammy, olha isso!

- Que foi, filho? Vai mesmo fazer a mamãe de bola de futebol? – Samantha colocou a mão sobre a de Lica na própria barriga, aquelas lágrimas teimosas já querendo sair – Ou isso é revolta porque a gente te acordou no meio da noite, hum?

Outro chute.

- Eu vou entender isso como revolta. Você vai mesmo puxar à sua outra mãe? Esse mal humor e rebeldia são coisa dela, hein? Do meu lado da família, todo mundo é zen e paz e amor.

- Ei, filhote... – Lica entoou com a voz mansa, aproximando o rosto da barriga de Samantha – ‘Cê tem um chute poderoso, hein? E eu não vejo a hora de poder te ver pessoalmente... ver seu rostinho, sentir seu cheirinho e poder te dizer o quanto você é lindo e amado. Ou amada, né? Se você for menina, vai ser a mais linda do mundo. E se for menino também. Aliás, você é o quê? Conta pra mamãe, vai?

Samantha nem queria, mas acabou gargalhando no meio do choro. Lica sendo Lica era a coisa mais linda do mundo.

- Eu já falei que eu te amo hoje? – a Lambertini perguntou, secando algumas lágrimas.

- Já sim, mas eu adoro ouvir sempre – Lica deixou um beijo apaixonado nos lábios dela, separando-se lentamente e retornou para a conversa com a barriga de Samantha – ‘Cê ouviu, mini mozinho? A mamãe disse que me ama. E eu também amo a mamãe. E te amo muito. Você e sua irmã. ‘Cê sabia que tem uma irmãzinha? O nome dela é Marina, ela tem seis aninhos....

E pronto. Lica parecia ter entrando numa bolha com a barriga de Samantha em um diálogo animado que foi de pintura e desenho a futebol. Enquanto isso, a Lambertini matava a vontade do japonês que quase devorou aquela barca inteira. O resultado da peripécia da noite foi que no dia seguinte, perderam a hora. Ou melhor, não tinham hora nenhuma. Marina estava de férias da escola, Lica podia se dar ao luxo de pisar um pouco mais tarde no Grupo e Samantha, como chefe de si mesma, fazia o próprio horário.

O problema era justamente Samantha e essa coisa de fazer o próprio horário. Ela não o fazia.

Por volta do sexto mês de gestação, Lica resolveu tirar mais tempo de seu dia para cuidar de sua mulher, mas a empresária mesma... mantinha a mesma rotina, os horários de sempre e descanso que é bom.... As discussões sempre vinham e pelos mesmos motivos: Lica reclamando que Samantha fazia tudo menos coisas de grávida, embora nem ela soubesse explicar que coisas eram essas; e Samantha rebatendo que ela estava grávida e não doente, então não havia por que mexer em sua rotina.

- Sammy, eu vou chegar em casa mais cedo hoje. ‘Cê quer comer alguma coisa especial? – Lica quis saber em um dia qualquer.

- Amor, desculpa, mas eu vou ficar presa na Meliã. Tem reunião com um dos testadores....

E aí era só ladeira a baixo. Lica quis invadir a empresa dela e parar aquela reunião de vinte horas da noite no meio com um “minha mulher está grávida, ela não pode se estressar nem ficar aqui fazendo hora extra com vocês enchendo linguiça, então se virem e liberem ela”. A realidade: deixou para expor sua insatisfação no dia seguinte. É que Samantha chegou em casa naquela noite praticamente subindo pelas paredes e Lica... bom, como boa esposa que era, ela tinha que atender às necessidades de sua mulher.

E às vezes era difícil. Sério, os hormônios à flor da pele, a libido lá em cima, tinha hora que Samantha simplesmente não se continha e faltava atacar Heloísa enquanto ela fazia coisas simples como passar pano na casa e limpar a caixinha de areia de Celeste. Vocês já viram Heloísa Gutierrez limpando uma caixinha de areia? Era a coisa mais linda e sexy do mundo! Ao menos aos olhos de uma Samantha sedenta e necessitada.

E ok que as possibilidades delas no sexo estavam um tanto limitadas por conta do barrigão cada vez maior da Lambertini, mas isso não era nem de longe um empecilho. Aliás, Lica passara constrangimento quando souberam o sexo do bebê. E tudo porque sua mulher parecia, além de necessitada, sem filtros.

- O que é esse barulho? Está tudo bem com nosso filho? – Lica se assustou quando ouviu aquele “tum tum tum” apressado.

