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História Muteki - Capítulo 8


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Notas do Autor


Esse capítulo só deveria sair na próxima segunda, mas graças à quarentena, estou com bastante tempo para escrever e adiantando atualizações.

Boa leitura!

Capítulo 8 - As primeiras mentiras dele


Mais ou menos umas duas horas depois de termos sido trancados, Shikamaru e eu jogamos Kiba na cama para que ele dormisse um pouco. Quando acordasse, provavelmente o efeito do calmante já teria passado. 

— O que a gente faz? — Shikamaru perguntou sentando no chão ao meu lado. Nós dois ficamos observando Kiba dormir. — Ele não deve durar muito tempo sem a medicação. 

— Uns três dias, no máximo. Não estou preocupado com ele. Estou preocupado é com a minha própria pele. — respirei fundo. 

Lembrei de como Kiba voou por cima da mesa e agarrou o pescoço de Naruto. Tinha muito espaço naquele refeitório para fugir e correr, mas e aqui? Uma cela de três metros, uma cama, uma privada e três caras, sendo que um adquiria uma força descomunal quando estava tendo um surto de bipolaridade. 

Nós não tínhamos chance contra ele. 

— Ele tá descontando pela Sakura não ter aceitado vir. — Shikamaru disse, abrindo e fechando as mãos, num exercício de paciência. 

— Eu sei. O que quer que eu faça? — retruquei, começando a me irritar. 

— Não podia ter ligado pra ela, porra?

— Acha que ela me daria o número novo? — vociferei. 

— Merda, só tô falando. — ele olhou de novo pra Kiba. — Você podia ter pedido do Kakashi ou coisa assim. Cara, se a gente não morrer, provavelmente vamos sair daqui com muitos ossos quebrados. 

— Já sobrevivi a um massacre familiar. Posso enfrentar isso. — respondi. 

Kiba suspirou alto durante o sono. Pensei que fosse acordar, mas só se virou na cama, tentando achar uma posição melhor para dormir em cima daquele bloco de pedra. 

Estávamos ali há mais ou menos duas horas, e eu já estava pensando em mil maneiras de sobreviver pelos próximos dias. 

#

Eu sabia que ela já tinha acordado. Mesmo que tivesse entrado no quarto e ela estivesse fingindo ainda dormir, podia escutar o som das correntes quando ela se mexia. 

Eu ainda não tinha pensado em como explicar isso. Como explicar tê-la levado para minha casa e a acorrentado na cama? 

Eu amo você, poderia dizer, amo você há três anos, quando te vi no shopping com seu namorado. Eu te amo desde aquela época. Não podia te deixar morrer. 

Ela ia achar que eu sou louco. Ela nem me conhece. 

Nunca tinha feito uma loucura desse nível. 

Certo, precisava de tempo para pensar. Uma hora ou duas deveria ser suficiente para uma ideia surgir. Enquanto isso, eu precisava agilizar o resto. 

Não podia deixá-la sair. Precisava mantê-la nessa casa. E se eu a soltasse e ela conseguisse se matar? Eu seria culpado por tê-la deixado livre para fazer isso. 

Tempo. Era tudo que eu precisava. Era meu principal aliado. 

Faltavam apenas dois períodos para conseguir me formar. Já era praticamente um psicólogo. Se eu a mantivesse ali, em breve conseguiria sua confiança para descobrir qual era o problema e tratá-lo. Essa seria minha profissão, afinal. Ser psicólogo e tratar pessoas com comportamentos como os dela. Comportamentos suicidas. 

Já podia considerá-la como um treino, se duvidar. Estágio dentro de casa. 

Enquanto pensava no que iria dizer no nosso primeiro contato, fui até o galpão. Peguei a furadeira e grades. Precisava colocá-las em todas as janelas. 

Não poderia deixá-la acorrentada para sempre. Deixá-la circular pela casa seria muito melhor. Pra ela, e pra mim, que ganharia sua confiança mais rápido. 

Comecei pelas do andar de baixo. Provavelmente ela estava escutando o barulho da furadeira. Inevitável. 

Certo… o que eu falo? Como devo mentir dessa vez?

#

Quando as luzes se apagaram e mergulhamos totalmente na escuridão, eu soube que já havia anoitecido. Mais ou menos umas nove horas dentro da cela. Kiba continuava dormindo na cama. Shikamaru tinha se deitado no chão perto da porta. Fiquei deitado entre eles mas continuei acordado, escutando cada som minucioso. 

