História Moon Lovers: The Second Chance - Capítulo 20


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Categorias Histórias Originais
Tags Dorama, Drama Coreano, Moon Lovers
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Palavras 4.714
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Luta, Mistério, Romance e Novela, Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Spoilers, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 20 - O Olho do Furacão


Fanfic / Fanfiction Moon Lovers: The Second Chance - Capítulo 20 - O Olho do Furacão

Bastaram apenas três dias após o início da estadia do herdeiro Wang Shin na Mansão da Lua para que a rotina que havia sido imposta naquele lugar fosse desestruturada por completo. O rapaz, que evitava a todo o custo cruzar com os irmãos pelos corredores da casa, criara um clima tenso e, ao mesmo tempo, divertido entre os moradores.

Eujin, que observava com destreza todos os passos do irmão mais velho, notara que em determinados horários ele saía e rumava para a cozinha a fim de surrupiar frutas ou garrafas de água, se escondendo em sua caverna logo em seguida. Também havia sido chamado à atenção pela jovem governanta que, mais irritada do que ele se lembrava, reclamou por ele não ter lhe contado sobre o resultado da reunião ou avisado sobre a má educação do irmão mais velho. Eujin apenas riu, além de achar toda aquela situação interessante. Shin trazia uma vida diferente para aquele lar monótono.

Sun, revoltado demais com a decisão final do pai, decidira permanecer enclausurado em seu quarto, dedicando o resto do tempo que lhe fora permitido, antes de assumir um posto no qual não tinha interesse, aos jogos online. Noutro dia, ao sair do quarto para o café da manhã, cruzou com o irmão quando ele seguia para a empresa e não pôde deixar de comentar o quanto ele parecia diferente agora que estava trajando roupas sociais.

— Você ficou bem nessas roupas — o mais novo elogiou ao cruzar com Shin.

— Acho que… obrigado — o mais velho respondeu sem graça, espantado com o elogio, repuxando o paletó cor de chumbo.

— Mas eu ainda prefiro o estilo motoqueiro rebelde. Combina mais com você e é bem mais irado.

— É… Eu também acho — os dois sorriram em complacência — Mas esse seu cabelo vermelho, tenho certeza que também deve provocar boas discussões… — Sun sorriu como se recebesse um grande elogio  — Continue assim… Está no caminho certo.

Shin concluiu dando um leve tapa sobre o ombro do garoto que o observou rumar para a saída da mansão com um sorriso jubiloso estampando seu rosto.

Yun Mi parecia mais irritada que o normal e descontava em todos uma frustração que ninguém sabia de onde trouxera e que nenhum deles ousava perguntar a respeito. Taeyang estava mais concentrado em seus estudos e afazeres e Gun, sempre tão alheio à tudo que não lhe interessava, aparecia pela mansão com um ar perturbado, muitas vezes frustrado, seguindo o exemplo do mais velho, saindo do quarto apenas para o trabalho ou alimentar-se.

Entre os empregados da casa, as coisas também estavam mais agitadas do que nunca. O novo herdeiro, que já passara pela descrição de todas as bocas dali, não conseguira manter a imagem de ogro ignorante como a maioria havia se motivado a tachar logo que chegara. Sempre discreto e educado quando precisava de algo, Shin reescreveu sua imagem, ao menos, em relação à criadagem da mansão.

— Estou dizendo… — era Ryung fofocando alegremente com uma mulher um pouco mais velha, mas igualmente curiosa — Ele não é mal. É só a cara mesmo. Pio Na Ri me disse que ele é muito educado e sempre trata todos os funcionários da cozinha com respeito.

— Mas ele é meio sombrio. Quase nunca sai do quarto. E quando sai, é com a cara fechada… o semblante amarrado… Isso dá medo.

— Ah… Por favor, Hye Won. Como pode dizer que ele dá medo?

— Claro que dá… Ele é esquisito…

— Eu bem queria que aquele esquisito aparecesse aqui na lavanderia… — Ryung mantinha um ar sonhador — Mas o que ele viria fazer aqui, não é mesmo?

— Já terminaram todo o trabalho? — Ha Jin cortou a conversa das duas funcionárias que dobravam uma pilha de toalhas brancas.

— Não, senhorita Go —  Lee Hye Won respondeu prontamente.

— Então é bom adiantarem o serviço ao invés de ficarem comentando sobre os patrões — a governanta foi incisiva.     