- Tudo bem sim, Heloísa. Isso aqui é o coraçãozinho dele – e aí pronto. Uma Lica e uma Samantha completamente derretidas – Saudável e forte, por sinal.

- Eu posso gravar? – Lica quis saber, já tirando o celular do bolso.

- Claro, fica à vontade – a médica deu autorização e ela captou o som das batidinhas do coração do bebê, enviando no grupo d’As Five com a legenda “meu coração está batendo fora do peito” e um sorriso bobo no rosto. Sorriso esse que virou algo perto de expectativa quando a médica perguntou se elas gostariam de saber o sexo.

- Já dá pra ver? – Samantha se interessou recebendo uma afirmativa da mulher e buscou Lica.

- Dá sim. E se vocês quiserem saber... – a mulher olhou de Lica para Samantha em expectativa e abriu um sorrisão – É uma menininha muito da esperta.

- É menina? – Lica perguntou em êxtase, os olhos brilhando. Samantha fungou, porque tudo que ela sabia fazer agora na vida era chorar. Um filme de terror do tipo O Massacre da Serra Elétrica lhe arrancaria um dilúvio dos olhos. Culpa dos hormônios aquela sensibilidade toda – Sammy, é menina!

- E-eu o-ouvi, m-meu am-mor – limpou as lágrimas.

- Uma menininha, Sammy – Lica correu até ela deixou um beijo apaixonado nos lábios – Nossa Limanthinha, meu amor.

- E-e v-vai ser n-nariguda que nem v-você.

- Espera, que eu tenho que contar pras meninas – e saiu do consultório praticamente berrando um “É menina, porra!” que foi chamada a atenção por uma enfermeira que passava por ali. Na volta para a sala de exames, encontrou Samantha mais contida conversando distraidamente com a médica a respeito do último assunto que ela gostaria de tratar na frente de alguém. Lica não era do tipo puritana tímida, mas o que compartilhavam entre quatro paredes, ela preferia deixar só entre elas. Mas pelo visto, só ela mesma pensava assim.

- .... Não tem nenhuma restrição, Samantha. Pelo contrário, sexo durante a gestação é saudável e faz bem pro bebê. Agora só tenham cuidado com os movimentos, evitem posições muito ousadas e que podem machucar a barriga de alguma forma. E tentem não fazer tanto esforço. Há um limite entre estímulo e cansaço físico.

- Você ouviu, amor? Nada de me deixar passando necessidade, orgasmos fazem bem pro bebê.

Lica estacou onde estava, de celular em mãos. Mais vermelha que um pimentão e mais envergonha que... bom, ela não sabia o que, só que ficou sim envergonhada.

- Sammy...?

- Que tipos de posições a gente deve evitar? Tem umas que eu não abro mão.

- Samantha...?

- Olha, Samantha, posições que te deixem embaixo não são recomendadas. Sem colocar peso sobre a barriga. Se você puder ficar por cima da Heloísa, é ótimo – a médica exalava profissionalismo, mas Samantha... Lica pôde ver pela cara que ela fez quando lhe olhou, que estava fazendo era por pirraça com ela. Sim, porque não era a primeira gestação dela e ela, Heloísa, tinha certeza que quando gestava Marina, sua mulher não deixou de ter relações com Henrique.

E só ao mero pensamento daquilo, seu corpo se retesou e arrepiou em asco.

- Certo, por cima da Lica... e de quatro, pode ser?

Ah, não!

- Eu... eu vou pegar uma água – Lica anunciou e se retirou chispando dali. Porque tem certas coisas para as quais você pode olhar e dizer “não sou obrigada”.

(...)

Ao oitavo mês de gravidez, Lica teve praticamente que chorar e implorar para que Samantha desacelerasse ao menos um pouco. Mesmo com um barrigão do tamanho do mundo, a obstetra de sobreaviso para o caso de ela sentir contrações ou qualquer sinal de que o bebê viria, a empresária não parava. Mantinha a rotina, mantinha o mesmo ritmo. Acordava cedo, deixava Marina na escola e seguia para a Meliã, para desespero de Lica, que ligava quase de hora em hora para Gabriel para saber notícias de sua esposa.

- Lica, relaxa que se a Lica Dois quiser nascer, eu sou o primeiro a te avisar. Aliás... quando que minha afilhada vai ter nome? Eu não posso mais me referir a ela como Lica Dois, é feio.

