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História Minha pequena Eva - Capítulo 10


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Capítulo 10 - Dez


Abracei o travesseiro macio antes de abrir meus olhos lentamente. Senti a brisa fresca da manhã entrar pela janela, o que era estranho... Eu nunca durmo com a janela do meu quarto aberta.

Abri meus olhos totalmente, puxei o ar com toda força ao ver o lugar em que eu estava, não era minha casa e não era a casa das meninas também, ninguém tinha um quarto tão luxuoso assim.

Os tons do aposento pareciam níveos, a cama era talhada em madeiras nobres, decorada com pequenas flores delicadas banhadas a ouro e tinha finas cortinas italianas, no estilo das camas de casal medievais, pura realeza. O colchão literalmente me deu a impressão de estar flutuando em nuvens, sem contar nos travesseiros deleitáveis.

A brisa que senti não vinha da janela e sim das portas de correr que davam para varanda, cheguei a contemplar por uns segundos as árvores barulhentas lá fora... Olhei para o teto e fiquei meio boba encarando aquele lustre de cristais pontiagudos com várias lâmpadas.

Onde eu estava?

Olhei para a roupa que me vestia, era um vestido branco de mangas longas e rendas que eu nunca na vida.

- Ah, aí está você!

Uma voz feminina exclamou. Olhei para porta ainda confusa, me surpreendi ao ver a tia de Elisa, Leonora Baldini.

- O que aconteceu?

Perguntei ainda tocando naquele vestido incógnito.

- Você não lembra de nada?

A mulher disse sorrindo. Tinha uns 40 anos e os mesmos cabelos ruivos de sua sobrinha, estava vestindo um uniforme acinzentado de empregada doméstica. Tentei lembrar de ontem mas tudo o que eu recebia eram flashs incompreensíveis.

- Onde eu estou?

Perguntei tirando as cobertas de cima de mim e me sentando desconfortável naquela cama confortável...

- Ele te trouxe ontem à noite.

- Ele quem?

- O patrão, Vincent.

Ela falou entrando, trazia consigo uma bandeja prateada cheia de comida.

Toquei mais uma vez naquele vestido que estava usando, Vincent por acaso trocou minhas roupas?!

- Que cara é essa?

Leorona murmurou entre sorrisos incrédulos.

- Q-Quem me trocou?

Falei gaguejando.

- Calma, fui eu.

Respirei mais aliviada, mas ainda sim me mantinha confusa sobre tudo.

- Leonora, o que houve ontem à noite?

A mesma respirou fundo e começou a contar:

- Você estava bêbada, o patrão me ligou para que eu pudesse vir ajudá-lo... Cheguei e te vi ainda dentro do carro dormindo como um anjo.

- Ele te carregou até aqui e me pediu para cuidar de você, trocar sua roupa e essas coisas.

Então comecei a lembrar de tudo, fechei os olhos pensando como a noite passada havia sido um pesadelo... Triste saber que todas aquelas coisas realmente aconteceram.

-  Eva, você acordou e tomou seu própio banho, o patrão deixou esse vestido para você, logo eu te ajudei a se vestir.

- Após isso você adormeceu de novo, estava muito bêbada.

- Obrigada, Leonora...

Falei meio abatida, tentei forçar um sorriso mas estava envergonhada demais.

- Você trabalha aqui agora?

Perguntei curiosa.

- Sim, ele me contratou por uns meses... Tome, o sr. Vincent disse que após seu café é para encontrá-lo no seu escritório.

A mulher falou colocando a bandeja em cima da cama, assenti olhando para toda aquela comida. Escutei seus passos pesados se distanciando conforme ela saía.

O cappuccino ainda estava quente, por alguma razão havia um copo de suco de laranja gelado ao lado.

Dois croissants um de chocolate e outro de creme, maçã verde, um cornetto al burro e manteiga caso eu quisesse.

Tinha queijo e presunto em boa quantidade também.

Tudo era gostoso, mas tinha comida demais!

Minha mãe me mataria se eu desperdiçasse alguma coisa dessas...

XXX

Desci as escadas observando como a casa era gigantesca, me sentia minúscula ficando ao lado dos pilares de mármore.

Todos os cantos tinham história, era uma mansão neoclássica, facilmente  impressionável com as obras monumentais, rigidez das formas e o equilíbrio da construção por meio da simetria.