— Ai, governanta Go — Ryung continuou levemente magoada — Está parecendo a governanta Nyeo falando desse jeito.

— Agradeço o elogio — Ha Jin permaneceu séria enquanto olhava para as duas.

— Vai dizer que você não ia querer que o senhor Shin aparecesse por aqui? — Ryung perguntou e sorriu com a outra ao perceber a governanta corar e aparentar nervosismo.

— Por que eu iria querer o senhor Shin aqui? — o tom de voz em uma nota mais estridente parecia ansioso — O lugar dos patrões é na mansão e o nosso é aqui, fazendo o nosso trabalho. Portanto, parem de conversa e façam o seu.

— Estamos fazendo, governanta Go, mas não somos cegas para não perceber o senhor… — a garota suspirou — Ele é tão bonito.

— Seria bom você se manter em seu lugar, Ryung — Ha Jin falou autoritária, tentando disfarçar o ciúme que se apoderou dela.

— Eu me mantenho. Tenho um noivo, o amo e casarei em breve, mas não sou cega — ela mantinha um ar travesso, a outra acompanhando a brincadeira — E a senhorita ficou muito engraçada assim, toda nervosa.

— Não estou nervosa, e é bom pararem com a conversa e se concentrarem em seu trabalho. Quero tudo isso pronto em quinze minutos.

Dizendo essas palavras, Ha Jin saiu pisando duro para a área externa da mansão. A grama conservava-se curiosamente verde mesmo com a proximidade do inverno e ela, divagando em seus pensamentos, se deu conta de quão bons eram os jardineiros daquele lugar.

Respirou profundamente sentindo a brisa fria entrar em seus pulmões enquanto controlava a raiva quase explodida por ouvir colega de trabalho falando de seu So daquela forma. Sabia que a rebeldia dele só servia para aguçar as mentes alheias e se pegou pensando em quantas mulheres já haviam feito aquele comentário, quantas comentaram para ele e, quantas delas, por acaso, conseguiram ganhá-lo com o elogio.

— Senhorita Go — um dos funcionários da cozinha lhe tirou daqueles devaneios sem sentido e ela agradeceu por isso — A governanta Nyeo está lhe chamando na cozinha.

— Algum problema? — ficou curiosa.

— Acredito que não. Está tudo normal por lá.

— Obrigada, Han Shi Hoo. Já vou encontrá-la.

A governanta seguiu o caminho pelos jardins que dariam para a entrada da cozinha. Enquanto caminhava, viu Jung partindo para a garagem a fim de pegar um dos carros. O rapaz cruzou seu olhar com o dela e acenou-lhe carinhosamente antes de seguir. Lembrou-se de como ele fora seu companheiro durante toda a sua vida, como a apoiou e auxiliou em suas dores e que fora ele que estivera ao seu lado em seu leito de morte.

Por mais que ela conhecesse os sentimentos do herdeiro, era grata por ele se portar em todo o seu resto de vida passada como um verdadeiro amigo, não a desamparando em seus momentos mais difíceis. Jung era, sem a menor dúvida, um grande homem, e ela esperava que ele tivesse sido feliz naquela dinastia, assim como merecia ser igualmente feliz nessa presente.

— Queria me ver, governanta Nyeo? — ela se aproximou fazendo um breve aceno.

— Sim, Ha Jin. Preciso conversar algo importante com você.

O semblante de Nyeo não apresentava nenhuma preocupação aparente, logo, a mais nova evitou ficar imaginando que a conversa teria algum teor negativo enquanto esperava que a outra terminasse algumas poucas ordens aos demais funcionários na cozinha.

— Me siga — Nyeo se direcionou para ela que a acompanhou até a parte de fora da cozinha, próximo ao jardim externo — Sente-se — indicou um dos bancos do local e a mais jovem a acompanhou.

Permaneceu em silêncio, se unindo a outra numa breve contemplação aos jardim recém tratado. Naquela manhã, mesmo que o inverno estivesse tão próximo, as flores pareciam verdadeiramente felizes por serem tão bem cuidadas.

— Você tem feito um excelente trabalho na mansão, Ha Jin, e eu não posso dizer que sua pouca idade me assustou inicialmente, embora sua experiência tenha demonstrado que me equivoquei em um julgamento prévio sobre a sua capacidade. Me deixei levar apenas pela aparência e não consegui, naquele primeiro momento, identificar tantas boas qualidades.

