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História Minefields - Capítulo 5


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Notas do Autor


História de terror com uma pitada de romance porque sim né
Agradeço desde já aqueles que estão acompanhando!
Boa leitura!

Capítulo 5 - Uma garota comum


Capítulo 5 – Uma garota comum

Acordei com o Sol queimando o meu rosto pela janela, sem conseguir abrir meus olhos direito. Estavam inchados de tanto eu chorar antes de dormir.

Fiquei um tempo enrolando na cama, tentando entender tudo o que havia se passado até então, até que eu percebi que estava atrasada para me arrumar. Nós teríamos nossa reunião às 9h e eu ainda teria que andar até o quartel general, então precisava me apressar. Tentei ao máximo não pensar que encontraria Reiner, porque senão desistiria de vez.

Tomei meu banho correndo. Eu estava faminta, mas não tinha o que comer e eu não teria tempo de comprar alguma coisa na rua, então tratei de caprichar na escovação dos dentes, absorvendo o gosto da pasta e torcendo para aquilo enganar meu estômago, por mais que não fizesse sentido.

Quando cheguei ao quartel, as crianças do treinamento Guerreiro já estavam se alongando. Pude ver os meninos ao longe, acenando para mim quando me viram, menos Gabi, que me olhou de forma diferente e praticamente me ignorou. Senti que isso tinha a ver com a minha visita a sua casa, na noite anterior, e temia o que haviam explicado para ela. De qualquer forma, não adiantava especular naquele momento, porque eu já estava atrasada.

- Ah, Liesel! Que bom que chegou, parece que agora estamos todos aqui. – disse Zeke, quando abri a porta. Ele estava de pé, segurando um pedaço de rosquinha e uma xícara de café, assim como os demais. Pieck estava deitada de bruços em um sofá ao lado da mesa de centro e Porco estava sentado em uma cadeira, de costas para mim. Xinguei o mais alto que pude em meus pensamentos quando notei que haviam deixado um lugar para mim na cadeira entre Reiner e Colt.

- Desculpem o atraso. Bom dia. – eu disse, me sentando em meu lugar, evitando os olhares sobre mim, principalmente o de Reiner, ouvindo todos me cumprimentarem.

- Tudo bem, você deve estar muito cansada. Chegou a tempo de começarmos. Aceita um café, Liesel, querida? – disse Zeke, já servindo uma xícara para mim.

- Sim, obrigada. Eu acabei não tomando nada antes de sair de casa. – eu disse, pegando a xícara, me surpreendendo com todos oferecendo suas rosquinhas para mim, tirando Zeke, que só observava.

- Poxa, gente, obrigada. – eu disse, envergonhada, pegando a rosquinha de Pieck, que sorriu.

- Bom, acho que podemos continuar. – disse Zeke, sentando em sua cadeira, na ponta da mesa. – Sei que é repentino, mas a situação é crítica...Durante esses últimos anos, Marley se envolveu e venceu uma guerra por recursos. Eles fizeram nós, os detentores dos titãs, calarem os países que se opuseram a eles.

“Por causa disso, a empatia do mundo em relação aos Eldianos cresce cada vez mais, comparável somente ao puro ódio que sentiu em relação a nós durante a era do Império Eldiano. Nós nos dedicamos a Marley para provarmos nosso remorso pelas atrocidades cometidas por nosso povo no passado. Isso, por si só, não foi errado, mas por causa disso, as vozes clamando pelo fim dos Eldianos se tornaram mais e mais altas. Sem falar que, na última batalha, ficou claro que em breve, armas convencionais poderão facilmente superar o poder dos titãs. Sendo assim, os Eldianos perderão o seu valor num futuro próximo. Quando isso acontecer, Marley não poderá mais manter sua posição de superpotência mundial e, se Marley enfraquecer, a barreira que protege os Eldianos do resto do mundo desaparecerá...e o próprio direito dos Eldianos à vida será ameaçado. Mesmo agora, muitas pessoas acreditam que não temos direitos humanos. Nós, Eldianos, estamos enfrentando um sério risco de extinção.”