Andei lentamente admirando todos aqueles materiais nobres; a pedra, granito, madeira e mármore.

Minha avó me disse uma vez que a casa deve funcionar como um carregador de energia para os seus moradores, se ela viesse aqui, iria adorar... As luzes em tons amarelados remetiam bastante a luz solar, tanto as embutidas como os lustres. O cheiro doce, floral e herbal, com uma nota balsâmica, era o aroma de toda a casa, pura lavanda.

Nunca esquecerei essa essência.

As paredes de cor creme, mantinham-se todas bem claras... Parecia que eu estava no céu e nem era porquê tinham literalmente esculturas de anjos inteiros de mármore em cada canto da casa.

Anjos e arcanjos esculpidos pela arte renascentista.

Todos falavam muito da casa de Mariângela Attizani, agora eu entendia o por quê.

- Eva?

Falando em anjo... A voz dele ecoou como um uma melodia masculinamente angelical. Poderia senti-lo voando divinamente até mim, meu coração intrigado se desmanchava mais e mais a cada segundo que sua alma junta-se a minha, inocentemente.

- Vincent...

Sussurei com um riso fechado nos lábios.

- Você está bem?

Ele perguntou se juntando a mim, nossos braços se ralavam mas nossas peles não, seu suéter impedira disso acontecer.

- Estou.

Sussurei erguendo o olhar. Agora de perto tenho a certeza de que ele é um homem mesmo, pareço tão idiota revelando algo tão óbvio, mas não imaginara que poderia sentir meu corpo queimando por alguém assim.

Minha mãe sempre me alertou sobre os garotos, acho que ela deveria ter me alertado sobre os homens.

Ele cruzou os braços olhando para um quadro na parede, não quis olhar também, não quando poderia vê-lo tão de perto, almejava tocar mas tinha medo. Aqueles olhos verdes luminosos eram atentos, sua pele branca levemente dourada parecia suave como seda.

Suas bochechas estavam levemente avermelhadas, já havia notado que sempre ficava assim, era a pura e magistral dilatação dos seus vasos sanguíneos para melhorar o fluxo de sangue e oxigênio.

O ar pesava para você também, Vincent?

- Venha comigo, quero te mostrar algo.

Ele disse saindo, o segui um pouco enfeitiçada.

Tudo o que conseguia ver era suas costas largas, todos os músculos do braço ainda desenhados mesmo por baixo daquele suéter quente.

Passamos por mais um corredor e outro, era como se estivéssemos entrando na parte secreta da casa. Ficamos de frente para uma porta que causou um pouco de impacto em mim, graças a sua cor preta que com seu acabamento em prata acabava denotando muita elegância. Já a forma quase simétrica, que divide a porta em duas, dava uma aparência maior de magnitude.

Vincent abriu aquilo e entrou. O cômodo tinha uma luz quente alaranjada, entrei ainda confusa mas logo sorri admirava ao ver todos aqueles quadros.

- O que?

Falei ainda sorrindo incrédula.

- Minha mãe é teóloga. Ela particulamente ama esses quadros e eu lembro que quando era menor, achava isso tudo muito ridículo.

Ele falou olhando todos quadros com um certo receio, admito que era um gosto peculiar mas  era intenso além de tudo. Seus olhos logo vagaram mais uma vez e então grudaram nos meus, engoli seco repreendendo-me por não conseguir virar o olhar ou fazer o que qualquer boa garota faria; correr.

- Para Adão o paraíso era onde estava Eva.

Ele murmurou pondo as mãos para trás, torceu os lábios descontente com sua colocação e olhou para um dos quadros em particular.

A Eva mencionada não era eu, mas não foi o que pareceu... Olhei para o mesmo quadro com uma feição séria, eu não gostava de sentir esses sentimentos recém-chegados.

Na pintura era um homem e uma mulher, todas as pinturas dessa fileira é um homem e uma mulher... Adão e Eva, imagino.

Nesta ele estava sentado encarando o nada, ela por sua vez com plantas em seus ventres, passava o corpo por cima dele assim cobrindo suas partes íntimas, mas os pequenos peitos dela ficavam de fora.

- Tão nus, nenhum pudor.

Falei aérea, meio embriagada pela arte. Vincent riu como se acabasse de escutar sua guria favorita abrir a boca.

- Antes de comerem do fruto proibido o homem e a mulher estavam nus, e não se envergonhavam.

