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História Mulan - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Cinco


Mulan estava triste. Sentada em um banquinho desconfortável, ela tentava não se mover enquanto a mãe penteava os seus longos cabelos pretos, puxando fio por fio. Mulan estremecia quando os fios embaraçados eram dolorosamente puxados de sua cabeça. Como tinha previsto, o processo de encontro com a casamenteira seria emocionalmente desgastante, mas ela nem tinha se lembrado de que também precisaria ficar fisicamente apresentável. É claro que não poderia ir à entrevista com a casamenteira toda maltrapilha. Não, não, não, sua mãe havia dito, indignada com a mera ideia de que Mulan pudesse aparecer toda mal-arrumada. – É preciso apresentar-se para a casamenteira como você se apresentaria ao seu pretendente. Ou seja, perfeita. Devemos todos estar perfeitos. – E, então, como se Mulan já não soubesse, a mãe acrescentou: – O destino da nossa família está nas suas mãos, Mulan. E era por isso que Mulan estava sendo preparada para se parecer com uma boneca de porcelana. Satisfeita com os coques presos no alto da cabeça da filha, Li voltou a atenção para o rosto. Havia potinhos sobre uma mesa próxima, cada qual cheio de um pó ou líquido diferente. Mergulhando um pincel mais grosso no potinho mais próximo, Li mexeu a pasta branca. Depois, espalhou-a sobre o rosto da filha. Quando o rosto da menina estava completamente coberto, Li passou para o próximo potinho. Um pouco de pó amarelo foi gentilmente espalhado sobre a testa de Mulan, dando alguma cor ao seu rosto e fazendo-a se perguntar por que, então, tinha sido primeiro pintada de branco. Mas, antes que pudesse sequer abrir a boca para perguntar, Li pegou a tinta azul. Passou-a acima dos olhos de Mulan, de modo a desenhar “sobrancelhas” longas e finas, fazendo parecer que a garota estava sorrindo, mesmo que não mexesse a boca. O blush foi aplicado sobre as bochechas de Mulan, e os seus lábios foram pintados de vermelho. Finalmente, Li colou um ornamento dourado entre os olhos da filha. Com o rosto pronto, Mulan foi puxada para ficar em pé enquanto a mãe a vestia. Ela permaneceu em silêncio, mas tinha uma vontade cada vez maior de gritar. Sua mãe não a vestia desde quando era pequena. Ela nunca tinha sido forçada a usar maquiagem, e sua cabeça já estava doendo com as dúzias de grampos enfiados para manter os coques no lugar. Ela parecia uma das bonecas de sua irmã. O olhar de Mulan deslocou-se para a janela na parede mais distante. Ela avistou Vento Negro no pasto. Ela queria se livrar do cuidado da mãe, sair correndo e partir cavalgando em seu cavalo. Mas sabia que não podia fazer isso. Ela fizera a sua promessa e decepcionaria a família novamente. – Veja. A voz de sua mãe arrancou Mulan dos pensamentos. Ela levou um susto ao ver o seu reflexo no espelho que a mãe estava segurando. Aquele era o rosto de uma estranha. O seu corpo, envolto em um vestido lilás, parecia esquisito: as curvas, em geral escondidas sob roupas largas, estavam agora visíveis. Cautelosamente, Mulan levantou a cabeça e tocou a flor de lótus que a mãe colocara em seu cabelo. Aquele adorno era um dos objetos mais queridos de sua mãe. Sem dizer nada, Li estava lembrando Mulan do quão importante era aquele dia. Respirando fundo, Mulan saiu da casa em direção ao pátio. Seu pai estava à espera, também em seu próprio traje formal. Ao ver a filha mais velha, ele sorriu, mas não antes de Mulan perceber uma ponta de tristeza em seus olhos. Pelo menos ela não era a única que sentia que estava escondendo o seu verdadeiro eu sob um monte de maquiagem. Assim que Li e Xiu juntaram-se a eles – ambas também minuciosamente arrumadas, mas nenhuma tão linda quanto Mulan –, a família pôs-se a caminhar pela aldeia. Passando por pessoas que ela tinha conhecido por toda a sua vida, Mulan sentiu os olhos sobre ela e ouviu os cochichos de surpresa enquanto caminhavam. Embora Mulan se sentisse irreconhecível, os aldeões pareciam reconhecê-la. Ao perceber o desconforto de sua filha, Zhou sorriu calorosamente. Ele parou e olhou para a sua família. – Eu sou realmente abençoado por estar na