Fez-se silêncio e tudo o que eu conseguia ouvir era a respiração pesada de Colt, ao meu lado.

- E não há como resolvermos isso? – perguntou Colt, de repente, inquieto.

- A única forma é...continuar a fazer o que fazemos. Precisamos ajudar Marley a pegar o Titã Original e os recursos da Ilha Paradis o mais rápido possível. Desse jeito, não vamos só ajudar o poder de Marley a se estabilizar enquanto nação, mas também vamos ajudar o mundo a se livrar da ameaça de Paradis com as próprias mãos. – respondeu Zeke.

- Mas, acho que agora o mundo nos odeia tanto, que mesmo se o plano de recuperar o Original der certo, não será o suficiente para aplacar esse ódio... – refletiu Pieck.

- Exatamente, Pieck, bem notado. É isso mesmo. O que importa é a história, a narrativa. Precisamos preparar um enredo sobre o que acontecerá até recuperarmos o Titã Original. – disse Zeke, com um brilho no olhar. – Primeiro, precisamos reenfatizar sobre a ameaça que a Ilha Paradis oferece ao mundo. Mas essa história precisa de um narrador e ninguém melhor do que a família Tybur, detentora do Titã Martelo de Guerra, para esse papel.

- A família Tybur?! – questionou Colt.

Os Tybur eram uma família de nobres que havia se oposto ao Rei Fritz na Grande Guerra dos Titãs, um século antes. Como eram cidadãos honorários de Marley, não tinham permissão para se envolver em política ou guerras, no entanto, de acordo com Zeke, eles assumiriam o risco contando aquela história, para salvar Marley e todos nós de Eldia.

- É verdade que os Tybur nunca utilizaram o seu poder de titã contra uma nação inimiga, mas por terem sido aqueles que se opuseram ao Rei Fritz na Guerra Titã, eles possuem muita influência com outras nações. O mundo ouvirá o que eles têm a dizer, pelo menos.

- Isso mesmo, querida Pieck. Exatamente! – aplaudiu Zeke.

- Mas, mesmo tendo o poder do Martelo de Guerra, os Tybur nunca moveram um dedo para nos ajudar e proteger nosso país, vivendo em mansões, enquanto o nosso povo vive cercado em guetos. Agora, eles estão dispostos a serem nossos heróis? Não é bom demais para ser verdade? – questionou Porco, em hesitação com o plano.

Mais silêncio. Não era muito comum que algum de nós questionasse um plano, mas eu podia compreender os sentimentos de Galliard. Era mesmo algo bom demais para ser verdade.

- Eu entendo o que você está querendo dizer, mas tanto os Tybur quanto os Marleyanos estão preocupados com a situação. – disse Zeke, ponderadamente.

- Mas nós...

- Nós devemos ser eternamente gratos a eles se isso ajudar a salvar a nossa pátria amada Marley. – disse Reiner, interrompendo o que Porco ia dizer. – Nós, Guerreiros, devemos cooperar com os Tybur e ajudar a reviver a heroica nação de Marley.

- Isso mesmo. E, em breve, teremos um festival para comemorarmos isso bem aqui, em Liberio. – comunicou Zeke.

- Festival? – questionou Reiner.

- Isso. Vamos convidar pessoas influentes e a imprensa de outras nações e fazer a família Tybur dar uma declaração de que em um ano...vamos tomar o total controle da Ilha Paradis e os destinos de Marley e Eldia dependem do sucesso desse plano. O fracasso não pode ser mais tolerado. – respondeu Zeke, frisando a última frase, ao olhar para Reiner. - Precisamos unir nossos corações...para assegurar tanto o futuro de Eldia quanto o de Marley!

