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História Muros - Capítulo 21


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Notas do Autor


Em tempos de quarentena, sai capítulo rapidinho.

Fiz algumas edições na história e alterei nomes dos personagens que faziam parte da família do nosso casal. Foram trocas simples e, se o personagem voltar a essa história, farei uma breve identificação para facilitar ao leitor a compreensão de quem se trata. Desde que comecei a escrever essa fanfic, o uso dos nomes me incomodava porque se trata de uma ficção, nenhum dos acontecimentos aqui descritos tem qualquer respaldo na vida real dessas pessoas. Nomes de atores e atrizes, por se tratar de personalidade pública, mantive. Espero que entendam. Qualquer dúvida, é só me chamar que ficarei feliz em esclarecer.

Boa leitura.

Capítulo 21 - Medo


Fanfic / Fanfiction Muros - Capítulo 21 - Medo

Durante todo o trajeto de taxi, Sully sustentou sua posição. O afastamento dela era injustificável. Ele tinha certeza de que, dessa vez, não fizera nada, absolutamente nada que pudesse ter desencadeado aquilo. Esse era o problema com Jaimie, ele sempre tinha que ficar cheio de cuidado com as palavras. Conversar e colocar essas cartas na mesa? OK. Mas ela manter o distanciamento e a frieza a ponto de sequer falar com ele ao telefone num momento tão delicado? Absurdo!

Ela tinha sido hospitalizada, mas o bebê estava bem. Assim que possível, ela entraria em contato. Isso foi tudo que aquela estranha disse. A notícia o pegou totalmente de surpresa. A única coisa que pensou foi perguntar em qual hospital ela estava.  A mulher passou o nome do hospital e, reagindo por impulso, ele agradeceu e desligou. Seu foco era pegar o primeiro avião para NYC. Mais tarde, se arrependeu por não ter prolongado a conversa e conseguido mais detalhes. Talvez até ligar de volta. Mas quando se deu conta já estava embarcando.

Assim que o taxi parou, sentiu seu coração congelando diante do prédio do hospital. A fachada imponente e fria o fez se sentir pequeno.

“O bebê está bem. Ela está bem?” já se fizera essa pergunta um milhão de vezes. Devia estar bem, do contrário a mulher estranha teria avisado. Que droga Jaimie teria colocado na cabeça para que nem Lauren o avisasse sobre o que estava acontecendo. Aliás, ele ligou para Lauren assim que aterrissou e ela não atendeu. Bufou, enfrentando seus medos com a raiva por ter sido deixado em segundo plano sendo que aquele bebê era dele tanto quanto dela.

Aproximou-se do balcão de informações com o rosto fechado. Não tinha vontade nenhuma de se mostrar simpático naquele momento.

- O quarto de Jaimie Lauren Tarbush, por favor. – disse surpreso com o quanto sua voz soou fria.

- Só um minuto. – a atendente pediu. E após uma pesquisa, informou. – A médica responsável por ela solicitou que o senhor suba até seu consultório antes de ir até o quarto. Ela precisa falar com o senhor.

- Ok.

- Vou providenciar o crachá de identificação e orientá-lo sobre como chegar lá.

Sua mente se dividia entre memorizar as informações da atendente e as inúmeras hipóteses sobre o porquê estava sendo chamado. O elevador não andava. O corredor do andar indicado parecia infinito e a sala da tal médica não chegava nunca.

Finalmente identificou o nome na porta e bateu. A mulher bem mais jovem e mais baixa do que ele esperava apareceu sorridente.

- Dra. Layla Russman, obstetra especializada em parto humanizado. Assumi o caso de Jaimie essa tarde. – disse estendendo a mão para ele.

Sully não lembrava direito o que era esse tal parto humanizado. Jaimie já tinha falado sobre isso. 

- Sullivan Stapleton... – e vacilou brevemente sobre como deveria descrever sua relação com Jaimie. – Sou pai do bebê. – disse firme, determinado a assumir sua posição, gostasse Jaimie ou não.