Ele explicou, eu assenti e senti suas mãos quentes tocarem meu pulso. O mesmo estava me puxando para que pudéssemos apreciar juntos o próximo quadro.

Provaram do pecado e foram expulsos do paraíso... O segundo quadro não poderia ser diferente, Eva estava se erguendo para pegar a maçã enquanto Adão amedrontado se esquivou e tocou no ombro da amada para que ela pudesse parar.

- Por que você está me mostrando isso?

Perguntei mais emotiva do que queria demonstrar.

- Achei que você iria gostar.

Falou se virando para mim, tocou em meu ombro e fez-me virar para olhá-lo.

- Eu não quero pecar, não quero comer do fruto proibido e ser essa Eva.

Falei ainda o encarando. Eu me sentia culpada por gostar dele e assim que o vi respirar fundo daquele jeito, soube que também se sentia culpado por olhar-me com outros olhos.

- Eva, Eva, Eva...

Ele murmurou entre sorrisos irreais, soou como uma melodia melancólica e sensual. Ergueu sua mão e levou ao pescoço, estava tão quente e macia... Então seus dedos dançaram lentamente até meus pequenos e carnudos lábios, acariciou tão intensamente que fechei os olhos meio entorpecida.

- Vincent...

Clamei.

- Eu serei Adão, e você-

Ele murmurou tirando os olhos de mim e encarando Adão e Eva presos num quadro antigo à tinta óleo.

- Serei sua pequena Eva.

Falei o interrompendo, o vi dando aquele sorriso tão gostoso... Seus olhos se fechavam de uma forma angelical e aquela feição máscula se tornava puramente inocente.

Então meu telefone tocou, tocou tão alto que nós dois nos afastamos como se estivéssemos cometendo um erro.

Era minha mãe, mal coloquei o celular no ouvido e já escutei seus gritos nervosos:

- Eva, sua... Venha para casa agora antes que eu te mate sua cabeça-dura!

- Garota desobediente, você estará de castigo até o fim de sua vida com essa rebeldia!

Antes que eu pudesse falar algo ela havia desligado a chamada, nunca estive tão encrencada.

- Obrigada por ter me buscado ontem.

Falei me virando, não tinha coragem de encará-lo após essa sequência de reclamações que eu tenho certeza que me ouviu receber.

- Eva.

Chamou-me, mas eu não iria mesmo conseguir encará-lo.

- Sim?

Falei fitando a porta escura.

- Seu pescoço tem uma marca gigantesca, sua mãe vai perguntar quem chupou seu pescoço com tanta intensidade... Avise a ela que me chame quando for seu enterro, adoraria levar flores em condolências.

Ele falou friamente cínico, passou por mim e até deu um tapinha em minhas costas. Acabou saindo primeiro e me deixou sozinha naquela sala discernindo os últimos segundos.

XXX

Minha mãe não falava, ela gritava.

- Mas mãe, como eu ia escutar a senhora ligando se a música estava alta?

Falei tirando minha jaqueta, subi para meu quarto após ouvir 2 horas seguidas de reclamações na sala.

- Não importa Eva Poloni, você já está crescida garota, não sabe quanto nos deixou preocupados!

Ela disse entrando no quarto comigo, minha tia e meu pai vieram atrás para ouvir. Sinceramente eu só queria ficar sozinha e privacidade não é uma coisa que eu tenha muito aqui nesta casa.

- Cadê o seu celular?

- O que?

- Anda garota, me entregue seu celular, ele será confiscado por tempo indeterminado.

- Mas mãe?!

Clamei!

- Mas nada, entregue-me agora.

Revirei os olhos e peguei o celular do bolso, ela tomou da minha mão e me olhou com desgosto mais uma vez.

- E há mais.. Você está de castigo, não irá sair com suas amigas até segunda ordem.

- O que?!

- É isso que você ouviu, não teste minha paciência.

- Eva... Não deveria ter nos deixado tão preocupados assim minha filha, você nunca anda pela cidade e lá é muito perigoso.

Meu pai falou abatido, entrou no quarto e seus olhos cheios de preocupações pesaram sobre mim. Nunca me senti tão imprestável.

- Desculpa...

Pedi perdão mais uma vez, eles já haviam aceitado mas ainda sim estavam ressentidos.

- A sobrinha de Lara Da Fiesole, foi para uma festa na cidade e até hoje está desaparecida.