Aquilo tinha sido estranho. Todo aquele discurso apaixonado não fazia sentido se estávamos sozinhos. Não havia quem impressionar ou mostrar lealdade, porque só havia nós, Guerreiros. Foi quando percebi que podíamos estar sendo observados, mesmo de longe. Olhei para Pieck, que piscou para mim de volta, como se respondesse a minha pergunta. Nós sabíamos nos comunicar daquela forma, já que havíamos passado quase a vida inteira juntas e nos conhecíamos bem o suficiente para saber o que a outra estava pensando. Então, eu tinha razão. Estávamos sendo espionados. Mas, de que forma? Parece que Reiner havia dado conta de isso também, porque, antes de deixarmos a sala de reunião, ele olhara para a vitrola que se encontrava no canto da sala. Os oficiais estavam nos escutando por lá.

Eu podia compreender o porquê daquilo. Se estávamos em uma situação tão arriscada, à beira de outra guerra, Marley queria saber se éramos leais o suficiente e se éramos dignos de confiança. Por esse motivo, Reiner havia falado daquela forma e interrompido Porco em sua desconfiança. Eu sabia que não era bem aquilo que meu Vice-Comandante pensava de Marley e da guerra, mas ele era bom em esconder isso dos outros.

Na saída, senti o olhar de Reiner pousar sobre mim. Eu o olhei de volta, mas me arrependi. Eu vi tristeza em seus olhos e me remoí por dentro ao lembrar das coisas que havia dito, mas também senti a mesma raiva da noite passada. Não conseguiria perdoá-lo ainda, porque eu mesma não me perdoava, e parecia que ele não iria tentar me convencer do contrário, porque ele achava que não merecia perdão.

- Nossa, que clima... – comentou Pieck, quando entramos em seu quarto. – Você e o Reiner brigaram ou coisa parecida?

- Está tão na cara? – eu perguntei. Realmente, eu era um livro aberto para Pieck.

- Nossa, problemas no “paraíso”? – perguntou Porco, de forma irônica, ao se jogar na cama de Pieck, enquanto ela fazia o mesmo, ao seu lado, e eu me sentava na cadeira do quarto.

- Não é nada. Ele foi um idiota, eu fui uma idiota. Acontece. – eu desconversei, acendendo um cigarro e jogando um para Galliard. Não queria ter essa conversa perto dele, que odiava Reiner tão abertamente.

Pieck me olhava com atenção e tinha um semblante preocupado. Ela torcia por nós, mesmo que a nossa relação fosse proibida, mas ela entendia o que sentíamos, porque ela passava pelo mesmo com Porco.

- Ele sempre foi um idiota. Francamente, Liesel, ainda não entendo como isso aconteceu. – disse Porco, me fazendo olhar para ele, irritada. Eu já estava me arrependendo de ter vindo com eles. – Mas, sabe, depois de ver as memórias da Ymir, acho que consigo entender ele...você é muito parecida com aquela garota, a Christa. A “Deusa das Muralhas”, como eles a chamavam...imagina só? Tão doce, gentil e linda...ele era louco por ela...vai ver confundiu vocês duas...

- Vai se foder, Galliard. – eu disse, me levantando. – Eu não sou obrigada a ouvir essas coisas, muito menos de você.

- Sério, Pock, como você é babaca. – disse Pieck, balançando a cabeça.

- O que foi? – ele perguntou, irritado, mas eu não fiquei para discutir, saindo da casa dos Finger mais chateada do que quando entrei. Ser comparada a Christa de novo me deixava irada, principalmente porque sabia que Reiner já fora apaixonado por ela, quando acreditava ser um soldado das muralhas de Paradis. Eu não me importava de agir como uma ciumenta imatura, porque minha paciência com as implicâncias de Porco já havia se esgotado. Eu estava esgotada.

Passou-se uma semana desde aquele dia. Eu estava evitando tanto Reiner quanto Porco e mal falava nas reuniões. Enquanto isso, passava a maior parte do tempo com Colt, quando ele agia como o secretário de Zeke, o que ocupava o meu tempo e me dava uma desculpa para não ter que ir para casa tão cedo e encontrar Erika. Ao mesmo tempo, eu sabia que isso irritava Reiner e, por mais que soasse imaturo de minha parte, eu até que me sentia bem com isso, e, modéstia à parte, Colt também.

