História My Beautiful Disaster - Capítulo 16


Escrita por: ~

Postado
Categorias Amor Doce, Belo Desastre
Personagens Abby Abernathy, Personagens Originais, Travis Maddox
Tags Ally And Castiel, Belo Desastre, Reeleitura
Visualizações 53
Palavras 5.392
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Colegial, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção Científica, Hentai, Luta, Romance e Novela, Saga, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Desculpem pela enorme demora, mas tenho um bom motivo que irei revelar outro dia.
Boa leitura!

Capítulo 16 - Cidade do Pecado


Castiel colocou as malas no chão e olhou em volta do quarto.

— Isso aqui é legal, hein? — Olhei feio para ele, que ergueu uma sobrancelha. — Que foi?

O zíper da minha mala fez barulho quando o puxei pelas bordas e balancei a cabeça. Diferentes estratégias e o pouco tempo de que dispunha enchiam a minha cabeça.

— Não estamos de férias. Você nem devia estar aqui, Castiel.

No momento seguinte, ele estava atrás de mim, cruzando os braços na minha cintura.

— Eu vou aonde você for.

Apoiei a cabeça no peito dele e suspirei.

— Tenho que descer lá. Você pode ficar aqui ou ir dar uma volta a gente se vê mais tarde, tá?

— Eu vou com você.

— Não quero você por lá, Cast. — Uma expressão de mágoa pesou sobre seu rosto e pus a mão em seu braço. — Preciso me concentrar para ganhar catorze mil dólares em um fim de semana. Não gosto de quem vou me tornar enquanto estiver naquelas mesas, e não quero que você veja.

Ele tirou meu cabelo da frente dos olhos e beijou meu rosto.

— Tudo bem, Flor.

Castiel acenou para Rosalya antes de sair do quarto, e ela se aproximou de mim com o mesmo vestido que tinha usado na festa de casais. Eu estava com um vestido curto dourado e sapatos de salto alto, fazendo uma careta no espelho. Rosa puxou meus cabelos para trás e me entregou um tubo preto. 

— Você precisa de mais umas cinco camadas de rímel, e eles vão jogar sua carteira de identidade no lixo se você não passar mais blush. Esqueceu como se joga isso?

Peguei o rímel da mão dela e fiquei mais uns dez minutos me maquiando. Assim que terminei, meus olhos começaram a lacrimejar.

—Droga, Ally, não chora — falei, olhando para cima e dando batidinhas debaixo dos olhos com um lenço de papel.

— Você não precisa fazer isso. Você não deve nada pra ele — colocou as mãos nos meus ombros enquanto eu me olhava.

A expressão dela era de pena. Eu a tinha visto me olhar daquele jeito as vezes antes, mas agora Rosalya estava desesperada. Ela tinha visto meu pai arruinar a minha vida mais vezes do que qualquer uma de nós seria capaz de contar.

— E da próxima vez? E da próxima? Você não pode continuar fazendo isso.

— Ele concordou em ficar longe. Mick Abernathy é um monte de coisas, mas não é desses caras que não pagam o que devem.

Atravessamos o corredor e entramos no elevador vazio.

— Você tem tudo de que precisa? — perguntei a ela, me lembrando das câmeras.

Rosalya bateu com as unhas em sua carteira de motorista falsificada.

— Meu nome é Candy. Candy Crawford — disse ela, com um impecável sotaque sulista.

Estendi a mão.

— Jessica James. Prazer em conhecê-la, Candy.

Colocamos os óculos escuros e ficamos paradas, sem nenhuma expressão no rosto, enquanto o elevador se abria, revelando as luzes de neon e o barulho do cassino. As pessoas se movimentavam em todas as direções, vindas de todas as camadas da sociedade, de todos os estilos de vida e profissões. Las Vegas era um inferno celestial, o único lugar onde era possível encontrar, no mesmo edifício, dançarinas com vistosas plumas e maquiagem de palco, prostitutas com roupas insuficientes e ainda assim aceitáveis, homens de negócios em ternos chiques e famílias inteiras. Atravessamos uma ala ladeada por cordas vermelhas e entregamos a carteira de identidade a um homem de casaco vermelho. Ele me olhou por um instante, e abaixei os óculos.

— A qualquer hora hoje seria ótimo — falei, entediada.

Ele devolveu nossa identidade e se pôs de lado para que entrassemos.