A governanta interrompeu seu discurso e ela, temendo estar imaginando o certo - que seria demitida - decidiu ficar em calada e esperar, mesmo que estivesse ansiosa e angustiada, a outra continuar.

— Acredito que não seria justo da minha parte não evidenciar o seu excelente trabalho junto ao senhor Wang e depois de uma breve conversa com ele, tenho uma proposta para lhe fazer…

— Com o senhor Hansol…?

— Sim… Estranhamente, e eu realmente não sei o motivo, o senhor Wang me procurou hoje mais cedo a fim de saber sobre você e como tem se saído em suas atribuições — Ha Jin esboçou a fisionomia afetada, como se não acreditasse no que ouvia — E, evidentemente, fui franca em todas as minhas colocações, o que deixou nosso patrão satisfeito. Diante disso, surgiu a proposta para que você seja governanta efetiva na mansão.

— Efetiva? — repetiu confusa — Como assim?

— Até agora você tem trabalhado como governanta responsável pela lavanderia e área externa da casa. O senhor Wang pediu que, diante do seu bom trabalho, lhe fossem atribuídas mais funções, então, em reunião com ele, pensamos em te tornar governanta da mansão como um todo.

—  Da mansão…? Como assim? Essa é sua função, governanta. A senhora vai sair da mansão? Não quero ficar no seu lugar…

— Não vai ficar no meu lugar, minha querida — a mulher sorriu para ela, carinhosa — Eu não vou sair da mansão…

— E então…? Por que isso, agora? — a garota continuava perplexa.

— Porque você é uma boa profissional. A proposta que tenho, com o aval de nosso patrão, é a seguinte: você assumirá todas as funções da casa juntamente comigo e isso envolve também a lavanderia e áreas externas. Em troca, você receberá um bom aumento equivalente em seu salário e continuará com o mesmo período de descanso, apenas tendo que ficar uma ou duas horas a mais durante a semana. Terá ainda o seu quarto disponível para quando achar necessário permanecer na mansão. Será um trabalho em conjunto comigo… E espero que você pense com carinho sobre a proposta. Ele também resolveu perdoar o incidente com as taças… Não serão descontadas do seu salário como a senhorita Yun Mi propôs.

— Jura?  — Ha Jin se sobressaltou, animada — Não vou precisar pagar? Ah… Que notícia maravilhosa.

— Sim… — a outra anuiu, achando graça da comemoração da mais jovem — Não sei o que houve, mas algo em você agradou o patrão.

— Então… nesse caso, eu trabalharia diretamente na mansão, servindo os Wang de perto?

— Basicamente, seria isso, sim. Envolveria o trabalho externo e a manutenção interna da casa, assim como alimentação, limpeza, suprimento de enxovais e controle dos demais funcionários.

— Todos os funcionários? — a mais jovem estava ansiosa.

— Sim, mas já percebi que vocês estão se dando bem agora. Não haverá problemas, no geral.

Ha Jin respirou profundamente pensando naquela proposta. Achava curioso que Wang Hansol tenha percebido sua presença naquele lugar e se perguntava como isso teria acontecido, assim como era igualmente curioso que ele a quisesse dentro da mansão.

Pensou na possibilidade de estar mais perto do seu Wang, seu So; que poderia, de alguma forma, recobrar nele as memórias de um passado distante ou reconquistá-lo, como ele fizera mil anos atrás com ela. Ponderou os constantes encontros que teria com Yun Mi e Gun e nivelou o que deveria fazer diante daquela proposta.

— Vamos voltar ao nosso trabalho por hoje, tudo bem? — Nyeo continuou levantando-se — Caso não deseje, continuará com suas funções normalmente e em nada o seu trabalho será afetado. Pense a respeito e não se sinta pressionada.

— Já pensei, governanta Nyeo. Será um prazer dividir as funções da mansão com a senhora.

***

Dividir as funções dentro da mansão era muito simples na teoria, mas extremamente cansativo na prática. Ha Jin deveria delegar afazeres para vários funcionários e ser presente tanto dentro quanto fora da residência. Seu corpo jovem aguentava o expediente dobrado que lhe retribuía um sono pesado à noite, mas era cansativo para o seu coração, constantemente acelerado quando ela achava que estava prestes a ver Shin no próximo corredor.