- Pai do bebê. Isso é ótimo. Ela estava tão aflita querendo te avisar, mas chegou ao hospital sem o celular e os números que se esforçou em nos dar, não atendiam. Acho que o nervosismo a fez esquecer os números. Também não localizamos o contato de emergência dela: Laurie Fernandez.

- Uma mulher me ligou no meio da tarde. Fiquei tão surpreso que nem perguntei o nome dela. Também tentei contato com Laurie pra saber o que estava acontecendo, mas não atendeu. Eu moro em Los Angeles, por isso só estou chegando agora.

- Nossa, Los Angeles é realmente muito longe. Mas é ótimo que você esteja aqui. Talvez devessem considerar que seu número aparecesse como um contato de emergência alternativo, mesmo que esteja do outro lado do país. Infelizmente, ela enfrentou um dia muito difícil e sozinha.

Ele sacodiu a cabeça em concordância, mesmo já antecipando o quanto seria delicado abordar essa necessidade com Jaimie, e continuou:

- Mas, Dra. Layla, o que aconteceu?

- Vou tentar resumir a parte da história que me foi passada pelo médico plantonista. Tivemos que dar alguns sedativos leves para ela porque estava muito nervosa, então, ela dormiu boa parte do dia. Jaimie deu entrada no hospital por volta das 5 horas da manhã de hoje. Foi trazida pelo serviço de emergência que fez o atendimento no apartamento dela. Estava com um sangramento intenso. Chegou ao hospital sem celular. Os exames mostraram que, em comparação aos anteriores, a placenta dela baixou significativamente e teve um descolamento considerável. O caso é bastante delicado, principalmente pelo volume do sangramento. No momento, estamos conseguindo controlar isso com o que temos de mais moderno em medicações para o caso e repouso absoluto. Ela ficará hospitalizada enquanto essa situação apresentar riscos. Um deles é que aconteça um parto prematuro. Está na 26ª semana de gestação o que reduz bastante a chance de sobrevida do bebê aqui fora. Por isso, também já começamos uma medicação para amadurecer os pulmões do bebê. Cada dia a mais dentro da barriga, maiores as chances da criança sobreviver. Outra preocupação é com Jaimie. Se ela continuar sangrando assim, um parto ou aborto pode colocar sua vida em risco.

Nem mesmo o fato de poder sentir o sangue pulsando em todas as veias de seu corpo e seu estômagos revirando foi capaz de desviar a atenção dele:

- Então, eles não estão bem?

- No momento, estão bem, estabilizamos o quadro. Mas o caso exige cuidado. E eu quis falar com a primeira pessoa que aparecesse porque nessas situações é preciso cuidar não só da parte física, mas também do emocional de Jaimie. Ela precisa se sentir segura, amada porque, mesmo que consigamos uma melhoria considerável desse descolamento de placenta, o resto da gestação não será normal. Na melhor das hipóteses, poderemos ter um repouso relativo, com caminhadas leves, sem atividade sexual.

- Mas tudo estava tão bem. Por que isso aconteceu?

- A posição da placenta de Jaimie sempre foi atípica, mas estava elevada, então o médico dela deve ter achado desnecessário causar alarde. Com o crescimento do bebê, o deslocamento da placenta é natural. Nesse caso, o movimento a empurrou para baixo, causando o descolamento. Não era algo previsível ou que pudesse ser evitado. O senhor está entendendo tudo que eu disse? Tem alguma dúvida.

- Acho que entendi tudo, doutora. Muito obrigada. Vou cuidar dela e ajudá-la a seguir todas as orientações, fique sossegada. Jaimie terá todo o apoio que precisa. E você verá o quanto ela é determinada.

- Fico bem mais tranquila agora que Jaimie tem alguém aqui por ela. Bem, agora vou deixa-lo ir até o quarto. Deve estar ansioso em vê-la.

- Muito, doutora. E obrigada por tudo.

Os dois se despediram e seguiu para o elevador. A maternidade ficava no andar de baixo. Tudo dentro dele era confusão. Chegou até aquele hospital tão determinado em confrontá-la sobre suas atitudes nas últimas semanas e agora... agora tudo que ele queria era poder ver que ela estava bem. Antes mesmo das portas do elevador se fecharem, seu coração já se elevava numa prece silenciosa. Precisavam de algumas semanas a mais para que seu bebê pudesse chegar bem ao mundo. Precisavam que todo esse quadro caótico se revertesse para que Jaimie pudesse sobreviver ao parto.

