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História MurderHouse - Capítulo 8


Escrita por: e BiaFurious


Notas do Autor


Olá pessoal, como vão vocês?

Agradecemos imensamente a paciência de todas as pessoas que nos lêem. Estamos vivendo uma situação complicada com a pandemia, e nós tivemos maus momentos nas últimas semanas. Se manter bem não é fácil, mas cuidamos de nós mesmos e é com alegria que trazemos mais um capítulo de Murder House.

Esse capítulo tem cenas gráficas de agressão, pode ser desagrafável para alguns leitores. Então por gentileza, tomem cuidado.

Obrigade por lerem!
~KillMeSenpaii e BiaFurious

Capítulo 8 - Eijiro Kirishima.


Novamente o caminho pra casa foi monótono e sem graça. Eu sentia que essa história seria um furo e estava muito animada para apresentar meus resultados na sexta para Iida, mas ao mesmo tempo, inexplicavelmente, me sentia irritada e inquieta com o fato de que logo as entrevistas acabariam. Para tentar relaxar a cabeça, passei em um mercado 24 horas para comprar uma bebida. Passei pela porta e o rapaz no caixa acenou pra mim com a cabeça, educadamente. Havia uma bagunça na parte de trás, mas pensei que seria tranquilo pegar minhas coisas e sair. Fui nos freezers na parte de trás da venda, e o barulho ficou pior. Peguei minhas garrafas de cerveja e ficou insuportável no momento em que eu ouvi um “psiu”.

 

Olhei pro lado. Dois idiotas. Provavelmente bêbados. Fazendo gestos obscenos. Respirei fundo e pensei: “ignore, Ochako, ignore…”. Fechei o freezer e caminhei calmamente para o caixa, depositei lá as garrafas e sorri pro rapaz novamente, enquanto colocava minha compra em sacolas. Suas feições mudaram quando os dois idiotas escoraram no caixa, antes que ele pudesse guardar as duas últimas garrafas. 

 

- Então… - disse um deles - não quer companhia pra beber isso tudo?

 

- Senhores, por favor… estão incomodando a clien…

 

- CALA A BOCA SEU IDIOTA! - berrou o outro, para o caixa - Vamos lá, gracinha… Nós podemos nos divertir a três… - falou com uma voz macia, esticando a mão para mim.

 

Eu olhei para eles e, subitamente, fui tomada por um ódio que me era completamente estranho. Minha mente ficou enevoada e estranha, e não sei exatamente o que houve, mas a próxima coisa que vi foi uma garrafa de cerveja quebrada no chão, os homens não mais ali e o atendente me perguntando se eu estava bem.

 

Peguei minha compra, ganhei mais duas garrafas de presente, sem saber o que tinha acontecido. Dei de ombros, talvez ele estivesse se desculpando pela minha garrafa quebrada e tentou ser gentil, pra que eu voltasse mais vezes. Dirigi até em casa e repeti o ritual de transferência de arquivos e carregamento de equipamentos. Dessa vez, me atrevi a ouvir novamente as entrevistas já feitas, enquanto eu bebia e preparava algo para comer.

 

Ouvir novamente as vozes daqueles rapazes me trouxe um uma enorme confusão de sentimentos. Eu sentia pena daqueles garotos, além de uma empatia crescente pela causa que imaginava ser a daquelas pobres almas, inaptas a estar em sociedade por causa de terceiros. Ao mesmo tempo, ouvir a forma brutal como mataram pessoas ao redor deles me revirava o estômago, me deixava horrorizada e perplexa em pensar na complexidade de tudo aquilo. Como será que o Shoto lidava com tudo aquilo?

 

Shoto… ele me intrigava e sua presença era magnética para mim. Às vezes eu tinha a impressão de que ele tinha permitido fazer aquilo apenas para seu bel prazer de ver como eu reagiria a todas aquelas situações. Talvez pra ver se seus internos poderiam se reintegrar à sociedade? Mal sabia eu que a agenda daquele homem era bem mais complexa do que eu jamais poderia antever.

