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História Minha Doce Prostituta - Camren ( G'p ) - Capítulo 39


Escrita por:


Notas do Autor


Oiê amores ❤️🐼
Boa tarde ❤️❤️

Capítulo 39 - 39 - capítulo


                 Pov Camila Cabello


Acordei estranhamente ansiosa na quarta-feira, começando a lembrar com mais frequência do tempo que ainda restava para sábado. De alguma forma, me acalmei um pouco assim que Clara nos informou que tudo o que faríamos aquele dia se resumia a provar o buffet. Tudo já havia sido organizado por ela e Taylor. Por isso, Lauren e eu só tivemos que ir até o local marcado, um tipo de salão de festas um pouco longe dali  para decidir o que entraria ou não no cardápio. Elas foram conosco, apenas para ajudar em alguma eventualidade.

Passamos horas provando doces, chocolates, salgadinhos, canapés, frios de diversos tipos, porções de massas, pratos de sopas e mais outras coisas. Taylor ajudou na tarefa, talvez porque quisesse parecer útil ou talvez porque sua gravidez a estava deixando com fome. Lauren parecia interessada nesse assunto, e me lembrei por seu gosto pela culinária. Como minhas costas começavam a doer agora com mais rapidez, sentei em uma das cadeiras e permitir que ela resolvesse aquele assunto, escolhendo o que quisesse. Eu realmente não me importava com nada, contanto que ela não faltasse ao casamento.

Naquela noite, Lauren e eu tivemos uma pequena discussão. Ao pedir meu documento de identidade e minha certidão de nascimento para finalizar os últimos documentos que faltavam para tornar o casamento possível, descobrir que ela havia decidido, sozinha, que nos casaríamos em comunhão total de bens. Eu não entendia absolutamente nada sobre assuntos jurídicos de matrimônios, mas sabia o suficiente para ter certeza de que casar com Lauren, assinando um papel que dizia que toda a fortuna dela era minha também, era, no mínimo, injusto.

- E o que você sugeriria? Separação total de bens? - ela debochou.

- Seria mais plausível, não?

- Não!

- Me explique então de que maneira eu tenho alguma influência sobre a SUA fortuna.

- Se estou me casando com você, quer dizer que quero que as nossas vidas se unam. O que é meu é seu, e essa é a minha idéia de união.

- E por que eu não posso me unir a você sem precisar tomar as suas coisas...

- Você não está tomando nada. Eu estou dividindo...

- É injusto e claramente vantajoso unicamente pra mim! Só eu ganho com isso!

- E eu não perco nada! Por que você é tão teimosa?

- E por que você sempre decide as coisas sozinha?

- Mas você concordou em deixar os assuntos jurídicos sob minha responsabilidade!

- Mas eu não lembrava que tínhamos que decidir o tipo de regime de bens!

Discutimos por algum tempo, até que minha cabeça começou a doer e Lauren pareceu profundamente arrependida de ter começado uma discussão, preocupada demais com o meu estado de nervos e como aquilo poderia afetar a gravidez. Quando eu já estava deitada e sendo devidamente paparicada, ela tentou me convencer em um tom mais calmo de que não havia porquê optarmos por outro tipo de regime de bens, e que, caso eu continuasse com a mesma opinião, poderíamos mudá-lo depois do casamento.

Para tornar as coisas mais fáceis, eu aceitei. Sabia que se continuasse com a minha idéia, o casamento provavelmente acabaria não acontecendo dali a três dias. Além do mais, Lauren estava certa: Ela não tinha muito a perder, porque se dependesse só de mim, divórcio não era uma opção.

Na quinta-feira eu já não conseguia esconder minha ansiedade, que foi agravada quando Lauren comunicou que iria fazer a prova do vestido e que eu não poderia ir junto.

- Por que não? - perguntei com cara de choro.

- Também quero ser uma surpresa pra você no dia. - ela falou com um sorriso no rosto enquanto me abraçava.

- Mas... Eu não quero ficar sozinha! - falei, sentindo o choro chegar bem devagar.

- Você não vai ficar sozinha. Vai ficar com a minha mãe e a minha irmã.

- E quem vai com você? Chris e Pedro não contam, precisa de uma opinião feminina...

- E vou ter uma opinião feminina.

Encarei-a cheia de dúvidas. Ela ainda sorria de forma gentil, beijando minha testa como se eu fosse uma criança.

- Quem vai com você? - repeti, um pouco desconfiada, embora não soubesse realmente com o quê. Mas se não era a mãe ou a irmã dela, era alguma mulher aleatória. E qualquer mulher aleatória me incomodava.

Quando Lauren se preparou para responder, a campainha tocou ruidosamente.

- Ah, acho que ela chegou. - ela disse, segurando minha mão e me levando para o hall de entrada.

Quando Ally entrou na casa junto com Antonnie, Juliette e Emily, me perguntei como eu não havia me dado conta da ausência deles para o casamento. Talvez eu estivesse um pouco alheia a tudo, fosse pela correria ou pelo estado letárgico em que eu ainda me encontrava desde que Lauren havia pedido a minha mão.

- Sabe há quanto tempo essas malas já estão feitas? - Ally perguntou, se soltando do abraço de Lauren e apontando para a porta.

- Relaxa, Ally. - Chris disse, surgindo do nada e indo falar com ela. - Os convites não vão chegar a tempo pra nenhum dos convidados, então temos mais um motivo pra zoar com a cara dela pelo resto da vida.

Todos se cumprimentaram entre si e eu permaneci ali feito uma pamonha, assistindo a tudo sem me mexer.

- A outra noiva! - Ally falou, me tirando daquele estado catatônico. Abraçei-a e agradeci aos parabéns, tanto dela quanto de Antonnie. Dei um beijo em cada uma das meninas, me sentindo repentinamente mais alegre pela presença delas ali.

- Você está mais gorda... - Juliette falou calmamente, já que era muito nova para entender coisas como sutileza. Ela soou tão sincera que não tive como não rir, mesmo com os pedidos de desculpas envergonhados da mãe.

- Juliette, ela está grávida. - Antonnie falou, rindo também.

- Ah! Tem um bebê aí dentro? - ela perguntou, encostando a mão na minha barriga. Emily imitou seu gesto, mesmo sem saber o motivo.

- Tem. Uma menina. - respondi.

- Mas essa casa fica a cada dia mais linda! - Clara falou, aparecendo tão de repente quanto Chris e indo abraçar Ally e Antonnie.

Juliette parecia um pouco vidrada na minha barriga, e Lauren começou a ficar com medo dela. Ela foi grata à Taylor por aparecer com sua barriga ainda maior e fazê-la momentaneamente se esquecer de mim.

Depois de um grande almoço, incluindo Mike que fizera questão de dar uma escapada do trabalho para a reunião familiar, Lauren pediu para Ally e Chris que a acompanhassem na prova do vestido. Me sentir deixada de lado, mas não quis confessar isso a ninguém, tentando parecer mais madura do que eu realmente era.

Aquela tarde teria demorado mais caso eu não tivesse me preocupado em ajudar todo mundo nas finalizações para a cerimônia. Taylor tagarelava animadamente no telefone com floristas, enquanto Clara se viarava para conseguir enviar, com urgência, os últimos convites que faltavam. Antonnie, por algum milagre, havia conseguido fazer com que Juliette e Emily dormissem de tarde, em um dos quartos de hóspedes, e Pedro coordenava o trabalho dos jardineiros, que precisavam deixar o jardim impecável, segundo Taylor, até o dia seguinte.

Agora que as pessoas começavam a correr, literalmente, para finalizar as últimas pendências da festa, meu coração e meus nervos pareciam entender a realidade aos poucos, deixando claro que dali a dois dias eu me casaria com Lauren. Aquilo era real. Aquilo estava acontecendo.

Tentei ficar quieta, escondendo de qualquer um meu nervosismo e minha ansiedade, e pedindo silenciosamente aos deuses que nada desse errado. Que nada que pudesse adiar aquele casamento, de qualquer forma, em qualquer sentido, viesse a acontecer.

----

Sexta-feira chegou sem a quinta ter realmente ido embora. Quando o relógio marcava 6h da manhã, resolvi me levantar, já que cair no sono parecia uma tarefa impossível para o meu estado de nervos.

Eu sabia que não havia muitos motivos para ficar ansiosa daquela forma, mas não podia evitar. Não era algo que eu controlasse, e o martelar incessante daquele mesmo pensamento dentro da minha cabeça só fazia com que eu não conseguisse me distrair de forma alguma: Amanhã eu me caso com ela. Amanhã eu me caso com ela.

Lauren se levantou trinta minutos depois de mim, alegando que seu sono havia sido interrompido unicamente pela minha ausência na cama. Invejei-a pela sua calma, como se o dia seguinte fosse ser apenas só mais um sábado qualquer.

- Você dormiu bem? - ela perguntou, me encarando com uma expressão preocupada.

- Sim. - mentir. 