A resposta de Gabriel para aquela pergunta veio algumas horas depois naquele treze de dezembro. Com um ano e um mês de casadas, Lica e Samantha receberam juntas o maior presente que alguém pode ganhar. Naquela manhã, Samantha sentiu uma colicazinha chata, mas nada que incomodasse tanto ou que a fizesse parar seus afazeres. No meio de uma reunião, sentiu uma pontada, teve que se ajeitar na cadeira e respirar fundo, mas cerca de vinte segundos depois, outra mais forte. Aí ela se dobrou sobre a mesa, arrancando olhares e gestos preocupados dos demais.

Na terceira contração e um “ai” esganiçado, a constatação do óbvio: Lica Dois estava querendo vir ao mundo e prontíssima para fazer uma entrada triunfal. E às custas de Samantha, claro. Porque se já não chegasse causando, não seria filha de Heloísa Gutierrez e Samantha Lambertini. Aquela ali definitivamente não seria para amadores. MB se orgulharia.

E sobrou para Gabriel resolver tudo de antemão. O advogado chutou a cadeira longe quando correu até a amiga barra chefe para ampará-la e leva-la até o carro. E entre segurar Samantha e guia-la, ele fez a ligação de sua vida.

- A LIMANTHA JUNIOR VAI NASCER!

E o grito ecoou na Vila Mariana inteira: no Grupo, uma Heloísa desesperada não sabia nem o que devia fazer, nem por onde começar a fazer. Foi preciso uma Clara, em um frenesi, empurrar a irmã até o carro e dizer um nada delicado “toca pra maternidade, porra!”. Ali perto, Keyla gritava no meio da rua um “eu vou seguindo vocês!” enquanto falava ao celular com Tina, Ellen e Benê.

No final, todos os caminhos levaram à maternidade. Lica com Gabriel ao telefone tentando manter a calma enquanto ouvia ao fundo os gritos nada delicados de sua mulher. Samantha parecia sofrer. E estar possessa por alguma coisa que ela desconhecia. Mas descobriu assim que colocou os pés no hospital e entrou feito uma desesperada derrubando tudo à frente na sala de preparação para o parto.

O motivo da raiva era ela.

- Lica, eu te mato! EU TE MATO! – Samantha rosnou antes de soltar um grito sofrido e agoniante em meio a mais uma contração.

- M-mas eu não f-fiz nada, meu amor – Lica estava era com medo de ter feito e não se lembrar.

- Como não fez nada, sua filha duma mãaaaaaae! – outra contração – Olha pra mim! Tem uma criança sua aqui dentro querendo arrancar meu útero!

- Ela só quer vir ao mundo, meu amor. Nossa filha vai nascer. Fica calma que vai passar rapidinho, ‘cê vai ver – Lica era só felicidade. Mas Samantha... ah, Samantha....

- Eu não quero ver porra nenhuma, eu quero é te matar! – e agarrou Lica pelo colarinho da camisa – E NÃO ME PEDE CALMA!

- Ela já quer te matar? – Miguel apareceu todo serelepe na sala de preparação para o parto – Ela tentou bater no Henrique da primeira vez. Ele teve que visitar a ortopedia.

- Amor, calma – Lica pediu, mas fez uma careta quando viu sua mulher prestes a explodir de novo – Ou não, não precisa ficar calma. Extravasa que é melhor – e quase chorou de desespero e dor quando Samantha segurou seu braço com tanta força, mas tanta força, que quase fez os ossos e os músculos virarem pó. E Lica suspeitou que aquilo foi proposital para compartilhar a dor. E puni-la.

- Aaaaaaaah! Filha, pelo amor de Deus... não precisa fazer isso com a mamãe – do nada uma médica irrompeu pela porta da sala toda paramentada.

- Pronta, mamãe? – a mulher perguntou com um sorrisão de orelha a orelha. Mas para ela, Samantha não grunhiu nem rosnou. É, definitivamente o problema era Lica.

Laura foi quem apareceu apressada atrás da mulher, querendo ver a filha. Quis se agarrar a Samantha, mas tiveram que levar a Lambertini mais nova para a sala de parto por motivos de: a dilatação e as contrações indicavam que aquela menininha que tentava vir ao mundo já não aguentava mais esperar.

- E-eu vou junto – Lica anunciou sem nem esperar alguém lhe perguntar nada – Sou a outra mãe.