Sem passos de guardas. Respirações lentas e pesadas. Encanamento velho enquanto água corria atrás das paredes antigas e mofadas. Continuava extremamente quente. Pensei em tirar a camisa mas aquele lugar estava muito sujo para fazer isso. 

Tentei enxergar na escuridão, vendo as silhuetas de Shikamaru e Kiba, um de cada lado, dormindo em meio aquela podridão. 

Escutei a privada borbulhar. Isso sempre acontecia quando alguém das outras solitárias dava descarga. Tentei imaginar quem eram os outros nas outras celas. Estavam melhores que nós, sem dúvida. 

A fome estava começando a apertar. Só nos trouxeram um jantar. Uma refeição por cela, era a regra. Foda-se que tinha três caras numa única solitária. Shikamaru e eu dividimos aquela sopa de letrinhas que claramente era enlatada e nem foi esquentada antes. Pelo gosto, provavelmente estava vencida fazia uns três meses. 

Respirei devagar, puxando o ar e tentando sair dali em pensamento. Para um lugar melhor. 

Olhos verdes automaticamente vieram à minha mente. Sentada na cozinha, rindo animadamente enquanto tentamos preparar uma receita norueguesa para o jantar. Estou tentando limpar o bacalhau na pia quando ele escorrega da minha mão e cai, derrubando toda a louça que acabei de lavar de volta na pia. O barulho é alto e nós dois ficamos parados por alguns segundos. Não quebrou nada. 

Olho para Sakura. Ela sai do estado parado e começa a gargalhar. Pergunta se eu quero ajuda. 

Sim, por favor. 

Ela vem até mim, rindo. Ela pega o peixe enquanto vou retirando as louças dali. Continua gargalhando, se divertindo. 

Abri os olhos e a escuridão estava de volta. 

Estava de volta àquele inferno.

Estava ali por conta dela. 

Eu deveria odiá-la. Odiá-la por ter me tirado do meu estado de tranquilidade. 

Eu poderia ter tido uma vida normal. Se não a tivesse conhecido, estaria livre agora. 

É, eu deveria odiá-la. Mas toda vez que lembro daquele sorriso e do jeito como ela arrepiava toda vez que eu beijava seu pescoço…

Não me arrependo. Valeu a pena.

Eu faria tudo de novo. 

#

Coloquei grades nas cinco janelas da cozinha. Quando terminei, estava suando mesmo com o frio noturno. Entrei e olhei a geladeira. Eu deveria ter feito compras. 

Ela devia estar com fome. Eu precisava fazer o jantar. Ou seria café da manhã? Já era quase duas da manhã. Melhor esperar, talvez. 

Mas o que eu deveria fazer? Será que ela era vegetariana ou coisa assim? 

O que você dá para uma pessoa que tentou se matar? 

Eu podia esperar amanhecer para ir falar com ela. Aí daria o café da manhã. Conversaríamos tranquilamente. Eu a soltaria. Ela ficaria desconfiada por uns dias até saber que pode confiar em mim. 

Era tão estranho ela não estar gritando. Pedindo por ajuda, querendo saber onde estava. Eu só ouvia os barulhos das correntes quando ela se mexia, mas nenhum som além disso. 

Talvez ela não ligasse mesmo para o que aconteceria a partir de agora. Havia tentado se matar mas não conseguiu. Qualquer coisa depois disso não deveria importar. 

Meu sangue corria rápido, tentando pensar em como arrancar aquilo dela. Por que ela não queria viver? 

#

Quando as luzes foram acesas, me sentei meio assustado, acordando bruscamente. Shikamaru se espreguiçou depois de sentar também. Kiba colocou os pés pra fora da cama e nos olhou meio sonolento e confuso. 

— Que merda. — ele murmurou com a voz rouca. — Por que estamos aqui? Todos… juntos?

O guarda bateu na porta. Shikamaru se adiantou para ir pegar o café da manhã. A pequena portinhola se abriu e eles passaram uma bandeja para ele. 

Dois pequenos bolinhos de arroz. Um copo de plástico com um líquido verde estranho. 

— Isso é suco? — questionei. 