Ela não precisava saber que meus olhos não haviam sido pregados nem mesmo por dez minutos, mas eu tinha certeza que o tom de roxo nas minhas pálpebras deixavam esse fato bastante óbvio.

Durante o resto daquele dia, Lauren insistiu em me perguntar se estava tudo bem, e conforme as horas passavam, me aproximando mais do grande dia, mais difícil era mentir sobre aquela pergunta. Em determinado ponto, acabei perdendo a paciência e começei a ser grosseira, mas não era por mal. Tudo que eu queria, realmente, era que ela me deixasse quieta.

O jardim da casa de Clara e Mike estava uma loucura. Um caminhão havia trazido várias cadeiras de madeira, mesas, bancadas e algumas tábuas que já estavam sendo unidas a pregadas por alguns homens desconhecidos. Tudo estava mais ou menos empilhado em um canto, e do outro lado podia-se ver mais homens montando ferros e desdobrando forros brancos, como toldos, fazendo força em todas as direções. Pedro, Chris, Antonnie e até Mike, que havia faltado propositalmente ao trabalho, estavam ajudando na arrumação. Havia tanta gente ali, dentro e fora da casa, fazendo tantas coisas diferentes e falando tantas coisas confusas que eu comecei a me sentir realmente agitada.

- Ei... Tudo bem aí? - ouvir uma voz atrás de mim e me virei, encontrando Ally com um sorriso simples no rosto vindo parar ao meu lado.

- Nervosa... - conseguir pronunciar, encostada em uma pilastra enquanto assistia a toda aquela preparação.

- Por quê?

- Não sei. - admitir.

- Bom, é normal ficar nervosa perto do casamento, mesmo sem motivo. É mesmo um dia muito importante.

- É... Importante... - balbuciei, tentando afrouxar os nós dos dedos. - Só espero que eu não acorde agora. - Ally me olhou de forma divertida.

- Você não está dormindo.

- Eu não tenho essa certeza...

Continuamos em silêncio por algum tempo, assistindo aos homens trabalharem. Lauren que estava encostada em uma parede não muito próxima, olhava para a nossa direção sempre que podia, de longe, me dando espaço. Talvez estivesse com medo de mim depois da última resposta que dei a ela.

- Tenho que admitir uma coisa. - Ally falou outra vez, chamando minha atenção. Ela olhava para longe, sem me encarar. - Quando soube o que ela sentia... Eu tentei fazer com que ela esquecesse de você.

Embora eu não soubesse daquilo, não foi um choque ouvir suas palavras. Na verdade, seria estranho caso ela NÃO tivesse tentado, já que qualquer uma na posição dela faria a mesma coisa pela melhor amiga que, de repente, resolveu se apaixonar por uma puta.

- Tudo bem... - respondi, sem realmente me ofender. - Mas fico feliz que você não tenha conseguido.

- Eu também. - ela pontuou, dessa vez se virando para mim. - Você sabe o poder que tem sobre ela, não sabe? Sabe que ela come na sua mão, e é por isso que é tão fácil fazê-la sofrer.

Sorrir, voltando a encarar as pessoas que trabalhavam no fundo do jardim.

- Ela também tem um poder um pouco estranho sobre mim... Então acho que estamos quites.

- Talvez... - ela finalizou um pouco distraída, seguindo meu olhar.

Lauren surgiu à nossa frente, e eu me perguntei quanto tempo ela havia demorado para cruzar aquele enorme campo e vir em nossa direção sem que nenhuma das duas tivesse realmente notado isso.

- Ei, está tudo bem?

- Lauren, sabe quantas vezes você já me perguntou isso hoje? - respondi calmamente.

- Eu vi Ally falando com você... Achei...

Interrompi-a, segurando seu pescoço e dando um selinho gentil em seus lábios.

- Vamos fazer assim: Se eu sentir alguma coisa, eu te digo. Prometo. Ok?

- Ok... - ela respondeu ainda não muito convencida.

- Só estou um pouco nervosa. Se ao menos eu pudesse me ocupar com alguma coisa pra ajudar na arrumação...

- Nem pensar. Você não vai fazer esforço nenhum.

Lauren era adorável na maior parte do tempo, mas às vezes ela era simplesmente teimosa como uma mula. Antes que eu começasse a gritar com ela, ou o que era pior, começasse a chorar feito uma criança contrariada, virei de costas e entrei, batendo o pé e deixando clara minha indignação por estar sendo tratada como uma inválida.

Lauren queria que a arrumação da festa também fosse uma surpresa para mim, e talvez eu tivesse conseguido escapar e dar uma espiada nos fundos do jardim caso Chris não estivesse ajudando a irmã naquele plano.

Mas, de qualquer forma, não era exatamente por aquilo que meu coração disparava o tempo todo.

- É amanhã-ã-ã!. - Chris falou em uma voz dramática, me sacudindo pelo ombro e conseguindo exatamente o que queria: Me deixar um pouquinho mais desesperada.

- Para com isso, idiota. Não está vendo que ela está nervosa? - Taylor falou em um tom de reprovação.

- Qualquer noiva fica nervosa na véspera do casamento, Jabulani.

- Ela está grávida. - Clara lembrou. - Não a deixe mais ansiosa, Chris. Não é bom.

- Amor... - Lauren começou, perto da minha orelha. - Quer que a gente vá pra casa?

- Quê? - Chris se meteu outra vez. - Casa? Lauren, sua retardada, amanhã você vai estar casada! Temos que sair pra sua despedida de solteira!

Eu continuava muda, apenas escutando todo mundo à minha volta. Era mais saudável ficar quieta, porque talvez, no momento em que eu abrisse a boca, acabaria me descontrolando de verdade.

- Não acha que talvez seja melhor Lauren ficar fazendo companhia pra Mila, filho? - Mike perguntou, provavelmente notando o quão esquisita eu estava.

- Lauren vai sufocá-la pelo resto da vida! Só temos que comemorar, já que hoje é o último dia! - ele falou animado, virando-se para mim e fazendo uma cara de intelectual. - Mila, não se preocupe. Só vamos encher a cara e passar a noite com algumas garotas de programa.

Por algum motivo, aquilo me fez rir e falar pela primeira vez em muito tempo:

- Ela pode beber, mas não vai passar a noite com uma garota de programa.

- E como a senhorita tem tanta certeza disso? - Chris provocou, levantando uma sobrancelha.

- Eu só sei. - falei, encarando Lauren e rindo sem querer.

- Ok. - ele falou, ainda tentando fazer drama. - Lauren, Pedro... Vamos nos arrumar e botar pra foder.

- Cara... Eu sou casado. - Pedro concluiu calmamente.

- Foda-se! Vamos logo!

- Ok. - Taylor falou, sorridente. - Mila, vamos nos divertir também.

- QUÊ? PORRA NENHUMA!

Me assustei com o berro agudo de Lauren.

- Ah, e só vocês podem aproveitar a noite? - ela provocou com ar de autoridade.

- Se deixar a minha noiva com você, eu não caso amanhã!

- Não seja tão dramática.

- Isso é injusto! Pedro está com a gente, é o suficiente pra vocês saberem que não vai acontecer nada demais!

- Nossa, estou me sentindo muito pouco divertido agora. - Pedro falou baixinho, e eu ri.

- E eu estou com a Mila! - Taylor falou como se fosse um ótimo argumento.

- Porra! É exatamente por isso que eu não quero...

- Lo, respire. - Ally se meteu, falando pela primeira vez. - Eu fico com elas.

Ela encarou a irmã, como se a desafiasse a me convencer de fazer alguma merda na presença de Allyson.

Demorou um bom tempo até que todo mundo ali convencesse Lauren de que, pelo amor de Deus, nós não faríamos nada que pudesse se aproximar da palavra ousado. Tanto Taylor quanto eu estávamos em estágios de gestação relativamente avançadas, e se ela realmente achava que aquele papo de beber vodka e ir parar em um clube de mulheres era verdade, Lauren precisava de tratamento psiquiátrico urgentemente.

Quando Chris, Pedro e ela estavam prontos para sair, fui me despedir.

- Ei... - agarrei-a pela jaqueta de couro que ela usava, trazendo-a propositalmente para perto e falando em um tom divertido.

- Ei. - ela respondeu, se encostando em mim e me abraçando com força. - Se chegar mais perto, eu fico.

Sorrir, beijando-a de forma simples mas provocante, falando contra seus lábios:

- Lembre-se que você casa amanhã.

- Não tem como esquecer.

- Ah, tem sim. Não sei quantas doses de qualquer coisa o seu irmão vai fazer você beber, e não sei onde vocês vão. Mas só quero que você se lembre de mim.

- Não se preocupe. Vamos acabar bebendo em uma boate qualquer. E, de qualquer forma, eu estou sempre pensando em você, então não tem perigo.

Ela disse isso com sua voz sedutora e carinhosa, como uma gata mansa, e eu me sentir um pouco instável.

