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História Mulligans - Capítulo 25


Escrita por: Naibao

Notas do Autor


Sem mais delongas, boa leitura.

Capítulo 25 - 24. Ponto Final


Fanfic / Fanfiction Mulligans - Capítulo 25 - 24. Ponto Final

Não vi Sehun pela Fazenda depois disso; depois de descobrir que era ele quem manda as flores, ou ao menos eu acreditava que fosse ele, porque todos os mais pequenos sinais me levavam à ele. Era como se ele tivesse evaporado no instante em que essa probabilidade, quase certeira, explodiu em minhas mãos, incendiando tudo aquilo que passei meses tentando negar. Fiquei tentado a questionar sobre seu paradeiro, para então esganar aquela dúvida que me sufocava, quis perguntar para Maya onde ele estava, porque queria desesperadamente confrontá-lo, saber o real motivo por trás daquele gesto; se era amor ou apenas piedade. Mas me segurei, dizendo a mim mesmo que ele precisava de tempo.

Quanto tempo mais?

Eu não fazia ideia. Porque já fazia muito tempo que tudo tinha acontecido. Apesar de ainda doer e parecer recente, eu sabia que aquilo tinha sido há mais de meio ano, tempo o suficiente para processar e ter uma ideia do que fazer, qual caminho seguir. Para mim, foi tempo suficiente para encontrar meu verdadeiro caminho nesse mundo. Minha vontade era de chegar nele e dizer exatamente isso, que aquele tinha sido um tempo longo demais, que já fora o suficiente para ele parar de brincar e se decidir.

Contudo, também não o fiz.

Ao invés disso, me controlei. Disse a mim mesmo que deveria ter paciência e esperar. Julguei que aquilo era o mais sensato e o ideal a fazer. O tempo de superação era diferente para cada pessoa. Sehun, quiçá, tivesse um tempo muito maior, e tudo o que eu podia fazer, era esperar. E, por mais que quisesse, eu não podia julgá-lo, afinal, era Hun quem havia sido enganado e tivera o coração, os sentimentos, pisoteados e descartados. Como poderia impor minha vontade sobre ele? Levei uma vida para encontrar meu próprio coração, então tinha que ser paciente.

Então, eu o fiz. Fui paciente ainda quando sentia meu âmago retorcer em ansiedade, as mãos suando frio a cada vez que o relógio batia seis da tarde, o horário em que ele chegava na maioria das vezes. Engoli o desespero e segui minha vida da maneira mais tranquila possível.

Os dias deslizaram lentamente enquanto eu me distraia, fazendo tudo o que não tinha feito nos últimos dias: almoçar com Byun, passar na casa de Sulli para prestigiar sua presença, tomar chá com Nodriza, aproveitar a brisa embaixo do Arco de Glicínia, conversar com Kirara. Fiz de tudo para não pensar em Sehun e na vontade crescente de confrontá-lo sobre as flores e o que poderiam significar, e consegui... Bom, pelo menos na maior parte do tempo.

Nesse tempo, as coisas entre Landra e Seung avançaram ao ponto de ele ser apresentado a Maya como namorado dela. Foi engraçado de ver. Seung suava como um porco em plena temperatura de 5°C, e gaguejou terrivelmente ao pedir a mão dela em namoro para a avó. Mantive-me expectante, rindo disfarçadamente. Alandra parecia tão feliz nos dias que se seguiram, que me perguntei se anteriormente não havia sido assim ou se ela não estava chateada por Sehun, alguém por quem ela tinha tamanha consideração, não ter estado lá em um momento tão importante. Se ela ficou chateada, não demonstrou.  Sendo sincero, acho que jamais vira Alandra tão radiante e ditosa como nos dias que se seguiram, e essa visão fazia com que meu coração transbordasse alegria pela alegria dela. E, com isso, Seung passou a ser uma presença constante em nossos dias, o que queria dizer que agora eu tinha um médico 24/7, e me levou à iminente decisão de deixar de ir à floricultura, porque, de fato, a gravidez estava em seu ponto mais critico e qualquer esforço podia ser fatal.

Deixar a floricultura era o que eu menos desejava fazer. Aquele passara a ser meu porto seguro. Era lá que eu me esquecia dos fantasmas que atormentavam meus pensamentos, que eu podia ser livre de preocupações e útil às pessoas. Também era lá que eu recebia os pedacinhos de Sehun, em forma de flores e cartões com poucas palavras, mas palavras fortes o suficiente para me estremecer. Entretanto entendi que era algo necessário, e depois de muito relutar, aceitei me distanciar. E, só fui convencido porque Nodriza se propôs a me substituir, e, se havia alguém mais adequado que eu para o cargo, essa pessoa era Maya. E ela assumiu a responsabilidade como se sua vida dependesse disso.

E temendo o tédio, meus dias foram salpicados da presença de Seung e Baekhyun, os melhores amigos que a vida poderia ter trazido até mim. Com a risada estridente de um e a seriedade e preocupação do outro, pude me distrair o suficiente para não pensar em Sehun, que depois descobri estar em uma viagem com Kyungsoo. E, quando me dei conta estávamos na véspera de Natal, com uma Alandra eufórica correndo pelos cantos da Casa e uma Maya, calma como o vento de verão, preparando a ceia.  Era uma cena, de veras, muito engraçada, porque, apesar de nervosa, Landra nunca me parecera alguém que se desesperava facilmente. Eu achava que tinha a ver com Seung. Ri com a constatação. Um coração apaixonado muda as pessoas.

— Cariño — chamou Maya, — puedes cojer alguns limones para hacer el tempero de la carne de cerdo?

Sempre muito prestativo, assenti, saindo para caminhar em direção ao pomar. Havia nevado na noite passada. O chão estava com uma camada grossa de gelo, que fazia um delicioso creck enquanto eu caminhava, sentindo os pés afundarem. O dia tinha cheiro de natal, e era quase mágico o fato de o pomar estar tão frutífero quanto em dias normais. O adentrei, sentindo as folhas de videira enroscar em meus cabelos. No meio das folhas, achei uma única uva cintilando entre as folhas, roxa e gorda, e não hesitei em pegá-la e jogá-la na boca. Gemi de prazer quanto a casca se rompeu, deixando seu sabor escorrer por minha língua; estava docinha como um favo de mel.

O vento estava forte e frio, delatando que nevaria novamente, muito provavelmente, aquela mesma noite. Pensei em Sehun, preocupado sobre as condições do clima seja lá onde ele tivesse ido. Hun nunca fora friorento, e era extremamente difícil que carregasse agasalho consigo. Por um segundo tive o ímpeto de perguntar a Maya onde ele estava, e correr em sua direção com as roupas necessárias para enfrentar aquele frio, mas então me lembrei de que Soo era sua companhia, e faria o que fosse necessário para mantê-lo aquecido, provavelmente não com roupas.

Senti meu corpo arrepiar e não era pelo frio da tarde. A torta que comi naquela tarde ameaçou voltar garganta acima. A ideia de Hun e Kyungsoo juntos ainda me causava calafrios e repudio. Soltei um muxoxo, consternado, maneando a cabeça para espantar esses pensamentos, respirando fundo e tentando me concentrar no que havia ido fazer ali. Não havia nada de confirmado naquela ideia para que eu ficasse remoendo como um fato. As palavras de Kyungsoo eram para me machucar, eu sabia disso.

  Os limoeiros ficavam logo no inicio do pomar, mas os ignorei, caminhando entre a neve para chegar ao Arco de Glicínia, cedendo ao impulso que me movia a ir até lá. Aquele lugar era especial para mim. Ele havia visto muito das minhas lágrimas e das minhas dores, muito mais do que qualquer pessoa poderia ter visto. Era uma parte importante do meu crescimento. Suas flores continuavam tão lindas quanto sempre foram. Os tons arroxeados sendo um destaque em um véu de neve e um céu de folhas.

Era mágico.

Não havia nada que pudesse descrever aquela beleza  senão a palavra mágico.

Respirei fundo, fechando os olhos. O aroma adocicado das flores encheu meus pulmões. Era cheiro de Primavera em pleno Inverno. Deixei-me ficar ali por um tempo que não soube discernir, sem pensar em nada, sem sentir nada além da calmaria e a leveza daquele pedaço do Paraíso bem ali, no final do Pomar da Fazenda Byul.

— Luhan — a voz repentina me sobressaltou. Virei-me, acreditando estar ouvindo vozes. Mas não estava. Bem ali, a minha frente uma Sehin, praticamente engolida por um casaco de pele, me encarava com olhos brilhantes e a expressão, serena e límpida. Ela parecia totalmente diferente da última vez que a vi. Seu cabelo estava curto, mais curto que o de Sulli, e não trazia nada de maquiagem no rosto, o que a deixava ainda mais bonita. — Maya disse que estaria aqui. — Falou ela quando não respondi. — Não aqui exatamente aqui, mas aqui no pomar.

A encarei em silêncio por alguns segundos, notando como seus dedos apertavam-se entrelaçados na frente do corpo, como seu sorriso era nervoso e em como ela se assemelhava a uma criança que precisa desesperadamente ser aceita. Procurei em mim algum tipo de ressentimento, porque Sehin havia sido o propulsor de toda a desgraça que seguiu meus dias com Sehun, de toda a tormenta e todo o sofrimento, e eu poderia simplesmente continuar a culpá-la por isso. Afinal de contas, se Sehin não tivesse conhecido aquela maldita mulher... Onde estaríamo, Sehun e eu?

Mas não havia ressentimento. Nunca houvera, porque eu sabia que ela não era culpada de nada e, embora movida pela inveja que tinha do irmão e o desejo inconsciente de machucá-lo, no fundo ela não tinha culpa de absolutamente nada. E eu não a odiava, nunca a odiei. Em mim, não havia nada além de uma identificação. Naquele momento, percebi que eu até que gostava de Sehin. Dessa Sehin, que parecia tão doce quanto um algodão doce rosado.

— Esse lugar é lindo, não acha? — Comentei, elevando a mão para tocar um cacho de Glicínia. — Quando estou aqui parece até que ele suga o que há de ruim em mim, e deixa apenas o que realmente vale a pena.

Sehin sorriu, caminhando em minha direção. Uma de suas mãos também tocou o cacho de flores roxeadas em que minha mão repousava. Com a proximidade, percebi que essa nova versão tinha o mesmo cheiro daquele lugar.

— Então acho que eu deveria ter vindo aqui antes — sua voz soava sincera e doída. — Passei a maior parte da minha vida evitando esse lugar, e enchendo meu coração de ressentimento por Sehun e tudo o que ele tinha. Se eu tivesse vindo aqui antes, eu teria me despejado desse sentimento errôneo e teria me dado a oportunidade de conhecê-lo de verdade. — Ela respirou fundo, mordendo o lábio inferior. Sua mão caiu inerte ao lado do corpo. — Luhan, eu fui cruel com você.

— Foi? — Perguntei, arqueando uma sobrancelha.  Não foi irônico, foi apenas porque que eu não achava mais isso.

— Destruí seu casamento com Sehun por pura... Inveja. — Seu tom de voz decaiu, e ela se encolheu, envergonhada pela ideia.

— Você não fez isso, Sehin — minha voz estava mais calma do que imaginei que ela pudesse soar. — Eu fiz. Eu menti para Sehun e me aproximei dele da forma errada. O único culpado sou eu.

— Mas se...— Ergui a mão, colocando um dedo sobre seus lábios, silenciando-a.

— Não é sua culpa. — Reforcei. — Independentemente dos motivos que te levaram a fazer isso, não muda o fato de que tudo se iniciou em mim. Comecei esse ciclo e não soube como parar. Sendo sincero, se não fosse você, acho que eu jamais teria tido coragem para ser sincero com Hun, porque me descobri amando-o com todo meu coração, e não sabia se ia sobreviver sem isso. Não conseguia lidar com a ideia de machucá-lo tanto, que poderia haver um futuro em que não estivéssemos juntos. Então, eu acho que te agradeço.

— Luhan...

— Espero que tenha vindo para a ceia — a interrompi novamente, começando a fazer o caminho de volta. — Tenho certeza que todos ficarão felizes por sua presença.

— Luhan.

Ela não me seguiu, me obrigando a voltar novamente em sua direção. Sehin permaneceu parada, como uma criança perdida que não sabia o que tinha que fazer para encontrar os pais. Percebi naquele momento que, quiçá, éramos mais parecidos do que imaginávamos ser. Aproximei-me dela com calma, sem dizer nada, e a rodeei com meus braços, em um abraço desajeitado e constrangedor.

Pelo que me pareceu infindáveis minutos, que não foram mais do que cinco segundos permanecemos daquele jeito, e então Sehin cedeu abraçando-me de volta. Senti seu corpo relaxar ao passo em que sua cabeça deitava-se desastrosamente em meu peito.

— Descobrimos que Jiyong pode conceber, Luhan — Seu corpo se retraiu enquanto as palavras deslizavam por sua língua. Sentia que ela diminuía em meus braços. — Ele pode gerar uma criança... Um filho nosso... — Sua voz oscilou. — Isso é tão...

— Maravilhoso! — Exclamei, afastando-me.

Confesso que não soube como reagir no primeiro momento, porque Sehin não se mostrara muito amigável quando me viu grávido, também porque eu não entendi o motivo de ela estar dizendo aquilo pra mim... Justamente a mim. Entretanto, eu só conseguia pensar em mim, pensar em Yue e o quanto me sentia maravilhado ao saber que era dentro de mim que ela estava sendo gerada.

Sehin crispou os lábios, recolhendo-se para o próprio eixo.

— É estranho, fora do normal — ela relutou em dizer essas palavras, e eu soube que o que ela realmente queria dizer era algo muito mais doloroso. — As pessoas não conseguiriam nos ver normalmente.

— Sehin, uma criança, não importa por quem é gerada, é um milagre. — Contestei, antes mesmo que ela pudesse dizer mais palavras afiadas e, infelizmente, verdadeiras. — E é para isso que serve uma família, para te apoiar quando as outras pessoas não entenderem pelo que você está passando. E você tem isso bem aqui. — Ela me encarou e, pela primeira vez, senti que Sehin não estava olhando pra mim. Ela estava olhando minha alma. Seus olhos se contraíram, enchendo-se de lágrimas. — Sehin, todos nós estamos aqui, quer você queira ou não. Maya, Sehun, Alandra, Seung, Jiyong e eu. Somos sua família — a palavra fez meu coração se acender. Família. Era tão saboroso e, embora eu soubesse que não era bem assim atualmente, era dessa forma que eu me sentia. — E uma família nunca abandona o outro.

Não sei se foram minhas palavras, mas aquilo derrubou o que parecia ser a última parede ao redor de seu coração. Sehin abaixou-se no chão e chorou como uma criança que se perdeu da mãe. Aproximei-me com cautela e a abracei, ignorando as dores que senti ao me abaixar para alcançá-la.

Vê-la ali no chão, com o corpo tremendo pelo pranto, fez com que eu me lembrasse das tantas vezes em que estive naquela mesma situação, chorado de desespero por não saber o que fazer ou chorando por entender algo que até então me era desconhecido, e pensei em como teria sido bom se, naquele tempo, eu já tivesse conquistado as pessoas, para que alguém pudesse me resgatar do fundo do poço.

Deixei que ela chorasse tudo o que tinha para chorar, até as lágrimas secarem e seu corpo se acalmar. Isso demorou muito tempo para acontecer, e nem me importei com a possibilidade Nodriza se preocupar. Ela era a pessoa mais intuitiva do mundo. Devia saber que minha demora tinha a ver com Sehin, e tenho certeza que enxergou nela a mesma mudança que eu vi e senti, por isso não se preocupou em mandar alguém atrás de nós.

Quando seu choro finalmente cessou, ela se levantou, secando o rosto no tecido de seu casaco, algo que jamais a imaginei fazer. Foi pouco admirável e não denotava em nada a classe que ela sempre mostrara ter.

— Estou muito feia? — Perguntou ela com a voz rouca e a cara inchada, num tom tão casual, que nem parecia que há um mês ela estaria se molestando em esmagar meus sentimentos como a um inseto no chão.

—Acho que nunca esteve melhor — brinquei, colocando uma mecha de seu cabelo, que estava grudada em sua pele, atrás da orelha. — É sua melhor versão até agora — conclui, começando a me distanciar do Arco.

— Eu concordo com você — confessou ela, me alcançando em passos ligeiros. — Eu nunca tinha me sentindo tão bem também. — Sua voz, apesar de rouca, estava leve, soava sincera. — Obrigada, Luhan.

— Não tem o que agradecer — e não tinha mesmo. Sehin era família. A família do Sehun, e isso era o suficiente pra mim. Além disso, agora eu entendia que aquela mulher era apenas uma das muitas pessoas machucadas pela vida. Não era culpa dela e o importante era que ela parecia estar se encontrando, e esse era o processo mais libertador pelo qual poderia passar... E mais doloroso.

Era doloroso se dar conta de que a vida era mais do que a caixinha em que sempre vivemos, que o mundo ia muito além de nosso próprio umbigo. Se dar conta de que o sentimento de outras pessoas ou a forma que elas te viam importava muito. Doía até mesmo o fato de sentir algo e não saber explicar o que era. Tudo isso doía muito, mas libertava de uma maneira inexplicável.

— Queria que você fosse o primeiro a saber — ela voltou a falar quando nos aproximávamos da saída do pomar. Não me dei ao trabalho de colher os limões que eu fora buscar. Aquela altura tinha certeza que Maya já tinha dado um jeito. — Sobre a gravidez — explicou ela quando me mostrei desentendido.

— Por quê?

— Eu não sei — e por sua voz, soube que ela não sabia mesmo. — Eu... Só senti.  —Nunca imaginei que pudesse me sentir tão feliz por algo tão singelo e algo vindo de Sehin. Entretanto me senti. Sem conseguir evitar, meus lábios se esticaram em um sorriso, e com o canto dos olhos pude perceber um vestígio de sorriso nascendo em seus lábios também. — Obrigada, por isso e por ter me salvado.

— Espero poder ouvir seus agradecimentos mais vezes — e esperava mesmo.

Quando alcançamos a estrutura da Casa Vermelha, um Jiyong todo nervoso e ansioso veio em nossa direção. De onde estávamos, a alguns metros da entrada da casa, era possível ouvir a gritaria e a algazarra da preparação da ceia. Pude perceber o carro de Byun, Sulli e Seung estacionados um ao lado do outro. A casa estava realmente cheia naquela ocasião.

— Meu amor, está tudo bem? — Perguntou ele, abraçando-a de maneira protetora.

Ela o retribui de maneira fervorosa, me fazendo sentir que sobrava no cenário.

— Nunca estive melhor — Sehin sorria de maneira sincera, e me peguei sorrindo também.

— Eu não quero ser chato, mas vamos entrar? Está um frio de doer os ossos aqui. — Falei, tentando soar o mais delicado possível, esfregando os braços com as mãos. — Maya vai surtar se não estivermos lá para oferecer ajuda, mesmo que ela não vá aceitar.

— Vamos ficar? — Ji afastou-se, o cenho franzido mostrava sua surpresa. Sehin assentiu, com um maneio de cabeça. — Para a ceia? — Ela voltou a assentir, um sorriso esticando-se em seus lábios. — Nada de restaurantes luxuosos e comida com gosto de plástico?