Passamos pela ala de caça-níqueis, pelas mesas de blackjack e paramos perto da   roleta. Examinei o salão, observando as diversas mesas de pôquer, e resolvi ficar naquela onde estavam sentados os jogadores mais velhos.

— Aquela — falei, apontando com a cabeça para o outro lado do salão.

— Já comece agressiva, Ally. Eles nem vão saber o que os atingiu.

—Não, eles são a velha guarda de Vegas. Tenho que fazer um jogo inteligente dessa vez.

Fui caminhando até a mesa, exibindo meu sorriso mais charmoso. Os nativos podiam sentir o cheiro de uma vigarista a quilômetros de distância, mas eu tinha duas coisas a meu favor que encobriam o rastro de qualquer golpe: juventude e... peitos.

—Boa noite, cavalheiros. Se importam se eu me juntar a vocês? 

Eles nem ergueram o olhar.

— Claro, doçura. Sente aí e fique bonitinha. É só não falar.

—Eu quero jogar — eu disse, entregando a Rosalya os óculos escuros. — Não tem muita ação nas mesas de blackjack.

Um dos homens mordia a ponta do charuto

— Essa é uma mesa de pôquer, princesa. Pôquer fechado. Melhor você tentar a sorte nos caça-níqueis.

Eu me sentei na única cadeira vazia, me exibindo ao cruzar as pernas.

— Eu sempre quis jogar pôquer em Las Vegas. E tenho todas essas fichas... — falei, colocando minha pilha sobre a mesa. — E sou muito boa no pôquer online.

Os cinco homens olharam para minhas fichas e depois para mim.

— Tem uma aposta mínima, meu bem — disse o carteador, que distribui as cartas no jogo.

— De quanto?

— Quinhentos, boneca. Escuta... não quero fazer você chorar. Faça um favor a si mesmo e escolha um reluzente caça-níquel.

Empurrei minhas fichas para o centro da mesa, dando de ombros da maneira como faria uma garota impulsiva e confiante demais antes de se dar conta de que acabara de perder a poupança da faculdade. Os homens se entreolharam. O carteador deu de ombros e jogou suas fichas.

— Jimmy — disse um dos jogadores, estendendo-me a mão. Quando o cumprimentei, ele apontou para os outros. — Mel, Pauli, Joe e esse é o Winks.

Olhei para o homem magrelo que mascava um palito de dentes e ele piscou para mim.

Assenti e fiquei esperando com falsa expectativa enquanto eram distribuídas as cartas da primeira mão. Perdi de propósito as duas primeiras, mas lá pela quarta eu estava ganhando. Os veteranos de Las Vegas não demoraram tanto quanto Thomas, o irmão de Castiel, para me sacar.

— Você disse que jogava online? — Pauli me perguntou.

— E com o meu pai.

— Você é daqui? — Jimmy sondou.

— De Wichita — respondi.

— Ela não é nenhuma jogadora de pôquer online, disso eu tenho certeza — resmungou Mel.

Uma hora depois, eu havia tirado dois mil e setecentos dólares dos meus oponentes, e eles estavam começando a suar.

— Passo — disse Jimmy, jogando as cartas na mesa com o cenho franzido.

— Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, nunca teria acreditado — ouvi alguém dizer atrás de mim.

Rosalya e eu nos viramos ao mesmo tempo, e meus lábios formaram um largo sorriso.

— Viktor — balancei a cabeça. — O que você está fazendo aqui?

— Este lugar em que você está dando golpe é meu, Docinho. O que você está fazendo aqui?

Revirei os olhos e me virei para meus novos amigos, que me olhavam desconfiados.

— Você sabe que odeio isso, Vik.

— Com licença — ele disse, me puxando pelo braço e me fazendo ficar em pé.

Rosalya olhou para mim com um ar vigilante enquanto eu era conduzida para longe dali.

O pai de Viktor gerenciava o cassino, e para mim era uma grande surpresa ver que ele havia se juntado aos negócios da família. Costumávamos perseguir um ao outro pelos corredores do hotel, e eu sempre o vencia quando apostávamos corrida de elevador. Ele tinha crescido desde a última vez em que o vira. Eu me lembrava dele como um pré-adolescente magro, alto e desengonçado, mas agora o homem à minha frente era um bem-vestido gerente de cassino, nem um pouco desengonçado e com certeza muito másculo. Ele ainda tinha a pele morena e sedosa e os olhos dourados de que eu me lembrava, mas o resto era uma agradável surpresa.

