1. Spirit Fanfics >
  2. My Dying Flower >
  3. Medicine

História My Dying Flower - Capítulo 19


Escrita por: faithless_boy

Capítulo 19 - Medicine


Parecia ser mentira. As palavras apenas escorregaram para fora de sua boca após escaparem de seu coração. Ficara paralisado, encarando os olhos que estavam fixos em si, aguardando por uma resposta. Engoliu em seco. As mãos suavam frio e tremiam, os dedos não conseguiam se controlar, brincavam uns com os outros para tentar acalmar o coração dele.

— O- O que disse?

— Falei que estou interessado em você — respondeu brevemente, como se essas palavras não significassem nada. — Por isso, acho que devo me afastar. Não quero passar pela mesma situação duas vezes seguidas.

— M- Mas disseram que você estava apaixonado pela Shio-san — arregalou os olhos, surpreso. Desviou a atenção para o espelho do banheiro e encarou o próprio reflexo. Por que alguém se interessaria por ele, alguém tão desajustado e deprimente? Isogai transbordava tristeza e energia ruim. — Como isso aconteceu? Por que eu?

Ele balançou os ombros, tombou a cabeça para o lado com ar de indiferença e o encarou.

— Simplesmente aconteceu — fez uma pausa. — Por que não você?

— Eu não sou tão importante como Shio-san. E ela é tão bonita, tão inteligente.

— E sarcástica, debochada, desagradável e intimidadora. Enquanto isso, Isogai-kun é apenas tranquilizador, embora seja igualmente miserável. — Elian finalmente desviou a atenção para outro ponto, Yuuma ficou aliviado. — Deveria acreditar em mim. Te conheci quando já estava na merda e me interessei mesmo assim.

— Por ter sido neste momento ruim que eu me preocupo contigo, Daugherty-san — rebateu prontamente, pronunciando o sobrenome do mais velho com certa dificuldade. Elian sorriu por um instante. — Eu não estou em uma boa fase. Por que isso seria atraente para você?

Novamente balançou os ombros em desdém. Havia outros motivos para estar dizendo tais coisas estranhas, como, por exemplo, precisar despistar a Shio e escapar de seus olhares tortos, julgadores, repulsivos. Entretanto, não era completamente mentira: de fato desenvolvera um certo interesse por Isogai, as razões Elian não reconhecia, porém gostaria de manter-se preso a essa fixação do que ter de confrontar Kaira mais uma vez. O rapaz estava de acordo com seus padrões e o fazia sorrir minimamente, o que esteve fora de seu hábito por um longo período. Elian secretamente estava aliviado por outra pessoa o atrair.

Encontrava-se perturbado no momento. Daugherty não estava fazendo sentido algum, entrelaçou assuntos anormais neste breve encontro no banheiro. Soube através de outros funcionários — subordinados dos Shio como ele — que Elian Daugherty e Shio Kaira tinham uma relação turbulenta, pois o homem nutria sentimentos intensos por sua superior enquanto ela lhe tratava de acordo com seu cargo; um mero escravo trabalhador que lutava por uma posição mais prestigiada. No entanto, aqueles rumores pareciam estar errados, ou, quem sabe, contassem os detalhes de outra época na vida de Elian. Dias sombrios em que ele direcionava um olhar brilhante para sua superior com um sorriso alegre, porém estes dias estavam tão distantes quando olhava para trás, sequer compreendia como eles tornaram-se principal motivo para seus esforços para impressioná-la. Elian direcionava este mesmo olhar transbordando um brilho misterioso para seu subordinado agora, cujo continuava a mirá-lo, incrédulo, pelo reflexo no espelho. Achava adorável vê-lo tão confuso a respeito das histórias que ouvira e a incompatibilidade com o que acabara de escutar.

Isogai desviou olhar para a própria imagem à frente, tentou ver-se através dos olhos de Elian para entender o que poderia ter despertado tais sentimentos, porém, encarando a si mesmo, vira apenas a depressão marcada abaixo dos olhos, destacando sua exaustão. Relaxou a tensão dos músculos por um momento, questionando-se o que Maehara pensaria dele se o visse nesse estado deplorável. Sugeriu um sorriso antes de retornar o olhar para Elian, o qual fizera ele desmanchar a postura confiante. Aquela frieza aprofundava a escuridão em seus olhos. Elian arrepiou, já recebera este olhar mortiço antes: a morbidade arrastava-o para dentro das sombras, onde poderia, ele sabia, perder-se totalmente. Era tentador, devia admitir.