Ele não encontrava palavras, nem sabia direito como se conectar com a divindade. Então Sully fechou os olhos e lembrou-se das coisas que aprendera com as mulheres que amava. Sua mãe sempre o incentivou a colocar todos os seus sentimentos e desejos diante de Deus. Jaimie sempre lhe falava sobre a importância de agradecer por tudo, em todas as situações. Fechando os olhos, ele primeiro agradeceu por Jaimie e o bebê estarem vivos e a situação ter se estabilizado. Depois desejou de todo coração que tudo corresse bem.

A porta do elevador se abriu e ele caminhou entre equipamentos e enfermeiras pelo corredor.   Chegou a porta do quarto e respirou fundo. Provavelmente ela estaria dormindo. Seria cuidadoso para não acordá-la. Se aproximaria apenas o suficiente para se acalmar diante da respiração compassada dela. Se pudesse vê-la repousando calmamente, algum conforto já alcançaria seu coração desesperado.

Abriu a porta com toda a delicadeza e caminho para dentro do quarto suavizando cada passo que alcançava o chão. A penumbra tomava conta do lugar. Jaimie estava deitada de lado, suas costas voltadas para a porta. A voz baixa e rouca dela entoava uma canção que não era estranha à ele. A letra cantava uma séries de bênçãos para a criança, desejando tudo de melhor como os pais sempre querem para seus filhos:

 

May you always be courageous

Stand upright and be strong

May you stay forever Young

 

Que você sempre seja corajoso

Aguente firme e seja forte

 Que você possa permanecer para sempre jovem

 

Sully se aproximou devagar. Com certeza ela já havia notado a presença de alguém no quarto, mas continuava ali, cantando baixinho, sem se mover ou se virar para ver quem era. Seu coração ficou ainda mais apertado ao se dar conta de que ela não esperava por ninguém. Devia achar que apenas outra enfermeira.

Até minutos atrás ele não sabia que a vida dela e do bebê estavam em risco. E bastaram alguns minutos para fazê-lo se sentir um nada. Mesmo estando ali, o que ele poderia fazer por Jaimie ou por seu bebê? Engoliu o nó que se espessava em sua garganta e contornou a cama devagar para não assustá-la. Arqueando as sobrancelhas na expressão mais doce que encontrou, disse baixinho:

- Oi, Jai...

A música parou. Os olhos dela voaram em direção da voz dela numa necessidade louca de confirmar o que seus ouvidos apontavam. Quando encontrou o vulto dele envolvido na penumbra, sua voz saiu mais doce do que ele esperava:

- Oi...- e deu um longo suspiro – eu não esperava que você viesse...

- Eu precisei vir. – ele disse se aproximando mais.

- Tive um descolamento de placenta. – ela viu a necessidade de informa-lo.

- Conversei com a médica. Ela me explicou tudo. Foi um dia muito difícil, não é? – a voz dele já não estava firme ao final da pergunta.

Após um novo e longo suspiro, ela respondeu:

- Eu me levantei para ir ao banheiro e, de repente, havia sangue por todo lado. Voltei pra cama e liguei para a emergência. Eles chegaram rápido. Eu... eu não sei o que fiz de errado. Quer dizer, acho que eu devo ter feito tudo errado... – e as lágrimas escorreram.

Sully venceu a curta distância que existia entre eles, se debruçou sobre ela e deu um beijo na testa dela. Então tomou as mãos dela entre as suas e se sentou na cadeira ao lado da cama, mas manteve muito próximo à Jaimie, quase abraçado à ela.

- Você não fez nada de errado. A médica me disse que foi uma decorrência natural do jeito como a placenta colou no seu útero. Não havia nada que você pudesse fazer.

A mão de Jaimie alcançou seu rosto e suavemente limpou uma lágrima que escapou sem sua autorização. Só então Sully se deu conta que também estava chorando. E fez o mesmo por ela.

