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História Mundo sem emoções - Capítulo 6


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Notas do Autor


Curtam a história em sua quarenta! Favoritem a história, se estiverem gostando. Boa leitura

Capítulo 6 - Organização dos Dotados


Cheguei de volta para à barraca, meu avô não estava sozinho, muitos dos mesmos dotados de antes estavam lá, achei estranho. Estavam virados pro prisioneiro ainda preso, mas um por vez começou a olhar para mim, o primeiro foi meu avô. Todos ficaram pasmados ao me olhar, meu avô sussurrou:

— Eu falei que era ele, não falei?

— O que estão olhando? — perguntei.

— A Marca — disse um homem alto, magro, velho, quase cavo com um cabelo branco. — a Marca dos dotados, senhor Filiah, você tem ela. Estávamos esperando por ela à... Bem, sempre.

Olhei para minhas mãos, estavam com os mesmos traços do riacho, ainda queimava, mas bem menos. O poder que era irradiado se extinguiu, só sobrou um traço de pele queimada se cicatrizando.

— Mas... o que é isso?

— Isso, senhor Filiah, é o início de um novo tempo, de uma nova era para nós! — o mesmo homem gesticulava com as mãos, fechando e abrindo o punho, como um tique nervoso. Meu avô estava com uma expressão seca e preocupada — Com isso nós podemos...

— Já chega, Sir William. Meu neto precisa de descanso agora.

Meu avô se aproximou de mim, e eu desabei em cima dele. Pelo visto estava mais cansado do que eu mesmo pensei. Na verdade nem havia percebido que estava cansado, mas quando percebi, me deu um sono e uma preguiça que superavam qualquer dor que eu havia tido. Parecia que eu ia dormir por uma semana. A última coisa que eu me lembro foi meu avô me carregando nos braços, com seu sorriso orgulhoso. Eu amava aquele sorriso.

Passei dois dias dormindo. Como? Também não sei, nem sabia que isso era possível. Quando acordei estava na minha cama, na casa do meu avô. Não conseguia me mexer muito, meu corpo parecia atordoado. Meu avô estava do meu lado, sentado em uma cadeira, cochilando. O sol entrava pela janela frontal, iluminando todo o quarto, eu sabia o que significa, eram oito horas da manhã, meu horário habitual de acordar.

Tentei chamar meu avô, mas quase não consegui falar palavras, só sussurros impedidos.

— V-vô... Vô... E-e-eu-u... Ahn — e por incrível que pareça, ele acordou.

— Prodígio, meu neto, você acordou. Já era hora, né? Dois dias. Você dormiu por dois dias!

— N-não... Co-mo...

— Não tente falar, seu corpo não está tão disperso ainda. Precisamos conversar, acho que hoje vai ser o seu grande dia. E antes que você pergunte, aquele dia, antes de você dormir... Por dois dias, — ele sussurrava como se conversasse com ele mesmo, enquanto me fazia um cafuné —, eu nunca tinha visto alguém dormir por dois dias, e olha que eu lutei na guerra. Mas enfim, eu tomei a liberdade de fazer o interrogatório sozinho, enquanto você ia no riacho. Obtive muitas informações... Cabulosas. Outro dia eu te ensino como fazer um interrogatório, se você quiser.

— Eu... Eu...

— O que, pródigo?

— Eu tô com fome!

Meu avô caiu na gargalhada.

— É claro que está! Dois dias! Vou buscar um pouco de comida, enquanto isso, se recomponha.


A tarde,

Eu estava sentado no sofá da sala, ainda cansado, porem com uma disposição maior. Meu avô estava do meu lado, me tirando dúvidas.

— Quem eram aquelas pessoas dentro do riacho?

— Não eram pessoas, eram espíritos. Espíritos, não fantasmas, tem diferença.

— Tem? Eu nem sabia que existiam fantasmas...

— Não o culpo, sua vida é treinar — queria falar o quão concordava com ele, mas não via forma de ser educado fazendo isso — Enfim, nós os chamamos de Espíritos D'água. Eles são dotados que morreram a muito tempo, principalmente Zui.

— Você conhece eles?

— Sim, todos nós conhecemos. Tenho certeza que lhes falaram do teste que temos que passar para provar que somos dotados.