— Nada de restaurantes luxuosos e comida com gosto de plástico — concordou ela. — Tem problema se ao invés disso for comida meio chinesa, meio coreana e meio espanhola e várias pessoas juntas?

Foi então que eu percebi que, quiçá, ele não gostasse desses tais restaurantes luxuosos e talvez estivesse desesperado por um pouco de aconchego de um lar de verdade, porque seus olhos brilharam quando ele concordou e começamos a caminhar à entrada da casa. Caminhar, não. Eu sentia que estava flutuando, porque meu coração estava tão leve, mas eu sabia que ele estava cheio de sentimentos sinceros e puros. E, embora não tenham falado nada a respeito, a forma que Ji e Sehin caminhavam saltitantes ao meu lado, demonstrava que se sentiam da mesma forma.

Maya estava no fogão, mexendo fervorosamente alguma coisa numa panela quando ntramos. Alandra picava cebola na pia. Byun e Yeol, encostados à mesa, enfeitava alguma torta, e Seung tentava piamente controlar o pequeno Chan, que sorria enquanto fugia do médico correndo entre as pernas das outras pessoas. Olhando da soleira da porta, eu não entendia como cabia tanta gente em um cômodo tão pequeno, menos ainda como todos, tão diferentes uns dos outros, se davam tão bem.

Pigarreei, chamando a atenção.

 — Cabe mais duas pessoas à mesa? — Perguntei.

Um silêncio se instaurou no lugar quando todos se viraram em minha direção, o olhar para além do meu corpo; para Sehin e seu Marido. Sentia que ela se encolhia, agarrada ao braço do marido. Comecei a cogitar que, talvez, devesse ter consultado Maya e Alandra, porque, bom, Sehin não era a pessoa mais simpática que conhecíamos, e eu ter perdoado de coração o que ela fizera, não queria dizer que as outras pessoas o fizeram também.

Os ponteiros do relógio ecoaram em meus ouvidos, senti o suor escorrer por dentro da blusa que vestia. O arrependimento começando a se instalar em meu peito. Naquele momento, eu só conseguia pensar que, provavelmente, Maya e Alandra não fossem tão benevolentes quanto eu imaginava.

— Não acredito que minha sobrinha veio para a ceia também? — A voz de Sulli surgiu tão saltitante quanto seus passos. Ela abraçou Sehin, com os olhos marejados. Não soube dizer se ela havia chegado ou se já estava ali e eu não a enxergara. — Estou tão feliz. — Sussurrou ela, e por sua expressão soube que era verdade.

Maya sorriu também, seguida por Alandra e por todos os outros. Soltei a respiração que nem notara estar prendendo.

La família de Sehun es nuestra família también — a voz de Nodriza não sou molesta, pelo contrário; soou alegre e emocionada, comos e ela tivesse esperado por aquilo também. — La chica y su esposo se quedan. — Aquela era a sentença final. Ninguém se oporia à Nodriza, mas não é como se alguém quisesse fazê-lo.

— Sehin — Alandra a chamou, jogando em sua direção uma cebola, que bateu em suas mãos e rolou no chão. — Você nem começou a cortar as cebolas e já está chorando — brincou ela, voltando aos seus afazeres.

Sehin pareceu entender a indireta. Tirou seu casaco de pele, pendurando-o nas costas de uma cadeira, e aproximou-se cautelosamente de onde Landra estava, enxugando os olhos no caminho.

— Pode parecer mentira, mas não tenho ideia de como se corta uma cebola. — Revelou ela.

Alandra riu, arqueando seu pescoço para o alto.

— Eu acredito sinceramente em você — contestou Landra, fazendo todos rirem, porque não precisava ser um gênio nem conhecer Sehin para saber que ela jamais fizera o trabalho duro. Landra pegou a faca, colocando-a nas mãos delicadas de Sehin, e em seguida começou a explicar o processo para ela, que prestou atenção como se estivesse estudando para realizar uma cirurgia de risco.  

Jiyong rapidamente se enturmou com Byun e Park, se dispondo a ajuda-los também. Permaneci observando-os, as mão sobre o ventre e o coração, saltando de felicidade. Desejei que meus pais estivessem ali, que mamãe pudesse mostrar seus dotes culinários e papai contasse piadas que riríamos apenas porque eram horríveis demais para não arrancar uma risada. Queria que eles estivessem ali e pudesse ver o quanto nossa família havia crescido.

No entanto, eu nem sabia quando os veria novamente. Meu único alento eram as cartas que trocávamos, que me faziam saber que eles estavam bem onde estavam e aquilo era o mais importante, porque, dessa forma, quando eu os visse novamente, eles seriam meus, e eu jamais deixaria que os jogos se infiltrassem entre nós novamente. Agora eu sabia o que era ter e zelar por uma família calorosa. Eu era pequeno demais naqueles tempos para fazer alguma coisa e mudar o destino fadado ao fracasso que eles escreveram, entretanto sabia exatamente o que deveria ser feito quando eles voltassem.

— Você é realmente especial, Luhan — murmurou Sulli, me dando um aperto no ombro antes de passar por mim e juntar-se aos outros.

As palavras de Sulli não fizeram sentido pra mim. Eu não era especial. Era apenas eu. E, de todos os presentes, era o menos especial possível. Apostava que mesmo Sehin, com sua crueldade e palavras ácidas, era mais especial e digna do que eu.  Mas, embora não concordasse e não entendesse, gostei de ser chamado de especial. Deixava o coração quente, saltitante. Fazia com que me sentisse alguém importante e indispensável, me fazia querer realmente ser especial.

Especial para Sehun.

Contudo isso poderia nunca mais se tornar uma realidade, então estava bom ser especial para outras pessoas também. Pensar nisso me fez lembrar das flores, da assinatura S.H. e da iminente possibilidade de o remetente ser Sehun. Meu coração acelerou. Eu queria saber, se fosse mesmo Sehun queria entender o que estava acontecendo e o qual era o significado daquilo. Queria dizer a ele que não precisava disso, não precisava se esconder atrás de bilhetes e mensagens secretas, eu estava esperando seu retorno. Sempre estaria esperando seu retorno, de braços e coração aberto para ele morar.

Por um ímpeto, virei-me. Não sabia ao certo para onde ia ou o que iria fazer, só senti a necessidade de ir a algum lugar, qualquer lugar que tivesse um vestígio de Sehun, qualquer vestígio que me desse uma pista de que era ele, porque tinha que ser ele. Aquela certeza, ou melhor, aquela possibilidade tinha se tornado meu chão, o chão que me sustentava e me dava esperanças de que minha batalha não havia sido em vão. Se ela se mostrasse uma ilusão, eu não saberia o que fazer. Eu iria despencar uma vez mais e duvidava de que haver alguma coisa que pudesse me segurar.

Naquele momento, o que eu menos esperava era que me chocar contra o peito forte de Oh. Seu cheiro inundou minhas narinas, fraquejando minhas pernas.  Ele sorriu, aquele sorriso tão genuíno, que fazia seus olhos avelanados sumirem nas orbitas e o deixava com ar pueril e inocente. Suas mãos seguraram com gentileza meus braços, me firmando no chão.

— Cuidado, Lu — falou ele, a voz doce como o mel deslizando em meus ouvidos, me fazendo quase gemer de deleite.

Aquele era o momento que eu esperara, ansiara e procurar secretamente por dias. Era o momento em que eu deveria perguntar se fora ele quem mandara as flores, e porquê o fizera. No entanto, me encontrei sem voz. A emoção de ouvir sua voz, ver seu rosto, sentir seu toque... Todo aquele combo fez com que eu entrasse em puro êxtase, perdesse a voz e a força nas pernas, nos braços. Hun percebeu o estado abobado em que fui jogado, e me ajudou a caminhar até uma cadeira à mesa, onde um Baekhyun e seu marido ainda continuavam na sessão decoração. Eles me encararam preocupados quando me sentei, e maneei a cabeça, em sinal de que estava tudo bem.

Como se fosse um anjo vindo de um sonho, Hun sumiu da minha frente antes mesmo que eu pudesse perceber. O procurei ao redor, e não encontrei, notando que Sehin também havia sumido. Conversa de irmãos, supus. Fechei os olhos, respirando fundo, me concentrando na tarefa de fazer o ar preencher meus pulmões e sair pelas narinas, me concentrando inutilmente na tarefa de diminuir os ritmo do meu coração e fazer as pernas voltarem ao normal.

Eu havia perdido a oportunidade que precisava para confrontá-lo e, com a casa cheia daquele jeito, dificilmente teria outro momento em que pudesse vê-lo a sós. Quando abri os olhos novamente, Kyungsoo apareceu em meu campo de visão. E senti que o sonho se transformava em um pesadelo. Por um breve momento, me esqueci totalmente de que ele também vivia ali e que... Bom, que ele e Sehun passaram dias juntos sabe-se-lá-onde, sabe-se-lá-fazendo-o-que. Ele me encarou de queixo erguido, e foi então que tive certeza que não iria mesmo conseguir um momento com Hun.

Suspirei.

— Baekhyun — gritei, voltando a atenção a um Byun concentrado em espalhar chantilly em um biscoito em formato de pinheiro. — Deixa que eu te ensino como se faz.

Naquele momento, o melhor a ser feito era aproveitar o momento. Aproveitar as pessoas que estavam unidas por uma ocasião muito mais importante. Aquela era uma noite história para a família Oh, e eu não deixaria de participar. Por um dia, eu iria esquecer Sehun e as flores, e Kyungsoo e o fato de que, possivelmente, ele estava com Sehun. No dia seguinte, me preocuparia com tudo isso uma vez mais.

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.

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Era nove da noite quando Maya anunciou que os assados estavam quase pronto. O ar da Casa Vermelha estava repleto de cheiros dos mais variados possível;  adocicados, apimentados, gordurosos, suculentos... Uma explosão que fazia o estômago se retorcer em espera. Enquanto Maya, Sehin, Jiyong e Alandra terminavam de arrumar as comidas em travessas para servir, nos disponibilizamos em arrumar a sala de jantar.

A sala de jantar era um cômodo totalmente a parte, que passava a maior parte do tempo fechada. Havia uma mesa de madeira enorme, com doze cadeiras espalhadas ao seu redor. Grandes janelas de vidro deixava à vista a escuridão lá fora. E, para completar, um lustre realmente luxuoso pendia do teto. Aquele cômodo nunca fora usado desde que cheguei à fazenda. Como éramos poucas pessoas e raramente fazíamos as refeições ao mesmo tempo, seria perda de tempo prepará-la para nós. Olhando assim, vazio, parecia um lugar solitário.

Colocamos pratos, talheres e copos sobre os lugares americanos e ajudamos a organizar a comida sobre a mesa. E quando todos começaram a entrar e se sentar, o lugar foi preenchido por calor humano, amabilidade e muito aconchego. Meu coração se enchia de felicidade só de ver. Foi uma noite tão agradável, que nem mesmo me importei com o fato de Soo não ter desgrudado de Sehun, como a sanguessuga que ele se provara ser.

O que mais me importava naquele momento era a felicidade genuína nos olhos de Sehin, algo que me fez perceber que, no final, ela era mais parecida com Hun do que eu imaginava quando sorria de verdade. Ou a felicidade de Alandra, se comportando toda caramelada com Seung, quem não escondia a satisfação em estar sendo alvo de toda a atenção daquela Amazonas. E também a forma como Yeol e Baekhyun estava 100% pendente das necessidades do pequeno Chan, enquanto o menino brincava de ser adulto tentando, e falhando miseravelmente, comer como um adulto.

Tudo ali, naquela noite, soava a família e união, algo que fez meus olhos marejarem ao pensar que, no próximo ano, poderíamos adicionar à mesa meus pais e Yue. Coloquei a mão sobre o ventre, acariciando-o. Em breve meu pequeno milagre também estaria entre nós. Em breve, eu poderia amá-la incondicionalmente como amava seu outro pai. Instintivamente, olhei na direção de Sehun. Seus olhos se encontraram com os meus, e todo o resto se torno apenas isso; resto.

Irrelevante.

Sem importância.

Porque quando meus olhos deslizaram sobre os de Hun eu tive a certeza de que era ali que estava todo o meu mundo. Era ele quem tornava tudo real, quem dava vida a meu coração. Sehun era meu sol, e continuaria a ser. E eu tinha certeza de que era seu mundo, o mundo pelo qual ele estava satisfeito em iluminar.

Naquela noite de véspera de Natal, tive a certeza de que ele me amava ainda. Não me era mais relevante o fato de ele ter estado com Soo ou o motivo para ele nunca ter se mostrado como o remetente das flores. Aquele era Oh Sehun, o Oh Sehun que eu amava. O Oh Sehun pai da Byul Yue. A pessoa que trouxe cor à minha vida, e se fosse por Sehun eu seria paciente e condescendente. Eu esperaria o tempo que fosse preciso porque, de alguma forma, eu sabia, ele voltaria.

Kyungsoo tocou em seu braço, e o momento evaporou, me deixando com um gosto ruim nos lábios e a sensação de que tudo não passara de mera ilusão da minha cabeça.  Tentei não me abalar com isso, e voltei minha atenção às pessoas a minha volta, alheias ao que supostamente acontecera naqueles segundos anteriores. Era melhor assim. Que aquele fosse algo só nosso, ou só meu

A noite estendeu-se entre conversas animadas e histórias de Natais passados. Mantive-me à margem, porque não tinha histórias felizes sobre Natal, e as que eu tinha eram recheadas de pobreza e precariedade, embora tivessem sido calorosas e cheios de amor. Além disso, eu gostava de escutar. Aprendi a me importar com o passado das pessoas, pois eram eles que moldavam quem elas eram no presente.

Sehin e Jiyong de fato passavam suas ceias em restaurantes luxuosos ao redor do mundo. Jiyong sempre preferira um lugar aconchegante, com pessoas importantes para o coração desde que seus pais morreram, e não escondeu a felicidade que estava sentindo em, pela primeira vez em quase dez anos de casados, poder se reunir com a família de Sehin. E essa conversa serviu de braço para uma outra, e quando percebi Sehin e seu marido estavam dando a notícia de que estavam pensando em ter um filho, depois de descobrirem que seu marido podia engravidar. Seung, fazendo jus a sua profissão, foi logo se intrometendo, dando conselhos e oferecendo seus excelentes cuidados para ele.

Aquela altura da noite, senti meus pés inchados e o corpo pesado, minha cabeça doía um pouco e comecei a esperar o momento em que poderia me recolher sem ser percebido. Não pelo resto da noite, apenas alguns momentos, alguns minutos de paz. E aquele pareceu o momento perfeito, com todos eufóricos com a novidade trazida por Sehin. Olhei a cena uma vez mais, achando graça na forma em como tudo aquilo parecia apenas natural, como se fosse cotidiano. Pareceria mentira se eu dissesse que Sehin era uma figura que nunca sonhei dividindo a mesa conosco.

Com um sorriso nos lábios, deslizei silenciosamente de meu lugar, e saí de mansinho da sala de jantar, indo para a sala de estar. O ar da sala estava gelado e ela não tinha tantas vibrações como aquele cômodo, no entanto, o silêncio, a calmaria foram o suficiente para me fazer relaxar. Fechei os olhos, me afastando ainda mais de onde ocorria a algazarra. O vento gelado percorria os cômodos vazios uivando. Pela janela, pude ver que nevava lá fora, como supus que aconteceria.

Caminhei até o vidro, e observei os flocos de neve dançar no ar até repousarem suavemente no chão. Era uma cena tão cheia de calma, mas ao mesmo tempo tão intensa. Minha mão, por instinto, acariciou meu ventre. Em poucos meses a manchinha tomaria forma em meus braços, eu poderia olhar diretamente para ela e não mais para um borrão de cinza e branco. Poderia sentir sua pele em minhas mãos e ouvir sua respiração. E quando isso acontecesse, tinha a plena certeza de que seria muito mais fácil suportar a dor de uma vida sem Sehun.

Era verdade que saber que Seung não era o remetente das flores me dera esperanças. Ousava dizer que foi aquele detalhe – ainda não confirmado oficialmente – que me deu liberdade para sonhar avidamente com Hun, Yue e eu formando uma família em um futuro. Deixei que todos os sinais, que relutei em dizer a mim mesmo ser coisa da minha imaginação, se torassem concretos e reais, e me apeguei a tudo isso com fervor.

Entretanto, ainda assim poderia não ser nada real. Poderia ser que tudo de fato fosse apenas minha imaginação e que S.H. fosse alguém qualquer, que nada tivesse a ver com Sehun. O pensamento fez meu peito doer, me obrigando a contrair o corpo em um reflexo de autoproteção. 

Nada mudara sobre isso. Sobre como amar Sehun era o mesmo que estar em uma montanha-russa de emoção. Era pouco provável que conseguisse frear meus pensamentos, que oscilavam em cenários positivos tanto quanto em cenários negativos, e eles se tornavam mais sombrios na medida em que se tornavam mais doces. Em um mundo onde nós três formávamos uma família, havia o mundo onde Hun me tirava à guarda da minha filha para formar um lar ao lado de Soo.

O simples pensamento fez arcadas de ânsia se instalar em meu âmago. Não tinha sido uma boa ideia permanecer tempo demais sozinho. Deveria ter continuado com todos, me distraindo no meio daquela alegria contagiante. E era isso que iria fazer naquele momento. Respirei fundo, me recompondo. Lançando uma olhadela para o relógio, comecei a caminhar de volta à sala de jantar.

Era uma da manhã. E, pelas vozes, ninguém me parecia cansado ou com vontade de ir embora. Imaginei que, assim como eu, talvez todos estivessem em um estado de estupor profundo, onde só quisessem se sentir um pouco mais daquela forma; completos, amados, felizes, unidos. Tenho certeza de que todo o restante estava se sentindo em casa, como se pertencesse aquele lugar, excetuando por Kyungsoo.

Sendo sincero, eu não saberia mais dizer o que ele buscava àquela altura. De fato seu interesse inicial fora Sehun, mas agora eu imaginava que sua permanência, sua insistência em permanecer entre nós, em se encaixar, era motivada por um ódio descabido que ele guardara por mim nos tempos do ensino médio. Fosse o que fosse, sua presença me deixava totalmente desconfortável, mas não valia o mais mínimo esforço de meus pensamentos, por isso, os deixei de lado, e foquei na missão de retornar ao aconchego sem que notassem que eu me retirei.

Eu estava a um passo de entrar na sala de jantar novamente quando um suave rangido chamou minha atenção. Nunca tive medo de fantasmas, bom, exceto quando criança, e agora que sabia que Kris estava preso, não tive o mais mínimo receio em caminhar na direção do som. Fora extremamente fácil de encontrar. Vinha do escritório de Sehun. Franzi o cenho, porque, desde que voltei à Casa Vermelha, aquela sala permanecia o tempo todo trancada, sem que nem mesmo Maya tivesse autorização para entrar. Os livros haviam sido colocados em outra sala, uma que eu tivesse acesso.

 A verdade é que nunca me preocupara com o motivo por trás dessa proteção, com o que estava guardado ali para que precisasse permanecer trancado, no entanto, e falando francamente, também nunca parei para pensar de fato nisso...  Até aquela noite.

