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História My Rock Star ( Kim Taehyung ) V BTS - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


Agradecer sempre às minhas Babys Girls ~Kim_Soll, ~beyongk, ~hebiancao, ~Amandagoedert, ~army_burnit, ~MelhorKook💕

🖤 Boa Leitura 🖤

Capítulo 8 - Capítulo Oito


Fanfic / Fanfiction My Rock Star ( Kim Taehyung ) V BTS - Capítulo 8 - Capítulo Oito

Jackson ficou furioso com os hematomas no rosto de Taehyung. Tampouco pareceu contente em me ver novamente. Tive um breve vislumbre de dentes de tubarão antes que ele se apressasse para um canto do vestiário bem longe de mim. Os seguranças ficaram do lado de fora, permitindo a entrada apenas daqueles convidados no santuário interno.

O show era num salão de baile de um dos hotéis mais chiques da cidade. Muitos candelabros reluzentes e mesas com toalhas de seda vermelha tomadas por estrelas e pela gente bonita que as acompanhava. Ainda bem que eu usava um vestido azul, o único que cobria tudo remotamente, e um par de sapatos de salto altíssimos que Jaqueline encomendara. Kaetrin, a Garota do Biquíni, a antiga amiga de Taehyung, estava do outro lado da sala, com um vestido vermelho e uma carranca.

 Ela acabaria com rugas se continuasse assim. Felizmente, ela se cansou de fazer beicinho depois de um tempo, e se afastou. Não a culpava por estar brava. Se eu perdesse Taehyung, também ficaria furiosa.

Mulheres pairavam próximas a Taehyung, na esperança de chamar a atenção dele. O modo como ele as ignorou foi louvável. Não havia sinal de Jimin. JK estava sentado com uma asiática maravilhosa num joelho e uma loira peituda no outro, ocupado demais para conversar comigo. Eu ainda não conhecera o quarto membro da banda, Jin.

– Ei – disse Tae, trocando minha taça intocada de Cristal por uma garrafa de água – Pensei que você preferiria isto. Está tudo bem?

– Obrigada. Sim. Está tudo bem.

Que homem maravilhoso, ele bem sabia que eu ainda não tinha me recuperado por completo do episódio de Vegas para me arriscar a beber alguma coisa alcoólica. Ele assentiu e colocou a taça de champanhe na bandeja de um garçom que passava. Depois, tirou a jaqueta de couro. Outras pessoas podiam vestir um smoking, mas Taehyung era fiel aos seus jeans e botas. Sua única concessão para a ocasião foi vestir uma camisa social preta.

– Faça-me um favor e vista isto.

– Não gosta do meu vestido?

– Claro que sim. Mas o ar-condicionado está um pouco forte aqui – disse ele, passando a jaqueta ao redor dos meus ombros.

– Não está, não.

Ele me lançou um sorriso maroto que teria derretido o mais duro dos corações. O meu não tinha a mínima chance de sobreviver. Com um braço em cada lado da minha cabeça, ele se inclinou, bloqueando a vista de tudo e de todos.

– Acredite em mim, você está achando o ar um pouco frio. – O olhar dele caiu para os meus seios e eu entendi o que ele dizia. 

O vestido era feito de um tecido fino, leve. Lindo, mas nem um pouco sutil de certa forma. E, evidentemente, o meu sutiã não estava ajudando em nada.

– Puxa.

– Hum. E lá estou eu, tentando tratar de negócios com Jackson, mas sem sucesso. Estou absolutamente distraído porque amo o seu equipamento.

– Excelente. – Passei o braço sobre o peito da mais sutil das maneiras.

– Eles são lindos e preenchem minhas mãos do jeito certo. É como se tivéssemos sido feitos um para o outro, sabe?

– Tae… – Sorri como a tola excitada que era.

– Às vezes, vejo esse quase sorriso nos seus lábios. E fico imaginando o que você está pensando, parada aqui, observando tudo.

– Nada em especial, só absorvendo tudo. Ansiosa para vê-lo no palco.

– Está?

– Claro que estou. Mal posso esperar.

Ele me beijou de leve nos lábios.

– Depois que isso acabar, vamos dar o fora daqui, está bem? Vamos para algum lugar, só você e eu. Podemos fazer o que você bem entender. Sair de carro e ir comer alguma coisa, quem sabe.

– Só nós dois?

– Isso mesmo. Fazer o que você quiser.

– Ótima ideia.

O olhar dele derrapou no meu peito.

– Você ainda está com um pouco de frio. Eu poderia aquecê-la. Qual a sua opinião quanto a eu aquecê-la com as mãos em público?

– É não. – Virei o rosto para tomar um gole de água. 

Mesmo que o ar estivesse ártico, eu precisava me refrescar.

– É, foi o que pensei. Venha. Peitos grandes trazem grandes responsabilidades. – Ele me pegou pela mão e me conduziu em meio a uma pequena multidão enquanto eu ria. 

Ele não parou para falar com ninguém.

Havia uma pequena sala contígua nos fundos com uma arara de roupas e maquiagem espalhada. Espelhos nas paredes, um grande buquê de flores e um sofá muito bem ocupado. Jimin estava sentado, vestido com mais um dos ternos elegantes, pernas esticadas e uma mulher ajoelhada entre elas. O rosto dela estava no colo dele, a cabeça subindo e descendo. 

Nenhum prêmio para quem adivinhasse o que eles estavam fazendo. O vestido vermelho me indicou a identidade dela, embora eu pudesse viver uma vida longa e feliz sem saber disso. Os cabelos escuros longos de Kaetrin estavam amarrados ao pulso de Jimin. Na outra mão, ele trazia uma garrafa de uísque. 

Duas carreiras de um pó branco estavam sobre uma mesinha lateral junto de um canudinho de prata. Puxa vida. Então era assim o estilo de vida rock and roll. Subitamente, minhas palmas ficaram úmidas. Mas Taehyung não estava metido nisso. Ele não era assim. Eu sabia disso.

– Ev – disse Jimin numa voz rouca, lenta, um sorriso preguiçoso se espalhando em seu rosto –Você está linda, querida.

Fechei a boca.

– Vamos. – As mãos de Taehyung me seguraram pelos ombros, afastando-me daquela cena. 

Ele estava pálido, a boca numa linha firme.

– O quê, não vai cumprimentar Kaetrin, Tae? Que dureza. Pensei que vocês fossem bons amigos.