- Mas agora eu posso fazer, Chully. Eu vou fazer esse repouso direitinho e vou dar a ele a chance de nascer bem, na hora certa.

- Tenho certeza que você fará o melhor. E eu vou estar aqui com você, ok?

Ela se esforçou em sorrir, mas mais lágrimas brotaram:

- Eu tive tanto medo...

Enquanto usava seus dedos para limpar o rosto dela das lágrimas, ele admitiu:

- Eu acho que isso é normal. Porque eu ainda estou com muito medo.

Dessa vez, ela sorriu. Mas, em seguida, ficou séria:

- Você está bravo comigo? Eu sei que deveria ter te ligado... mas achei que era melhor passar pelo médico primeiro. Te incomodar no meio da madrugada sendo que não havia nada que você pudesse fazer seria inútil. Queria ter te ligado, eu juro. Meu celular deve ter ficado na ambulância... acho que não me lembrava do seu número direito. Eles tentavam te ligar e não dava certo.

- Tudo bem, Jai. Você fez o que podia. E deu certo. Eles me localizaram, tá vendo.

Jaimie sorriu novamente e disse:

- Ainda não acredito que você está aqui.

- Corresponsabilidade, lembra. – ele disse e deu uma piscadinha.

Ela deu um leve tapa no braço dele em resposta. Então levou a mão dele até sua barriga e disse:

- Papai está aqui. Ele atravessou o país inteiro voando por você. Está vendo, ele é um cara incrível.

Sully afagou a barriga dela, depois se levantou e depositou um beijo suave sobre ela:

- Oi, bebê. Você também deve ter ficado com um pouco de medo hoje, não é? Sentir medo faz parte. O importante é que agora estamos os três juntos e tudo sempre fica melhor quando a gente se reúne, não é mesmo? Vai dar tudo certo. Eu atravesso esse país quantas vezes forem necessárias pra ficar com vocês. Sabia que você estava bem protegido porque a mamãe é uma mulher incrível. Bem, aconteça o que acontecer, saiba que o papai e mamãe estarão aqui e vamos cuidar um do outro e de você.

Os dedos de Jaimie rocaram a mão dele demonstrando que aquele carinho era mutuo e que estava disposta a aceitar a proposta dele para enfrentarem tudo isso juntos. Ela chegou a pensar em verbalizar a gratidão que sentia. A presença dele ali fazia toda a diferença. Sentia-se tão mais segura com relação ao futuro tão incerto agora. Mas estava ciente dos limites que a vida real lhes impunha. Sully poderia passar o final de semana com ela, mas teria que estar em Los Angeles na segunda-feira para as gravações. Mostrar-se dependente de sua presença colocaria um peso sobre os ombros dele que ela queria poupar. Então, amenizou as palavras, resguardando a intensidade de seus senimentos:

- obrigada por estar aqui, Chully.

Ele voltou a se sentar na cadeira e a se debruçar ao lado dela na cama, enquanto acariciava seus cabelos:

- Tenho dois bons motivos para você não me agradecer: 1- não há outro lugar no mundo onde eu quisesse estar agora sem vocês; 2- essa tal corresponsabilidade é a coisa mais insana que já vive, dá mais adrenalina que saltar de para-quedas ou ficar pendurado num barco num canal de Veneza cheio de aguas-vivas, e eu adoro muito sentir isso.

Seus olhares se conectaram e o silencio se instalou, os dois desejando mais que tudo o que viria depois.

Então, a porta do quarto se abriu e três enfermeiras falantes entraram para os cuidados noturnos e injetar as medicações. Os dois continuaram trocando olhares entre uma informação e outra que era solicitada. Sempre muito educada, Jaimie se esforçou em demonstrar sua gratidão à equipe de enfermagem que cuidava dela, mas seu desejo de voltar a ficar a sós com Sully só aumentava. Antes mesmo das enfermeiras deixarem o quarto, ela começou travar uma luta contra o sono provocado pelos sedativos. Não queria deixar aquele momento passar e se perder como um sonho.

