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História Mil Acasos - Capítulo 8


Escrita por: MxrningStar

Notas do Autor


Olá, criaturas, tudo certo por aqui?
Sem mais delongas, vamos ao capítulo de hoje.
Boa leitura!

Capítulo 8 - Lei de Murphy


Já diz a lei de Murphy: tudo que está ruim sempre pode piorar. Para Lica, a cota de “coisas ruins” e desastres de seu dia já tinha sido atingida antes mesmo das oito horas da manhã. Acordara atrasada para uma reunião importante no Grupo – na verdade, Clara lhe ameaçara de morte se ela não estivesse presente – o carro de sua mãe não quis pegar e ela teve que chamar um motorista de aplicativo que demorou horrores para chegar por causa do trânsito caótico de São Paulo, demorou outra eternidade para chegar ao colégio e quando o fez, quase atropelou um aluno no portão em sua correria para chegar à sala de reuniões.

Mas lei de Maurphy é lei e, como tal, ela tem que ser seguida à risca. Foi só abrir a porta da sala de reuniões e Heloísa desejou nunca nem ter saído da cama naquela terça-feira. Viu Clara sentada à cabeceira ao lado de uma mulher enfiada em um terninho creme, coque na cabeça e óculos de armação grossa milimetricamente equilibrados no nariz pontiagudo (deveria ser a presidente do Conselho de Pais, Lica constatou), viu Bóris sentado à direita da diretora, Ernesto à frente dele, mais alguns rostos que ela desconhecia e apostou serem os outros professores e coordenadores da escola e por fim.....

- Ah, não – disse baixinho, sentindo seu estômago dar uma cambalhota e sua boca ficar ligeiramente seca.

Henrique Mondego em pessoa ocupando a outra ponta da mesa de reuniões. Mas o que diabos aquele homem fazia ali?

- Você está atrasada quinze minutos – Clara deu seu melhor “bom dia”. Lica até quis rebater com alguma resposta pronta e ácida, talvez sarcasmo, mas assumiu sua melhor postura profissional e deu a explicação mais aceitável... e verdadeira.

- Desculpem, em tive uns imprevistos – um deles foi ter esquecido de colocar o despertador, teve vontade de dizer, mas se manteve em silêncio – Bom dia.

Dirigiu-se para ocupar a cadeira ao lado esquerdo de Clara.

- O trânsito dessa cidade realmente é complicado, ainda mais em hora de rush. A gente sempre precisa sair de casa com duas horas de antecedência – Bóris tentou amenizar a tensão quase palpável que havia se instalado ali.

- Bom, eu chamei essa reunião porque nós temos o balanço desse primeiro mês de consultoria depois da situação em que o Grupo foi colocado – Clara soou firme, decidida e se fez ser ouvida por todo mundo ali. Lica chegou a olhá-la com certa surpresa, afinal, desconhecia, até então, esse lado “mulher de negócios” e administradora da irmã. Sentiu orgulho.

- Os números são bem animadores – Bóris pontuou – A Clara andou me mostrando e nós temos uma perspectiva bem melhor daqui para frente. Não tivemos mais nenhuma baixa no número de alunos, estamos mantendo um diálogo saudável com os pais e os mestres – olhou para a moça sem nome de óculos ao lado de Clara e para o corpo de professores ali presente – E eu acredito que em termos jurídicos estejamos bem também, certo, Henrique?

- Caminhando para isso – o homem pontuou com um sorriso ameno. Lica teve vontade de revirar os olhos – Consegui junto ao juiz o desbloqueio das contas da escola.

- Mentira? – Clara se ajeitou na cadeira como se tivesse levado um choque. Espera, as contas do Grupo estavam bloqueadas? – Ai, graças a Deus, Henrique! Eu já estava começando a me preocupar com a situação dos professores. Temos cash então pra continuar honrando nossos compromissos?

- Temos sim – Henrique respondeu, sorrindo – O juiz entendeu que o Grupo não faz mais parte do patrimônio do Edgar e que a estrutura da escola foi usada para fins escusos sem o conhecimento e consentimento da administração.

- Maravilha! – Clara bateu palmas, animada.

Espera, Edgar havia usado o Grupo para fins escusos? A escola estava com as contas bloqueadas? Lica ficou olhando de um rosto para outro sem entender absolutamente nada. Ela achava que a escola ter sido mencionada em operação contra a corrupção era basicamente porque Edgar fora preso lá dentro, em meio a uma reunião com pais e professores.

- Desculpa... fins escusos? – Heloísa interrompeu realmente sem entender nada.

- É, Lica... Lavagem de dinheiro não é brincadeira não. Mas nós já esclarecemos tudo junto ao conselho de pais e...

- Lavagem de dinheiro? O Edgar usou o Grupo pra lavar dinheiro? – Lica alterou a voz, começando a entender o que estava se passando e ficando revoltada com a situação – Que história é essa, Clara? – virou-se para a irmã.

- Uma história que já foi resolvida, Lica... Aliás, foi bem antes de você voltar, então vamos focar no que vem a partir de agora. Henrique, pode continuar.