– Vá à merda, Jimin.

Atrás de nós, Jimin gemeu longamente conforme o espetáculo no sofá chegava à sua óbvia conclusão. Meu marido bateu a porta com força. A festa continuava, a música ecoando nos alto-falantes, taças brindando e muita conversa alta. Tínhamos saído de lá, mas Taehyung fitava ao longe, alheio a tudo, ao que tudo levava a crer. O rosto dele estava marcado de tensão.

– Taehyung?

– Cinco minutos – berrou Jackson, batendo palmas bem no alto – Hora do espetáculo. Vamos em frente.

As pálpebras de Taehyung piscaram rapidamente como se ele estivesse despertando de um sonho ruim.

A atmosfera da sala subitamente pareceu carregada de eletricidade. A multidão aclamou e Jimin cambaleou para ali com Kaetrin a reboque. Mais palmas e gritos de encorajamento para que a banda subisse ao palco, além das risadas de quem sabia o que Jimin e a garota estiveram fazendo.

– Vamos lá! – gritou Jimin, cumprimentando as pessoas com apertos de mãos e tapinhas nas costas, conforme atravessava a sala – Vamos, Tae.

Os ombros do meu marido se ergueram.

– Jaqueline.

A mulher se aproximou, o rosto escondido numa máscara atenta.

– O que posso fazer por você?

– Cuide de Ev enquanto eu estiver no palco.

– Claro.

– Olha só, tenho que ir, mas volto logo – disse ele para mim.

– Claro. Vai lá.

Com um último beijo em minha testa, ele seguiu, os ombros tensos de modo protetor. Senti um impulso louco de segui-lo. De detê-lo. De fazer algo. JK se juntou a ele perto da porta e passou um braço ao redor do seu pescoço. Taehyung não olhou para trás. Grande parte das pessoas o seguiu. Fiquei sozinha, observando o êxodo.

 Ele tinha razão, a sala estava fria. Apertei sua jaqueta ao meu redor, permitindo que sua fragrância me acalmasse. Tudo estava bem. Se eu continuasse a repetir, cedo ou tarde, isso se tornaria verdade. Mesmo as partes que eu não entendia dariam certo. Eu tinha que ter fé. E, maldição, eu tinha. Mas há muito meu sorriso desaparecera.

Jaqueline me observava, sua expressão imaculada inalterada. Depois de um instante, seus lábios rubros se abriram.

– Faz muito tempo que conheço Taehyung.

– Que bom – disse eu, recusando-me a me acovardar ante seu olhar gélido.

– Sim. Ele é talentoso e determinado demais. Isso o torna intenso em relação às coisas, apaixonado.

Eu nada disse.

– Às vezes, ele se deixa levar. Não quer dizer nada. – Jaqueline olhou para a minha aliança. 

Com um movimento elegante, ela ajeitou os cabelos atrás da orelha. Acima de um lindo brinco de rubis, havia um único diamante pequeno, cintilante. Não passava de um pedrisco, um que não parecia combinar com os gostos refinados de Jaqueline. 

– Quando quiser, posso mostrar onde ficar para assistir ao show.

A sensação de espiral que se iniciara quando Taehyung se afastou de mim ficou mais forte. Ao meu lado, Jaqueline aguardava com paciência, sem dizer nada e, só por isso, me senti grata. Ela já dissera coisas demais. Apenas um brinco de rubis pendia na outra orelha. A paranoia não era nada bela. Será que aquele brinco era o par do diamante de Taehyung? Não. Isso não fazia sentido.

Muitas pessoas usavam brinco solitário de diamante. Mesmo os milionários.

Deixei minha água de lado, forçando um sorriso.

– Vamos?

                               ♪ ♪ ♪

Assistir ao show foi algo fantástico. Jaqueline me levou para uma das laterais do palco, atrás das cortinas, mas a sensação era de que eu estava no meio de tudo aquilo. E tudo aquilo era bem alto e excitante. A música reverberava no meu peito, fazendo meu coração acelerar. A música foi uma ótima distração das minhas preocupações a respeito do brinco. 

Taehyung e eu precisávamos conversar.

Eu estivera mais do que disposta a esperar que ele se sentisse bem para contar coisas, mas minhas perguntas estavam saindo do controle. Eu não queria ficar duvidando dele desse jeito. Precisávamos de honestidade.

Com uma guitarra nas mãos, Taehyung era um deus. Não era de admirar que as pessoas o idolatrassem. As mãos se moviam sobre as cordas do instrumento com absoluta precisão, com total concentração. Os músculos dos braços se contraíam fazendo com que as tatuagens ganhassem vida.

Fiquei parada em total admiração, de boca aberta. Havia outras pessoas no palco, mas Taehyung me mantinha cativa. Eu só conhecia sua parte particular, quem ele era quando estava comigo. Aquilo parecia ser quase outra entidade. Um desconhecido. Meu marido cedera seu lugar para o músico.

Para a estrela do rock. Isso era algo de fato atemorizador. Mas, naquele instante, a paixão dele fez todo o sentido para mim. Seu talento era um verdadeiro dom. Tocaram cinco canções, depois foi anunciada a entrada de outro artista famoso. Os quatro membros da banda saíram do palco pelo outro lado. Jaqueline tinha desaparecido. Era difícil ficar chateada com isso, apesar de o caminho até os vestiários ser um labirinto. A mulher era um monstro. 

Eu estava bem melhor sem ela.

Encontrei o caminho sozinha, dando passos pequenos e delicados por causa dos sapatos estúpidos que estavam me matando. Bolhas já se formavam em meus dedos onde a tira fina machucava minha pele. Não importava, minha felicidade não seria maculada. A lembrança da música ainda estava comigo. O modo como Taehyung parecia abstraído pela sua execução, tanto excitada quanto desconhecida. Quanta emoção.

Sorri e praguejei, baixinho, ignorando meus pobres pezinhos e abrindo caminho em meio a uma mistura de fãs, de técnicos de som, maquiadores e pessoas que não tinham nenhuma atribuiçãoe specífica.

– Noiva criança. – JK estalou um beijo em minha bochecha. – Vou para uma boate. Vocês também vêm ou vão voltar para o ninho de amor?

– Não sei. Só preciso encontrar Taehyung. A propósito, o show foi maravilhoso. Vocês foram incríveis.

– Que bom que gostou. Mas não conte a Taehyung que fui eu quem carregou o show. Ele é muito melindroso com esse tipo de coisa.