- Certo. - falei, ainda contra sua boca. - Vou fingir que você não está tão cheirosa e linda, e que não vai servir de isca pra vadias solteiras.

- Eu já tenho a minha vadia particular. - ela falou perto da minha orelha, ainda com aquela voz "vou-te-chupar-toda". - E duvido que alguém chegue aos pés dela. Em qualquer coisa.

Não adiantava quantas vezes ela usaria essa arma. Aquela voz mansa ronronando perto do meu pescoço falando coisas inapropriadas sempre fazia com que meu corpo virasse uma gelatina gigante.

- Você não vai fazer nada demais, né? - ela perguntou de repente. - Não ouça a minha irmã. Ela é maluca, e tenho certeza que nenhuma idéia que ela der vai ser boa...

- Confie em mim. - falei de maneira simples, beijando-a outra vez. - Dependendo da hora que você voltar, eu vou estar na nossa cama te esperando.

Os olhos dela brilharam com aquilo.

- Você acabou de me fazer não querer ir pra lugar nenhum.

- Caralho, vocês vão ter que se aturar pelo resto da vida! - ouvimos Chris gritar do carro. - Alguém joga um balde de água fria nelas?

- Não quero que seu irmão me odeie. Vai logo.

Ela espalmou a mão na minha barriga e me beijou antes de se afastar, dessa vez com uma intensidade que talvez dissesse algo como "se você não estiver acordada quando eu voltar, eu vou te acordar à força".

No fim das contas, tudo que Allyson, Taylor e eu acabamos fazendo se resumiu a conversar sobre nossas gestações e tomar vitamina de pêra durante a noite toda, ouvindo música no sofá da casa de Lauren, que eu ainda me obrigava a pensar como "nossa". Ao menos aquilo havia funcionado: Canalizar meus pensamentos para outra coisa que não fosse o dia seguinte me deixou mais tranquila, ouvindo com atenção toda a experiência de Ally e o que Taylor já tinha para contar também. Era bom ter algo para falar com elas que servisse como distração.

Mas a minha despedida de solteira passou rápido demais. Antes da meia-noite, Ally e Taylor já tinham ido embora, não sem antes se certificarem de que eu estava bem. Felizmente, toda aquela vitamina de pêra com leite conseguiu me acalmar de alguma forma.

Tomei um banho e fui me deitar imediatamente, desejando que Lauren não estivesse longe. Agora, sozinha ali, eu começava a me agitar de novo, e outra vez fui bombardeada de pensamentos relacionados ao casamento e tudo que poderia dar errado até ele.

Felizmente, o cansaço que meu corpo sentia foi maior que meu nervosismo, então eu dormi.

O cheiro de álcool me puxou para a realidade outra vez, e me perguntei quanto tempo eu havia conseguido dormir. Abrir os olhos um pouco desnorteada, e embora estivesse escuro, a pouca iluminação do lado de fora no jardim permitiu que eu identificasse Lauren ali, meio em cima de mim, me beijando tão sutilmente que nossos lábios mal se tocavam.

- Hmmm...

- Merda... Não queria te acordar... - ela falou, e imediatamente identifiquei sua voz arrastada.

- Que horas são?

- Duas, eu acho...

- Você está bêbada. - falei contra sua boca, passando um braço em volta do seu pescoço.

- Eu sei... - ela respondeu em um tom de desculpas. - Posso acender a luz?

Abrir meus olhos de uma vez no escuro, agora realmente atenta.

- Ai, meu Deus... O que foi? - perguntei, lembrando que Lauren bêbada sempre resultava em revelações bombásticas.

Ela se esticou, alcançando a luminária do criado mudo. Eu me sentei, encostada à cabeceira da cama, começando a ficar nervosa outra vez. Encarei-a como se pudesse prever o que ela falaria, notando em seus cabelos completamente bagunçados e no cheiro forte de álcool.

- Desembucha. - falei de uma vez, sem me preocupar se estava sendo rude ou não. Ela me encarou surpresa, tentando sentar reta na cama.

- Eu... Quero te dar uma coisa...

Pela primeira vez, olhei para suas mãos e notei que elas não estavam vazias. Nelas, havia uma caixa branca de veludo aberta, mostrando um par de brincos em forma de gotas. Pareciam feitos de vidro. Eram belíssimos, delicados e de aparência incrivelmente valiosa.

Olhei outra vez para ela.

- Só isso?

Ela se surpreendeu com a minha resposta, se mexendo na cama e parecendo um pouco sem graça.

- Eu... Você queria mais alguma coisa? Podemos comprar...

- Não, não é isso! - interrompi-a tentando me explicar. - Era só isso que você tinha pra me mostrar? Não queria falar nada?

- Não... Era só isso...

Suspirei aliviada, agora me permitindo analisar direito a jóia que ela me oferecia.

- São lindos...

- Você pode usar amanhã?

- Claro. - respondi, fechando a caixa e dando um beijo nela. Felizmente, os brincos combinavam perfeitamente com a gargantilha que fazia parte do meu vestido.

Ela sorriu, embora seus olhos estivessem fora de foco.

- Você está muito bêbada! - provoquei, rindo da cara dela. - Vai acordar de ressaca amanhã e vai dar essa desculpa pra desistir de casar...

- Caso com você até em coma alcoólico. - ela respondeu, me beijando de forma apaixonada.

- Seria um desafio na hora de responder o "sim". - brinquei baixinho, fazendo-a deitar e tirando dela os sapatos e a calça jeans.

- Uau, você está tirando a minha roupa... Que legal.

- Você está muito bêbada pra transar, bonitona.

- Nunca estou muito bêbada pra transar com você. - Lauren concluiu, me puxando para cima dela.

- Você tem que dormir! - falei, já rindo da situação enquanto tentava tirar sua jaqueta. - Ou realmente esqueceu que vai se casar amanhã?

- Por isso mesmo! Essa é minha última noite como uma mulher livre... Nada mais apropriado do que transar, não?

Como ela conseguia raciocinar estando tão bêbada?

- Transar com a sua futura esposa? Não tem nada de realmente interessante nisso.

- Ei! - ela começou, em um tom falsamente irritado. - Eu escolho com quem vou transar na minha despedida de solteira! Nem nos casamos e você já quer mandar em mim!

Me aproximei de seu rosto e me esfreguei nela de propósito.

- Você adora quando eu mando em você. Eu sei que isso te excita.

- E é por isso que eu quero transar com você. - ela concluiu, com um sorriso sonso e meio bêbado nos lábios.

Ri outra vez, não achando falhas em sua lógica.

- Foda-se. - falei para mim mesma, afundando em seus braços e deixando que ela fizesse o que realmente quisesse comigo.

----

Acordei com uma música um pouco irritante, e só depois de muito tempo me dei conta de que ela pertencia ao meu celular. Era estranho: Eu já havia me desacostumado a receber ligações.

Olhei para o lado de Lauren na cama e constatei que ela não estava lá. Enquanto isso, meu celular vibrava e tocava escandalosamente em cima do criado mudo oposto.

- Alô ... - falei, esfregando os olhos e testando minha voz rouca.

- Olha se não é a Bela Adormecida . - Taylor falou com uma voz debochada do outro lado. - Me diga uma coisa: Você ainda pretende se casar hoje?

Me levantei de uma vez, sendo pega de surpresa pelas palavras de Taylor. Infelizmente, o movimento foi rápido demais, e no segundo seguinte me sentei na cama outra vez, completamente tonta.

- Wow... Que horas são? - perguntei de olhos fechados, tentando me acalmar.

- Meio dia. E agora que eu sei que você já está acordada, estou indo praí. Você tem 5 horas pra se tornar a noiva mais linda do mundo, então escove os dentes, tome um banho e se arrume em menos de 5 minutos.

E simplesmente, sem dizer mais nada, ela desligou.

Tentei ficar de pé outra vez, feliz por não sentir mais aquela tontura inicial. Andei o mais rápido que pude para o banheiro, escovando os dentes sem sequer me olhar no espelho e entrando dentro do chuveiro de uma vez.

Quando saí, enrolada na primeira toalha que vi, encontrei Taylor já sentada na cama desfeita, me encarando com aqueles olhinhos. Levei um susto, mas me recompus rápido.

- Bom dia. - ela falou sorridente.

- Por que ela não me acordou? Onde aquela filha da puta está?

- Na casa dos nossos pais.

- Ah, que bom que ELA vai ter tempo de se arrumar!

- Mila, respira.

Só então notei meu real estado de nervos. Se nos dias anteriores minha ansiedade chegava a níveis assustadores, hoje eu parecia uma bomba atômica prestes a explodir.

- Ok... O que eu faço? - perguntei, já em pânico, esperando que ela me guiasse de alguma forma.

- Primeiro, você se acalma. Depois, nós almoçamos. E depois, começamos a te arrumar.

- Certo. Vou me acalmar...

- Ótimo. - ela começou, tranquila. - E respondendo à sua pergunta anterior, Lauren não te acordou porque disse que você parecia exausta.