Na mesma hora, um enfermeiro a guiou para a sala ao lado onde lhe deu quase que um banho completo para lhe esterilizar e lhe paramentou inteira. De touca e bata cirúrgica, Lica foi jogada dentro da sala de parto e o que viu ali... não sabia se queria correr ou se suas pernas ao menos lhe obedeceriam se tentasse correr. Samantha estava deitada, uma perna de cada lado, urrando de dor. Urrando era a palavra certa. A princípio, Heloísa fez uma careta de desespero por sua mulher. Mas então a viu estendendo a mão para ela no meio de outro berro gutural. Ela lhe buscou.

Prontamente e sem nem pensar, Lica segurou a mão dela e deixou que ela pusesse ali toda a força que conseguisse reunir. Se terminaria sem mão, foda-se. Sua mulher precisava dela e ela que não sairia de perto.

- Força, Sammy, vai! – Lica incentivou como pôde.

- AAAAAAAAH – Samantha berrou aos quatro ventos, ficando vermelha e suada – Filha, qual a necessidade...? AAAAAAAAAH.

- A cabeça está apontando... está apontando... – a obstetra anunciou como quem narrava um jogo de futebol – Mais forte, Samantha, vai!

- Eu vou terminar sem úte... AAAAAAAAAAAH! – outro berro, Lica foi quem apertou a mão dela agora e lhe enxugou algumas gotinhas de suor.

- Vai, meu amor... traz nossa Limanthinha pro mundo – incentivou.

- Você me paga por isso, LicaaaAAAAAAAH! – Samantha gritou tanto que cerrou os dentes, exaustas, completamente exaurida. Quase ficou sem ar. Terminou ofegante e respirando fundo.

- Força, Samantha, vambora! – a obstetra quase implorou – A cabecinha dela já está quase toda do lado de fora, mais uma forcinha, vai....

- Vai, Sammy. Traz nossa filha pro mundo, meu amor. Traz – Lica quase suplicou e foi ao olhar dela cruzar com o de uma Samantha completamente acabada e esgotada, que o último sopro de força de que ela precisava veio com tudo.

- AAAAAAAAAAAAAAH – um berro seguido de outro berro e de mais outro e força e berro e força e depois do que pareceu ser assim uma eternidade (e Lica terminaria surda), um choro.

Ela nunca fora muito de choros de bebês, ainda mais recém-nascidos. Aquele som sempre lhe pareceu mais um lamento e um grito de desespero do que outra coisa. Quando era pequena e sua mãe lhe levou para visitar o filho de um primo que acabara de nascer, e que seria seu parente por tabela, ela praticamente chispou do quarto quando a criança começou a se esgoelar. Lhe doeu na alma ouvir aquele som, parecia que o menino estava era sendo torturado.

Mas ali... bom, ninguém nunca pensa que vai ficar tão feliz ao ouvir um choro. Felicidade era pouco para o que Heloísa sentiu ali. Aquele som esganiçado lhe preencheu a alma, foi bater no coração, fazendo-o desandar a ribombar feito um louco, lhe acordou por inteira e lhe deixou clara a única certeza que ela teria a partir dali: sua filha viera ao mundo.

E tinha pulmões potentes e um agudo poderosíssimo.

E do momento em que a enfermeira guiou aquele montinho de gente ainda chorando em desespero aos braços de Samantha, Lica entendeu a outra obviedade da coisa: não tinha para onde correr, porque ela já estava completamente entregue e rendida àquele serzinho.

E não era a única.

Sabe a sensação de que no fundo tudo faz sentido e se completa? Foi mais ou menos isso que Samantha sentiu quando segurou pela primeira nos braços a prova do maior amor do mundo. Amou aquele montinho de gente incondicionalmente ao primeiro toque. Se rendeu a ele completamente quando o aconchegou junto ao peito e entendeu o real significado de completude quando buscou Lica e viu no olhar dela a devoção.

Heloísa mirava a filha com algo que beirava a reverência reluzindo nas íris castanhas.

E Samantha a amou uma vez mais.

- S-Sammy... – foi tudo que ela conseguiu dizer.

- Nossa filha, Lica. Nossa... – nem teve tempo de concluir nada.

Lica caiu feito uma jaca mole ao lado da maca.

- A outra mãe apagou! – alguém gritou ao longe.

- Lica! – Samantha gritou e a mini Limantha chorou com gosto em seus braços. Foi tirada às pressas dali por uma enfermeira – Lica! Pelo amor de Deus, alguém acode ela!

No segundo seguinte, um enfermeiro trazendo uma maca passou pela porta para socorrer Heloísa e leva-la para longe dali. Porque, claro, se não causasse, não seria Heloísa Gutierrez. E Samantha rezou aos céus para que sua outra filha não puxasse isso dela. Discrição e autocontrole podem ser qualidades enormes em certos momentos.