 

Cinco garrafas de cerveja depois eu estava no fim do áudio da última entrevista. Eu sabia que tinha escrito diversas páginas de anotações a respeito, mas aparentemente meu corpo tinha cedido ao cansaço e eu não havia reparado, uma vez que dei por mim ainda sentada, com o lápis na mão, encostado na folha. O sono era tanto que eu não conseguia ler o que tinha escrito, então decidi me deitar.

 

Acredito ter caído em um sono profundo até as 3 da manhã, e depois não consegui mais dormir. Rolava de um lado pro outro na cama, sem realmente conseguir pegar no sono. Decidi então levantar e começar algumas atividades corriqueiras, como arrumar a casa e organizar o que precisava para mais tarde. Lá pelas sete, depois de terminar de lavar a cozinha, decidi mandar uma nova mensagem para Tsuyu, contando dos meus avanços e como tudo estava bem. Assim que a mensagem foi marcada como lida no aplicativo, ela me ligou:

 

- Finalmente apareceu a margarida!

 

- Bom dia, Tsu! - disse eu, enquanto colocava uma xícara de café.

 

- Eu estava preocupada com você, Chako! Como tem sido as visitas naquele lugar medonho? - perguntou, e eu senti a preocupação em sua voz.

 

- Têm sido tranquilas. Hoje vou almoçar com o diretor do lugar. - comentei enquanto sentava à mesa, para verificar como tinha sido a transferência dos arquivos durante a noite.

 

- Você comentou que era bonito, né? Ele não é… sei lá, Chako.

 

- O que?

 

- Acha que ele é… não sei, bom da cabeça?

 

- Amiga, - disse, dando uma risadinha, enquanto pegava minha caderneta para rever as anotações do dia anterior - não é porque ele coordena um sanatório que ele é pirado.

 

- Eu sei, amiga, mas é que…

 

A voz de Tsuyu ficou longe, enquanto meu coração acelerava e meus olhos se arregalavam. No meu caderno, em meio a diversas anotações sobre as gravações, haviam outros escritos, com uma caligrafia que não era minha. Pareciam citações de pedaços das entrevistas, notoriamente dos trechos mais macabros. Será que alguém havia entrado na minha casa ou um dos garotos tinha pegado meu caderno sem eu ver? Diversas possibilidades passaram pela minha cabeça e minha respiração foi ficando cada vez mais rápida, quando ouvi Tsuyu gritar do outro lado da linha:

 

- OCHAKO!

 

- Ah! Sim?! - respondi assustada.

 

- Você está bem? Ficou muda aí quando falei sobre o que me preocupa.

 

- Me desculpa, eu dormi super pouco hoje. A gente pode se falar mais tarde? Hoje eu vou ao sanatório mais cedo.

 

- Você e esse sanatório. Cuidado pra não ficar obcecada.

 

- Claro. Obrigada por ligar.

 

- Eu te amo, se cuida.

 

- Também, se cuida.

 

Me levantei rapidamente da mesa, e comecei a checar incessantemente janelas e portas. Olhei o corredor e liguei em seguida para a síndica, perguntando se havia a possibilidade de verificar as câmeras de segurança para ver se alguém havia invadido meu apartamento durante a noite. Ela demonstrou preocupação e disse que sim, e eu quase me preparei para ir lá ver, quando vi as garrafas em cima da pia. Eu não tinha costume de beber. Com certeza deve ter influenciado. 

 

- Mas é claro! Ochako, ao invés de se preocupar, veja que chique, agora você tem uma letra de bêbada!

 

Achei graça e sacudi aquele pensamento para lá, finalizando o meu café. Meu julgamento devia estar sendo prejudicado, uma vez que a ansiedade e a falta de sono provavelmente estavam tirando vantagem de mim. Decidi então me acalmar vendo uma série sobre viagens espaciais, para me distrair um pouco antes da hora de sair. Coloquei um despertador, caso eu fosse tomada pelo sono. E assim como previsto, eu dormi mais uma vez e sonhei com cervos em clareiras, rolando na grama, felizes.