— Deveria ser. — Shikamaru respondeu. Ele olhou para os bolinhos de arroz. — Cara, isso tá congelado. 

Nós três nos olhamos. 

— Podem dividir. Não estou com fome. — falei mesmo que meu estômago estivesse se corroendo. 

Kiba precisava comer. Eu queria adiar ao máximo possível um surto dele. 

Seria o cúmulo se eu morresse porque meu colega de cela ficou puto por causa da fome. 

#

Eu fiz bolinhos de arroz para ela. Tomei um banho. Estava cansado depois de ter passado a noite toda pensando. Demorei bastante escolhendo o que vestir. 

A primeira impressão não é a que fica? 

Como eu tinha que vestir? Casual para ela se sentir à vontade? De um jeito mais profissional para combinar com a mentira? 

De repente me ocorreu que seria bom me vestir de um jeito que fosse familiar para ela. Me conectaria mais rápido se eu parecesse com alguém que ela gostava. 

Pensei no namorado ruivo. Ou ex-namorado. Ele estava sempre de uniforme, das vezes em que eu os seguia depois da escola, mas tinha um jeito mais relaxado com as roupas. 

Talvez não fosse boa ideia se vestir igual ele. Eu não sabia ainda o porquê de terem terminado. Poderia ser um tiro no próprio pé. E se agora ela o odiasse?

No fim, vesti uma camisa branca de manga longa e uma calça jeans preta. Meu próprio estilo de roupa. Casual e confortável. 

Desci até a cozinha e coloquei os perfeitos bolinhos de arroz numa bandeja. Na geladeira, ainda havia um dos meus potinhos de iogurte de frutas vermelhas, então decidi levar pra ela também, assim como um copo com suco de morango. Ela parecia ser do tipo que gostava de coisas doces. 

Subi as escadas devagar. Se ela não estivesse dormindo, então sabia que eu estava indo até lá. Fiquei parado na frente da porta do quarto dela. Respirei fundo. E minha mão foi até a maçaneta. 

#

Não importava quanto tempo passasse, aquele cheiro podre era algo que eu não conseguia me acostumar. 

Kiba não parava de tremer, mesmo em sono, e eu sabia que em breve ele teria um surto. Não sou idiota o suficiente para achar que eu ou Shikamaru poderíamos segurá-lo, ainda mais com tão pouco espaço naquela minúscula cela. Se o humor de Orochimaru não melhorasse logo, um de nós não sairia vivo daquele porão.

Eu deixei eles dividirem o almoço também. Kiba dormiu de novo, tentando manter as próprias emoções neutralizadas. No jantar, Shikamaru percebeu o que eu estava fazendo, então decidiu não comer naquela refeição. Eu e Kiba dividimos o pedaço estragado de torta. Novamente, demorei a pegar no sono quando as luzes se apagaram. No fundo, eu tinha medo de que Kiba acordasse enlouquecido durante a noite e nos atacasse no escuro. Não teríamos a menor chance se isso acontecesse. 

— O que eu faço para passar o tempo, Sasuke? — ele me perguntou na manhã do dia seguinte. Eu estava meditando sentado no chão ao lado da privada enquanto Shikamaru andava devagar de um lado para o outro, querendo que o tempo passasse logo.

Por eu ser psicólogo, às vezes eles agiam assim. Como se eu pudesse tratá-los melhor do que Orochimaru ou Jiraiya. E de fato, minhas soluções eram muito melhores que as deles. 

— Conte de três em três em voz alta. — respondi de olhos fechados, sem sair da minha posição. 

Ele voltou a deitar naquele bloco de cimento. 

— Três. Seis. Nove. — ele ia falando devagar. Fazendo a soma de três em três. 

Shikamaru suspirou, entediado. 

A solitária não combinava com nenhum deles. 

Se eu estivesse sozinho, seria o paraíso. Ninguém para encher meu saco, não teria que racionar comida e poderia viajar com a minha mente sem que ficassem me trazendo de volta o tempo todo. 

— Cinquenta e um. Cinquenta e quatro. — Kiba continuava. 

Abri os olhos, irritado. Porra de Orochimaru. Não podia ser mais criativo para nos punir? 

Respirei fundo e fechei os olhos, voltando a me concentrar na meditação. 