Bem, eu estava exausta. Não dormia há muitas horas, mas isso não significava que o melhor que ela tinha a fazer era me deixar dormir além da hora no dia do nosso casamento!

- Não preguei os olhos na noite anterior...

- Que bom que você conseguiu dormir na véspera. Significa que podemos usar menos maquiagem pra cobrir as olheiras. Mas, em compensação, vamos ter que cobrir um ou dois hematomas.

Arregalei os olhos para ela, procurando agora em mim alguma mancha roxa, mas não encontrei nada.

- A lateral do seu pescoço. - ela explicou, parecendo calma e divertida ao mesmo tempo. - Sinceramente, minha irmã poderia chupar com menos força.

Eu realmente mataria Lauren quando a encontrasse.

- Mas não se preocupe. Não é nada que não dê pra esconder.

Suspirei aliviada, esquecendo de me envergonhar.

- Tem certeza?

- Tenho. Agora, se vista de uma vez. Pedro está lá embaixo preparando o almoço. Como você acordou tarde, não vai dar tempo de aproveitar um café da manhã. Almoçamos e depois, mãos à obra!

Era bom que Taylor estivesse ali. Se não fosse por ela, eu provavelmente acabaria chorando em um cantinho, ainda enrolada na toalha. Eu não sabia se ela já tinha tudo esquematizado e cronometrado dentro da cabeça, mas sua expressão de dona da situação foi o suficiente para me acalmar um pouco.

Desci alguns minutos depois, vestindo um casaco qualquer, uma calça de moletom e minhas pantufas rosa-chiclete. Encontrei Taylor e Pedro conversando animadamente na cozinha, discutindo sobre o almoço e os horários que tínhamos que cumprir.

- Lauren não vai almoçar aqui? - perguntei, embora já soubesse a resposta.

- Não. - Pedro respondeu, pegando alguma coisa na geladeira. - A tradição diz que o noivo e no caso de Lauren noiva, não pode ver a noiva com o vestido antes do casamento, mas achamos que seria muito mais emocionante se vocês não se vissem de forma nenhuma.

- Isso é injusto. Ela já me viu hoje, quando saiu antes de mim. E não me chamou. - concluí, fazendo cara de puta.

- Não se preocupe, eu acho que ela ainda estava um pouco bêbada de manhã. Provavelmente a memória dela vai ser afetada.

Para parecer que o tempo passava mais devagar, tentei não falar. Assisti Pedro terminar de preparar o almoço em silêncio, almoçei em silêncio e lavei a louça em silêncio. Não sei se ele ou Taylor se preocuparam com minha atitude, mas pelo menos pareceram compreensivos.

Quando a equipe de maquiadores e cabeleireiros chegou, às 13h, continuei praticamente em silêncio, falando apenas o necessário, mesmo que meu coração agora batesse realmente rápido. Eram três pessoas, aparentemente de muito bom humor, distribuindo elogios aos quais eu não conseguia prestar atenção. A agitação dentro da casa me trouxe mais próxima à realidade que eu insistia em afastar: As horas estavam passando, e rápido, me fazendo pouco a pouco caminhar para o momento do casamento.

Do meu casamento.

Com ela.

- Ok, então vamos clarear os seus olhos, como fizemos há alguns dias, e dar destaque às formas do seu rosto...

- Seu cabelo já é liso por si só, mas vamos passar uma escova e..

- O que você acha desses pontos de luz? Acho que vão combinar com...

- Unhas em tom claro, certo? Não acho que combine outra cor aqui, porque...

- Essa base é da tonalidade da sua pele. Vai esconder a sua "pequena diversão" no pescoço, não vai ser difícil...

- Claro.

Eu respondia completamente alheia ao que realmente estava acontecendo. Era automático. Se alguém fizesse alguma besteira, Taylor naturalmente gritaria e mandaria consertarem o que quer que estivesse errado.

Me pediram para olhar para cima, olhar para baixo, fazer bico, inclinar o pescoço, abaixar a cabeça, fechar e abrir os olhos, estender as mãos e separar os dedos. Falaram comigo durante toda aquela tarde, e tudo que fiz, além de obedecer, foi responder coisas como sim, aham e é, Taylor aparecia de dez em dez minutos, cada vez mais produzida e maquiada, fazendo cara de está ficando bonita para mim, e eu sorria para ela puramente por reflexo.

Eu vou me casar em algumas horas. Em algumas horas...

- E então? O que achou?

Pisquei algumas vezes, reparando no espelho à minha frente. Ele mostrava uma pessoa muito parecida comigo, mas infinitamente mais bonita. As maçãs do rosto estavam coradas, os olhos pareciam brilhantes e delineados, a boca parecia até mais sensual. A trança desfiada com cada fio milimetricamente bagunçado me dava uma aparência delicada, mas ao mesmo tempo, elegante.

Eu estava muito mais bonita do que no dia da prova da maquiagem.

- Não gostou? - Taylor falou outra vez, me tirando do transe.

- Gostei! Está perfeito. - falei, olhando para às pessoas à minha volta. - Muito obrigada!

Taylor e as três pessoas desconhecias riram após um breve suspiro, talvez de alívio ao notarem que eu não daria um escândalo e mandaria refazerem todo o trabalho. Me encarei no espelho outra vez, me certificando de que o descuido de Lauren deixado no meu pescoço estava devidamente camuflado. 

- Eu esqueci de uma coisa... Vocês podem repetir a maquiagem no meu hematoma? Eu tenho que passar uma coisa aqui...

Alcançei meu creme de amêndoas e passei uma camada fina ali, me desculpando por não ter lembrado daquele detalhe antes. Eles não pareceram se importar, e refizeram o trabalho na área do meu pescoço como se fosse algo fácil.

Quando meu look estava oficialmente terminado, olhei em volta procurando por Taylor exatamente no momento que ela e a manicure entravam pela porta outra vez, trazendo nas mãos meu vestido com todo o cuidado.

- Hora de se arrumar, noiva. - ela falou de bom humor, e meu coração deu um salto. Não sei se por causa do que ela trazia, pela forma como me chamou, ou ainda por me fazer notar que estávamos nos aproximando das 17h da tarde.

- Me arrumar... - balbuciei, entre um suspiro e outro. Minha respiração estava claramente afetada, e como se fosse mágica, um copo de água surgiu na minha frente.

- Ei, você tem que se focar aqui. Se ficar muito nervosa vamos ter que parar pra cuidar de você. - ela começou de maneira muito séria, e desejei não ser uma grávida frouxa e inútil.

- Eu sei...

- Ok. Um passo de cada vez, e quando você notar, já vai estar entrando no casamento.

- Certo. - falei, tentando parecer durona.

- Certo. O primeiro passo é se enfiar dentro do vestido. Nós vamos ajudar você.

O maquiador se retirou do quarto, deixando apenas Taylor, a cabeleireira e a manicure me ajudando com o vestido e toda a tarefa incrivelmente difícil de me colocar dentro dele sem que meu penteado ou minha maquiagem fossem comprometidos. No final, por algum milagre, todas as acrobacias pareceram dar certo.

Calçei as sapatilhas e quando Taylor colocou em mim a gargantilha me lembrei dos brincos que Lauren havia me dado na noite anterior. Assim que os coloquei, outra vez como mágica, um buquê recheado de Camélias surgiu à minha frente, com fios dourados e folhas soltas e trançadas. Eu não havia visto muitos buquês de noiva na vida, mas eu tinha certeza que aquele era um dos mais lindos que podiam existir.

Fui guiada para dentro do closet, e quando me vi encarando o espelho enorme lá dentro, suspirei.

Eu não era a noiva mais interessante do mundo. Também não era a mais chique, tampouco a mais elegante. Mas eu estava, definitivamente, bonita. Como nunca estivera antes. Tão bonita que, pela primeira vez na vida, tive uma vontade idiota de tirar uma foto de mim mesma apenas para guardar de recordação e lembrar que, um dia, eu estive com aquela aparência.

- Se você quer saber a minha opinião - Taylor começou, tentando se esquivar do espelho para que só a minha imagem fosse refletida. - Eu acho que você é a noiva mais linda que eu já vi.

Era óbvio que existiam noivas muitos mais bonitas do que eu, mas mesmo assim o elogio de Taylor surtiu efeito, trazendo algo dentro de mim que eu não lembrava existir: Eu senti amor próprio, sentir minha auto-estima ser tocada de alguma forma, mesmo que discretamente.

- Obrigada... - falei, sorrindo e tentando não chorar. - Mesmo que você esteja exagerando... 

- Não está não.

Virei para a saída do closet e encontrei Pedro encostado na moldura da porta, vestindo um terno preto muito elegante enquanto me encarava com um sorriso no rosto. Vê-lo vestido daquela forma fez com que meu coração acelerasse outra vez.

- Bom, na verdade... - ele recomeçou, parecendo divertido. - Você é a segunda noiva mais bonita que eu já vi. A primeira se casou comigo. Espero que não se chateie pela sinceridade.