– Meus lábios são um túmulo.

Ele gargalhou.

– Ele está muito melhor com você, sabia? Tipos artísticos têm o mau hábito de desaparecerem em seus egos. Ele sorriu mais nestes poucos dias com você do que o vi sorrindo nos últimos cinco anos. Você faz bem a ele.

– Acha mesmo?

JK sorriu.

– Acho. Diga a ele que vamos para o Charlotte’s. Até mais, talvez.

– Ok.

JK se afastou e segui o caminho até o vestiário, em meio à multidão ainda maior do que antes. Dentro do camarim, porém, estava mais tranquilo. Jimin e Jackson estavam num canto, entretidos numa conversa enquanto eu passava. Eu não iria parar ali de jeito nenhum. Sam e outro segurança acenaram quando passei.

A porta para a saleta dos fundos onde Jimin estivera ocupado antes estava parcialmente aberta. A voz de Taehyung me alcançou. Bem nítida, apesar do barulho de fora. Era como se eu estivesse em sintonia com ele em algum nível cósmico. Assustador, mas também excitante. Eu nem conseguia esperar até que pudéssemos sair dali para fazer qualquer coisa. Encontrar JK ou sair da cidade. Eu não me importava, desde que estivéssemos juntos.

Eu só queria estar com ele.

O som alto da voz de Jaqueline vindo do mesmo cômodo diminuiu minha felicidade.

– Não – disse alguém de trás de mim, fazendo-me parar na porta.

Virei-me e vi o quarto membro da banda: Jin. Eu agora me lembrava dele de um show que Janis me fizera ficar assistindo na TV há alguns anos. Ele era o baixista e fazia Sam, o guarda-costas, parecer um gatinho fofinho. Cabelos escuros curtos e pescoço de touro. 

Atraente de maneira estranha, como um assassino serial. Ainda que isso talvez se devesse apenas ao modo como ele olhava para mim, com olhos azuis de lentes sérios, e o maxilar rijo. Outro sob a influência de drogas, talvez. Para mim, ele só parecia mau.

– Deixe-os resolverem as coisas – disse ele num tom baixo. O olhar dele disparou para a porta parcialmente aberta – Você não sabe como eles eram quando estavam juntos.

– O quê? – Recuei um pouco e ele notou, dando um passo para o lado para se aproximar da porta.

Tentando me manobrar para longe.

Jin apenas olhou para mim, o braço grosso barrando o caminho.

– Mal disse que você é legal e tenho certeza de que é. Mas ela é minha irmã. Taehyung e ela sempre foram loucos um pelo outro, desde que éramos jovens.

– Não estou entendendo. – Retraí-me, a cabeça balançando.

– Sei disso.

– Saia da frente, Jin.

– Desculpe. Não posso fazer isso.

A verdade era que ele não precisava. Sustentei seu olhar, certificando-me de ter toda a sua atenção. Em seguida, equilibrei meu peso num dos saltos assassinos e usei o outro para abrir a porta.

Visto que ela não estivera de fato fechada, oscilou para dentro com facilidade.

Taehyung estava de pé com as costas parcialmente viradas para nós. As mãos de Jaqueline estavam em seus cabelos, segurando-o junto dela. As bocas estavam unidas. Era um beijo firme, rude. Ou, quem sabe, não era assim que parecia para quem estava do lado de fora.

Não senti nada. Ver aquilo deveria ser algo importante, mas não foi. Apenas me diminuiu e fez com que me trancasse dentro de mim. Pareceu, senão outra coisa, como se aquilo fosse inevitável. As peças estiveram todas ali. Fui tão idiota, tentando não enxergar aquilo. Pensando que tudo terminaria bem.

Um barulho escapou da minha garganta e Taehyung se afastou dela. Olhou por sobre o ombro para mim.

– Ev – disse ele, com o rosto contraído e os olhos brilhantes.

Meu coração deve ter desistido. O sangue não fluía. Que estranho. Minhas mãos e meus pés estavam gelados. Balancei a cabeça. Eu não tinha nada. Dei um passo para trás e ele esticou a mão na minha direção.

– Não – disse ele.

– Taehyung – Jaqueline lhe lançou um sorriso perigoso. 

Não havia outra palavra para descrevê-lo. A mão dela afagou seu braço como se fosse fincar as unhas nele a qualquer instante. Acho que até poderia.

Taehyung veio na minha direção. Recuei diversos passos, cambaleando nos saltos. Ele parou e me encarou como se fosse um estranho.

– Gatinha, isso não foi nada – disse ele. Esticou a mão na minha direção de novo.

Abracei meu corpo com força, protegendo-me do perigo. Tarde demais.

– Era ela? Ela é a sua namoradinha de adolescência?

O conhecido músculo no maxilar se mostrou.

– Isso faz muito tempo. Não é importante.

– Jesus, Taehyung.

– Não tem nada a ver com a gente.

Quanto mais ele falava, mais gelada eu me sentia. Fiz o que pude para ignorar Jaqueline e Jin aguardando nas imediações.

Taehyung praguejou.

– Venha, vamos sair daqui.

Balancei a cabeça devagar. Ele agarrou meu braço, impedindo-me de retroceder ainda mais.

– Que porra você está fazendo, Evelyn?

– O que você está fazendo, Taehyung? O que foi que fez?

– Nada – disse ele entredentes. – Não fiz porra nenhuma. Você disse que confiava em mim.

– Por que vocês dois ainda usam os brincos se não é nada?

A mão voou para a orelha, cobrindo o maldito objeto.

– Não é nada disso.

– Por que ela ainda trabalha para você?

– Você disse que confiava em mim – repetiu ele.

– Por que manter a casa em Monterey por todos esses anos?

– Não – disse ele e depois parou.

Fiquei olhando para ele, incrédula.

– Não? Só isso? Isso não basta. Não era para eu ter visto isso? Ou só fazer de conta que não vi?

– Você não entende.

– Então, explique para mim – implorei. Seus olhos me atravessaram. Eu bem que podia ficar sem dizer nada. Minhas perguntas não eram respondidas – Você não consegue, não é?

Dei mais um passo para trás e seu rosto endureceu, tomado pela fúria. Os punhos ficaram cerrados ao longo do corpo.

– Não ouse me deixar. Você prometeu!

Eu não o conhecia. Encarei-o, paralisada, permitindo que a raiva dele me assolasse. Ela não tinha chances de vencer minha dor. Nem um pouco.

