História Mil Coisas Belas - Capítulo 5


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol
Tags Baekhyun, Baekyeol, Chanbaek, Chanyeol, Trans!baek
Visualizações 999
Palavras 4.468
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Hentai, Romance e Novela, Suspense, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


BOM DIA, MEUS AMORES.

Depois de muito estresse, muita raiva, muitas respiradas fundas... Eis que cheguei com o novo capítulo de Mil Coisas Belas! Pra ser sincera, queria que esse capítulo ficasse de uma maneira completamente diferente, mas sabe quando na sua cabeça tudo acontece de uma maneira e, ao colocar em palavras, sai de outra? Mal de toda ficwriter, eu acho.

Muito obrigada pelo carinho, pelos comentários, por cada um dos incentivos. Chegamos a 200 favoritos, eba! Não tenho muito tempo pra responder os comentários (sério, eu saio de casa às 07h e volto às 23h), porém tô tentando, aos pouquinhos, mas leio todos.

Espero que gostem! See ya.

Capítulo 5 - 5 - Os Cigarros


Capítulo V – Os Cigarros

 

Ela gostava particularmente dos batons vermelhos.

Park Chanyeol examinou atentamente a caixa de cigarros em cima do criado mudo. Era o cigarro da caixa vermelha de filtro laranja. Quando parou na padaria da cidade e examinou todas as diferentes marcas de cigarro, aquele era o mais caro. Park Chanyeol não se importou com o preço e trocou as notas pela caixinha vermelha, e nem ao menos esperou sair pela porta antes de começar a abrir o plástico transparente. O mais caro sempre era o melhor? Não estava acostumado com o melhor, muito menos com o mais caro, mas estava se sentindo em dívida. A culpa pesava em cima dele como se de repente estivesse precisando carregar mil tragédias nos ombros. Era como se o vento zunindo em seus ouvidos, enquanto caminhava para o motel em que a encontrou pela última vez, fossem seus pecados sussurrando o quanto ele era culpado.

Talvez a cor dela fosse vermelho. Vermelho vivo. Vermelho como os batons sempre um pouco borrados, vermelho como a maneira como as bochechas dela ficavam quando os dois transavam na cama daquele maldito motel.  Vermelho como os cigarros que ela afirmou serem os melhores. O gosto era amargo, sempre. E Chanyeol experimentou uma velha nostalgia quando alugou um período de três horas naquele mesmo quarto do último encontro. Tudo estava exatamente igual, exceto os lençóis que agora eram de uma cor diferente. Lembrou-se dela como se a prostituta estivesse gravada em suas retinas como fogo. Uma tatuagem definitiva em seu subconsciente.

Você é um ser humano de merda, Park Chanyeol.

Pegou o primeiro cigarro da cartela e foi até a varanda. Era o lugar que mais gostava, e pensou na maneira nada tímida como, nua e pálida, ela se inclinou na proteção, os cabelos soltos e a maquiagem borrada. Pensou nela como um encanamento vazando, como alguém tão fodida que não precisava de mais uma tragédia na própria vida. Fechou os olhos e quase conseguiu ouvir o som da voz dela em seus ouvidos.

O nome dela era Jung.

Chanyeol nunca havia chamado a prostituta pelo nome. Ele nem ao menos pensava nela como Jung. Era sempre só a prostituta. E, mesmo assim, ela olhou para o cowboy com os olhos mansos, sempre ligeiramente distantes, e perguntou se ele não queria foder de novo. Poderia ter interpretado aquilo de uma forma diferente, poderia ter arrancado Baekhyun da cabeça – só por um segundo, era tudo o que precisava – e dito sim. Ela ofereceu os cigarros caros para Chanyeol mais de uma vez. Ela o fez gozar diversas vezes. Era a prostituta favorita do cowboy.

E agora ela estava morta.

Talvez, se tivesse dado uma chance, ela poderia ser a mãe dos filhos dele. Talvez, se não tivesse jogado aquelas malditas notas em cima da cama e saído pela porta, poderia ter chamado-a para sair na noite anterior e evitado um assassinato.  Poderia ter escrito uma história diferente para que Jung não acabasse em vermelho. No vermelho do sangue à porta da casa de uma fazenda em que ela nem ao menos conhecia.