- Não, eu quero entender. De repente eu chego aqui e descubro que o Edgar lavou dinheiro com o Grupo e que a escola estava com as contas bloqueadas? Por que ninguém me disse isso antes? – seu olhar viajou de Clara para Bóris.

- Ué, mas você não é dona do Grupo, Heloísa? – a voz de Henrique chamou a atenção da Gutierrez – Era de se supor que você soubesse o que se passa na sua escola.

- Na verdade, a dona do Grupo sou eu, Henrique, a Lica está aqui para prestar consultoria na parte pedagógica.

- É, mas a escola também é minha, Clara, e eu acho que devia ter sido informada – Lica rebateu.

- Então além de artista você também é pedagoga, Heloísa? – o homem inquiriu.

- Não, eu só conheço o projeto pedagógico do meu avô – ela respondeu meio no automático.

Henrique arqueou a sobrancelha e olhou para Clara.

- Olha, Clara... juridicamente falando, prestação de consultoria tem que ser feita por agentes especializados, ainda mais na situação delicada em que a escola está.... Seria interessante discutir esse plano pedagógico diretamente com os professores e com uma equipe preparada para isso. Conhecer o projeto pedagógico da escola eu creio que não seja lá muito sensato e eficiente.

Lica sentiu de longe as farpas na fala dele, respirou fundo e fechou os punhos sobre a mesa.

- Essa escola foi fundada pelo meu avô – ela respondeu pausadamente, para ver se o homem se dignava a ao menos tentar entende-la – Eu fui criada aqui dentro, eu estudei aqui, conheço o planejamento do Grupo como ninguém, e até agora ninguém reclamou do que eu venho sugerindo.

- Concordo com a Lica – Bóris tomou a palavra – Sua esfera é a jurídica, Henrique, pode deixar que da parte pedagógica, a Lica, a Clara e eu cuidamos.

- Claro, claro, Bóris. Em momento nenhum eu quis entrar nesse mérito. Mas é que... Bom, não é confiável colocar a escola nas mãos de alguém sem experiência em gestão escolar para lidar com o assunto, ainda mais num momento em que o Grupo vem tendo seu modelo educacional e administrativo questionado legalmente.

A mesa inteira foi tomada por um silêncio absurdo. Lica engoliu em seco, sua vontade era se levantar e dar uma sacudidas em Henrique e perguntar qual era a dele. Clara relanceou Bóris e recebeu um olhar incisivo e preocupado do professor.

- Perdão, mas eu concordo com o Henrique – a mulher sem nome, de óculos na ponta do nariz, resolveu se manifestar – Eu como presidente do Conselho de Pais e mãe de alunos do Grupo teria mais segurança em saber que a escola onde meus filhos estudam está sendo assessorada por pessoas capacitadas para isto.

Henrique exibiu um sorriso de canto de boca e voltou sua atenção para os papéis em suas mãos.

- Clara, aqui está a ordem judicial que autoriza a liberação dos recursos do Grupo – e estendeu para que Clara desse uma olhada.

A loirinha pegou as folhas e começou a analisa-las.

- Ótimo, maravilha! Sério, Henrique, se não fosse você eu não sei nem como a gente estaria agora – Clara soltou.

Lica engoliu em seco novamente e limitou-se ao silêncio. Viu Bóris falar sobre as discussões que vinha tendo com o corpo docente, sobre a renovação curricular da escola, viu os professores discutirem animados o calendário de atividades que desenvolveriam até o final do ano letivo, ouviu mais um bando de termos jurídicos, os quais não entendeu nenhum, quando Henrique discorreu sobre algo relacionado à ação que alguns pais moveram contra o Grupo e como os argumentos deles vinham perdendo força.

Ninguém lhe dirigiu a palavra e ela se manteve calada do início ao fim da reunião. Quando Clara liberou todo mundo, ela fez questão de ficar para trás. Precisava trocar uma ideia com a irmã e teria que ser ali e agora.

- Clara, quando ‘cê ia me contar que o Grupo estava mal das pernas? – foi direta, enquanto a irmã recolhia alguns papéis sobre a mesa.

- Eu achei que você já soubesse. Eu te mandei as planilhas, mas você não olha – ela rebateu sem nem lhe olhar.

- Claro, porque eu não entendo de números. Eu falei que me mandar aquele monte de tabela não ia adiantar nada. Custava ter me dito que a escola estava perigando ficar sem recursos?

- Não estava, Lica... A gente acendeu uma luz de alerta, mas não entramos no vermelho. O Henrique agiu antes disso. Relaxa que já foi resolvido – sua irmã parecia cansada.

- Hum – Lica apenas mordeu o lábio antes de prosseguir – E essa história de lavagem de dinheiro? O Edgar colocou mesmo o Grupo no meio dessa merda toda?

Não precisava nem de resposta para esta pergunta.

- Colocou sim – Clara virou-se para Lica – Usou o Grupo pra mandar dinheiro pra fora do país, quase quebrou nossas pernas... Foi uma confusão pra conseguir limpar o nome da escola, mas o importante é que a gente está quase lá.