– Se sair daqui, acabou. Não ouse voltar.

– Tudo bem.

– Estou falando sério. Você não vai significar nada para mim.

Atrás de Taehyung, a boca de Jin se abriu, mas nada foi dito. Melhor assim. Até mesmo o torpor tinha seus limites.

– Evelyn! – Taehyung grunhiu.

Tirei os malditos sapatos dos pés e fiz minha saída triunfal descalça. Melhor ficar confortável. Normalmente, eu jamais usaria saltos como aqueles. Não havia nada de errado em ser normal. Eu  estava mais do que atrasada para uma bela dose de normalidade. Eu me envolveria nela como se fosse algodão macio, protegendo-me de tudo. 

Eu tinha o trabalho no café para voltar, a faculdade logo recomeçaria. Eu tinha uma vida à minha espera. Uma porta bateu atrás de mim. Alguma coisa bateu nela pelo lado de dentro. O som de gritos foi abafado.

Do outro lado do camarim, Jimin e Jackson ainda conversavam. Isto é, Jackson falava e Jimin fitava o teto, com um sorriso de lunático estampado. Duvido que a aparição de um foguete passasse percebida a Jimin, de tão louco que ele estava.

– Com licença – disse eu, intrometendo-me.

Jackson se virou e franziu o cenho, os dentes luminosos fazendo sua aparição somente um instante depois.

– Evelyn, meu bem, estou no meio de…

– Eu gostaria de voltar para Portland agora.

– Gostaria? Ok. – Ele esfregou as mãos. Ah, eu o deixara contente. 

Seu sorriso foi imenso e brilhante; genuíno, para variar. Faróis de carro perdiam para ele, que, ao que tudo levava a crer, estivera se contendo previamente.

 – Sam! – berrou.

O segurança apareceu, surgindo em meio ao povo com certa facilidade.

– Senhora Kim.

– Senhorita Thomas – Jackson o corrigiu – Você se importaria de levá-la em segurança para casa, Sam? Obrigado.

A expressão profissional educada não titubeou sequer um segundo.

– Sim, senhor. Claro.

– Excelente.

Jimin começou a rir, gargalhadas que faziam o corpo tremer. Depois passou a quase cacarejar, o barulho vagamente semelhante ao da Bruxa Má do Oeste no Mágico de Oz. Isso se ela estivesse sob efeitos de crack ou de cocaína ou o que quer que Jimin tivesse consumido, claro.

Aquelas pessoas não faziam nenhum sentido.

Eu não me encaixava ali. Nunca me encaixei.

– Por aqui. – Sam pressionou uma mão em minhas costas, o que bastou para que eu me mexesse.

Hora de ir para casa, acordar daquele sonho bom demais para ser verdade que se transformara num maldito pesadelo.

O riso aumentou cada vez mais, ecoando em meus ouvidos, até subitamente desaparecer. Virei a tempo de ver Jimin desabando no chão, seu terno caro um desastre. Uma mulher arfou. Outra riu e revirou os olhos.

– Pelo amor de Deus! – resmungou Jackson, ajoelhando-se ante o homem inconsciente. Deu um tapa em seu rosto – Jimin. Jimin!

Mais seguranças parrudos apareceram, circundando o cantor desmaiado, bloqueando-o de vista.

– De novo, não! – ralhou Jackson – Chamem um médico. Maldição, Jimin!

– Senhora Kim? – chamou Sam.

– Ele está bem?

Sam franziu o cenho ante a cena.

– Ele só deve ter desmaiado. Isso vem acontecendo bastante. Vamos?

– Tire-me daqui, Sam. Por favor.

                               ♪ ♪ ♪

Cheguei a Portland antes do nascer do sol. Não chorei durante a viagem. Era como se meu cérebro tivesse diagnosticado uma emergência e cauterizado minhas emoções. Senti-me entorpecida, como se Sam pudesse entrar na contramão e eu não fosse dizer nada para impedi-lo. 

Eu estava acabada, imobilizada. Antes de irmos até o aeroporto, passamos pela mansão para que eu pegasse minhas coisas. Ele me colocou no jatinho e voamos até Portland. Ele me fez descer da aeronave e me levou de carro para casa.

Sam insistiu em carregar minha mala, assim como insistiu em me chamar pelo meu sobrenome de casada. O homem conseguia lançar o mais sutil dos olhares de esguelha. Não disse muita coisa, motivo pelo qual lhe fui muito grata.

Carreguei minha carcaça escada acima até o apartamento que dividia com Janis. Meu lar tinha cheiro de alho, cortesia da senhora Lucia do andar de baixo, que estava sempre cozinhando. Papel de parede verde descascado e tábuas de madeira gastas, manchadas e arranhadas. Ainda bem que calcei os tênis ou meus pés acabariam cheios de farpas. Aquele piso em nada se parecia com o reluzente da casa de Taehyung. Era possível ver seu reflexo nele. 

Droga. Eu não queria pensar nele. Todas aquelas lembranças pertenciam a uma caixinha no fundo da minha mente. Nunca mais elas veriam a luz do dia.

Minha chave ainda se encaixava na fechadura. Era como se eu estivesse ausente há anos e não dias. E nem fazia uma semana. Eu saíra na quinta-feira cedo e agora era terça. Menos do que meros seis dias. Aquilo era insano. Tudo parecia diferente. Abri a porta, sem fazer barulho porque ainda era muito cedo. Janis poderia estar dormindo. Ou talvez nem estivesse em casa. Ouvi risadas.

Ela poderia, na verdade, estar deitada na mesa da cozinha, rindo porque algum cara estava com  acabeça escondida dentro de uma das camisetas enormes que ela usava como camisola. Ele tinha o rosto enterrado no decote dela e fazia cócegas. Janis se contorceu, emitindo toda sorte de ruídos de contentamento. Eles estavam tão envolvidos naquilo que nem perceberam a nossa entrada.

Sam desviou o olhar para a parede, evitando a cena. Pobre cara, as coisas que ele deve ter testemunhado ao longo dos anos…

– Olá – disse eu – Janis?

Janis gritou e rolou, acidentalmente retorcendo o cara em sua camiseta enquanto tentava se desvencilhar. Se o matasse sem querer, pelo menos ele morreria feliz, considerando-se a vista.

– Ev – ela arfou – Você voltou.

O cara finalmente libertou o rosto.