Park Chanyeol acendeu o cigarro.

Você quer foder de novo?

Ele soltou a fumaça pelos lábios.

- Sim, Jung. – Ele respondeu para o silêncio.

 

 

Vícios começavam de repente. Era sempre assim. Começava como um mau hábito, algo que fazia com certa frequência, até começar a fazer todos os dias, mais de uma vez por dia. Foi dessa maneira que Chanyeol se tornou um viciado em cigarros. Os da caixa vermelha eram os mais caros, e o cowboy era um homem pobre. Experimentou os outros. Alguns eram tão bons quanto, porém mais fracos. Outros nem ao menos valiam a caixa ou o plástico transparente que os envolvia. Nunca havia parado para reparar quantos modelos diferentes de cigarro existiam, mas eram muitos.

Os vermelhos continuaram sendo os favoritos.

E descobriu que fumar era uma maneira quase eficaz de fazer aquele incômodo diminuir um pouco. Ele quase conseguia ficar em paz no efeito calmante. Quase conseguia parar de pensar em Byun Baekhyun. Mas ela era como uma maldição, como um chiclete grudado na sola da bota. E era quase tão difícil de ser ignorada quanto o frio de gelar a espinha e a neve que, alguns dias depois, começou a cair na fazenda. Macia, calma e branca.

Chanyeol estava deliberadamente ignorando Baekhyun todas as vezes que tinha oportunidade. Ela sempre estava bonita demais dentro de moletons pesados e toucas cobrindo os cabelos, o nariz vermelho de frio, como um anjo andando pela neve que agora cobria quase toda a propriedade. O inverno sempre era rigoroso naquela parte do estado, mas parecia anormalmente frio daquela vez. Talvez fosse só a ausência de um corpo macio na cama para esquentar os pés do cowboy, que agora era incapaz de procurar algum consolo com prostitutas. De alguma forma, tinha certeza que dividir novamente a cama com alguma delas remeteria lembranças de Jung. E ele já se lembrava dela todas as vezes que acendia um cigarro.

Baekhyun bateu à porta de Chanyeol todos os dias, durante cinco dias seguidos. Era aproximadamente sempre no mesmo horário, quando o sol estava quase se pondo no horizonte. Conseguia enxergar a silhueta da garota enrolada em casacos pesados, e a sombra dela fazendo reflexos negros contra as cortinas. Nos primeiros três dias, ela bateu na porta e chamou seu nome com força, como se demandasse uma ordem, como se exigisse. Depois, a voz perdeu a força e ela chamou-o como se soubesse que ele não responderia.

Chanyeol, sentado numa das cadeiras em frente à mesa, com um chá tão quente que espalhava aspirais de vapor pelo cômodo, fechava os olhos e lutava contra a vontade incessante de abrir a porta, de olhar para aqueles malditos olhos vítreos de ressaca. Tinha vontade de exigir que ela voltasse para a casa, que parasse de sair sozinha quando estava quase anoitecendo, porém sabia que ela era teimosa o suficiente para não aceitar ordens. Então esperou que ela simplesmente decidisse parar. No sexto dia, ela não apareceu. No sétimo dia, Chanyeol permaneceu atento e alerta, esperando que ela viesse. Estava fumando um cigarro, os olhos distantes, as pernas esticadas no chão de madeira.

Silenciosamente, pediu que ela não aparecesse.

Já havia anoitecido quando ouviu a primeira batida na porta.

- Chanyeol? – Era a voz de Baekhyun. Ele olhou para o vulto negro contra a cortina, ondulando suavemente conforme o vento transpassava as frestas da janela. – Ei, Chanyeol... Eu sei que você está em casa. Eu só não consigo entender... Quer dizer, por quê? O que aconteceu? Por que você de repente se afastou desse jeito? – Ela estava com a voz trêmula, e conseguia imaginá-la espremida contra o casaco pesado, tentando não congelar do lado de fora. – Você a conhecia, não é? Eu consegui perceber isso nos teus olhos. Eu só quero... ajudar. Quero que saiba que não é preciso ser forte o tempo inteiro. Ninguém espera isso de você.

Chanyeol soltou o ar com força pelos lábios, o cigarro queimando entre os dedos. Ele fechou os olhos, esperando-a ir embora de uma vez.