Não que a tarefa de interagir com ele fosse algo mágico… Muito pelo contrário. Eles tinham um jeito truculento de se lidarem nas poucas vezes que tiveram contato. Entretanto, apenas o olhar daquele herdeiro, misterioso e inquietante, desestabilizava a governanta por completo. Ha Jin precisava aprender a separar o passado do presente, ou não conseguiria executar meia tarefa com competência ao vê-lo.

Naquela tarde, próximo do fim de semana, ela estava entre a satisfação e a melancolia por não rever Shin nenhuma vez sequer pelas entranhas do casarão. A porta do seu quarto ficava permanentemente fechada e apenas a governanta Nyeo se encarregava das necessidades do rapaz. A jovem nunca sabia se ele escondia-se ou não nos aposentos.

Ao passar pelo corredor para conferir se os lavabos teriam sido limpos como ordenado, escutou vozes animadas e exclamações altas vazando de um dos últimos recintos daquela ala, a sala de recreação, que exibia a porta escancarada. Sem conseguir conter a curiosidade, esse era seu maior problema, Ha Jin se esgueirou para a porta e espiou dentro cômodo. Talvez desse de cara com Shin fitando-a taciturnamente, mas ela estava disposta a correr o risco.

Surpresa, encontrou Sun e Jung esparramados no confortável sofá, diante do imponente televisor de 60 polegadas, jogando vídeo game. Eles ainda trajavam as roupas formais de escritório, gravatas afrouxadas e mangas arregaçadas, mas certamente deveriam ter chegado mais cedo que os demais. Uma espiada mais atenta na tela e a governanta se deparou com uma partida muito familiar. Sagat, o personagem tailandês de Street Fighter, aniquilava Ken Masters com sua famosa joelhada alta. Os irmãos esboçaram um muxoxo de frustração. Jung, que controlava o avatar derrotado, soltava o ar pesadamente pela boca.

— É simplesmente impossível derrotá-lo — ele lamentou.

Cruzando o limite da soleira ao se postar em pé, atrás do sofá, Ha Jin inevitavelmente opinou:

— Eu não escolheria um personagem de movimentos lentos como Ken para derrotar Sagat.

Assustados pela voz intrusa surgindo ao fundo, os irmãos viraram a cabeça lentamente, olhos arregalados, e encontraram a pequena governanta ponderar com o dedo erguido.

— Ahh, que susto, garota! — exclamou Sun, a cor voltando ao rosto — Achei que fosse Yun Mi vindo reclamar porque não ficamos na última reunião.

— Ha Jin não tem nada a ver com nossa irmã — Jung fez uma careta de desagrado para o outro e depois dedicou um doce olhar para ela.

— Mas quase me infartou do mesmo jeito — Sun retornou a reclamar puxando o controle da mão de Jung como um menino mimado  — Me dá esse controle aqui que agora é a minha vez de acabar com isso!

— Na sua décima tentativa — o segundo herdeiro desdenhou.

Ha Jin, curiosa para ver como Sun iria levar a partida, o viu escolher o japonês Ryu nesse intento. Outra escolha equivocada, na sua experiência. Contornou o sofá,  se unindo mais aos dois e perguntou:

— Vocês estão jogando no modo torneio? — especulou de sobrancelhas erguidas.

— Sim, estamos tentando ao menos — Jung respondeu fitando seu rosto de modo contemplativo.

— E o que isso te interessa? — Sun quis saber, irritado, os olhos na tela e os dedos trabalhando furiosos nos botões do controle. Na partida, o avatar apanhava miseravelmente do boss².

— Eu acho que vocês deveriam procurar um personagem mais ágil. Ryu, Ken, Guy, Zangaf… não são boas escolhas — Ha Jin listou destacando nos dedos, bastante convicta.  

— E o que você sabe disso? — ele deu de ombros, a barra de vida do seu lutador se esvaindo com dramaticidade.

— Bom… Eu tenho alguma experiência com Street Fighter. Joguei um bocado na companhia do meu irmão quando era mais jovem.

— Em mil novecentos e lá vai pedrada… — Sun debochou encarando o desfecho da luta — Esse jogo mudou ao longo das décadas, sabia?! Eerrr… que droga…!

Jung ergueu a mão e deu um tapa nas costas de Sun, dobrando o corpo para frente, mais revoltado do que machucado.