presença de mulheres tão encantadoras – ele elogiou. – Não tenho dúvidas de que hoje será um dia importante para a família Hua... – Não temos tempo para isso – a esposa disse, interrompendo-o. – Precisamos chegar na hora. Para enfatizar as suas palavras, ela voltou a andar num ritmo mais acelerado. Atrás dela, Mulan tinha dificuldade para acompanhar os seus passos. O seu belo vestido não fora feito para caminhadas rápidas. E seus pés estavam presos em sapatos apertados e desconfortáveis. Ela quase tombou, mas sua irmã conseguiu segurá-la a tempo de ajudá-la a equilibrar-se novamente. Então, como que de propósito, o estômago de Mulan roncou alto. – Estou morrendo de fome – disse ela, confirmando o óbvio. Li revirou os olhos impacientemente. – Eu já disse, você não pode comer. Vai arruinar a sua maquiagem. – Nem a pior das tempestades de inverno conseguiria destruir essa maquiagem – Mulan resmungou sob sua respiração. Virando-se para a irmã, Mulan viu que a ansiedade da mãe tinha contaminado Xiu. A jovem menina estava contorcendo as mãos nervosamente. – Xiu – Mulan chamou, na tentativa de aliviar o clima. Ela apontou para o próprio rosto. – O que estou sentindo? Xiu olhou para ela, seus olhos procurando no rosto de Mulan qualquer traço de emoção. – Não tenho ideia – ela disse. – Exatamente – respondeu Mulan. – Esta é a minha cara triste. – A expressão em seu rosto pintado não mudou. – Esta é a minha cara curiosa. – Ainda nenhuma mudança. – Agora estou confusa. – Mais uma vez, seu rosto permaneceu igual. Por fim, um sorriso começou a aparecer no rosto de Xiu. Mulan sorriu de volta, embora a irmã não pudesse reconhecer isso. Ela odiava pensar que a causa de toda essa ansiedade era ela mesma. Se fosse Xiu a caminho de um encontro com a casamenteira, Li teria ido praticamente saltitando pelo caminho. Xiu não dava à mãe e à família nenhuma razão para se preocuparem. Já Mulan dava à mãe e à família muitas razões para se preocuparem. Felizmente, Mulan não tinha tempo para sofrer por seus erros. Eles haviam chegado à casa da casamenteira. Deixando Zhou esperando do lado de fora, as mulheres aproximaram-se da porta da frente. Como convinha a uma mulher de status, a casa da casamenteira ficava separada das outras. Fora recentemente pintada, e flores e ervas frescas floresciam no jardim da frente. A casamenteira era uma das pessoas mais importantes da pequena aldeia. Eram as suas conexões que formavam os casamentos entre os jovens e mantinham a aldeia próspera. As famílias passavam uma grande parte do tempo tentando conquistar a sua aprovação, pois ela significava, inevitavelmente, um casamento vantajoso para os dois lados. Apesar dos constantes dotes que recebia e dos privilégios de sua posição, a casamenteira era uma mulher malvada e desagradável. Quando saía de casa, o que não fazia com frequência, ela sempre demonstrava uma cara feia e repleta de julgamento. Em mais de uma ocasião, Mulan havia desviado de seu caminho só para não cruzar com a mulher e sentir o seu olhar reprovador. E Xiu, quando ainda era pequena e inocente, havia dito uma vez que não era justo que uma casa tão bonita tivesse uma dona tão feia. Mas não importava se a mulher fosse malvada e sua cara, feiosa. O futuro de Mulan estava em suas mãos. Após apresentar Mulan a Fong Lin, a mãe de seu pretendente, a casamenteira fez sinal para que todas se sentassem. Rapidamente, Mulan e sua família sentaram-se. Por um longo momento, o silêncio encheu a pequena sala, e Mulan desejou ter um pedaço de pano ou algo para limpar as suas mãos suadas. Ela sabia o que tinha de fazer. Servir o chá. Provar que ela era digna do filho de Fong Lin. Parecia fácil na teoria... Caso Mulan pudesse controlar a tremedeira. Tenha calma, ela lembrou a si mesma. Lembre-se do que Xiu lhe disse – imagine-se fazendo algo de que você gosta. Apenas derrame o chá dentro das xícaras. É só o que você tem de fazer. Lentamente, Mulan estendeu a mão e levantou o bule de porcelana delicada. Quando começou a derramar o líquido nas xícaras igualmente delicadas – sem espirrar –, quase podia ouvir o alívio de sua mãe. Obviamente satisfeita, a casamenteira começou a falar. – Tranquila. Recatada. Graciosa – ela listou. – Essas são as qualidades que vemos em uma boa esposa. Ela fez uma pausa e olhou diretamente para Fong Lin. A mulher, cujo julgamento silencioso Mulan tinha sentido como se fosse uma punhalada, não moveu um músculo nem piscou. Dirigiu um olhar afiado a Mulan, observando cada movimento, prestando atenção aos menores detalhes. – Essas são as qualidades que vemos em Mulan. Tenha calma, Mulan repetiu para si mesma. Calma. Tenha calma, mesmo que essa mulher pareça terrível e, portanto, provavelmente tenha um filho igualmente terrível que também olhará para você de maneira terrível cada vez que você fizer algo que não deve, o que acontecerá com frequência. Porque você não é, sejamos sinceras, nem tranquila, nem recatada, nem graciosa. Mulan parou e pousou o bule sobre a mesa e passou para o açúcar. Sentia os olhos de todos sobre ela conforme o distribuía de xícara em xícara. – Dizem – a casamenteira prosseguiu, sem se importar com o olhar vazio de Fong Lin – que, quando a mulher serve o marido, ela deve fazê-lo em silêncio. Deve ser invisível. Então, parou de falar. Com os olhos focados em Mulan, ela procurou o mais ligeiro tremor, a menor respiração. Mulan estava silenciosa. Depois de colocar o último cubo de açúcar na xícara, Mulan voltou ao seu assento. Tinha conseguido. Nem uma gota derramada. Nada fora do lugar. Ainda assim, ela não se permitiria suspirar de alívio. Ainda não. – A família Fong honra a família Hua com este magnífico jogo de chá – anunciou a casamenteira com um lampejo de aprovação em seus olhos. – Um presente da Família Imperial. Mulan, Li e Xiu inclinaram a cabeça em sinal de gratidão. Embora fosse tradição da casamenteira não revelar detalhes sobre qualquer família a outra, havia sempre uma maneira de pescar certas informações. Nesse caso, diante do lindo bule à sua frente, Mulan sabia que a família de Fong Lin era abastada, ao menos mais do que a dela. O bule dos Huas estava desbotado e não combinava com as xícaras. Este novo bule se destacaria sobre as prateleiras gastas de sua casa. A pressão para ser perfeita se tornara ainda maior. A família de Mulan se beneficiaria de seu casamento com um homem bem-sucedido. Ela tinha que se sair bem. Mulan estava começando a acreditar que poderia sobreviver àquela reunião quando olhou para Xiu. Sua irmã mais nova tinha os olhos arregalados de medo. Seguindo o seu olhar, Mulan viu uma aranha grande descendo do teto em direção à mesa. Centímetro por centímetro, pendurada em um fio de sua teia... bem na direção de Xiu. Ela caiu sobre a mesa com suas longas pernas peludas. Sob a sua máscara de maquiagem branca, Mulan sentiu a cor de seu rosto desaparecer. Se a aranha desse um passo em direção a Xiu, a garota gritaria, e a casamenteira ficaria furiosa. Suavemente, e grata pela maquiagem que acobertava as suas emoções, Mulan estendeu o braço e colocou o bule sobre a aranha. Então ela repousou as mãos de volta sobre o colo. Mas não antes de dirigir um olhar à irmã. O olhar, infelizmente, foi notado pela casamenteira. Seus olhos se estreitaram. – Há algo errado? – perguntou. – Não, senhora casamenteira – Mulan disse na sua voz mais recatada. – Obrigada. Os lábios da casamenteira se apertaram de irritação. Mulan olhou para ela, com uma expressão que não revelava nada. Finalmente, a casamenteira apontou para o bule. – O ideal – disse ela, seu tom de voz cheio de condescendência – é que o bule permaneça no centro da mesa. – Sim – concordou Mulan. – Eu sei. Mas acho que o bule deve permanecer onde está. Instantaneamente, a sala ficou gelada. Um brilho de suor surgiu na testa de Li e Xiu prendeu a respiração, seu rosto tão branco quanto o de Mulan. Fong Lin olhou para a casamenteira e para Mulan, perplexa. – Mova o bule, garota. – Cada palavra da casamenteira era como uma flechada. Mulan olhou para o bule e para a irmã, sem saber o que fazer. Se o mudasse de lugar, a aranha poderia se mover. Mas, se ela não o mudasse, as coisas não acabariam bem, de toda forma. Ela pensou em seu pai, do lado de fora, esperando que ela mantivesse a sua promessa. Ela suspirou. Tinha de obedecer à casamenteira. Lentamente, ela levantou o bule. A