– Nathan? – perguntei, atordoada. Inclinei a cabeça só para ter certeza, estreitando o olhar.

– Oi. – Meu irmão levantou uma mão enquanto abaixava a camiseta de Janis com a outra. – Tudo bom com você?

– Tudo – assenti – Sam, estes são a minha amiga Janis e o meu irmão Nate. Gente, este é o Sam.

Sam acenou com educação e apoiou minha mala no chão.

– Posso fazer mais alguma coisa, senhora Kim?

– Não, Sam. Obrigada por me acompanhar até em casa.

– De nada. – Ele olhou para a porta, depois de novo para mim, com uma ruguinha entre as sobrancelhas.

 Eu não tinha certeza, mas achei que isso era o que mais se aproximava a um ar preocupado para ele. Suas expressões faciais pareciam limitadas. Contidas era provavelmente a palavra mais adequada. Ele esticou a mão e me deu um tapinha duro nas costas. Depois foi embora, fechando a porta atrás de si.

Meus olhos arderam com a ameaça de lágrimas. Pisquei como uma louca, contendo-as. A gentileza dele quase rompeu meu torpor, maldição. Eu ainda não podia me dar a esse luxo.

– Então, vocês dois…? – perguntei.

– Estamos juntos – confirmou Janis, levando a mão às costas. Nate a pegou e segurou com firmeza.

Eles ficavam bem juntos. Apesar de que eu me perguntava como mais a situação poderia ficar estranha. Meu mundo mudara. Eu me sentia diferente, ainda que o pequeno apartamento estivesse igual. As coisas estavam basicamente onde eu as deixara. A coleção maluca de gatos de porcelana de Janis ainda estava na prateleira juntando poeira. 

Nossa mobília barata, ou de segunda mão, e as paredes azuis-turquesa não mudaram. Embora eu talvez nunca mais usasse aquela mesa, considerando-se o que testemunhara. Só Deus sabia o que mais acontecera ali.

Flexionei os dedos, obrigando meus membros a voltarem à vida.

– Pensei que vocês se odiassem.

– E odiávamos – confirmou Janis – Mas, sabe como é… agora não nos odiamos mais. Na verdade, é uma história surpreendentemente simples. Meio que aconteceu enquanto você esteve fora.

– Puxa.

– Belo vestido – disse Janis, admirando-me.

– Obrigada.

– Valentino?

Alisei o tecido macio sobre meu abdômen.

– Não sei.

– Ficou bem marcante com esse par de tênis – disse Janis antes de lançar um olhar para Nate.

 Ao que tudo levava a crer, eles já estavam na fase da comunicação silenciosa, porque ele saiu de fininho para o quarto dela. Interessante…Minha melhor amiga e meu irmão. E ela não disse nada. Mas, pensando bem, havia muitas coisas que eu também não tinha contado para ela. Talvez tivéssemos ultrapassado a idade de partilhar cada detalhezinho das nossas vidas. 

Que triste.

A solidão e uma dose saudável de autopiedade me gelaram de súbito e eu passei os braços ao redor do corpo.

Janis se aproximou e soltou uma das minhas mãos.

– Querida, o que aconteceu?

Balancei a cabeça, afastando qualquer tipo de pergunta.

– Não posso falar. Ainda não.

Ela se juntou a mim, encostando-se na parede.

– Eu tenho sorvete.

– Que sabor?

– Chocolate triplo. Pensei em torturar seu irmão com ele mais tarde, de uma maneira explicitamente sexual.

E lá se foi meu vago interesse pelo chocolate. Esfreguei o rosto com as mãos.

– Janis, se você me ama, nunca mais diga esse tipo de coisa para mim.

– Desculpe.

Eu quase sorri. Minha boca chegou bem perto disso, mas, no fim, falseou.

– Nate te faz feliz?

– Faz. Parece, sei lá… parece que a gente está em sintonia um com o outro ou algo assim. Desde a noite em que ele foi me buscar na casa dos seus pais temos ficado juntos. Parece certo. Ele não é mais todo irritado como na época da escola. Ele também deixou de ser um galinha. Ele se acalmou e amadureceu. Caramba, de nós dois ele parece ser o mais ajuizado. – Ela fez um beiço fingido. – Mas os nossos dias de contar cada coisinha uma para a outra chegaram ao fim, não?

– Acho que sim.

– Ah, tudo bem. Sempre teremos o Ensino Médio.

– É. – Consegui sorrir.

– Ah, meu bem, sinto muito que as coisas não tenham dado certo. Quero dizer, isso está na cara já que voltou e está um terror mesmo nesse vestido maravilhoso. – Ela fitou meu vestido com grande interesse.

– Pode ficar com ele. – Inferno, ela podia ficar com todo o resto também.

 Eu nunca mais queria tocar em nada daquilo de novo. A jaqueta dele eu entreguei para Sam com o anel dentro do bolso. Sam faria com que chegasse às mãos dele. Minha mão parecia nua sem ele, mais leve. Mais leve e mais livre deveriam andar de mãos dadas, mas não. Dentro de mim existia um peso enorme. 

Já fazia horas que eu vinha arrastando meu pobre traseiro por aí. Entrando no avião. Saindo do avião. Entrando no carro. Subindo as escadas. Nem o tempo nem a distância ajudaram até o momento.

– Quero te abraçar, mas você está emanando aquela vibração “fique longe de mim” – disse ela, colocando as mãos nos quadris – Diga o que devo fazer.

– Desculpe. – O sorriso que lancei para ela saiu torto e horrível. Dava para eu saber. – Mais tarde?

– Quanto mais tarde? Porque, sejamos francas, você parece estar precisando muito de um abraço.

Dessa vez, não consegui conter as lágrimas. Elas simplesmente começaram a jorrar, e depois que começaram, não consegui detê-las. Tentei enxugá-las, mas acabei desistindo e cobri o rosto com as mãos.

– Droga.

Janis passou os braços ao meu redor.

– Pode chorar.

E foi o que fiz.

                                  ♪ ♪ ♪

VINTE E OITO DIAS DEPOIS...

A mulher estava levando uma eternidade para fazer seu pedido. Os olhos passavam do cardápio para mim, enquanto se recostava no balcão. Eu conhecia aquele olhar. Odiava aquele olhar. Eu adorava ficar no café, com o aroma dos grãos de café e a suave mistura de música e de conversas.