Mas eu sentia a falta de Reiner e também sentia a falta de Porco. Eles eram as pessoas mais importantes que haviam me restado, ao lado de Pieck, e eu não queria que ficássemos naquela situação para sempre. No fundo, eu já havia perdoado os dois, mas não tinha coragem de dar o primeiro passo, mesmo vendo que estavam arrependidos pelo que disseram.

- Já passou uma semana e você ainda não me contou o que aconteceu entre você e o Reiner... – disse Pieck, enquanto andávamos pelas ruas de Liberio. Ela segurava a minha mão, mas eu sentia o peso de seu corpo me puxando para baixo. Ela estava se apoiando, porque ainda sentia dificuldade ao andar.

- Claro, você não desgruda do Pock desde que chegamos... – eu disse, sorrindo.

- Bom, agora você pode me contar. – ela disse, sorrindo de volta. Nós estávamos sozinhas e não havia muitas pessoas por perto.

- Ele pediu para eu desistir de ser uma Guerreira e me casar e ter filhos em vez disso, o que me ofendeu muito. – eu resumi, enquanto ela ouvia atentamente.

- Sei...eu imagino porque se ofendeu, mas você sabe que ele estava só tentando te proteger, não é? – ela disse, sem vacilar seu sorriso.

- Eu sei, Pieck. Mas eu não estou no meu melhor momento. Aquilo me deixou muito mal e eu não estou sabendo lidar com tudo isso. – eu disse, sentindo minha cabeça pesar. – Acho que a guerra acabou com o meu psicológico.

Estávamos sussurrando. Desde que voltamos da guerra, havia certo clima de conspiração e quase não nos deixavam só. Estávamos sempre sendo vigiados, mais do que o normal. Por mais que não parecesse que tivesse alguém ali, ouvindo a nossa conversa, não podíamos arriscar que aquilo acontecesse.

- Eu entendo, Liesel. Mas, você sabe, o psicológico dele também foi arruinado. Se não está totalmente depressivo, Reiner está morrendo de medo na maior parte do tempo. Ele teme principalmente por você e pela Gabi, porque ele ama vocês duas. – disse Pieck, pousando a cabeça em meu ombro. Pausei por um momento, digerindo as palavras dela. Eu sabia que Reiner se importava comigo, mas nunca passou pela minha cabeça a palavra amor. Na verdade, nós nunca havíamos usado aquela palavra e me ocorreu que, devido às circunstâncias de uma guerra para acontecer e o fim de Reiner tão próximo, aquilo era um erro. Eu já devia ter dito que o amava, mesmo que fosse apenas para que ele tivesse a ciência disso, e então uma culpa enorme se assolou dentro de mim.

- Acha que ele me ama? – perguntei.

- Eu tenho certeza que vocês dois se amam, e já passou da hora de se acertarem. – ela disse, como se fosse a coisa mais fácil do mundo.

- Eu nunca pensei que você fosse tão especialista assim no Reiner. – eu ri, me surpreendendo com a forma que ela conseguia analisar tão bem o que ele sentia.

- Eu passei a ser, quando vi que você estava começando a gostar dele. – ela sorriu.

- Eu te amo, Pieck. – eu a abracei.

- Eu também te amo, Liesel. – e eu senti mais uma vez por não ter o tempo que gostaria ao lado da minha melhor amiga.

Mais tarde, decidi passar no quartel e ver se encontrava Reiner por lá, mas ele parecia não estar em nenhum lugar do prédio. Eu queria poder dizer a ele o que eu estava sentindo, e acabar com aquilo de uma vez. Não me importava mais nada.

Foi quando eu o encontrei em um corredor no no térreo. Ele estava pálido e parecia que tinha presenciado uma cena terrível.