 

Acordei com o barulho do alarme, indo direto pro banho, vesti uma calça de alfaiataria, camisa social branca, blazer risca de giz e um sapato com salto quadrado. Coloquei uma maquiagem discreta, ajeitei os cabelos, juntei meu material para a entrevista e saí de casa.

 

Mais uma vez, passei o portão do sanatório, estacionei meu carro no local costumeiro, tirei minha mochila do banco do passageiro e caminhei calmamente para a portaria. Parei na recepção e Denki estava lá, sentado, lendo.

 

- Boa tarde, Denki. - disse.

 

O garoto tirou os olhos do livro lentamente, e cruzou os meus com a mesma expressão vazia de sempre. Como um equipamento infalível, repetiu o mesmo ritual das outras vezes:

-  Boa tarde. Seu nome, por favor?

 

- Ochako Uraraka.

 

Eu não havia reparado antes, mas havia em mim uma expectativa em vê-lo repetir religiosamente a busca pelo meu nome em sua agenda. O folhear anunciava o momento em que eu ia poder ver os segredos daquele lugar.

 

- Seja bem-vinda ao Sanatório Yamazaki, senhorita Uraraka. O doutor Todoroki irá recebê-la na sala de estudos. Hanta irá acompanhá-la. Hanta!

 

De dentro da sala, saiu o garoto enfaixado, caminhando com o braço à frente do corpo. Me adiantei e segurei-o pelo outro braço.

 

- Boa tarde, senhorita.

 

- Boa tarde, Hanta. Como vai?

 

- Estou bem. Vamos?

 

Caminhei com ele, enquanto me contava que Fatgum estava animado, preparando algo especial para o almoço de todos aquele dia, a pedido do médico. Assim que chegamos à sala de estudos, soltou meu braço e se despediu. Talvez fosse impressão minha, mas senti um certo… temor em seus olhos. Deixei aquela sensação ir embora e abri as portas, me deparando com uma bela mesa para dois posta ali. Shoto olhava para fora da janela quando entrei, e repetiu o seu ritual de tomar seus dois comprimidos ao vir ao meu encontro.

 

- Senhorita Ochako. - disse, enquanto me estendia a mão.

 

- Boa tarde, doutor Todoroki. - respondi, enquanto ele trazia meu braço pro seu.

 

- Espero que esteja com fome.

 

Nos sentamos à mesa e parecia que o senhor Toyomitsu recebia instruções telepáticas do médico à minha frente, pois ele sabia exatamente quando trazer um prato e vir recolhê-lo, trazendo o próximo. Lá pela metade do prato principal, Todoroki me olhou com seriedade e disse:

 

- Espero que esteja do seu agrado.

 

- Está maravilhoso, obrigada.

 

- A senhorita poderia, por gentileza, pegar seu gravador?

 

Achei estranho ele pedir isso, no meio do almoço. Mas consenti, estiquei a mão para minha mochila e peguei o aparelho, ajustando as configurações necessárias e colocando pra gravar.

 

- Pensei que só me concederia uma entrevista se eu não recuasse em entrevistar nenhum dos internos. - provoquei.

 

- Exatamente. Eu estou aqui para expor fatos e saber se a senhorita quer, realmente, continuar. Em todo caso, pensei que gostaria de ter o que vou lhe contar já gravado. Com certeza será útil, caso decida prosseguir. - respondeu, me lançando um olhar sarcástico.

 

- Eu não tenho intenções de desistir, mas fico feliz que queira me colocar a par dos detalhes com antecedência. - disse, enquanto tomava um pouco de vinho.

 

- De fato. - disse ele, colocando mais dois comprimidos na boca e bebendo um pouco de sua taça - A senhorita conhece o caso de Dina Sanichar?