Minha intenção era a de apenas fechar a porta para que ela parasse de ranger. Porém, quando me aproximei, senti o vento gelado açoitar minha pele como lâminas afiadas, o que me fez concluir que as janelas estavam abertas. Esgueirei-me para dentro do cômodo, tateando a parede para acender a luz, porque daquele lado tudo o que havia era um breu denso e quase impenetrável.

Quando a luz se acendeu, repeti a mim mesmo que eu só iria fechar a janela e me retirar, voltar para a sala de jantar sem nem mesmo olhar para os lados. Contudo, foi praticamente impossível de não ver aquele vaso vibrante bem ao lado da mesa, que ficava às costas da janela. Ele vibrava naquele ambiente que, agora sem os livros, gritava seriedade. E, sobretudo, as flores majestosas e coloridas pareciam sussurrar meu nome.

Pelo que me pareceu um período de tempo incalculável, minha respiração ficou presa nos pulmões e meu coração parou de bater. Tive de apoiar as costas na parede, pois minhas pernas estavam moles, trêmulas, tal qual gelatina, parecendo prestes a ceder.

— Só posso estar sonhando — sussurrei, quando encontrei minha voz.

E tinha que ser um sonho. Crente disso me forcei a fechar os olhos, apertando as pálpebras com todas as forças que possuía naquele momento. Me belisquei e esbofeteei meu rosto, o suficiente para as maçãs do rosto começarem a arder pela violência sofrida.

Nada disso dissipou a ilusão.

Com passos incertos, cortei a distância que havia de onde estava até o vaso exuberante à frente, e toquei sutilmente uma pétala rosada da flor que parecia recém-desabrochada. Ela não se desfez em minhas mãos, o que me encorajou a segurá-la por inteiro. Era real. Um sorriso esticou-se por meus lábios.

Bem ali, a minha frente, sob o toque da minha palma, macia como um veludo, vibrante como um arco-íris estava a mais linda flor que eu já vira. Era verdade que muitas outras flores eram elegantes, lindas e exuberantes, mas aquela era uma gérbera. E a gérbera era a flor mais importante na minha vida, com sua simplicidade e tudo, com seu cheiro sutil e pouco perceptível e com tudo o que poderia dizer para tentar menosprezá-la. Ela era importante porque era nossa flor.

Minha e de Sehun.

E eu apenas soube, como se alguém tivesse sussurrado em meu ouvido. Aquela gérbera era mesma que plantamos naquele dia.

A mesma pela qual juramos amor.

A flor que iria sobreviver enquanto nosso amor perdurasse.

Sehun me amava, e nada podia me convencer do contrário. Não quando aquela gérbera, frente aos meus olhos, destoava todos os tons possíveis da flor – roxo, rosa, amarelo, branco. Todas as cores, em tons diferentes. Uma única planta. Sorri, sentindo as lágrimas rolarem por meu rosto.

Eu precisava dizer a ele que já sabia.

Ao caralho minha decisão de esperar o tempo para seu Mulligan. Ao caralho qualquer coisa. Eu só pensava, naquele momento, o quanto precisava desesperadamente de Sehun, e estava pouco me importando com todos os outros que estariam ao redor. Seria bom. Gostei da ideia. Gostei da ideia de saber que haveria testemunhas de um dos momentos mais importantes da minha vida.

Com um suave creck, tirei uma gérbera da planta, afastando-a do restante. Era a prova que eu precisava, para convencê-lo de que não era mais necessário mentir. Tudo ia dar certo. Aquele era meu presente de Natal. O presente que a vida estava me dando.

— Onde vai com tanta empolgação, Luhan?

Eu só não contava que a vida também se encarregaria de colocar um obstáculo como provação. Arqueei o pescoço, encarando Soo por igual. Havia um sorriso malicioso em seus lábios. Malicioso de um jeito ruim, cujo qual tentei ignorar deliberadamente. Não é momento de perder tempo com Kyungsoo, disse a mim mesmo.

Respirei fundo, caminhando com uma tranquilidade forçada na direção da porta que era exatamente onde ele estava. Meus dedos se apertaram ao redor do caule da flor. Aquela altura, a janela tinha ficado para um terceiro ou quarto plano, e o frio gelado nem parecia afetar meu corpo. Eu estava pegando fogo pelo calor do momento, pelo calor da descoberta.

— Soo — o chamei com falsa doçura na voz. — Você vai me desculpar, mas não tenho tempo para você.

Ele sorriu, arqueando o dedo indicador e movendo-o em sinal de negação. Seu pé deu um pequeno pontapé na porta e ela fechou-se.

— Mas eu nem pude te dar Feliz Natal decentemente, Luhan — havia uma encenação nauseante em sua voz.  Ele se aproximou, e, com um puxão repentino e violento, tirou a flor de minha mão. — Uma flor? Pra mim? — Aquilo devia ser um pesadelo, concluí. — Se importa se eu... Despetalar ela? — Ele não esperou uma resposta, começando a puxar lentamente pétala por pétala, com uma lentidão que fez meu coração doer.

Aquela era nossa flor.

Aquela era nossa flor.

 Então, por que eu o estava deixando fazer o que bem entendesse? Movido por um êxtase que nunca sentira antes, agarrei sua mão que dançava no ar, puxando de forma desajeita e pouco convincente o que sobrara da flor.

— É nossa flor — falei sem ao menos tentar evitar, a voz saindo mais convincente do que eu realmente me sentia capaz. — Você não tem o direito de tocar em nada que tenha a ver com Sehun ou eu.

Eu só pensava em sair dali. Em sair dali e encontrar Sehun. Em entregar meu coração a ele e deixar que fizesse o que bem entendesse.

Kyungsoo franziu o cenho.

— Sua e de Sehun? — Perguntou. Não respondi. — Essa flor? — Ele apontou para o vaso, e me mantive o mais indiferente possível. E então, uma gargalhada contida, como se ele estivesse evitando chamar atenção. —Mas se essa flor foi eu quem comprou, Luhan, para enfeitar meu escritório.

Eu sentira aquilo antes.

A sensação de despencar em queda livre, sem saber onde seu corpo vai se chocar, sem ter em que agarrara, em quem se segurar. A sensação de sentir seu coração esmagado, triturado, apunhalado. A sensação de todo seu mundo, que parecia tão perfeito, tão seguro, se derrubando em sua cabeça. Passei tempo demais remoendo esse sentimento para saber o sabor que ele tinha, e era um sabor amargo, que envenenava todo o resto, e te fazia querer encolher até que não passasse de um grão.

É um pesadelo.

Como podia um sonho se mostrar um pesadelo tão terrível? Como podia um dia tão agradável se transformar em um sofrimento tão visceral? Senti que meus pulmões começavam a falhar. Meu coração doía terrivelmente à medida que as ideias, as certezas que eu tivera apenas alguns minutos antes, quiçá não fossem tão certas assim.

Havia uma pequena parte dentro de mim que ainda relutava, que ainda tentava se convencer de alguma coisa. Que coisa? O que era mesmo?  Agora só restava a realidade de que Soo falava a verdade, porque Kyung tinha a chave daquela sala. Eu não. Eu o via entrar e sair dali várias vezes. Eu não. Gérberas eram comercializadas em vasos exuberantes, era verdade. Na Encanto mesmo era possível comprar. Eu passava semanas me dedicando a elas para que chegassem lindas e extasiantes em seu destino.

— Nossa flor? Que história é essa, Luluzinho? — Debochou ele, se aproximando de mim. Sua mão tocou meu queixo, os dedos se afundando na carne. Gemi pelo rancor presente naquele gesto. — Você ainda está sonhando, não é?

— Está mais para um pesadelo — contestei, em tom ácido, empregando esforço demais em uma tarefa que parecia tão simples.

Do revirou os olhos, apertando ainda mais a mão em meu rosto.

— Bom, não foge da realidade. Eu sou seu pior pesadelo — estremeci com aquelas palavras, com o olhar que ele lançou pra mim, e com a forma em que ele começou a cortar a distância entre nossos corpos, me obrigando a dar passos cautelosos para trás até que minhas costas estivessem coladas a parede. — E confesso que estou cansado disso. Porque olhar para você me irrita.

—É só sair de nossas vidas.

Aquilo não o agradou. Suas mãos pressionaram minhas bochechas o suficiente para os dentes rasgarem a carne do lado de dentro.

Como raios as coisas se tornaram daquela forma?

— Ou você pode ir embora de nossas vidas, não é mesmo? — Ele deu de ombros, como se a resposta fosse simples assim. — Foi a partir de você que todos os problemas começaram. Eu já estava de olho no Sehun muito antes de você aparecer. Sehin me adorava e apoiava a união. E agora, olha só? — Com a mão livre, ele fez um gesto de braços abertos para o cômodo vazio. — Sehun não te ama, Luhan. Você sabe disso, só está tentando negar porque essa é a única coisa boa que você conseguiu nesse lixo que você chamada de vida.

— E é por isso que vou lutar para tê-lo de volta — eu faria qualquer coisa por Sehun. — Porque, em toda minha vida, jamais vou encontrar tesouro maior.

— Mas você já o perdeu. Não percebeu isso ainda? — Soo franziu o cenho, suspirando em seguida. — A única coisa que prende Sehun a você é essa aberração. Então, que tal descobrirmos o que vai acontecer quando ela não existir mais?

Que Soo era uma pessoa argilosa e cruel, eu já sabia. O que eu não fazia ideia era do que ele realmente era capaz. Acho que passei tempo demais temendo Kris, porque já conhecia seu potencial de crueldade, e acabei não reparando em Do, pois julgava que já conheci a todo seu potencial de cinismo e manipulação. E fora essa falta de percepção que não me fez enxergar o que estava por vir.

Um minuto eu estava em pé, encarando-o de igual para igual, e no outro senti o ar fugir de vez dos pulmões. Dessa vez, não pelo estupor de um momento ou por sentimentos à flor da pele, e sim pela dor que preencheu todo meu corpo quando o punho fechado de Kyungsoo se chocou contra a base da minha barriga. A dor pareceu dezenas de facas de enfiando e se torcendo em minha pele. Tentei gritar, mas não conseguir encontrar a voz necessária para fazê-lo.

A dor era pulsante, agonizante. Agarrei o ventre com as mãos e gemi, tentando me manter acordado, pensando desesperado em minha Manchinha, minha Byul Yue, que crescera saudável até então. Apesar da dor, o que eu mais senti foi medo. Só pensei no que poderia acontecer a ela, e em como a vida não podia me tirar aquilo também, a pessoa mais importante pra mim. A pessoa que curara meu coração antes mesmo de ser pessoa.

— Por precaução — ouvi a voz de Kyungsoo sussurrar ao longe, e então uma nova onda de dor me atingiu, mais forte, mais potente e mais aguda que a primeira. 

Meu corpo esparramou-se no chão. A visão começou a ficar cada vez mais turva, um borrão. O vaso de Gérbera se desmanchava frente aos meus olhos. Pensei em Sehun, e no quanto eu teria gostado e teria sido feliz em formar uma família com ele. Isso só deixou meu coração ainda mais pesado. Meus sentidos nublaram ainda mais, ouvi vozes vindas de longe, passos se aproximando, e então tudo se apagou.

Se Kyunsoo tivesse razão, para onde eu iria?

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 A consciência foi voltando aos poucos. Tornei-me consciente primeiramente do meu coração: um palpitar calmo, rítmico, forte. Depois, foi o monitor de batimentos cardíacos, com seu bip irritante, que parecia entrar por meus ouvidos e ressoar em minha cabeça, que infelizmente eu me habituara a ouvir. Meus olhos tremularam, entreabrindo-se. Um teto branco preencheu minha visão turva e precária. Pisquei, forçando as pálpebras, na vã esperança de o cenário mudar quando voltasse a abri-los uma vez mais. Nada mudou. Era aquele teto imaculadamente branco, e não precisei olhar para os lados para saber onde eu estava.

Era o hospital.

O que havia acontecido?

Eu não recordava muita coisa, forcei a mente, às memórias veio como flashes em minha cabeça: a ceia de Natal, Sehin se tornando humilde e se desculpando, todos felizes, sorrindo. Parecia tudo normal. Forcei mais um pouco, mas não havia absolutamente nada que pudesse me dar um sinal do porquê eu estava num hospital. Não sentirá nada de dor ou incômodo a não ser o inchaço e o cansaço típicos da gravidez. Minha cabeça latejou pelo esforço, e deixei de forçar as lembranças. Relaxei o corpo, sentindo os músculos entumecidos e doídos, me concentrando novamente em mim mesmo, querendo e precisando entender o que estava acontecendo.

Movi os dedos dos pés, os dedos das mãos e tentei me concentrar no vazio que preenchia meu peito. Alguma coisa faltava, mas o quê? Respirei fundo, me concentrando no som da minha respiração, no movimento do tórax, subindo e descendo com o ato. Pulmões cheios: subindo. Pulmões vazios: descendo. Ela era calma e silenciosa, como a de um bebê adormecido tão silenciosamente, que a mãe tem que conferir se ele está dormindo ou se não partiu deste mundo.

Um bebê adormecido silenciosamente...

Um bebê adormecido...

Um bebê!

Yue!

Sentei na cama em um pulo, como se alguém tivesse girado a manivela de um palhaço de mola numa caixa. Uma dor aguda me atingiu, me fazendo gemer e grunhir de dor, a sensação era a de que alguém rasgava minhas entranhas, mas isso não foi o suficiente para me fazer aquietar. Aquele vazio, eu descobri, era a ausência de todo o amor que residia em mim. Toquei o ventre com as mãos, sentindo-o plano, como fora em outrora, e um grito de desespero rasgou minha garganta.

Yue não estava ali.

Yue não estava dentro de mim.

Minha manchinha já não era parte de mim e não estava do meu lado. A respiração ficou presa nos pulsões, e o monitor cardíaco acusou um aumento nos batimento do meu coração. Ofeguei, gritando novamente, e tentando piamente tirar o intravenoso do meu braço, os fios colados em meu corpo.

Não era o momento de ela nascer.

Então, onde ela estava? Eu precisava encontrar minha menina.

Yue não iria nascer antes do final do inverno. Era para ela ser como um Lírio Asiático, ou melhor, uma pequena margarida, que desabrocha lenta e lindamente, com um charme dócil e sutil. Uma pequena margarida. Minha pequena Margarida. Senti o corpo convulsionar com os acessos de choro que rasgaram minha garganta. As lágrimas, queimando a bochecha por onde escorriam.

Senhor, —uma enfermeira escancarou a porta do quarto, assustada, correndo em minha direção. — Senhor, peço que se acalme, por favor. — Ela colocou as mãos em meus ombros com delicadeza, e tentou inutilmente me deitar no colchão novamente. — Senhor — suplicou ela.

— Onde está minha filha? — Me debati, tentando me livrar de seu toque. Mais tarde eu me sentiria culpado, pois ela não tinha a mais mínima culpa. Mas não naquele momento. Naquele momento eu estava movido pelo desespero e pela dor. — Minha Yue. Onde ela está? — Gritei, a garganta queimando com o esforço.

Ela pareceu se desesperar ainda mais. Seus olhos suplicavam por ajuda, contudo nem isso pode me acalmar ou me fazer se apiedar de seu sofrimento. O meu era muito maior. Mil vezes maior. Pela segunda vez, senti que o céu do meu mundo, tão pequeno e frágil, desmoronava sobre mim, me esmagando, me destruindo. A diferença era que eu
tinha certeza que o dano de perder Yue seria muito maior do que o de perder Sehun. Aquela ideia me fazia perder o ar. Tentei levantar, mais feroz no ato. A enfermeira gritou por ajuda. Meus ouvidos zumbiram quando um grupo de mais três pessoas vestindo branco invadiu o quarto, entre elas Seung.

Um pedaço da minha mente queria perguntar a ele. Seung saberia responder. Ele sempre soubera responder com gentileza e sabedoria qualquer coisa que tivesse a ver com minha Lua e Estrela. Ele saberia. Eu sabia disso, contudo o desespero era muito maior. Os gritos jorravam de minha boca, impulsionando meu corpo a se debater na vã tentativa de se levantar, correr, ir atrás do meu pequeno amor, meu mundo. Mas os músculos doíam, latejavam.

Senti mãos fortes e firmes me segurando, me prendendo contra o colchão. Os olhos de Seung tinham um brilho de compreensão e compaixão. Aquilo doeu, e fez o pior cenário possível se desenhar em minha cabeça. O coração pareceu partir. Doeu. Senti o corpo relaxar, a garganta fechar. As lágrimas desceram abundantes. A dor era licitante, agonizante, era como se mil facas estivessem sendo enfiadas em mim numa estocada só. A ideia de algo ter acontecido a ela, meu tudo, era demais.

 Seung sorriu, fez um carinho em meu braço.

Senti uma picada em minha pele, e então o mundo se apagou.

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Quando recobrei a consciência o despertar foi mais rápido. Eu já sabia onde estava, sabia exatamente o que sentia e o que estava faltando, e no instante em que abri os olhos, as lágrimas começaram a molhar minha face. Funguei, tentando em vão controlar os tremores que nasciam no fundo do meu peito e estremeciam meu corpo.

Por que exatamente você está chorando? — A voz de Seung me sobressaltou.

Virei para o lado imaginando estar ouvindo coisas, mas ele estava bem ali, sentado na cadeira em seu jaleco branco, com uma prancheta nas mãos. Sua expressão era calma e serena, não havia emoção alguma em sua face, o que denotava que aquele era o Seung como o conheci: em seu papel de médico.

Cadê a Yue? — Perguntei, ignorando seu comentário anterior. Minha voz estava baixa, derrotada. Se aquela pergunta não fosse respondida o mais rápido possível eu sentia que podia morrer; morrer só pela dor em meu coração, aquele aperto que fazia até os pulmões pulsar com o ar entrando neles.

Luhan, preciso que se acalme — instruiu, levantando-se para caminhar em minha direção.

Me acalmar? — Senti o sangue pulsando nas veias. — Como posso me acalmar, Seung? — Vociferei, sentando-me de súbito. O abdômen doeu, me fazendo gemer. Ignorei o infortúnio, erguendo o olhar na direção de Seung, que permanecia calmo, me observando. — Não sei o que está acontecendo. Não sei o que aconteceu com minha filha — Minha voz quebrou-se, tornando-se um murmúrio praticamente inaudível.

Você teve um parto prematuro, Luhan — Ele me encarava com seriedade, a mão batucando na prancheta. — Yue agora está no tratamento intensivo neonatal, recebendo os cuidados necessários para que possa terminar de se desenvolver. Com sorte, ela é um bebê saudável, seus órgãos já estavam todos muito bem formados. — Ele passou os olhos na folha, antes de voltar a me encarar . — Só precisa ser capaz de respirar sozinha e ganhar um pouco mais de peso antes de poder ir para casa, o que não deve tardar muito — O tom de sua voz mudou para aquele tom característico do Seung como pessoa, não mais o médico.

Senti o peso do mundo sair de meus ombros. Relaxei, deitando-me na cama, me deixando fechar os olhos e respirar com tranquilidade. As lágrimas, agora de alívio, escorria, sob as pálpebras fechadas. Meu pequeno bebê estava entre nós. Ela estava viva. Estava viva.

