1. Spirit Fanfics >
  2. Minha primeira história >
  3. Os dois lados do espelho - PARTE I

História Minha primeira história - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Aos quatorze anos, comecei a escrever a minha primeira história, Os Dois Lados do Espelho, usando de inspiração o filme da Coraline e o Mundo Secreto. A escrita deixa muito a desejar, a ideia não é de forma alguma extraordinária, e os personagens personificam a imaturidade de uma amadora principiante. Mas ainda assim me é especial, porque foi o pontapé inicial de uma paixão platônica pela magia da escrita. Está inacabada, contando com quatro capítulos, mas decidi compartilhar com vocês esse pedacinho de mim, de quando eu escrevia em casa, imprimia e levava o manuscrito para que meus colegas e professores lessem. Recebi críticas e incentivos. Sou extremamente grata por ter vivenciado essa fase. Tenham uma boa leitura e não esperem por uma revisão, porque quero manter a essência de minha eu adolescente bem viva.

Capítulo 1 - Os dois lados do espelho - PARTE I


Sorveteria Candies, um lugar bem tranquilo e bastante agradável. Está novo em folha após a reforma exageradamente cara – pelo menos é o que o meu chede diz. Com cores quentes como vermelho vivo e amarelo. Embora não fosse exageradamente grande, conseguia ser confortável em seus míseros 60 m².

Localizada no centro da cidade, vivia com bastante movimento. A descrevendo da maneira mais simples e não detalhada possível: sua frente era toda de vidro, inclusive a grande porta de entrada, o que explicaria talvez as todas vinte vezes que bateram de cara no vidro. O vidro era todo blindado, e posso me vangloriar por eu ter convencido o chefe de ser assim! HAHA! O piso é de porcelanato branco, e era tão bem limpo e encerado que ele consegue ser pior que um espelho.

Havia algumas ridículas mesas redondas, exageradamente coloridas, espalhadas por toda a sorveteria com suas devidas cadeira de plástico resistente, seja qual for o nome do material.

Ao fundo é possível ver um enorme balcão retro repleto de doces dos mais variados tipos. Minhocas adocicadas era sem dúvida as minhas favoritas. Tem também uma porta aos fundos. Ela é de vido também, porém é preta, tão preta que parece até um buraco sem fim na parede vermelha. Eu não tenho a menor ideia que espécie de material é aquele, mas também nunca perguntei. Sei lá, me dá arrepios.

Quase ia esquecendo! Tem também uma porta de metal com uma janelinha redonda alta, próxima ao seu topo, eu acho que atrás dela tinha uma cozinha. É, eu simplesmente acho, porque nunca passei por ela e não tenho interesse em passar. Eu trabalho no balcão e não naquela possível existente cozinha.

Além de mim tem a Jessie. Imagina um ser magro, então, agora emagrece ele mais um pouco, pronto: Jessie. Eu nunca perguntei a idade dela, e esse nunca represente um mês de trabalho. Mulher não gosta de conversar sobre idade, então opto por respeitar. Até porque ela nunca comentou...

Jessie é animada pra caramba! Meu Deus! Não sei como é possível haver tanta energia em um corpo tão magro e pequeno. Mas continuando, ela tem cabelos ruivos – natural. Acredita nisso?! Além de magra é ruiva. Que inveja -, e olhos mel.

Nossos uniformes ultrapassam todos os limites do ridículo. Calça moletom azul — até aí tudo bem —, tênis All Star branco, camiseta listrada que faz questão de conter todas as cores do arco-íris e, para completar o “lixuoso” look temos que usar um chapéu imenso em forma de uma casquinha de baunilha! E você não sabe qual a melhor parte, é que é obrigatório! Mas não é uma bela de uma merda?!

Eu estou parada em frente a porta de entrada. Faltam 5 minutos para eu começar meu expediente. Volta a lembra, novamente, enquanto praguejo, o motivo de eu ter parado aqui.

Eu não sou um amor de pessoa, embora pareça. Resumindo o motivo: meus pais se separaram, eu e minha mãe viemos morar nessa cidade e, por ela sempre ter sido sustentada pelo meu velho, saímos sem um tostão no bolso e tive que arranjar algum emprego para ajudar nas despesas, que inclui a locação de um pequeno “moquifo”. E quando digo “moquifo” estou sendo generosa até demais. Ô lugarzinho pequeno, credo.