- Tudo bem, estou feliz com o segundo lugar. - respondi, tentando sorrir de forma tranquila pela gentileza.

- Só acho um pouco perigoso. Lauren pode cair morta e gelada quando ver você assim tão bonita.

- Eu espero, do fundo do coração, que isso não aconteça...

- Porra, tenho que me arrumar! - Taylor interrompeu batendo na própria testa, se lembrando de repente de que ainda vestia as mesmas roupas de antes, e saiu do closet correndo.

Voltei a me encarar no espelho, testando minha respiração e mentalizando qualquer coisa feliz. Não tive coragem de perguntar a Pedro que horas eram, me concentrando principalmente em ficar calma. Taylor estava certa, eu não podia ficar nervosa daquele jeito. Não seria nada bom para o bebê.

Mas quanto mais eu pensava nisso, mais nervosa eu ficava. Além de estar prestes a me casar, tinha que controlar meus nervos por causa da minha filha, mas era difícil ficar calma. Não era da natureza de uma noiva ficar tranquila alguns minutos antes do próprio casamento, por isso eu sabia que ninguém podia exigir isso de mim.

Mas eu tinha que me controlar.

- Tudo bem aí? - Pedro perguntou, como se pudesse ler meus pensamentos.

- Nervosa. - foi tudo que falei. Ele entenderia.

- Não fique. Nada vai dar errado.

- Acredite, muita coisa pode dar errado. - falei, de repente pensando em realmente tudo que podia estragar aquele momento, mas resolvendo verbalizar o menor dos meus medos. - Eu posso tropeçar no vestido e dar com o nariz no chão. Eu sou bem assim.

- Peça pro seu condutor te segurar.

Estaquei, ainda encarando Pedro como se ele não tivesse dito nada.

Quem iria me levar até o altar? Por que eu não havia pensado naquilo antes?

Aliás, por que eu nunca pensava em nada antes de me dar conta de que era tarde demais para solucionar o problema?

- Pedro... Quem...

- Não se preocupe. Você não vai entrar sozinha.

De repente, sentir uma vontade quase incontrolável de chorar. Senti saudade dos meus pais, e desejei, com toda a força da alma, que eles estivessem ali. Nem que fosse para me dizer, com a certeza que eles sempre pareciam ter, que eu seria feliz.

Apesar disso, tentei controlar as lágrimas e parecer forte, mesmo que só por fora. Aquele era um momento muito grande para acumular tristezas e incertezas, e eu sabia que precisava estar inteira para o que estava por vir.

E com o pensamento nos meus pais, desejando que eles estivessem presente até mesmo em espírito, engoli o choro e respirei fundo, saindo do closet de cabeça erguida, sentindo uma coragem que há poucos segundos não estava em mim.

-----

Cheguei à frente do jardim da casa de Clara e Michael no carro que Pedro dirigia. A cerimônia seria nos fundos, perto do chafariz, por isso não havia perigo em ser vista por ninguém: Todos já estavam em seus lugares.

Caminhei para o lado da casa, sempre encarando o chão, e os batimentos do meu coração pareciam acelerar a cada passo dado. Taylor caminhava ao meu lado, tão linda em um vestido longo e vermelho que, por um momento, meu brilho de noiva enfraqueceu. Mas eu não me importava.

- Vejam se não é a noiva. - ouvir alguém dizer, e ao levantar o rosto, vi Chris em um terno incrivelmente elegante, me encarando com os olhos brilhantes e sorrindo de orelha a orelha.

- Oi... - falei, e minha voz falhou. Talvez eu não tivesse empregado a força suficiente para emitir algum som.

Taylor e Pedro simplesmente desapareceram, e quando me dei conta, estava sozinha com Chris.

- Cara dama, aceita minha companhia ao longo do percurso? - ele perguntou em um tom pomposo, estendendo o braço e piscando divertido.

- Você vai me levar? - conseguir pronunciar, engolindo e sentindo minha garganta se fechar de cinco em cinco segundos.

- Só se você quiser.

Entrelaçei meu braço no seu, ainda sendo oferecido, e suspirei. Magicamente, uma música começou a tocar, e mesmo que meu coração estivesse quase saindo pela boca e não conseguisse prestar atenção em nada direito, eu podia dizer que não era a marcha nupcial. Era algo mais suave, menos pesado. Era um som maravilhoso.

- Chris... Não me deixe cair.

- Não se preocupe, cunhadinha. Consigo te segurar com dois dedos. - ele falou, rindo de novo e olhando para frente. - A propósito: Você está maravilhosa.

Não conseguir responder, já que minha garganta parecia se apertar mais a cada segundo passado, mas ele não parecia estar esperando por alguma palavra minha. Quando ele começou a caminhar, fiz tudo que podia fazer naquele momento: O segui, rumo ao que estava me esperando.

Conforme Chris ia me guiando, as coisas iam vagamente entrando em foco, mas não muito. Eu não estava realmente prestando atenção à minha volta, e tudo de que tinha noção eram algumas mesas um pouco longe de nós, fileiras de bancos brancos e compridos que se aproximavam enquanto caminhávamos e algumas pessoas, provavelmente olhando para mim. À frente daqueles bancos e daquelas pessoas, no centro, de pé como um sonho perfeito e linda de uma forma perturbadora, Lauren nos encarava com um vestido branco maravilhoso, parecia uma princesa, a minha princesa. Ela esbanjava classe e beleza, e mesmo que meus olhos não funcionassem direito de longe, eu sabia que ela estava sorrindo. Simplesmente sabia.

Apertei o pano no braço de Chris, respirando com um pouco mais de dificuldade. Ele me encarou de forma disfarçada, sem deixar que nossa entrada fosse abalada.

- Tudo bem? - ele falou, se curvando um pouco para baixo e falando perto de mim. Não paramos de caminhar em momento algum.

Fiz que sim com a cabeça, incapaz de falar. Talvez o que estivesse me deixando naquele estado fosse a expectativa, a antecipação, a demora em chegar logo até o lado de Lauren e ouvir o vocês estão casadas. Talvez fosse o meu medo de que alguma coisa desse errado, ou, quem sabe, meu medo em acordar com um sorriso idiota no rosto e dar de cara com as paredes sujas do meu apartamento, voltando à realidade de que nada daquilo podia ser real.

Fechei os olhos e continuei meu percurso, pensando e pedindo fervorosamente em silêncio:

Que eu não acorde agora... Não agora... Não ainda.

Sentir Chris parar de andar ao meu lado e meu coração deu mais um salto. Quando conseguir reunir coragem para abrir os olhos, Lauren já estava exatamente à minha frente, com um sorriso de tirar o fôlego, o cabelo bagunçado de uma forma hipnótica, me encarando com aqueles olhos verdes desesperadoramente lindos.

- Tome conta da minha filha, ou eu vou atrás de você e te mato. - Chris falou de palhaçada, e Lauren soltou uma gargalhada baixa. Desfiz o nó que unia nossos braços e segurei a mão dela, estendida para mim.

Eu não sabia exatamente o motivo, mas estava sendo tomada por uma vontade súbita de rir, chorar, gritar e agarrá-la, tudo ao mesmo tempo. A mão dela estava quente perto da minha, embora parecesse tremer um pouco. Fechei meus dedos nos seus com força demais, e ela fingiu sentir dor em uma careta sutil.

Lauren se virou para frente ainda me encarando, e de repente notei que tinha mais alguém ali perto. O homem de meia idade, separado de nós por uma pequena mesa de vidro, sorria de maneira simpática, e quando simplesmente começou a falar em voz alta, notei que ele seria a pessoa a realizar o casamento.

Ele falou um monte de coisas, e eu desejava poder prestar atenção nelas. Lauren permanecia ali, esquentando o lado direito do meu corpo, e me perguntei se ela estaria ouvindo uma palavra que fosse. Não sei se tudo não passou de uma impressão, mas a cerimônia pareceu muito rápida. Talvez porque alguém tivesse mesmo pedido isso, alegando que toda aquela expectativa até o "aceito" provavelmente não faria muito bem aos nervos de uma gestante. Entretanto, o tempo pareceu se alongar - ou melhor, parar - em determinado momento.

- Se alguém for contra esse matrimônio, que se manifeste e exponha os motivos.

Minha respiração ficou suspensa por alguns segundos, esperando e rezando para que aquele tenebroso silêncio passasse logo.

Eu sempre achei que essa parte do "fale agora ou se cale para sempre" não se usava mais. Aparentemente, tudo o que fizeram se resumiu a mudar um pouco as palavras, mas manter aquele momento angustiante presente.

Talvez eu estivesse paranóica, mas não pude evitar que minha imaginação fértil trabalhasse: Um homem chamando a atenção dos convidados, gritando a plenos pulmões que eu não poderia entrar para aquela família porque meu passado era sujo demais. Beatrice, surgindo ao longe e dizendo para quem quisesse ouvir que estava esperando um filho da minha noiva. E que ainda a amava.

