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História Minha primeira história - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Os dois lados do espelho - PARTE FINAL


Ao tentar abrir a porta da sorveteria tenho a infelicidade de não conseguir. Ela está trancada e eu não possuo nenhuma chave comigo no momento. Nem mesmo da porta da minha casa. Hoje está incrível! E estou sendo irônica, que fique claro. Não tenho muito a fazer além de sentar na calçada e esperar ou meu chefe ou Jessie. Sei que falta pouco para começar o expediente, de qualquer modo.

Sento e apoio o queixo nos joelhos. Eu poderia muito bem dizer que Jessie chegou com uma muda de roupas limpas e novas para mim pouco tempo depois de eu me sentar na calçada. Poderia dizer que meu chefe chegou, e, me vendo naquele estado, apenas me liberou, me dando o dia de folga. Sério. Poderia muito bem dizer isso, mas seria mentira, o que realmente aconteceu foi que começou a chover.

É, agora que eu estava me acostumando com aquele maldito sol quente, começa a chover repentinamente. E para piorar: é chuva de vento. Aquele que venta e os pingos de chuva vão bem na direção da sua cara! Eu decido ficar sentada ali mesmo. Fazendo papel de sem-teto. Apenas escondo o rosto nos joelhos, cruzo os braços em volta das pernas e espero.

Não tenho certeza de quantos minutos fiquei nessa posição, a única certeza que tenho é que a chuva não cessou. As gotas descem violentamente. De repente, para. Não estou mais sentindo a chuva, mas ainda a escuto. Olho para cima, tem um guarda-chuva preto aberto acima de mim e uma mão branca o segurando.

— Gosta mesmo de fazer papel de indefesa? — Simon está um pouco inclinado em minha direção. O guarda-chuva na mão direita, me protegendo da chuva, e a outra mão apoiada no joelho dele. Seu cabelo está pregado na testa. Vejo a chuva escurecer, umedecer e ensopar, respectivamente, suas vestes. O rosto está totalmente neutro.

— Eu faço sorvetes, não papéis. — Volto a esconder o rosto nos joelhos. O que ele acha que vai ganhar fazendo isso? Ele se senta do meu lado na calçada, ainda com o guarda-chuva sobre mim. — Não me lembro de ter pedido sua ajuda. Nem ontem e nem agora. — Olho para ele, que dá de ombros.

— Apenas seja educada e aceite. — Ele olha o céu. — Eu gosto da chuva. — Parece que ele não vai mesmo embora. Eu reviro os olhos. — Depois que ela cessa, eu posso contemplar o arco-íris. Por isso aprendi a não teme-la. Acho que.. mesmo que haja dificuldades, se aprendermos a não teme-las, mas superá-las, coisas melhores virão.

Espera, é impressão minha ou ele sabe os problemas que estou passando com meus pais? Ele de repente sorri para a chuva. Ele está sorrindo consigo mesmo. Céus, meu rosto está esquentando. Quente. Muito quente. Ele podia ser feio, não um Deus grego.

— Eu trouxe algo. — Só então reparo que ele está com uma mochila nas costas. Ele me entrega o guarda-chuva, que passo a segurar, e tira meu blusão da mochila. — Espero que não se importe por eu ter o lavado. — Não creio! Estou com vontade de sorrir, mas não quero sorrir para ele. Apenas pego o blusão e o visto. Ele sorri com o canto da boca. — Não vai abrir a sorveteria?

Só então lembro que as chaves estão no bolso. Coloco o guarda-chuva no chão, corro até a porta e a abro. O Simon permanece sentado na calçada com o guarda-chuva no chão, ao lado dele. Droga, esse idiota vai acabar pegando algum resfriado.

Estou parada na passagem da porta, olhando esse imbecil e com a imensa incerteza de se eu o convido para entrar ou deixo ele do lado de fora. Mas por que estou com essa dúvida? Eu nem conheço ele. Não passa de um estranho. Que maldição. Meu coração deve estar amolecendo.

— Eu não vou te convidar para entrar. — Digo por fim. Ele apenas ri.

— Mas quer. — Sinto o corpo esquentar novamente, estou começando a ficar irritada. Mordo a língua com força e sinto o leve gosto de sangue inundar minha boca. Qual é a desse imbecil?

Eu ando em direção a ele com passos pesados, o puxo pelo capuz da blusa até que ele fique completamente de pé. Ele parece não entender nada, nem eu.

Continuo o puxando pela blusa até que eu e ele estejamos completamente dentro do estabelecimento. Ele se desvencilha, e eu o encaro, na esperança dele se sentir incomodado ou falar logo suas intenções ocultas, sejam lá quais forem. Por que quando uma pessoa é bonita ela acha que pode tudo?