— Ah, sim. Mas eles servem só pra isso?

— Não é só isso, é um trabalho árduo, onde eles são responsáveis pelo equilíbrio do mundo dotado. Eles são uma espécie de conselheiros.

— Tá, mas... Por que um riacho?

— Você consegue entrar dentro de uma pedra?

— Não?

— Exato, não. E se eu não me engano, os riachos, ou melhor, a água corrente, é a representação de fonte de poder e habilidades dos dotados.

— E o que a Marca?

— Hum, longa história, no dia que você conhecer a O.D., a gente te conta.

— E esse dia vai ser quando? Você disse que poderia ser hoje.

— Sim, talvez hoje. Vou mexer meus pauzinhos pra tentar, enquanto isso, descanse. Aproveite que hoje não teremos treinamento.

— Nossa, que pena, eu queria tanto treinar!

— Não se desanime por isso, amanhã eu passo pra você fazer o dobro dos exercícios!

— O quê? Não! Não! Eu estava brincando!

— Claro. Agora eu tenho que encontrar com eles. Faça algo... Sei lá, estude.

— Ual, meu avô me pedido pra estudar...

Ele me olhou de lado e saiu, resmungando como um velho que era.

— Ora, "me pedindo pra estudar"... Ele dorme dois dias direto, e... Ah!

Estudei. Não tinha nada pra fazer mesmo. Estudei o conteúdo do ano inteiro, poderia dormir nas aulas agora, sem precisar prestar atenção na doutrinação deles, e naquela pilha de matérias inúteis. Nada como uma memória fotográfica para colar nas provas.

Já era final de tarde quando meu avô voltou pra casa.

— Boas notícias! Hoje é o seu dia de sorte, ou azar, julgue como quiser... Eles permitiram que você saiba de quase tudo. Vamos sanar algumas de suas dúvidas.

— Jura? Isso!! — me senti tão feliz, só queria que as respostas tivessem sido tão felizes quanto eu naquele momento. Mas não, elas pareceram devastadoras.

Saímos de casa, caminhamos pela floresta de trás da dela por uns trinta minutos, até chegar numa árvore com um tronco imenso, do diâmetro de uma casa pequena. As grossas raízes se envolviam umas nas outras, como uma dança, uma dança de raízes brutas que aparentavam ser velhas, porem mais resistente que aço. Bom, parecia.

— É aqui — disse o meu avô, como se fizesse sentido.

— O quê é aqui?

— A entrada pro esconderijo. Não era o que você queria ver?

— Vô, isso é uma árvore.

— Uhum. E aquilo é uma porta

Ele apontou pra a árvore, olhei para ela e fiquei boquiaberto. Lá no fundo, entre as raízes, uma porta de madeira apareceu como magia. É claro que era magia, eu estava de frente para um covil, dirigido por vários dotados. Um covil! Quem em sã consciência tem um covil com uma entrada secreta no meio de uma árvore?!

Eu sabia que não precisava, mas fiquei receoso em por meus pés naquele lugar, encontrar com estranhos para discutir sobre meu futuro e tirar dúvidas que segundo o próprio Saturus, não iria me fazer tão bem. Talvez eu não estivesse preparado, mas eu já estava alí, não podia recuar. Não depois de tanto pedir por respostas.

Naquela hora eu não soube identificar o que sentia, mas depois eu descobri. Eu senti naquele momento, um defeito vital em mim, algo que me perturbou durante anos da minha vida. Um defeito, como uma máquina com peças defeituosas, irregulares, que não eram capazes do serviço. Há um nome pra isso, eu só não sabia ma época.

— Pródigo? Sabe que não precisa ser hoje, se você não quiser, certo? — meu avô percebeu minha indecisão, era clara como o dia — Mas sei também que não quer recuar agora. Seu desejo por respostas e curiosidade devem ser maiores que qualquer outro sentimento, não acha? Maior que a raiva, a indecisão ou o temível medo. Não corremos daquilo que não nos faz bem, porque a desvirtude sempre alcança aqueles que fogem. Precisamos combater ela, de uma forma tática. O que acha?

— Uhum — concordei.

— Então deixe eu te ajudar, vamos entrar juntos. Sem receios do que há por vir. 