— O que foi? Tá maluco?

— Olha como fala com a Ha Jin! Ela nem é velha — Jung fechou o punho diante do irmão, bancando o justo defensor, o que provocou somente um dar de ombros desdenhoso da parte do garoto de cabelos avermelhados — E eu fiquei interessado na teoria dela... Estamos, já faz uma meia hora, tentando sair desse boss.

— Então quem você escolheria? — enfim o mais cabeça-dura perguntou à ela, massageando próximo ao ombro direito, no local do tapa — Fala de uma vez porque…

— Eu iria com a Chun-Li ou a Sakura! — a governanta exclamou, eufórica.

— Tsk! tss-tss! Tá bom… Quer tentar? — ele esticou o controle na direção dela, um semblante mesclado de dúvida e desafio para a convidada.

Ha Jin agarrou o controle com as duas mãos, ansiosa por provar sua tese. Jung presenteou o irmão com um empurrão nada delicado para o outro extremo do sofá e ofereceu, todo educado, uma vaga no estofado para ela, entre os dois. Pressurosa pelo jogo, uma sensação nostálgica, pois há muito tempo não se divertida naquilo, aceitou o espaço no meio dos Wang e escolheu Chun-Li.

Ainda se lembrava dos golpes principais. Ela era sua personagem favorita de sempre e quando assumia os comandos, nem o irmão mais velho, um viciado nato em Street Fighter, podia vencê-la.

O controle vibrou na sua mão quando ela levou a primeira pancada, mas estava apenas se acostumando com a jogabilidade moderna. Sun bufou audivelmente - seu modo de incentivá-la - e Jung esboçou uma expressão de piedade enquanto os olhos da garota permaneciam vidrados na tela.

Não demorou meio minuto e Sagat com seu Taekwondo constante começou a ser sucumbido pelos golpes da chinesinha de botas brancas e coques. Por pouco Ha Jin não terminou a luta, os dedos doloridos, com um perfect³.

Na estranha quietude que se estabeleceu após a vitória, a moça encarou de esgueira dos herdeiros, primeiro observando Jung de boca aberta, sem piscar, mirando o jogo, e depois testemunhando a palidez preocupante e a expressão estática de Sun. Este segundo acabou murmurando quando conseguiu engolir a saliva, praticamente um bolo de pregos, garganta abaixo.

— Isso foi incrível...

— É…bem... Só no Street Fighter e somente com a Chun-Li — ela tentou se mostrar modesta, coçando a nuca delicadamente, embora estivesse inflada de júbilo.

— Você é demais! — Jung externou quebrado seu estupor.

— Que isso, rapazes… — risinhos vaidosos.

Enfim, não tardou para Ha Jin aderir oficialmente à dupla na jogatina. Logo, eles eram três rindo, gritando, pulando, vibrando e lamentando diante das emoções do game. Os minutos foram se arrastando, a governanta se esquecendo completamente da sua posição dentro daquele lugar, divertindo-se com os dois herdeiros e criando bolha nos dedões de tanto apertar os botões. Em determinado momento, Sun entregou o comando para ela definitivamente e pediu numa solene vênia cavalheiresca que a garota os levasse para a vitória final e mais almejada.

A sala de entretenimento explodiu em comemoração eloquente assim que o último inimigo foi obliterado pelas mãos da funcionária da mansão.

— CARAMBA! Eu não sabia desse seu lado... — Sun sorriu aparvalhado reforçando seu espanto de mais cedo.

— Você é maravilhosa! — Jung elogiou-a e aproveitou para lhe dar um abraço forte, fazendo seus pés saírem do chão quando os três pularam do sofá e berraram em uníssono pelo fim glorioso.

Em meio às comemorações e os carinhos exagerados de Jung, Ha Jin enfim se se deu conta de que não estava na sua casa, jogando com seu irmão, ao notar um par de olhos curiosos os estudando da porta. Shin, que cruzava pelo corredor - muito agradável aos olhos com seu terno e gravata - certamente retornando da empresa, a encarava. A sombra de um sorriso pareceu estar em seus lábios um segundo antes dele se dar conta que ela o avistara.

Ha Jin desgrudou-se do abraço de Jung e alisou o avental com as mãos, se recompondo rápido.