Eu, sem pensar, defiro-lhe um soco no ombro. O mais forte que uma pessoa sem energia conseguiria dar. Eu juro que foi sem pensar. Não sei por que fiz isso. Tampo a boca com as mãos imediatamente. Ele me olha bastante confuso, engelhando as sobrancelhas.

— Foi sem querer! — Eu alego, em defesa. É até engraçado eu pensar “em defesa”, já que a vítima é ele. — Pode revidar, eu nem sei por que fiz isso... Droga. — Eu começo a mexer nos dedos, nervosamente. Estou com tanta fome que não sei se aguento um soco hoje. Ele começa a se aproximar de mim. Eu não me mexo. Vai em frente, pode revidar, eu mereço. Bom que aprendo a parar com as minhas inconsequências.

Fecho os olhos e espero pelo pior. Até que sou surpreendida ao sentir os lábios dele na minha bochecha. Abro os olhos, o rosto dele está tão próximo do meu. Seus olhos azuis me fitam, como se estivessem olhando minha alma ou seja lá o que eu tiver por dentro.

— Por que tanta cautela comigo? — O hálito dele é de hortelã. O meu eu não prefiro nem comentar.

— Nos conhecemos não tem nem dois dias direito.

— Não. Trocamos palavras por esse meio tempo, mas não nos conhecemos, você não permitiu essa possibilidade em nenhum dos nossos encontros. Eu só estou curioso pelo motivo.

— Eu não gosto de pessoas do seu tipo. — Ele começa a rir com ironia.

— Quer dizer então que você tem uma primeira impressão e pronto, nada que eu fizer vai mudar ela? É isso? — Ele está perto demais. Estou ficando nervosa…

— E se for? Por que se incomoda tanto com isso? Meu Deus! Para de ser esquisito! Você vem aqui, pega a minha amiga, e depois passa a me seguir? Está tentando provar algo a si mesmo? “Ele quer provar que consegue pegar as duas.” — Imito com infantilidade a voz dele. E eu assumo que foi uma péssima imitação.

Ele começa a se afastar e caminha até a porta. Ele para por alguns segundos e então sai.

~~

Quando Jessie chega, eu ainda estou parada no centro da sorveteria, com a cabeça na lua. Ela está vestida igual a uma Barbie, com aquela blusa de lã rosa e um cachecol cinza.

— Meu Deus! — Ela grita, me tirando dos meus devaneios. — Você está ensopada! — Ela corre até mim, pega minhas mãos e começa esfregar nas dela. — Droga, Sophie, você está gelada! Está bem? E que chinelos são esses? Essas olheiras... — Eu apenas sorrio para ela. O sorriso não condiz nem um pouco com o que estou sentindo. Mas não quero ela preocupada. — Ande, venha comigo, tenho algumas roupas de reserva que deixo no banheiro. — Ela me conduz até o banheiro. Que sorte a minha. Acho que esqueço de dar valor no que tenho.

Depois de ela me secar com uma camiseta velha, ela me ajuda a vestir um moletom branco bastante de grosso E uma blusa de manga cumprida. Meu corpo começa a ficar mais quente. Ela pega a camiseta que eu vestia e analisa-a.

— Desde quando usa blusas de homem?

— Pode jogar no lixo. — Eu reviro os olhos e vou para trás do balcão. Jessie vem saltitando atrás de mim. O sorriso dela é imenso. Como pode, pequena desse jeito, transmitir uma aura tão boa e agradável grande assim? Parece que ela está sempre feliz e contente. Céus, que inveja.

Apoio os cotovelos no balcão e aguardo a vinda de algum cliente perturbado, pois, para vim à uma sorveteria nesse tempo, ele deve ter pelo menos algum tipo de problema mental. Jessie fica sentada em uma das cadeiras próximas à parede de vidro, olhando para o céu e assistindo a chuva cair.

Sem conseguir evitar, começo a pensar em Simon. Por que esses moleques de hoje em dia acham que podem ter tudo? Droga! Calma. Mantenha a calma, ele não vai mais te atormentar, relaxa e respira. Vale mais a pena pensar no porquê diabos a Vó Nina está querendo tanto falar comigo.

Bom, não é para saber como eu estou, já que pelo telefone ela não falou nada. Então... O que seria? Que saco, o tempo não passa. O pior de dias chuvosos e frios são a falta de clientes. Quando não estou fazendo nada, o ponteiro do relógio resolve fazer graça, e não passa. Acho até que já vi ele andando em sentido anti-horário algumas vezes para me atormentar.