— Vai se afastar? — a voz que escapara por entre seus lábios era diferente, uma tonalidade mais suave do que a habitual; trêmula, chorosa. Sentiu uma dor no peito ao ouvi-la. — Se achar melhor, irei aceitar a decisão do senhor. Mas Daugherty-san é o único com quem estabeleço uma boa relação.

Elian balançou a cabeça em negação.

— Você ficaria muito solitário sem mim — estremeceu. Talvez devesse reconsiderar sua escolha. Isogai precisava ser supervisionado, de qualquer forma.

Um sorriso surgiu em sua expressão sombria, amenizando os pesos que foram repentinamente atirados em seus ombros. Seus olhos diziam silenciosamente o quão satisfeito ficou com essa resposta e, por um momento, acreditou ouvi-lo agradecer por tomar tal decisão. As palavras rondavam sua mente feito uma espiral e levava-o para longe da realidade enquanto Elian absorvia a situação; ele dissecava as informações e tentava compreendê-las como um todo, porém seu plano falhara miseravelmente pois sequer mantinha concentração em um único ponto.

Passeou pelos corredores direcionando seus pés para o escritório de Kaira, ele tomou uma postura arrogante e o brilho que nasceu em seus olhos havia apagado durante o caminho. Aproximou-se da porta e bateu na madeira levemente, emitindo três sons para anunciar sua entrada. Do outro lado da porta, encarou a mulher friamente.

— Então, qual é o plano?

— Tirar proveito de Shiota Nagisa e suas amigas. Podemos usá-las como isca para atrair o Serpente, dessa forma, atrairíamos Akabane Karma também. — Kaira suspirou e deitou sobre a mesa, as madeixas decaíram sobre o tampo e cobriram seu rosto. Ela resmungou alguma coisa ininteligível. — Quanto tempo até isso acabar...

— Sabe que tomará um grande tempo e esforço.

— Isso é insuportável — choramingou.

Elian balançou os ombros e os relaxou, rolou os olhos para janela atrás da mulher. Acumuladas em enormes manchas cinzas semelhantes à algodão, as nuvens guiavam-se para a região sul da cidade em direção ao horizonte, ocultando suas figuras por trás dos topos dos prédios que se reuniam naquela parte central da cidade. Se fechasse os olhos e ficasse alheio aos arredores, poderia sentir a brisa cortante beijando seu rosto ternamente como uma despedida breve e memorável, durante pleno dia em um aglomerado de desconhecidos. Aqueles rostos pareciam distorcidos e observavam-no contemplar o céu, silenciosamente julgando-o como louco. Em algum lugar além de seu alcance estava a resposta para seu problema. Entretanto, Elian não sabia qual era o verdadeiro problema e buscava pela resposta sem poder reconhecê-la.

Lascas de beleza passaram a ser atiradas do aglomerado de nuvens; gotas finais de chuva mais parecidas com lágrimas de estrelas distantes do que meras lascas, pedaços inalcançados de sonhos perdidos de crianças mortas — elas crescem um dia e perdem sua ingenuidade de forma brutal. Disseram que crescer era maravilhoso, mas a realidade era completamente diferente desse futuro que fora prometido. A naturalidade espacial decaía sobre a cidade, apagando mais sonhos e desejos impossíveis. Matavam mais crianças e as tornavam em zumbis.

— Como pretende atrair as amigas do Serpente, senhorita?

Seus olhos cintilaram em anseio e um sorriso desconcertante apareceu.

— Qual é o nome do cara que você encontrou esses tempos atrás? — Elian arregalou os olhos, fazendo-a aumentar o sorriso assustador. Antes de ele poder protestar, Kaira levantou e caminhou pela sala, ficou de frente para o homem tenso, cruzou os braços em deboche. — Isogai Yuuma-san será realmente muito útil.

Por impulso, deu um passo para frente.

— Não se atreva a causar problemas a ele!

Kaira fez uma careta.

— Está preocupado? — ela riu de sua expressão empalidecida. — O que foi, Daugherty? Algum problema?