Abracei as pernas dele por um rápido momento, depois peguei a mão dele, e a gente começou entrar na árvore, em direção à porta. Juntos. Antes de abrir a porta ele me perguntou?

— Certeza que quer continuar? É escolha sua.

— Sim, eu quero.

— Então vamos — ele apertou minha mão mais forte, me incentivando — Não vou deixar que nada de ruim aconteça.

Ele abriu a porta, dando numa escadaria subterrânea, incrivelmente íngreme, iluminada por lâmpadas automaticas, acendidas por movimento, da cor roxa. Eram lâmpadas ultravioletas.

— São ultravioletas pois servem para encobrir a presença de muitos dotados num mesmo lugar. Ficar embaixo de uma dessas — meu avô apontou para o teto — é como sumir do mapa para alguns outros seres.

— Que outros seres?

— Seres que se movem de acordo com seu maior sentido. Olfato, paladar, visão, tato ou audição. Você já deve ter estudado isso.

— Sim, mas como vocês descobriram tal propriedade delas?

— Da mesma forma que alguém um dia descobriu a energia, ou a caneta, ou a roda. As maiores descobertas, as vezes, vem de pura prática, experiência e uma pitada de sorte.

— É verdade.

Em dois minutos descendo a escada em espiral, chegamos a outra porta, feita de puro aço, com mecanismo de segurança por digital. Meu avô disse que depois poderíamos colocar minha digital no sistema, mas que hoje, usaríamos a dele.

— Bem vindo a Organização dos Dotados! — meu avô disse com entusiasmo duvidoso, mas eu não perguntei.

O lugar parecia muito novo, espaçoso, as paredes pintadas de branco com linhas vermelhas e azuis aleatórias. A decoração realmente não devia ser o forte dos dotados, mas era uma sala organizada. Dois grupos de quatro poltronas em volta de uma mesinha, grandes vasos de plantas — não faço ideia de como cresciam lá dentro sem luz solar, mas depois de ter entrado num covil debaixo de uma árvore, não me surpreendo —, e uma vasta coleção de livros de capa de couro, colocados em pequenas estantes nas laterais. Em frente, um balcão com uma mulher exageradamente sorridente.

— Não é uma base militar, mas é tudo o que precisamos — comentou meu avô, olhando pra mim. — Essa é a sala de recreação e recepção. E aquela ali é Úrsula, nossa recepcionista.

— E você deve ser Ninfo Filiah — disse Úrsula, uma mulher bonita com cabelos e olhos pretos, saindo de trás do balcão para me cumprimentar — é um prazer te conhecer. Essa e a sua primeira vez aqui, certo?

Me mantive em silêncio, aquela pergunta era tola demais pra eu gastar saliva.

— Olha que garotinho tímido!

— Hum — meu avô parecia querer rir — Ele não é tímido, só achou sua pergunta tão estúpida que não quis responder — aquele velho me conhecia. — É claro que essa é primeira vez dele, Úrsula! Já viu o nome dele no controle de dados?! — advertiu ele.

O sorriso dela afrouxou, ela ficou sem graça, e eu percebi.

— Claro, Del — nunca me acostumei reconhecer meu avô por sua patente, mas na O.D. eles eram bem formais nesse quesito — Aproveitando, Sir Willian e Madeleine estam te procurando, Del. Na sala 1. E se me permitir, eu poderia mostrar ao Ninfo o local.

— Sim, seria uma boa ideia. Tudo bem pra você, pródigo? — ele olhou pra mim, como se ordenasse um sim com os olhos.

— Pode ser... — a verdade é que eu preferia que meu avô me mostrasse.

— Vamos começar pela sala 4 — disse Úrsula, apontando para uma porta com uma placa em cima, indicando SALA 4.

— Boa ideia — concordou meu avô — E Úrsula, não disse aquilo por mal, se você se ofendeu, desculpe.

— Claro, Del — seu sorriso simpático voltou a tona. — Vamos, Ninfo?

— Uhum... — eu não esperei para começar minha série de perguntas — Por que salas?

— Já começou as perguntas, pródigo? Tome cuidado com ele Úrsula. E prodígio, suas dúvidas mais específicas serão retiradas no momento certo!