- E eu não acho justo que faça isso comigo. – Ela continuou do outro lado. – Não acho justo você se afastar assim, me evitar dessa forma. É hora de tomar decisões lógicas, Park Chanyeol? O que é lógico pra você, cowboy? Fingir que eu não existo? Passar por mim e nem ao menos me olhar nos olhos, como se eu fosse menos do que lixo? Lógico pra você é eu estar aqui, na frente dessa maldita porta, quase implorando pra entrar por que eu sinto tua falta? – A voz dela começou a aumentar gradativamente e Chanyeol percebeu, com certo horror e incredulidade, que ela estava com a voz ficando embargada. – Se você acha que dessa forma eu vou embora... Eu. Não. Vou. Eu não vou embora, cowboy. Eu não vou sair correndo. Eu vou permanecer exatamente aqui, e eu queria que o aqui fosse onde você também está.

Chanyeol só precisou dar dois passos para abrir a porta. Baekhyun, que estava com a cabeça baixa, imediatamente ergueu os olhos vermelhos na direção dele. Os olhos dela eram como tempestade capaz de inundar toda uma cidade. E brilhavam como as decorações de natal que já começavam a espalhar por todos os lugares. Ela o encarava com surpresa, como se não esperasse que ele fosse aparecer, e era injusto que houvesse lágrimas manchando as bochechas vermelhas de frio. Ela parecia conter todas as coisas mais belas naqueles olhos bonitos e puxados.

- Você é a garota mais teimosa que eu já conheci em toda a minha vida.

A voz de Chanyeol foi grave e séria. Para a surpresa do cowboy, Baekhyun escondeu um pequeno sorriso e encarou-o por baixo dos cílios espessos e grossos. Era injusto que suas pestanas estivessem molhadas com as lágrimas.

- Deve ser culpa do meu signo. Eu sou taurina.

O cowboy não entendia nada de signos, mas resolveu não retrucar. Fechou os olhos por alguns segundos e deu espaço para que ela entrasse em sua cabana, mesmo consciente do quanto aquilo poderia ser perigoso para ambos. Era como se precisasse andar em gelo superficial, e qualquer passo em falso faria com que caísse numa armadilha. Ficou imediatamente com o corpo em alerta e soltou o ar pela boca, aproximando-se da mesa e empurrando o chá quente na direção de Baekhyun.

- Beba. – Ordenou.

- Cigarros? – Baekhyun envolveu o maço nos dedos finos e examinou atentamente a embalagem, ignorando a caneca fumegante. – Eu não sabia que você fumava, cowboy. Nunca senti o cheiro antes.

- Comecei recentemente. – Retrucou quase que de imediato. Odiava o cheiro de cigarro, a forma como impregnava nos dedos, na roupa, nos cabelos. – Nunca é tarde demais pra começar vícios novos.

Ela largou os cigarros em cima da mesa e caminhou lentamente até sentar no colchão, onde retirou as botas dos pés e empurrou para debaixo da cama. Chanyeol empertigou-se na cadeira e tentou não deixar que os pensamentos fossem longe demais, tentou ignorar como tudo nela parecia como um convite. Não havia pedaço algum da pele bonita exposta, e mesmo assim ela era a mulher mais sensual que já estivera em sua cama. Inferno, não lembrava-se de já ter desejado tanto alguém em toda sua maldita vida.

- Chanyeol. – Ela chamou a atenção do cowboy. Ela dificilmente desviava os olhos dos dele. Ela o desafiava com aqueles olhos de tempestade, e parecia saber disso porque não parava de repetir o nome dele nem por um maldito segundo. – Por que você não estava me atendendo? Eu fiz alguma coisa errada?

Sabia que a pergunta viria. Ela não era o tipo de pessoa que se satisfazia com pouco, ou meias palavras. Instintivamente, voltou a segurar a cartela de cigarros porque precisava desesperadamente ter alguma coisa em mãos enquanto ansiava que aquele incômodo parasse. Era uma coceira irritante que não conseguia coçar, algo que estava deixando Chanyeol sempre alerta e irritado. E algo que acontecia só quando estava na presença dela. Era horrível desejar ter alguém por perto na mesma proporção em que a queria longe.