Estava a ponto de pular no pescoço do juiz de paz e gritar para que ele continuasse, mas no segundo seguinte, ele voltou a falar. E eu me senti muitas toneladas mais leve, sentindo a mão de Lauren apertar com cuidado a minha.

Ela estava de frente para mim, e, instintivamente, fiz o mesmo. Chris apareceu de repente entregando uma caixinha para Lauren, então ela a abriu, revelando lá dentro duas alianças que seriam perfeitamente iguais se fossem do mesmo tamanho.

Lauren pegou a menor aliança e olhou profundamente nos meus olhos, me prometendo que seria fiel, que me amaria e que me faria feliz nas palavras formais repetidas do juiz de paz. Quando ela encaixou delicadamente o aro no meu dedo, senti um formigamento bom e meio quente começando da ponta do anelar e subindo pelo resto do meu braço. Ela me encarou outra vez e deu aquela porra de sorriso torto, me fazendo ficar nervosa, quase perdendo o controle e a agarrando ali mesmo.

Repetir as mesmas palavras que Lauren havia acabado de dizer sem realmente prestar atenção nelas, porque tudo que elas juravam já estava prometido, há muito tempo, pelo meu coração. Quando deslizei a aliança maior em seu dedo, contemplei por um momento o aro ali, como se fosse uma prova de que tudo que estava acontecendo era mesmo real.

O juiz de paz disse alguma coisa que resultou em Chris e Ally indo até ali para assinar alguns papéis. Imaginei que eles deviam ser as testemunhas do casamento. Foi então a vez de nós duas assinarmos alguns papéis também, e depois das assinaturas, quando tanto Chris quanto Ally já haviam voltado para seus lugares, o homem falou mais meia dúzia de palavras curtas e ficou em silêncio. Sentir a mão quente de Lauren segurar com firmeza minha nuca e me virei.

Ela estava de frente para mim, e naquele momento, tudo o que eu mais queria era me afogar naqueles olhos verdes hipnotizantes. Eu queria me perder nela, de todos os jeitos possíveis, e nem sabia o que aqueles pensamentos queriam dizer no final das contas. Ela sorriu de novo, e de novo me sentir mais fraca, mais entregue, mais feliz.

Lauren se inclinou para mim com muita classe, e aquelas frações de segundos foram, sem sombra de dúvidas, as frações de segundos mais preciosas de toda a minha vida até então.

Ainda não... Que eu não acorde agora, ainda não... Por favor...

Ela me beijou, e o beijo era tão igual a tantos outros que já tínhamos trocado, e, ao mesmo tempo, tão diferente... Era um ato que selava qualquer dúvida, qualquer problema no qual minha cabeça problemática insistia em pensar. E mesmo que eu não tivesse o direito de tomar posse de alguém, aquela verdade agora piscava em luzes neon dentro da minha cabeça.

Ela é minha. É realmente minha.

- Eu amo você. - falei em um sussurro, ainda de olhos fechados, assim que ela se afastou minimamente dos meus lábios.

- Eu também te amo. - ela respondeu de forma simples, rindo baixinho contra a minha boca. Foi só então que o som dos aplausos chegou aos poucos aos meus ouvidos, me tirando da nossa bolha e me fazendo ficar completamente consciente, pela primeira vez, de todas as pessoas que nos assistiam ali.

É verdade. Não estávamos sozinhas.

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O tapete pelo qual eu passei não era vermelho, mas sim branco. O caminho era limitado por arranjos de bambus ocos de altura média, que serviam como vasos rústicos para flores brancas. Eles ficavam ao lado de cada banco, e pela matemática rápida que fiz mentalmente, havia seis ou sete fileiras deles.

No outro lado do jardim, perto do chafariz, algumas mesas redondas e grandes estavam espalhadas, enquanto os convidados, quase todos desconhecidos para mim, conversavam animadamente, alguns de pé, outros sentados e mais alguns dançando ao som de uma banda de três ou quatro homens a um canto. Começava a anoitecer, e o jardim já estava iluminado pelos vários pontos de luz espalhados aqui e ali. Reconheci de longe Chris e Juliette dançando juntos, como se fossem do mesmo tamanho. Antonnie acompanhava Ally com Emily no colo enquanto sua mulher conversava com Mike. Clara falava com algumas mulheres e Taylor estava comendo qualquer coisa sentada a uma das mesas, com Pedro ao seu lado. E Lauren havia sumido.

Foi quando encarei minha aliança com um sorriso bobo no rosto que sentir um casaco branco e fofo cobrir meus ombros e um abraço envolver a minha cintura por trás.

- Você está um sonho. - ela falou baixinho perto da minha orelha, respirando com força contra ela para que eu me arrepiasse. - Um sonho muito cheiroso.

- Minha esposa deixou um chupão no meu pescoço. Eu tive que passar um creme.

- Sua esposa estava bêbada, tenho certeza que ela não fez por mal. Além do mais, deve ser muito difícil se controlar perto de você.

- Bom, espero que ela pelo menos consiga se controlar em público. - falei, me virando para ela e deixando claro que o volume em seu vestido não havia passado despercebido. - Acho que me casei com uma adolescente de 16 anos.

Ela continuou me olhando em silêncio, prendendo o casaco branco nos meus ombros.

- Acho que você é mesmo a coisa mais linda que eu já vi. - ela disse com uma voz sexy, passando o indicador pela linha do meu queixo.

- Acho que você ainda não se olhou no espelho.

Ela gargalhou alto, como se eu tivesse acabado de contar uma piada realmente boa.

- Você é engraçada. - ela finalmente disse, me ajudando a vestir o casaco. Quando estava enfim agasalhada, prendi meus dedos nos fios da sua nuca e a beijei sem nenhum aviso. Não era um beijo sensual, mas sim gentil, suave. Ou, ao menos, essa era a minha intenção antes de Lauren começar a me agarrar de uma forma um pouco inapropriada.

- Vai ser realmente bonito se um dos fotógrafos registrarem esse momento. - debochei contra a sua boca, tentando segurar seus braços.

- Ainda bem que não foi a mama que veio chamar vocês aqui. - Chris disse, saindo de trás de um arbusto e rindo feito uma criança. - Ela ficaria constrangida.

- Chris, você vai ser SEMPRE o meu empata-foda? - Lauren falou meio puta.

- Ei, só vim chamar vocês pra algumas fotos. Podem voltar pro matinho depois.

- Não vamos voltar. - falei de forma divertida. - Não quero que minha noite de núpcias aconteça no fundo do jardim dos pais de vocês. Vamos.

Puxei-a pela mão, mas ela continuou parada.

- Preciso de um tempinho aqui. - ela se explicou, apontando para seu pau.

- Vamos, Camilita. Minha irmã tem que desarmar a barraca.

Depois de algum tempo, Lauren se juntou a nós outra vez. Recebemos mais desejos de felicidade de mais pessoas, todos me elogiando e a parabenizando pela "sorte de casar com uma moça tão bonita". Imaginei que grande parte daquelas pessoas fossem executivos que ela já conhecia por serem amigos de seu pai, e outros deviam ser apenas amigos de longa data.

Tiramos fotos com praticamente todo mundo ali, mesmo porque não eram tantos convidados assim, e quando anunciaram a hora de cortar o bolo, fui outra vez surpreendida. Em cima da segunda camada enfeitada com glacê, vi uma miniatura incrivelmente bem feita de mim mesma com Lauren. Nossas feições eram perfeitas, e eu poderia até ter apreciado mais o capricho da personalização das noivinhas caso todo mundo não estivesse rindo agora.

A noivinha estava grávida e tinha os olhos revirados, e a outra noivinha estava efusivamente agarrada à sua barriga, ajoelhada no chão e com cara de pânico.

- Mandou muito bem, Chris! - Taylor falou gargalhando.

- Eu sei. - ele concluiu.

- Vão à merda. - Lauren falou friamente, embora ela também estivesse rindo.

Depois que o bolo foi fatiado e servido, comecei a sentir um pouco de exaustão. Toda a carga de emoções pela qual eu havia passado durante aquele dia estava me cansando. Era como se eu tivesse nadado durante horas sem parar.

Mais fotos, mais pessoas aplaudindo, mais gente bebendo e mais perguntas sobre a minha gestação. Eu estava feliz que todo mundo estivesse bem ali, mas não queria dar realmente uma atenção especial a ninguém que não fosse Lauren. Não era falta de educação, mas eu estava exausta e um pouco em transe ainda.

- É uma bela festa. - Taylor falou, se sentando ao meu lado em uma das cadeiras livres.

- É... E o mérito é todo seu. Obrigada por tudo.

Ela deu um sorriso e segurou minha mão.

- Espero que você e minha irmã sejam felizes. Ela merece isso, e você também.