#

Quando abri a porta, ela estava paralisada. Os olhos verdes me olharam de maneira desconfiada e intimidadora. Ela queria parecer ameaçadora, dava para ver pela postura corporal. Só que o peito subindo e descendo rápido, mesmo que de forma sutil, denunciava que ela estava morrendo de medo. 

— Bom dia, Sakura. — dei um sorriso e me aproximei devagar. Coloquei a bandeja ao lado dela na cama e me afastei dois passos para trás, mantendo distância suficiente para que ela não se sentisse muito ameaçada. 

Ela não disse nada. Continuou parada, sentada na cama, com os pulsos acorrentados na cabeceira, me encarando daquele jeito. 

Estava assustada. Muito assustada, embora não demonstrasse tanto. 

— Pode me fazer as perguntas que quiser. Vou respondeu tudo. — falei calmamente. 

Embora estivesse nervoso, mantive meus ombros relaxados, numa postura corporal que passaria confiança. 

Funcionou. Ela começou a falar. 

— Quem é você? — perguntou baixinho, sem desviar os olhos dos meus. Parecia receosa até de piscar. 

— Eu me chamo Uchiha Sasuke. — fiz um cumprimento com a cabeça. — Fui contratado para ser seu psicólogo. 

Ela arregalou os olhos. 

— O quê? Contratado por quem?

— Uma pessoa importante que estava preocupada com seu estado de saúde mental. — respondi. 

Ela me olhava como se eu fosse louco. Começou a olhar em volta, tentando raciocinar o que eu tinha acabado de dizer. Talvez tentando descobrir quem seria a tal pessoa. Um de seus pais? Outro parente? Um professor?

— Onde eu estou? — perguntou de maneira incisiva 

— Em minha casa. — fui sincero. Quando ela me olhou daquele jeito confuso de novo, resolvi continuar a explicação. — Devido à sua tentativa de suicídio, resolvemos que seria melhor uma internação particular, e não uma onde você tivesse contato com outras pessoas doentes. 

— Não estou doente. — ela retrucou e tentou puxar as correntes. 

— Então por que tentou se jogar de uma ponte? 

Ficou quieta, sem saber o que responder. 

Fiquei esperando que ela começasse chorar, espernear, gritar ou qualquer comportamento típico. Mas não. Ela só continuava me olhando daquele jeito desconfiado. Percebi que ela olhava para a bandeja rapidamente, às vezes. Devia estar com fome. 

— É por isso que vocês me acorrentaram? — perguntou. — Porque tentei me matar?

— Sim. E porque não podemos correr o risco de que você saia daqui. — fui bem sincero. — Minha casa ainda não possui estrutura para uma internação particular, mas sabe como é… era uma emergência. 

Dei a entender que realmente trabalhava com aquilo, e que aquela casa futuramente seria uma clínica particular de altíssima qualidade. 

Ela olhou o cômodo ao redor novamente, talvez avaliando as condições do lugar. Tentei entender como ela deveria estar vendo tudo. Janela grande e limpa, paredes limpas e com pintura impecável. Uma cama de casal confortável — tirando a parte das correntes. 

— Quem contratou você? — ela perguntou naquele tom confuso. 

Apenas dei um sorriso e fiz um sinal apontando para as correntes. Ela consentiu com a cabeça, ainda meio receosa. Me aproximei devagar e comecei a tirá-las. Ela ficou olhando pra mim durante todo o processo. 

Quando seus braços estavam livres, instintivamente ela se afastou de mim na cama e abraçou as próprias pernas, numa posição de preservação. Ainda usava o uniforme escolar. 

— Vou deixar que você coma em paz. — falei segurando as correntes numa das mãos. — Infelizmente, terei que deixá-la trancada por algum tempo. Faz parte do processo. 

Ela continuou na mesma posição, me encarando atentamente com olhos perspicazes. 

— Vou trazer roupas para você depois. E alguns livros para passar o tempo. — falei de modo pacífico e me virei devagar, tomando cuidado para não fazer nenhum movimento brusco que a deixasse num estado ainda mais de alerta do que já estava. — Até depois, Sakura. 

Não olhei para trás enquanto fechava a porta atrás de mim e trancava pelo lado de fora. Dei alguns passos pelo corredor, me afastando da porta. Mas fiquei perto o suficiente para continuar escutando-a. 