- Não é mais um lugar seguro, ficar aqui. Não pra você, Baekhyun. Não sei se você já reparou, mas sempre está fazendo alguma coisa estúpida. Todas as vezes que andou até aqui quando estava quase anoitecendo, colocou sua vida em risco. Esse maldito assassino entrou aqui, ele andou até a porta da casa grande sem ninguém perceber. Talvez ele seja um funcionário, alguém que está observando cada um de nós e sabe qual nossa rotina. Você precisa ir para casa, garota. Não vai fazer nenhum bem ao seu pai se aparecer morta no chão numa manhã de sábado.

- Eu não vou embora. – Ela ergueu o queixo ao responder, a firmeza na voz quase tangível. Ela era exatamente a mesma pessoa, exatamente a mesma pessoa, que anos atrás, entre seus joelhos, afirmou que ele não entendia. E aquela Baekhyun de antes era só uma criança. Chanyeol estava mesmo se sentindo ignorante sobre muitas coisas recentemente. – Você tem cuidado bem de mim até agora. E, só pra você saber, eu sou muito boa com defesa pessoal.

- Olha o seu tamanho... – Chanyeol soltou o ar pelo nariz com desdém.

- Você se surpreenderia com o que eu sou capaz de fazer, cowboy.

Chanyeol sabia como deveria interpretar aquilo, mas o corpo não. Remexeu-se desconfortavelmente na cadeira e fechou os olhos por alguns breves segundos, e só voltou a abri-los quando o ranger da madeira da cama quebrou o silencio do quarto. Baekhyun caminhou, os pés pequenos cobertos pela meia, até a mesa, e envolveu a caneca de chá que já não estava mais lançando aspirais de vapor no cômodo apertado.

- Você é tão teimosa... – Chanyeol suspirou.

Ela escondeu um pequeno sorriso por trás da caneca. Havia lágrimas secas nos olhos dela, e toda vez que Baekhyun estava por perto o cowboy conseguia lembrar-se o porquê era tão difícil tirá-la da cabeça.

Do lado de fora, voltou a nevar.

 

 

O velho pai era viciado em programas policiais.

Desde pequeno ficava vidrado em frente à televisão assistindo séries policiais e programas de investigação criminal. Os favoritos eram sobre serial killers. Em alguns casos, eles nunca descobriram quem era o assassino.

Sempre imaginou como as pessoas se sentiam ao matar. Imaginou se a sensação era tão boa quanto ele imaginava que seria. Na primeira vez que matou, tinha um propósito. Mas foi desajeitado. Havia muito mais sangue do que imaginou que teria, e foi muito menos divertido do que idealizou que poderia ser. Ela gritou, lutou, xingou e, por fim, implorou. O homem deveria ter pensado em alguma outra forma de assassinato, algo que não fizesse sangrar tanto. Deveria ter deixado o menos possível de rastros, e talvez o problema fosse a afobação. Mesmo tendo arquitetado tudo durante muitos meses, assim que sentiu aquela pulsação na ponta dos dedos, assim que se sentiu absolutamente no controle da situação, quis se divertir e tirar o maior proveito possível. O cérebro se desligou de qualquer outra preocupação.

Na segunda vez, agiu com mais calma.

Ela era uma prostituta. Estava usando batom vermelho, igual a cor do esmalte em todas as unhas da mão. Chamava-se Jung. Ela era bonita de uma maneira vulgar, e o homem esperou que ela gritasse, lutasse, xingasse e implorasse. No entanto, nua e fantasmagoricamente magra, a prostituta olhou para ele por baixo dos cílios espessos e perguntou se ele não poderia lhe dar um cigarro. Ela queria o Marlboro vermelho.

- Eu não tenho direito a um último pedido? – Ela questionou erguendo a sobrancelha. Estava conformada. Parecia até ansiosa pela morte. – No bolso da minha calça. Lá também tem o isqueiro.

O assassino caminhou até o local onde havia deixado as roupas dela. O jeans era puído, tão usado e desgastado que estava rasgado entre as coxas. Ele enfiou os dedos no bolso e pegou a cartela de cigarros, e só havia um lá dentro. Era como se ela tivesse feito a conta certa. Será que conseguiria fumar todos os cigarros que comprou antes de morrer? Marlboro era um dos caros, não poderia desperdiçar dinheiro assim.