Crio aquela coragem de entrar, — sim, para entrar eu entrar preciso criar coragem —, e entro. —A Jessie nota minha presença:

— Sophie! Que isso, em?! Quer seduzir quem hoje? — Um sorriso debochado surge em sua face, rápido. Ela se refere às minhas roupas. Um jeans velho, preto e amarrotado. Acho que quando Deus me criou, ele se esqueceu de me dar bom gosto, mas foda-se. Também estou usando um blusão preto que tem duas vezes o meu tamanho, feio porém confortável. Meu coturno predileto — predileto porque era o único que eu tinha mesmo —, e o cabelo despenteado.

— A morte. — Ela gargalha alto, mas não há ninguém além de nós duas para ouvir. — Será que tenho mesmo que colocar meu uniforme hoje? — pergunto fazendo biquinho.

— Acha que só eu que vou pagar mico usando isso aqui? — ela pergunta enquanto aponta para o ridículo chapéu. — Não mesmo! Vá se aprontar imediatamente.

— Cão. — Resmungo baixo mas sorrindo para aquela menina boba que posso considerar como amiga.

No banheiro, que esqueci de mencionar anteriormente, e tenho uma bela desculpa para não ter o feito: ele é minúsculo! Mas enfim, coloco meu uniforme. Céus... A pessoa que fez isso aqui não tem coração. Eu até não posso ter bom gosto, mas isso aqui já é sacanagem.

Dou uma rápida reparada no meu reflexo frente à parede daquele banheiro, e só consigo chegar a uma única conclusão: é impressionante como cabe eu e esse espelho aqui dentro.

Eu saio do banheiro, praguejando baixo até o balcão. Jessie logo se pronuncia:

— Credo! Você está igual a Samara. O que diabos você fez no seu cabelo?

— Eu sei o que eu não fiz. Eu não penteei. — Jessie vem até mim, saltitando, parecendo a chapeuzinho vermelho, e ao invés da sexta, vem com uma escova que não consegui ver de onde ela a havia tirado. Reviro os olhos. Ela apenas penteia e arruma meus longos e negros fios.

— Olha que rosto mais lindo! — Ela fala alto. — Só falta uma corzinha, por que né? Isso aí está mais branco que o chão. — Eu rio e espero ela terminar de me “arrumar”.


~~

Aguardo sem ânimo algum a chegada dos clientes, apoiada em minhas mãos, e os cotovelos no balcão. Jessie está do lado de fora fazendo, animadamente, propaganda da sorveteria. Suspiro pesado.

Está frio. A sorveteria não tem o mesmo movimento quando estamos no verão. O que é um tanto quanto óbvio. Mas com clientes ou sem clientes, ainda tenho que esperar as quatro horas se passarem.

Ouço o sininho sobre a porta, alguém está entrando. Olho e vejo um homem entrar. Jessie entra tão rápido logo em seguida que quase congelo com o vento gelado que ela traz atrás de si.

— Seja muito bem-vindo! — Ela fala alto, um sorriso divertido no rosto e os olhos vidrados no rapaz. Ele passa a mão nos cabelos loiros, os jogando para trás. Que espécie de gesto era aquele? Ele estava dizendo “obrigado”?

Ele está de costas para mim.

— Que atenciosa. — Ele diz finalmente. Sua voz saiu rouca. Fala sério. Ele estava tentando ser sexy ou algo assim? Odeio isso, principalmente quando a pessoa consegue.

Ele senta em uma cadeira próxima à porta de entrada. Jessie lhe entrega o menu e sai saltitando, soltando um “chame quando precisar!”, eu coloquei um exclamação para essa frase, mas na realidade merecia mais umas dez. Ela vem rapidamente e se prontifica ao meu lado.

Arqueio as sobrancelhas. As minhas mãos ainda abaixo do queixo. Ela fita o rapaz e morde o lábio inferior.

— Deus. Quais são minhas chances? — Tudo saiu em um sussurro. Eu pude ouvi-la, claro, era essa a intenção.

— Tá falando comigo ou com a santidade lá de cima? — falo na mesma altura que a dela.