Ela demorou alguns minutos na mesma posição. Depois pude escutar o som do colchão enquanto ela se movia para fora da cama. Passos. 

Andou pelo quarto. Parou em frente a porta. Escutei-a se ajoelhar no chão. Provavelmente se abaixou para tentar olhar por debaixo da porta. Como não viu nenhuma sombra ou movimento, se levantou e se aproximou. Escutei o som da maçaneta sendo forçada. 

Ela não conseguiu nada. Andou pelo quarto novamente. Escutei o som da janela. Estava tentando abrir. 

Fechei os olhos e cruzei os dedos, torcendo para que aquela maldita janela, que vivia emperrada, continuasse exatamente daquele jeito. Se ela conseguisse abrir, eu não teria dúvida de que se jogaria dali, mesmo estando no segundo andar da casa. 

Ela forçou por quase um minuto antes de desistir. Nada feito também. 

Escutei o som do colchão novamente. Tinha sentado na cama, provavelmente raciocinando qual suas opções. 

Alguns minutos se passaram. 

Ela deve ter desistido. 

Novamente o som da cama. Ela pegou a bandeja, porque logo escutei o som do iogurte sendo aberto. 

Agora era só esperar que o sonífero que eu havia colocado na massa dos bolinhos de arroz fizesse efeito. Quando ela apagasse de novo, eu iria colocar grades naquela janela, para ter certeza de que ela não fugiria. 

Eu teria algumas horas até que acordasse de novo. Devia ser o suficiente para terminar de gradear todas as janelas da casa. 

#

— Mil e trinta e dois. Mil e trinta e cinco.

No terceiro dia, Kiba já estava começando a dar sinais de abstinência da medicação. Ele começou a andar de um lado para o outro, dando voltas pela cela de maneira enérgica e nervosa, murmurando baixinho consigo mesmo. 

Shikamaru instintivamente foi para o canto, tentando se manter longe do caminho dele. 

— A gente tem que sair daqui. — ele dizia com o olhar vidrado. — Preciso dos meus remédios. 

— Nós sabemos. — Shikamaru comentou de maneira sarcástica. Olhei feio pra ele, repreendendo-o. — Ué, só tô falando. 

Kiba comeu o almoço sozinho. Shikamaru e eu estávamos nervosos demais para comer, embora nenhum dos dois demonstrasse isso abertamente.

No jantar, dei duas mordidas no sanduíche e deixei o resto pra eles. Nenhum de nós conseguiu dormir. Kiba, que ficou contando de três em três em voz alta a noite toda, e eu e Shikamaru que ficamos em estado de alerta a noite toda, encarando ele no escuro. 

No quarto dia, tudo veio abaixo. O olhar de Kiba já estava mudando. Ele não parava de tremer. 

— Chama o Orochimaru! — ele começou a bater na porta, gritando para que algum guarda o escutasse. — Preciso sair daqui.

Os outros presos da solitária começaram a gritar.

— Se ele sair, então eu também quero. — nós podíamos escutá-los. 

— Quer tratamento especial, é?

— Só quatro dias e já tá assim?

Kiba deu um chute tão forte na porta que pensei que realmente tinha força para parti-la no meio. O barulho foi tão alto que me levantei por reflexo. Shikamaru fez o mesmo. 

— Me dá a porra do remédio! — Kiba começou a gritar com uma voz ensandecida. — Eu sei que vocês estão me ouvindo! Me dá a porra do remédio ou eu vou matar vocês quando sair daqui!

Dava para sentir o cheiro de tensão misturado ao cheiro de mofo daquele lugar. Por um momento, Kiba ficou em silêncio e parado de costas pra nós. Se me esforçasse um pouco, talvez pudesse até escutar o som dos corações acelerados de nós três naquela minúscula cela, 

Ele virou para nós. Prendi a respiração. 

O olhar enfurecido dele foi de mim para Shikamaru. 

— A culpa é sua de estarmos aqui! Deixando aquele imbecil sentar com a gente na mesa! — ele rugiu e veio correndo. 

Me joguei no chão enquanto Shikamaru pulava por cima da cama tentando fugir. 

— Ei, filhos da puta! — Shikamaru berrou por socorro enquanto escapava de Kiba naquele cubículo de três metros. — Tirem a gente daqui!