Retomou a postura anterior e desviou o olhar. De repente estava apegado a um jovem que mal conhecia, prestes a enfrentar sua patroa apenas para protegê-lo de problemas piores. O que estava acontecendo com ele? Tinha planejado aproximar-se de Isogai apenas para despistar a Shio, porém este tempo desperdiçado ao redor do garoto acabara trazendo essas reações das quais Elian esteve tentando escapar, elas o adornavam a ponto de Daugherty não poder ser capaz de negar sua beleza; exterior e interior. Isogai era extraordinário sendo um outro qualquer dentre a multidão.

— Não o coloque em problemas, senhorita — pediu mais uma vez, rolando os olhos para a figura baixa que o encarava. O sorriso de Kaira vacilou por um momento. Ele respirou fundo. — Por favor.

Não havia motivos para dar tamanha importância a um subordinado qualquer como Isogai Yuuma. Ela ordenou que o encontrasse pois o rapaz poderia ajudar em seu dilema para cessar as intrigas entre os Akabane e os Shio, portanto, assim o fizera. O jovem Yuuma, no entanto, demonstrara um comportamento atípico; não deu sinais de anseio para a desejada vingança e sequer citou a razão para querer obter justiça, embora Elian já soubesse desta parte da história. Repensando em todas as interações com o garoto, notou que o mesmo nunca lhe disse o nome de seu ex-namorado. Yuuma prendeu-se ao passado e tentava constantemente ignorá-lo, mas nunca fazia alguma coisa para o esquecer. Seus olhos fúnebres diziam o quanto essas memórias eram importantes e igualmente dolorosas.

— Por que está tão incomodado? É apenas outro empregado qualquer. Logo ele morre em campo ou se mata no apartamento. Eu o colocar para trabalhar não alterará seu final. Isogai-san está destinado exclusivamente à morte. Ele escolheu isso. — Semicerrou os olhos raivosamente, aquele brilho ardente nos mesmos lembrava-o de labaredas e davam um contraste a sua aparência delicada. — A única pessoa que pode feri-lo é o próprio Isogai-san.

Ela estava certa, teve de admitir para si mesmo. Daugherty suspirou, despediu-se de sua patroa e retirou-se do escritório. Se Isogai decidiu seguir este caminho, Elian não poderia fazer mais nada além de apoiá-lo. Estava tudo bem para ele, já tinha se acostumado ao sentimento de perda. No entanto, não haveria medicamento para curar a dor que restaria após Yuuma partir.

 

*

 

Existia, no fundo de sua alma, este sentimento incandescente que aquecia cada parte de seu ser e levava-o para um lugar completamente diferente, dentro dos olhos violetas ele encontrou um mundo novo e, por lá, gostava de perder-se. Quando aquele lindo sorriso estava direcionado para si, não era capaz de evitar as batidas aceleradas de seu coração nem a curvatura inconsciente de seus lábios. Ela estendeu os braços após ter lhe dito a verdade por trás de seus atos cuidadosos e ofereceu um abraço carinhoso, Nakajima não conseguiu rejeitá-la e rapidamente a puxou de encontro ao seu peito. Sentiu a pele da menina enquanto os dedos da mesma passeavam seu pescoço para alcançar o cabelo dele, enroscaram-se nos fios gentilmente e acariciaram ali. Seus braços envolveram-na com tamanha destreza que sequer Makoto reconhecia, porém estava distraído demais com o calor exalando de seu rosto e o riso baixo de Kalliope para prestar atenção nos outros detalhes.

Tendo o rosto contra seu peito, ouviu-a sussurrar dentre um sorriso tímido:

— Eu esperei tanto por este momento. Estou feliz.

Fechou os olhos e permitiu-se fraquejar ante as palavras dela que o fizeram arrepiar. Ele também esperou por muito tempo para dizer o que sentia. Esperou ansiosamente escutar Kalliope falar que retribuía seus sentimentos.

— Eu também estou feliz — murmurou próximo do ouvido da menina. Kalliope riu.

— Gosto de você, Nakajima-senpai. Muito, muito mesmo.

Ele soltou o ar de seus pulmões, sentiu-se leve. E satisfeito.

Durante dias e noites esteve recriando essa cena em sua cabeça, imaginando qual seria o resultado de uma declaração. Não poderia ser capaz de imaginar isso; nada que pensou que sentiria poderia ser comparado ao que estava sentindo agora.