Arfei, minha mãe não iria sossegar tão cedo.

- Não acredito que incomodamos o seu chefe...

Ela continuou, dessa vez olhou para meu pai que colocou a mão no coração fingindo um ataque cardíaco.

- Ah não, sério, vocês são muito dramáticos!

Resmunguei me sentando na cama.

- Vincent é um anjo mesmo...

Minha tia sussurrou de lá da porta, todos nós olhamos inxespressivos para ela.

- O que foi gente, vocês são muito ruins com a menina... Ela só aproveitou bastante a festa.

Ela disse vindo até mim, se sentou ao meu lado na cama e me abraçou. Seu hálito tinha cheiro de tequila, não combinava nem um pouco com sua colônia floral.

- Tia, a senhora está me apertando...

Sussurei dando um riso amarelo, mas ela só me apertou mais.

- Ele disse ao seu pai que você poderia dormir na casa dele, como era a casa?

- A empregada estava lá não é?

Minha tia perguntou e minha mãe completou.

- É claro que a empregada estava, e a casa é gigantesca.

Ela arregalou os olhos querendo saber mais.

- Nós nunca entramos lá, acho que ninguém, Mariângela sempre fora uma rica insuportável.

Falou sorrindo cínica, parou de me abraçar e cruzou as pernas de maneira elegante.

- Você deve estar com fome, tome banho e desça para almoçarmos.

Meu pai falou saindo.

- Mas eu tomei café lá.

- Tomou?!

- Aham, três croissants 2 deles doces e o outro amanteigado. Tinha suco, café, queijo, presunto, maçã... A empregada levou na cama para mim.

Falei mas encarando minha tia, que babava pensando na coisa toda.

- Céus... Vincent não precisava fazer isso tudo, vamos ligar para ele e agradecer muito.

Minha mãe falou puxando meu pai, eles sairam de cabeça quente. Olhei para minha tia esperando que ela fosse a próxima a se retirar.

- Eu já vou indo também, tenho horário no salão para aparar minha franjinha que já está batendo nos olhos.

Falou se levantando.

- Tchau, tia.

Falei tirando meus coturnos.

- Ah, Eva...

- Sim?

- Vincent perguntou sobre mim?

Falou toda sorridente, nunca a vi tão radiante assim. Era uma bela mulher e como eu, também estava sentindo coisas por ele.

- Sim tia, ele perguntou como a senhora estava.

Menti, mas foi por uma boa causa. Sabia que ela passaria o restante do dia fumando seu cigarro caro, exalando sedução e sorrisos sem motivos, talvez até escolheria o melhor disco para tocar e à noite dançar sozinha em seu apartamento.

- Tá, tá adeus!

Cantalorou saindo saltitante.

E finalmente eu estava sozinha, nunca quis tanto esse silêncio!

Senti a minha própria respiração, fechei os olhos e com um peso nos ombros deitei na cama cansada.

Mas o silêncio se quebrou assim que o som do Skype ecoou pelo meu quarto... Respirei fundo e fui sem vontade ao meu notebook.

Era Dalila me ligando por chamada de vídeo.

- Oi.

Falei assim que atendi, cruzei os braços meio impaciente.

- Que cara é essa? O que houve com o seu celular que eu estou ligando e ninguém atende.

Falou revirando os olhos, estava deitada em sua cama desfazendo suas tranças rosadas.

- Minha mãe pegou e não vai me devolver tão cedo.

- Então quer dizer que-

- Quer dizer que eu estou de castigo, você não sabe o que houve ontem à noite Dalila.

- Na verdade eu sei...

- O que?

- Elisa já espalhou para todo mundo que pegou você e o Toby transando.

- Hãm?!

Coloquei a mão na boca aflita.

- Eva, é mentira não é?

- Eu nunca faria isso... Mas...

Sussurei nervosa.

- Mas o que Eva, o que você fez?

- Não foi isso, mas foi, só que não o sexo!

- É que...

- Não importa, Amanda disse que tem algo para nos dizer e você tem algo para nos explicar, hoje à noite falaremos sobre tudo no lago Milano.

- Mas eu não posso sair Dalila, estou de castigo.

- Nossa que pena, mas ainda sim você vai estar às 21:00 no lago Milano.

Então ela desligou a chamada, ótimo!

Me joguei na cama querendo desaparecer, por que tudo está acontecendo de uma vez só?