- E por que ninguém me disse nada? Eu podia ter ajudado! – aí Heloísa se revoltou.

- Ajudado como, Lica? Você estava na Europa, cuidando da sua galeria. O pepino estava minha mão, eu que tinha que dar um jeito de descasca-lo e ainda bem que consegui – Clara guardou alguns papéis na gaveta de sua mesa.

- Mesmo assim, Clara, essa escola é minha também. Eu tenho o direito de saber o que se passa nela – Heloísa rebateu.

- E está sabendo agora! – viu que a irmã já estava era perdendo a paciência – Olha, eu estou cheia de coisa pra fazer, ainda tenho uma reunião com o marketing... Não vou ter tempo pra discutir isso agora. Você pode me enviar de novo a logo que eu pedi pra reformular? Acho que apaguei sem querer o arquivo anterior.

- Umhum, eu te envio – Lica atalhou – Mas ó, a gente podia sentar qualquer hora dessas, pode ser hoje à noite, pra discutir o projeto pedagógico do nosso avô. Eu tive uma ideias que acho que podem casar com o que os professores sugeriram na reunião – ela sorriu. Estava de fato animada com aquilo.

- Depois, Lica, depois – Clara a interrompeu – O calendário já está fechado, a gente vai ver o que faz com seja lá o que é você vai sugerir – Heloísa não entendeu bem o porquê, mas se sentiu ligeiramente tirada de tempo pela irmã – Mas pelo amor de Deus, não me vem com apitaço e protesto no meio do pátio, muito menos com um pulo de catraca coletivo. Aqui é escola, não campo de guerra.

Clara depositou o notebook sobre sua mesa e se acomodou em sua cadeira, pegando o celular para checar umas mensagens.

E Lica quis dar nome pra sensação que teve quando ouviu aquilo da irmã. Quem Clara pensava que ela era? Uma adolescente revoltada com o pai que joga as malas das pessoas pela janela? Pelo amor de Deus, quando as pessoas iam parar de vê-la daquele jeito?

- Eu não tenho mais dezoito anos, Clara – foi tudo que disse em um tom comedido e profundo.

- Hã? – a irmã parecia nem ouvi-la. Levantou as vistas do celular para olhá-la.

- Esquece – Lica suspirou, cansada – Talvez seja melhor mesmo colocar uma equipe especializada.

- Do que ‘cê tá falando, Lica? – Clara questionou, vendo a irmã colocar a bolsa sobre o ombro e sair.

- Nada, Clara, deixa pra lá – e saiu batendo a porta.

Passou pelos corredores a passos firmes, desceu as escadas saltando dois degraus por vez e quando já ia saindo da escola, teve seu percurso interrompido pela última pessoa que queria ver na vida. A vontade de dar um murro em alguém aumentando.

- Heloísa! – a voz de Henrique ressoou no meio do pátio. Àquela hora os alunos estavam em aula, então não havia mais ninguém no espaço além dele e de Lica, e alguns zeladores que limpavam o outro lado da área de convivência. Virou-se a contragosto – Que bom que te encontrei aqui. Estava mesmo precisando falar com você.

Lica não disse uma palavra. Permaneceu completamente muda, dando a deixa para o homem continuar.

- Bom, eu... – ele suspirou – Eu sei que não tivemos um bom começo, mas eu estou disposto a tentar iniciar do zero e dessa vez sem mal entendidos – mais silêncio por parte de Lica – Me desculpa pelo que falei aquele dia no galpão. Não queria causar nenhum mal-estar.

Lica bem que tentou, se esforçou ao máximo para tentar ver sinceridade nos olhos do homem diante de si, mas não conseguiu. Fora Samantha que mandara ele ir falar com ela? Mas era só o que lhe faltava.

Bom, ela que não iria prolongar aquele assunto.

- Já foi – disse e virou-se para sair, mas foi puxada novamente pela voz dele.

- Eu sei que você representou muito na vida da Samantha, mas não quero que isso seja um problema entre nós – Henrique insistiu – Você superou, ela superou, não vejo porque insistir nisso – deu um risinho de canto – Na verdade eu... eu tenho que admitir, Heloísa, que fiquei com medo do que sua presença pudesse causar.

- Desculpa? – ela finalmente abriu a boca para se dirigir a ele. Mas do que diabos aquele homem estava falando?

- Sabe... você... sua presença aqui, ela causa certo... desconforto – Lica estreitou os olhos à fala dele. O que Henrique queria dizer por “desconforto”? Teve sua resposta ali mesmo – Eu odeio dizer isso, mas eu e a Samantha andamos tendo umas divergências por sua causa e isso não faz bem pra mim, muito menos pra ela e pra nossa filha – ele enfatizou a referência a Marina – E você sabe como a Samantha é preocupada com a Marina.

- Eu ainda não entendi o que tenho a ver com isso – Lica só queria ver até onde ele iria.

- Bom... Nós estávamos bem até você voltar e.... Por favor, não estraga isso – havia um tom de súplica na voz de Henrique - Não crie conflitos onde eles não devem existir.