— EI, VOCÊS!  AFASTEM-SE! — Karma gritou à distância. O garoto rapidamente acatou à ordem do Akabane e soltou Kalliope, recuando de forma desajeitada. Olhou-o assustado. — SEM ABRAÇOS!

— Karma, é só um abraço — Nagisa riu.

— NADA DE ABRAÇOS! ELA É JOVEM DEMAIS PARA ISSO!

— Karma!

Kalliope sorriu para seu pai e balançou a cabeça em negação.

— Papai bobo.

Enquanto Nagisa e Kalliope tentavam discutir com o ruivo, Nakajima encolhia em suas roupas, desesperado. Karma estava furioso o suficiente para desejar estrangulá-lo.

 

— Acho desnecessário — resmungou de braços cruzados. Karma fez um beiço, o rosto estava vermelho. — Ela é minha princesinha, é nova demais para ter um namorado.

— M- Mas não estamos namorando, Akabane-sama. — O garoto tentou se explicar, acomodado do outro lado do balcão. Karma direcionou um olhar ameaçador a ele.

— Bom mesmo.

— Já tínhamos conversado sobre isso, Karma — o Shiota interveio. Espiou Kalliope na sala, sentada no sofá ao lado de Koro, cujo estava lhe explicando sobre uma questão matemática. Voltou a encarar o namorado. — Em algum momento ela irá voar para fora do ninho.

— Não precisa voar. Eu posso cuidar dela para sempre! — afirmou num tom desesperado. Ele ficara perturbado com a ideia, embora tivesse decidido anteriormente que permitiria a relação de Kalliope e Nakajima quando ambos estivessem prontos para assumi-la. Jogou o tronco para trás, apoiou o corpo no tampo da pia. — Desculpe, Makoto-kun. Apenas... Não estava pronto para esse dia. Pensei que levaria um tempo para acontecer.

— Akabane-sama, não estamos namorando... — Makoto resmungou. Usou a ponta do dedo para fazer desenhos invisíveis na superfície do balcão distraidamente. Ergueu o olhar cintilante para seu mentor e exibiu um sorriso pequeno. — Quero esperar para ter certeza de que é isso o que ambos querem. Não irei forçar Kalliope-chan a nada, eu a respeitarei do início ao fim, independente de qual seja nossa relação.

Karma devolveu o sorriso e suavizou a feição preocupada, relaxou a tensão dos músculos também. Olhou de relance para sua filha.

— Obrigado, Makoto-kun. Eu me orgulho de você.

Nakajima corou.

O Shiota sentiu o celular vibrar em seu bolso. No fim, descobriu que havia sinal naquela região. Pegou o aparelho e espiou para ver quem era. Tratava-se de Nakamura e Yukiko brigando com ele por não ter as respondido. Suspirou pesadamente e riu, nervoso. Adentrou o chat do grupo que criaram apenas para os três e leu as diversas ofensas que Nakamura direcionou a ele, Yukiko, felizmente, lhe deu uma bronca e tentou forçá-la a pedir desculpa por usar tal linguajar. Não deu certo.

 

Desculpem-me. Estava ocupado com a mudança.

 

E quanto ao seu namorado? Queremos saber dele!” Rio exigiu, complementando com vários emoticons para expor sua impaciência.

 

Nagisa, quando iremos conhecê-lo?” Yukiko indagou num tom mais gentil, como de costume.

 

Mirou Karma por um momento enquanto ele conversava com Nakajima sobre a gravidez de Junko. Não tinha certeza de como elas reagiriam se soubessem a verdade, então, com um peso no peito, forçou-se a mentir novamente.

 

Não sei ainda. Ele não está pronto. Estamos ocupados com a educação de sua filha.

 

Ele paralisou após pressionar o botão ‘enviar’. Nunca mencionou a existência de Kalliope.

 

ELE TEM UMA FILHA?” Elas digitaram juntas.

 

Como ela é?

 

A relação deles é boa?

 

Ela gostou de você?

 

 

Qual é o nome dela?

 

Quantos anos ela tem?

 

Nagisa deitou a cabeça no balcão. Karma e Nakajima o olharam com preocupação, logo os acalmou dizendo que não era nada demais. Eles retomaram a conversa.