Abracei o travesseiro macio antes de abrir meus olhos lentamente. Senti a brisa fresca da manhã entrar pela janela, o que era estranho... Eu nunca durmo com a janela do meu quarto aberta.

Abri meus olhos totalmente, puxei o ar com toda força ao ver o lugar em que eu estava, não era minha casa e não era a casa das meninas também, ninguém tinha um quarto tão luxuoso assim.

Os tons do aposento pareciam níveos, a cama era talhada em madeiras nobres, decorada com pequenas flores delicadas banhadas a ouro e tinha finas cortinas italianas, no estilo das camas de casal medievais, pura realeza. O colchão literalmente me deu a impressão de estar flutuando em nuvens, sem contar nos travesseiros deleitáveis.

A brisa que senti não vinha da janela e sim das portas de correr que davam para varanda, cheguei a contemplar por uns segundos as árvores barulhentas lá fora... Olhei para o teto e fiquei meio boba encarando aquele lustre de cristais pontiagudos com várias lâmpadas.

Onde eu estava?

Olhei para a roupa que me vestia, era um vestido branco de mangas longas e rendas que eu nunca na vida.

- Ah, aí está você!

Uma voz feminina exclamou. Olhei para porta ainda confusa, me surpreendi ao ver a tia de Elisa, Leonora Baldini.

- O que aconteceu?

Perguntei ainda tocando naquele vestido incógnito.

- Você não lembra de nada?

A mulher disse sorrindo. Tinha uns 40 anos e os mesmos cabelos ruivos de sua sobrinha, estava vestindo um uniforme acinzentado de empregada doméstica. Tentei lembrar de ontem mas tudo o que eu recebia eram flashs incompreensíveis.

- Onde eu estou?

Perguntei tirando as cobertas de cima de mim e me sentando desconfortável naquela cama confortável...

- Ele te trouxe ontem à noite.

- Ele quem?

- O patrão, Vincent.

Ela falou entrando, trazia consigo uma bandeja prateada cheia de comida.

Toquei mais uma vez naquele vestido que estava usando, Vincent por acaso trocou minhas roupas?!

- Que cara é essa?

Leorona murmurou entre sorrisos incrédulos.

- Q-Quem me trocou?

Falei gaguejando.

- Calma, fui eu.

Respirei mais aliviada, mas ainda sim me mantinha confusa sobre tudo.

- Leonora, o que houve ontem à noite?

A mesma respirou fundo e começou a contar:

- Você estava bêbada, o patrão me ligou para que eu pudesse vir ajudá-lo... Cheguei e te vi ainda dentro do carro dormindo como um anjo.

- Ele te carregou até aqui e me pediu para cuidar de você, trocar sua roupa e essas coisas.

Então comecei a lembrar de tudo, fechei os olhos pensando como a noite passada havia sido um pesadelo... Triste saber que todas aquelas coisas realmente aconteceram.

-  Eva, você acordou e tomou seu própio banho, o patrão deixou esse vestido para você, logo eu te ajudei a se vestir.

- Após isso você adormeceu de novo, estava muito bêbada.

- Obrigada, Leonora...

Falei meio abatida, tentei forçar um sorriso mas estava envergonhada demais.

- Você trabalha aqui agora?

Perguntei curiosa.

- Sim, ele me contratou por uns meses... Tome, o sr. Vincent disse que após seu café é para encontrá-lo no seu escritório.

A mulher falou colocando a bandeja em cima da cama, assenti olhando para toda aquela comida. Escutei seus passos pesados se distanciando conforme ela saía.

O cappuccino ainda estava quente, por alguma razão havia um copo de suco de laranja gelado ao lado.

Dois croissants um de chocolate e outro de creme, maçã verde, um cornetto al burro e manteiga caso eu quisesse.

Tinha queijo e presunto em boa quantidade também.

Tudo era gostoso, mas tinha comida demais!

Minha mãe me mataria se eu desperdiçasse alguma coisa dessas...

XXX

Desci as escadas observando como a casa era gigantesca, me sentia minúscula ficando ao lado dos pilares de mármore.

Todos os cantos tinham história, era uma mansão neoclássica, facilmente  impressionável com as obras monumentais, rigidez das formas e o equilíbrio da construção por meio da simetria.

Andei lentamente admirando todos aqueles materiais nobres; a pedra, granito, madeira e mármore.