Ao contrário dos outros, Úrsula me respondeu com objetividade, sanando minhas dúvidas sem restrições, ou superstições idiotas como, "Você é só uma criança, não vau entender".

— As salas são as cinco divisões de operação da O.D.. Essa é a sala 0, serve para recepção e passa tempo — sua voz era doce, me deixando aconchegado com o local. E ela conhecia bem o lugar. — Temos vários livros, alguns de aventura, fantasia, por pura diversão, para refrescar a cabeça, como dizemos. As poltronas são confortáveis, te garanto. Vamos, sente-se — aceitei a oferta, e me surpreendi, de repente queria ler um livro — Também temos livros de utilidade, com informações de guerra, dentre eles tem até diários do seu avô. Livros de física, botânica, matemática, línguas, dentre outros.

— Certeza que eu preciso continuar indo na escola, porque com isso...

— É, eu também não gostava da escola.

— Você foi pra escola?

— Quase todos foram. A administria obriga. Mas você é a última criança que vai sair daquelas escolas, está difícil nos esconder. Teremos que criar as crianças aqui, se quisermos expandir os números.

— E por que ainda não o fazem?

— Demanda tempo, organização e foco. Nesse momento, temos no máximo organização, e olha lá...

— Construam uma sala 5 — falei brincando.

— É... Não seria uma péssima ideia — ela esboçou um sorriso. — Vamos para a sala 4?

— Sim, o que tem lá?

A gente andou até a porta, que como todas as outras quatro, era de ferro pintado de branco.

— Aqui é... — ela abriu a porta, mostrando uma sala pequena, com refrigeradores, uma geladeira, um fogão e uma pia. — Bem, a copa. Esperava mais, não? É, eu também, talvez se colocassem uma churrasqueira...

— Nunca mais crio expectativa nesse lugar. Podemos ir pra parte legal do covil? — minha curiosidade quase virou desprezo por àquele lugar.

— Espere, tem algo legal aqui. A melhor parte, olhe! — ela apontou para um sofá preto, que ficava estranhamente posicionado em frente à parede. — O Sofá RV, como nós o chamamos.

— RV?

— Realidade Virtual. Uma de nossas primeiras tecnologias, quando os tempos não eram tão macabros nesse planeta.

— Como assim?

— Eu não sou desses tempos, sou nova, sabe? Mas eu estudei a história de nossos antepassados. Pense só Ninfo, uma espécie tão especial como a nossa, com habilidades, capacidades sobre-humanas e principalmente, memória fotográfica, como é possível ainda não termos evoluído em termos gerais? Nossa tecnologia é pouca comparada com o que poderíamos fazer com tudo o que temos a nosso dispor. Mas a verdade é que desde quase sempre, não temos é nada. Todos esses dons, severamente inutilizados, por uma espécie de restrição nesse mundo!

— Faz sentido, eu já me perguntei isso também, mas como esse mundo pode restringir tanto a nossa evolução? É só um mundo! É só um planeta girando pelo espaço como qualquer outro!

— Não, não é só um planeta. Nunca foi. Não pertencemos a esse planeta. Tem uma magia nele... Macabra. Digamos que esse é um planeta parado no tempo.

Refleti momentaneamente sobre o assunto, era uma explicação boa, apesar de eu não ter entendido a lógica total por trás disso. Mas não queria fazer um interrogatório, não alí. Não agora que não tinha tanto tempo assim, queria acabar logo com aquilo e partir para as perguntas que realmente me interessavam.

— Não quer testar?

— O que? O sofá RV? Talvez outra hora. 

— Hum, tudo bem. Vamos para a próxima sala. A sala 3, essa você vai gostar. 

E ela estava certa, a sala 3 era o local onde eles armazenavam as armas, das mais estranhas. O lugar parecia um suvenir gigante, com uma grande forja e ferramentas de ferreiro. A sala não estava vazia. Um homem gigante, com pelo menos dois metros de altura, com uma barba imensa muito bem feita, porem queimada, estava mexendo na forja em brasas e chamas. Ele era o homem mais robusto que eu já tinha visto em toda minha vida — cinco anos —, talvez mais musculoso que Saturus.