Me arrastei para baixo da cama e agarrei uma das barras de ferro tortas que sustentavam aquele bloco na parede, tentando desencaixá-la para que saísse. Podia escutar as batidas do meu coração martelando nos meus ouvidos, a adrenalina fazia minhas mãos tremerem de nervosismo. Dava para ver os pés de Shikamaru e Kiba indo para lá e pra cá enquanto corriam pela cela numa caçada furiosa. 

Em algum momento, Kiba conseguiu agarrar Shikamaru enquanto ele tentava se esquivar e os dois foram ao chão. Shikamaru bateu a cabeça na porta e ficou desnorteado, Kiba aproveitou para subir em cima dele e começou a socá-lo enquanto gritava de ódio. 

Eu já tinha visto outros de seus surtos de bipolaridade, mas aquele estava sendo o mais emocionante. Talvez por eu estar ameaçado de verdade. 

Encolhido naquele minúsculo espaço entre o bloco e o chão, reuni força o suficiente para puxar a barra, e ela saiu. Engatinhei para fora enquanto Shikamaru era acertado por vários socos destruidores. No rosto, no peito, na garganta. 

Corri até eles e acertei a nuca de Kiba com toda a força que tinha, usando a barra de ferro para nocauteá-lo. 

Ele caiu no chão ao lado de Shikamaru, desacordado. 

Tremendo e tossindo, vi Shikamaru se levantar assustado e por reflexo. Uma cachoeira de sangue estava saindo de sua boca e seu nariz. Acho até que estava quebrado, inclusive. Ele tossiu sangue no chão quando larguei a barra no chão e me afastei alguns passos para trás, observando Kiba tremelicar de vez em quando. Provavelmente estava tendo uma convulsão pela pancada. 

Shikamaru se arrastou até a privada e começou a tossir o sangue lá. Estava até se engasgando já, tentando respirar e não conseguindo. 

Um guarda abriu a janelinha e deu uma olhada em nós. Ao constatar que ainda estávamos vivos, fechou e se afastou novamente, como se nada tivesse acontecido. 

Respirei fundo e me sentei no bloco de pedra, tentando controlar minha respiração e voltar a ficar calmo. 

Internamente, torci que um milagre nos tirasse de lá. 

#

Uns quarenta minutos depois de ter saído do quarto, peguei a escada que ficava no galpão e coloquei embaixo da janela de Sakura, do lado de fora. Subi e limpei o vidro pelo lado de fora. Foquei dentro do quarto. Ela dormia profundamente na cama. A bandeja estava vazia. 

Desci e corri de volta ao galpão, pegando a furadeira novamente e mais grades. 

Coloquei grades na janela dela, assim em como todas as outras janelas da casa. Tudo na maior pressa do mundo. Quatro horas depois, ela ainda estava dormindo profundamente. 

Comecei a arrumar os livros por cores nas prateleiras das estantes, assim como arrumei a escrivaninha. Fiz uma lista de coisas que precisava comprar, separando por “mega urgente”, “urgente” e “pode esperar”. 

Peguei o carro e saí para a loja de móveis mais próxima que conhecia. Comprei um divã preto, assim como duas poltronas e fiz um esforço enorme para carregá-los escada acima, levando-os para aquela sala que seria meu escritório. Estava ofegante e extremamente cansado quando terminei. 

Quando peguei as chaves para sair de novo, ela continuava dormindo. Deixei alguns pedaços de filé de peixe descongelando e fui ao shopping atrás de roupas para ela. 

— Presente para a namorada? — uma vendedora veio toda sorridente até mim quando me viu indo até a seção feminina. 

— Claro. — respondi simpático. Ela foi me ajudar com as roupas. 

Coloquei aquele monte de sacolas no banco de trás e fui até o supermercado. Nunca fiz uma compra tão completa quanto aquela. Passei em todos os corredores do mercado, pegando coisas em cada lugar, já que não sabia o que ela comia ou não ainda. O carrinho estava quase impossível de empurrar quando fui para o caixa. 

Voltando para casa, guardei tudo e separei uma das roupas. Fui tomar outro banho rápido e coloquei o peixe para fritar.

Estava exausto por não ter dormido nada na noite anterior e ficar correndo de um lado para o outro, fazendo serviços e comprando e carregando coisas. 

Mesmo assim, me esforcei o máximo possível para parecer bem. 