— Acho melhor vocês tomarem cuidado com essa animação. Yun Mi está para chegar — Shin avisou, sério, tomando a atenção dos irmãos também. Utilizou a voz num timbre firme, não sendo possível detectar nenhuma emoção positiva ou negativa e, terminado o comunicado, continuou seu caminho.

***

Ha Jin iniciou o outro dia de trabalho com uma pulga de desconfiança atrás da orelha. Ela aparentemente havia se safado de algum castigo disciplinar por estar aos risos e intimidades com os patrões mais novos na tarde anterior. Seria uma decepção para a governanta Nyeo se tal atitude tivesse chegado aos seus ouvidos e tudo que a garota não queria era trair a confiança daquela boa mulher. Entretanto, o receio que alguém mais tivesse visto e desse com a língua nos dentes a qualquer momento rondava seus medos.

     Alguém havia visto, sim... Shin... E quanto tempo ele ficara ali, junto ao batente da porta, observando toda a interação dos patrões com a subalterna? E o que aquele espectro de um sorriso estava fazendo desenhado nos lábios dele? Era um sorriso mesmo ou ela vira demais? Do que exatamente ele achava graça? Por que alertou sobre Yun Mi? Por que se envolveu? Por que não contou nada sobre a empregada procrastinando no expediente a mais ninguém? Ele continuava com a mesma alma, seu So, não se envolvendo mas, ao mesmo tempo, tomando algum partido para algum lado.

   E era com esses pensamento que ela continuava seu serviço naquele fim de tarde. Estava mudando a disposição dos quadros no corredor dos quartos quando se viu instigada a aproximar-se do quarto de Shin. Encarar a porta era como encarar um portal que a levaria para um mundo misterioso. Não sabia se ele estava ali e o que estaria fazendo, caso estivesse, mas não controlou os passos que a levaram até a maçaneta do cômodo.

Pensando se bateria ou não, - quem sabe tivesse alguma das suas perguntas respondidas - rendeu-se à curiosidade e encostou, com discrição, o ouvido para tentar, de alguma forma, ouvir barulhos que lhe comprovassem a presença dele, tendo o mais completo silêncio como resposta.

Desanimada, dando às costas para a porta, disfarçou melhorar a aparência de um buquê de flores disposta quase ao fim do corredor sobre uma pilastra antiquada quando percebeu alguém se aproximando.

— Eu não acredito no que estou vendo — era a voz de Yun Mi cortando o corredor enquanto diminua a distância entre as duas — Não acredito que depois de um dia cansativo de trabalho ainda preciso ter o desprazer de ver a sua cara sonsa na minha frente. O que faz aqui?

— Estou trabalhando — respondeu sem levantar o olhar.

— Já passa de seu horário de trabalho e não pense em pedir hora extra — falou observando o delicado, e aparentemente caro, relógio de pulso — Além do mais, cuidar dos corredores não faz parte das suas atribuições.

— Faz, senhorita. Sou governanta da casa e…

— Você é governanta da lavanderia. Quantas vezes precisarei dizer isso para você? O seu lugar é lá fora, junto com os seus. Sua presença não me agrada e eu não quero voltar a ver a sua cara intrometida aqui dentro, entendeu?

— Sinto muito senhorita, mas precisará se acostumar a ver a minha cara aqui dentro, sim — Ha Jin respondeu , finalmente olhando a outra de frente.

— Mas… Não seja insolente. Ainda não aprendeu que deve me respeitar?

— Sim… A senhorita me mostrou da forma mais brutal como devo respeitá-la. Infelizmente, preciso fazê-lo para manter meu emprego, mas não o sinto de fato. Respeito é algo que se conquista, não algo que se imponha a tapas.

— Sua imbecil… — Yun Mi pareceu absolutamente desconcertada pela resposta da governanta — Saia daqui agora, antes que a tire a força.

— Já disse que a senhorita não pode me tirar daqui.

— Como ousa me enfrentar? — o tom de voz estava alto e agudo.

— Não estou enfrentando ninguém, apenas faço o meu trabalho. Se estou na mansão, é porque me foi designado estar aqui.

— Sua insolente… Vou agora mesmo falar com meu pai para despedir você e aquela governanta metida a dona dessa casa. Como pode nomear alguém para um novo cargo sem passar pelo conhecimento dos proprietários?

— Não precisa se dar ao trabalho — Ha Jin falou, o coração já acelerado, e Yun Mi parou os poucos passos que havia dado, voltando-se para a governanta — O senhor Wang Hansol já sabe do meu cargo.