— Aquele é Heucalípto, nosso forjador. Ele fabrica tudo!

Na minha cabeça eu só pensava, "Como alguém se chama eucalipto?". Mas não tive coragem de perguntar, já que o sujeito tinha quatro vezes a minha altura.

— Heucalípto! — chamou Úrsula, tentando falar mais alto que o som da forja e do ferro sendo modelado — Heucalípto! Ele é meio surdo, fica o dia inteiro nessas forjas... HEUCALÍPTO!

Heucalípto olhou de lado na maior lentidão possível, mostrou surpresa ao me ver. Ele largou o martelo que segurava, e veio em nossa direção, me lembrando, infelizmente e meramente, o gigante nas prisões de Ilhang You.

— Pois não, Úrsula? — sua voz era grossa e lesada.

— Quero lhe apresentar — Úrsula me empurrou pelas costas, para mais perto de Heucalípto. — Ninfo Filiah...

— ... o escolhido — ele me analisava como se eu fosse uma espada sem haste — Pequeno.

— Já pensou em colocar um espelho na sua oficina? Olha o seu tamanho — retruquei, já cansado de me chamarem de pequeno.

— Han, mas a língua é bem afiada — ele me cumprimentou com a cabeça, fiz uma leve mensura em troca. — É um prazer conhecê-lo, Ninfo Filiah. Quer conhecer essa maravilhosa e única forja?!

— Gostaria, mas...

— Não tem tempo. Está muito sujo aqui. Talvez outra hora. É, já ouvi de tudo isso.

— Não, eu gostaria mesmo de ver o lugar, mas...

— Entendi. Vou voltar ao meu trabalho, se me permite. Até breve, escolhido, e até mais tarde, Úrsula.

— Tchau, Heucalípto.

Saímos da sala.

— Pra quê armas?

— Planos, planos para um grande guerra que está por vir. Pergunte ao conselho, quando você estiver em reunião com eles — tocando no assunto seu sorriso vacilou novamente, e para não desanimar ela mais, troquei de assunto.

— E o que tem na sala 2?

— Nosso laboratório. Não é a sala mais útil, por causa daquela restrições que te falei, mas conseguimos trabalhar com o que temos.

— E o que temos?

— Hum... Não entendo muito dessas coisas, mas de principal a gente tem um sistema de mecanismo hidráulico maravilhoso. Estamos otimizando ele para um grande projeto.

Ela abriu a porta, e lá dentro parecia uma ala gigante de hospital, toda branca, e talvez a maior sala de todas. Maquinas enormes ocupavam o lugar, junto com um som constante dos mecanismos trabalhando. Tinham cinco dotados nessa sala, dois deles eu já conhecia, Maria e Tarcísio, que estavam comigo no barco no dia da missão em Ilhang You.

— Está é a maior sala de todas. As máquinas ocupam muito espaço, então é necessário. Aqueles ali, são cientistas e auxiliares que estão de plantão hoje. Ei, pessoal! Venham aqui! — ela gritou para superar o barulho das máquinas.

Os cinco saíram das máquinas e vieram ao nosso encontro.

— Este, pessoal, é Ninfo Filiah — disse Úrsula.

Eles todos usavam jalecos brancos, segurando ferramentas e planilhas. O mais alto parecia ser o mais doido, com um cabelo muito bagunçado.

— Prazer em revê-lo, Ninfo — disse Maria. — Li o relatório da sua missão naquele dia em Ilhang You, Você foi muito corajoso.

— Sim, concordo — disse Tarcísio. — É bom ver você aqui, na O.D..

Sorri como agradecimento.

— Já se conhecem? — surpreendeu-se Úrsula — Ótimo. E esses outros são...

— Sou Mag, líder da sala 2 — disse o homem alto com cabelo desgrenhado. Ele era muito magro, usava óculos de proteção, e tinha um maçarico na mão, um provável incendiário. — Esta é Marta — Mag apontou para uma mulher baixinha. — E aquele é Tarcísio versão original — apontou rindo para um senhor de idade com cabelo branco.

— Pare com suas brincadeiras sem graça, Magnus! Só temos o mesmo nome! — repreendeu o velho senhor. — E você, Ninfo Filiah — ele olhou sorrindo pra mim com seus dentes amarelos. — é um imenso prazer conhecê-lo. Pode me chamar de tio.