Sully percebeu sua agitação e voltou a se debruçar sobre a cama. Acariciando seus cabelos, procurou dar a segurança que ela precisava para adormecer em paz:

- Apenas descanse, Jai. Vou estar bem aqui quando você acordar amanhã.

Embalada pela voz dele, ela adormeceu.

Depois que o quarto se esvaziou, ele a observou na penumbra. Nunca a metáfora do dragão lhe pareceu tão adequada. Ferida, mas ainda assim tão forte, protegendo sua cria. Pensar no quanto ela o deixou se aproximar e no quanto ele mesmo se rasgou finalmente expondo seus sentimentos, mesmo que ainda ainda de forma tão superficial, foi um passo importante. Talvez Philip tivesse razão afinal. Talvez ele mesmo tivesse muros que a afastavam e que precisavam ser derrubados.

“Não vou me esconder mais, Jai. Eu prometo. Não vou mais me defender de você.” Pensou e agradeceu por aquele dia tão difícil, mas tão importante para sua nova família.

O dia estava apenas amanhecendo quando ela acordou. Sully já estava na cadeira ao seu lado. Ainda sonolenta, ela já manifestou sua insatisfação com isso:

- Você ficou nessa cadeira a noite toda?

- Hmmm, acho melhor começarmos o dia seguindo um protocolo mais acolhedor, não é mesmo? Bom dia, Jaimie.

Ela sorriu, mas não se deu por vencida:

- Bom dia, Chully. Não quero que você faça isso.

Ele se debruçou sobre ela para dar um beijo na sua testa e continuou:

- Dormi ali naquele sofá cama, para ciência da senhorita. Mas acordei bem cedo. Queria resolver algumas coisas. Falei com o meu produtor da série e disse que preciso de uns dias de afastamento. Também falei com minha mãe. Gosto de contar com as orações dela.

- Sinto tanta saudade de Jackie. Com certeza isso nos ajudará bastante, não há distância que o amor dela não possa ultrapassar. Mas quanto à série, isso não vai te prejudicar? Eu odiaria te causar problemas...

- Fui franco com ele. Relatei o problema e ele compreendeu. Parece que sua irmã passou pelo mesmo problema. Além disso, eu não conseguiria me concentrar no trabalho se voltasse agora.

- Mas se você precisar voltar, eu vou entender...

- Jai, por favor, já disse que vou ficar por enquanto.

- Ok, ok, parei. – ela falou brincando com os dedos percorrendo o braço dele que estava sobre a cama – É esse seu vício por adrenalina que te traz tantos problemas... – e revirou os olhos  como quem não ia se fazer de rogada quanto ao significado do que ele dissera na noite anterior.

Sully riu satisfeito:

- Critica meu vício agora, Jaimie Superprotetora Tarbush! – e relembrando frases dela, imitou sua voz: - “Chully, você não pode saltar aí” “Chully, isso é perigoso!” “Chully, Chully, Chully” Ainda bem que você não foi pra Irlanda conosco.

- Aff. Eu só precisava que você ficasse seguro. Mais do que você pode imaginar.

- E eu adorava te provocar fazendo o contrário do que você pedia. – ele confessou fazendo Jaimie lhe lançar um olhar de reprovação que sabia não passar de uma brincadeira. - Tantas recomendações pra mim e você não seguia nenhuma delas pra você mesma.

- Ah, eu não me arriscava tanto. Ainda não me conformo por ter machucado o joelho daquela forma.

- Mas, voltando para a adrenalina... Olha que eu sequer mencionei a parte sexual porque essa parte entrou em quarentena até completarmos as 40 semanas dessa gestação.

- Se tem tanta adrenalina assim nessa parte, será que você vai conseguir ficar sem isso por tanto tempo? Afinal, você é um cara solteiro agora.   

Sully se levantou e se sentou na beirada da cama, mostrando que tinha uma longa explanação pela frente:

- Bem, há algum tempo atrás, eu não ficaria catorze semanas sem sexo. Ainda mais se eu estivesse durante todo esse tempo ao lado de uma mulher muito linda e gostosa. Meus relacionamentos não sobreviveriam a isso, porque sexo era a base de tudo que eu vivia com elas.