- Vamos ser. - respondi, sentindo a certeza nas minhas próprias palavras. Era muito simples: Nós seríamos felizes porque fomos feitos sob medida uma para a outra. Não havia chance de não sermos. Simplesmente não havia.

Os convidados começaram a ir embora aos poucos, e àquela altura eu mesma já estava com uma leve vontade de pegar Lauren pela mão e ir para casa a pé mesmo. Não sabia que horas eram, mas imaginava que não fosse muito tarde. E no final, quando olhei em volta e só vi Taylor ao meu lado (comendo seu quarto pedaço de bolo), Chris, Pedro, Lauren e Ally conversando animadamente e Mike falando com os músicos junto de Clara, concluí que a festa havia chegado ao fim.

E eu ainda estava um pouco sedada por tudo aquilo.

Bebi o que provavelmente era meu décimo copo de suco de maracujá, sentindo um vento fresco e bastante agradável passar pelo meu rosto. Fechei os olhos e fiquei ali, sentada, calada, fazendo nada mais além de respirar toda a mistura de perfumes daquele jardim.

Por um longo tempo.

- Oi...

Sorrir sem abrir os olhos. Poucas coisas eram tão boas quanto ouvir sua voz de repente ao pé do meu ouvido.

- Oi.

- Vamos pra casa ou você prefere ficar aqui? - ela perguntou de forma irônica, infiltrando os dedos por debaixo da minha trança e fazendo carinho na minha nuca. Minha cabeça ficou mole.

- Se você não parar de fazer isso, prefiro ficar.

- Posso fazer isso na nossa casa também. Debaixo do edredom.

- Vamos. - concluí, me levantando imediatamente e já caminhando para me despedir das pessoas.

Pedro e Chris se colocaram à disposição para nos levar de carro, mas Lauren disse que não precisava, alegando que ela mesmo iria dirigindo um dos carros do pai emprestado, e então entendi que ela não havia bebido durante aquela noite.

Felizmente o caminho todo se resumia a dois quarteirões. Eu tinha certeza que acabaria dormindo caso passasse cinco minutos sentada no banco macio daquele carro. Quando chegamos ao jardim mágico da nossa casa, me apressei em abrir a porta do carro, mas fui impedida pelo grito de Lauren

- Não grita, porra! - falei assustada, socando-lhe o ombro. Ela se limitou a rir.

- Você não conhece uma das principais tradições do casamento? O noivo carrega a noiva!

- Pra dentro de casa. - falei, cética. - Se você não notou, ainda não entramos.

- A casa está dentro dos limites daquele portão de ferro pelo qual passamos com o carro.

- Então você fez errado de qualquer jeito. Porque eu já entrei e não estou no seu colo.

- Ah, cala a boca! - ela fingiu estar irritada e saiu, dando a volta pela frente do carro. Foi minha vez de rir da cara dela.

Lauren abriu a porta do carona e me carregou no colo sem muita dificuldade. Me agarrei no pescoço dela usando o sono como pretexto, e quando cruzamos a soleira da porta, ela não me soltou.

- Se você pisar na barra do meu vestido, vai ser tão engraçado... - falei rindo de mim mesma enquanto ela me carregava para o quarto.

- Você está estragando o romantismo, porra!

Eu não sabia se era o sono ou a leveza que eu sentia, mas tudo parecia muito mais engraçado do que o normal. Se eu não estivesse grávida, consideraria a possibilidade de Taylor ter colocado algum alucinógeno no meu suco. Lauren parecia me achar engraçada por isso, e ria junto comigo de absolutamente nada em particular.

Ela me colocou sentada na cama com um cuidado meio exagerado, me pedindo para ficar ali e esperá-la voltar.

- Todas as portas ficaram abertas e as luzes ligadas. Não vou demorar.

E dizendo aquilo, me deu um beijo tão suave que mal pude sentir seus lábios tocarem nos meus. Quando abri os olhos outra vez, ela já não estava mais lá.

Tirei as sapatilhas, os brincos e a gargantilha, me deitando em seguida e encarando o teto. Lembrei de tudo que havia acontecido naquela noite: No meu casamento perfeito, na minha noiva perfeita, na minha nova família perfeita. E conforme os segundos iam passando e Lauren não voltava para o quarto, me dei conta de que estava ansiosa de novo. Mas, dessa vez, por outro motivo.

Eu tinha transado com Lauren no primeiro dia que nos conhecemos. Claro. Além disso, estava tão acostumada a fazer isso com ela que já era algo tão natural quanto tomar banho ou algo assim. Por isso, aquela ansiedade adolescente que estava fazendo com que as pontas dos meus dedos ficassem geladas podia ser considerada, no mínimo, idiota.

Não era medo. E também não se tratava de insegurança. Eu sabia muito bem o que tinha que fazer e como fazê-lo. Mas, de alguma forma, era como se aquela sensação da expectativa por uma primeira aproximação estivesse me tomando aos poucos. Era quase a mesma sensação de quando me dei conta, pela primeira vez, que estava apaixonada por ela. A diferença era que, diferentemente da primeira vez, eu estava me permitindo desfrutar daquela sensação.

Era o nervosismo bom de uma nova paixão. Só que eu já estava apaixonada por algum tempo, então não fazia sentido.

- Você é muito estranha... - falei em voz alta para mim mesma, sorrindo de qualquer jeito esparramada na cama.

Ouvi os passos dela subindo as escadas outra vez e meu coração começou a bater muito forte. Sorri outra vez, achando graça do que ela me fazia sentir.

- Feliz? - ela perguntou ao ver meu sorriso bobo, fechando a porta e indo se sentar ao meu lado na cama.

- Que pergunta estúpida é essa? - perguntei sem deixar de sorrir. - Óbvio que estou!

- Você tem andado muito com a minha irmã. Está começando a falar como ela. - ela sorriu de volta, passando o indicador na linha do meu maxilar. Meu coração deu mais duas ou três batidas surdas.

- Você faz perguntas idiotas e a culpa é da sua irmã? - perguntei, me levantando e ficando sentada de frente para ela. Eu sabia que encurtar o espaço entre nós me faria ficar mais nervosa, mas a sensação era tão boa que fiz de propósito.

Ela continuou me encarando por tanto tempo que pensei que quisesse dizer alguma coisa. Mas ao final de um longo silêncio, Lauren simplesmente segurou com muita delicadeza meu pescoço e tão lentamente quanto uma maravilhosa tortura, se inclinou para frente e me beijou.

Foi um beijo perfeito. Absolutamente perfeito, em tudo. Bom o suficiente para me manter em um estado de torpor durante um longo tempo, inclusive depois que ele acabou.

- Você foi a primeira mulher que eu beijei... - soltei em um tom de voz baixa, ainda de olhos fechados, sentindo o rosto dela próximo ao meu. Não sabia o motivo de ter dito aquilo naquele momento, mas também não fazia idéia do porquê aquela era a primeira vez que eu fazia aquela confissão a ela. Mas agora que o silêncio havia se instalado no quarto, eu começava a me sentir meio... idiota.

- Eu fui a primeira mulher que você beijou? - ela perguntou, parecendo surpresa.

- Foi...

- Isso é sério?

- Não. Eu achei que seria legal contar uma mentira e depois quebrar o clima. - Falei debochada.

- Por que você nunca... Você nunca teve um namorado ou namorada além de mim?

- Não. - respondi encarando sua boca e chegando mais perto dela instintivamente.

- Não acredito que eu tive que esperar esse tempo todo pra saber disso... - ela pontuou com um sorriso no rosto, infiltrando os dedos por baixo da minha trança outra vez e me puxando mais para perto. - Por que nunca me disse isso?

- Eu acho que esqueci... - falei um pouco desorientada pela proximidade, e no segundo seguinte, como se não estivéssemos bem no meio de uma conversa, a beijei distraidamente.

O beijo começou lento, mas não demorou para se tornar algo a mais. Lauren levou sua boca para o meu pescoço e deixou com a língua um rastro molhado perto da minha orelha. Meu corpo tremeu involuntariamente, e outra vez eu sorri.

- Está com frio? - ela perguntou, e notei que aquela não era uma pergunta provocativa, mas sim verdadeiramente ingênua.

- Não. - respondi, voltando a beijá-la imediatamente enquanto trabalhava no zíper de seu vestido.

Quando a despi completamente na parte de cima, deixando ela só de cueca, Lauren trilhou um caminho de beijos no meu pescoço até a minha nuca, indo se sentar atrás de mim. A respiração pesada dela batia direto na pele sensível do meu pescoço, e era muito difícil parar de tremer. Quando senti seus dedos abrirem o ziper do meu vestido devagar, meus músculos se contraíram todos de uma vez, e ela notou.

- Você está bem?

- Aham.

- Parece um pouco tensa. - ela disse, pontuando a frase com beijos na pele das minhas costas que agora estava exposta. Senti todos os pêlos do meu corpo se eriçarem, e ela notou isso também.