Seus olhos cor de dourada cintilavam sob as luzes brilhantes.

— Surreal. Achei que fosse você quando passei por aqui, mas não conseguia acreditar que você tinha voltado. Quando vi essa mocinha limpando a mesa dos veteranos, eu soube na hora que era você.

— Sou eu — falei.

— Você está... diferente.

— Você também. Como vai seu pai?

— Aposentado — ele sorriu. — Por quanto tempo você vai ficar aqui?

— Só até domingo. Tenho que voltar para a faculdade.

— Oi, Vik — disse Rosa, me pegando pelo braço.

— Rosalya — ele riu baixinho. — Eu devia ter me ligado. Vocês são sombra uma da outra.

— Se os pais dela soubessem que eu trouxe a Rosalya aqui, isso teria acabado há muito tempo.

— Que bom te ver, Ally. Posso te pagar um jantar? — ele me perguntou, analisando o meu vestido.

— Eu adoraria saber as novidades, mas não estou aqui para me divertir, Vik.

Ele estendeu a mão e sorriu.

— Nem eu. Me passa sua identidade.

Meu queixo caiu. Eu sabia que tinha uma luta nas mãos. Viktor não se renderia ao meu charme com tanta facilidade. Eu teria que lhe contar a verdade.

— Estou aqui por causa do Mick. Ele está metido numa encrenca.

Viktor se afastou um pouco.

— Que tipo de encrenca?

— A de sempre.

— Eu queria poder ajudar. A gente tem uma história antiga, e você sabe que respeito o seu pai, mas também sabe que não posso deixar você ficar aqui.

Agarrei o braço dele e o apertei.

— Ele deve dinheiro pro Benny.

Viktor fechou os olhos e balançou a cabeça.

— Meu Deus!

—Eu tenho até amanhã. Estou te pedindo um grande favor. Fico te devendo essa, Vik. Só me dá até amanhã, por favor.

Ele encostou a palma da mão no meu rosto.

— Vamos fazer assim... Se você jantar comigo amanhã, te dou até a meia- noite

Olhei para Rosalya e depois para ele.

— Estou acompanhada.

Ele deu de ombros.

— É pegar ou largar, Ally. Você sabe como as coisas funcionam aqui. Você não pode conseguir algo a troco de nada.

Suspirei, derrotada.

— Tudo bem. Encontro você amanhã no Ferraro’s, se me der até a meia- noite.

Ele se inclinou e beijou o meu rosto.

— Foi bom te ver de novo. Até amanhã... às cinco, ok? Preciso estar aqui embaixo às oito.

Sorri enquanto ele se afastava, mas meu sorriso se desvaneceu com rapidez, assim que vi Castiel me encarando da mesa da roleta.

— Ah, merda! — disse Rosalya.

Castiel fuzilou Viktor com o olhar quando ele passou, depois veio até mim.

Enfiou as mãos nos bolsos e olhou de relance para Viktor, que estava nos observando de soslaio.

— Quem era aquele cara?

Assenti na direção do meu velho amigo.

— Viktor Chavalier. A gente se conhece há muito tempo.

— Quanto tempo?

Olhei para trás, para a mesa dos veteranos.

— Castiel, depois a gente conversa.

— Acho que ele desistiu da ideia de ser ministro batista — disse Rosalya, olhando na direção de Viktor com um sorriso de flerte.

— É seu ex-namorado? — ele me perguntou com raiva. — Achei que você tinha dito que ele era do Kansas.

Olhei para Rosalya com impaciência e depois segurei o queixo de Castiel, para que ele prestasse total atenção no que eu estava falando.

—Ele sabe que não tenho idade para estar aqui, Cast. Ele me deu até a meia-noite. Eu te explico tudo depois, mas agora tenho que voltar para o jogo, tudo bem?

Dava para ver os movimentos de seu maxilar sob a pele, e então ele cerrou os olhos e respirou fundo.

— Tudo bem. Te vejo à meia-noite. — E se curvou para me dar um beijo, mas seus lábios estavam frios e distantes. — Boa sorte.

Sorri enquanto ele se misturava à multidão, depois voltei a atenção aos homens à mesa.