 

Ele me olhava de uma forma desafiadora, como se tudo aquilo realmente fosse um teste. Não exatamente da minha bravura, mas talvez da minha inteligência e, até, da minha sanidade. Ele mantinha os olhos fixos em mim e mexia a taça pela haste, com um meio sorriso nos lábios. Arqueei a sobrancelha e disse:

 

- Dina Sanichar, indiano. Encontrado por caçadores, andando com uma matilha de lobos. É um dos casos mais famosos de “Moglis” da vida real. Foi tirado deles e levado para um orfanato. O comportamento animalesco dele ia muito além de apenas andar usando os quatro membros no chão. Até o fim da vida, ele não havia aprendido 100% do que seria considerado “comportamento humano”.

 

- Incrivelmente acurado. - disse ele, bebendo um pouco de vinho, claramente satisfeito com a minha resposta - Para a ciência, senhorita, existem muitos mistérios que dizem respeito ao comportamento humano e como o cérebro reage a diferentes estímulos, e esse campo de estudo chama a atenção de diversos estudiosos, das mais variadas áreas… e índoles.

 

Ele então apoiou os cotovelos na mesa, cruzou as mãos e apoiou seu queixo nelas, continuando.

 

- Há alguns anos atrás, havia um garoto que morava em uma casa simples nos subúrbios da cidade. Era um garotinho alegre, extrovertido e muito tranquilo, segundo os pais. Ele ia para o jardim de infância, gostava de colorir e de borboletas. Um dia, houve uma… visita técnica na escolinha desse garoto. Segundo os professores, uma equipe de psicopedagogos apareceu por lá para avaliar como a escola atendia os alunos. Durante essa visita, dentro do período de aulas, o garotinho desapareceu e nunca mais foi visto.

 

Meu coração sentiu uma pontada de desespero, pensando nos pobres pais dessa criança.

- Milhares de cartazes foram espalhados pela cidade, - comentou ele, colocando mais vinho em nossas taças - a escola foi responsabilizada, veio a fechar depois de um tempo e os pais buscaram por ele incansavelmente por muitos anos. Infelizmente, ao contrário do que muitos pensam, o garoto não havia sido morto. Seu destino estava sendo infinitas vezes pior… do que a própria morte.

 

Shoto deu um sorriso macabro, e parecia esperar alguma indagação minha para prosseguir com sua história.

 

- O que aconteceu com ele? - perguntei, tensa.

 

- Ele foi sequestrado. Naquele dia, um dos médicos era um cientista comportamental, que pagou uma quantia significativa de dinheiro para se infiltrar na inspeção, simplesmente para testar uma hipótese: assim como tentaram ensinar a Dina como ser um “humano funcional”, seria possível fazer com que um humano funcional se tornasse… uma besta?

 

- Como assim? - perguntei de forma sincera e apavorada, porque nem nos meus piores pesadelos imaginei que a humanidade pudesse chegar a esse ponto de podridão.

 

- Ele atraiu o garotinho como se atrai crianças normalmente: doces, brinquedos. Foi fácil desacordá-lo aquele dia. E, pelo que soubemos, o experimento consistia em tirar todos os hábitos humanos da criança: a fala, o andar sobre duas pernas, a humanidade em si.

 

A sobremesa chegou e o médico mantinha o mesmo sorriso macabro e os olhos fixos em mim, enquanto pegava um pedaço da mousse de chocolate e colocava na boca.

 

- O cientista trancou o garoto num porão, e ele ficava lá sozinho, sem ninguém. Às vezes, tudo o que tinha era a companhia de animais, como porcos e cachorros. A comida e a água eram servidas para ele em vasilhas de cachorro, e às vezes ele ganhava um ou outro petisco melhor, mas apenas perante a reprodução do comportamento animal. Caso ele fizesse algo que lembrasse minimamente um humano, era punido com choques e correiadas. Consegue imaginar uma criança, acostumada com seu pequeno urinol, ter que voltar a fazer as necessidades no chão e conviver em meio a isso?