 

Primeiramente, sim, ele tem uma filha e ela é adotada. Seu nome é Kalliope, ela tem treze anos e a relação dos dois é ótima. Ele é muito superprotetor, ainda mais agora que ela tem um pretendente. Kalliope é uma garota adorável, tanto na personalidade quanto na aparência, e tem uma voz linda. Ela gosta de cantar. E acho que nos damos muito bem.

 

Kalliope? Que nome diferente. Achei lindo.” Yukiko comentou. Enviou um emoticon sorrindo.

 

Eu sei. Fui pesquisar o significado, ironicamente significa ‘voz bonita’.

 

Achei injusto. Sabemos a idade dela, o nome, mas nada do seu namorado.” Rio rebateu, irritada. Sabia que estava fazendo uma cara muito engraçada agora. “Por que não nos diz nada sobre ele?

 

É complicado.

 

Por quê?

 

Respirou fundo e tentou organizar os pensamentos. Estava contra parede em um beco sem saída.

 

Prometam para mim que não vão surtar.

 

Elas demoraram para respondê-lo. Nagisa engoliu em seco, suas mãos tremiam e suavam frio. Olhou para Karma, o qual estava o encarando fazia um tempo e, entendeu através de um simples olhar, soube que ele já sabia o que estava acontecendo. Sugeriu um sorriso nervoso e Karma retribuiu para tentar acalmá-lo.

 

Nagisa, quem é seu namorado?” Kanzaki perguntou depois de um tempo. Nakamura manteve silêncio.

 

Me prometam.

 

Nós prometemos.” Responderam juntas.

 

Olhou para Karma novamente, aguardando o consentimento dele para revelar a verdade. Ele parecia incerto sobre o assunto, mas por fim assentiu em concordância. Nagisa ativou a câmera frontal e sentou ao lado do ruivo, Karma envolveu seu ombro com um braço, fez menção de esconder parte do rosto atrás de Nagisa, porém o menor afastou a cabeça.

— Tem certeza de que quer fazer isso? — indagou Karma. Ele cantarolou para afirmar. — Tudo bem.

Abraçou-o de lado e beijou seu rosto com os olhos fechados, Nagisa aproveitou o momento para tirar a foto. A imagem apareceu na tela, ambos sorriam. Temeroso, enviou a foto no chat para suas amigas verem. Escreveu na legenda: ‘Por favor, não fiquem bravas comigo.

Elas digitavam e apagavam.

 

Esse... É o Akabane-san?” Nakamura perguntou. “Ele está vivo?

 

Akabane-san está bem? Por que disseram que ele tinha morrido? Por que ele apareceu só agora?

 

— Devo dizer que perdeu a memória no acidente e seus pais tentaram esconder você?

— A verdade, príncipe — ele pediu.

 

Àquela noite, aconteceu um acidente na casa dele que resultou no incêndio. Os pais de Karma descobriram e mandaram uns empregados irem ajudá-lo. Como tinha uma outra pessoa dentro da casa que não puderam salvar a tempo, eles decidiram manter Karma escondido. Acharam que era melhor para a segurança dele e para não manchar o nome da família.

Eu o encontrei por acaso depois de uma viagem a trabalho, conversamos e... Bem, estamos juntos de novo. Desculpe por ter mentido para vocês. Fiquei com medo de como poderiam reagir.

 

Nenhuma mensagem durante alguns minutos. Nagisa ficou nervoso.

 

Ele está bem?” Nakamura perguntou e mandou um emoticon chorando. “Posso falar com ele? Karma-kun, você está bem? Eu fiquei tão mal depois daquilo. Não sei como... Não sei o que devo fazer. Está realmente tudo bem?

 

Nagisa passou o celular para o ruivo.

 

Estou, sim, Nakamura-san. Desculpe por ter a preocupado.

 

Ah, meu Deus. Eu nem sei como reagir. Estou tão feliz por estar vivo, Karma-kun!

 

Desculpe, é que saber que está vivo... Começamos a chorar. Nagisa ficou tão mal quando você sumiu, Karma-kun. É ótimo saber que está tudo bem!” Kanzaki respondeu.

 

Quando poderemos vê-los? Nagi-chan comentou da sua filha. Adoraríamos conhecê-la! E quero ver você. Preciso te bater por ter simplesmente sumido.

 

Os dois suspiraram, aliviados por ambas terem agido bem diante a informação.