— E você é meu tio? — perguntei talvez num tom mal educado.

— Não, mas... É o jeito que me chamam.

— Certo — eu queria mudar logo de assunto, mas sem deixar minha situação com o "tio" ruim, ou mais ruim — E o que vocês fazem aqui?

— Aprimoramos o que nossos antepassados nos deixaram... O que não é grande coisa... — respondeu Tarcísio descontente.

— Mas o suficiente para avançarmos em nossos planos! — complementou Mag, com um entusiasmo cativante.

— Que planos? — perguntei com intuito de saber mais sobre esses planos e deu certo

— Oras, depois que você ir embora, nós entraremos numa... — deu certo até Úrsula socar Mag na barriga. Mas aquilo não foi o que me assustou, as palavras "você ir embora" reverberavam pela minha cabeça.

— Como assim eu ir embora? — fiquei assustado, poderia interpretar aquilo de varias formas. — Quais são os planos de vocês para mim? Vão me matar? Sacrificar ou algo do tipo?

— Uma criança de cinco anos deveria saber usar esse tipo de palavra? Não sei, nunca tive filhos — comentou Úrsula desnecessariamente. — Mas não Ninfo, não vamos te... — ela hesitou.

— Matar? — perguntou Mag.

— Eu não queria usar essa palavra na frente de uma criança, mas é. Não vamos te matar ou algo do tipo. Digamos que você tem uma missão... Como em Ilhang You, só que não em Ilhang You...

— Ou nesse planeta! — intrometeu-se Mag, novamente, o que dessa vez eu não achei ruim, pois ninguém na sala parecia disposto a ter me contado aquilo.

— Alguém tira o Mag daqui? — Úrsula parecia querer matar o homem, mas se contia atrás de seu sorriso. — Marta? Tio?

— Será um prazer — disse Marta.

— Acho que todos deveriam voltar ao trabalho, isso sim! — disse o tio.

— Melhor — concordou Úrsula, com um olhar penetrante em Mag. — Ninfo, esse não foi nem o lugar certo, nem com as pessoas certas, então eu peço para que não tire conclusões precipitadas, ou melhor, peço para que esqueça os absurdos descontextualizados que teve de ouvir aqui. Pode fazer isso por mim?

Eu estava tão surpreendido com o que acabara de ouvir que nem consegui responder direito. Uma missão fora do planeta?! O que eles queriam de mim? Mesmo eu sendo o provável escolhido, ou o real escolhido, aquilo não me tornava uma máquina mortífera, e mais, os dotados estão aprisionados em Salvir, como eu sairia? Mais e mais perguntas surgiam como partículas de água que compõem uma chuva. Acho que não vou gostar quando começar a chover.

— É, sim — eu estava meio desorientado com tudo. — Posso.

— Acho que já deu por aqui... Tchau pessoal — eles se despediram também e voltaram ao trabalho. — Vamos para a sala principal, a sala 1.

— Uhum.

— Sem perguntas? Ainda está mal, né? Me desculpe mesmo, não era pra ter ouvido nada daquilo. Não de nós. — ela me tranquilizava falando aquilo, então me acalmei, e para alegria ou não dela, recomecei as perguntas.

— Quantos dotados existem? Só dezenove dotados?

— Dezenove? Não, não — disse rindo — Somos em torno de 70 dotados, pelo mundo todo! Temos lugares parecidos com esse em vários lugares do mundo. Aqui é tipo a sede da sede. Uma estrutura muito organizada, te garanto.

— É um sistema mundial?

— Isso mesmo — fiquei impressionado, imaginava que aquela base era tudo que a O.D. tinha. — A sala 1 é a mais utilizada. A sala de reuniões, basicamente.

— É onde fica o conselho?

— Sim, os dez conselheiros e Del organizam as coisas daqui. É a mágica da coisa.

— Hum, mágica... — murmurei.

— Essa porta é especial, precisa de algumas senhas. Digital, depois 3-1-4-1-5-9-2-6-5-3-5-8-9-7-9-3-2-3-8-4-6, e...

— Ei, esse é aquele número famoso, não é?