aranha, libertada de sua prisão improvisada, saltou direto no colo de Fong Lin. Soltando um grito agudo, Fong Lin pulou, batendo descontroladamente em seu colo e atirando a aranha para longe. Por um momento, a sala ficou silenciosa enquanto as mulheres observavam onde a aranha tinha ido parar... Em seguida, foi a vez de a casamenteira soltar um grito ao olhar para baixo e ver a criatura subindo pelo seu peito. Aterrorizada, ela tropeçou para trás, chacoalhando os braços como louca. E acabou tropeçando em uma cadeira. Seus pés, chutando furiosamente, acabaram batendo na mesa, virando-a. O bule e as xícaras saíram voando, atirando água quente em todas as direções. Observando o caos que havia se instaurado em torno dela, Mulan ainda estava estranhamente calma. Os olhos dela eram a única coisa que se moviam, rastreando o arco do bule e das xícaras no ar. Então, com um movimento rapidíssimo, ela puxou um dos quatro palitos que seguravam o seu cabelo. Com um, pegou uma xícara. Depois outra. Clink. Clink. Clink. Uma por uma, ela pegou as xícaras no ar, equilibrando-as sobre os palitos. Mas o bule ainda estava caindo. Mulan viu que estava a poucos centímetros de se espatifar no chão. E não parou para pensar. Ela apenas agiu. Rápida como um relâmpago, estendeu o pé para fora. Fez uma careta ao ouvir o seu vestido rasgando, mas conseguiu segurar a alça do bule com o dedo. Ficou ali pendurado, enquanto as xícaras equilibravam-se precariamente sobre os palitos. Por um longo momento, a sala ficou em silêncio. Mulan sentiu os olhos das outras quatro mulheres sobre ela, sua surpresa espelhando a dela própria. Ela tinha conseguido. Tinha evitado o desastre. A aranha desaparecera e o jogo de chá não se quebrara. E, então, o seu longo cabelo espesso, sem os palitos que o estavam prendendo no lugar, começou a cair dos coques. Como a água vertendo de uma cachoeira, os longos fios caíram, cobrindo o rosto de Mulan. Com a visão bloqueada, Mulan não tinha como se concentrar em um ponto. E, quase instantaneamente, ela perdeu o equilíbrio. A perna sobre o chão começou a tremer enquanto a outra no ar começou a balançar. Depois, os seus braços moveram-se para cima e para baixo e de um lado para outro, até que, com um grito, Mulan caiu. Plaft! Plaft! Plaft! Peça por peça, o jogo de chá espatifou-se no chão, quebrando-se em mil pedacinhos. Deitada no chão, Mulan ouviu Fong Lin gritar de raiva e sentiu o olhar de decepção de sua mãe. Xiu chorava em silêncio, tentando recolher os pedaços maiores de porcelana. Mas mesmo o mais suave dos toques quebrava ainda mais os pedaços, fazendo Fong Lin gritar novamente. Um momento depois, Mulan ouviu a porta da frente abrir e, em seguida, bater de novo. A mãe de seu pretendente – ou melhor, de seu ex-pretendente – fora embora. Mulan ficou em pé, com a cabeça ainda curvada. Ela saiu, assim como Fong Lin, e sua mãe e irmã juntaram-se a ela. Nenhuma delas disse uma palavra. Elas caminharam em silêncio para a porta, desceram as escadas da frente e encontraram Zhou esperando no jardim. Mas a casamenteira não foi tão silenciosa assim. Aparecendo atrás deles, ela levantou seu braço e apontou um dedo acusador para Mulan. – Desonra para a família Hua! – ela gritou, sua voz ecoando pelas casas vizinhas, fazendo toda a aldeia parar para prestar atenção. – Eles não conseguiram criar uma boa filha! Cada palavra foi como um tapa na cara de Mulan. A casamenteira estava certa. Ela tinha decepcionado a sua família. Nunca traria honra para eles. Como poderia, agora que a casamenteira nunca iria deixá-la colocar um pé em sua casa novamente? Sem ousar fitar o pai, sentindo-se incapaz de enfrentar a decepção que ela sabia que veria, Mulan atravessou o jardim e se dirigiu à sua casa. Seria a mais longa caminhada de sua vida, acompanhada apenas de seus pensamentos tristes e dos olhares irritados de sua mãe. Naquele instante, Mulan não desejava mais nada, a não ser que tirassem os seus olhares de cima dela. Como que para salvá-la, ressoou no ar o som de tambores. Mulan e sua família, juntamente com a aldeia inteira, pararam para ver. Todos os olhares voltaram-se para a única estrada que passava pela aldeia. Em