- Eu criar conflitos? – Lica repetiu incrédula – Olha só, Henrique, eu não tenho nada a ver com o que acontece na sua casa, muito menos com a relação sua e da sua mulher – doeu se referir a Samantha como “mulher dele” – Sério, não atribui suas inseguranças a mim.

- Inseguranças? – o homem sorriu – Não é insegurança, Heloísa, eu só estou tentando fazer você entender que...

- Que eu não sou bem-vinda? Que eu não sei o que estou fazendo aqui? Que as minhas ideias são equivocadas, minhas relações não são saudáveis e que eu pareço estar no lugar errado? Que eu magoo e faço mal para as pessoas à minha volta? Que eu destruo relacionamentos e sou um poço de conflito e imaturidade?

Henrique chegou a se calar com o tanto de coisa que ela falou.

- Eu não...

- De boa – ela assumiu uma expressão de desgosto – Eu já entendi isso. Tranquilo – recomeçou seu percurso, mas antes de sair, virou-se uma última vez para Henrique – E ó, fica sussa. Seu casamento e a sua família tradicional brasileira estão a salvo – reiniciou o percurso, mas voltou a se virar para ele – Ah, e parabéns por ter salvado o Grupo das garras ambiciosas e gananciosas do meu papai – fez um floreio exagerado – Você salvou o dia. Bacana ‘cê fazer parte do grupo dos legais populares da escola – Lica encerrou com um cumprimento, levando a mãos à testa como se batesse continência e virou-se em direção ao estacionamento, mas aí lembrou-se que estava sem carro.

Xingando baixinho, ela pegou o celular e mandou mensagem pra única pessoa no mundo que poderia lhe dar um respiro no meio daquele caos todo.

- Alô? Tá livre agora?

(...)

- Tia, você viu a tia Lica? – Marina se abancou na cantina e meio que invadiu a cozinha do lugar quando viu que Lica não estava sentada na mesa habitual esperando por ela.

- Oi, Marina. Não vi não – a funcionária respondeu com um sorriso – Acho que ela não veio hoje. Vai ver está dodói.

Marina agradeceu pela informação, pegou sua lancheirinha e rumou para a sala de Clara. Um a um foi subindo os degraus o mais rápido que suas perninhas permitiam e quando chegou à porta da sala da diretora, bateu e ficou esperando do lado de fora.

Quando Clara abriu, demorou a ver que a pessoa interessada em vê-la estava à altura de suas pernas.

- Oi, tia Clara. A tia Lica está dodói? Ela está aqui? – a menina se atropelou na fala.

Clara foi pega de surpresa, mas se abaixou para ficar à altura da afilhada.

- Oi, Mari... Não, a Lica não tá dodói – riu-se – Ela esteve aqui mais cedo, mas... ela não está lá embaixo? – a loirinha estranhou, Lica havia mesmo ido embora.

- Não. Não tem ninguém comendo coxinha e tomando milk-shake no recreio – a menina informou e foi impossível para Clara não se comover com a descrição que ela dava de Heloísa.

- Olha... ela deve ter ido embora, então. Vai ver precisou resolver alguma coisa importante... Está tudo bem, você está precisando de alguma coisa? – Clara se preocupou.

- Não. Tudo bem, tia Clara. Vou comer meu lanchinho. Obrigada – e saiu da sala um tanto amuada, Clara percebeu e ficou vendo Marina sumir pelo corredor com a lancheirinha debaixo do braço.

Da janela de sua sala, ainda conseguiu ver a afilhada se sentando com certa dificuldade no banco da mesa que habitualmente dividia com Lica. Sozinha e em silêncio Marina comeu e quando terminou seu lanche, para estranhamento de Clara, não correu para brincar com os coleguinhas. Ela simplesmente recolheu suas coisas e voltou para a sala.

- Ai, não – a Gutierrez comentou. Era só o que lhe faltava Marina ter se apegado a Heloísa. Logo a Heloísa, que era um poço de inconstância. Teria que conversar com Samantha sobre, mas como faria aquilo? Como tocar no nome de Lica na frente dela?

(...)

- Olha, “brigadão” pela carona. Sério, que bom que você pôde vir – Lica ocupava o banco do passageiro do carro de Alice enquanto a fotógrafa se movia rápido pelas ruas de São Paulo. Não eram nem dez da manhã ainda e a cabeça da Gutierrez parecia que ia explodir. Seu dia ainda poderia ficar pior?

- De boa. Você deu sorte que eu estava de bobeira hoje. Tenho compromisso só à tarde. Até lá eu sou todinha sua – a mulher brincou, mas Lica sentiu a ambiguidade na fala dela. E gostou de ouvir aquilo.

- Toda minha? – jogou no ar a insinuação.

- Você não perde uma, Heloísa – Alice riu e fez uma curva fechada – Posso de raptar pelo restante da manhã então?

- Estou nas suas mãos.

- Pois partiu cativeiro – a fotógrafa brincou e acelerou – Vou te mostrar meu refúgio.