— O que?

— O próprio pediu que eu dividisse as funções com a governanta Nyeo.

— Mas… Como? Você é mesmo uma garota estúpida — começou a insinuar retomando o controle e a frieza de sua voz  — Você acha mesmo que irá conseguir algo com o meu pai?

— O que está insinuando? — Ha Jin perguntou com o olhar tomado de cólera.

— O meu pai não é imbecil como Eujin ou Jung… Eu sei o tipo de serviço imundo que você presta para que os meus irmãos te protejam contra tudo, mas com o meu pai não será assim. Não permito que você se valha de seu corpo para…

— Não ouse terminar essa frase, senhorita Yun Mi — Ha Jin interrompeu e a outra se calou, os lábios semi abertos, aturdida com a impertinência da funcionária — A posição que a senhorita ocupa nessa mansão não lhe dá o direito de destratar quem quer que seja, seja um funcionário ou qualquer pessoa que compartilhe da sua posição social.

“Se o senhor Wang quer que eu esteja na mansão, é porque tenho capacidade para isso, e eu não preciso utilizar o meu corpo para conquistar qualquer coisa que seja. Tenho coragem para trabalhar e o faço a muito tempo porque nunca dependi de ninguém para ter o que queria, muito menos precisei me humilhar a esse ponto para conseguir avançar na vida. Seu dinheiro não faz de você uma pessoa superior e o tapa que me deu no sábado não me faz respeitá-la porque não me conota nenhuma consideração.”

— Sua… Sua…

Ha Jin se preparou para um novo tapa que viria a seguir, embora sentisse alívio pelas palavras ditas. Viu a mão de Yun Mi se levantar e começar a ir de contra o seu rosto enquanto a sua face, avermelhada de cólera, focava a lateral do rosto da governanta. Instintivamente, ela fechou os olhos à espera daquele contato que não chegou.

Ao abri-los novamente, viu com ansiedade a mão direita de Shin segurando alto o pulso de Yun Mi que o olhava com a expressão divagando entre o susto, a raiva e a incompreensão. Shin, porém, não lhe devolvia o olhar. Seus olhos estavam focados diretamente nos olhos da governanta e ela quis, com todas as suas forças, entender o que eles queriam dizer.

— São esses momentos que me fazer lembrar dos motivos de ter ido para os Estados Unidos. Não consigo ter um dia de paz nessa mansão. Por que sempre estão fazendo barulho?

Shin perguntou sem se dirigir para ninguém de fato. A mão ainda prendia o braço de Yun Mi e ela se esforçava para liberar o pulso do aperto que o irmão lhe proporcionava. Ele, estranhamente, ainda focava os olhos da outra.

— Irmão, por favor, solte meu braço — Yun Mi falou finalmente, e ele teve a atenção desviada por aquele pedido.

— Você continua com os antigos hábitos, não é mesmo? —  perguntou para a irmã que não respondeu — Ainda não entendeu que, mesmo que sejamos bárbaros e nos matemos pelos mais variados e inúteis motivos, temos de ter um limite? Papai sempre deixou isso bem claro. Pensei que você, sendo tão esforçada e aplicada em tudo, tivesse entendido isso há mais tempo.

— Por favor, solte meu braço. Está me machucando — ela repetiu forçando o pulso novamente e ele a soltou com um gesto grosseiro — Essa criada me destratou — fez-se de vítima enquanto massageava o pulso dolorido.

— Por favor digo eu, Yun Mi. Ela não te destratou… — o tom frio e desinteressado — Aliás, pelo que eu consegui ouvir, o destrato partiu da sua parte.

— Você está defendendo uma empregada ao invés de ficar ao meu lado? — ela arregalou os olhos, irritada com aquela situação — Como pode ficar do lado dela, Shin? Sou sua irmã!

— O único lado do qual estou é o meu e, no momento, estou tentando ler. Seria interessante não ser interrompido pelos seus chiliques e tentativas de espancamento.

— Você… — Yun Mi, que estava em ponto de avançar no irmão, deu a volta e seguiu a passos duros e rápidos pelo corredor, batendo a porta de seu quarto com brutalidade assim que o cruzou.

— Senhor… — Ha Jin começou, mas ele já havia entrado em seu quarto, batendo a porta com a mesma delicadeza que a irmã fizera instantes atrás.



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