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História Monster - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Base 3D20


Fanfic / Fanfiction Monster - Capítulo 2 - Base 3D20

Incheon, Coréia Unificada

Março de 2020

Alli tentava, com muito esforço, controlar os tremores de seu corpo. A sala fechada, sem qualquer janela ou brecha em que a luz pudesse penetrar, estava completamente escura e fria. O inverno parecia brigar com a primavera por mais espaço e enquanto trincava seu maxilar na tentativa de se conter, ela poderia chutar que estavam abaixo dos 5º de temperatura.

Apesar disso, o frio não era o único causador de seus tremores. Seu coração pulsava tão acelerado que ela poderia jurar que muito em breve entraria em colapso. Nunca antes havia experimentado um pavor como tal. Se fosse religiosa, esse seria o momento em que pediria por um milagre ou para que desmaiasse de uma vez, talvez só assim sua morte fosse indolor.
Seus braços fracos e machucados agarravam seu tronco desnudo enquanto ela muito lentamente movia as pernas, igualmente trêmulas e cheias de hematomas, para frente de seu corpo, para que pudesse permanecer na posição fetal e ocupar o mínimo de espaço no chão frio.

O cheiro metálico invadiu suas narinas quando ela inspirou o ar profundamente, o mais silenciosamente possível, ao tentar controlar sua respiração, mas as lágrimas logo tomaram conta de seus olhos assim que ouviu o animal se mover ruidosamente pelo cômodo. 

Há duas semanas, o governador-geral japonês anunciara a possibilidade da criação de um Protetorado para a anexação oficial do território coreano pelo Japão, tal qual ocorrera em 1910. A ação, sem qualquer reação internacional efetiva, fez com que os comandos rebeldes se organizassem para uma marcha até Seul, onde o governo nipônico se instalara.

Como uma forma de sufocar as manifestações, os militares japoneses ordenaram a invasão das bases dos comandos de retaguarda em Daegu, onde Alli se organizava com demais companheiros. Desde então, há seis dias, ela estava presa em uma das bases policiais de Incheon. As tropas japonesas estavam avançando para o sudoeste e logo parte dos comandos rebeldes estariam isolados. Seus amigos deveriam estar ocupados demais em proteger as bases de Ulsan e Busan para se arriscarem em uma missão de resgate. Era a única capturada naquela base, então talvez fosse seu momento de aceitar a morte como resistente.

Naquela manhã ela fora retirada de sua cela e levada para o cômodo onde estava para ser interrogada. O general Ugaki queria o mapa completo das bases rebeldes e o nome e localização de pelo menos dois comandantes. Ele sabia quem Alli era, sabia que respondia à comandante rebelde Jo, alguém que já vinha se tornando lendária entre os grupos de resistência, por isso fazia exigências tão altas. O que ele não sabia era que Alli jamais revelaria a localização e a identidade completa de seus amigos e amigas, nem mesmo sob tortura.

Ugaki, no entanto, pagaria para ver e deixou a jovem mulher sob os “cuidados” de seus melhores e mais sádicos homens.
Nenhum dos socos, chutes, jatos de água gelada e ameaças de abuso sexual, porém, chegariam perto de deixá-la apavorada como ela estava no momento. Como uma última e mais cruel tortura, antes que fosse deixada para morrer ali mesmo, por sua inutilidade, o general ordenou que ela fosse completamente despida e largada na sala escura e vazia de móveis, na companhia apenas de uma cobra Python reticulatus.

Naquele momento Alli conseguia ouvir o rastejar do animal, o que a fazia crer que ele estava por perto. Com as coxas pressionadas sobre a barriga, fazendo o corte que tinha ali latejar ainda mais, ela curvou a cabeça por entre os joelhos para abafar a respiração e fazer o que podia para não atrair a atenção da cobra. Mesmo que a espécie não fosse peçonhenta, o réptil ainda possuía força e comprimento suficiente para matá-la por constrição, caso se enrolasse nela e a apertasse até interromper seu fluxo sanguíneo. Só o pensamento lhe fazia tremer e chorar ainda mais. A única coisa que poderia fazer era se manter quieta até que eles desistissem da tortura ou que alguma ajuda chegasse.