- Reiner? – eu o chamei e ele se virou para mim, assustado.

- Liesel? – não havia ninguém no corredor, mas não achei seguro dizer o que pretendia logo de cara. Talvez, eu mesma estivesse insegura.

- O que estava fazendo na sala de armamentos? – perguntei, estranhando o fato de ele estar ali, que eu pensei ser o último lugar que deveria procura-lo.

Ele congelou por um momento e eu estranhei mais ainda.

- Está tudo bem? – eu me aproximei, procurando seus olhos, que desviavam dos meus.

- Está sim. Não estava fazendo nada importante, só...checando umas coisas. – ele disse, sem olhar nos meus olhos. Isso significava que ele estava mentindo. Ele estava escondendo alguma coisa de mim.

- Tem certeza? – insisti, preocupada, tentando analisar suas expressões.

-Sim, não se preocupe. – ele respondeu e então, finalmente, olhou para mim. – Eu estava pensando...se você não gostaria de...sair comigo esta noite... – ele então mudou, mudando sua expressão de assustado para uma mais serena e ansiosa.

- Sair com você? – perguntei, surpresa.

- Tem um bar perto da entrada, fora da zona de confinamento. Lá tem “pouca freguesia”. Se quiser... – eu entendi o que ele queria dizer. Mesmo sendo fora de Liberio, o lugar não era muito frequentado por oficiais, então ninguém faria vista grossa para dois Guerreiros Eldianos. Pelo contrário, ficariam bem longe de nós e nos deixariam em paz. – Eu não...eu não quero continuar desse jeito.

Eu pude ver a tristeza em seu olhar baixo, mas fiquei feliz em saber que, por ele, também voltaríamos ao normal. Mesmo sabendo do risco de sermos vistos, nada impediria que dois colegas Guerreiros frequentassem um bar, se estava dentro da lei.

- Eu também não...Eu vou com você. – eu disse, sorrindo com os lábios, tentando esconder minhas verdadeiras emoções. A minha vontade era poder abraça-lo, mas algo me dizia que teríamos essa oportunidade mais tarde.

- Te busco na porta do seu prédio às 19h, então. – ele disse, dando meio sorriso. Eu tinha a impressão de que ele estava sentindo o mesmo que eu, o que me fez relaxar quanto à preocupação que estava sentindo com seu estado antes de nos encontrarmos. Se Reiner não estava bem, eu tentaria melhorar o seu humor mais tarde.

Corri para casa, mas não sem antes de passar na casa dos Finger.

- Liesel? – perguntou Pieck, surpresa, atendendo a porta.

- Pieck, você tem um daqueles batons ainda? – perguntei. Pieck, por ser uma Marleyana Honorária, tinha alguns privilégios que eu não tinha, como o de poder frequentar as lojas de Marley e adquirir coisas que um Eldiano comum de Liberio jamais poderia pensar em ter, como, por exemplo, maquiagem.

Pieck me olhou surpresa por um segundo, mas deu um sorriso imediatamente depois, como se tivesse adivinhado o porquê de eu querer um batom emprestado.

- Fique ainda mais bonita. – disse ela, me entregando o objeto, piscando para mim e sorrindo.

Me olhei no espelho quando terminei de me arrumar. Eu estava com uma das roupas de minha mãe, que sempre andava tão elegante, mesmo vivendo em meio a pobreza de Liberio: uma blusa branca de mangas compridas com um recorte em “V”, uma calça marrom acima da cintura e um sobretudo de mesma cor. Se não fosse a braçadeira amarela em meu braço, eu poderia me passar por uma Marleyana tranquilamente, ainda mais usando aquele batom escuro, que deixava os meus lábios ainda mais avermelhados.

Prendi meus cabelos em um coque desleixado, deixando alguns fios de minha franja soltos. Eu estava igualzinha à minha falecida mãe, definitivamente.