Quero vê-la — Sussurrei, notando pela primeira vez como meus lábios pareciam ressecados apesar das lágrimas que escorreram sobre eles.

Claro, assim que você se recuperar Luhan — e então, o timbre do profissional voltara. — Sabe que dia é hoje? — Era uma pergunta bastante aleatória.

Claro — tossi limpando a garganta. A ceia de Natal ainda era fresca em minhas memórias. Havia sido na noite anterior. Sorrisos e felicidade genuína estampados nas expressões de cada um. — Vinte e cinco de Dezembro.

A expressão de Seung fechou-se ainda mais. Não entendi o que poderia estar molestando Seung.

— Dois de Janeiro, Luhan — respondeu ele.

Que? — Meus olhos arregalaram-se diante à surpresa. — É impossível — Uma risada sem graça rasgou minha garganta. — Não é hora para piadas Seung. Eu não estou com humor para isso.

— Eu não estou rindo, Luhan —  e soube que ele não estava mentido.  Ele não brincava quando trajava aquela roupa branca. — Você chegou aqui desacordado, precisamos fazer uma cesárea de emergencia, e demorou dois dias para você acordar depois da cesárea. — Ele parou, me dando espaço para absorver a informação. Mas nem todo o tempo do mundo seria suficiente. — E quando você acordou, estava incontrolável. Agitado demais, não permanecia um minuto acordado antes de se alterar. Por dias, te mantivemos adormecido baixo tranquilizantes dos mais fortes. Seria um desastre para sua recuperação se permanecesse acordado sob aquele estresse todo.

Eu não me lembro de nada disso — não havia a mais vaga lembrança desses acontecimentos em minhas memórias.

Está tudo bem. É normal que isso aconteça. O importante é que você e Yue estão bem apesar do susto que nos deu — tranquilizou-me ele, a voz com um timbre delicioso de ouvir. — Luhan, o que aconteceu? — Ali estava uma vez mais, a seriedade da profissão. — Estávamos todos na sala de jantar, quando ouvimos gritos de desespero e corremos, assustados na direção do som. Foi quando o encontramos desacordado no chão.

O encarei, de cento franzido sem entender. Era eu quem não sabia dos acontecimentos, quem não estivera a par da situação e nem mesmo conseguia se lembrar do que fizera. E a verdade era que, naquele momento, tampouco estava interessado em saber. O que mais desejava era sair daquela cama e ver minha filha, minha pequena Yue. A simples ideia de saber que ela estava em algum lugar por detrás daquelas portas, fazia meu coração pulsar em expectativa. Eu queria vê-la, toca-la, senti-la e ouvi-la. Era uma necessidade vital, e me parecia injusto que, depois de todo o tempo em que a carreguei, eu fosse o último a vê-la.

Luhan, você foi exposto a algum tipo de golpe muito forte? Uma queda? Qualquer coisa do tipo? — Seung perguntou, a voz novamente dura como um mármore, destoando seu lado profissional. Eu não queria ouvi-lo. Queria apenas me afundar em meus pensamentos, imaginando minha Pequena Lua, e a aparência que ela teria. Entretanto, sua pergunta me fez prestar mais atenção do que eu gostaria de prestar. O encarei, expectante. — Não foi um trabalho de parto normal, Luhan. Foi forcado por algo externo, havia hematomas sobre seu abdômen. Aconteceu alguma coisa? — Voltou a repetir com mais ênfase em sua pergunta.

Forcei a Mente, novamente repassando a ceia de Natal, desde o momento em que acordei e todos os outros episódios que me lembrava. Eu estava na mesa com todos, quando me levantei, indo para a sala de estar, e permaneci observando a neve. Lembro-me de ter ficado vários minutos em pé, encarando a escuridão do céu, e a dança dos flocos até o chão quando estavam sob a iluminação da casa. E isso era tudo o que eu me recordava antes de acordar no hospital.

Entretanto, eu sabia que estava faltando alguma coisa. Podia sentir esse vazio em minha mente. Alguma coisa que se espremia ao redor dos outros pensamentos, como se tentando fugir. Concentrei-me ainda mais. Eu precisava lembrar. O que havia acontecido?
Vi-me novamente na sala escura, as vozes animadas chegando até mim através das portas abertas da sala de jantar. Eu ia me juntar a eles, estava indo, ansiando pelo aconchego daquela união, mas então uma porta rangeu. O escritório de Sehun. Eu não fui bisbilhotar; só fechar a porta para que não rangesse e não batesse, mas não precisei bisbilhotar, porque ela se insinuava no cômodo, colorindo-o e era impossível não notar. Sorri com a lembrança, como pude me esquecer disso? Era um detalhe tão importante, tão precioso. Era Sehun cultivando nosso amor. De repente senti que todas as minhas energias se renovavam, e faltava apenas que eu tivesse minha Manchinha nos braços para estar completo.

Continuei mergulhando em minhas memórias, contudo, apesar de sentir que algo estava faltando, não consegui encontrar o que era. Depois daquilo, tudo era um breu. Nem mesmo me lembrava de ter sentido dor ou notado que havia algo errado com Yue. Seung pareceu entender sem que eu precisasse usar palavras.

Caso se lembre de alguma coisa, me comunique — assenti, embora não soubesse porque fosse tão importante. O pior já havia passado. — Vou pedir para trazerem uma refeição para você. Preciso que beba bastante água ao longo dos dias.

Seung — o chamei, quando ele fez menção de sair. — Me deixe vê-la, por favor.

Ele sorriu e aproximou-se novamente, dessa vez abaixando-se até estar à minha altura para fazer uma carícia em meu rosto. Fechei os olhos, me sentindo manhoso com o contato humano. Aquele era Seung Hyun como homem, como pessoa, como meu amigo.

Achou mesmo que eu seria cruel com você?

— Você? Nunca — Respondi. — Posso ir agora? — Senti meus olhos brilharem, o coração bater mais rápido.

Só depois que comer. E nem adianta contestar. — Falou ele, pegando uma bandeja das mãos de uma enfermeira, que batera na porta entreaberta, para levar até mim.

Eu não iria. — me defendi, encarando o prato a minha frente. A comida tinha uma cor saudável, e era colorida. Parecia gostosa, mas eu sabia que tinha gosto sintético de borracha. — Não vou me mexer antes de comer essa maravilha — brinquei com sarcasmo, sentindo as pernas formigarem para correr pelos corredores até encontrar minha pequena Lua. Enchi uma colher, colocando-a na boca para o sabor pouco agradável invadir minhas papilas gustativas. — Que delícia — falei com a boca cheia, pouco elegante. Seung riu, e afastou-se.

Meu coração se alegrou com a simples fantasia do momento em que poderia ver minha pequena Lua. Mal podia acreditar que ela estava aqui, entre nós, nesse mundo. E embora fosse emocionante, também era aterrorizante. O mundo não é um lugar fácil, e me vinha preocupações do futuro. Como seria possível proteger alguém tão pequena de tanta maldade? E se eu falhasse, em algum momento, como meus pais falharam? O pensamento fez meu coração se apertar, e com a mesma rapidez que a ideia me surgiu, fiz com que ela fosse embora.

Eu não era meus pais.

Sabia exatamente onde eles erraram, e jamais me deixaria seduzir por coisas fúteis uma vez mais. Acreditava fielmente nisso, e agora, mais do que acreditar, ser um ser humano melhor e íntegro era a missão da minha vida. Faria o que fosse preciso para manter Yue bem, saudável, longe da maldade do mundo. Faria o impossível para protegê-la, e meu conforto era saber que não seria o único. Sehun já demonstrara mais de uma vez que pensava da mesma forma, e ele não precisava dizer para que eu entendesse. Seus gestos, sua forma de me tratar, até mesmo seus olhos cor-de-avelã me diziam isso sem que palavras fossem necessárias.
Pensar em Sehun fez a comida descer mais grossa do que o natural, e não consegui segurar os pensamentos antes de eles deslizarem naquela direção. Afinal de contas, estávamos falando de Sehun.

Oh Sehun, ri com sua imagem se passando em minha mente.

Aquele homem que era para ser apenas um caipira, um bobo apaixonado, com  dinheiro necessário para salvar minha pele, e ele simplesmente salvou a minha vida de maneiras indescritíveis.

Aquele mesmo homem que caçoei, ri desenhei e traí física, moral e emocionalmente, simplesmente me domara, me colocara sob às rédeas do amor, e quando me dei conta eu só queria uma vida toda ao seu lado, explodindo de amor a cada vez que seus olhos avelãs descansavam sob nos meus, cada vez que suas mãos calosas e ásperas, mas gentis tocavam minha epiderme... Eu queria apenas derreter cada vez que seus lábios tocassem os meus para me remontar quando fizéssemos amor.

Eu só queria uma vida com Sehun, por amá-lo, por amá-lo de uma forma que nunca imaginei possível.  Ele fizera tanto por mim... Ele tornara minha vida, meu mundo, um lugar muito melhor. Com seu amor, ele simplesmente me transformou de uma forma que, sozinho, eu jamais teria sido capaz de me transformar. Oh me devolvera o prazer de viver, o orgulho de ser capaz de fazer algo por mim mesmo, a emoção dos pequenos gestos. Devolvera-me o amor parental, me trouxe amigos e uma família. Uma família de verdade, além de devolver minha própria família. Sehun trouxe luz para minha vida, e essa mesma luz fez um jardim de flores maravilhosas florescer ao meu redor, dentre elas, a mais linda e preciosa de todas: Byul Yue.

—Já está bom, Luhan — a voz de Seung cortou meus pensamentos de forma abrupta. O encarei de cenho franzido. — Faz exatamente dez minutos que você está brincando com a comida, e a cabeça no mundo da Lua.

Sinto muito — murmurei, baixando o olhar para encarar a comida, que agora não parecia mais do que lavagem para porcos.

Seung levantou-se, aproximando-se, e acariciou minha cabeça. Sabia que ele estava sendo condescendente comigo, o que me fazia questionar se era profissional que, depois de tanto tempo de nossa amizade, ele ainda continuasse a ser o meu médico.

Hoje vou deixar passar — Falou ele, o riso brincando em sua voz. — Você acabou de acordar, passou por fortes emoções, é natural que não esteja com tanto apetite. — Tenho certeza que ele sabia que nada tinha a ver com apetite. — Vou te levar para vê-la.

O encarei, sentindo os olhos encherem-se de lágrimas.

De verdade? - Sussurrei, a voz quebrando-se pela emoção de algo que ainda nem acontecera.

Seung assentiu, indo até a porta para pedir algo a uma enfermeira. Por um momento, estranhei quando ela trouxe uma cadeira de rodas, mas quando tentei me levantar, notei que meus músculos estavam totalmente entumecidos, e se Hyun não estivesse próximo de mim, certamente teria me esborrachado no chão. Bom, talvez fosse momento de confiar e acreditar em todo e qualquer julgamento de Seung de olhos fechados.

Sentei-me na cadeira sentindo um leve desconforto, e então, suavemente ele começou a me empurrar hospital a fora, me guiando para ver minha Lua e Estrelas. Os corredores pareciam infinitos, estavam vazios e silenciosos, não condiziam em nada com a algazarra em meu coração. Parecia até errado que eu me sentisse tão feliz em um lugar tão melancólico. Mas não me importei. Não me importei nem mesmo com o fato de Hyun estar tão calado. Eu só queria chegar lá e vê-la.

Ver e tocar minha Manchinha. Meu pequeno amor.

Mas a cadeira de rodas parecia mover-se em câmera lenta ou era Seung quem estava caminhando a passos lentos para me torturar? A segunda opção era a mais provável. Ele sabia ser sádico como todo bom amigo deve ser para nos ensinar uma lição e, bom, eu estava sempre precisando de lições. Mentalmente, prometi comer todas as refeições enquanto estivesse no hospital e seguir qualquer restrição médica que me fosse imposta, coisa que nunca fiz. Meus dedos tamborilaram nervosamente em minha coxa, causando graça a Hyun.

Já estamos chegando — e eu sabia que era verdade.

Dava para sentir a vida preenchendo o ar. Sem poder evitar, um sorriso se estendeu por meu rosto. Minhas mãos suaram frio, me obrigando a esfregá-las na calça freneticamente, em uma tentativa inútil se conter o suor. Meu coração parecia prestes a sair pela boca, e só consegui pensar em como aquela situação, aquele nervosismo todo era irônico.

Yue estivera dentro de mim por longos meses. Tecnicamente, eu era o ser humano que mais convivera com ela, que a conhecia como a palma de minha mão. Entretanto, eu sentia que aquela era a primeira vez que iria vê-la. Bom, era a primeira vez, e mesmo que não fosse me parecia improvável que algum dia não fosse haver comoção quando o assunto fosse ela... Ou seu outro pai.

Passamos pela placa sinalizando o tratamento intensivo da maternidade, e o corredor encheu-se de sons que destoavam emoção e amor. As paredes brancas foram substituídas por uma vasta vidraça, com a iluminação baixa e pude notar diversos berços de encubação, com enfermeiras concentradas sapateando entre eles. A cadeira parou. Nesse ponto, senti que o ar me faltava nos pulmões.

Seung parou de se mover, virando a cadeira para o vidro.

 — Esta vendo ali? — Falou ele, em um sussurro, abaixando-se do meu lado com o dedo indicador em riste. — É a Yue, Luhan.

Com o olhar, segui a direção para a qual seu dedo apontava. O berço no qual ela estava era o mais próximo do vidro. Suas mãozinhas estavam movendo-se no ar no mesmo ritmo dos pés, os olhos fechados delatavam que ela dormia, ou ao menos estivera adormecida. E era tudo o que eu conseguia enxergar, mas foi o suficiente para me fazer derramar lágrimas. Grudei o rosto no vidro, chorando em meio ao riso.

Ela é tão linda —  murmurei.  — Tão pequena e linda. — Senti o gosto das lágrimas em minha língua. — Minha Lua, minha Yue.

Seung acariciou meu braço.

Ela é muito forte, Luhan. Como você. — Hyun levantou-se. — Muito provavelmente em menos de um mês já poderei liberá-los.

Posso pegá-la? — Perguntei, encarando-o suplicante.

Ainda não, Luhan. — Minha emoção, murchou, e voltei a olhar pelo vidro. O coração apertado no peito, as mãos formigando para tocá-la. —Mas em breve poderá. Vamos?

Posso ficar mais um pouco? - Pedi, sem encará-lo. Meus olhos estavam colados na imagem do meu bebê. — Prometo ficar quieto, como uma estátua. Eu só quero ficar aqui e vê-la. Vê-la respirar, saber que ela está mesmo aqui.

Seung assentiu, diferente do que imaginei que ele fosse fazer.

—Tenho alguns pacientes agora — avisou ele. — Em duas horas, volto para te buscar. — E então, retirou-se.

Permaneci exatamente onde ele me deixou, zelando de longe o sono do meu pequeno amor. Como prometido, permaneci em silêncio, rindo como uma criança que acaba de ganhar dinheiro dos pais e está maravilhado demais com o fato para deixar de sorrir. Eu me sentia simplesmente em êxtase. Um orgulho crescente no peito ao me dar conta de que fora eu um dos responsáveis por dar vida aquele ser tão perfeito.

O tempo passou e várias pessoas se juntaram a mim no vidro, chorando de emoção ao ver seus entes queridos pela primeira vez. Algumas mães e até pais, entraram e me senti invejoso quando os vi segurarem os filhos pela primeira vez. Embora eu tentasse me controlar, cada vez que ouvia um passo aproximando-se, ficava em alerta, e prendia a respiração, esperando que fosse Sehun, mas ele nunca apareceu.


Já Seung, como prometido, apareceu e me levou para o quarto duas horas depois.

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Os dias no hospital logo adquiriram uma rotina. Eu acordava, tomava um banho e recebia o café da manhã logo depois, que consistia em uma vitamina e um lanche natural, depois fazia uma sessão de fisioterapia, apenas para soltar os músculos pelos dias em que me mantive dormindo. Segunda a fisioterapeuta, em dez dias já não seria mais preciso. Depois, havia a visita de Seung, quem me atualizava do estado de saúde de Yue, fazia exames de rotina, para checar se estava tudo bem e trocava o pequeno curativo da cesárea, que aos poucos deixava de doer. E então, eu almoçava, engolia com desespero aquela comida de aspecto bonito e sabor sintético, como se fosse o manjar dos Deuses. Seung fazia questão de acompanhar, rindo do meu desespero, como o sádico que ele era.

E então, vinha a melhor parte do dia: o momento em que podia passar o resto do tempo olhando Yue através do vidro. Agora com a ajuda de um andador, eu me arrastava pelos corredores sem ajuda de Seung ou dos enfermeiros. A emoção sempre a mesma da primeira vez, como eu suspeitava que fosse ser. Apoiava-me no andador quando chegava, grudava a cara no vidro, e ficava ali, apenas contemplando meu pequeno amor. Minhas mãos formigavam para pegá-la, para apertá-la em meus braços e protegê-la do mundo, ainda que eu soubesse que ali ela estava mais do que protegida, naquela cúpula de vidro, com mangueiras de oxigênio entrando em suas narinas que apenas pareciam pontinhos escuros em sua pele branca.

Cinco dias haviam se passado em um piscar de olhos, e eu já sentia que passara uma eternidade desde que ela saiu de mim. Era um vazio esmagador e reconfortante ao mesmo tempo. Havia uma satisfação muito grande em saber que, em alguns dias, eu finamente a teria em meus braços embora não mais pudesse protegê-la dentro de mim.

Protegê-la...

Senti um peso no peito, um gosto amargo nos lábios. No final, eu não a protegera, e era por minha culpa que ela estava ali dentro, com aqueles aparelhos invadindo seu pequeno corpo, porque eu fora fraco, fracassando em minha única missão e obrigação para com ela. Seung dissera que o nascimento fora causado por uma força externa. Embora não me lembrasse, era provável que eu tivesse caído, esbarrado em algo ou até mesmo que tivesse sido ocasionado pelas emoções que senti ao descobrir sobre a flor.

Hyun sempre me alertara sobre as fortes emoções, e como elas podiam interferir na gestação. No entanto, apesar de me esforçar e ter certeza sobre a seriedade e o entendimento de Seung Hyun, eu não me lembrava de absolutamente nada. Não se lembrava de ter caído ou esbarrado em algo. Só lembrava-me de estar no escritório de Sehun e acordar no hospital, mais de uma semana depois, com dores e sem minha Manchinha em minhas entranhas.

Luhan — a suave voz de Byun chegou até mim como uma brisa de verão, cortando meus pensamentos. Virei-me, sorrindo para ele. — Desculpe-me não ter vindo antes. Seung não deixou.

Não precisa se desculpar- respondi, recebendo um abraço cálido e gentil. — Seung me informou que não teria visitas até que estivesse melhor.

Essa regra certamente não incluía Sehun, porque ele era pai da criança também, e podia ir vê-la quando quisesse. No entanto, apesar disso, ele ainda não aparecera. Não o vira nem uma única vez. E era engraçado como, a cada passo que ouvia no corredor, meu corpo retesava em expectativa, a respiração ficava presa e o coração, acelerado, mas nunca era ele, e eu me sentia um tolo. Comecei a me perguntar se agora que Yue estava entre nós era o momento em que de fato tudo iria se encerrar, como se suas obrigações para comigo finalmente tivesse sido encerradas.