 

Podemos ver a Kalliope-chan?

 

Karma fotografou a garota estudando no sofá, recortou Nakajima para não ter de identificá-lo e deixou Koro-sensei à mostra. Enviou para as mulheres e recebeu um bombardeio de elogios, diziam o quanto era fofa. Nagisa sorriu para o namorado enquanto o mesmo tentava ocultar a própria expressão de felicidade, deitou a cabeça em seu ombro e entrelaçou seus dedos. Estava feliz. Karma apoiou sua cabeça em Nagisa.

— Me sinto bem — ele sussurrou. — É ótimo saber que as duas estão bem.

— Elas pensam o mesmo. Nakamura ficava muito mal quando comentávamos sobre você.

— Espero não receber um soco como cumprimento.

Riram juntos. Sentiram-se aliviados depois dessa breve revelação.

 

Deitou na cama de bruços, fechou os olhos e esboçou um sorriso pequeno enquanto pressionava o travesseiro do Akabane contra seu rosto. Ouviu as batidas de seu coração, o ritmo acelerado transparecia sua felicidade tal como a vermelhidão nas bochechas de Nagisa, cuja ele estava tentando esconder do namorado. Marcou de encontrar suas amigas no fim de semana e as traria para seu novo lar; apresentaria ambas para Kalliope e poderia enfim sentir a consciência limpa. Sem mentiras, sem fugas inesperadas. Estava tudo bem, Karma o ajudaria a ficar bem novamente.

— Meu príncipe, — dissera o ruivo ao sair do banheiro, os fios vermelhos estavam colados na testa e exalava do corpo de Karma vapor. Ele ergueu os olhos para o Shiota — o que acha que devemos fazer a respeito de Kaito? Estou sem ideias e Ayumi está colocando pressão. Ela ficou preocupada com minha mãe.

Notara essa mudança repentina, Karma parou definitivamente de chamar Kaito de pai. Apenas Naomi tinha uma ligação verdadeira com ele, foi sua conclusão.

— Não sei exatamente o que está acontecendo entre vocês três, Karma. Você não me contou nada.

Ele piscou os olhos algumas vezes, então desviou o olhar para um ponto qualquer. Demorou um tempinho para retornar à atenção para Nagisa.

— Kaito mentiu para minha mãe. Casou-se com ela por algum motivo que pretendo descobrir futuramente, teve a mim, porém, ela me disse, Kaito amava outra pessoa. Lembra-se de eu ter visto coisas ruins no porão? Havia um homem lá. Este homem que Kaito sequestrou era Shio Atsushi-san, e Kaito o amava — fez uma pausa. — De acordo com minha mãe, ele o amava.

— Mas disseram que Kaito-san o matou.

— Ele matou.

— Por quê? — perguntou, horrorizado. — Se o amava, por que o matou?

Karma encarava-o, porém parecia estar distante. Havia um turbilhão de pensamentos buscando a resposta em sua mente. Ele soltou um suspiro breve. No fim ele sabia muito bem qual era o motivo para eu ter morrido. Karma considerou fazer o mesmo com Nagisa anos atrás, quando estava em sua pior recaída, mas ele não iria admitir isso. Não em voz alta.

— Ele deve ter pensado que, se o matasse, não precisaria se preocupar em entregá-lo para outra pessoa. Kaito deve ter acreditado que se Atsushi-san estivesse morto, significava que ele seria eternamente seu e apenas seu — encolheu os ombros e baixou a cabeça. — Porque acreditava amá-lo mais do que qualquer um.

— Karma, por que está usando este tom? — Nagisa estremeceu com o olhar penetrante direcionado a si. Sem brilho, sem vida, Karma continuava a encará-lo demorando para piscar. Respirou fundo e tentou manter a calma, pois sabia que, caso fosse interpretado errado, Karma poderia surtar. Encarou-o de volta. — Por que está usando esse tom, Karma?

— Nee, Na-gi-sa — ele mostrou um sorriso perturbador. Engoliu em seco, tentou manter controle para não tremular diante do Akabane. — Você me ama, não é?

— Acima de tudo, Karma.

— Isso é bom — murmurou para si mesmo e o sorriso se desfez. Ele fechou os olhos por um momento e, ao reabri-los, Karma recuperou o brilho neles; esbanjava vida. — Eu te amo, Nagisa!