Fizeram o restante do percurso com Adriana Calcanhoto ao fundo de trilha sonora no carro. Alice tinha uma conversa leve, divertida e, acima de tudo, não parecia analisar nem julgar cada passo e movimento de Heloísa. Era tudo o que ela podia pedir no momento. A fotógrafa foi reduzindo a velocidade à medida que se aproximavam de um prédio luxuoso na altura da Oscar Freire. Jardins. Bairro nobre.

- O que a gente está fazendo aqui? – Lica indagou, tirando o cinto para desembarcar.

- Bem-vinda ao meu mundo – foi tudo que Alice disse e guiou-a prédio a dentro. Cumprimentou o porteiro com “bom dia” animado e seguiu para o oitavo andar. Lica, por um momento, pensou que estivesse sendo levada para o apartamento da fotógrafa, o que ela, particularmente, não acharia ruim, mas quando elas passaram pela porta do elevador e ela se deparou com vão amplo e repleto de equipamentos de luz e pufes e fundos brancos entendeu que se trata do ambiente de trabalho de Alice.

- Seu estúdio? – perguntou, entrando – Estúdio de bacana, hein?

- Que foi? Decepcionou? – Alice brincou.

- Não, é que vendo você assim, eu esperava, sei lá, algo mais conceitual, rústico, pessoal, eu diria. Não te imaginava trabalhando num espaço desse. É lindo, por sinal – começou a caminhar, analisando cada detalhe, cada ferramenta que encontrava pela frente.

- Legal que ‘cê gostou, mas o que eu queria te mostrar fica ali dentro – e apontou para uma sala ao fundo. Pegou a mão de Lica e a guiou até lá e aí sim Heloísa encontrou o que esperava de Alice.

O espaço tinha uma iluminação fraca, fosca, era todo revestido em madeira e haviam fotos e mais fotos espalhadas pelas paredes, sobre as mesas... A luminárias presente ali faziam as luzes assumirem formas indistintas nas paredes, quadros pendurados do outro lado com linhas abstratas, formas femininas, iam de cores explosivas ao preto e branco. Um deles, Lica reconheceu na hora.

- É sério? – riu-se e aproximou-se da obra, analisando-a em cada detalhe.

- Vertigem – disse a fotógrafa – Me interessei pelos traços, mas o que chamou a atenção foi justamente o caos e a indefinição retratados. Parece que passa pra quem olha. Ou talvez só reflita nosso caos interior.

- Não-equidade, conflitos, olhar em todas as direções e...

- A sensação de que se está fora de lugar. A sensação de vertigem pra quem vê rápido demais, incômodo até. Mas um olhar mais apurado e demorado permite ver...

- O que tem dentro – Lica completou – Eu acho que você foi a única pessoa que de fato entendeu isso – riu-se – Onde ‘cê conseguiu?

- Comprei numa viagem a Milão. Sabe, eu até tentei chegar na artista, mas ela estava sendo super assediada e não me senti digna de me aproximar – Alice brincou.

- Ah, para, vai. Eram só umas entrevistas – Lica rebateu.

- Entrevistas em francês, em inglês, em espanhol... Quantos idiomas você fala, afinal?

- Quatro. Inglês, francês, espanhol e meu bom e velho português – riu – Nunca aprendi italiano, e olha que eu estava expondo em Milão.

- Eu sempre quis aprender francês. Acho um idioma super charmoso e sedutor, sabia? Sério, eu me derreto por quem fala francês fluente.

- Sério? – Lica pigarreou – Donc je pense que je ferais mieux de commencer à parler maintenant.

- Traduz, por favor – Alice riu e se aproximou mais de Lica.

- Só estou tentando soar sedutora – a Gutierrez brincou e umedeceu os lábios, mirando os de Alice – Está funcionando?

- Quer ver se está? – a fotógrafa desafiou e mirou também os lábios de Lica.

- Oui, mon cher – e beijou Alice com vontade e sofreguidão. Entregou-se a ela sem medo, sem restrições. Era o caminho mais natural, certo? Já vinham naquele joguinho de flertes há um tempo. Nada mais justo que terminassem ali, com Heloísa sobre a fotógrafa, arrancando-lhe gemidos e interjeições de prazer e de mais puro deleite.

Os beijos avançaram para as mordidinhas em regiões até então inexploradas. As mordidinhas se tornaram arranhões, apertos, uma verdadeira dança de dois corpos famintos e sedentos um pelo outro. Heloísa não era de ferro e Alice simplesmente não tinha mais como resistir ao charme ligeiramente francês e absurdamente encantador da artista. Se entregou sem muitas delongas.

Ali, no meio do estúdio da fotógrafa, suadas, nuas, os corpos entrelaçados em um abraço gostoso e pra lá de prazeroso, Lica conseguiu, finalmente, se ver livre de todo o peso que haviam sido as últimas semanas. Sem julgamentos, sem problemas, sem desconfianças e sem olhares reprovadores. Era somente uma mulher maravilhosa lhe dando prazer e recebendo prazer em troca, rindo de suas besteiras, gemendo seu nome baixinho, descansando sobre seu peito depois de satisfeitas em um silêncio confortável e pra lá de gostoso. Não precisavam dizer muito mesmo.