~~

Estou trancando as portas da sorveteria e Jessie está procurando as chaves do carro. Já não chove grosso como antes, apenas chuvisca finos pingos. O Sol, agora um pouco mais visível, se põe ao horizonte, demonstrando de forma majestosa sua superioridade. Acima da sorveteria vejo um arco-íris. Começo a rir comigo mesma. Realmente, é um belo arco-íris.

— Vai querer carona? Sim? Ok, então pode entrar no carro. — Não deu tempo de responder. Eu tento demonstrar relutância, mas Jessie me ignora e saltita até o carro.

Entro no carro e sento no banco do passageiro. Jessie liga seu bom e velho Uno e dirige com tranquilidade. Eu solto um longo suspiro.

— Eu te perguntei mais cedo, — disse, olhando para o trânsito, que está tranquilo, — mas você não me respondeu. — Eu olho para ela e tento decifrar a frase. — Você está bem? — É só isso?

— Acho que estou... — Só estou cansada e com fome. Não consigo me lembrar a última vez que comi alguma coisa.

— Tudo bem então. — Ela não fala mais nada durante o trajeto. Minutos depois ela estaciona em frente ao portão da minha casa e, enquanto olho pela janela, criando coragens para descer e rever a minha avó e mãe, Jessie beija minha bochecha rapidamente. Aquilo me faz relembrar a cena com Simon mais cedo. — Boa noite.

O rosto dela é tomado por uma sorriso acolhedor e sincero. Eu devolvo um parecido, só que um pouco cansado. Desço do carro e entro em casa. Ouço o som do carro dela se distanciando e só então reparo no quão escuro está.

Quando estou girando a maçaneta, a porta se abre, alguém a está puxando e quase levo um tombo para dentro de casa, já que essa bendita porta abre para dentro. Mas bato o joelho no batente da porta. Que ironia, eu bater o joelho em um batente, soa até engraçado.

— Oh, céus! — Exclama Nina, que me ajuda a levantar. — Está tudo bem? — Não. Hoje eu cheguei no meu limite.

Vó Nina é careca. Faz seis meses que ela conseguiu vencer um câncer de mama. O tempo também não foi generoso com a pele dela, que de longe apresenta a idade que ela tem. Talvez tenha uns setenta, não sei ao certo.

Ela está vestida com um longo casaco preto e saltos vermelhos. Um colar de pérolas desce com graciosidade seu fino pescoço. Aos menos tenho que admitir que ela é elegante, e essa sim tem bom gosto.

— Não se preocupe comigo. — Minha mãe está sentada no sofá, ainda de camisola, com a cabeça baixa. Será que essas duas discutiram ou algo do tipo? Eu termino de entrar e me sento ao lado dela. Reparo em seu cabelo, tem menos fios que a última vez que a vi de manhã. Droga.

— Bom, — prossegue Nina, — agora podemos conversar apropriadamente. Não gosto de celulares, não podemos ver o rosto das pessoas, me sinto conversando com um objeto. — Será que ela conhece chamada de vídeo? Vou chutar que não. — Eu quero que as duas venham morar comigo. — Ela olha com arrogância para os móveis da sala. Um ar esnobe é transmitido por ela.

— Morar? — Eu digo. — Por quê?

— Não posso aceitar que minha filha e neta vivam nessa, nessa.. não sei nem como chamar isso aqui. — Nina faz cara de nojo. Ei! Você está ofendendo meu moquifo! Ele te recebeu com hospitalidade, não ofenda meu bebê. — Vocês estão vivendo precocemente aqui, e Márcia necessita de tratamentos médicos imediatamente. — Eu começo a roçar meus dedos uns nos outros.

— Não vejo essa necessidade toda.

— Querida, você não está entendendo. Eu não vim fazer uma proposta, vim avisar que as duas irão morar comigo a partir de agora. — Meu sangue fervilha.

— Não pode nos obrigar. — Né? Como ela poderia?

— Realmente, obrigar você eu não sei se conseguiria, embora eu possa tentar, mas sua mãe sim. Pois ou ela vem comigo, ou a interno em uma clínica. — Nina me fita, sem esboçar emoção. E pelo visto duvido que ela tenha alguma. — Ela precisa de cuidados, querida, e você anda ficando o dia todo fora, saindo à noite e dormindo Deus lá sabe onde. Acha mesmo que pode cuidar dela? — Ela suspira. — Não se preocupe, em minha casa você poderá iniciar um estudo em alguma instituição de ensino superior. Posso pagar.

Espera. O que ela ganha com isso? Não me recordo a última vez em que ela se preocupou com a mamãe. Deve ter algum motivo para estar agindo assim. Eu coloco minha mão com cuidado na cabeça de Márcia. Os cabelos estão úmidos.