— Eu sei, Karma... — Suspirou. Ele estava agindo daquele jeito novamente. — Por que usou um tom estranho?

Ele recolheu as mãos no peito e sentiu as batidas aceleradas do próprio coração: Karma não sabia se estavam naquela velocidade por medo ou por amor. Talvez estivesse beirando o abismo dentro de seu peito por ambos. Nagisa o proporcionava tantas coisas que ele sequer conseguia acompanhar. Fechou os olhos e virou o rosto para outro canto, refletia sobre as escolhas de Kaito e tentava entendê-las — já as entendia, na verdade. Apenas não queria admitir isto. Não queria aceitar que era tão louco quanto seu progenitor.

Imagens piscaram em sua mente, distorcidas de forma horripilante. As visualizou tantas vezes desde o momento em que perdera a noção do tempo; Karma fazia isso constantemente, tratava-se de um péssimo hábito que persistia em ressurgir quando estava prestes a superar seus problemas. Perdido na escuridão, ele recordou-se mais uma vez da sensação de estar nas profundezas esquecido entre brasas ardentes, sentia o calor alcançar a pele coberta enquanto os pulmões queimavam dolorosamente buscando por oxigênio. Tentou forçar-se a escapar deste inferno, porém quanto mais debatia, mais afundava. As imagens terríveis piscavam freneticamente e arrastavam-no para aquela versão da história, então Karma sentia o sangue escorrer pelo pulso antes de percorrer os vãos entre os dedos. Frouxou os mesmos e permitiu o objeto pesar e cair no piso de concreto, o baque da lâmina e da madeira o despertou do transe, assim ele pôde enxergar a figura avermelhada no chão diante de seus pés. Tal como uma antiga amiga fizera, o corpo espalhou seus lamentos ao redor de seu corpo e rastejaram-se rapidamente para tentar o alcançar. Karma demorou para reconhecer o crânio aberto; as madeixas azuis, no entanto, estavam gritantes tendo o vermelho-rubi como contraste. Era impossível não entender o que acabara de acontecer após retomar a capacidade de diferenciar cores. O vermelho misturava-se com a pele pálida feito porcelana e seu estômago embrulhava durante o processo. Baixou o olhar para suas mãos, o machado ao lado de seu pé ria das manchas de sangue presas em seu corpo e nas roupas. Karma esfregou o rosto para afastar essa cena cruel, porém apenas fazia o vermelho dominá-lo cada vez mais. Ele abriu a boca para gritar, sua voz não escapou por ela, somente as lágrimas de seus olhos.

Quantas vezes teria de ter este pesadelo e reviver os fatos na pele de Kaito? Ele já estava tão cansado desses sonhos ruins.

Nagisa o encarava com preocupação, o Akabane arranhava as bochechas e bagunçava o cabelo que, à esta altura, já tinha se tornado um emaranhado de fios, parecia um ninho. Aproximou-se do namorado e tocou-o no ombro. Karma lhe lançou um olhar espantado, ficara empalidecido ao vê-lo. Ele o encarava como se visse um fantasma.

— Ei, está tudo bem? — puxou-o para Karma ficar de frente consigo, os dedos afundaram nos braços do ruivo. — Karma, me responde!

— Me desculpe — Karma riu. — Me desculpe. Me desculpe, desculpa, desculpa, desculpa, desculpa! — começara a puxar o cabelo. — É só um sonho ruim, eu...

— Olhe para mim! — segurou o rosto do namorado, obrigando-o a manter a atenção em si. Suas palmas ficaram úmidas. Pequenas gotas pingaram em sua face. Nagisa engoliu em seco, o maior chorava. — Karma, por favor, fale comigo. O que aconteceu? Por que está chorando?

— É só um sonho ruim, só um pesadelo... ‘Tá tudo bem, não é? Você ‘tá aqui, não ‘tá?

— Sim, Karma. ‘Tá tudo bem. O que aconteceu?

— Eu nunca te machucaria, Nagisa — o abraçou. O Shiota sentiu seu ombro molhar conforme o outro chorava. Por um momento, retornaram à noite do incêndio quando Karma o encontrara no beco e o abraçou fortemente, desesperado. — Eu estou com tanto medo de te perder outra vez.

Eu matei várias pessoas, mas não consigo matar você, meu amado Nagisa.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...