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História Misconception - Capítulo 2


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Notas do Autor


❝Com sua devida atenção, plágio é crime. Se o acontecimento for encontrado, o indivíduo será devidamente avisado.❞

Capítulo 2 - . Refeição e Flores Mortas


O artista empurrou uma bandeja de prata enferrujada em sua direção, apresentando um prato de porcelana rachado que portava um mínimo pedaço de bolo. O estômago de Victória revirou ao ver o bolo a sua frente, coberto por um bolor recém formado. O copo ao lado do prato estava sujo, com a água dentro ainda mais imunda, se possível.

Aos olhos do artista, aquele era um banquete excepcional. Aos olhos de Victória, aquilo não deveria ser servido nem ao pior dos loucos.

Os dedos esguios do rapaz empurraram a bandeja para mais perto da jovem mulher, seus olhos brilhando perigosamente por trás da máscara sorridente.

–– Preparei especialmente para você, doce Victória –– sua voz ecoou pela sala como um murmúrio silencioso, o tom calmo e sereno, a voz aveludada embora banhada em um perigo iminente.

Sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos e um sentimento de nojo formar-se em seu interior, borbulhando como uma chaleira quente. Sentia vontade de empurrar a bandeja para longe, esbravejar sua indignação e raiva, exigir sua liberdade. Não queria engolir aquela desculpa de jantar, não contaminaria seu corpo com aquele veneno mortal. Ele planejava matá-la lentamente, prejudicando seu corpo e deteriorando sua mente até que ambos não passassem de frangalhos.

Entretanto, algo dentro de si a impedia de enfrentar o homem a sua frente. No fundo, embora desarmado naquele momento, sabia que seria facilmente imobilizada e presa a novas correntes ou amarras, dessa vez mais grossas, mais impiedosas e mais prisioneiras que ela própria. Por mais que gritasse o nome de Deus e pedisse por socorro, ninguém a ouviria.

A fábrica estava abandonada há anos, em uma provável parte isolada da área rural. Talvez estivesse perto da estrada, ou talvez não. Talvez estivesse presa em algum lugar do nada, em uma faixa de terra esquecida até pelo mais moribundo dos homens.

Ele pensara meticulosamente em tudo, a jovem Brownlow precisava admitir. Seu plano de mantê-la presa naquele inferno secundário estava sendo bem sucedido, começando por sua localização isolada e longe de qualquer sinal. Perguntava-se como o artista fazia suas viagens até ali, ou se realmente saía; talvez não estivesse longe da área urbana, ou aquela área rural era realmente populosa a ponto de haver civilização por perto. Se houvesse, suas chances de escapatória tornavam-se mais altas que anteriormente. Havia uma pequena possibilidade de ser ouvida, enquanto também não. Caso houvesse alguém morando por ali, como nunca percebera a movimentação que aquele rapaz a sua frente realizava ao adentrar a fábrica?

Foi retirada de seus pensamentos quando dedos esguios agarraram seu queixo com força, puxando-o bruscamente para frente e forçando-a a encará-lo. Seus olhos tremiam em suas órbitas, o medo corria por suas veias quando encontrou o vazio da máscara retribuindo o olhar. Suas unhas mal cuidadas cravaram em sua pele delicada, deixando Victória desconfortável. Um gemido de dor escapou de seus lábios, parecendo atrair um brilho de satisfação e prazer do rapaz.

–– Eu preparei esta bela bandeja para você, doce Victória. Seja uma boa mulher e agradeça-me –– sua voz passou do mais puro veludo para o mais mortal gelo, um aviso implícito em suas palavras.

Engolindo a seco, a mente de Victória rapidamente assimilou o que estava acontecendo. Aquele rapaz a sua frente, tão jovem mas tão perigoso, carecia de atenção, de um romance tórrido a ser vivido a uma experiência carnal nunca a ser realizadas pelas condições mentais que se encontrava. Ele estava forçando-a a ser sua bela musa, seu ideal de mulher.

Se esta era a sua única forma de sobreviver, se tornaria o ideal que ele tanto almejava.

–– Obrigado, meu querido –– murmurou incerta, forçando um sorriso em seus lábios trêmulos. O corpo do artista brilhou em excitação, sua mão prontamente se afastando de seu rosto. Respirou fundo, determinada a agarrar com unhas e dentes sua única forma de sobrevivência. –– Eu estou... encantada com seu presente.

–– Esta bandeja está imperfeita, como pode estar encantada por ela?