- Sexo é bom... mas não pode ser tudo.

- É, descobri da pior maneira como sexo bom e fácil pode ser ruim. A gente entra na rotina e acha que relacionamento vale apenas pelo sexo. Se acostuma com coisas que, se não são tóxicas, também não acrescentam nada em nossas vidas. Tempo perdido.

- Acredite, não é só sexo que pode nos levar a viver algo assim. Quando mergulha num relacionamento por tantos outros motivos e não consegue enxergar o descompasso do outro com seus sentimentos, pode ser tão tóxico quanto.

- Pois é. Mas voltando à abstinência sexual: se fosse só sexo, não teríamos nenhuma chance. Mas você me ensinou a fazer amor. E isso tem sido muito diferente e bom pra mim. Não procurei sexo com mais ninguém nas semanas que ficamos separados porque eu não queria outra pessoa. – e riu um pouco encabulado – Não posso dizer que não resolvi o problema sozinho depois das nossas conversas à noite...

Jaimie sentiu seu rosto queimar. Devia estar muito vermelha. Geralmente conversas sobre sexo, ainda mais com parceiros, não a constrangiam. Apesar do relato dele ser algo totalmente natural para ela, foi a surpresa dessa confissão que a fez corar.

- Ok. – disse ainda muito constrangida. Sem conseguir olhar nos olhos dele, continuou. – Eu também não fiquei com mais ninguém. Sei que você nunca deu qualquer sinal de que o que estava rolando era algo além de casual, mas foi especial pra mim também. Não queria mais ninguém ali. – e olhou para ele com firmeza – e não foi só pelo bebê.

Ele correu os dedos pelo rosto dela e continuou:

- Falta a parte de que estou solteiro de novo. Eu já te disse isso por telefone e quero reforçar: o divórcio foi muito importante pra mim. Fiquei muito feliz poder estar livre...

Ela não esperou que ele continuasse, tomada por um súbito medo do viria em seguida:

- Acho legal você compartilhar isso comigo. É honesto e... bem... Não sei como te dizer isso... eu fico realmente confusa. Não é que eu não queira viver algo com você. Você sabe que, mesmo achando uma loucura, eu sonhei coisas para nós. Mas não vejo uma forma de sair de algo assim sem me machucar já que você está num momento tão importante e precisa viver sua liberdade reconquistada.

Sully apertou os olhos tentando entender a linha de raciocínio dela, mas não conseguia. Seu lado racional gritava para ele apenas concordar e recuar, mas vendo os olhos dela tão perdidos, precisou tentar mais uma vez:

- Toda a felicidade que senti com meu divórcio foi por poder viver algo mais com você, Jaimie. Eu lutei com tudo que tinha para reconquistar minha liberdade para poder chegar até aqui e te dizer que quero mais pra nós. Quero viver a minha liberdade com você, não pelo sexo ou pelo bebê, mas porque isso que estamos vivendo é o melhor que já me aconteceu.

- Você está me pedindo em namoro? – ela disse já sentindo a felicidade pulsando no peito e as lágrimas chegando aos olhos.

Sully se perdeu no olhar carregado de emoção dela e em seus pensamentos se questionando porque não fez isso antes já que isso fazia tão bem para os dois.

- Chully! – ela o chamou de volta e ele riu.

- Eu não sei se estou te pedindo em namoro ou se estou só pedindo para podermos escancarar o namoro que já estamos vivendo pro mundo todo.

Ela segurou forte na sua camisa e o puxou para um beijo demorado. Nenhum deles queria colocar fim naquele momento, havia tanto carinho na forma como suas bocas se tocaram e se entregaram que só continuaram e continuaram até que precisassem de ar. Sully recuou um pouco, mas continuou preso ao olhar dela:

- Isso foi um sim?

- SIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM! – ela respondeu.

Foi bem a tempo da equipe de enfermagem entrar para os cuidados da manhã. Sully se afastou e ficou observando. A forma como ela enfrentava tudo aquilo era tão admirável. Mas então pediram para que ele se retirasse porque precisariam que ela tivesse mais privacidade.