— Cavalheiros?

— Sente-se, Shirley Temple — disse Jimmy. — Vamos recuperar o nosso dinheiro agora. Não gostamos de ser roubados.

— Façam o seu pior — sorri.

— Você tem dez minutos — sussurrou-me Rosa

— Eu sei — respondi.

Tentei bloquear a ideia de tempo e o joelho de Rosalya se mexendo nervosamente debaixo da mesa. O prêmio da rodada já estava em dezesseis mil dólares, o mais alto da noite, e era tudo ou nada.

— Nunca vi alguém jogar assim, menina. Você fez um jogo quase perfeito. E ela não tem nenhum tique, Winks. Você notou? — disse Pauli.

Winks assentiu, e seu comportamento animado se evaporava um pouco mais a cada rodada.

— Notei. Nenhum gesto, nenhum sorriso, até os olhos dela continuam com a mesma expressão. Isso não é natural. Todo mundo tem um tique.

— Nem todo mundo — disse Rosalya, com um sorriso orgulhoso.

Senti um par de mãos familiares encostar nos meus ombros. Eu sabia que era Castiel, mas não me atrevi a me virar, não com três mil dólares no meio da mesa.

— Vamos lá — disse Jimmy.

As pessoas em volta da mesa aplaudiram quando abaixei o que tinha em mãos. Jimmy foi o único que chegou próximo, com uma trinca. Nada de que meu straight não desse conta.

— Inacreditável! — disse Pauli, jogando seu par de dois na mesa.

— Estou fora — resmungou Joe, levantando-se e afastando-se da mesa com raiva.

Jimmy foi mais elegante.

— Posso morrer hoje sabendo que joguei com uma grande adversária, menina. Foi um prazer, Ally.

Fiquei paralisada.

— Você sabia?

Ele sorriu. Os anos de fumaça de charuto e café manchavam seus grandes dentes.

— Já joguei com você antes. Faz seis anos. Fazia muito tempo que eu queria uma revanche — E estendeu a mão para me cumprimentar. — Se cuida, menina. Diga ao seu pai que Jimmy Pescelli mandou um alô.

Rosalya me ajudou a coletar os meus ganhos, e me virei para Castiel, olhando para o relógio.

— Preciso de mais tempo.

— Quer ir tentar as mesas de blackjack?

— Não posso perder dinheiro Cast.

Ele sorriu.

— Você não consegue perder, Flor.

Rosalya balançou a cabeça.

— Blackjack não é o jogo dela.

Castiel assentiu.

— Ganhei um pouco. Tenho seiscentos dólares. Pode ficar com o dinheiro.

Lysandre me entregou as fichas dele.

— Só consegui trezentos. São seus.

Soltei um suspiro.

— Valeu, pessoal. Mas ainda faltam cinco mil.

Olhei para o relógio de novo, depois ergui a cabeça e vi que Viktor estava se aproximando.

— Como se saiu? — ele me perguntou, sorrindo.

— Ainda faltam cinco mil, Vik. Preciso de mais tempo.

— Fiz tudo que eu podia, Ally.

Assenti, sabendo que já tinha pedido demais.

— Obrigada por me deixar ficar.

— Talvez eu consiga fazer meu pai conversar com o Benny por você.

— Esse é um problema do Mick. Vou pedir a ele uma extensão do prazo.

Viktor balançou a cabeça.

— Você sabe que isso não vai acontecer, Docinho, não importa com quanto dinheiro você apareça. Se for menos do que ele deve, o Benny vai mandar alguém atrás dele. E você, fique o mais longe possível.

Senti meus olhos arderem.

— Eu tenho que tentar.

Viktor deu um passo para frente, se inclinando para manter a voz baixa.

— Entre em um avião, Ally. Está me ouvindo?

— Estou — falei, irritada.

Ele suspirou, e seus olhos ficaram com um ar pesado de empatia, depois me abraçou e beijou meus cabelos.

— Sinto muito. Se eu não corresse o risco de perder o emprego, você sabe que eu tentaria pensar em alguma saída. Te vejo amanhã às cinco.

Assenti, afastando-me.

— Eu sei. Você fez o que pôde.

Então se curvou para beijar o canto da minha boca e saiu andando sem dizer mais nenhuma palavra.

Olhei de relance para Rosalya, que observava Castiel. Eu não me atrevia a encontrar o olhar dele; não conseguia nem imaginar sua expressão de raiva.