- Acho que a gente perdeu a hora – Alice mencionou depois de um tempo envolvida pelos braços de Lica, com a cabeça repousada sobre seu peito. O coração da Gutierrez batia forte, ela podia ouvir.

- Vamos perder só mais um pouquinho – Heloísa brincou, a mão fazendo um carinho nos fios castanhos de Alice – Parece que quando eu estou com você é o único momento em que tenho paz. Só queria poder aproveitar mais.

Alice virou o rosto para olhá-la.

- Está tão pesado assim? – percebeu o olhar de Lica ficar reflexivo e um tanto quanto inquieto – Se você quiser me contar, é claro.

- Digamos que eu me sinta quase em tribunal toda vez toda acordo até a hora que vou dormir. Julgamentos, avaliações... é bem chatinho – suspirou – Mas eu não quero falar disso agora. Os problemas eu deixei lá fora. Agora só quero aproveitar isso aqui. E quem está aqui – voltou a beijar Alice calorosamente e a fotógrafa correspondeu.

- Olha, seja lá o que for que você tenha feito, esquece a opinião alheia. As pessoas acham mais fácil julgar do que reconhecerem as próprias falhas. Passam o tempo todo apontando os erros alheios e esquecem de viver a própria vida, daí ficam frustradas e depois ninguém sabe porque esse mundo está do jeito que está. Falta empatia – Alice foi categórica e soou tão simples e despretensiosa que sequer percebeu o efeito que sua fala teve em Lica. Heloísa se viu sorrindo tão sincera e abertamente como não tinha consegui fazer ainda desde que voltara ao Brasil.

- ‘Cê é tão inteligente, sabia... Fala umas coisas tão certas – comentou.

- Eu falo o óbvio – a fotógrafa estava distraída, brincando com o pingente do cordão que Lica usava – O problema é que as pessoas parecem tão cegas no próprio mundinho que nem o óbvio elas conseguem ver.

- Olha... pode parecer clichê isso que vou dizer, mas ‘cê tá me ajudando num problemão aqui – Lica riu.

- Sério? – Alice voltou a olhá-la – Que bom. Fico feliz em poder ajudar de alguma forma, Lica. De verdade. E você, ó – virou-se de vez para ficar por cima de Heloísa – Você é incrível. Tem defeitos também, como todo ser humano, mas é incrível e cheia de qualidades. Pena de quem só consegue ver o lado ruim. Deixa eles pra lá e vive sua vida. O que é pesado, a gente tem é que se livrar.

Sem dizer palavra, Lica voltou a beijá-la e as duas ainda passaram um tempo ali agarradas uma à outra entre amassos e piadas e conversas mais sérias, e mais amassos e mais piadas... Quando Alice falou que seu corpo já estava implorando por comida, foi que se deram conta de que já passava do meio dia. Em um silêncio confortável, se vestiram e seguiram juntas estúdio a fora.

O convite para o almoço foi feito pela fotógrafa. Disse que queria levar Heloísa para conhecer um de seus restaurantes favoritos e assim o fizeram. Ainda no banco do passageiro do carro de Alice, elas seguiram em direção a Higienópolis.

- Você come massa, né? Me diz que sim, se não, vou ser obrigada a te chutar pra fora do meu carro.

- Eu sou louca por massa. Aliás, eu como de tudo. Mas massa tem sim um lugar especial no meu coração. Pra onde a gente está indo? – Lica ficou curiosa.

- Pro melhor restaurante de São Paulo quando o assunto é massa e um bom vinho.

Seguiram em uma conversa amena até que Alice estacionou na porta de um restaurante no melhor estilo “Itália no Brasil”. Trattoria o nome do lugar. Lica já ouvira falar dele, por alto, mas ainda não tivera tempo de ir.

Ainda bem que não precisaram de reserva. Mas como as mesas mais afastadas já estavam ocupadas, elas se acomodaram em uma mais próxima da entrada. Agora, vamos lá. Lembram da Lei de Murphy? Ela deveria ser cumprida. E tudo que estava ruim poderia sempre...

- Tia Lica! – Heloísa levantou a vista do cardápio para encontrar um pinguinho de gente com um montinho cacheado na cabeça, correndo em sua direção. A mochila balançando nas costas e o inconfundível uniforme azul escuro do Grupo contrastando com os tons amadeirados do ambiente.

- Marina? – Lica ficou surpresa. Nem tinha como não ficar. O que Marina fazia ali? Espera, e se ela estava ali, tinha que estar acompanhada de alguém e só poderia ser....

“Ah, não. Ah, não. Ah, não”, Heloísa pediu, suplicou mentalmente.

- Mamãe, olha quem eu encontrei aqui – a menina soou verdadeiramente animada – A tia Lica.