Qual é ela? — Byun me trouxe à realidade com sua pergunta.

Pisquei confuso, e depois de alguns segundos processei sua pergunta.

Aquela ali — respondi, apontando o dedo na direção de Yue, que dormia pacificamente com as mãozinhas embaixo da cabeça.

Ela é tão linda, parece tão pequena — havia um sorriso nostálgico em seu rosto. — Me faz lembrar de Chanhyun. Ele parecia tão frágil quando o vi pela primeira vez. Parecia que se eu respirasse mais forte, ele quebraria.

Assenti, porque eu sabia como ele se sentia.

Antes eu só podia imaginar como era isso, mas agora sei como se sentiu . — Minha voz saiu baixa, com uma leve rouquidão pela emoção. — Quando acordei e percebi que ela não estava comigo... — Minha voz quebrou-se, os olhos encheram-se de lágrimas pela lembrança. Precisei respirar fundo para continuar. — Era como se todo meu mundo tivesse se derrubado sobre mim, uma vez mais. Senti-me tão desesperado, tão impotente.

Byun assentiu em compreensão, encarando Yue, quem se remexeu levemente em sua cunha, chamando a atenção de um enfermeiro, que correu em sua direção. Senti-me invejoso daquelas pessoas de azul, que podia pegar meu bebê nos braços, alimentá-lo e niná-lo enquanto eu só podia contar os segundos para tocá-la, sentindo impotência por não ser útil de outra forma.

Luhan — desviei o olhar para encará-lo. Byun estava com o cabelo comprido, caindo sobre os olhos, de um castanho bem escuro, e vestia um sobretudo preto que ia até os tornozelos. Provavelmente estivesse trabalhando antes de ir até ali. — O que aconteceu? — Franzi o cenho, encarando-o. — Em um minuto você estava conosco, comendo e rindo, e no outro não estava mais. Depois, só ouvimos o grito de horror de Kyungsoo.

Kyungsoo? — Perguntei, confuso. Não me lembrava de ter estado com Kyung naquela noite, e Seung não me dissera que fora Kyungsoo quem pedira por socorro em meu nome.

Sim. — Confirmou. — Kyungsoo — havia convicção em suas palavras, então eu sabia que não era mentira. Bom, não havia motivos para que Baekhyun mentisse sobre algo tão importante — Ele começou a gritar seu nome e depois por socorro, quando chegamos onde estavam, você estava desacordado no chão. Acho que havia sangue no chão. Não sei ao certo. Fiquei desnorteado ao te ver caído.

Senti um arrepio com a novidade. Seung não estava zoando quando disse que eu não perdi Yue por um tris. Se ele não tivesse estado ali, talvez ela tivesse morrido, talvez eu tivesse morrido.

Kyungsoo não falou o que havia acontecido? — Embora não lembrasse, eu sabia que tinha algo faltando, alguma coisa que estava fugindo do meu alcance em minhas memórias.

Disse que te encontrou caído no chão — Baekhyun franziu o cenho, claramente descrente da história. — Que estava voltando do banheiro quando viu a luz do escritório acesa e foi apagá-la, então o encontrou.

Entendo — mas não entendia.

 Não entendia mesmo. Soo jamais teria me ajudado, não importa quão ruim fosse minha situação. Ele simplesmente me odiava, e tinha deixado mais do que claro que Yue estava em seu caminho, que o senso de obrigação de Hun para com ela os atrapalhava. Não havia sentido que ele tivesse tido a benevolência de me ajudar.

— Achei estranho.

— O que? — Perguntei, notando a duvida evidente em sua voz.

—Soo disse que tinha acabado de ir ao banheiro, mas lembro-me de notar a ausência dele por pelo menos trinta minutos. E o banheiro fica do lado oposto do escritório — Senti um arrepio se espalhar por meu corpo e um silêncio ensurdecedor preencher o espaço entre nós. Byun mordia o lábio inferior, pensativo. E então, sorriu. — Esquece isso. Chan está sempre dizendo que sou o fanático das teorias da conspiração. O importante é que graças a Kyungsoo vocês estão bem.

Sorri, um breve esticar de lábios. Esse úlimo fato era justamente o problema. Byun não tinha como saber. Mudei de assunto como se nada tivesse acontecido. Baekhyun falou sobre sua experiência com Chanhyun, e a dificuldade que teve de enfrentar até poder finalmente ter o filho nos braços. Era bom saber que eu não estava sozinho. É claro que havia pelo menos uma dezena de crianças na UTI neonatal, mas ter alguém próximo que passou pelo mesmo ajudava muito. Permanecemos ali pouco mais de dez minutos, então ele despediu-se, depois de receber uma mensagem, dizendo que tinha um compromisso marcado. Despedimo-nos, e então me vi sozinho novamente.

Embora eu tenha tentado não pensar no que Byun dissera, foi impossível ignorar a sombra que se acendeu em meus pensamentos. A ideia de que alguma coisa de fato havia acontecido tornou-se cada vez mais forte. Apesar de já ter tentado e falhado miseravelmente, percebi que era quase vital que eu me lembrasse do que havia acontecido naquela noite.

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Os dias começaram a passar mais depressa, e eu acompanhei dia-a-dia o crescimento de Yue. As visitas chegavam todos os dias; Maya, Alandra (quem eu nunca sabia se ia me ver, ver Yue ou o namorado), Sulli, Chanyeol, Baek e até mesmo Sehin, quem estava cada vez mais empolgada com a ideia de ter seu próprio filho, gerado no ventre do marido.

Sehin sofrera uma mudança de personalidade surpreendente. Até mesmo sua forma de se vestir, a maquiagem, os gestos, a voz... Tudo nela estava mais leve, mais real e palpável. Não havia mais o ar arrogante ou o olhar de desdém. Seus olhos agora eram gentis e simpáticos, como os de Sehun. Era uma veracidade que vinha de dentro, não era forçado, e eu percebia como isso só a tonara ainda mais bonita, admirável.

Entre idas e vindas de visitas, a mais esperada nunca chegou, e comecei a ter certeza de que Hun havia mesmo nos abandonado. Sei que a ideia era absurda perante a tudo o que ele já fizera por nós, mostrando que se importava verdadeiramente. No entanto, sentia meu coração machucado por sua ausência interrupta. Imaginei que ele fosse estar tão emocionado quanto eu quando chegasse o momento de ver nossa Pequena, pela forma como ele falava, com brilho nos olhos e sorriso nos lábios, sobre nossa pequena Yue.

Sehun nunca veio vê-la? —  Perguntei  diretamente para Seung em um fim de tarde enquanto ele ouvia o som de meu coração através do estetoscópio. Ele me encarou, de cenho franzindo. Suspirei. — Sehun nunca veio ver nossa filha? — Repeti com cansaço na voz. Nunca o vi no horário de visita, e seria impossível não ver, porque passava o dia todo vendo meu bebê através daquela vidraça.

Seung sorriu, afastando e ajeitando o instrumento ao redor do pescoço por baixo da gola branca do jaleco. Não gostei daquela reação.

Tudo certo com você, Lu — Ele bagunçou meu cabelo, que agora quase ultrapassava a altura dos olhos em comprimento. — E, bom, sobre sua pergunta, acho que mesmo que não o tenha visto pode responder essa pergunta a você mesmo, basta querer. — E deu de ombros despreocupadamente, levantando-se.

Seung, não estou com cabeça para charadas. — E realmente não estava. Havia muita coisa em que pensar nos últimos dias. Tinha a história com Kyungsoo, meus pais, Yue... Sehun era uma sombra de dúvida, e eu só precisava clareá-la com a verdade. Se eu soubesse que ele não estava vindo, aquilo arrefeceria a dor que eu estava sentindo por sua ausência. E certamente calaria de vez aqueles sentimentos que eu nutria por ele, pois uma coisa era Sehun rejeitar meu amor... Outra bem diferente era rejeitar nossa filha, que não passava de um ser inocente.

Seung riu.

— Não é uma charada, Lu. Você o conhece melhor que eu. Isso é o suficiente para saber o que quer. E, bom — ele deu de ombros —, se você não souber, eu que não vou saber.— De forma encenada, ele consultou o relógio em seu pulso. — Deu minha hora. Lembre-se de descansar e se alimentar direitinho pela manhã. — Assenti sem vontade. — Te vejo amanhã.

Suspirei, ajustando a maca para deitar sobre ela e dormir. Se eu dormisse, embora ainda fosse cedo, toda aquela tensão e dúvida seriam tiradas de cima de meus ombros. Não queria ficar mais um minuto me procurando com o fato de Sehun ter ou não ido ver nossa filha. Era ele quem perdia... Quem perdia aquele pedaço de gente chupando o dedo enquanto percorria com grandes olhos avelãs o neonatal. Ou então seu choro suave, que mais parecia um som criado por alguém muito talentoso. Era Sehun quem perdia...

Mas então, por que meu coração doía tanto?

Eu queria não pensar nisso e tentava fingir que não me importava. Se Hun não queria contato com Yue agora que ela finalmente estava conosco, eu deveria não querer absolutamente nada com ele. Deveria ser o suficiente para esquecê-lo de vez. Por que eu haveria de amar o pai de minha filha ainda quando ele não se preocupava com ela?
Acontece que, de alguma forma, sabia que ele jamais faria isso. Havia admiração, dedicação e amor ainda em seus olhos, e eu sabia que seu senso de responsabilidade era maior que tudo. Entendi perfeitamente o que Seung quis dizer, e era que Hun jamais iria nos ignorar.

Entretanto, onde ele estava? Porque ainda não aparecera? Não precisava ficar o dia todo vendo-a como eu fazia, era só aparecer e dizer: “Eu estou aqui ainda”. Se ele fizesse isso, tudo estaria bem novamente. Não precisava ser um minuto completo, um segundo seria o suficiente.

Revirei-me na cama, sentindo a ansiedade se espalhar por todo meu corpo. De certa forma, me senti um campeão por não ter me colocado a pensar profundamente em questões envolvendo Sehun por tanto tempo, contudo agora que me deixava ser carregado pelo oceano de meus sentimentos, os efeitos chegaram tão rápidos e violentos quanto uma onda em dias de ressaca.

Eu simplesmente queria vê-lo e dizer que senti muito medo, que senti tanto medo de perder Yue... De que algo acontecesse com ela. Aqueles segundos... Os míseros segundos que não soube onde ela estava foram aterrorizante. Onde você estava, Sehun? Se estivesse lá para segurar minha mão tudo teria sido mais fácil de suportar, porque não teria me sentido tão sozinho, tão perdido, tão desamparado. Teria sabido que ainda havia um alicerce segurando o céu sob minha cabeça, que meu dia estava nublado, mas logo sairia sol, porque era assim que eu sentia quando Hun estava comigo; que minha vida sempre seria iluminada e aquecida com sua presença.

Mas não foi assim.

Havia tempo que deixara de ser.

Meu coração doeu ao pensar em tudo o que poderia ter sido e não foi por conta de meus erros estúpidos e egoístas. Poderíamos ter tido um futuro diferente... Mas eu estraguei tudo. Sem que eu pudesse evitar as lágrimas vieram à tona, molhando meu rosto e o travesseiro. Mesmo sabendo seria como sal respingando em uma ferida aberta, deixei meus pensamentos viajarem para meus dias de felicidade pura e genuína ao lado de Sehun. Os dias em que eu ia recebê-lo após seu longo dia de trabalho, o sorriso de alegria pura pincelada em seu rosto a me ver chegar, suas mãos embarradas em minha cintura e seus lábios acetinados sobre os meus...

Em que momento exato eu caí por ele? Quando foi que me desviei de meus objetivos, rastejando e desejando cada vez mais seus toques, sua atenção?

Eu queria Sehun.

Por mim.

Por Yue.

Eu queria Sehun em minha vida.

Tudo o que eu mais almejava era que estivéssemos juntos novamente, que pudéssemos estar os dois ao lado de Yue quando desse seu primeiro passo, quando dissesse sua primeira palavra. Eu só queria estar com ele.

Fechei os olhos, deixando as lágrimas rolar silenciosas enquanto meus pensamentos vagavam por um mar de momentos com Sehun; uma família feliz, regada por amor. Um futuro que talvez jamais acontecesse, mas que era o suficiente para encher meu coração de esperança e anelo.

 Com um sorriso no rosto, adormeci.

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Despertei assustado, com um salto, me sentando na cama. O coração estava acelerado e doído. O ar mal chegava aos pulmões antes de sair pelas narinas. Havia um gosto amargo em minha boca e, embora eu não lembrasse, havia a sombra de um pesadelo pairando sobre mim. Um pesadelo que me deixara de cabelos em pé. Olhei para os lados, buscando alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse me acalmar.

Mas não havia nada.

Absolutamente nada.

Só o silêncio.

O vazio.

O desespero comprimindo minhas entranhas.

Apartei o cobertor, e desci da cama, caminhando até a porta. Os corredores estavam vazios e silenciosos, e mesmo se tivesse qualquer alma naquela calmaria, simplesmente passou batido. Meus pés caminharam rápidos e certeiros na direção da UTI neonatal, o coração retumbando em meus ouvidos. A sensação era a de ser um imã e estar sendo atraído por uma força magnética até ali.

E então, mesmo antes de chegar eu soube o que era ou quem era. Era Sehun. Eu tinha certeza. Seu perfume tão único e característico voou até mim pelos corredores vazios, fazendo todo um reboliço dentro de mim. Sorri, desejando loucamente vê-lo.

Podia ser que nem tivéssemos o que falar um para o outro ou até mesmo que aquilo ainda fosse um sonho, mas eu não estava muito interessado nos detalhes. Imediatamente, apertei o passo, começando a correr nos últimos metros que me separava dele. Se fosse um sonho eu só desejava que não acabasse, que eu não acordasse ainda.

Aqueles mísero segundos que levei para alcançar o lugar de onde vinha o perfume, me encheu de esperança e expectativa. Chegava a ser engraçado como podemos pensar em tantas coisas em tão pouco tempo. Eu iria dizer tudo a Sehun, o medo que senti e a ansiedade que sua ausência me causou, que eu tive medo, não só por mim, mas por nossa Yue, nossa Estrela, que poderia viver uma vida sem o calor trazido por seu outro pai.

Eu também diria, uma vez mais, e pela última vez, como me sentia. Como meu coração ainda se desesperava com sua presença, com a sombra de sua existência, como minhas mãos coçavam para tocá-lo e como meus lábios queimavam por beijá-lo. Eu diria novamente tudo o que já dissera: que o amava, o amava como jamais imaginei amar alguém. Não era só o fato de ele ter me devolvido à vida, de ele ter me amado e me amparado quando ninguém mais o fizera, mas também o fato de ele ter me domado e me conquistado somente sendo quem ele era.

Mas quando o vi ali, parado, rindo em direção ao vidro, parecendo um espectro vindo do céu, minhas pernas congelaram. Meu coração se contraiu no peito e eu só pude permanecer à distância, observando-o. Hun parecia diferente. Não que seu cabelo estivesse de outra cor ou que tenha diminuído em tamanho, era só que... De alguma forma, ele parecia ainda mais angelical que antes.

Senti medo de me aproximar e quebrar aquela imagem. Senti medo de dizer a coisa errada e o sonho se tornar um pesadelo. Eu queria morar naquele sonho. Sem que pudesse evitar, um soluço escapou por meus lábios, e comecei a hiperventilar, tentando segurar o choro. Meus lábios tremiam e os olhos, estavam cheios de lágrimas. Abaixei-me no chão, abraçando o corpo, chorando.

— Por favor, não acorde — murmurei entre os soluços. — Por favor, não acorde. — Só mais um minuto, um minuto mais daquela paz, daquele momento mágico, era só isso que eu queria. Repeti esse mantra uma e outra vez, a cabeça entre as pernas, os olhos fechados.

— Luhan — o toque gentil e quente me estremeceu ou foi a voz que eu ansiara ouvir nos últimos sete dias? Eu não sabia. Mas era tão gentil, que me senti encolher, tendo a certeza de que era um sonho. — Luhan — a voz foi mais séria, a mão continuo gentil, mas mais firme.

—Não quero que você desapareça — falei, ainda sem coragem de levantar o rosto. — Sei que vai sumir assim que eu me acostumar a esse sonho — sorvi o nariz de maneira pouco elegante.

Hun suspirou, e então senti seus braços ao redor do meu corpo. Se consegui evitar o abracei de volta, com força... Como se eu precisasse daquilo para viver... E precisava, eu precisava. Precisava muito.

Suas mãos acariciaram meu cabelo e um beijo foi deixado no topo da minha cabeça.

— Não é um sonho, Lu — eu estou aqui.

— Mas não estava antes — solucei. — Não estava quando eu mais precisei. Você demorou sete dias para vir, Sehun. Eu só queria que tivesse estado aqui antes. Eu esperei você. Cada passo que ouvi, cada presença que senti, eu só queria que fosse você. Por que você demorou tanto? — Me afastei o suficiente para socar seu peito, sem a mais mínima força.

Sabia que aquela atitude era totalmente infantil. Sehun não tinha a mais mínima obrigação de me acalmar, me abraçar ou de ouvir palavras tão injustas. Ele tinha a obrigação de ser pai de Yue, porque não existiam ex-pai, porém existem ex-maridos, e eu era um deles. Não era?  Não estávamos casados fisicamente, embora no papel sim. Bom, eu não sabia o que éramos. E não tinha sentido pensar em coisas tão complicados quando eu podia estar aproveitando meu sonho, meu sonho doce onde Hun me abraçava com suas mãos quentes e carinhosas.

Afastei-me, abrindo os olhos finalmente para encará-lo. Hun parecia cansado. Meu coração partiu ao ver as olheiras escuras baixo seus olhos, destacando-se na pele clara.  Ele parecia cansado, e ainda assim cheio de amor e felicidade tão puro como sempre fora.

Um sorriso iluminou seu rosto, uma de suas mãos repousou em minha bochecha, acariciando minha pele.

— Eu estive aqui, Luhan — respondeu ele, com calma. — Primeiro ao seu lado durante cada segundo que tinha disponível, segurando sua mão e esperando que acordasse, e aqui com nossa Lua durante todas as noites, zelando o sono dela.

— Não mente pra mim — supliquei.

— Quando foi que eu já menti para você, Luhan?— Ele me olhou de um maneira que fez o ar sumir de meus pulmões. Ali havia uma suplica, um desespero tão palpável, que se me propusesse eu poderia segurar nas mãos e jogá-lo para longe, porque não combinavam com Sehun. Nada que fosse negativo combinava com ele. E eu tinha o dom de trazer isso à tona. — Eu nunca mentiria para você. Nunca — reafirmou ele, com uma ferocidade na voz.

E eu sabia disso. Sabia mais do que qualquer outra pessoa. Ainda quando ele omitia as palavras, seus olhos diziam a verdade. Aqueles olhos cor-de-avelã sempre diriam a verdade. E isso era minha perdição, e por aquele olhar que eu jamais conseguia me afastar, que eu jamais conseguia me convencer de seguir em frente sem tentar.

O encarei, me deleitando com aqueles olhos gentis e sinceros, com a face tão bem desenhada, tão linda e perfeita apesar do cansaço, e acariciei seu rosto de volta.