- Seu último pedido é um cigarro? – O assassino perguntou. Levou o cigarro até os próprios lábios e franziu o cenho ao perceber que era a primeira vez que colocava algo do tipo na boca. Nunca havia fumado antes, mas já vira muitas pessoas fazendo. Ele acendeu o isqueiro e fez uma concha com a mão, de uma forma que conseguisse acender o cigarro sem que o vento apagasse o fogo.

Ela riu da forma inexperiente dele. O assassino parou, com o cigarro já aceso, e a mudança na expressão dele aconteceu de uma maneira tão abrupta que Jung imediatamente parou de rir. O homem olhou fixamente para o rosto machucado e fixou na boca pintada de batom borrado e sangue. Ele experimentou o ódio espalhando-se por cada célula como um câncer.

O homem tirou o cigarro da boca e cuspiu no chão, aos pés dela. A risada debochada de Jung foi o gatilho para que aquele ódio emergisse, para que ele lembrasse como odiava mulheres, como odiava principalmente as prostitutas. E como odiava o pai.

O velho pai alcoólatra, viciado em programas policiais. O mesmo homem que fodeu prostitutas na cama que dividia com a mãe. O mesmo pai que havia batido nele até que o garoto “aprendesse a ser homem”. Um riso amargo escapou do fundo da garganta do assassino, e ele encarou Jung como se ela fosse menos do que nada. E ela era. Ali, presa, nua, vulnerável e sozinha, ela não era nada.

Só percebeu que estava apagando o cigarro na barriga nua dela quando a ouviu suspirar, novamente com um sorriso nos lábios, como se fosse capaz de tirar prazer daquela dor.

- Eu rezei, antes de dormir, para que você também me matasse. – Jung sussurrou e fechou os olhos, aspirando o cheiro do Marlboro que era seu último pedido. Ele estava negando seu direito de fumar o último cigarro da caixa. – Estava te esperando.

Matar, pela segunda vez, foi muito mais fácil. E muito mais satisfatório.

Jung não gritou e não implorou para viver.

Ela aceitou a morte com alívio. 

Sabia que merecia morrer.

 

 

Baekhyun acordou cedinho na manhã seguinte, porque o barulho da tempestade de neve estava muito alto do lado de fora. Ela se levantou com olhos pesados de sono e caminhou na pontinha dos pés, rezando para que o chão de madeira não fizesse barulho com seu peso e não acordasse o homem precariamente deitado no sofá. Era um sofá muito pequeno para alguém tão grande, e ela por alguns segundos experimentou um peso nos ombros. Estava fazendo o cowboy dormir no sofá desconfortável enquanto ela dormia a noite inteirinha na cama, enrolada no lençol gasto e quente. Pelo menos a lareira estava ardendo em chamas, provavelmente porque Chanyeol havia acordado durante a noite e colocado lenha para queimar. Ele sempre se preocupava com todos os detalhes.

Estava quase calor dentro da casa. Baekhyun olhou para o smartphone em cima da mesa e percebeu que ainda estava completamente carregado. Era surpreendente o quanto a bateria durava quando não tinha internet e muito menos sinal, e percebeu, com certa incredulidade, que não estava sentindo falta de ninguém da cidade. Até porque, na verdade, não tinha muitos amigos. Conhecidos, talvez... Depois que terminou o ensino médio, não pensou em manter contato com uma ou outra garota com quem conversava durante as aulas... Sempre tivera a impressão de que elas apenas o toleravam por pena. Nenhuma delas o procurou, então a falta de interesse era recíproca.

- No que está pensando?

Baekhyun levou um susto quando a voz grossa e ligeiramente grunhida de Chanyeol preencheu o cômodo abafado. Ela olhou para ele por baixo dos cílios, um meio sorriso nos lábios cheios.

- Em como vamos manter contato quando eu for embora. Você não tem um celular, e provavelmente não posso esperar que me escreva alguma carta...

- Eu não sei escrever. – Chanyeol respondeu quase de imediato. – E, não, não tenho um desses trecos aí. Mas existe um telefone na casa grande e nós podemos usá-lo em caso de emergência.