Aquilo tudo me deixava nervosa demais, mas eu tentava pensar que em pelo menos uma noite eu poderia ser uma garota comum, como qualquer outra Marleyana, indo jantar e se divertir com o namorado. “Namorado”. Que denominação estranha para Reiner, levando em conta toda a nossa realidade, mas, se esquecermos por um segundo de que éramos Guerreiros Eldianos destinados a uma vida curta e sangrenta e que nosso relacionamento era, em tese, proibido, nós podíamos nos considerar como um casal de namorados. Como eu desejava que aquilo fosse verdade e tinha esperanças de que, naquela noite, pudéssemos experimentar um pouco daquele sonho impossível.

Quando saí, agradeci por Erika não estar em casa. Desci as escadas do edifício e dei de cara com Reiner, perto de minha porta, olhando para o céu escuro e para a rua mal iluminada, surpreendentemente fumando um cigarro.

- Você fumando, Reiner? – perguntei, surpresa, e então ele notou a minha presença, como se eu tivesse acabado de acordá-lo de um transe. Ele me observou por alguns segundos, piscando mais do que devia.

- Confesso que ajuda, de vez em quando. Você...está linda. – ele disse, sorrindo, enquanto apagava o cigarro com a ponta do sapato.

- Você vai roubar a atenção. – comentei. Reiner estava bonito demais, apesar de sua usual feição cansada, ele havia escolhido o seu melhor terno, que eu só o vi usando uma vez, no dia da Declaração de Guerra contra as Forças Aliadas. Naquela época, ele era bem diferente. Dava para notar o quanto ele havia perdido peso naqueles últimos quatro anos, mas, mesmo com o terno um pouco folgado, Reiner estava parecendo um Marleyano de classe superior, se não fosse por sua braçadeira vermelha em seu braço esquerdo.

- Não tenho nenhuma chance contra você, acredite. – ele disse, me guiando com os olhos, indicando para que eu o acompanhasse. Nós não poderíamos dar as mãos ou os braços, como os casais faziam, porque seria suspeito demais. Para todos os efeitos, éramos dois camaradas Guerreiros indo beber depois do toque de recolher.

Caminhamos pelas ruas escuras de Liberio até chegarmos ao portão. Os guardas, apesar de cidadãos de Marley, eram cordiais conosco e não dificultaram a nossa passagem para fora do gueto. Eu estava ansiosa. Era a primeira vez que eu saía de Liberio tão tarde e estar fora dos muros me deixava insegura, porque me fazia lembrar de que eu era a inimiga ali e não estaria a salvo de comentários e olhares maldosos enquanto não estivesse de volta para a minha prisão. Quanta ironia.

O bar em que Reiner estava me levando ficava próximo à entrada de Liberio, como ele havia dito, em um pequeno porão. Quando terminamos de descer as escadas, me deparei com rostos conhecidos, se divertindo e bebendo, utilizando braçadeiras vermelhas, o que indicava que eram Marleyanos Honorários e, portanto, Eldianos, como nós. Oficiais, figuras importantes, políticos. Aquele era o refúgio para os Eldianos que viviam fora dos muros, mas que não eram aceitos pela comunidade.

Agora eu havia entendido melhor o porquê de Reiner me levar aquele lugar. Era como um limbo entre Marley e Liberio, onde poderíamos ser nós mesmos, sem ninguém para nos censurar.

- Liesel! – ouvi uma voz me chamar. Era Pieck, que vinha quase saltitando, com dificuldade, até mim, com Porco a acompanhando. Ela usava um belo vestido azul, cuja a saia cobria os joelhos e, assim como eu, usava um batom escuro nos lábios e tinha os cabelos, comumente bagunçados, escovados e presos, nem se parecendo com ela mesma.

Porco usava um terno cor de terra, tão bonito quanto o terno branco de Reiner, e tinha seus cabelos penteados para trás um pouco molhados, como se os fixasse daquele jeito.