Lá fora, no corredor, ele achou que era o momento de contar tudo a Val. Como mãe, ela precisava saber do que estava acontecendo. A conversa foi mais curta do que ele esperar. Alguns aspectos foram contundentes. Depois falou com David e Brady. Prometeu fazer um vídeo chamada com Jaimie mais tarde.

Depois que a equipe de enfermagem saiu, conversaram muito sobre tantas coisas. Sully descobriu que Laurie estava numa ilha do Caribe. Mikaelly estava em Boston e Audrey foi visitar sua família no Texas. Definitivamente sua rede de apoio em NYC era falha.

Também conversaram com o bebê, contando as novidades e se permitiram traçar mil planos para a família. Cada sonho era relatado como uma promessa de tudo ficaria bem.

Jaimie se alimentou bem, conversou animadamente com a família e acabou cochilando no início da tarde. Sully aproveitou para descansar também. A noite anterior não foi muito relaxante.

Sonhou que estavam num parque, muitas crianças brincavam e corriam. Ele e Jaimie estavam abraçados. Havia tanta paz ali. Então, ele se afastou para ir até uma das crianças que não conseguia subir num brinquedo playground. De repente, ouviu Jaimie gritando por ele. Ela chorava e sua roupa estava suja de sangue. Por mais que tentasse se aproximar, ela continuava distante...

Ele abriu os olhos aflito, desejando se apegar à realidade e afastar aquele pesadelo horrível.Foi então que se deu conta que Jaimie estava realmente chamando por ele, em pânico. Colocou-se prontamente em pé:

- O que houve? – perguntou já se aproximando da cama.

- Eu tô sangrando de novo... – ela disse com a voz trêmula.

As enfermeiras entraram no quarto logo em seguida. Jaimie havia acionado o botão de emergência ao lado da cama. Depois veio a médica e a equipe de ultrassom. Vê-la sangrando sugou dele toda alegria. Enquanto os médicos discutiam as imagens na tela do ultrassom, sentiu-se submerso em medo. Sabia que ela sentia o mesmo, então se manteve segurando firme em sua mão e tentou sorrir sempre que seus olhares se encontravam.

- Felizmente esse sangramento foi residual. Não há novas lesões nem sinais de sangramento nas lesões antigas. Vamos manter a medicação e o repouso. E observar. Se o sangramento persistir, podemos alterar os protocolos do caso. Mas não vejo razão para isso agora. O bebê está bem e ativo. Amanhã faremos um novo ultrassom. Acalmem-se e descansem. Vão precisar de muita energia para depois do nascimento. Esse pequenino aí promete ser bem esperto.

Jaimie riu aliviada. Sully permaneceu tenso. Os dois agradeceram à médica que saiu.

Assim que ficaram sozinhos, ele desabou. As lágrimas escorriam mesmo tentando contê-las. O medo de perder os dois agora que finalmente estavam juntos se apoderou dele.

- Chully, está tudo bem. – Jaimie disse segurando sua mão. – Ontem foi bem pior...

- Jai, por favor, depois que tudo isso passar e vocês estiverem bem, vamos comigo pra Los Angeles. Eu não vou conseguir ficar lá com vocês aqui. Preciso acordar todo dia e ver que vocês estão bem. Preciso sentir todo dia o bebê chutando sua barriga e... – voltou a chorar.

Ela não estava preparada para vê-lo assim. Parecia tão injusto negá-lo isso. Tantas e tantas vezes ela já se mudou. E foi tão mais fácil enfrentar o sangramento dessa tarde com ele ao seu lado do havia sido na madrugada do dia anterior. Tudo que ela queria era continuar junto à ele, garantir que aquela sua família ainda tão frágil iria sobreviver:

- Eu prometo, Chully. Vamos ficar juntos. Eu vou para Los Angeles com você.


Notas Finais


Sofreram conosco? Valeu a pena? Deixem-me saber. Coloque nos comentários.
Foi difícil, mas finalmente esses dois se acertaram.
Não sei se concordo com tudo que decidiram. E acho que Jackie também não concordará. (spoiler)

Obrigada pela leitura.


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