Minha avó me disse uma vez que a casa deve funcionar como um carregador de energia para os seus moradores, se ela viesse aqui, iria adorar... As luzes em tons amarelados remetiam bastante a luz solar, tanto as embutidas como os lustres. O cheiro doce, floral e herbal, com uma nota balsâmica, era o aroma de toda a casa, pura lavanda.

Nunca esquecerei essa essência.

As paredes de cor creme, mantinham-se todas bem claras... Parecia que eu estava no céu e nem era porquê tinham literalmente esculturas de anjos inteiros de mármore em cada canto da casa.

Anjos e arcanjos esculpidos pela arte renascentista.

Todos falavam muito da casa de Mariângela Attizani, agora eu entendia o por quê.

- Eva?

Falando em anjo... A voz dele ecoou como um uma melodia masculinamente angelical. Poderia senti-lo voando divinamente até mim, meu coração intrigado se desmanchava mais e mais a cada segundo que sua alma junta-se a minha, inocentemente.

- Vincent...

Sussurei com um riso fechado nos lábios.

- Você está bem?

Ele perguntou se juntando a mim, nossos braços se ralavam mas nossas peles não, seu suéter impedira disso acontecer.

- Estou.

Sussurei erguendo o olhar. Agora de perto tenho a certeza de que ele é um homem mesmo, pareço tão idiota revelando algo tão óbvio, mas não imaginara que poderia sentir meu corpo queimando por alguém assim.

Minha mãe sempre me alertou sobre os garotos, acho que ela deveria ter me alertado sobre os homens.

Ele cruzou os braços olhando para um quadro na parede, não quis olhar também, não quando poderia vê-lo tão de perto, almejava tocar mas tinha medo. Aqueles olhos verdes luminosos eram atentos, sua pele branca levemente dourada parecia suave como seda.

Suas bochechas estavam levemente avermelhadas, já havia notado que sempre ficava assim, era a pura e magistral dilatação dos seus vasos sanguíneos para melhorar o fluxo de sangue e oxigênio.

O ar pesava para você também, Vincent?

- Venha comigo, quero te mostrar algo.

Ele disse saindo, o segui um pouco enfeitiçada.

Tudo o que conseguia ver era suas costas largas, todos os músculos do braço ainda desenhados mesmo por baixo daquele suéter quente.

Passamos por mais um corredor e outro, era como se estivéssemos entrando na parte secreta da casa. Ficamos de frente para uma porta que causou um pouco de impacto em mim, graças a sua cor preta que com seu acabamento em prata acabava denotando muita elegância. Já a forma quase simétrica, que divide a porta em duas, dava uma aparência maior de magnitude.

Vincent abriu aquilo e entrou. O cômodo tinha uma luz quente alaranjada, entrei ainda confusa mas logo sorri admirava ao ver todos aqueles quadros.

- O que?

Falei ainda sorrindo incrédula.

- Minha mãe é teóloga. Ela particulamente ama esses quadros e eu lembro que quando era menor, achava isso tudo muito ridículo.

Ele falou olhando todos quadros com um certo receio, admito que era um gosto peculiar mas  era intenso além de tudo. Seus olhos logo vagaram mais uma vez e então grudaram nos meus, engoli seco repreendendo-me por não conseguir virar o olhar ou fazer o que qualquer boa garota faria; correr.

- Para Adão o paraíso era onde estava Eva.

Ele murmurou pondo as mãos para trás, torceu os lábios descontente com sua colocação e olhou para um dos quadros em particular.

A Eva mencionada não era eu, mas não foi o que pareceu... Olhei para o mesmo quadro com uma feição séria, eu não gostava de sentir esses sentimentos recém-chegados.

Na pintura era um homem e uma mulher, todas as pinturas dessa fileira é um homem e uma mulher... Adão e Eva, imagino.

Nesta ele estava sentado encarando o nada, ela por sua vez com plantas em seus ventres, passava o corpo por cima dele assim cobrindo suas partes íntimas, mas os pequenos peitos dela ficavam de fora.

- Tão nus, nenhum pudor.

Falei aérea, meio embriagada pela arte. Vincent riu como se acabasse de escutar sua guria favorita abrir a boca.

- Antes de comerem do fruto proibido o homem e a mulher estavam nus, e não se envergonhavam.