A expressão no rosto dele endureceu. Ele se moveu no sofá e apoiou as costas no encosto estofado, ainda com as sobrancelhas ligeiramente franzidas. De manhã cedinho, ele era muito bonito. Mais bonito do que em todas as outras horas do dia, porque sempre havia alguma marca em seu rosto e os olhos sempre pareciam um pouco perdidos.

- Conversar comigo não pode se enquadrar exatamente em uma situação de emergência, eu acho.

 Baekhyun nunca havia parado para pensar em como seria quando fosse embora, quando simplesmente fosse para o aeroporto e voasse para fora do interior. Não gostava de pensar nisso, não agora que estava quase se habituando à vida na fazenda. E, de qualquer maneira, aquela era sua herança. Cada hectare daquele lugar, quando o pai morresse, pertenceria a ela. Mesmo que não gostasse de pensar na morte do pai, costumava pensar muito no tamanho da responsabilidade que ela traria para a garota e a mãe. Por mais que a amasse muito mais do que poderia dizer em palavras, a mãe não era exatamente a mais sensata das mulheres.

- É, eu acho que não. – Chanyeol respondeu.

- Talvez eu venha morar aqui, sabe? Algum dia. – Ela se arrastou descalça pelo chão de madeira, agora sem se preocupar com o barulho que pudesse fazer. – Eu gosto daqui. Gosto da calma, do silencio, da simplicidade... Papai também. Nós moramos na cidade por causa da mamãe, porque ela quem sempre quis viver em algum lugar grande. Meu pai largou tudo o que mais amava, tudo o que realmente sabia fazer, só pra fazer a mamãe feliz. Fico me perguntando se um dia alguém vai me amar desse jeito... – Ela riu, ligeiramente tímida por estar parecendo uma tola. Costumava gritar e desafiar Chanyeol, mas agora estava falando sobre possibilidades. Não costumava se abrir com frequência. – Isso que deve ser o amor.

- Me parece horrível. – Baekhyun olhou para Chanyeol quando ele se ergueu do sofá para começar a esquentar água para o café. – Largar tudo só para satisfazer alguém.

- Querer largar tudo para satisfazer alguém. Não é um sacrifício quando se faz por amor. Meu pai contou que conheceu o seu quando os dois eram pequenos. Eles eram os melhores amigos. Faziam tudo juntos e aprenderam tudo juntos. Ele disse que odiou a sua mãe quando seus pais se conheceram. “Mudou da água pro vinho, e não porque ela pediu, mas porque ele precisou”, é o que ele diz. Nunca entendi muito bem o que ele quis dizer com isso, mas papai entendeu quando conheceu a minha mãe. Ele diz que o amor é algo que o diabo inventou. Ele te torna refém. É uma maldição, porque você começa a depender de algo que não está, e nunca vai estar, sob seu controle: a vontade de outra pessoa.

- Sou muito grato ao seu pai, Baekhyun. Ele me deu Snow, a melhor coisa que eu tenho na vida.

Pensando em todas aquelas coisas, Baekhyun começou a se sentir um pouco deprimida. Ela lembrou-se de quando o pai contou sobre o amigo que conheceu a mulher cega e se apaixonou por ela. Ele foi o padrinho do casamento, e quando ela morreu ele disse que também estava lá. Disse que o pai de Chanyeol não chorou nenhuma vez, mas que mesmo assim ele nunca tinha visto alguém tão triste.

Foi a primeira vez que Baekhyun parou pra pensar que Chanyeol realmente estava sozinho no mundo. Ele era órfão de mãe e pai, e notavelmente não tinha nenhuma namorada ou esposa, e muito menos filhos. Na idade dele, todos os outros capatazes da fazenda já estavam com uma ou duas crianças, mas ele não. Sabia que os relacionamentos dele eram com prostitutas, como aquela que havia sido assassinada. Eles se conheciam. E se... e se eles tivessem um relacionamento? Fazia sentido, principalmente quando levava em consideração a mudança drástica de Chanyeol após a morte dela.

- Chanyeol... – Baekhyun chamou bem baixinho, quase inaudível, os olhos presos na forma como os ombros dele eram largos por baixo da camiseta. Ele não respondeu, mas moveu a cabeça para que a garota continuasse. – Você a amava? A mulher que foi assassinada?