— O que é que tem às cinco? — ele quis saber, com a voz gotejando uma raiva controlada.

— A Ally concordou em jantar com o Viktor se ele deixasse ela ficar aqui. Ela não teve escolha, Cast — disse Rosalya.

Eu podia notar pelo tom de voz cauteloso dela que raiva era pouco para definir o que Castiel estava sentindo.

Ergui o olhar para ele, que me olhou furioso, com a mesma expressão de traição que Mick tinha no rosto na noite em que se deu conta de que eu havia tirado a sorte dele.

— Você tinha escolha.

— Você já lidou com a máfia, Castiel? Lamento se seus sentimentos estão feridos, mas um jantar de graça com um velho amigo não é um preço alto a se pagar para manter o Mick vivo.

Eu podia ver que ele queria soltar o verbo, mas não havia nada que ele pudesse dizer.

— Vamos, pessoal, temos que encontrar o Benny — disse Rosalya, me puxando pelo braço.

Castiel e Lysandre nos seguiram em silêncio enquanto descíamos a The Strip até o prédio de Benny. O trânsito, tanto de canos quanto de pessoas, estava começando a aumentar. A cada passo, eu tinha uma sensação de náusea e vazio no estômago. Minha mente estava a mil, pensando em um argumento convincente para persuadir Benny. Na hora em que batemos à grande porta verde, que eu já tinha visto tantas vezes antes, eu estava completamente decepcionada.

Não foi surpresa alguma ver o imenso porteiro — negro, aterrorizante e maciço —, mas fiquei pasma ao ver Benny parado ao lado dele.

— Benny — falei, quase sem fôlego.

— Ora, ora... Você não é mais a Lucky Thirteen, hein? O Mick não me contou que você tinha ficado tão bonita. Eu estava esperando por você, Docinho. Ouvi dizer que tem um pagamento para mim.

Assenti e Benny fez um gesto, apontando para os meus amigos. Ergui o queixo para fingir confiança.

— Eles estão comigo.

— Receio que seus companheiros terão que esperar do lado de fora — disse o porteiro, em um tom grave incomum.

Castiel me pegou pelo braço imediatamente.

— Ela não vai entrar aí sozinha. Eu vou junto.

Benny olhou para ele e engoli em seco. Quando o chefão ergueu o olhar para o porteiro com os cantos da boca virados para cima, relaxei um pouco.

— É justo — disse Benny. — O Mick vai ficar feliz em saber que você tem um amigo tão bom.

Então o segui para dentro, me virando para ver o olhar preocupado no rosto de Rosalya. Castiel segurava firme meu braço, se colocando de propósito entre mim e o porteiro. Seguimos Benny até entrarmos em um elevador, subimos quatro andares em silêncio e depois as portas se abriram.

Havia uma grande mesa de mogno no meio de uma sala ampla. Benny foi andando com dificuldade até sua luxuosa cadeira e se sentou, fazendo um gesto para que ocupássemos as duas cadeiras vazias do outro lado da mesa.

Quando me sentei, senti o couro frio sob mim e me perguntei quantas pessoas tinham estado ali, naquela mesma cadeira, momentos antes de morrer. Estiquei a mão para segurar a de Castiel e ele apertou a minha, restaurando-me a confiança.

— O Mick me deve vinte e cinco mil. Acredito que você tenha o valor total — disse Benny, rabiscando algo em um bloco de notas.

— Pra falar a verdade — fiz uma pausa, pigarreando —, faltam cinco mil, Benny. Mas eu tenho o dia todo amanhã para conseguir o restante. E cinco mil não é problema, certo? Você sabe que eu sou boa nisso.

— Allysson — disse Benny, franzindo o cenho —, assim você me decepciona. Você conhece minhas regras muito bem.

— Por... por favor, Benny. Estou pedindo que você pegue os dezenove mil e novecentos, e amanhã eu te trago o resto.

Os olhos pequenos abrilhantes de Benny se revezaram entre mim e Castiel. Foi nesse momento que notei que dois homens deram um passo à frente, saídos de cantos escuros da sala. A pegada de Castiel na minha mão ficou mais apertada, e prendi o fôlego.

— Você sabe que não aceito nada além do valor total. O fato de você estar tentando me entregar menos que isso me diz algo. Sabe o quê? Que você não tem certeza se vai conseguir tudo.