— Você quer ir? — Pergunto baixinho. Estamos discutindo algo que atingirá diretamente ela, acho que sua opinião é a única que importa aqui.

— Não quero ir para o hospital. Não quero ver homens com roupas brancas me furando com agulhas. Só quero que tudo volte a ser como antes. — Ela começa a chorar. Deus, como isso me machuca! Mas talvez Nina tenha razão. Se isso for para o bem de minha mãe, eu não vou impedir.

— Certo, Nina. — Ela franze o cenho por não ouvir um “avó” antes do nome. E fiz isso propositalmente. Sim, sou mal educada. — Eu vou arrumar as coisas da minha mãe para que você possa levar ela para sua casa amanhã. Eu realmente não consigo cuidar dela sozinha. — Não pensei que iria doer tanto dizer isso. Primeiro meu pai, agora ela... Por que as pessoas que amo se distanciam com tanta facilidade?

— Que ótimo que pense assim. Virá junto? — Ela aparenta confiança no meu sim.

— Não sei. — Minha cabeça começa a doer. Sinto tanta fome que se torna quase impossível raciocinar. Deixar minha mãe ir para casa de Nina não é uma decisão minha, é dela mesma. Me levanto do sofá e caminho até a porta.


~~


Caminho por meia hora até chegar ao bar. É sábado à noite e o mesmo está bem movimentado. Tento caminhar com discrição até um dos banquinhos até o balcão. Missão completada com sucesso. Eu iria me sentar, mas reconheço aquelas costas em um dos bancos. Não imaginei que Simon estaria aqui. Sento ao seu lado, mas ele não nota minha presença. Está tomando vodka, e há alguns copos virados em frente a ele.

O barman está de costas para mim, preparando alguma bebida que não consigo identificar. Apoio os cotovelos no balcão e sigo seus movimentos com o olhar. Ele está bem concentrado naquela bebida, e a cena me diverte. Sim, eu acho legal ver as pessoas concentradas. Principalmente quando isso faz eu me distrair.

Simon espirra e, eu novamente, e que novidade!, falo “saúde” por eventualidade. Claro que isso fez ele notar que eu estava ali e provavelmente fez parecer que eu queria que ele me notasse. Eu olho para frente rapidamente. Simon então coloca um copo cheio em minha direção.

— Tome. — Ele diz. — Eu sei que isso não vai te fazer se sentir melhor, mas pelo menos vai te distrair. — Sua fisionomia é neutra. Eu acabo virando o copo de uma só vez.

— Eu acho que te devo desculpas por mais cedo. — Estiro os braços sobre o balcão e deito a cabeça, olhando para ele. Ele imita minha ação, e ficamos nos entreolhando.

— Não peça. — Ele fecha os olhos. — Não queria ter assustado você ontem. Às vezes eu faço coisas sem pensar e nem me toco nas consequências disso. — Acho que fiz bem em vir ao bar, pelo menos aqui eu não preciso ficar pensando em meus problemas, que não são poucos. Droga, eu quero beijá-lo.

Aproximo meu rosto do dele com cautela e encosto meus lábios nos dele. Cheira a vodka. Me distancio com vagareza e aguardo ele abrir os olhos. Ele não o faz.

— O que foi isso? — Ele pergunta baixinho.

— Apenas seja educado e me beija.


Notas Finais


Prontinho, foram os quatro capítulos escritos daquela época. Eu estou relendo e dando risadas. Obrigada pela leitura, vocês acabaram de conhecer a Amanda adolescente que se sentia A escritora, que tinha que amadurecer muito ainda, e que permanece precisando amadurecer.

É engraçado como existem particularidades dessa história que casavam com meu cotidiano. Morava numa casa de fundos nessa época, que coincidiu com a separação dos meus pais, e tinha um blusão preto que cobria as minhas maiores inseguranças com meu próprio corpo. Os sapatos favoritos da protagonista eram meu sonho de consumo, mas meu pai os achava masculinos demais para mim. O nome Simon eu usava para todos os meus personagens masculinos — não me perguntem o motivo. E o engraçado é que eu nunca achei loiros de olhos claros atraentes. Curioso esse Simon ter essa aparência. Acho que estava fadada a não vê-lo como um galã. A amiga da protagonista, Jessie, era bem o tipo de menina que eu gostaria de ter sido na adolescência, mas obviamente eu estava mais para a invejosa protagonista de áurea sombria hahaha. Muito bom poder reler e compartilhar esse texto.

P.S. Eu consegui fugir tanto do tema central da história KKKKKK


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