- Não. – A resposta do cowboy foi imediata. Ele terminou de fazer o café e caminhou até a mesa de madeira com duas xícaras fumegantes na mão. – Mas ela era a minha preferida. E gostava de mim, maldição, e eu não faço ideia do porquê. Ela gostava desses malditos cigarros caros e agora eu sinto como se devesse alguma coisa pra ela.

- Justiça. – Baekhyun disse após ponderar um pouco, erguendo o queixo. – Ninguém merece ser assassinada. Ninguém. É normal se sentir assim ao perder alguém de quem você, de alguma forma, conhece. É sempre estranho saber que não vai ver alguém novamente. Mas nós não podemos nos culpar por esse tipo de coisa. Tudo que se refere a vontade de outra pessoa está fora do nosso alcance... Por exemplo, papai sempre quis que eu e você fossemos amigos como ele era do seu pai. Mas isso nunca aconteceu, pelo menos não até agora.

- Nossa diferença de idade sempre foi muito grande. Eu cuidei de você quando era só um bebê e não sabia nem falar, só resmungava. Depois, quando foi crescendo, só queria saber de Oh Sehun pra cá, Oh Sehun pra lá... Nunca houve muito espaço pra mim. E eu nunca tive muita paciência com crianças, de qualquer maneira.

- Nossa! – Baekhyun não ouvia aquele nome há anos. Na verdade, só naquele momento realmente se lembrou de Oh Sehun, o amigo da infância. Ele era o único amigo de Baekhyun na fazenda, e os dois costumavam ser unha e carne. Com o passar dos anos, no entanto, ele acabou se tornando só uma vaga lembrança. – Sehun ainda está trabalhando aqui?

- Sim. – Chanyeol respondeu, sorvendo um gole longo de café.  – Ele ainda vive por aí. Às vezes pergunta de você.

Baekhyun de repente se sentiu ligeiramente constrangida por nem ao menos ter se lembrado do antigo melhor amigo. Mas havia tantas outras coisas para se preocupar o tempo inteiro... Os assassinos, o pai doente, a rejeição, Chanyeol... Tudo parecia tão mais importante do que se preocupar com detalhes. E era sempre difícil imaginar qual seria a reação dele quando a encontrasse agora. Por fora, ela não era mais a mesma. E Baekhyun odiava ter que lidar com rejeições.

Mas ali, enquanto tomava café com um Chanyeol de cara fechada, nenhum problema parecia grande demais. Por mais que soubesse o caos que reinava do lado de fora daquela cabana, e por mais que a neve caísse barulhenta e ininterrupta, era como se o mundo conseguisse protegê-la de todo o mal enquanto estivesse sentada naquela cadeira.

Chanyeol não era um homem de muitas palavras, e Baekhyun costumava falar muito, o tempo inteiro. Mesmo que fosse só para resmungar, reclamar ou falar mal de alguma coisa, como, por exemplo, a qualidade precária do café e a falta óbvia de açúcar. E Chanyeol era incrivelmente paciente com ela em todos os momentos, exceto quando a garota fazia alguma coisa que colocasse sua integridade física em risco.

Ele até mesmo ensinou precariamente como ela conseguiria limpar um peixe, e Baekhyun se saiu muito bem preparando o almoço enquanto o cowboy, sentado com um cigarro entre os lábios, a observava sem dizer nada.

Era um belo ponto de estabilidade, ela pensou.

E nem mesmo conseguia imaginar que Chanyeol, atento a cada um dos movimentos dela, pensava no quanto a vida era uma vadia traiçoeira por fazê-lo desejar aquilo para sempre.


Notas Finais


E aí???? Apareceram dois personagens novos, não? O assassino e uma palinha de Oh Sehun. Precisei, de uma maneira precária (o famoso "nas coxas") editar um monte de coisa nesse capítulo, porque, nessa altura do campeonato, tive que fazer umas alteraçõezinhas porque percebi um rombo ENORME no meu plot. Isso que dá, Débora, quando você demora 2 anos pra escrever uma história... Acaba esquecendo detalhes importantes.

Mas vou trazer tudo lindo e maravilhoso pra vocês, não se preocupem. Espero que gostem e... Bem, tá rolando um avanço na relação chanbaek, né?


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