Os capangas deram mais um passo à frente.

— Eu posso conseguir o seu dinheiro, Benny — eu disse, dando risadinha nervosa. — Ganhei oito mil e novecentos em seis horas.

— Então você está me dizendo que vai me trazer oito mil e novecentos em mais seis horas? — Benny abriu um sorriso diabólico.

—O prazo é só amanhã à meia-noite — disse Castiel, olhando de relance para trás e então observando a aproximação dos homens que vinham das sombras.

— O... o que você está fazendo, Benny? — perguntei, com a postura rígida.

— O Mick me ligou hoje. Ele me disse que você está cuidando da dívida dele.

— Estou fazendo um favor a ele. Eu não devo nenhum dinheiro a você — falei séria, meu instinto de sobrevivência vindo à tona com tudo.

Benny apoiou os cotovelos curtos e grossos na mesa.

— Estou pensando em ensinar uma lição ao Mick, e estou curioso para saber até onde vai a sua sorte, menina.

Castiel levantou como um raio da cadeira e me puxou atrás dele. Então fomos de costas em direção à porta.

— O Josiah está do lado de fora, meu jovem. Para onde exatamente você acha que vai fugir?

Eu estava errada. Quando estava pensando em persuadir Benny a ser racional, eu deveria ter previsto a vontade de Mick de sobreviver e a predileção de Benny por vingança.

— Castiel — falei em tom de aviso, observando os capangas se aproximarem de nós.

Ele me empurrou mais para trás e se aprumou.

— Espero que você saiba, Benny, que, quando eu derrubar os seus homens, não é com a intenção de te desrespeitar. Mas eu estou apaixonado por essa moça e não posso deixar que você a machuque.

Benny irrompeu em uma risada cacarejante.

— Tenho que lhe dar algum crédito, meu filho. Você é o cara mais corajoso que já passou por essa porta. Vou te preparar para o que você está prestes a enfrentar. O camarada mais alto à sua direita é o David. Se ele não conseguir derrubar você a socos, vai usar a faca que tem no coldre. O homem à sua esquerda é o Dane, meu melhor lutador. Aliás, ele tem uma luta amanhã, e nunca perdeu nenhuma. Tome cuidado para não machucar as mãos, Dane. Apostei alto em você.

Dane sorriu para Castiel com olhos selvagens e divertidos.

— Sim, senhor.

— Benny, para com isso! Eu posso conseguir o dinheiro pra você! — gritei.

— Ah, não... Isso está ficando interessante muito rápido — Benny deu uma risada abafada, se recostando na cadeira.

David foi para cima de Castiel, e levei as mãos à boca. O homem era forte, mas desajeitado e lento. Antes que ele pudesse dar um golpe ou tentasse pegar a faca, Castiel o incapacitou, empurrando o rosto de David para baixo e dando- lhe uma joelhada certeira. Quando Castiel deu um soco, não perdeu tempo, usando no rosto do cara toda a força que tinha. Dois socos e uma cotovelada depois, David estava no chão, caído em uma poça de sangue.

Benny jogou a cabeça para trás, rindo de um jeito histérico e socando a mesa, com o deleite de uma criança vendo desenho animado no sábado de manhã.

— Bom, vá em frente, Dane. Ele não assustou você, assustou?

Dane abordou Castiel com mais cautela, com o foco e a precisão de um lutador profissional. Seu punho cerrado voou em direção ao rosto do meu namorado com uma velocidade incrível, mas Castiel conseguiu desviar, golpeando-o com o ombro com toda a força. Os dois caíram de encontro à mesa de Benny, e então Dane agarrou Castiel com os dois braços, jogando-o no chão.

Eles se engalfinharam no chão por um instante, depois Dane conseguiu se levantar, se preparando para socar Castiel, que estava preso debaixo dele. Cobri o rosto, incapaz de assistir.

Ouvi um grito de dor, então ergui o olhar e vi Castiel segurando Dane pelos cabelos volumosos e desgrenhados, acertando um soco atrás do outro na lateral da cabeça do capanga. O rosto de Dane batia com força na mesa de Benny a cada golpe que ele levava. Quando Castiel o soltou, ele mal conseguia ficar em pé, desorientado e sangrando.