Lauren sorriu contra a minha pele e foi tirando o vestido de mim da forma mais gentil e elegante que conseguia. Quando, no final das contas, tudo que eu vestia se resumia a uma calcinha branca (porque não tive tempo de escolher uma coisa mais apropriadamente vulgar para a ocasião, já que aquele dia havia começado aos trancos e barrancos), ela sorriu outra vez e me abraçou por trás. Só porque já haviam se acostumado, suas mãos migraram para a minha barriga.

- Do que está rindo? - tentei falar em uma voz firme e falhei vergonhosamente.

- Você está nervosa.

- E o que tem isso?

- Eu nunca te vi nervosa assim. - ela falou calmamente, voltando a beijar o meu pescoço e ronronar ali como uma gata cheia de manha. - O que você tem?

- Não sei. - respondi a verdade.

- Quer deixar pra outro dia?

- NÃO! - falei enfaticamente e corei em seguida.

- Que bom - ela concluiu, sussurrando ao pé do meu ouvido enquanto subia suas mãos. - Eu também não quero.

As mãos dela percorriam o meu corpo e me tocavam da mesma forma de sempre, e era engraçado como, dessa vez, tudo parecia mais intenso. Minha pele simplesmente se mantinha arrepiada durante o tempo todo, como se o toque dela fosse desconhecido. Mesmo me sentindo um pouco inibida, algo que também nunca havia acontecido, deixei que minha cabeça repousasse em seu ombro, tendo acesso à sua boca, e a beijei apaixonadamente. As mãos dela pareciam tocar em pontos estratégicos, que costumavam ser tão normais mas que, naquele momento, pareciam fios desencapados.

Quando ela voltou a ficar de frente para mim, tudo que fez foi me encarar por um longo tempo enquanto brincava com seus dedos na minha nuca. Nós duas ficamos em silêncio, como se não soubéssemos o que fazer a partir dali, ou como se não precisássemos fazer nada mesmo.

- Você é absurdamente linda. - ela falou de repente, tirando alguns fios do meu rosto.

- Amanhã eu tiro a maquiagem. - brinquei, beijando-a outra vez.

- Você vai continuar absurdamente linda amanhã. - ela sorriu, pegando minha mão esquerda e beijando meu anelar com a aliança. - Sua beleza não se limita à maquiagem. Não se limita nem à sua aparência. Você sempre foi linda, principalmente no que diz respeito ao que ninguém vê.

Eu a encarava feito uma retardada, assistindo-a se declarar contra a palma da minha mão. Eu queria responder, mas não o fiz por dois motivos: Primeiro, eu não sabia o que dizer. Segundo: Nada que eu dissesse valeria tanto a pena a ponto de interrompê-la.

- Eu não acredito na sorte que tive de te encontrar, e não me conformo por quase ter deixado você ir embora. Então, se você ainda não se deu conta disso, me deixa te avisar: - ela se inclinou para frente e encostou a boca no meu ouvido. - Isso aqui é pra sempre. E o meu pra sempre não é como os de hoje em dia, que resolvem acabar por preguiça. O meu pra sempre é um pouco mais chato, aquele que não se dá por vencido.

Ela voltou a me encarar com aqueles olhos verdes brilhantes e lindos, dando um sorriso arrebatador a poucos centímetros de distância do meu rosto. Eu continuei imóvel, e embora não tivesse nada de inteligente para falar, falei mesmo assim. Ou sussurrei.

- Eu gosto de pra sempre chatos.

- Então nós realmente combinamos. - ela disse, e mesmo que meus olhos já estivessem fechados, pude ouvir seu sorriso enquanto ela dizia aquilo.

Sem esperar pela minha resposta, talvez porque ela tenha notado que eu nunca conseguia falar merda nenhuma direito. Lauren me puxou para o seu colo e, quando fez isso, senti seu membro já completamente rígido contra a minha barriga. E então, porque as coisas não estavam estranhas o suficiente, meu rosto começou a ferver.

- Você ficou vermelha!

- Cala a boca... - falei, corando ainda mais enquanto tentava tirar sua cueca embaixo de mim.

- Fui eu que fiz isso? - ela perguntou, parecendo tão divertida quanto se estivesse em um parque de diversões.

- Cala a boca! - repeti, abaixando o rosto mas não conseguindo deixar de sorrir. Eu estava corando como uma menininha inexperiente, e vê-la rindo de mim estava me deixando ainda mais sem graça.

- Você fica ainda mais linda vermelha... - ela falou enquanto levantava meu rosto com uma das mãos e, com a outra, me puxava outra vez contra sua ereção.

Depois de um pouco de ginástica e uma confusão de mãos, acabamos as duas sem roupas. A noite estava fria, ou talvez fosse a minha ansiedade. Lauren parecia tão calma como em qualquer outro dia, e tive que me concentrar no pensamento de que a estranha naquela situação era eu. Ela voltou a me beijar, e seu beijo parecia mais profundo do que nunca. Sua boca passeava sem pressa pelo meu rosto, meu pescoço, meus ombros e meus seios, confortável o suficiente para não parar um segundo sequer.

Estremeci de leve quando senti suas mãos me levantarem, mas não deixei que ela notasse. Lauren se alinhou perfeitamente à minha entrada e esperou que eu me movesse, como era de costume. Como já estávamos mais do que acostumadas a fazer.

Mas eu não consegui.

Ela me encarou outra vez, ainda sorrindo. Aquilo foi o suficiente para fazer com que eu corasse outra vez.

- Eu não consigo entrar em você. - Lauren disse contra o meu pescoço, usando sua voz mais conquistadora. - Que tal relaxar?

Sua boca começou a passear muito suavemente de um lado ao outro do meu pescoço, fazendo com que eu me arrepiasse nos lugares em que a pele dela esteve em contato com a minha.

- Eu sei o que tenho que fazer. - retruquei friamente, tentando tirar qualquer traço de ingenuidade da minha voz. Isso só parecia diverti-la ainda mais.

- Então por que você não deixa eu me divertir aqui? - ela perguntou em meio a risos, deslizando uma das mãos para o meio das minhas pernas e esfregando com vontade não só meu clitóris como toda a entrada.

- Hmmm... - gemi contra a pele do seu rosto, tentando dar uma resposta plausível mas não achando nenhuma.

Ela firmou seu pênis de novo no lugar certo, e como da primeira vez, mal começou a entrar e meu corpo já havia se fechado violentamente contra o muito pouco que já estava quase dentro.

- Amor, você é virgem? - ela debochou e eu comecei a rir. - Vem cá.

Só me dei conta de que já estava deitada com as costas no colchão no segundo seguinte. Claro, ela sabia muito bem qual era a melhor maneira de me deixar relaxada e explodindo de tesão. Ela sabia usar aquela porra daquela língua dela muito bem, e depois de algumas lambidas e chupadas tão boas quanto o paraíso, qualquer virgem frígida estaria louca de vontade de ser espancada por aquela ereção enorme.

E nessa situação, aproveitando tudo que seus dedos e sua língua alternadamente faziam em mim, de olhos fechados e respiração pesada, fui invadida sem nenhum preparo ou aviso.

Respirei fundo, agarrando o travesseiro embaixo da minha cabeça e fazendo força para não gemer alto. Lauren esperou um pouco para se mover, me encarando para se certificar de que não havia me machucado. Fiz o possível para informá-la que estava bem. Ótima, aliás.

Ela então se moveu, ondulando entre as minhas pernas daquele jeito incrível que ela sabia fazer tão bem. Quando suas mãos foram parar na minha cintura e levantaram meus quadris, notei a aliança dourada que brilhava no anelar dela e, por algum motivo, ela pareceu dez vezes mais foda.

E era claro que as vadias soltas por aí também achariam isso. Mas não tinha problema: Eu iria atrás delas e as degolaria caso elas mexessem com a MINHA mulher.

Minha.

Quando as investidas foram se tornando mais rápidas e mais profundas, cansei de engolir os gemidos e começei a fazer barulho de verdade, não me importando em momento algum se estava fazendo um escândalo. Mesmo porque Lauren parecia estar gostando bastante dos barulhos que eu fazia, escandalosos ou não.

Depois de ir parar no seu colo mais uma vez, ditei o ritmo da transa pelo resto da noite. Consegui controlar nossos orgasmos por um tempo consideravelmente grande, já que nós duas chegávamos aos nossos limites com frequência. Quando nos permiti chegar ao clímax juntas, pela segunda vez, os lençóis já estavam tão amassados que pareciam ter servido de palco para uma luta. Eu estava cansada, suada, provavelmente descabelada e com a maquiagem borrada. Lauren continuava uma semi-deusa, cheirosa e linda de doer como sempre.

Acho que dormi no seu colo, sentada, enquanto tentava recuperar a respiração constante. A exaustão havia me nocauteado, mas só de me nocautear nos braços dela, já estava bom. Ela cuidaria de mim, e eu confiava nisso com toda a força da alma.

Pelo menos enquanto aquele sonho durasse, eu estaria bem.

Que eu não acorde nunca... Nunca.



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