Enquanto subia as escadas levando a bandeja com o almoço, um livro e a nova muda de roupas, pude escutá-la. Tinha finalmente conseguido abrir a janela, constatei. Mas agora estava gradeado. 

Andei devagar pelo corredor, para que ela soubesse que eu estava chegando. Parei novamente na frente da porta mas dessa vez bati antes de entrar. 

#

Encolhido embaixo do bloco de concreto, fiquei observando as pernas de Kiba enquanto ele socava as paredes e gritava enfurecidamente. Shikamaru estava encolhido no pequeno espaço entre a privada e o canto do quarto. 

Tínhamos sobrevivido cinco dias. O sexto estava sendo emocionante como o quarto fora. 

As paredes estavam ficando todas pintadas de vermelho pelo sangue das mãos de Kiba enquanto ele enlouquecia gradualmente. 

Durante a noite, podíamos escutar sua respiração pesada enquanto ele se balançava em cima do bloco. Estávamos sentados encostados na porta, olhando para ele no escuro. Kiba se abraçava e chorava desesperadamente. 

O nariz de Shikamaru realmente tinha quebrado. Ele agora se encontrava com o rosto completamente inchado e roxo. 

Eu não consegui largar aquela barra de ferro por um segundo sequer desde que Kiba acordou. 

Ele não conseguia mais dormir, e consequentemente, nós também não. Seus surtos variavam entre violentos, quando ele ficava socando as paredes e a porta, e os agonizantes, quando ele ficava chorando por horas. 

Mas pra mim, os piores era quando ele começava a rir como louco. Podia gargalhar ensandecidamente por horas, sem controle algum. 

Eu tinha certeza de que, mesmo que saíssemos vivos dali, aquela risada aterrorizaria meu inconsciente pelo resto da vida.

Durante aquela noite, eu continuava acordado deitado no chão como todas as outras vezes. Kiba dormia profundamente na cama, depois de tanto tempo sem nos deixar sossegar Shikamaru também tinha pegado no sono. 

De repente, todas as luzes foram acesas. Nós nos sobressaltamos assustados. Era impossível já ter amanhecido. Os presos nas outras celas começaram a reclamar. 

Pude ouvir passos de várias pessoas vindo pelo longo corredor de solitárias. Pararam em frente à nossa cela. A porta foi aberta. 

— Boa madrugada, rapazes. — Orochimaru estava com um daqueles sorrisos sádicos dele. 

Nós três o encaramos em expectativa. 

— Boas notícias, Sasuke-kun. Sua garota acaba de conseguir sua passagem de volta lá pra cima. — ele sibilou, parecendo extremamente satisfeito consigo mesmo. 

Eu não pude acreditar. Ela tinha aceitado. 

Tinha acabado de nos salvar. 

— Levem os outros dois para a enfermaria. — Orochimaru disse aos guardas parados ali com ele, observando as paredes sujas de sangue e o rosto inchado de Shikamaru. — O Sasuke-kun pode voltar para sua caminha confortável na ala vermelha. 

Haruno Sakura, eu até tento fazer o contrário, mas como posso não amar você? 


Notas Finais


Antes que você fiquem pensando "nossa, como a Sakura é idiota em acreditar nessa lorota que o Sasuke disse", calma gente. Na verdade, isso aí costumava ser bem comum no Japão antes. Não é segredo que lá eles prezam muito a própria reputação e ficam atrás de serem exemplares tudo, por isso, nos anos 90, quando um adolescente tentava se matar ou algo assim, a família geralmente mandava para clínicas particulares que funcionavam mais ou menos assim. Eram como casas normais e só quem tinha acesso a elas era o psicólogo, que era escolhido a dedo pela família. Isso acontecia porque caso mandassem para uma clínica com outras pessoas, corria o risco de conhecidos descobrirem que o jovem estava com problemas, aí traria má reputação para a família, sacaram? No caso, a Sakura vai ficar quebrando cabeça tentando saber quem que mandou ela pra essa "clínica" aí.

No próximo capítulo, terá o tão esperado momento em que a Sakura vai na prisão e reencontra o Gaara. Eu sei que tem muita gente querendo ver a reação dele quando ver que ela não é nenhuma Ino, kkkk.

Bom, espero que tenham gostado. Semana que vem eu trago mais um capítulo <3

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