Amava a camaradagem que tínhamos atrás do balcão e o fato de que o trabalho mantinha tanto minhas mãos quanto minha mente ocupadas. Por mais estranho que pudesse parecer, ser barista me relaxava. Era boa nisso. E por causa dos esforços em que tinha que dedicar aos estudos, isso era um conforto.

Se tudo um dia acabasse num beco sem saída, sempre teria o café para me apoiar. Era o equivalente moderno em Portland da datilografia. A cidade vivia à base de grãos de café e do café. Café e cerveja estavam no nosso sangue.

Mais recentemente, porém, alguns fregueses vinham se mostrando um pé no saco.

– Você me parece familiar – começou ela, como a maioria – Você não apareceu na internet um tempinho atrás? Alguma coisa a ver com Kim Taehyung?

Pelo menos já não me retraía ante o nome dele. E já fazia alguns dias que não sentia ânsias. Não, eu não estava grávida, apenas teria meu casamento anulado.

Depois dos primeiros dias me escondendo na cama, chorando até não poder mais, assumi todos os turnos disponíveis no café para me manter ocupada. Eu não poderia ficar de luto por ele para sempre. Pena que meu coração continuava sem se convencer. Ele aparecia em meus sonhos todas as noites quando eu fechava os olhos. Tinha que afastá-lo da minha mente umas mil vezes durante o dia.

Quando voltei a circular, os poucos paparazzi restantes tinham voltado a L.A. Ao que tudo levava a crer, Jimin fora internado em uma clínica de reabilitação. Janis mudava de canal toda vez que eu chegava, mas eu sempre captava partes das notícias, o suficiente para entender o que estava se passando. Parecia que o Stage Bangtan era comentado em todos os lugares.

 Uma pessoa até me pedira para autografar uma foto de Taehyung entrando na clínica, com a cabeça pendente e as mãos enfiadas nos bolsos. Ele me pareceu tão só. Diversas vezes, quase telefonei para ele. Só para perguntar se ele estava bem. Só para ouvir sua voz. Dava para ser mais idiota? E se eu telefonasse e Jaqueline atendesse?

De toda forma, a crise de Jimin era muito mais interessante do que eu. Eu mal merecia uma menção no noticiário hoje em dia.

Mas as pessoas, os fregueses, me enlouqueciam. Fora do trabalho, praticamente me tornei uma ostra. Isso tinha a ver com o fato de que o meu irmão basicamente estava morando com a gente. Pessoas apaixonadas eram nauseantes. Era um fato médico comprovado. Fregueses com olhares brilhantes e especulativos não eram muito melhores.

– Você está equivocada – disse para a mulher enxerida.

Ela me lançou um olhar tímido.

– Acho que não.

Eu podia apostar dez dólares como ela estava tentando encontrar um modo de me pedir o autógrafo dele. Aquela seria a oitava tentativa só naquele dia. Alguns deles queriam me levar para casa para termos relações íntimas porque, sabe, eu era ex de uma estrela do rock. Minha vagina obviamente devia ter alguma coisa especial. Às vezes me perguntei se eles acreditavam que houvesse uma placa no interior da minha coxa que dizia: Kim Taehyung esteve aqui.

Aquela ali, contudo, não estava me cantando. Não, ela queria um autógrafo.

– Olha só – disse ela, passando da especulação para a persuasão –, não sou de pedir esse tipo de coisa, mas é que sou muito fã dele.

– Não posso ajudá-la, lamento. Na verdade, estamos para fechar. Gostaria de pedir alguma coisa antes disso? – perguntei, com um sorriso agradável colado no rosto. 

Sam teria ficado muito orgulhoso desse sorriso, mesmo sendo falso. Mas meus olhos lhe diziam a verdade. Que eu estava acabada e não me restava mais nada. Ainda mais no que se referia a Kim Taehyung.

– Pode, pelo menos, me dizer se a banda vai acabar mesmo? Conta, vai. Todos dizem que uma declaração será feita a qualquer dia.

– Não sei de nada a esse respeito. Gostaria de pedir alguma coisa, ou não?

Mais recusas normalmente levavam a raiva ou lágrimas. Ela escolheu a raiva. Uma sábia escolha, pois eu estava enjoada de lágrimas. Não as aguentava mais, nem as minhas, tampouco as dos outros. Apesar de ser de conhecimento geral que levei um pé na bunda, as pessoas ainda achavam que eu tinha conexões. Ou esperavam por isso.

Ela deu uma risadinha falsa.

– Não precisa ser maldosa. Você morreria se me contasse o que está acontecendo?

– Saia – ordenou a minha adorável gerente, Ruby – Agora. Pode ir.

A mulher passou para o modo incredulidade, com a boca escancarada.

– O que disse?

– Amanda, chame a polícia. – Ruby ficou toda imponente ao meu lado.

– Pode deixar, chefe. – Amanda sacou o celular e apertou as teclas, lançando olhares malignospara a mulher. 

Amanda, tendo saído do rótulo de única lésbica da nossa escola, agora estudava teatro. Esse tipo de confronto era sua parte preferida do dia. Eles podiam extrair minhas forças, mas Amanda se alimentava deles. Uma força sombria e malevolente, claro, mas toda ela se deliciava com isso. 

– Sim, estamos com uma loira falsa de bronzeado medonho nos causando problemas aqui, senhor. Tenho quase certeza de que a vi numa festa de fraternidade na semana passada, bebendo apesar de ser menor de idade. Não quero contar o que aconteceu depois disso, mas a filmagem está no YouTube para quem, com mais de dezoito anos, quiser ver.

– Não é de se estranhar que ele tenha te largado. Eu vi a foto, sua bunda é maior que a porra do Texas – a mulher espicaçou antes de sair do café.

– Você precisa mesmo ficar atiçando-as? – perguntei.

Amanda estalou a língua.

– Ora, por favor, foi ela quem começou.

Já ouvi coisas piores do que ela disse. Muito piores. Já tive que mudar meu endereço de e-mail diversas vezes para impedir a enxurrada de mensagens odiosas. Encerrei meu perfil no Facebook logo no começo.

Ainda assim, dei uma olhada na minha bunda, só para garantir. Chegava bem perto, mas eu tinha quase certeza de que o Texas era, de fato, maior.

– Até onde sei, você está vivendo à base de balas e café com leite. Seu traseiro não é preocupante.

– Há muito tempo, Amanda já me perdoara pelo beijo mal dado na escola, que Deus a abençoasse.