 

Meu estômago estava revirado, mas eu me recusava a admitir. Continuei comendo, mesmo fazendo cara de repulsa enquanto dizia:

 

- Isso é completamente desumano.

 

- Sim. E se enganam as pessoas que pensam que as criaturas sem sentimento na terra são os seres irracionais. Além das punições, muitas vezes severas, o cientista ainda às vezes forçava o garoto a ter que matar os animais que ficavam com ele com as próprias mãos para poder comer. Ele o banhava com fortes jatos de água fria, independente da temperatura. É difícil até pra mim, que sou médico e compreendo as reações fisiológicas, precisar o quanto esse garoto sofreu. Mas assim, como tudo no ciclo da vida, tudo tem um começo… e um fim.

 

Ele se ajeitou na cadeira, depois de comer o último pedaço de sobremesa. A minha estava quase intocada, e eu senti um arrepio passar pelo meu copo quando ele se recostou, cruzou as pernas e pôs as mãos no joelho.

 

- O que houve, então? - perguntei.

 

- O feitiço virou contra o feiticeiro. - disse ele, com um tom quase debochado - Aparente o sujeito era burro o suficiente para não considerar que seres humanos são uma variável imprevisível, que ao contrário de animais, seguem instintos mas são dotados de muito mais inteligência. O garotinho já não era um garotinho mais, era um homem formado com mais de uma década de experiência com esse tratamento. Era rápido, só se alimentava de carne crua, e tinha com certeza um ódio descomunal crescendo em si. Um dia, seu… tutor foi descuidado o suficiente para esquecer o taser no andar de cima. E o garoto se aproveitou disso para pular nele e dilacerar sua garganta.

 

E mais uma vez ele se divertiu com a minha mudança de expressão, quando senti que ia vomitar. Mas, eu não sairia dali sem saber tudo, então juntei minhas forças e engoli seco.

 

- A sorte desse garoto foi que os vizinhos sempre conversavam com o cientista pela manhã. Eles combinavam sempre de jogar bingo a noite, e naquela manhã ele não apareceu. Chamaram a polícia, que chamou a zoonoses, que num impulso muito acertado entrou em contato comigo. Desde então, esse interno precisa de… cuidados especiais e uma atenção diferente.

 

Terminei de enfiar todo o resto do doce na boca e engolir forçosamente. Minhas mãos tremiam mas eu jamais cederia. JAMAIS. Limpei a boca com o guardanapo, finalizei minha taça de vinho e perguntei:

 

- E eu posso vê-lo agora?

 

Shoto soltou uma risada alta.

 

- Bravo! Não esperava menos da senhorita. Certamente, vamos, vamos. Por aqui, por gentileza.

 

Agarrei a minha mochila e caminhei rapidamente para pegar-lhe o braço. Caminhamos em silêncio pelo corredor, enquanto eu planejava o que faria. Eu precisaria ser inteligente se quisesse o melhor dessa história. Como diabos eu ia fazer pra documentar isso? Só voltei dos meus pensamentos para a realidade quando ele disse:

 

- Chegamos.

 

Meu sangue congelou quando percebi que era a mesma porta de ontem. Não era um cachorro, era uma pessoa. Uma pessoa transformada em animal por um lunático sem alma. Eu precisava me manter firme para continuar meu projeto, caso vacilasse um milímetro sequer, certamente botaria tudo a perder. Pedi licença a ele e abri minha mochila, alcançando uma self cam e um microfone de lapela, conectando-o ao meu telefone e iniciando o gravador. Sinalizei positivo e o médico abriu a porta.