— Sim, Pi! Foi Arquimedes quem o nomeou, mas fomos nos quem inventamos. Ele é, ou era, de um planeta chamado Terra.

— Como vocês sabem disso?

— É que no início dos tempos, antes da magia ante evolução funcionar de verdade, nós conseguimos fazer contato com outros seres, de outros planetas.

— E daí vocês fizeram contato com esse tal de Arquimedes?

— Não, os terráqueos, como se denominam, eram muito mal evoluídos, Arquimedes nem havia nascido, nos fizemos contato com um ser... Guardião daquele mundo, digamos.

— Um mundo com um guardião...?— sussurrei, achando muito estranho um planeta ter um único guardião, ou simplesmente ter um guardião.

— É, e ele queria ajudar o planeta dele se desenvolver. Falou que aquela descoberta seria muito significante, e que um dia um homem chamado Arquimedes iria nomeá-la de Pi. Mas enfim, se quiser depois eu te ensino um pouco de história. É importante saber o passado da nossa espécie. Precisa também de outra senha, e um escaneamento ocular.

— Tá, a segurança dessa porta de sala de reuniões é exagerada.

— Também acho. — concordou rindo.

De dentro da sala ouvi duas vozes debatendo alto, gritando, para ser mais exato. Conheci ambas as vozes.

— Estamos basicamente um estado de calamidade! Não temos mais uma década, e você sabe disso! Temos no máximo cinco anos!

— Em cinco anos ele não vai estar preparado! Precisa de pelo menos uma década a mais! — disse a voz que eu reconheci de primeira, meu avô, e ele estava furioso, disso eu sabia.

— Você ouviu as notícias, Del! Você próprio interrogou o homem! Não temos tempo! Uma era de guerra está por vir! — era Sir William discutindo com ele.

— Adiem está guerra então! Porque o meu neto não estará preparado para esse universo maldito em apenas cinco anos! NÃO VOU MANDÁ-LO PARA A MORTE!

Fiquei pasmo, e toda aquela conversa já estava me assustando, mas eu decidi que agora, mais do que nunca, precisava saber daquela história toda. Não aceitaria sair dali com as desculpas de sempre. Úrsula parecia tão pasma quanto eu.

Eles ainda não haviam me percebido, até uma mulher me ver.

— Senhores! Se comportem! Nossa visita chegou! Não é hora para discussão! — a mulher apontou para mim, e os dois me viram, Sir William e meu avô, logo se levantando para me cumprimentar — Ninfo Filiah, que bom conhecê-lo, peço desculpas por isso... Meu nome de Madeleine.

Ela me cumprimentou com um forte aperto de mão. Seu cabelo era cor caramelo, encaracolado e com presilhas. Era uma mulher de meia idade, que parecia segura de si, com postura extremamente formal, usando um terno feminino.

— Bem vindo a sala 1 — disse Úrsula sem graça e perdida. — Esse foi o pior passeio da história, me deem licença... — resmungou baixinho.

— Obrigado, Úrsula — disse meu avô.

Enquanto ela saía, eu olhei a sala de reuniões, e era bonita, as paredes pintadas com um azul metálico, uma estrutura muito moderna. Luzes led azuis neon enfeitavam a parede, e no alto, um sistema muito elegante — exagerado — de luz, que não deixavam a sala completamente iluminada, mas não a deixava escura, dando contraste. Uma mesa enorme, com formato oval, preenchia grande parte da sala. Onze cadeiras estavam a posto, cinco dos lado e uma na ponta. O mais impressionante é que no canto da sala tinha um tipo de altar, para um poço muito estranho, mas que emanava muita energia.

Meu avô levantou, veio até mim e se abaixou

— Prodígio, finalmente chegou a sala 1. A sala onde tiraremos suas dúvidas. Nós três — ele olhou para Madeleine e Sir William, claramente esperando cooperação. — E ignore o que você ouviu do meu debate com Sir William.

— Do que vocês estavam falando de mim?

— Prodígio, esqueça...

— Talvez possamos chegar à resposta dessa pergunta — interrompeu Madeleine, simpática. — Vamos! Sente-se a mesa conosco e comece seu interrogatório.


Notas Finais


Obrigado por ler!


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