— Com quem me responder primeiro. — Ela começa a mexer no cabelo. Esse era o sinal de que estava nervosa.

O cara do qual eu desconheço o nome levanta dois dedos, eu acho que ele já tinha decidido qual pedido ele iria querer. Jessie é rápida e chega ao seu lado com um sorriso de orelha a orelha. Só observo a cena. Fazem um belo casal.

O único problema é que cenas como essa me reviram o estômago. Vou ao banheiro e quando volto, me deparo com Jessie sentada no colo do misterioso e loiro rapaz, tacando-lhe um beijo. Eu, sem pensar, começo a rir. Boa, sua bela idiota! Quebre o clima mesmo! Invejosa do cão. Isso aí sou eu falando comigo mesma. Minha risada é alta e eu cubro o rosto, não conseguido segurar.

O rapaz larga os lábios de Jessie, acho que ele ficou constrangido com a doida que ria da “ficada” dos dois. A doida sou eu, no caso. O motivo da risada? Não faço a menor ideia. Foi tão involuntário.

— Desculpa. — Digo ainda tampando o rosto e tentando retomar o fôlego.

Os dois ficam de pé e se ajeitam. Eu até acho que fui rapidinho no banheiro, sabe? Coisa de dois minutos no máximo. Essas pessoas de hoje em dia são muito rápidas. Olha, acho que já sei o porquê de eu ter rido tanto.

— Claro. — Ele esboça um sorriso malicioso e ridiculamente idiota em minha direção. Finalmente posso vê-lo de frente. Nem sabia que existia alguém com olhos tão azuis e claros como os dele. Por que isso me irrita? Eu sou uma bela de uma invejosa, só pode!

Ele se vira e sai. Simplesmente assim. A Jessie parece estar tão irritada quanto animada. Saltita até mim e me olha com um sorriso nos olhos e uma boca amedrontadora.

— O que? — Eu pergunto, inocente. Ela permanece imóvel. — Você está me assustando, não me encare desse jeito senão eu gamo. — Disse, sorrindo divertida. — ei, você está me escutando? — Insisto.

— Viu o que eu acabei de fazer? — Não! Deixei os olhos no banheiro! Como adoro perguntas idiotas. E sim, estou sendo irônica. — Ainda posso sentir o gosto da...

— Ei! — Disse, em prontidão, interrompendo-a. — Eu vi tudo, esqueceu? Não preciso de mais detalhes. — Ela faz um bico, e eu sedo. É claro que eu sedo. Ô coraçãozinho mole o meu. Ela volta a sorrir, um sorriso bobo e infantil, mas sincero.

Ouvi tudo, mas sabe quando uma coisa — palavras — entram por um dos ouvidos e saem pelo outro? É o meu caso. Ela explica os detalhes, todos os mínimos detalhes de mais ou menos dois minutos de beijo, e meus olhos pesam ao escutá-la. Era tanta empolgação. Por parte dela. E estou frisando isso.

~~


Depois do expediente, coloco minha roupa de volta — sim! Confortável! — e espero Jessie se trocar. Combinamos de ir a um bar próximo a sorveteria. Era uma sexta-feira e eu queria muito encher a cara. Tenho 18 anos, não me julguem.
Ela aparece em um vestido ombro-a-ombro rosa. 

Cai perfeitamente bem nela. Deixando-a feminina. O batom vermelho conseguia chamar mais atenção que o rosa choque. “Ei! Estamos indo a um bar, não à parada gay” penso e sorrio. Terminamos de trancar as portas e saímos em direção ao estacionamento, que fica atrás da sorveteria.

Ela tem um Uno de 1996. A cor deixou de ser branca para ferrugem. Eu não posso reclamar, melhor ir de carro, E DE CARONA, que a pé. Não me custa nada e nem me cansa, perfeito? Sim ou claro?

Ela destrava o alarme e entramos no carro. Demora dez minutos para chegarmos ao bar, e por ser sexta, está cheio. Solto um suspiro leve, como se tentasse tomar coragem para entrar. Jessie pega meu braço:

— Anda logo! Quero me divertir! — Disse com um sorriso mais malicioso que o normal. E se eu não a conhecesse, acharia que ela estava me tentando.