Ele explicou, eu assenti e senti suas mãos quentes tocarem meu pulso. O mesmo estava me puxando para que pudéssemos apreciar juntos o próximo quadro.

Provaram do pecado e foram expulsos do paraíso... O segundo quadro não poderia ser diferente, Eva estava se erguendo para pegar a maçã enquanto Adão amedrontado se esquivou e tocou no ombro da amada para que ela pudesse parar.

- Por que você está me mostrando isso?

Perguntei mais emotiva do que queria demonstrar.

- Achei que você iria gostar.

Falou se virando para mim, tocou em meu ombro e fez-me virar para olhá-lo.

- Eu não quero pecar, não quero comer do fruto proibido e ser essa Eva.

Falei ainda o encarando. Eu me sentia culpada por gostar dele e assim que o vi respirar fundo daquele jeito, soube que também se sentia culpado por olhar-me com outros olhos.

- Eva, Eva, Eva...

Ele murmurou entre sorrisos irreais, soou como uma melodia melancólica e sensual. Ergueu sua mão e levou ao pescoço, estava tão quente e macia... Então seus dedos dançaram lentamente até meus pequenos e carnudos lábios, acariciou tão intensamente que fechei os olhos meio entorpecida.

- Vincent...

Clamei.

- Eu serei Adão, e você-

Ele murmurou tirando os olhos de mim e encarando Adão e Eva presos num quadro antigo à tinta óleo.

- Serei sua pequena Eva.

Falei o interrompendo, o vi dando aquele sorriso tão gostoso... Seus olhos se fechavam de uma forma angelical e aquela feição máscula se tornava puramente inocente.

Então meu telefone tocou, tocou tão alto que nós dois nos afastamos como se estivéssemos cometendo um erro.

Era minha mãe, mal coloquei o celular no ouvido e já escutei seus gritos nervosos:

- Eva, sua... Venha para casa agora antes que eu te mate sua cabeça-dura!

- Garota desobediente, você estará de castigo até o fim de sua vida com essa rebeldia!

Antes que eu pudesse falar algo ela havia desligado a chamada, nunca estive tão encrencada.

- Obrigada por ter me buscado ontem.

Falei me virando, não tinha coragem de encará-lo após essa sequência de reclamações que eu tenho certeza que me ouviu receber.

- Eva.

Chamou-me, mas eu não iria mesmo conseguir encará-lo.

- Sim?

Falei fitando a porta escura.

- Seu pescoço tem uma marca gigantesca, sua mãe vai perguntar quem chupou seu pescoço com tanta intensidade... Avise a ela que me chame quando for seu enterro, adoraria levar flores em condolências.

Ele falou friamente cínico, passou por mim e até deu um tapinha em minhas costas. Acabou saindo primeiro e me deixou sozinha naquela sala discernindo os últimos segundos.

XXX

Minha mãe não falava, ela gritava.

- Mas mãe, como eu ia escutar a senhora ligando se a música estava alta?

Falei tirando minha jaqueta, subi para meu quarto após ouvir 2 horas seguidas de reclamações na sala.

- Não importa Eva Poloni, você já está crescida garota, não sabe quanto nos deixou preocupados!

Ela disse entrando no quarto comigo, minha tia e meu pai vieram atrás para ouvir. Sinceramente eu só queria ficar sozinha e privacidade não é uma coisa que eu tenha muito aqui nesta casa.

- Cadê o seu celular?

- O que?

- Anda garota, me entregue seu celular, ele será confiscado por tempo indeterminado.

- Mas mãe?!

Clamei!

- Mas nada, entregue-me agora.

Revirei os olhos e peguei o celular do bolso, ela tomou da minha mão e me olhou com desgosto mais uma vez.

- E há mais.. Você está de castigo, não irá sair com suas amigas até segunda ordem.

- O que?!

- É isso que você ouviu, não teste minha paciência.

- Eva... Não deveria ter nos deixado tão preocupados assim minha filha, você nunca anda pela cidade e lá é muito perigoso.

Meu pai falou abatido, entrou no quarto e seus olhos cheios de preocupações pesaram sobre mim. Nunca me senti tão imprestável.

- Desculpa...

Pedi perdão mais uma vez, eles já haviam aceitado mas ainda sim estavam ressentidos.

- A sobrinha de Lara Da Fiesole, foi para uma festa na cidade e até hoje está desaparecida.