(...)

- Velho, eu não acredito que a Liquinha foi pra dar apoio pra consagrada dela e terminou tendo que ser socorrida – MB tirou sarro sem dó nem piedade.

- Cara, a Lica tem que ser estudada, sério – Tina riu descontrolada enquanto Samantha narrava o acontecido – “Não, porque eu vou dar o apoio que minha mulher precisa” – imitou a amiga em falsete – E cai dura na primeira oportunidade.

- Dizem que as pessoas desmaiam quando sofrem grandes emoções. Eu não julgo a Lica – Benê pontuou sabiamente.

- Ai, e essa falta de notícia! – Samantha se lamuriou. Apesar de exausta e esgotada, só queria saber de sua filha e sua mulher. A demora das duas já estava lhe dando nos nervos – Eu, que acabei de parir uma criança estou aqui boazinha, e a Lica dando defeito. Eu vou pegar minha filha – e fez menção de se levantar da cama, mas foi segura por seis pares de mãos.

- Calma, Samantha, isso é normal – Keyla explicou – Quer dizer, a demora do bebê, porque estão fazendo os exames. Mas a Lica... – e desatou a rir.

Mas nem teve muito tempo para se recompor. A porta do quarto onde Samantha estava se abriu com tudo no momento em que Lica passou por ela esbaforida.

- Sammy! – exclamou, arrancou um fio qualquer que ainda tinha preso na veia e correu até ela – Amor, ‘cê tá bem? Está tudo bem? E nossa filha, hum?

- Eu que pergunto, Heloísa! – Samantha devolveu – Está tudo bem? Você está viva? Consegue se manter nas próprias pernas agora?

- Desculpa, amor, mas é que... – e se virou para encontrar seis pares de olhos julgadores. MB tinha um sorriso debochado e Guto, covinhas que sinalizavam que ele segurava o riso – Vão se catar, não foram vocês que viram a própria filha pela primeira vez.

- Foi você quem viu meu filho pela primeira vez e quem fez o parto dele – Keyla devolveu com uma sobrancelha arqueada, mas logo relaxou na pose depois de dois segundos de silêncio – Abraço coletivo na mamãe mais fofa que São Paulo já viu, depois de mim é claro!

E sem ter tempo de reagir, Lica foi envolvida por braços e mais braços vindos de todos os lados. A reação de Samantha foi só chorar mesmo, porque sim, era tudo que ela vinha fazendo nos últimos meses. E chorou mais ainda quando a enfermeira passou pela porta do quarto trazendo um montinho de gente amontoado em tecido branco.

- Olha só quem foi que veio pra festa... – a mulher brincou e caminhou até a Lambertini, que se ajeitou toda para poder receber a filha. Lica foi que abriu um sorrisão de orelha a orelha.

- Tudo bem com ela? – quis logo saber.

- Tudo perfeito! – a mulher respondeu – Saudabilíssima, por sinal. E bem esperta

Lica se virou para a filha para encontrar duas petecas de olho escuras lhe mirando atentamente. Se derreteu toda.

- Ei, filhota... – já foi se chegando toda serelepe – É a mamãe, filha... sua outra mamãe, na verdade, porque ter uma só não basta. Você tem que ter duas.

- Lica – Samantha chamou com a voz mansa – Eu acho que ela tem o seu nariz.

Heloísa abriu um sorrisão de orelha a orelha.

- Não tem como negar o DNA, né filha? Hum? – e cutucou a criaturinha com o dedo. Dedo esse que a menina segurou com um misto de curiosidade com firmeza – Você é muito linda, meu amor. A mina mais linda desse mundo inteirinho.

- Deixa a Marina te ouvir falar isso – Samantha brincou e plantou um beijinho na bochecha de Heloísa – Hein, minha vida? ‘Cê tá com fome, hum? Já nasceu sendo pocinho sem fundo? Se for que nem sua outra mãe....

Cuidadosamente, a enfermeira ajudou Samantha a se colocar direito na cama para auxiliá-la na primeira mamada. Não que ela não soubesse, Marina já lhe dera prática suficiente. Mas é aquilo: há certas coisas que por mais que a gente faça, sempre parece como se fosse a primeira vez. E a mini Limantha agarrou no peito da mãe com fome mesmo.