— Eu sei — murmurei. — Eu sei, Sehun — E o abracei novamente.

Foi engraçado, porque eu tinha muitas coisas para dizer a ele, tantas que uma semana talvez fosse pouco para fazê-lo, porém naquele momento entendi que era a mais pura verdade quando diziam que um abraço valia mais que mil palavras. Porque enquanto seus braços me rodeavam fortemente, colando ainda mais nossos corpos naquele chão gelado de hospital, não havia nada que eu precisasse dizer ou ouvir. Estava tudo ali naquele toque.

Tão sincero e tão real.

Tão forte quanto qualquer declaração de amor escrita ou dita poderia ser.

E havia o fato de que de alguma forma eu sabia que ele estivera mesmo ali. É impossível explicar como ou porquê, mas eu apenas sentia. Podia ser sua expressão tão demarcada ou o simples fato de que suas palavras soavam sinceras ou então apenas o fato de eu encontra-lo numa madrugada fria, zelando o sono do nosso bebê naquele corredor vazio de hospital. Eu só sabia, e escolhi confiar nele.

Deixei-me ficar ali, sentindo o calor do seu corpo aquecer o meu, a cabeça colada em seu peito, ouvindo o bater de seu coração ressoar em meus ossos. Embora aquele abraço significasse tanto, eu ainda queria perguntar muitas coisas, como por exemplo o que ele sentira ao ver nossa Pequena Lua ou se sentiu seu mundo desabar quando Seung dissera que ele viria ao mundo prematura? Eu estive desacordado e não tinha ideia do que era esse desespero, então, me dei conta de que, se Hun falava a verdade (e eu não duvidava dele), ele também esteve sozinho em um momento de sofrimento visceral.

Queria dizer alguma coisa para confortá-lo, no entanto senti que meu corpo ficava cada vez mais leve e a mente, anuviada. Uma parte de minha mente se desesperou. O coração sabendo que estava cada vez mais próximo do fim aquele momento tão mágico, e antes que eu pudesse me negar, o sono me abraçou totalmente.

Quando acordei, olhei para todos os lados esperando encontrar Sehun, mas, como imaginei, ele não estava no quarto. Não esperava de fato mesmo que estivesse, e aquilo foi o suficiente para me convencer de que sonhara na noite anterior, porque tudo parecia exatamente igual, até mesmo a forma em que eu me deitara na cama após a saída de Seung era a mesma.

Contudo, mesmo sabendo disso, havia uma calmaria em meu coração. Ao longo do dia, não fiquei preso à pensamentos negativos ou estremecendo a cada segundo, achando que era ele quem estava se aproximando, eu simplesmente me conformei, como se o sonho fosse o remédio que estava faltando para que eu me convencesse de que Hun não nos abandonaria.

Isso era muito engraçado, quer dizer, a forma como meu subconsciente sempre buscava uma maneira de conseguir acreditar e confiar em Sehun, me convencendo a esperar por ele. Esperar por ele e por seu amor. Eu só queria saber até quando teria que ficar nesse pendente, aguardando.

— Ah, ai está você, Luhan — a voz de Seung me trouxe de volta à realidade. O encarei, franzindo o cenho.

— Por que a surpresa? — Perguntei. — Estava me procurando? — Ele assentiu e me senti apreensivo. — Há algo errado?

Hyun riu, achando graça do meu desespero precoce.

— Negativo. Hoje você vai poder segurar Yue nos braços.

— Você está falando sério? — O encarei, descrente. E ele assentiu.

Sem ao menos conseguir prever, as lágrimas de emoção tomaram conta do meu rosto, inundando-o. Olhei minha filha através do vidro, sorrindo. Com as pernas bambas e as mãos trêmulas, segui as instruções de Seung, vesti uma roupa azul, coloquei uma touca na cabeça e uma mascara sobre a boca e o nariz. Ele mostrou como eu deveria lavar as mãos e as higienizou uma e outra vez com álcool, e então me guiou até a sala, abrindo a porta para que eu pudesse entrar.

O ar ali dentro era quente e barulhento, com diversos aparelhos e choro de criança preenchendo o ar. Meus olhos não desgrudaram do lugar onde Yue estava e tive que me conter para não correr em sua direção.

—Olá, Doutor — cumprimentou um rapaz, aproximando-se. Em suas mãos havia uma pequena prancheta. — Quem veio visitar?

— Esse é Luhan, pai da Yue — falou ele. Fiz uma breve reverência para o rapaz, milimetricamente calculada, pois não estava confiante em relação às minhas pernas.

—Ela é um bebê muito especial — falou ele, começando a me guiar para uma cadeira próxima do lugar onde ela estava, de frente para o vidro pelo qual eu sempre a observava. Havia um casal do lado de fora, observando, e me senti um pouco triste por eles. Era horrível ser a pessoa daquele lado. Sentei-me, sentindo o coração cada vez mais pesado no peito. — Acredito que em dois ou três dias já vai poder receber alta. No momento, estamos apenas tentando que monitorar os pulmões dela e o coração. Mas acredita que ela já respira sozinha?

Seung riu.

— Acredito profundamente.

A verdade é que eu mal escutava ou entendia o que eles estavam dizendo. Eu só conseguia ansiar pelo momento em que poderia pegá-la nos braços e segurá-la pela primeira vez. Comecei a contar os segundos mentalmente, mordendo os lábios com força quando os dois se aproximaram de onde ela estava e a retiraram de lá, deixando-a em meus braços. Naquele momento, eu me senti completo. Era como se não precisasse de nada mais no mundo. Na verdade, era como se eu não precisasse nem mesmo do mundo para poder viver e ser feliz. Todo o resto tornara-se irrelevante.

— Oi, meu amor — falei, olhando para seus olhos avelanados... Tão avelanados, tão iguais aos de Sehun que dava a impressão de estar olhando para ele. — Você tem os olhos do seu pai, sabia? — Ela grunhiu, como se concordasse, e eu ri. — Você é tão linda — sussurrei, tocando sua pele com uma das mãos.

Meu coração estava tão cheio de sentimentos, que eu não sabia se quer como poderia discerni-los. Sempre imaginei que com Hun descobrira o sabor de muitas coisas, que ele me completara de todas as formas possíveis, e ainda achava isso, pois era simplesmente um fato. No entanto, com Byul ali em meus braços, era simples indescritível. Era como se todos aqueles sentimentos que eu nutria por Hun triplicassem e se juntassem à outros bilhões mais.

Era indescritível.

Simplesmente permaneci ali, observando-o e chorando de emoção. Ela era tão pequena e parecia tão frágil, que me peguei controlando a respiração para não machucá-la, o que poderia parecer idiota, pois eu estava de máscara. Sorri, brincando com sua mãozinha que dançava no ar.

O tempo pareceu parar enquanto eu a tive em meus braços, ela era uma pequena cópia de Sehun, como eu esperava que fosse. Os lábios pequenos e cheios, os olhos avelãs como meias luas. Abri a boca, virando-me para dizer isso a ele, e foi então que me dei conta de que Hun não estava ali.  Por um momento, toda a emoção arrefeceu um pouco, porque Hun teria amado segurar Yue nos braços, tenho certeza. Eu tinha a absoluta certeza de que ele seria um pai babão, como Chanyeol o era. Queria poder dividir aquela emoção com ele. Sorri para Yue, me sentindo idiota por ter esses pensamentos quando eu poderia estar aproveitando aquele tempo que poderia acabar a qualquer momento.

Olhei para o teto, engolindo a vontade de chorar e quando abaixei a cabeça, eu o vi. E foi então que de fato o resto do mundo sumiu e só restou nós três. Ele estava bem ali, parado com o rosto colado no vidro, observando os dois. De longe, eu não tinha certeza se era real ou fruto da minha imaginação, mas tive a impressão de que seus olhos estavam inundados de lágrimas. Eu sorri, me sentindo idiota por estar chorando copiosamente, ergui um pouco nossa filha, como se isso fosse o suficiente para ele vê-la, e seu sorriso cresceu ainda mais, se é que isso era possível.

Naquele momento, não me recriminei por me permitir sonhar. Me deixei ser levado por uma onda de sentimentos, de sonhos e ilusões. Nós éramos uma família, não éramos? Eu podia sentir o amor de Sehun através do vidro, e não era só por Yue, era por nós dois. Nosso bebê e eu. Era impossível que eu tivesse enganado, e me senti um tolo pelos pensamentos negativos que tive em outrora.

Sehun apontou para o pulso, sinalizando tempo, e entendi que ele tinha um compromisso. Meu coração comprimiu-se um pouco no peito, antecipando-se ao momento que estava por se dissipar. Tentei não demonstrar como aquilo me entristecera embora eu também me sentisse feliz por ainda ter minha filha nos braços, mas então ele juntou as mãos em concha sobre o vidro e soprou o ar contra ele, embaçando-o, e depois desenhou um pequeno coração com os dizeres 我爱 dentro dele, e se retirou, como se não tivesse deixado uma bomba em contagem regressiva para trás.

Talvez eu devesse odiar Oh Sehun por ser quem ele era, por ser aquele homem tão perfeito em tudo o que se propunha e por deixar sinais que podiam ser fatais para meus coração, mas me era impossível. E, embora aquilo pudesse não ser nada além de um pai demonstrando o amor por sua filha, o pequeno fato de ele ter escrito eu te amo em chinês, era a cor que faltava para colorir o meu mundo.

— Acabou o tempo — falou o enfermeiro, e eu pude ouvir como meu momento de mundo encantado e perfeito se partia.

Por um segundo pensei em fazer uma birra e pedir por mais um tempo com minha filha, mas mudei de ideia quando concluí que quanto mais rápido ela crescesse, mas rápido eu a teria em meus braços. Então, assenti, tentando ignorar o vazio que se espalhou por mim quando ele a tirou de meus braços.

Seung me guiou para fora e me ajudou a tirar as roupas.

— Obrigada, Seung — falei enquanto caminhávamos para o quarto. — Eu mal posso explicar o que foi segurar Yue nos braços. — Era difícil conter a emoção.

— Não precisa agradecer, Luhan — respondeu ele, dando de ombros. — Esse momento já deveria ter acontecido há uns dias — ele se interrompeu, mordendo os lábios.

Franzi o cenho.

— Há uns dias?

Seung suspirou, abrindo a porta do meu quarto para eu entrar.

— Sehun me implorou para que esperasse por hoje, Luhan, porque era um dia em que ele teria um momento livre e poderia estar presente. Ele só queria estar presente em um momento tão importante — revelou ele, parecendo se sentir culpado. — Pode ficar bravo se quiser, é um direito seu, mas é um direito de Sehun também participar da vida de Yue — por algum motivo, Seung parecia estressado, como se estivesse na defensiva. Ele permanecia com a mão na maçaneta, apertando. — Quer saber de uma coisa? Embora Sehun tenha pedido para eu não dizer, sinto que também é um direito seu saber.

— Saber o que? — Meu coração parecia prestar a sair pela boca. Eram coisas demais para assimilar. Tive que me sentar na cama, temendo que a emoção da revelação e do momento com Yue me levasse ao chão.

— Sehun passa as noites no hospital, dividindo o tempo entre zelar o seu sono e o de Yue, porque tem estado tão atolado de coisas para resolver na Fazenda, que não pode vir durante o dia. Eu já disse que isso vai mata-lo, mas o homem não me escuta — Seung respirou fundo, e estava óbvio que sua preocupação com Hun era sincera. Eu ainda estava tentado assimilar tudo para que ao menos cogitasse conseguir acalmá-lo. — Espero que isso responda sua pergunta do outro dia, e muitas outros.  — Dizendo isso, ele se retirou, batendo a porta atrás de seu corpo. E eu fiquei, tentando assimilar tudo o que ele havia dito.

Eu queria sentir ainda mais raiva de Sehun agora. Juntar com aquele ódio que eu deveria sentir (mas não sentia), com essa raiva que eu também não conseguia sentir. Deveria odiá-lo porque me foi adiado um momento que eu ansiara enlouquecidamente dias à fio, contudo como eu poderia se quer nutrir  sombra de um sentimento negativo por Sehun?

A verdade é que eu me sentia eufórico com a simples ideia de que ele havia pedido para Seung que fosse em um dia que ele pudesse estar presente. Ele não pedira para segurar Yue, pedira apenas um momento em que me pudesse ver tendo-a em meus braços pela primeira vez. Como eu poderia odiar um homem assim?

Como poderia sentir raiva de uma pessoa que estava, literalmente, se privando de dormir para estar com nossa filha? Para poder vê-la durante as noites? A simples ideia me deixava emocionado. Deitei-me na cama, sorrindo como idiota. Sehun não cansava de me surpreender. Era como no sonho que eu tive a outra noite. Sonho? Franzi o cenho, me dando conta de que aquilo era simplesmente a realidade. Naquele noite, Hun estivera ali, eu o vira, e ele me abraçara daquele jeito que faz eu pensar que sou seu mundo, que sou a coisa mais importante de sua vida.  E eu me senti tão profundamente agraciado e encantado, que não pude dizer tudo o que desejava dizer, tudo o que planejava.

Sentei-me na cama, ainda pensando sobre o que Seung dissera. Se era verdade o que ele dissera, se Hun passava as noites ali, eu poderia vê-lo. Poderia, não. Eu iria vê-lo. O que seria uma noite de desvelo para o homem que se desvelara durante dias por mim? Sorri  com a ideia. Dessa vez, eu diria tudo o que tinha para dizer e nem esperava que Sehun respondesse. Tanto agora, como antes, seus gestos, sua forma de agir já deixava tudo mais do que claro.

Levantei-me em um salto, caminhando pelo quarto para pegar um roupa e tomar banho, e foi só então que notei, sobre a mesinha no outro canto do quarto um pequeno buquê de margaridas. Quase voltei a chorar pela emoção e pelo duplo sentido que aquilo poderia ter. Com as mãos trêmulas, levei as flores ao nariz, inspirando sua fragrância sutil, e depois procurei o cartão que já sabia que estaria nelas, e o encontrei, o cartão e uma flor de lótus entre os caules das margaridas. Eufórico, abri o cartão.

Às flores do meu jardim, prometo amor e proteção.

S.H.

Grunhi de moção, abraçando o papel tão apertado, que o amassei completamente. Mas quem ligava? O que mais me importava era o sentimento real, era o que aquilo simbolizava, e aquilo simbolizava meu mundo todinho se reerguendo e se colorindo de uma forma que jamais julguei possível.

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A noite caiu antes mesmo que o relógio chegasse às seis da tarde. O céu ficou cinza e uma torrente desceu sobre a terra, trazendo consigo relâmpagos e trovões ensurdecedores. Comi o jantar apesar de não sentir fome, e peguei um livro para ler enquanto esperava. Seung não dissera que horas Sehun chegava ou que horas ele ia embora, só dissera que ele vinha toda noite, então eu não tinha opções a não ser permanecer acordado até que a noite chegasse.

E foi o que eu fiz.

Vi o relógio bater vinte horas, vinte e uma e vinte e duas. Tentei me concentrar na leitura, mas a cada página eu só sentia que estava arrastando a leitura e não entendia absolutamente nada do que estava lendo. Se me perguntassem, eu nem saberia dizer qual era o título do livro. Só estava fingindo que estava fazendo algo para não ficar o tempo todo olhando para o relógio.

Entretanto, nem isso fez as horas se adiantarem. E eu percebi que era minha ansiedade que fazia o tempo se arrastar de maneira preguiçosa, sem a menor pressa de chegar. Quando o relógio marcou meia-noite, comecei a me perguntar se de fato Sehun chegaria em algum momento ou se ele escolhera justo aquele dia para não ir ou então...

Não, Seung não estava mentindo. Ele parecia preocupado demais. E não precisava ser um gênio para saber como Hun poderia afetar Alandra e consequentemente Seung, que era seu namorado, sem falar que, como médico, deveria ser desesperado para ele não conseguir fazer nada.

Eu só precisava esperar. Talvez Hun quisesse ter seu tempo com Yue, uma vez que era só de noite que ele podia vê-la quando eu conseguia ficar vendo-a horas a fio. Depois dela, ele viria até mim. Só tinha que ser paciente e esperar. Pousei o livro em meu peito e permaneci observando o relógio se arrastar em círculos.

A porta rangeu ao mesmo tempo em que um trovão estremeceu as janelas do quarto. Remexi-me, abrindo os olhos. Devo ter adormecido enquanto observava o relógio.  Sentei-me, tentando enxergar a hora no relógio, cocei os olhos e os abri novamente, olhando ao redor. Senti o cheiro do perfume de Sehun no ar, mas era tão fraco, que não sabia dizer se era real ou coisa da minha cabeça. Olhei uma vez mais para o breu ao meu redor, sem conseguir discernir alguma coisa. Não me lembrava de ter apagado a luz. Um relâmpago clareou o quarto e levei um susto ao notar uma sombra aos pés da cama.

—Sehun? — Murmurei, sem obter resposta, tateei a parede atrás da cama e acendi a luz, engolindo um grito quando Kyungsoo tomou forma a minha frente. Ofeguei, despertando de vez do sono. — O que você está fazendo aqui?

— É bom te ver também, Luhan — ele estava vestido com uma jaqueta de couro preta que era de Sehun, então soube que o perfume vinha dali. — Como você está?

Levantei-me, caminhando até a porta para abri-la.

— Kyungsoo, não sei exatamente o que você quer, mas quero que saia agora — falei, tentando não demonstrar o quanto sua presença me desestabilizava.

— Luhan, não precisa ficar todo bravinho porque o Sehun não veio — continuou ele, me ignorando e sentando-se aos pés da cama. Ele olhou ao redor do quarto, os olhos recaindo sobre o buquê de flores. — Ele dormiu, a caminho daqui — levantando-se, Soo caminhou em direção as flores, pegando-a. — Eu estava dirigindo, e ele fechou os olhos para descansar quando acabou dormindo, é só por isso que pude te fazer uma visita. — Com uma das mãos ele isolou uma das flores no alto, rodopiando-a pelo caule na frente dos olhos. — Mas vou te contar... Deu trabalho para o segurança me liberar, porque aquele idiota do Seung deixou autorização somente para o Sehun.

— Devolve a flor — pedi, ignorando seja lá o que ele estivesse dizendo. Eu não estava de fato prestando atenção.

Você não importa, né? Se eu... Despetalar ela? — minha cabeça latejou, me obrigando a soltar a maçaneta para segurá-la com as duas mãos. Kyungsoo não esperou uma resposta, começando a separar cada pétala do caule lentamente. — Mau-me-quer, bem-me-quer.

Eu queria chegar até ele e jogá-lo para fora do quarto ou que simplesmente acordasse daquele pesadelo, mas minha cabeça latejava. A frase de Do ressoando em meus ouvidos e vibrando em minha cabeça. Talvez tenha sido por isso ou alguma outra coisa qualquer, a recordação que tentando se esgueirara entre minhas memórias finalmente veio a tona, e eu perdi o fôlego quando ela se reproduziu entre mim.

Vi-me uma vez mais frente a frente com Kyungsoo, suas mãos firmes em minhas bochechas, apertando a carne, as pétalas da gérbera espargidas no chão e o frio do inverno entrando pela janela aberta do escritório. Eu senti o medo em meus ossos novamente, fazendo minha respiração se agitar.