Victória Brownlow nunca fora uma mulher ávida na religião, embora viesse de uma família unida pelo casamento de um umbandista e uma cristã. Tinha conhecimento e experiência de ambas as religiões, comemorava suas datas festivas e seguia algumas de suas tradições e costumes, mas nunca fora devidamente devota a qualquer uma. Entretanto, com a repentina mudança de humor que seu captor apresentara, rezou e pediu pela graça de Deus, pediu aos mais poderosos orixás que a protegessem.

Aquele homem mostrara-se ser mais instável que uma correnteza sem rumo específico. Tentava nadar contra ela, mas era impossível sem uma direção a ser seguida.

Seus olhos, acostumados a penumbra da sala e já experientes em seus mínimos detalhes, captaram um porta-retratos deteriorado pelo tempo e pela sujeira, enegrecido, portanto uma pintura de uma criança, apresentando um belo jardim de flores vívidas e coloridas.

–– Está certo, querido... eu não percebi isso –– concordou, voltando a encarar o abismo sem fim. –– Estou sentindo falta de flores.

–– Flores?

–– Uma bela refeição como essa –– sinalizou com as mãos, sorrindo benevolente. Seu estômago revirou em seu interior, não concordando com sua fala. –– precisa de uma decoração adequada. Você, como um talentoso artista, deveria considerar esse fator.

O artista considerou momentaneamente e concordou com suas palavras, levantando-se em seguida e murmurando algo sobre “flores tornarem um quadro mais vivo que uma pessoa”.

Com a saída do artista do escritório, Victória arranjara tempo o suficiente para planejar como entraria naquela dança estranha sem ocasionar, consequentemente, em sua morte.

 

Margaridas mortas, murchas pela carência de suprimentos e recursos, acompanhadas de ervas daninhas e dentes-de-leão pousaram sem cerimônia na bandeja a sua frente. O cheiro que exalavam invadiam suas narinas e ardiam em suas vias nasais.

–– Pronto, flores –– proclamou, orgulhoso de seu ato caridoso. Ao seu ver, a bandeja estava perfeita, impecável e agradável para a bela musa a sua frente. Seu lado artístico ficara decepcionado ao encontrar tão poucas opções no solo morto ao redor da fábrica, mas precisava se conformar com o que lhe era concedido.

–– Está... perfeita –– murmurou. Finas lágrimas escorreram por suas bochechas, o desespero a tomando. Aquelas margaridas, antes tão belas, estavam mortas, assim como ela estaria se algo desse errado.

–– Agora, coma.

Comer? Seu interior remexeu-se em desconforto, a garganta apertando em desgosto ao ver o bolor que cobria o bolo e a sujeira que nadava na água. Recusava-se a digerir aquela horrível refeição a sua frente, o veneno orgânico que prometia destruir seu corpo de dentro para fora.

A mão do artista enroscou-se em seus cabelos, puxando-os com agressividade e forçando seu rosto a levantar, a outra mão segurando o bolo. Victória abriu a boca minimamente para falar alguma coisa, mas antes que pudesse de fato proclamar algo, o bolo fora empurrado para sua boca. A mão do rapaz permaneceu sobre seus lábios com firmeza, impedindo-a de cuspir a comida. Sua garganta se contraía pela aspereza dos ataques, levando consigo alguns pedaços e a saliva contaminada. Lágrimas escorreram de seu rosto, manchando-o e limpando-o ao mesmo tempo.

De repente, as mãos se foram, postas para longe de seu corpo. Cuspiu o bolo na bandeja, tossindo violentamente para se livrar de quaisquer restos daquela armadilha. Seu estômago acomodou-se com o alimento antes de revirar-se ao reconhecer um organismo vivo que não deveria estar ali. Regurgitou no mesmo instante, o vômito saindo de sua boca e pousando na bandeja, cobrindo a porcelana rachada e as flores com seus resquícios de suco gástrico e pedaços marrons do que antes fora um alimento mal conservado.

Sua garganta ardia, seu estômago estava inquieto, mas a dor em seu peito era pior. Sentia-se usada, descartada como lixo, tratada como um animal. Se garantir sua sobrevivência exigia ações bruscas como aquela, pela primeira vez considerava a morte. O artista retirou a bandeja de perto, pegando-a em mãos enquanto se levantava e saía da sala, trancando a porta atrás de si. Victória piscou os olhos marejados antes de cair contra o chão, permitindo-se chorar como uma criança desamparada.



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