Castiel o observou por um instante e depois o atacou novamente, rosnando a cada ataque, mais uma ve z usando toda sua força. Dane se esquivoue acertou o maxilar de Castiel com os nós dos dedos.

Castiel sorriu e ergueu o dedo.

— Essa foi a sua vez.

Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Castiel tinha deixado o capanga do Benny acertá-lo. Ele estava se divertindo. Eu nunca o tinha visto lutar sem limites. Era um pouco assustador vê-lo liberar tudo que tinha em si naqueles matadores treinados e mesmo assim sair ganhando. Até aquele momento, eu não tinha me dado conta do que ele era capaz.

Com as perturbadoras risadas de Benny ao fundo, Castiel terminou de derrubar Dane, acertando o cotovelo bem no meio da cara dele e nocauteando-o antes que ele chegasse ao chão. Fui acompanhando o movimento até ele cair no tapete importado de Benny.

— Que jovem incrível! Simplesmente incrível! — disse Benny, batendo palmas e deliciando-se com aquilo.

Castiel me puxou para trás dele enquanto Josiah preenchia o vão da porta aberta com seu físico gigantesco.

—Devo cuidar disso, senhor?

— Não! Não, não... — disse Benny, ainda exultante com o desempenho improvisado de Castiel. — Qual é o seu nome?

Meu namorado ainda respirava com dificuldade.

— Castiel Maddox — disse ele, limpando o sangue das mãos na calça jeans.

— Castiel Maddox, acredito que você possa ajudar a sua namoradinha aqui a sair dessa encrenca.

— E como seria isso? — ele perguntou, soltando o ar.

— O Dane tinha uma luta amanhã à noite. Eu apostei alto nele, mas não me parece que ele esteja em condições de lutar tão cedo. Sugiro que você assuma o lugar dele e ganhe uma grana pra mim, e eu perdoo os cinco mil e cem restantes da dívida do Mick.

Castiel se virou para mim.

— Beija-Flor?

— Você está bem? — perguntei, limpando o sangue do rosto dele.

Mordi o lábio, sentindo meu rosto se enrugar em uma combinação de medo e alívio.

Castiel sorriu.

— O sangue não é meu, baby. Não precisa chorar.

Benny se levantou.

— Sou um homem ocupado, meu filho. Topa ou passa?

— Topo — disse Castiel— É só me dar as coordenadas e estarei lá.

—Você vai lutar com o Brock McMann. Ele não é nenhuma mocinha. Foi expulso do UFC no ano passado.

Castiel não se incomodou com a informação.

— É só me dizer onde preciso estar.

O sorriso de tubarão de Benny se espalhou pelo rosto.

— Eu gosto de você, Castiel. Acho que seremos bons amigos.

— Duvido — Castiel respondeu.

Ele abriu a porta para mim e manteve uma posição protetora e preparada para o ataque, até o momento em que saímos pela porta da frente.

— Meu Deus! — Rosalya gritou ao ver o sangue cobrindo as roupas de Castiel. — Vocês estão bem?

Ela me agarrou pelos ombros e analisou meu rosto.

— Estou bem. Só mais um dia no escritório. Para nós dois — falei, secando as lágrimas.

Castiel me agarrou pela mão e fomos correndo até o hotel, com Lysandre e Rosalya nos seguindo bem de perto. Poucas pessoas prestaram atenção na aparência de Castiel. Ele estava coberto de sangue e parecia que só alguns ocasionais forasteiros notavam.

— Que diabos aconteceu lá? — Lysandre por fim perguntou. 

Castiel tirou as roupas, ficando só de cueca, e sumiu dentro do banheiro.

O chuveiro foi ligado e Rosalya me entregou uma caixa de lenços de papel.

— Eu estou bem, Lya.

Ela suspirou e empurrou a caixa para mim mais uma vez.

— Não está, não.

— Não foi a minha primeira vez com o Benny — falei.

Meus músculos estavam doloridos como resultado das vinte e quatro horas de tensão pelas quais havia passado.

— Foi a primeira vez que você viu o Castiel atacar alguém como um louco — disse Lysandre. — Já vi isso acontecer uma vez e não é nada bonito.

— O que aconteceu? — insistiu Rosalya.

— O Mick ligou para o Benny e passou a responsabilidade para mim.

— Eu vou matar o Mick! Vou matar aquele filho da puta! — gritou Rosalya.