- Eu vou deixa-las a sós. Só peço aos visitantes que evitem barulho e não se aglomerem tanto perto dela. E parabéns pela filha. Vocês têm uma família linda – gentil, a mulher se retirou.

Mas não deu nem um minuto da saída dela, o quarto encheu de novo, dessa vez com Clara e Gabriel. No meio do nascimento da sobrinha, a diretora do Grupo fora informada de que a justiça havia autorizado finalmente a devolução à escola dos bens usurpados por Henrique e Malu. Graças a Deus a única coisa que precisaram fazer foi assinar uns papéis e a sorte é que o Fórum era ali perto.

- Meu Deus, Lica... ela é a sua cara! – Clara embasbacou – Gente, lembra bastante você quando era pequena. Samantha, eu vou te mostrar uma foto da Lica recém-nascida pra você ver como é a... espera, qual mesmo o nome da minha sobrinha?

- Eu acho que você poderia chama-la de Benellen Tikeyla, Samantha – Benê sugeriu – É a junção dos nomes das madrinhas dela. Nós vamos ser as madrinhas, certo?

- ‘Cê ainda tem alguma dúvida, Benê? – Lica riu – Claro que vocês vão ser as madrinhas. Só que Benellen Tikeyla parece nome de... sei lá, shipp de novela.

- Você chama sua filha de Limantha Júnior, Lica. Isso sim parece nome de casal de novela – Benê devolveu.

- Por favor, deem um nome comum pra minha neta – Laura passou pela porta do quarto acompanhada de Marta.

- Ai, deixa eu ver minha neta direito, gente. Vi no berçário, mas estava longe – a mãe de Lica pulou na frente de todo mundo – Lica, ela tem seu nariz! É sua cara, filha! Puxou pro nosso lado da família!

- E eu ainda não acredito que eu te dei uma neta, dona Marta – Lica brincou e se deixou envolver pelo abraço da mãe – E uma neta linda! Modéstia à parte.

- Linda mesmo. Olha pra esse anjinho, meu Deus... que coisa mais linda! – e se virou para a filha – Ow, Lica... olha pra você, meu amor. Mãe! Você, mãe! Eu nunca pensei que viveria pra ver isso um dia.

E por falar em mãe... faltava alguém ali.

- Mamãe! – Marina veio correndo com tudo no encalço de Miguel – Mamãe, é a minha irmãzinha?

- Filha, calma... – Samantha pediu – Vai devagar que ela ainda é muito pequenininha.

Marina subiu na escadinha ao lado da cama e se esticou toda para poder ver o montinho de gente nos braços da mãe. E aquele brilho de devoção reluziu no olhar dela no momento em que as íris se encontraram. A mini Limantha mirava a irmãzinha mais velha com olhos atentos como quem não entendia nada e ao mesmo tempo entendia tudo.

- Oi. Meu nome é Marina, eu sou sua irmã. Eu também sou filha da mamãe Samantha e da mamãe Lica – a menina se apresentou – Você é bonita. Parece comigo – foi impossível não rir – Mamãe, eu posso pegar ela?

- Calma, tá? Ainda não. Ela é muito pequena e frágil. Quando ela estiver maiorzinha, aí sim você segura ela o tempo que quiser. Mas por enquanto... – Samantha nem teve como terminar. O montinho de gente em seus braços estendeu o bracinho, ainda mamando, e envolveu agora o dedo indicador de Marina, que a cutucava.

- Ela gostou de mim – Marina riu grande – Eu também gostei muito de você... mamãe, como ela se chama?

- Não me venham com nomes mirabolantes – Laura tornou a pedir – Nada de mil letras e sons impossíveis de se pronunciar, por favor.

- Não, não é nada impronunciável, mãe. Pode ficar tranquila – Samantha achou por bem avisar logo. Na verdade, o nome já estava escolhido há meses.

Mais precisamente há dois meses, quando as duas compareceram à cerimônia de casamento de Gabriel e Luciano. Keyla quase enlouqueceu por só ter conhecido o noivo de seu irmão no dia do casório. Mas a despeito do ataque da irmã, ele havia chamado Lica e Samantha para serem as madrinhas. No convite, algo simples e singelo: a data, o local, o horário e uma única linha escrita ao final com os dizeres “eu gostaria muito de ter vocês duas ao meu lado de novo”.