A sigo. O bar estava com a luz central apagada, mas há vários lasers finos em diversas partes do local. Azul, vermelho, verde. As cores mudavam a cada segundo. Se apresentavam em diversas posições em sentidos, parecendo uma discoteca ou sei lá o que. Jessie se empolga e começa a saltitar sem sair do lugar. Olho um pouco assustada. A música que toca é Starman, do David Bowie. Uma bela música. As pessoas dançam e cantam loucamente. Sabe quando você não sabe a letra e tenta cantar? Então, a galera toda estava fazendo exatamente isso. Uma mistura de inglês com Deus lá sabe o que mais.

O celular no meu bolso vibra, eu pego e leio Mãe escrito. Desligo e guardo ele no bolso, exatamente onde estava antes.

— Ei. — Falo um pouco alto, na esperança de Jessie me ouvir. — Acho que vou beber alguma coisa.

— Está tudo bem?

— Acho que sim. — Disse e ando em direção ao balcão.

Sento em um dos bancos e um senhor surge um senhor em minha frente. Levo um susto. O senhor é careca e tem um bigode, parecendo um rato, em cima da boca. As dezenas de tatuagens e a barriga de chope faz meu estômago revirar.

— Duas doses de vodka.

— Você quem manda, minha jovem. — Disse, com fisionomia neutra. Eu forcei um sorriso seco em resposta. Calma Sophie, calma! Hoje eu quero me divertir e esquecer a droga do inferno que está lá em casa. Eu respiro fundo.

Será que eu devo mesmo beber? Desde que meus pais se separaram, desde que eu e minha mãe viemos para cá, ela virou uma alcóolatra, brigamos quase sempre, e estou fazendo o papel de dona de casa desde então. Trabalhando naquele emprego medíocre.

— Aqui está. — O barman me tira dos meus devaneios tão rápido quanto eu virando de uma só vez as duas doses pela garganta.

— Eu quero mais duas. — Digo.

— É pra já!

Eu aguardo sentada em um banco em frente ao balcão. Estico os braços sobre ele e deito a cabeça em cima. Sinto alguém me cutucar pelas costas.

— O pessoal está reclamando por seu excesso de animação. — É Jessie.

— Invejosos. — Jessie gargalha.

— Vaaamos... — Ela fica balançando meu ombro para frente e para trás algumas vezes. — Eu quero dançar com a minha amiga!

— E eu quero beber até perder meus sentidos, só pra sentir a sensação. — Eu ri com ela, mas era verdade. — Prometo que jázinho eu danço contigo.

— Promete? — Novamente aquele biquinho.

— Prometo. — Eu sorrio e ela me dá um beijo na testa. Ela de repente grita e sai dançando, o que quase me causa um ataque cardíaco. O barman volta com as bebidas e eu novamente as bebo em um só gole. Droga, minha cabeça está dando voltas.

O celular novamente vibra em eu bolso, eu ignoro e continuo olhando para o nada. Por que eu fiquei tão depressiva tão repentinamente? Sem que eu percebesse, eu pego no sono. É ISSO MESMO! Eu pego no sono! Vocês devem estar pensando: Caramba em! Essa sabe sair para se divertir! Obrigada por seus pensamentos sarcásticos, ajudam em porra nenhuma.

Novamente sinto algo me cutucar, mas dessa vez é em meu ombro direito. Acordo com relutância e limpo a baba seca no canto da minha boca. Dormir e babar! MARAVILHA!

Espero que um gato me veja assim e espalhe para todos o quão sexy eu consigo ser em! Não, mentira, não façam isso, eu quero que alguém me ame um dia.

Olho para o lado e quem eu vejo? Bom, eu até diria o nome do sujeito, mas não sei seu nome. Só sei que ele teve seu beijo estupidamente interrompido por uma doida, eu.

Ele estava com o queixo apoiado em uma das mãos, e o cotovelo no balcão, os olhos me fitando e o rosto sem expressão. Não levanto a cabeça do balcão mas o fito.

— Então quatro doses são seu limite? — O rosto ainda neutro. Eu observo os copos de vodka vazios em minha frente. Os cabelos loiros dele estavam emaranhados e despenteados. Embora fossem lisos, estava uma completa de uma bagunça em cima da cabeça daquele cara.

— Isso? Estou só começando.


Notas Finais


Podem rir


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...