— A única coisa que prende Sehun a você é essa aberração. Então, que tal descobrirmos o que vai acontecer quando ela não existir mais? — Kyungsoo havia dito, com uma voz gélida e cruel e então...

O encarei.

— Foi você — falei, apontando o dedo em sua direção. — Você que causou tudo isso. Você tentou... — Minha voz falhou, precisei procurar apoio na parede para não cair. — Você tentou matar minha família — meus lábios tremeram com a simples menção.

Soo jogou as flores no chão, pisoteando-as.

— Memória seletiva? — Ele me olhou, sorrindo. — Sabe, aquela coisa de autoproteção, quando seu cérebro bloqueia uma memória para que você não sofra com a lembrança dela.

— O que você quer? — Eu ainda me sentia fraco, mas buscava encontrar a força necessária para avançar no pescoço de Kyungsoo e esganá-lo. — Você tentou matar minha filha. O que quer de mim? O que quer de nós?

A simples ideia de tê-lo ali, no mesmo quarto que eu, sabendo o que ele fizera, que ele atentara contra nós, fazia meus ossos gelarem, meu corpo estremecer. A verdade é que eu estava com medo, com um medo visceral. E só não me deixei desesperar com a possibilidade de ele ter feito mal a Yue naquele momento, pois sabia que a UTI Neontal era monitorada 24/7.

— Ela está bem, Luhan — ele deu de ombros, como se aquilo não fosse relevante, e então abaixou-se, pegando algo no chão. — Que lindo! — Exclamou, lendo o cartão que viera junto com as flores. — Você não acha que é de Sehun, acha? — Do me encarou, começando a rir. — Você acha mesmo que é do Hun, né?

O ignorei. Kyungsoo não precisava saber as coisas que eu achava, pensava ou sobre os meus sentimentos. Não era nem mesmo para ele estar ali, estar entre nós.

— O que você quer, Kyungsoo? — Repeti, ignorando uma vez mais seu sarcasmo e crueldade.

— Bom, como você não quer conversar, eu vou ser direto com você — seu tom de voz mudou totalmente, do tom irônico, sarcástico e brincalhão, para um tom sério e gélido de advertência. — Quero que deixe Sehun livre. E dessa vez é uma ameaça mesmo, Luhan — ele me encarou, fazendo meu corpo gelar com a crueldade em seu olhar. — Você já sabe do que eu sou capaz, e eu não hesitaria em fazer qualquer coisa para ter o que eu quero. E eu posso muito bem acabar com aquela aberraçãozinha. Na primeira vez eu não consegui, mas na segunda, tenho certeza que não vou falhar.

Aquilo foi o suficiente para fazer meu sangue ferver e se derramar em minha pele. Senti uma adrenalina percorrer o meu corpo, uma adrenalina que eu nunca experimentara na vida, um instinto protetor primitivo e selvagem. Quando dei por mim, estava saltando por cima da cama sobre Kyungsoo. Agarrei seu cabelo, puxando-o com força. Ele grunhiu, grudando as unhas na carne de meus braços.

Soo rodopiou pelo quarto, debatendo-se para se soltar, mas foi inútil. Ele gemeu, e eu me segurei para não esboçar a dor que suas unhas estava causando em minha pele. Uma de suas mãos se soltou, e se espalmou contra meu rosto enquanto ele jogava meu corpo contra uma parede. Gemi com o impacto e ele aproveitou a oportunidade para se desvencilhar do meu ataque e revidar um chute em minha barriga.

Dessa vez o ar fugiu totalmente dos meus pulmões, a dor se espalhando por minhas entras. Seu golpe atingira em cheio o corte da cesárea, que  começara a cicatrizar. Dobrei-me, segurando a barriga com as mãos e me forcei a recuperar rapidamente o fôlego.

— Você não tem chances contra mim, Luhan — rosnou ele, dando dois passos para se afastar. — Faça o que estou pedindo enquanto ainda estou sendo amigável. Antes que eu deixe a bondade de lado e mate aquela aberração de uma vez.

Rugi, levantando-me e atirando-me contra ele e nos derrubando no chão. Eu jamais renunciaria ao homem que amo e jamais deixaria que alguém atingisse Yue novamente. Ainda que isso me custasse a vida, eu iria lutar pelas pessoas que eu amava. E, independentemente do fato de Hun ainda me amar ou não, eu o amava e era por amá-lo que eu não poderia deixar que um homem vil, como Kyungsoo detivesse poder sobre seu bom coração.

— Eu jamais deixaria que Hun ficasse com uma escória como você — grunhi, arranhando seu rosto enquanto ele se debatia.  — Jamais vou deixar que machuque minha filha novamente!

Sehun merecia uma pessoa que fosse como ele. Alguém puro de coração, alguém genuíno e que pudesse se entregar a ele de corpo e alma. Uma pessoa que tivesse aquela inocência, aquela pureza celeste. Ninguém abaixo disso poderia ser o suficiente para ele jamais.

—Me solta — gritou ele debatendo-se e encolhendo embaixo de mim, como um animal indefeso diante de um predador, uma imagem totalmente diferente da que ele mostrara até então.

 Simplesmente me aproveitei da situação para esbofeteá-lo com toda a força que eu ainda possuía, agradecendo o fato de naquele corredor ter apenas meu quarto ocupado, o que queria dizer que nada nem ninguém viria ajudá-lo, embora eu tivesse tido a impressão de ter ouvido passos.

— Luhan — suplicou ele. — Você está louco — Suas mãos estavam elevadas, protegendo o corpo. — Eu só queria saber como você estava.

A mudança repentina em sua voz me causou curiosidade. Era como se houvesse uma pessoa totalmente diferente embaixo de mim. Mas eu não queria me dar ao luxo de parar, porque sabia que em breve meu corpo iria colapsar e seria o momento em que aquela cobra teria sua vantagem. Não queria nem mesmo imaginar do que ele seria capaz. Por isso, não parei.

— Luhan! — A voz foi seguida de fortes braços me erguendo no ar. Me debati tentando me soltar. — Luhan! — Gritou novamente, e eu senti o corpo estremecer. — Se acalma!

Sehun me colocou no chão e eu não tive coragem de encará-lo. De certa forma aquilo começou a parecer mesmo um pesadelo quando Kyungsoo levantou-se do chão correndo na direção de Sehun, abraçando-o e chorando copiosamente. Meu coração pareceu se encolher no peito. Se eu dissesse, Sehun acreditaria no que Kyungsoo fizera?

— Sehun — ele gemeu com a voz embargada. — Eu não sei o que deu nele. Como você dormiu, vim ver como estavam para te dizer, mas ele me atacou quando me viu.

Sehun permaneceu em silêncio, um silêncio ensurdecedor que quase me fez levantar e gritar para que os dois saíssem, para que fossem fazer sabe-se-lá o que em outro lugar.

—Luhan — a voz de Sehun estava controlada de uma forma que eu jamais tinha visto. Era um tom ainda mais gelado do que ele usara comigo quando descobrira sobre a divida. Era como se não fosse o mesmo Sehun que eu conhecia. Foi impossível não levantar os olhos para encará-lo. — O que você quis dizer com machuque minha filha novamente?

— Sehun — murmurou, Kyungsoo!

— Cale a boca, Kyungsoo — advertiu ele, e notei como todos os músculos do rosto de Do se contraíam em descrença.

— Está tudo bem por aqui, Senhor Oh? — Um homem vestindo roupas pretas apareceu na porta. Por suas vestes julguei ser o segurança. Sehun apenas assentiu. — Só peço que façam mais silêncio, continua sendo um hospital. Sei que o senhor tem um passe especial.

— Desculpem-nos — Sehun se quer se virou para o homem, os olhos cor-de-avelã grudados em mim. — Seremos mais cautelosos

—Se precisarem de alguma coisa, só chamarem — e retirou-se.

— Luhan — a voz de Sehun me sobressaltou. Não era uma voz furiosa, só era muito diferente de todos os tons que eu já o vira usando. — Estou esperando.

— Sehun... — Murmurei, sentindo os pulmões ficarem cada vez menores atrás das costelas. Não sabia ao certo o que ele queria ouvir e ao menos sabia se minhas lembranças eram totalmente confiáveis. Não me recordava totalmente do que acontecera, mas lembrava da expressão de crueldade no rosto de Kyung e a dor que senti pouco antes de perder a consciência.

Sehun aproximou-se de mim, olhando dentro dos meus olhos.

—Por favor — suplicou ele, tocando meu rosto. Apesar da voz tão pétrea, seus olhos continham aquele calor tão característico, aquele mesmo mar tão fácil de se perder. Me sentia acalmar um pouco.

— Eu só me lembro de estar com Kyungsoo no escritório, ele estava falando alguma coisa sobre... Sobre... — Engoli em seco. — Sobre descobrir o que aconteceria caso Yue não existisse mais. — Sehun deu um passo para trás, os olhos descrentes percorrendo o quarto.— Me lembro de sentir uma dor muito forte no abdômen. É só que Seung disse.

— Disse que o parto prematuro foi causado por uma força externa, uma pancada, muito provavelmente. — Concluiu ele, seus olhos fixando-se em Kyungoo, que estava com uma expressão de cordeiro encurralado.

— Se-Sehun, eu jamais teria machucado o Luhan ou sua filha — murmurou ele em defesa, dando dois passos para trás. — Nós somos amigos da escola.

— Então me diga o que quis dizer com deixar a bondade de lado e matar aquela aberração? — Os olhos de Kyungsoo estavam quase saindo das orbitas de tão arregalados. Sua boca tremulou, e até mesmo eu estava surpreso. O que Sehun havia ouvido e visto?

— Sehun — ele murmurou engolindo em seco. Soo não sabia como enfrentar Sehun e por um momento me perguntei se te fato ele o amava, se o amava de verdade, porque Do me parecia tão pequeno, tão mesquinho, reduzido a nada, totalmente diferente do homem que me ameaçava e fazia da minha vida um inferno.

— Eu não quero ter que te ver nunca mais na minha vida — a voz que Sehun usou estava ainda mais gelada que antes, e ele parecia um muro se aproximando ameaçadoramente de Kyungsoo. — Nunca mais — sibilou ele.

— Sehun — gemeu novamente Kyungsoo. — Luhan está mentindo, está mentindo.

— Você me entendeu? — Repetiu ele, dessa vez de forma ameaçadora.

— Sehun — repetiu ele.

— Estou perguntando se me entendeu — dessa vez, ele gritou, fazendo Soo se encolher ainda mais, se é que isso era possível. — Entendeu? — Ele gritou ao mesmo tempo que um trovão cortou o silêncio da noite.

— Raio de Sol — chamei, tocando sua mão para chamar sua atenção. Só depois me dei conta da forma em que o chamara.

Por um momento, parecia que outra pessoa havia tomado o lugar de Sehun, alguém muito cruel e descontrolado. E apesar de assustado, não senti medo. Há poucos minutos, eu era a própria imagem do selvagerismo, enlouquecido com a possibilidade de estar compartilhando oxigênio  com uma pessoa que fez mal para minha Yue.

Sehun respirou fundo, os ombros relaxando.

— Suma de nossas vidas, Kyungsoo — advertiu ele uma vez mais, a voz mais calma, mais parecida com o Sehun que eu sempre conhecera. — Não quero ter que te ver outra vez, entendeu?

— Se- — Tentou ele uma vez mais, mas foi interrompido prontamente por Sehun.

— Vá agora, enquanto estou sendo condescendente com você, enquanto não estou movendo os pauzinhos e usando meus contatos para te fazer apodrecer na cadeia pelo que você fez.

E com isso Do pareceu entender, ele assentiu, parecendo desnorteado, os olhos marejados e o rosto desfigurado em dor. Eu quase senti pena, porque era palpável que seja lá o que fosse que ele sentia por Hun, era uma coisa real e profunda para ele.

Kyungsoo se foi e ficamos a sós. Por alguns minutos ninguém disse nada. Ficamos apenas parados, lado a lado, minha mão em seu braço, a chuva caindo lá fora, nossos coração acelerados. Eu não sabia ao certo o que dizer ou se deveria dizer alguma coisa. Quando me deitei naquela cama, banho tomado, perfume passado no corpo, eu só queria que chegasse o momento em que estivesse frente a frente de Sehun e pudesse dizer tudo o que ensaiara uma e outra vez.

Mas agora, depois de tantos acontecimentos, o que eu podia dizer? Encarei suas costas, notando seus ombros trêmulos, sua cabeça estava voltada para o chão.

— Sehun — chamei.

Ele virou-se, o rosto inundado em lágrimas, uma careta de dor em suas expressões sempre tão dóceis. Aquilo fez meu coração se quebrar.

— Me perdoe, Luhan — murmurou ele, se atirando em meus braços. Minhas pernas cederam sob o peso de seu corpo grande, e deslizamos até o chão.

O abracei, apertando-o contra mim, estremecendo ao ritmo que seu corpo estremecia com os soluços de seu pranto. Eu nunca havia visto Sehun chorar. Não daquela forma, copiosamente, que fazia seu corpo estremecer e parecer tão frágil. Não daquela forma que o fazia parecer tão pequeno, tão necessitado de carinho e atenção. Aquela cena me deixara sem reação. Não sabia o que fazer e se quer sabia se eu estava em termos de fazer alguma coisa.

Meu próprio rosto estava inundado em lágrimas, minhas mãos tremiam de nervoso e meu coração parecia um grão de areia no peito. Era emoção demais para suportar. Fechei os olhos me concentrar no homem que chorava em meus braços, murmurando incessantemente desculpas contra minha clavícula.

— Shhh — pedi, acariciando suas costas. — Está tudo bem agora, Sehun.

— Não está — ele afastou-se, os olhos cheios de desespero e dor. — Eu não estive aqui para te defender, Luhan, para te proteger.

Sorvi o nariz, sentindo o desespero dele reverbar em mim.

— Eu estou bem, Hun. — Garanti. — Estamos todos bem.

Ele levantou-se, caminhando nervosamente pelo quarto, puxando os cabelos com as mãos.

— Não suporto mais isso — falou repentinamente. — Eu não suporto mais toda essa situação. — Ele respirou fundo, e se sentou na cama, olhando para seus pés.

— Sehun — levantei-me e fechei a porta antes de me aproximar de onde ele estava. — Por que nunca me falou sobre as flores? — Não sei se aquele era o momento mais adequado para fazer perguntas desse tipo, mas se não usasse aquela oportunidade, quando teria outra?

— Eu estava com medo, Luhan. Eu tinha muito medo de ainda não ser o suficiente para você, para Yue. Tinha medo de o passado interferir no meu coração — ele soou tão angustiado, tão machucado, que me fez se sentir impotente. — Eu queria ser melhor para vocês, mas não sabia quando isso aconteceria, e ao mesmo tempo queria demonstrar o quanto eu ainda te amo.

Abaixei-me, apoiando os braços em suas pernas e enfiando a cabeça em seu campo de visão.

—Você sempre foi mais do que eu mereço, Hun — falei, sendo sincero. Eu não conseguia imaginar o que havia em seu coração para que se quer imaginasse que podia não ser suficiente para nós, quando sempre se mostrara muito mais do que eu merecia.

— Eu — ele respirou fundo e e me encarou. — Quando você foi embora, eu queria que você ficasse, mas ao mesmo tempo eu senti tanta dor... Eu não tinha ideia do que fazer com aquela dor no meu coração, era tão angustiante, aflitivo... E ainda assim eu não queria que durasse — Hun acariciou meu rosto, e fechei os olhos, aproveitando o toque. — Naquela noite, quando você foi embora, apesar de como me sentia, só pensei em como queria te ter em meus braços uma vez mais. Por isso eu fui atrás da nossa gérbera, nossa flor.

— Estava chovendo — refleti, porque aquela noite sempre fora muito fresca em minhas memórias.

— Eu sei — concordou ele, dando um sorriso sem graça. — Mas eu queria ter a certeza de que ela iria crescer e florescer, porque se isso acontecesse, nosso amor iria perdurar também.

— Sehun — as lágrimas estavam de volta. Eu queria tanto abraça-lo para nunca mais soltar. Aquilo era muito mais do que eu podia imaginar. Muito mais do que eu poderia ter sonhado durante os dias que passei sonhando com ele.

—Mas não sei se consegui me tornar alguém melhor, eu não te protegi, Luhan — ele me encarou com olhos marejados. — Pior do que isso, as pessoas que te fizeram mal estavam comigo.

— Você não tem culpa — respondi, porque era a verdade.

— Kyungsoo te machucou, Luhan? — Ele me tocou, procurando em minha pele qualquer vestígio que pudesse delatar isso. — Por que não disse que ele estava te fazendo mal?

Engoli em seco, recolhendo as mãos e me levantando.

— Vocês estavam juntos — falei , sentindo a garganta arder por ter que dizer algo tão doloroso em voz alta. — Não queria que você achasse que eu estava tentando interferir — foi difícil revelar isso em voz sem parecer mesquinho e com dor de cotovelo.

Sehun levantou-se, ficando frente a frente comigo. Apesar de não encará-lo, sabia que ele mantinha os olhos fixos em mim.

— De onde tirou isso? — Havia descrença em sua voz.

— Soo sempre dizia — respondi, tentando não parecer confuso. Eu conhecia Sehun bem o suficiente para saber que aquele tom de voz demonstrava que de fato ele não estava entendendo nada. — Vocês até viajaram por vários dias antes do Natal.

—Que? — Ele riu secamente. — Luhan — um de suas mãos se entrelaçou com a minha e a outra levantou meu rosto, me obrigando a encará-lo. Não resisti nem um pouco. Olhar para Sehun seria eternamente uma de minhas coisas favoritas no mundo. — Eu fui conhecer os seus pais, Luhan.

— Meus pais?

— De certa forma, eu sentia que esse era um dos princípios para ser alguém melhor para você — ele desviou o olhar, timidamente, e o trouxe de volta a mim, colocando ambas as mãos em seu rosto ainda úmido pelas lágrimas. — Me apresentei a eles, disse que queria casar com você, que tínhamos uma filha a caminho.

— Não posso acreditar — e não podia mesmo. Não conseguia imaginar a cena. Sehun e meus pais juntos. Meu coração pulava com a simples ideia. — Você foi conhecer meus pais? — Ri em meio as palavras.

— Para dizer que você estaria em boas mãos, para saber se eles me aprovariam — ele estava sério, mas eu estava aliviado pela angustia ter sumido de seu rosto, deixando apenas as expressões de inocência e anelo que já me eram conhecidos. — Não acredito que você achou que eu estava tendo um caso com Kyungsoo — ele fechou os olhos.

— Kyunsoo frisou isso muitas vezes par mim, e vocês viviam juntos.

— Éramos amigos, e só de imaginar isso me dá náuseas — vociferou ele. — Luhan, — sua voz tornou-se séria novamente. Ele me encarou. E não pude ceder contra aquele mar de emoções por trás de suas pupilas avelãs. Me atirei sem ao menos me importar com a iminência de um afogamento.  — Eu te amo. Eu jamais seria capaz de amar outra pessoa que não fosse você — ele pegou minha mão direita, repousando-a sobre seu peito. Meus dedos vibravam com seus batimentos cardíacos. — Esse coração é seu, Luhan. Sempre vai ser. Para você amar e cuidar, ou pisotear e jogar fora. Eu seria incapaz de amar outra pessoa.