Esse “de novo” aí não era novidade para ninguém. Assim que Gabriel mudara de cidade e viera morar com seu pai Roney Romano, em São Paulo, acabara caindo de paraquedas no Colégio Grupo. Meses depois, um episódio de agressão no qual ele fora vítima. Os autores: dois estudantes da escola. Felipe o defendeu na ocasião, mas foi Lica quem não se aquietou depois enquanto os rapazes não fossem expulsos do colégio. E uma vez expulsos sem direito a recomendação nenhuma por parte do Grupo a outra escola (o que era preocupante, dada à influência que o colégio tinha no meio educacional daquela cidade), foi Samantha quem ajudou a colocar Rafael na cadeia. Mais precisamente seu pai. Foram ela e Lica que o acompanharam para prestar queixa tendo como advogado o pai da Lambertini.

Miguel foi quem conduziu todo o processo por homofobia movido contra Rafael Gimenez. Foi ele que representou Gabriel legalmente no tribunal diante de um juiz. E quando Roney foi se acertar com ele a respeito dos honorários, o Lambertini foi taxativo.

- Eu fiz o que fiz porque não quero que aconteça com a minha filha o mesmo que aconteceu com o seu. Não quero que a Samantha passe pelo que você passou. Ninguém merece isso.

E uma vez mais, na faculdade, Gabriel estagiara com Miguel assessorando o setor jurídico da recém criada Meliã. Formado e de OAB na mão, montou o próprio escritório especializado em violações dos Direitos Humanos, se tornando o representante legal, junto com Samantha, do MP3 e, posteriormente, o chefe do jurídico e vice-presidente das empresas da família dela. Gozando da plena confiança da empresária, se mostrou, além de um amigo, um fiel escudeiro. A prova maior veio quando Gabriel desmascarou Malu, ajudou Samantha a se livrar de um relacionamento insalubre e fracassado e colocou na cadeia aqueles que faziam de sua vida um inferno.

Uma vez Samantha e Lica estiveram ali por Gabriel. E Gabriel sempre esteve ali pela Lambertini e depois pelas duas. Nada mais justo que o fruto do relacionamento que ele ajudou a manter de pé e a se firmar carregasse essa homenagem.

(...)

- A Lica está demorando – Samantha comentou, enquanto observava a filha recém-nascida dormir tranquilamente em seus braços. Dali a pouco a enfermeira a levaria para o berçário para lhe dar um descanso.

- É podre essa burocracia de cartório, Samantha – Gabriel comentou – Eu disse que iria com ela pra tentar adiantar as coisas, mas a bonita resolveu ir só, pois que enfrente a filha.

Keyla riu pelo nariz.

- Maldade, maninho.

Gabriel deu de ombros e pôs a brincar com o zíper da própria jaqueta.

- ‘Cê quer comer alguma coisa, Samantha? A gente vai fazer um lanche – Ellen ofereceu.

- Um suco, pode ser? De maracujá.

- É meu suco preferido – Marina se manifestou – Eu posso ir com elas, mamãe?

- Pode sim. Só pega minha bolsa ali, filha.

- Deixa a bolsa. Bora, Mari – Gabriel se ofereceu – O tio Gab planta um pé de maracujá todinho pra você se você quiser.

Depois de algum tempo, que mais pareceu uma eternidade Heloísa retornou para Samantha com o registro de nascimento da filha devidamente lavrado em cartório. Foi parada logo por Laura que exigiu conferir se estava tudo certo. E a mulher não mentiu: ficou aliviada quando viu o nome da neta grafado de forma simples na folha de papel. E um nome lindo, por sinal.

- Combinou bem – a mulher fez questão de dizer.

- E tem iniciais parecidas, o que eu acho lindo – Lica abriu um sorrisão – Confere aí amor – e passou o documento para Samantha, que leu e releu para dar seu aval.

- GG – brincou e deixou um beijinho nos lábios da esposa – Gostei.

- E aí, Lica? A fila do cartório estava boa? – Gabriel já chegou debochando.

- Estava ótima! – Lica brincou, fez um floreio e se virou para os demais, dando um pigarro e lendo a certidão da filha – Já que está todo mundo aqui, senhoras e senhores, eu vos apresento minha filha mais nova com a Sammy: Gabriela Lambertini Gutierrez, nascida às oito horas e 59 minutos do dia treze de dezembro do corrente ano na cidade de São Paulo, Estado de São Paulo. Filha de Samantha Nogueira Lambertini e Heloísa de Almeida Gutierrez, tendo como avós Laura Nogueira Lambertini e Miguel Lambertini; e Marta de Almeida e Edgar Gutierrez.

O “own” coletivo que se instalou ali foi fofo. E Gabriela pareceu saber que ela com ela, porque acordou, deu o que pareceu um soluço esganiçado e voltou a dormir.