Heloísa esqueceu de como se respirava quando viu Samantha passar pela entrada do restaurante. Enfiada em uma blusa de cambraia por baixo de uma jaqueta marrom, numa saia branca longa, óculos de grau no rosto e bota nos pés, ela estava simplesmente majestosa. Não tinha muito o ar de executiva dona de São Paulo. Parecia uma versão mais velha da Samantha do Grupo, com roupas no mesmo estilo, mas mais sofisticada e linda, se é que isso era possível.

Quando os olhares se encontraram, por um segundo viu surpresa nas íris castanhas da Lambertini, mas ela rapidamente deu lugar à interrogação. O que diabos Lica fazia ali, meu Deus?

- Filha, eu já falei pra não correr assim – ela ralhou com Marina, que ainda estava agarrada à Gutierrez, os olhinhos brilhando.

- S-Samantha – Lica pigarreou e tomou um gole de sua água – Surpresa encontrar você aqui... e a Marina – emendou.

Para estranhamento de Heloísa, Samantha assumiu uma expressão amena. Havia algo de muito errado com o mundo.

- Eu acho que deveria estar aqui – Samantha comentou, em meio a um risinho – Filha, deixa a Heloísa fazer o pedido dela. Vamos? – estendeu a mão para Marina.

- Deixa eu ficar aqui com ela, mamãe. A gente não lanchou juntas hoje. Você foi embora, tia Lica – a menina mirou Lica com um olhar um tanto quanto desapontado.

- Desculpa, meu anjo – a forma como Heloísa se dirigiu a Marina arrancou um arquear de sobrancelhas de Samantha. Surpresa maior ainda quando ela ajeitou a golinha da camisa da menina – Eu tive que sair por conta de um imprevisto. Mas está tudo bem. Amanhã a gente lancha juntas de novo.

Mas era só o que faltava Lica fazendo promessas a sua filha.

- Promete?

- Prometo. Palavra de Gutierrez – Lica jurou com os dedos em xis nos lábios e mirou Samantha em seguida – E ela vale muita coisa – acrescentou em um tom incisivo antes que alguém pudesse dizer alguma coisa.

Mari se ajeitou no colo de Lica e finalmente percebeu a presença de Alice no ambiente.

- Oi, amiga da tia Lica – arrancou uma risada de Alice.

- Oi, amiga da Lica – a fotógrafa brincou e estendeu a mão para a menina segurar – Alice.

- Marina Lambertini – a menina respondeu toda graciosa, ajeitando os cabelos em um movimento do tipo “eu sou linda e sou demais” tão Samantha Lambertini.

- Muito prazer, Marina Lambertini – Alice brincou – É sua filha? – dirigiu-se a Samantha e recebeu uma confirmação com a cabeça e um sorriso discreto, mas que não chegou aos seus olhos – Ela é linda. Parece muito com você.

- Obrigada... Alice, certo?

- Sim... Samantha? – a fotógrafa quis ter certeza.

- Samantha – a Lambertini respondeu com um aperto de mãos – e dirigiu-se a Marina – Filha, vambora? Vamos deixar a Heloísa e a Alice almoçarem? Daqui a pouco ‘cê tem aula de novo.

- Aula de tarde? – Lica inquiriu.

- Eu vou aprender a tocar violão. A mamãe disse que depois vai me ensinar a tocar baixo e eu vou cantar que nem ela, não é mamãe?

Lica viu devoção no olhar de Marina para Samantha e não entendeu muito bem, mas se sentiu elevar diante daquela interação. O sorriso que a Lambertini abriu à fala da filha foi mais lindo ainda.

- É sim, mas pra isso o violão primeiro. E não tem aula de violão se você não sair daí. Bora! – estendeu a mão e Marina a pegou, saindo do colo de Lica – Desculpem por isso, mas criança quando resolve fazer criancice...

- Sem problemas, Samantha. Eu adorei a Marina. E ó, eu quero ver uma apresentação sua quando ‘cê tiver cantando. Vou pedir pra Lica me levar – e em um gesto automático, Alice segurou a mão de Lica sobre a mesa, fazendo um carinho ali com o polegar. Gesto esse que passou despercebido por Samantha. Demorou uns segundos para ela conseguir desviar o olhar das mãos quase entrelaçadas.

- A mamãe chama você – Marina gracejou e se despediu de Lica com um abraço pra lá de gostoso e a fez prometer que se veriam novamente no dia seguinte no Grupo.

Mas a situação ficou realmente esquisita foi quando Heloísa voltou sua atenção para o menu e confessou não ter ideia do que pedir.

- Posso sugerir? – Lica levantou as vistas para Samantha. Olho com olho – Um fetuccine ao molho marinara. ‘Cê sempre gostou de fetuccine e... – não soube como continuar, pigarreou – Um cabernet cairia bem com a massa. Licença.

Samantha se retirou sob o olhar atônito de Lica. Até que ponto ela se lembrava de seus gostos? Alice foi que estranhou a interação, mas não era preciso ser nenhum gênio para perceber que Heloísa e a mulher já se conheciam de antemão. Nada explicaria melhor aquela amizade toda da menina com ela.