Solucei, sentindo as lágrimas virem à tona novamente.

— Durante todo esse tempo — sussurrei, fungando de forma pouco elegante. — Tudo o que eu fiz foi pensando em me tornar digno de você, Sehun. Digno desse amor que você me deu e que me salvou. Eu só queria poder estar em um mundo onde pudéssemos ser uma família. Yue, você e eu. — Ele beijou meus olhos de maneira delicada, secando minhas lágrimas com os polegares. — Eu te amo tanto, Sehun, tanto, que apesar de toda a tempestade que causei, eu jamais deixei de nos imaginar juntos uma vez mais. Cada pequeno sinal fazia meu coração palpitar emocionado. Eu só queria ter a oportunidade de fazer tudo diferente, de ser bom o suficiente para que você pudesse me perdoar.

Hun segurou meu rosto com firmeza e uma delicadeza típica de seus gestos. Então senti seus lábios repousarem sobre os meus, foi tão breve e tão sutil que julguei ser uma mentira, uma fantasia criada por minha mente.

—Eu não conseguiria ficar um minuto mais longe de você, Luhan — eu o encarei, notando o desespero brilhando através de seus olhos. — Soube disso no minuto em que te vi caído naquele chão, a impotência corroendo cada pedacinho da minha pele. Eu senti tanto desespero, era como se alguém estivesse esfaqueando meu coração. Você estava ferido e eu não podia ajudar. — Uma de suas mãos caiu ao lado do corpo, em um sinal claro de sua impotência. A peguei novamente, levando-a de volta para meu rosto. — Enquanto você estava na sala de cirurgia, eu fiquei do seu lado, rezando para que nada pior acontecesse. Eu jamais me perdoaria. Jamais me perdoaria por ter falhado com você.

Inclinei-me em sua direção, colando meus lábios aos seus para calá-lo. Foi apenas um breve tocar de lábios, que fez todo meu sistema nervoso entrar em colapso. Hun se afastou e me apertou entre seus braços, beijando o topo de minha cabeça. La fora, a chuva ainda caía forte, mas ali dentro era como se tivesse pairando sob minha cabeça o sol de verão. Eu me sentia aquecido.

—Estou bem, Sehun — murmurei. — Estamos bem. — Reforcei. — E estaremos melhor quando estivermos os três juntos.

—Me perdoe por ter sido covarde. Por ter sentido medo, e não ter te protegido quando precisou de mim — Por sua voz Hun me pareceu uma criança desamparada e necessitada de amor e proteção. Afastei-me, entrelaçando nossos dedos e puxando-o para a cama. Deitamo-nos de frente um para o outro. Não apaguei a luz, porque queria aproveitar o máximo de tempo possível encarando sua cara linda, e se aquilo fosse um sonho, ao menos teria sido um sonho lindo.

—Eu te amo — falei, observando e me deliciando com o tremeluzir de seus olhos diante a emoção. Ele fechou os olhos e pequenas lágrimas escorreram por seu rosto tão demarcado, tão cheio de cansaço. — Eu te amo, meu raio de sol. Te amo tanto, Sehun. — Ele assentiu em silêncio, elevando minha mão entrelaçada a sua e beijando-a com delicadeza. —Não há nada que precise ser perdoado — sua mão livre acariciou meu cabelo, e eu fechei os olhos. — Te amo — reforcei, sentindo o sono se aproximar sorrateiramente. — Obrigado por me deixar te amar uma vez mais.

E então, ali, em uma cama de hospital, eu adormeci nos braços do único homem que meu coração seria capaz de amar em toda minha vida.

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Quando acordei na manhã seguinte, Sehun não estava ao meu lado. Me sentei abruptamente, percorrendo a habitação com desespero, o coração já contraído no peito em desespero. Ele não estava em lugar algum. Comecei a hiperventilar. Aquilo já acontecera tantas vezes. Eu dormia e tinha sonhos tão doces e verossímeis, que acordava confuso, misturando a realidade com a fantasia. E isso era sempre destrutivo.

Senti as lágrimas nublando minha visão, e então um cheiro de pão invadiu minhas narinas. Percorri uma vez mais o quarto e encontrei o causador daquele maravilhoso odor, nada típico da comida do hospital. Aos tropeções, me aproximei da bandeja que se encontrava no mesmo lugar onde estivera o buquê de margaridas.

Havia um croissant, uma fatia de torta de morango, brioche e o famoso pão francês, acompanhados por um grande copo de suco de laranja. Sorri, me sentindo uma vez mais como o Luhan recém-casado que recebia café da manhã na cama todos os dias cedo. Sonhei tanto em poder ter aquilo uma vez mais.

Luhan, sinto muito em não estar ao seu lado para ver seu despertar, mas ainda tenho algumas coisas para resolver. Quero que fique claro que tudo o que eu disse na noite anterior foi sério. Não posso me submeter à miséria de estar longe de você um dia mais. É claro, se você me permitir, gostaria de poder esquecer os dias sombrios que tive em sua ausência, e poder começar uma vez mais.

Att: Oh Sehun.

Sorri, abraçando o papel. Não havia flores, mas não precisava. Quem precisava de flores depois de tudo o que acontecera na noite anterior? Eu não. Tudo o que eu precisara durante aqueles árduos meses era ter a oportunidade de estar com Hun uma vez mais, de ter a oportunidade de fazer as coisas corretamente uma vez mais. E essa oportunidade finalmente chegara. E eu iria fazer o possível e o impossível para ser merecedor dela.

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— Gracias a dios! — Exclamou Maya, assim que saímos do hospital. — Ya me tenia de corazón apretado sin saber cuando la pequena podria estar em casa — Ela empurrava um carrinho vermelho de bebê com uma Yue adormecida dentro.

— Não vejo a hora de poder andar de cavalo com ela. — Alandra saltitou, inclinando-se para observá-la.

— Acho que isso pode demorar um tempo — respondi, estremecendo coma  possibilidade de Landra querer colocar minha Estrela em um cavalo aquela mesma tarde e galopar fazenda adentro.

— O tempo do cavalo dela crescer, né, Nodriza?  — Concluiu ela, dando de ombros enquanto caminhava na frente para abrir o porta-malas do carro.

— Como assim? — Perguntei franzindo o cenho.

Maya tirou o bebê conforto do carrinho e eu o dobrei, enfiando-o junto com os outros itens dentro do porta-malas.

—Cariño sabe que esta ninã no tiene solucion — suspirou Nodriza, abrindo a porta para ajeitar Yue corretamente no banco traseiro.

— Eu não fiz nada, Nodriza — defendeu-se Landra. — Que culpa eu tenho se Kirara ficou prenha do Aros?

Entreabri os lábios descrente.

— Só pode ser mentira.

—No lo és, cariño.
              —Não é, Luhan. — Exclamaram em uníssono, e eu ri.

—Suspeitamos que ela estivesse prenhe porque nas últimas semanas tem se mostrado muito calma e dócil, algo que sabemos que ela não é — explicou, Alandra.

—Para mim ela sempre foi assim — defendi, me sentindo ofendido.

— Porque não passou o último mês com ela — retrucou Landra, girando a chave para ligar o motor da Hilux. — Enfim, só demoramos em comprovar porque Kyungsoo não trabalha mais na Fazenda.

Estremeci a menção daquele nome, e instintivamente olhei para Yue, quem ainda permanecia adormecida serenamente. Não tinha ideia de Maya ou Landra sabiam o real motivo para Soo ter ido embora e também não perguntei. Só agradeci por saber que ele finalmente estava longe de nós.

—Lo que es uma bendicion — murmurou Maya. — No me gustava para nada aquele chico.

— A mi tampoco — concordou Landra, entrando na pista que levava à Fazenda.

Eu sorri.

— Mucho menos a mi — contestei, em um espanhol arrastado e fajuto, elas riram e eu soube que de fato estava indo para casa.

O último mês no hospital passou mais rápido do que eu imaginei que pudesse passar. Apesar de ter recebido alta antes de Yue, me foi permitido continuar ocupando a habitação e que eu estivera em observação. Com isso, eu tinha mais liberdade para acompanhar o crescimento de Yue e podia estar pendente de qualquer avanço ou contratempo que pudesse ocorrer.

A agenda de Sehun estava menos apertada, o que o permitia ir visita-la no horário normal e não durante a noite, como anteriormente fazia. Entravámos juntos no Neonatal, e chorei de emoção quando o vi com nossa filha pela primeira vez nos braços. Durante a noite, fazíamos planos sobre o futuro de nossa pequena e planos que envolvia nós dois. O primeiro deles era ir ver meus pais na Clinica e apresentar Yue para eles. As cartas não seriam o suficiente para demonstrar minha felicidade a eles.

Apesar de a vida no hospital não ser das piores, principalmente depois que Sehun permitiu entrar comida de fora por minha alta, eu não via a hora de estar em casa novamente, respirar ar fresco e sentir o frescor do campo invadir meus pulmões. Por isso, quando o carro parou frente à Casa Vermelha, me permiti descer e permanecer alguns minutos em pé, olhando o céu azulado, respirando.

Era tão bom estar de volta. De volta onde tudo começou, como se nada tivesse desmoronado. Tudo estava em seu devido lugar. As peças se juntaram, dessa vez mais fortes e firmes. Dessa vez, eu sabia exatamente o que não fazer e jamais deixaria que as coisas saíssem do lugar uma vez mais.

— Vou coloca-la no berço — avisou Landra, e eu assenti.

Yue estaria em boas mãos, e me aproveitando disso me dei ao luxo de ir até meu lugar especial. Adentrei o pomar, atravessando-o a passos rápidos em direção ao Arco da Glicínia. Só queria me sentar alguns segundos em baixo daquelas flores roxas e fechar os olhos. Iria deixar que a calmaria lavasse qualquer vestígio de preocupação, cansaço ou dor, que me renovassem para que pudesse começar aquela vida uma vez mais.

— Bem-vindo à casa, Luhan.

Eu não esperava encontrar Hun ali, menos ainda que ele estivesse sentado no chão sobre um manto vermelho, uma garrafa de champanhe e doces em um prato de porcelana. Sorri.

— Achei que estaria trabalhando — falei, porque essa era a versão que Maya e Alandra me disseram quando apareceram para me buscar no hospital. Franzi o cenho. — Elas sabiam disso? — Ele assentiu. — E como você podia saber que eu viria aqui? — Questionei rindo, e me sentando ao seu lado.

Hun não respondeu. Ao invés disso, ele me puxou em sua direção e me beijou. Havia vezes em que me esquecia de como beijá-lo era malditamente bom. Eu esquecia totalmente como aquele simples ato eletrizava todo meu corpo, fazendo o sangue correr mais rápido e se concentrar em uma única região.

Entreguei-me ao beijo sem hesitar, deixando minha língua explorar sua boca e sentindo a sua fazer o mesmo com a minha. Supirei quando ele mordiscou meu lábio inferior e afastou-se. Como um inseto que segue a luz, fui em busca de sua boca e ele riu. O encarei.

— Eu tinha certeza que você ia vir aqui porque é seu lugar especial — falou ele, com sabedoria. Eu concordei, sentando-me entre suas pernas. E olhando para as flores que pendiam sob nossas cabeças. — Ela teria amado te conhecer. — Seus braços rodearam meu corpo, me apertando contra ele.

— Ela quem? — Perguntei sem saber.

— Minha mãe — meu coração se apertou. Não sei dizer o porquê, foi só um reflexo a algo que eu desconhecia. — Sei disso porque eu amo você, isso teria sido o suficiente para ela.

Sorri, emocionado com suas palavras. Era engraçado como, de repente, nada do que aconteceu parecia ter acontecido. Seja a aposta, Kris ou Kyungsoo. Era como se sempre tivéssemos estado assim, juntos, em paz e feliz.

— Bom, Senhora Oh — comecei, entrelaçando meus dedos aos dele —, primeiramente eu peço desculpas por ter feito seu filho sofrer. Sei que não foi nada honrado o que eu fiz, por isso me desculpo. Em contrapartida, eu prometo que vou amá-lo e respeitá-lo para todo o sempre, vou fazê-lo tão feliz, que ele vai ter que levantar a bandeira branca para não explodir de felicidade.

— Essa eu quero ver — murmurou ele, mordiscando o lóbulo de minha orelha.

Estremeci.

Eu tinha esquecido completamente que embaixo daquele Sehun inocente e genuíno existia um Sehun ousado e sedento. Suas mãos adentraram o suéter que eu trajava, deixando um rastro de arrepio em minha pele pelo toque gelado. Fechei os olhos, suspirando de deleite. Joguei o corpo contra o dele, colando ainda mais minhas cotas contra seu peito, minha bunda em sua pélvis, e o senti em todo seu esplendor.

Hun estava duro.

Por um momento, quase tirei a roupa e o cavalguei ali mesmo. Fazia tanto tempo desde a última vez, que minha pele de desfazia por senti-lo. Eu senti a pressão crescer em meu âmago com a simples ideia, entretanto o mundo não conspirava a nosso favor. Sons de risada e passos se nos aproximando fez se distanciar. Sentei no lado oposto e peguei um doce qualquer, enfiando-o na boca por inteiro.

Embora eu quisesse evitar, não pude resistir em dar uma olhadela na direção de Sehun. Arrependi-me. Seus lábios estavam entreabertos e as bochechas coradas. Ele sorriu em minha direção, e eu sorri também. Sentia-me tão feliz, que tive que me segurar para não começar a chorar de emoção.

— Ah, ai estão vocês — exclamou Sulli, sentando-se entre nós e me apertando em um abraço. Engasguei, seja lá com o que estivesse comento. Sulli bateu em minhas costas e Hun abriu a champanhe, servindo uma taça para mim, então ela alternou o olhar entre nós dois, estreitando os olhos. — O que estavam fazendo?

Hun arregalou os olhos. Eu ri.

—Na-nada — gaguejou ele.

Ela pareceu cética.

—Bom, se você diz — ela deu de ombros, puxando para o meio uma cesta que eu nem notara que levava. — Pessoal, a barra tá limpa. — Gritou ela.

Poucos segundos depois, um Baekhyun e um Chanyeol acompanhados por um Chanhyun energético e um caramelado Seung e Alandra se juntaram a nós, trazendo mais manta para cobrir o chão, mais copos e mais comida.

Bom, acho que aquilo era um piquenique, e eu estava simplesmente me sentindo pleno, como se tivesse alcançado o próprio Nirvana. Eu estava novamente com Sehun, tinha amigos espetaculares e uma filha mais do que perfeita. O que poderia dar errado?

Eu julguei que nada, por isso fiquei confuso quando apenas uns dias depois recebi uma correspondência de um homem engravatado pela manhã. Eu estava sozinho com Yue. Maya estava na floricultura, e Sehun e Alandra a serviço da fazenda. Atendi ao homem, me surpreendendo ao receber um envelope judicial direcionado a mim.

Com mãos trêmulas, o abri temendo que fosse algo sobre meus pais ou qualquer coisa pior. Bom, nada havia me preparado para aquilo, porque eu julgava que tudo estava no lugar, que tudo estava certo... Então, fiquei sem entender. Realmente me senti confuso e me senti sem chão por uns segundos.

—Preciso que seja o quanto antes — falou o homem, a voz grossa e rasposa. Eu o olhei sem entender. — A reunião — explicou ele. — Se possível ainda hoje. A outra parte já assinou e disse ter pressa no processo.

Meu coração afundou no peito. Eu podia gritar, espernear e me negar, mas não o fiz. Olhei para o carrinho de Yue logo ao lado e encontrei forças ali para assentir.

— Tudo bem — falei, a voz saindo mais firme o que eu achava possível.

— Esteja nesse local, às dezesseis. — Dito isso, ele me entregou um cartão retirou-se, e eu fiquei.

Fiquei, segurando-me para não chorar, me segurando para não deixar o mundo despencar sobre minha cabeça e me convencendo de que deveria haver uma explicação lógica, porque tudo estava certo, tudo parecia perfeito. Então, por quê? Arrependi-me por não ter lido todo o papel, mas o choque fora grande demais que me fora possível prosseguir depois das letras garrafais que se insinuaram frente aos meus olhos, dizendo claramente Pedido Formal de Divórcio.

Sob o silêncio de um lindo dia de inicio de Primavera, senti pela segunda vez o amargor de perder algo precioso, só que, dessa vez, sem a mais mínima explicação. Senti-me tão perplexo, tão doído e traído, que até as lágrimas se recusaram a sair. Sentei de frente a Yue e seus olhos cor-de-avelã, os olhos de Sehun, me encararam e ela sorriu. Senti meu coração se iluminar um pouco. Levei meu dedo em sua direção, e ela o agarrou.

Fechei os olhos, respirando fundo, sentindo seu toque manter meus pés no chão. Com aquilo, comecei a preparar mentalmente para aceitar que aquele era o Ponto Final.

Nada mais de luta.

Eu fizera tudo o que estava ao meu alcancei. Humilhei-me e me remontei da melhor maneira que pude para ser alguém digno do amor de Sehun, para estar a altura de tudo o que ele tinha a oferecer.

Não conseguia saber onde errei. Não mesmo, porque tudo estava bem. Aquela mesma noite tínhamos estado junto, então porquê. Tentei descartar a ideia de que tudo não fora encenação, que ele quisera apenas me machucar, me fazer sentir o que ele sentira quando traí sua confiança. Meu coração tornou-se um grão no peito. Sehun não era assim.

Mas...

Pessoas machucadas machucam pessoas.

Estremeci, me permitindo ao luxo de derramar duas lágrimas, jurando que seriam as únicas daquela ocasião.

Depois levantei e peguei Yue no colo, deixando um beijo sobre seu cabelo espesso e preto.

— Aqui tem tudo o que eu preciso — sussurrei contra sua pele macia e quente.

Eu sabia que, sem Sehun, para sempre estaria faltando um pedaço em meu coração. Mas se ele queria terminar de vez nosso casamento, eu o ajudaria a colocar o ponto final e virar a página. Definitivamente, e para sempre.

 


Notas Finais


Gente, EU ESTOU EM PRANTOS!
Tô chorando muito, sim, porque Mulligans é uma das melhores parte que eu tenho, e vocês que criaram ela, que me deram coragem de seguir em frente e continuar. Vocês continuaram aqui mesmo quando eu sumia e demorava meses para aparecer. Como posso não amar essa história? Como posso não amar vocês e desejar profundamente que isso dura um pouco mais, senão que dure para sempre?
Eu só tenho a agradecer. Esse é o último capítulo e depois teremos o epilogo e então, o fim definitivo. Meu coração dói só de imaginar.
Ainda não vou me despedir, porque ainda tenho que pensar em agradecimento a altura de tudo o que vocês fizeram por mim.
Hoje vou terminar essa aba compartilhando com vocês as músicas que eu sempre ouvia enquanto escrevia essa história. Fiz uma playlist só de músicas sad, que me deixava em prantos enquanto escrevia as aventuras de nosso Luhan.
https://open.spotify.com/playlist/4zF8BOqUpaRSzZd9OKtEy0

EU AMO VOCÊS. ♥

Até breve.


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