1. Spirit Fanfics >
  2. Muro >
  3. Ávida Dúvida

História Muro - Capítulo 3


Escrita por:


Notas do Autor


Boa noite, gente! Fim de semana de isolamento e todos bem? Espero que sim. Abraço!!

Capítulo 3 - Ávida Dúvida


Algumas perguntas sempre assolaram a cabeça de Samantha. A resposta parecia simples para todas elas, mas sempre havia um resquício de dúvida e os boatos não ajudavam. Durante dezoito anos da sua vida, Samantha ouviu sua mãe contar belas histórias sobre seu pai. Marina sempre fez questão de dizer à filha como Caio amava seu trabalho, o respeito que todos tinham com ele e como ele foi um herói, dando a sua própria vida em prol do bem de todos.

Os próprios vizinhos contavam sobre ele e, para validar o pensamento, todos os anos, na data da sua morte, o rei mandava uma placa de agradecimento pelos serviços prestados com inteligência e bravura. Não devia transparecer qualquer desconfiança à Samantha sobre seu pai ser de fato um herói para o seu povo.

Só que a fama ambígua de Caio não passou despercebida por ela durante esses anos. Enquanto a governo o reconhecia como mártir e os jovens liam nos livros de história sobre as bravuras do homem e sua função para o reinado, alguns poucos insistiam em dizer que a verdade não era bem aquela. Cansou de ouvir Lica e MB enaltecê-lo pelos corredores da escola, em sussurros rebeldes e bastante orgulhosos sobre como Caio tentou livrar o povo e atentou contra o próprio reinado.

Não eram coisas ditas em voz alta, mas parecia que sempre que Samantha estava por perto, eles se arriscavam a passar aquela maldita mensagem. Uma teoria absurda de que o reinado teria dado um jeito de, num só momento, matar a ameaça que era Caio Lambertini em busca de liberdade, colocar a culpa nos rebeldes e imprimir a imagem de um grupo perigoso à sociedade, e, na imagem do próprio falecido, vender a imagem de um herói que representava a força do Estado, que cuidava do seu povo entregando a própria vida se necessário.

Absurdos! E Samantha sempre se ofendia ao ouvir tais insultos. Mas nunca deixou transparecer sua revolta. Fingia indiferença porque fizera uma promessa à sua mãe: não se envolveria com criminosos. E era isso que Lica, MB e todos os metidos a revolucionários eram. Criminosos da pior espécie, que atentavam contra a paz e a unidade do reinado.

Mas também não podia impedir suas dúvidas. Por mais que se esforçasse para não se abalar, aqueles sussurros acabavam por inserir um questionamento teimoso em sua cabeça. E, por mais que Samantha tivesse se convencido de que o pai fora um dia o grande herói do rei, as vezes ela subia a trilha do monte, até um mirante antigo que quase ninguém ia, e ficava a observar o horizonte. Pensativa, ela podia contemplar a sua terra, a fronteira com o muro e, bem lá no fundo, o esboço de uma civilização desconhecida. Prédios altos e, aparentemente, muito bonitos, imponentes e diferentes. Ao contrário da sua cidade, planejada e tão igual.

Samantha não acreditava que o pai pudesse um dia ter sido um terrorista, mas se tivesse realmente sido, até entendia o por que… o mundo do outro lado parecia fascinante de se olhar. Talvez ele apenas tivesse tido a coragem de conhecer o que acontecia do lado de lá.

Mas no mesmo momento que Samantha buscava um pouco de paz e liberdade para pensar e meditar sobre os assuntos que a afligia, Lica adentrava as portas do hospital agitada, olhando para os lados à procura de algum conhecido. Ela odiava hospitais e toda a ordem e branquidão que eles tinham. Também o fato extremamente traumático de que estivera com MB há poucos meses ali, quando acompanharam o pai dele com dores no peito que desencadearam no corpo infartado no chão da sala de espera. Bem na frente deles.

- Marta Gutierrez. - Chegou despejando para a balconista da enfermaria.

- Heloísa? - Ela massageou a testa. - Pode vir comigo.

- Vai deixar o posto e as pessoas esperando pra me acompanhar? - Questionou com a sobrancelha erguida. - Faz como você faz pra todo mundo e já tá bom. - Não queria ser grossa, mas aquele tipo de coisa a tirava do sério.