E Lica? Bom, ela não seguiu a sugestão de Samantha. Pediu um calzone no lugar do fetuccine e um pérgola no lugar do cabernet. A Lambertini percebeu que teve seu palpite ignorado e não soube bem o que pensar a respeito. Entendeu que a melhor coisa que faria era ficar na sua. Sentou-se com Marina em uma mesa mais afastada, comeu entre as tagarelices da filha, virada de costas para a mesa de Lica.

O que os olhos não viam, o coração não sentia.

Ainda terminou sua refeição antes da Gutierrez e da tal Alice e quando passou próximo à mesa delas na saída, ainda teve que lidar com Marina dando mais um tchauzinho animado para as duas, sobretudo para a de franja. Já na altura da porta, foi chamada pelo maitre do restaurante. Ah, Romeu... ela só queria ir embora, sabe?

- Sim?

- Samantha, você não vai levar o cabernet? – apontou para o cabernet sauvignon nas mãos – Você pediu pra separar, mas esqueceu.

- Põe de volta na adega – ela foi clara – Cuidado com essa garrafa, tá? É estoque limitado. Obrigado, Romeu.

- Sem problemas, Samantha. Licença – o homem se afastou. Samantha relanceou a mesa de Lica no movimento de se virar e deixar o restaurante. A Gutierrez viu a cena, mas não pronunciou uma única palavra. Pigarreou e pegou novamente o menu para folhear pelas sobremesas. Se interessou por um sorvete frito com gotas de chocolate por cima e....

- Trattoria Lambertini, um restaurante Meliã – Lica leu baixinho no canto inferior a logomarca dos hotéis de Samantha.

Vem cá, Alice não tinha um restaurante melhor para eleger como seu favorito não? Tinha que ser justo aquele? E quantas vezes mais elas iriam ali enquanto estivessem saindo?

- Eu devo ter tacado açúcar no feijão da Santa Ceia – Lica disse baixinho, mas seus sussurros ainda foram ouvidos por Alice.

- Oi? ‘Cê disse alguma coisa, Lica?

- Não, nada... acho que vou querer esse sorvete frito... – e riu para a fotógrafa, que pareceu comprar seu gesto.

- Eu adoro esse mousse de framboesa... é por essas e outras que amo esse lugar... Comida deliciosa, ambiente agradável e quando a companhia é das melhores, então... – voltou a fazer um carinho despretensioso na mão de Lica, que retribuiu o gesto.

- Eu também estou adorando a companhia – preferiu não se referir ao lugar. Mas Alice tinha curiosidades em mente.

- Que bom, porque eu super gostaria de repetir – falou e a Lica não ficou claro (ou talvez tenha ficado sim) a que ela havia se referido: se ao almoço, o fato de elas estarem ali juntas ou à transa de mais cedo. Ela, particularmente, também gostaria de repetir. Tudo.

- ‘Cê é incrível, sabia? É impressionante como eu me sinto mais leve quando estou com você – Heloísa soou sincera, olhou diretamente nos olhos de Alice, ainda mantendo as mãos entrelaçadas sobre a mesa.

- Eu também me sinto, Lica. De verdade – a fotógrafa admitiu e voltou a atenção ao menu – Mas bora pedir essa sobremesa. Eu estou salivando já.

Fizeram os pedidos e terminaram o almoço em meio a uma conversa amena e pra lá de divertida. Alice tinha esse estranho poder de fazer Heloísa rir do nada e para o nada e era maravilhoso, ela não podia negar. Se sentia bem na companhia dela e prolongaria aquilo o máximo que pudesse.

Nem a presença de Samantha a desestabilizou tanto quanto ela pensou que pudesse desestabilizar. Tremeu na base, mas se manteve firme ao receber o olhar dela e encontrou segurança na fotógrafa à sua frente. Mas não podia deixar de admitir: ainda tentava decifrar a expressão que o olhar de sua ex-namorada assumiu ao encontrar as mãos dela e de Alice entrelaçadas em um gesto de cumplicidade sobre a mesa. Por um momento, viu surpresa, e por outro viu... decepção? Um lampejo de tristeza?

Pelo amor de Deus, Heloísa? A troco de quê Samantha se importaria com um gesto seu ou com o que fazia ou deixava de fazer? Não era ela a dona de metade dos hotéis de São Paulo? A mulher mais bem casada do mundo? Aí é que está: sendo tudo que Samantha era, o entrelaçar de mãos de Alice com Heloísa tecnicamente deveria lhe ser indiferente, certo? E aí é que estava o problema.

Ele não fora.

E Heloísa percebera.


Notas Finais


Ok, Alice e Lica já está rolando. Palpites sobre o que vai ser dessa relação delas?
PS. Henrique desnecessário, eu sei, mas ele vai ser uma peça chave da história, então peço que tenham só mais um cadinho de paciência com ele (embora minha vontade seja matá-lo rsrs).
No próximo capítulo: Lica super madura mostrando como ter um relacionamento de verdade (contém ironia). Adianto uma coisa: Alice tem que ter estômago, viu?

Obrigada pela leitura.
Beijos e até o próximo capítulo!


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