- Que nome lindo, filha – Marta correu para abraçar Lica no momento em que Edgar passou pela porta.

- Eu vim conhecer minha neta – anunciou todo sorrisos.

- O nome dela é Gabriela, pai – Lica informou com um sorrisão besta, porque rir era tudo que ela sabia fazer – E ela é minha cara.

- Então vai ser uma menina linda – Edgar se derreteu todo e envolveu Heloísa em um abraço apertado – Parabéns, filha. Que você e sua família sejam muito, muito felizes.

Lica agradeceu corando um pouquinho depois que percebeu os olhares sobre eles. Não era comum (na verdade parecia ser a primeira vez) que Edgar demonstrava afeto pela filha em público daquele jeito. Algo novo, mas de encher os olhos.

- Eu também adorei o nome – Clara se manifestou – Já estou até imaginando eu chamando na formatura do ABC. Minha sobrinha vai ser a melhor da classe se puxar pra inteligência da tia – e se empertigou toda, mas sem perder a provocação – Porque se puxar pra mãe dela... vai dar é dor de cabeça, isso sim.

- Ah, vai se catar, Clara! – Lica devolveu, mas riu feito besta e puxou a irmã para um abraço – E pode ir providenciando os priminhos dela.

- Eu também amei o nome! – Gabriel entoou, tomando um suco de caixinha – Tem uma atriz que eu amo que se chama Gabriela. Inclusive ela parece com você, Key. Só não é acabada.

- Vai se catar! – Keyla levantou o dedo do meio sem nem se importar com menores ali – Mas pra parecer comigo, deve ser mó lindona mesmo.

- É um nome lindo – Ellen comentou – Simples e lindo. Aprovadíssimo!

- E Gabriela significa “a portadora da boa nova. Aquela que vem com a luz e a esperança” – Benê explicou – Bem sugestivo a filha de vocês se chamar assim, depois de tudo que aconteceu. Uma boa escolha, Lica.

- Quem escolheu fomos nós duas, viu Benê? – Samantha quis seus créditos – E na verdade, é uma homenagem a um grande amigo nosso. Um cara que foi fundamental pra que a gente estivesse aqui hoje e que sempre esteve do meu lado a cada vez que eu precisei.

Gabriel parou de mastigar seu bolinho de queijo e corou violentamente quando viu os olhares se virando para ele. Era sério aquilo?

- E-eu? – o menino quase engasgou e perdeu as palavras. Samantha acenou afirmativamente. Gabriel riu meio sem jeito e buscou o olhar de Tina – Eu falei que você não ia ser madrinha desse shipp sozinha, meu amor. Me atura!

E correu para abraçar Lica e Samantha, já querendo chorar aquele choro dos bobos emocionados que não sabem se conter. Não julguem, Gabriel era pisciano.

- Vocês duas são uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida – disse sufocado no abraço – E não estou falando só pelo meu emprego, mas porque com vocês eu não me senti sozinho em momento nenhum. Obrigada, meu casalzão da porra, eu amo vocês. E amo essa Gabizinha aqui, porque além de ter um nome lindo, ela também é filha de duas mulheres incríveis! E se Deus quiser, não vai decepcionar o tio Gab nem as mamães, não é meu amor? Eu vou mandar bordar uma fraldinha de unicórnio e arco-íris pra você!

- Ah, pronto! – Lica gargalhou.

- Aprendam uma coisa, meus amores – Gabriel anunciou para quem quisesse ouvir – A semente, ela não cai longe da árvore. Não mesmo.

E, bem... ela não caiu. Não mesmo. O cordãozinho de Marina finalmente ganhou a bonequinha que faltava e ela era nariguda. Bem narigudinha.


Notas Finais


Bom, minha gente, Limanthinha Júnior está entre nós e se chama Gabriela porque sim, é um nome lindo e fofo e tem todo um contexto rsrs.
E pra quem esperou a Lica cair dura quando soube da gravidez, os refrescos: no parto é mais emocionante kkkk.
E, bom, família completa... e a fic finalmente chegando aos finalmente rsrs. O próximo capítulo é o último e espero conseguir dar o fechamento que a história merece. E já antemão eu agradeço a todo mundo pela leitura, pelos comentários e dizer que esse ano escrevendo Acasos foi terapia, distração, felicidade, alguns momentos de raiva, mas muito, muito prazeroso.
No mais, é isto. Nos vemos no próximo capítulo!


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