- Pieck! – exclamei, deixando de analisa-los, para abraçar minha amiga. Não sabia se era coincidência estarem ali, mas aquilo havia sido uma surpresa muito feliz.

- Você está tão linda! – ela me disse, acariciando o meu rosto.

- Eu? Olha só pra você! – Pieck estava realmente muito bonita e sorria até com os olhos. – Aliás, não pode ser coincidência estarmos todos aqui...

- Bom, achei que seria uma boa oportunidade para todos nós pedirmos desculpas a você. – disse Reiner, puxando uma cadeira para mim e se sentando ao meu lado na mesa, enquanto Porco fazia o mesmo com Pieck.

- Menos eu, porque eu não fiz nada de errado. – disse Pieck, encenando uma auréola acima de sua cabeça e me fazendo rir.

- Quer dizer que vocês planejaram isso juntos só para me agradar? – perguntei, surpresa. Reiner e Porco me olhavam de forma arrependida, enquanto Pieck parecia que estava orgulhosa do dois, por terem concordado em algo que me faria bem.

- Eu e o Reiner achamos que devemos nos desculpar com você. Eu não devia ter dito aquelas coisas que sei que te ofenderam e te machucaram. – disse Porco, de forma tímida, tentando esconder seus olhos de mim até o fim de sua frase. – Eu nunca vou querer te magoar, por mais que eu seja um idiota na maior parte do tempo.

- Não é, Pock. Eu sei que você se importa demais comigo e eu já te perdoei faz tempo...só não sabia como voltar ao que era antes. – eu disse, me levantando e indo até ele. – Eu te amo demais para ficar com raiva de você por tanto tempo assim. – e o abracei. Podia sentir os olhos de Pieck e os de Reiner em nós, assim como o alívio e felicidade que aquele momento nos trazia.

- Eu também te amo, Liesel. – disse Galliard, sorrindo de volta para mim.

Mais tarde, depois de comermos, Reiner se levantou e estendeu sua mão para mim, me convidando para dançar. O som da música lenta no ambiente me deixou um pouco apreensiva. Eu havia dançado poucas vezes na minha vida, e todas elas haviam sido com o meu pai, quando eu era criança.

- Não se preocupe. Confie em mim e me siga. – ele disse, como se lesse meus pensamentos. Reiner pegou em minha mão e minha cintura e, lentamente, me guiava com passos curtos, conforme a música instrumental prosseguia. Me perdi em meio àquela sensação tão boa. Meus pés pareciam flutuar e eu sentia meu corpo inteiro se arrepiar.

- Me desculpe...por ter tentado manipular a sua vida e agir como um egoísta. Eu não pensei nos seus sentimentos, estava com medo demais por você. – ele disse, olhando em meus olhos, o que me fez estremecer por um segundo.

- Não, eu confio em você. Talvez a minha reação tenha sido exagerada, mas eu conheço os seus pensamentos e sei o que estava tentando fazer. Me perdoe por dizer coisas tão pesadas pra você também, e conhecendo os seus sentimentos, aquilo foi algo muito cruel de se dizer. – eu disse, me lembrando da forma como desvalorizei o pouco tempo que lhe restava, pousando a cabeça em seu ombro.

- Não, não foi. – ele disse, intensificando o abraço e acariciando de leve as minhas costas. – De qualquer forma, eu estou feliz por estarmos juntos de novo. Cheguei à conclusão de que me manter afastado de você não irá te proteger mais, então, se você ainda quiser, quero continuar de onde paramos.

Eu só consegui olhar para ele e assentir, tentando impedir que as lágrimas se formassem. Eu não deveria chorar em um momento como aquele, porque nunca tinha me sentido tão feliz, mas algo em meu íntimo ecoava, como se me avisasse de que algo estava errado. Uma sensação de que aquela felicidade não duraria, e então tratei de me desvencilhar daquele sentimento, o mesmo que sentira quando Marcel, Reiner, Annie e Bertholdt partiram para a ilha.


Notas Finais


Espero que tenham gostado!


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