geral, ela ficava vazia, sem pegadas sobre a poeira do chão. Mas agora eles podiam ver nuvens de poeira no ar conforme os cavalos cruzavam por ali. Algumas crianças correram à frente para ver o que estava acontecendo. – Soldados! – elas gritaram, correndo de volta. O coração de Mulan batia fortemente no peito enquanto um burburinho se espalhava entre os moradores. Havia anos que os soldados não apareciam em sua aldeia. Na última vez, o seu pai havia sido convocado a lutar pelo Imperador. O que eles poderiam estar fazendo lá agora? Nesse momento, os tambores pararam e a poeira baixou. Ali, em pé na frente deles, havia um magistrado e seis soldados. Os homens olharam para os moradores do alto de seus cavalos, seus rostos ocultos por máscaras. Com um sinal do magistrado, alguns deles saltaram de seus cavalos e colaram papéis em frente a várias casas. – Cidadãos! Cidadãos! – gritou o magistrado, como se já não tivesse chamado a atenção de todos. – Estamos sob ataque de invasores do norte. A nossa terra está em guerra! Por decreto de Sua Majestade Imperial, o Filho do Céu, cada família deve contribuir com um homem para lutar! Um homem de cada casa! – Ele pegou um pergaminho e desenrolou-o. De onde estava, Mulan podia ver que a escrita sobre o rolo indicava uma longa lista de nomes. – Família Wang! Família Ching! Conforme o magistrado continuava a ler a lista das famílias que viviam no tulou, Mulan percebeu que seu pai desaparecera na multidão. Ela ficou na ponta dos pés, tentando ver aonde ele tinha ido, mas a aldeia tinha virado um caos. Os homens estavam abrindo caminho em meio à multidão para chegar à papelada que os recrutava para o Exército. Atrás deles, mulheres, idosos e jovens começaram a chorar, alguns de alegria, pois um homem da família poderia se tornar um herói, e outros porque sabiam as consequências da guerra, tanto física quanto mentalmente. – Família Du! Família Hua! Mulan prendeu a respiração quando ouviu o nome de sua família. Ela procurou pelo pai e o viu abrindo caminho entre as pessoas. Ele andava com a cabeça erguida e sem a bengala. Mulan sabia o que ele estava prestes a fazer. Aproximando-se do magistrado e de dois soldados que haviam permanecido em seus cavalos, Zhou fez uma reverência. – Eu sou Hua Zhou – ele se apresentou. – Servi ao Exército Imperial na última batalha contra os invasores do norte. O magistrado olhou para Zhou. – Você não tem um filho de idade suficiente para lutar? – perguntou ele. – Fui abençoado com duas filhas – respondeu o pai de Mulan. – Eu vou lutar. O magistrado mediu o homem diante de si. Mulan percebeu que ele estava avaliando o cabelo de seu pai, que estava ficando grisalho, e as rugas ao redor dos seus olhos. Ela sabia que, para ele, o seu pai parecia orgulhoso, mas velho. Enfim, o magistrado acenou para o soldado próximo a ele. O rapaz pegou em sua bolsa os documentos para que Zhou se alistasse. Estendeu-os para ele. Como se fosse em câmera lenta, Mulan assistiu ao pai esticando o braço para pegar os papéis. Os seus dedos roçaram no pergaminho e estavam prestes a pegar o papel quando a sua perna cedeu. Ele deu um grito abafado ao cair no chão. Deitado aos pés do magistrado, Zhou fechou os olhos, horrorizado. O seu casaco havia se aberto, revelando a atadura na perna. Olhando para o pai naquela situação, Mulan ficou de coração partido. O homem estava totalmente humilhado. Até mesmo os soldados pareciam envergonhados por ele, dando um passo para trás e, em seguida, evitando os seus olhos. Mulan pegou a bengala, que estava largada no chão onde ele a deixara, e correu para levá-la a ele. Mas sua mãe pôs uma mão em seu ombro, parando-a. – Não faça isso – ela sussurrou. – Isso irá apenas humilhá-lo ainda mais. Enquanto o magistrado voltou a ler os nomes das famílias do tulou, um jovem soldado desmontou de seu cavalo e ofereceu a sua mão para Zhou, que recusou. Segurando a perna com a mão, ele conseguiu, dolorosamente, ficar em pé. Depois, saiu mancando, de cabeça erguida. Mulan o observou se afastando. O seu pai era um homem bom, mas muito orgulhoso. E o orgulho o mataria se ele fosse para a guerra.



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