Se chegasse. 

Confiava em seus companheiros e sabia que eles não deixariam de pensar nela em nenhum momento desde a captura, mas tinham objetivos maiores e mais importantes. A luta deles era coletiva, não individual.

O pavor e as dores faziam com que ela ouvisse a voz de seus amigos em sua cabeça, no que ela julgava um delírio pré-morte. Xiumin, sempre tão sereno e tranquilo, diria a ela que tudo ficaria bem depois de um bom chá cicatrizante e que ele mesmo cuidaria de todos os seus machucados pessoalmente. O combatente mais velho era o médico mais atencioso que conhecia.

Em seguida, sua mente era tomada pelos olhos assertivos de Jo, sua comandante e melhor amiga. Sua voz, em uma ira controlada que era sua marca registrada, bradava para que apressassem as estratégias de marcha, porque dali em diante ela teria mais do que um conflito ideológico e militar com Ugaki e seus comandados. Mexer com sua melhor amiga era algo a nível pessoal.

Por último, e trazendo um tremor característico para seu corpo, ela via Baekhyun. Com ele, no entanto, ela não visualizava sua reação ao tirá-la dali, mas era transportada para suas memórias mais fortes. Ele fora a primeira pessoa que ela conhecera quando largou o emprego em Seul para se juntar aos rebeldes. Jo o apresentou como a melhor mira do acampamento.
Ele foi seu primeiro instrutor de tiro.
Ela, sua professora de luta corporal.
Durante as noites, eram confidentes. Depois da amiga, Baekhyun era com quem ela mais facilmente podia se conectar sobre seus ideais, sobre o mundo e as falhas de nosso sistema cruel e desigual. Não demorou muito para que, de companheiros de luta, eles se tornassem amantes inseparáveis. Porque para ambos, não havia melhor combinação para a revolução do que o amor.

Com um sorriso triste nos lábios manchados de sangue e molhados pelas lágrimas, Alli ouviu o ruído do animal ainda mais perto. Esforçou-se, então, para pensar em sua família, em seus amigos e em seu amor.
Ela já aceitara seu destino, mas seus amigos jamais desistiriam dela.

Em um estalo mínimo a porta se abriu, iluminando parte do cômodo. A primeira coisa que Alli conseguiu ver, ainda que de forma embaçada, foram as botas de combate de Jo. Aos seus pés, a cobra sequer teve tempo de dar o bote ao se sentir ameaçada pela movimentação repentina, já que a mira mortal de Baekhyun a acertou bem na cabeça.
Mesmo sem conseguir vê-los nitidamente, Alli sorriu agradecida.

– Combatente Alli, base 3D20, se apresentando à comandante. _Sua voz soou fraca, mas foi ouvida com alívio pelos dois.

– Missão de resgate concluída. Alli está viva e consciente. Esvaziem os bancos de dados desta base e preparem nosso recuo. _Jo orientou os demais pelo transmissor e se abaixou na direção da amiga para pegá-la no colo. 

Alli só teve tempo de sussurrar um agradecimento antes de sentir o casaco de Baekhyun sobre seu corpo nu e apagar.

– Ela vai ficar bem. _Jo assegurou para Baekhyun, que caminhava ao seu lado com a arma em punho, fazendo a segurança das duas caso ainda houvesse algum soldado consciente naquela pequena base.

Na invasão, que ocorrera logo após a saída da comitiva do general Ugaki, os combatentes rebeldes se espalharam pelo local, imobilizando todos os soldados que estavam de guarda enquanto Kyungsoo invadia o sistema eletrônico deles em busca de dados e para o destrave de celas dos presos políticos que mantinham ali. Sob o comando estratégico minucioso de Jo, eles agora partiriam em carros japoneses até a fronteira com Seul.

– Eu sei que vai. _Baekhyun respondeu, olhando para o rosto pálido de Alli, tentando se manter firme e não desabar por vê-la tão debilitada.



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