Arfei, minha mãe não iria sossegar tão cedo.

- Não acredito que incomodamos o seu chefe...

Ela continuou, dessa vez olhou para meu pai que colocou a mão no coração fingindo um ataque cardíaco.

- Ah não, sério, vocês são muito dramáticos!

Resmunguei me sentando na cama.

- Vincent é um anjo mesmo...

Minha tia sussurrou de lá da porta, todos nós olhamos inxespressivos para ela.

- O que foi gente, vocês são muito ruins com a menina... Ela só aproveitou bastante a festa.

Ela disse vindo até mim, se sentou ao meu lado na cama e me abraçou. Seu hálito tinha cheiro de tequila, não combinava nem um pouco com sua colônia floral.

- Tia, a senhora está me apertando...

Sussurei dando um riso amarelo, mas ela só me apertou mais.

- Ele disse ao seu pai que você poderia dormir na casa dele, como era a casa?

- A empregada estava lá não é?

Minha tia perguntou e minha mãe completou.

- É claro que a empregada estava, e a casa é gigantesca.

Ela arregalou os olhos querendo saber mais.

- Nós nunca entramos lá, acho que ninguém, Mariângela sempre fora uma rica insuportável.

Falou sorrindo cínica, parou de me abraçar e cruzou as pernas de maneira elegante.

- Você deve estar com fome, tome banho e desça para almoçarmos.

Meu pai falou saindo.

- Mas eu tomei café lá.

- Tomou?!

- Aham, três croissants 2 deles doces e o outro amanteigado. Tinha suco, café, queijo, presunto, maçã... A empregada levou na cama para mim.

Falei mas encarando minha tia, que babava pensando na coisa toda.

- Céus... Vincent não precisava fazer isso tudo, vamos ligar para ele e agradecer muito.

Minha mãe falou puxando meu pai, eles sairam de cabeça quente. Olhei para minha tia esperando que ela fosse a próxima a se retirar.

- Eu já vou indo também, tenho horário no salão para aparar minha franjinha que já está batendo nos olhos.

Falou se levantando.

- Tchau, tia.

Falei tirando meus coturnos.

- Ah, Eva...

- Sim?

- Vincent perguntou sobre mim?

Falou toda sorridente, nunca a vi tão radiante assim. Era uma bela mulher e como eu, também estava sentindo coisas por ele.

- Sim tia, ele perguntou como a senhora estava.

Menti, mas foi por uma boa causa. Sabia que ela passaria o restante do dia fumando seu cigarro caro, exalando sedução e sorrisos sem motivos, talvez até escolheria o melhor disco para tocar e à noite dançar sozinha em seu apartamento.

- Tá, tá adeus!

Cantalorou saindo saltitante.

E finalmente eu estava sozinha, nunca quis tanto esse silêncio!

Senti a minha própria respiração, fechei os olhos e com um peso nos ombros deitei na cama cansada.

Mas o silêncio se quebrou assim que o som do Skype ecoou pelo meu quarto... Respirei fundo e fui sem vontade ao meu notebook.

Era Dalila me ligando por chamada de vídeo.

- Oi.

Falei assim que atendi, cruzei os braços meio impaciente.

- Que cara é essa? O que houve com o seu celular que eu estou ligando e ninguém atende.

Falou revirando os olhos, estava deitada em sua cama desfazendo suas tranças rosadas.

- Minha mãe pegou e não vai me devolver tão cedo.

- Então quer dizer que-

- Quer dizer que eu estou de castigo, você não sabe o que houve ontem à noite Dalila.

- Na verdade eu sei...

- O que?

- Elisa já espalhou para todo mundo que pegou você e o Toby transando.

- Hãm?!

Coloquei a mão na boca aflita.

- Eva, é mentira não é?

- Eu nunca faria isso... Mas...

Sussurei nervosa.

- Mas o que Eva, o que você fez?

- Não foi isso, mas foi, só que não o sexo!

- É que...

- Não importa, Amanda disse que tem algo para nos dizer e você tem algo para nos explicar, hoje à noite falaremos sobre tudo no lago Milano.

- Mas eu não posso sair Dalila, estou de castigo.

- Nossa que pena, mas ainda sim você vai estar às 21:00 no lago Milano.

Então ela desligou a chamada, ótimo!

Me joguei na cama querendo desaparecer, por que tudo está acontecendo de uma vez só? 


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