Eu tinha muita sorte pelas amigas que tinha. Não sei se teria sobrevivido ao último mês sem elas.

– Eu como.

– É mesmo? De quem são esses jeans?

Comecei a limpar a cafeteira porque estava mesmo na hora de fechar. Por isso e para evitar o assunto. A verdade era que ser traída e ouvir mentiras por parte do filho predileto do rock and roll resultava numa dieta e tanto. Não uma que eu recomendasse, contudo. O sono era uma porcaria e estava sempre cansada. Eu era a depressão em pessoa. 

Por dentro e por fora, não me sentia eu mesma O tempo que passei com Taehyung, o modo como isso mudou as coisas, era uma constante agitação, uma coceira da qual não conseguia me livrar. Em parte porque me faltavam forças, mas também me faltava vontade. Só se consegue cantar “I Will Survive” determinado número de vezes antes de sentir vontade de se esganar.

– Janis não as usa mais. Disse que o tom escuro da lavagem não é o certo e que a posição dos bolsos a fazem parecer hippie. Ao que parece, a colocação dos bolsos é importante.

– E quando você começou a usar as roupas da vaca magricela?

– Não a chame assim.

Amanda revirou os olhos.

– Ora, por favor, ela considera isso um elogio.

Verdade.

– Bem, acho esses jeans legais. Você vai limpar as mesas ou quer que eu faça isso?

Amanda apenas suspirou.

– Jo e eu queremos agradecer por você ter nos ajudado com a mudança no fim de semana passado.

Por isso, vamos levá-la para sair hoje. Para beber e dançar!

– Ah… – O álcool e eu já temos uma história. – Não sei, não.

– Eu sei.

– Eu tinha planejado…

– Não tinha, não. É por isso que deixei para te contar na última hora. Eu sabia que você tentaria arranjar uma desculpa. – Os olhos de Amanda não aceitavam tolices. – Ruby, vou levar nossa garota para uma noite na cidade.

– Boa ideia – disse Ruby de dentro da cozinha – Tire-a daqui. Eu limpo.

Meu agradável sorriso ensaiado abandonou meu rosto.

– Mas…

– São esses olhos tristes – disse Ruby, confiscando meu pano de limpeza – Não os aguento mais. Por favor, saia e divirta-se um pouco.

– Sou tão estraga-prazeres assim? – perguntei, subitamente preocupada.

 Verdade, pensei que estivesse me dando bem bancando a forte. As expressões delas me contradisseram.

– Não, você é uma jovem normal de vinte e um anos que está passando por um rompimento. Precisa sair daqui e retomar a sua vida. – Ruby tinha pouco mais de trinta e estava prestes a se casar.

– Confie em mim. Eu sei o que é melhor. Vá.

– Ou… – disse Amanda, balançando um dedo na minha direção – você pode ficar em casa assistindo Johnny e June pela octingentésima vez, enquanto ouve seu irmão e sua melhor amiga transando pra valer no quarto ao lado.

Quando ela expunha a situação desse jeito…

– Ok, vamos lá.

                                    ♪ ♪ ♪

– Quero ser bi – anunciei, porque isso era importante. Uma garota precisa dos seus objetivos. Empurrei a cadeira para trás e me levantei – Vamos dançar. Adoro essa música.

– Você adora qualquer música que não seja da banda que não pode ser nomeada. – Amanda gargalhou, seguindo-me em meio à multidão. A namorada dela, Jo, só balançou a cabeça e a segurou pela mão.

Vodca, sem dúvida, era tão ruim quanto tequila, mas, de certa forma, eu me sentia mais relaxada, mais solta. Era bom sair e, com o estômago vazio, três doses já bastavam, evidentemente. E eu suspeitava que Amanda tivesse pedido uma dose dupla pelo menos uma das vezes. 

Eu me sentia ótima dançando, rindo e me soltando. De todas as táticas de superação de um rompimento que experimentei, manter-me ocupada trabalhando foi a que melhor funcionou. Mas sair para dançar e beber toda arrumada também não podia ser menosprezado. Ajeitei o cabelo atrás das orelhas porque meu rabo de cabelo estava começando a se soltar de novo. Uma metáfora perfeita para minha vida. Nada dava certo desde que voltei de L.A. Nada durava. O amor era uma mentira e o rock and roll era uma bosta. Blá-blá-blá. Hora de beber de novo.

E eu estava no meio de uma declaração importante.

– Estou falando sério – disse – Vou ser bi. Esse é o meu novo plano.

– Acho que esse é um plano maravilhoso – gritou Jo, chegando perto de mim. Jo também trabalhava no café, onde as duas se conheceram. Ela tinha um azul nos cabelos compridos que era a inveja de muitas.

Amanda revirou os olhos na minha direção.

– Você não é bi. Amor, não a encoraje.

Jo sorriu, totalmente impenitente.

– Na semana passada ela queria ser gay. Antes disso, ficou falando em monastérios. Acho que são passos construtivos a fim de perdoar todo ser humano dotado de pênis e seguir com a vida dela.

– Estou seguindo com a minha vida – disse eu.

– Motivo pelo qual vocês duas ficaram falando sobre ele pelas duas últimas horas? – Amanda sorriu, passando os braços nos ombros de Jo.

– Não ficamos falando dele. Nós o estávamos insultando. Como se diz mesmo “fornicador de ovelhas fedido e inútil” em alemão? – perguntei, inclinando-me para me fazer ouvir acima da música

– Esse foi o meu favorito.

Jo e Amanda se ocuparam indo dançar e eu as deixei ir, imperturbável. Porque não estava com medo de ficar sozinha. Eu estava tomada pelo poder das solteiras prontas para ação. Kim Taehyung que se danasse. Mesmo.

A música se mesclou numa batida contínua e contanto que eu continuasse me movimentando, tudo seria perfeito. O suor escorria pelo meu pescoço e abri mais um botão do vestido, ampliando o decote. Ignorei as outras pessoas dançando ao meu redor. Fechei os olhos, ficando a salvo em meu mundo próprio. O álcool me deu uma agradável zonzeira.

Por algum motivo, as mãos se movendo pelos meus quadris não me incomodaram, mesmo não tendo sido convidadas. Elas não avançaram, não exigiram nada de mim. Seu dono dançava atrás de mim, mantendo uma distância segura entre nós. Ou, talvez, eu me sentisse sozinha, porque não as afastei. Em vez disso, relaxei ao seu encontro. 