A mulher imprimiu a etiqueta de visitante familiar e resmungou para a garota atordoada.

- Terceiro andar, vire à direita do elevador, ala roxa.

- Obrigada. - A garota agradeceu e seguiu a passos apressados ante as coordenadas dadas.

Encontrou a mãe ligada a aparelhos que monitoravam seus sinais vitais, lendo um livro tranquilamente, ao lado dos outros pacientes da ala roxa.

- Oi mãe. - Correu para puxar uma cadeira e se sentar ao lado da mãe na enfermaria. Marta então migrou a atenção do livro para sua filha e abriu um enorme sorriso. - Vim o mais rápido que pude.

- Tudo bem filha. Nem precisava ter vindo.

- Você teve um infarto. Eu não vou te deixar sozinha. Seu marido é um merda, mas sua filha te ama pelos dois.

- Lica. - Marta a repreendeu. - Seu pai precisa trabalhar. - Retirou os óculos e suspirou. - Ele até sugeriu que o Leonardo me fizesse companhia, mas você sabe… o motorista da agência é para a agência.

Lica assentiu e acariciou a mão da mãe. Os ensinamentos de Marta sobre privilégios foram muito bem absorvidos por Lica. E uma das maiores revoltas da garota era viver num mundo de privilégios secretos quando a sociedade acreditava viver de forma igualitária. Queria gritar para todos que tudo não passava de uma farsa, que o motorista da agência de educação levava a cesta de mantimentos para sua casa, que o seu pai a colocava nas escolas de melhor rendimento a despeito da nota da prova anual de nivelamento que orientava a distribuição dos “alunos normais”, que a cozinheira da agência vez ou outra preparava não só os jantares das reuniões e confraternizações oficiais, mas também a ceia de natal da sua família, e tantas outras coisas…

Só que ela não podia falar a verdade. Seu pai a alertou uma vez e ela conhecia a lei. Baderna, motim, jogar “mentiras” ao vento e outros “atentados” eram crimes de terrorismo, e a pena variava. Desde detenção na sede da polícia do exército, passando longos seis meses trancada e em treinamento cívico patriótico, passando pelo trabalho nas funções menos desejadas do reinado, até o banimento do país. Portanto, ela se limitava a resmungar e reclamar suas inquietações aos sussurros com outros que compartilhavam da mesma revolta.

Até aquele momento.

Permaneceu com sua mãe até o final da hora de visitas familiares. Conversaram sobre o livro de linguagem corporal que ela lia e Lica percebeu as indiretas sobre os seus gestos e comportamentos inquietos e ansiosos. A garota desconversava e puxava um assunto sobre as crianças alunas de Marta terem parado Lica na rua para saber notícias e deixar melhoras a melhor professora que eles já tiveram.

Mas quando chegou em casa e encontrou o pai sentado no sofá, assistindo à TV como se nada tivesse acontecido, não conseguiu conter seu asco habitual e, como sempre, sem trocar palavras, ambos assistiram ao jornal em silêncio, cada um em uma ponta do sofá, distantes em presença e em pensamentos. Edgar observava como seu trabalho rendia bons frutos para o reinado, o que não era mentira, mas Lica só conseguia olhar as imagens das pessoas trabalhando e imaginar que elas tinham o direito de saber que enquanto o Estado negava a elas o direito de escolha, alguns poucos usufruíam secretamente desse benefício proibido.

Afinal, sua mãe sentira uma dor no peito e a primeira coisa que fizeram no hospital foi levá-la para um quarto na frente de todos que esperavam. Isso porque era a esposa do Agente de Educação, porque se fosse apenas uma professora, teria morrido igual ao pai de MB, na fila de espera do hospital. E isso não estava certo.

Desde a morte do pai do amigo, Lica pensava nessas coisas, mas agora que tinha uma situação idêntica para comparar, ela tinha certeza que precisava agir para revelar a verdade e instigar o povo a se voltar contra as pessoas que trabalhavam para o governo e os seus privilégios, tal como tinha certeza que Caio Lambertini tentou fazer anos antes.

Ela estava decidida. Iria levar os esforços do mártir da sua causa adiante.


Notas Finais


Samantha com um capetinha no ombro a enchendo de dúvidas, mas se apegando as ";verdades" que possui, Já Lica certa das suas "verdades" que ela nem parou pra pensar se são tão concretas assim.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...