— O Benny não ia me considerar responsável, mas ia ensinar uma lição ao Mick por ter enviado a filha para pagar a dívida. Ele chamou dois de seus malditos cães de guarda pra cima da gente e Castiel os derrubou. Os dois. Em menos de cinco minutos.

— Então o Benny deixou vocês irem embora? — Rosalya quis saber.

Castiel surgiu do banheiro com uma toalha enrolada na cintura, e a única evidência da briga era uma marca vermelha na maçã do rosto, logo abaixo do olho direito.

— Um dos caras que eu derrubei tinha uma luta amanhã à noite. Vou assumir o lugar dele e, em compensação, o Benny vai perdoar os cinco mil que faltam da dívida do Mick.

Rosalya se levantou.

— Isso é ridículo! Por que estamos ajudando o Mick, Ally? Ele te jogou aos lobos! Eu vou matar o Mick!

— Não se eu matar primeiro — disse Castiel, borbulhando de raiva.

— Entrem na fila — falei.

— Então você vai lutar amanhã? — Lysandre perguntou.

— Num lugar chamado Zero’s. Às seis horas. É com o Brock McMann, Lys.

Lysandre balançou a cabeça.

— De jeito nenhum. Nem ferrando, Cast! O cara é um maníaco!

— É — disse Castiel —, mas ele não está lutando pela garota dele, não é? — Ele me aninhou em seus braços, beijando o topo da minha cabeça.— Você está bem, Beija-Flor?

— Isso é errado. Isso é errado em tantos sentidos. Não sei com qual deles devo tentar te convencer a não fazer isso.

— Você não me viu hoje? Vou ficar bem. Eu já vi o Brock lutar. O cara é duro na queda, mas não é imbatível.

— Eu não quero que você faça isso, Cast.

— Bom, eu não quero que você vá jantar com seu ex-namorado amanhã à noite. Acho que nós dois vamos ter que fazer algo desagradável para salvar anpele do seu pai imprestável.

Eu já tinha visto isso antes. Las Vegas muda as pessoas, cria monstros e homens arruinados. Era fácil deixar as luzes e os sonhos roubados penetrarem no sangue. Eu já tinha visto a enérgica e invencível expressão no rosto de Castiel muitas vezes antes, e a única cura era um avião de volta para casa.

{•••}

Viktor franziu a testa quando olhei mais uma vez para o relógio.

— Você tem outro compromisso, Docinho? — ele me perguntou.

— Por favor, para de me chamar assim, Viktor. Odeio esse apelido.

— Eu odiei quando você foi embora também, o que não te impediu de ir.

— Essa conversa já deu. Vamos simplesmente jantar, tudo bem?

— Tudo bem. Vamos falar sobre o seu novo namorado. Qual é o nome dele? Castiel? — Assenti. — O que você está fazendo com aquele psicopata tatuado? Ele parece um rejeitado da Família Manson.

— Seja legal, Vik, ou eu vou embora.

—Não consigo acreditar como você mudou. Não consigo acreditar que você está sentada aqui, bem na minha frente.

Revirei os olhos.

— Desencana.

— Aí está ela — disse Viktor. — A garota de quem eu me lembro.

Baixei o olhar para o relógio de pulso.

— A luta do Castiel começa em vinte minutos. É melhor eu ir.

— Ainda temos a sobremesa.

— Não posso, Vik. Não quero que ele se preocupe, pensando se vou ou não vou aparecer. Isso é importante.

Ele deixou os ombros caírem.

— Eu sei. Sinto falta dos dias em que eu era importante.

Coloquei minha mão na dele.

— A gente era criança. Isso foi há uma vida.

— Quando a gente cresceu? Você estar aqui é um sinal, Ally. Achei que nunca mais te veria e você está aqui, sentada na minha frente. Fica comigo.

Balancei lentamente a cabeça em negativa, hesitante em magoar meu amigo mais antigo.

— Eu amo o Castiel, Vik.

A decepção dele obscureceu o largo sorriso que tinha no rosto.

— Então é melhor você ir.

Dei um beijo no rosto dele e saí voando do restaurante, pegando um táxi.

— Para onde? — perguntou o taxista.

— Para o Zero’s.

Ele se virou para trás, me olhando de cima a baixo.

— Tem certeza?

— Tenho! Vamos! — falei, jogando o dinheiro sobre o banco.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...