 

A meia luz do cômodo, fornecida por uma lâmpada esmaecida, fazia tudo parecer ainda mais terrível. Cheiro de urina e fezes pairavam ali, apesar do cheiro de limpeza. Ali, no fundo do cômodo, uma figura acocorada no colchão se mexeu lentamente, ao notar nossa presença. Eu caminhei devegar, com a mão na frente do corpo, como se faz quando se quer aproximação com qualquer bicho. Ele se pôs atento, levantando o rosto ao ar, para farejar. Deu um rosnado e o seu mexer denunciou que estava preso às enormes correntes. O cabelo preto, jogado no rosto, e o corpo escoriado, faziam com que parecesse muito mais velho do que realmente era. 

 

Se mexeu rapidamente, atingindo o meio do cômodo em instantes. Farejou e rosnou de novo. Os dentes, pelo que eu podia ver, eram afiados e fortes, e a quantidade de saliva que ele produzia me dava pavor. Continuei me aproximando devagar, ao que eu imaginava ser uma distância segura pelos cálculos do que eu lembrava das correntes no dia anterior.

 

Mais uma farejada no ar. Ele ficou estático por alguns segundos, como se analisando o risco do que estava acontecendo ali. E algo naquele momento chamou a minha atenção, por um segundo fatal: nas sombras, ao lado de onde eu estava, consegui distinguir claramente a sombra de uma focinheira. Não tive sequer tempo de reação, ele estava completamente sobre mim, com seus dentes dilacerando meu braço, muito mais rapidamente que o bisturi de Katsuki. Eu só conseguia gritar e tentar usar meu corpo para tirá-lo de cima de mim, mas ele também havia cravado suas unhas nos meus ombros. Sentia o sangue pingando na minha camisa e escorrendo no meu colo, e as minhas forças se esvaindo enquanto meu desespero crescia. Quando pensei que realmente, tudo estaria acabado porque nem o médico eu ouvia mais ali, uma voz surgiu do nada, dizendo:

 

- Eiji, deixa.

 

Como um cachorro adestrado, o ataque imediatamente cessou. Enquanto eu recuava, sentada no chão, apavorada, Izuku acariciava o rosto do menino fera, que lambia sua mão e se deitava aos seus pés, de barriga pra cima. O garoto de sardas pegou então a focinheira e colocou nele sem nenhuma resistência, sussurrando em seguida: “vá deitar”. Como um garoto obediente, ele apenas foi, dando voltas no lugar até desmontar, deitado. Todoroki então reapareceu com um kit de primeiros socorros, enquanto Izuku caminhava lentamente para fora da sala. Antes de sair de todo, virou-se para mim, numa voz completamente diferente da doce das nossas conversas:

 

- Eu sou o próximo, certo? Estou aguardando ansiosamente por esse momento, e pela nossa conversa nos balanços.

 

Continuei olhando perplexa, enquanto o médico aplicava em mim antisséptico para limpar os ferimentos. Ordenei os pensamentos e disse:

 

- O-o que acabou de acontecer?

 

O médico então voltou aqueles olhos diferentes, profundos e enigmáticos pra mim e disse, fazendo com que meu corpo imediatamente começasse a tremer:

 

- Seria leviano da minha parte deixar imaginar que pudesse suportar a verdade sobre as pessoas que aqui estão se conhecesse os horrores dessas vidas sem qualquer gradação, qualquer preparo. Você conheceu o mal em medidas diferentes, começando com uma dosagem baixa, e foi aumentando, se preparando para a última dose. Além disso, na selva, senhorita, os animais se organizam em uma hierarquia por força. Já dizia Maquiavel que “o Príncipe deve ser amado e temido”. Aqui, como na selva, impera o mais forte, e ele controla os demais. E o rei entre eles não é ninguém menos que Izuku Midoriya.

 


Notas Finais


Esperamos que tenham gostado! Agradecemos a paciência, continuem acompanhando e teorizando. O que será que ele quer falar com Ochako nos balanços? E o que será que levou Izuku a ser "O Príncipe"?

Continuem se cuidando, se algo não estiver bem fale com amigos ou com quem vocês confiam. Esperamos que tudo isso passe logo!


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