Na música seguinte inteira ficamos assim, grudados, movendo-nos. A batida desacelerou e levantei os braços, unindo as mãos atrás do pescoço dele.

Depois de um mês evitando o contato humano, meu corpo despertou. Os cabelos curtos e macios do seu pescoço resvalaram em meus dedos. Pele quente e macia por debaixo. Deus, como aquilo era bom. Eu não havia percebido o quanto sentia falta de tocar em alguém. Reclinei a cabeça ao seu encontro e ele sussurrou algo muito suavemente. 

Tão suavemente que não o ouvi. A barba curta raspou de leve o meu rosto. As mãos subiram pelas minhas costelas, pelos braços. Dedos calejados acariciaram de leve meus antebraços. O corpo dele era sólido atrás do meu, forte, mas ele mantinha seu toque leve, contido. Eu não estava no mercado para uma nova tentativa.

Mas também não conseguia me afastar dele. Estava tão bom ali.

– Evelyn – disse ele, seus lábios brincando com a minha orelha.

Senti a respiração presa, minhas pálpebras se ergueram. Virei-me e dei de cara com Taehyung me olhando. Os cabelos longos tinham sumido. Ainda tinha certo comprimento na frente, mas estava curto nas laterais. Ele, se quisesse, conseguiria fazer um topete ao estilo de Elvis. Uma barba escura e curta cobria a parte inferior do seu rosto.

– V-você está aqui – gaguejei. Senti a língua espessa e inútil dentro da boca seca. 

Cristo, era ele mesmo. Ali, em Portland. Em carne e osso.

– Estou. – Seus olhos castanhos me queimavam. 

Ele não disse nada mais. A música continuava tocando, as pessoas se movendo. O mundo só parara de girar para mim.

– Por quê?

– Ev? – Amanda pousou uma mão no meu braço e dei um pulo, o feitiço se rompendo. Ela lançou um olhar rápido para Taehyung, em seguida seu rosto se retorceu em desgosto. – Que merda que ele tá fazendo aqui?

– Está tudo bem – respondi.

O olhar dela passou de Taehyung para mim. Ela não parecia muito convencida. O que era justo.

– Amanda. Por favor. – Apertei os dedos dela, assenti. 

Depois de um segundo, ela se voltou para Jo, que encarava Taehyung com descrença franca. E uma dose saudável de admiração. Aquele visual novo dele era um belo disfarce. A menos, claro, que você soubesse para quem estava olhando. Empurrei a multidão, querendo sair dali. Eu sabia que ele me seguiria. Claro que sim. Não era nenhum acaso ele estar ali, apesar de eu não fazer ideia de como ele me encontrara.

Eu precisava me afastar daquele calor e daquele barulho para poder pensar com clareza. Segui pelo corredor no qual estavam os banheiros feminino e masculino. Sim, lá estava o que eu queria. Uma grande porta preta que se abria para um beco. Ar noturno fresco. Algumas poucas estrelas valentes reluziam acima. A não ser por isso, ali estava escuro, e úmido por causa da chuva de verão recente. Era horrível, sujo e detestável. Um local adequado.

Talvez estivesse sendo um tanto melodramática. A porta se fechou atrás de Taehyung. Ele me encarou com as mãos nos quadris. Abriu a boca para começar a falar, mas nada aconteceu. Eu saí do meu transe.

– Por que está aqui, Taehyung?

– Precisamos conversar.

– Não, não precisamos.

Ele esfregou a boca.

– Por favor. Tenho algumas coisas que preciso dizer.

– Tarde demais.

Olhar para ele reavivou minha dor. Era como se as feridas estivessem pairando logo abaixo da superfície, esperando para ressurgir. No entanto, não conseguia deixar de olhar para ele. Partes de mim estavam desesperadas por vê-lo, por ouvi-lo. Meu coração e minha cabeça estavam destroçados. 

Taehyung também não me parecia muito bem. Parecia cansado. Havia sombras sob seus olhos e ele parecia um tanto pálido, mesmo naquela parca iluminação. Os brincos tinham desaparecido, todos eles. Não que me importasse.

Ele oscilou o peso nos calcanhares, os olhos me observando desesperados.

– Jimin foi para uma clínica de reabilitação e havia algumas outras coisas de que eu precisava cuidar. Tivemos que fazer terapia como parte do tratamento dele. É por isso que não vim antes.

– Sinto muito por Jimin.

Ele assentiu.

– Obrigado. Ele já está bem melhor.

– Que bom. Isso é muito bom.

Outro aceno.

– Ev, quanto a Jaqueline…

– Ei. – Ergui a mão, recuando um passo. – Não.

A boca dele se curvou nos cantos.

– Temos que conversar.

– Temos?

– Sim.

– Porque agora você resolveu que está pronto? Vá se foder, Taehyung. Já faz um mês. Vinte e oito dias sem nenhuma palavra. Sinto muito pelo seu irmão, mas não.

– Eu queria ter certeza de estar vindo pelos motivos certos.

– Eu nem sei o que isso quer dizer.

– Ev…

– Não. – Balancei a cabeça, a mágoa e a fúria me impulsionando. 

Por isso, eu também o empurrei, fazendo-o recuar um passo. Ele bateu na parede e eu não tinha mais para onde ir com ele. Mas isso não me deteve.

Fui empurrá-lo mais uma vez, e ele me segurou pelas mãos.

– Calma.

– Não!

Suas mãos circundaram meus pulsos. Ele cerrou os dentes, travando o maxilar. Cheguei a ouvir. Impressionante que ele não tivesse quebrado nada.

– Não, o quê? Não quer falar agora? O quê? O que quer dizer?

– Digo não para tudo e qualquer coisa relacionada a você. – Minhas palavras ecoaram pelo beco estreito, subindo pelas laterais dos prédios até se escoarem pelo céu noturno impiedoso. – Acabou, lembra? Você não precisa de mim. Não sou nada para você. Você mesmo disse isso.

– Eu estava errado. Maldição, Ev. Acalme-se. Preste atenção.

– Solte-me.

– Desculpe. Mas não é o que você está pensando.

Sem opções, encarei-o.

– Você não tem o direito de estar aqui. Mentiu para mim. Me traiu.

– Gatinha…

– Não ouse me chamar assim – gritei.

– Desculpe. – O olhar dele perscrutou meu rosto, tentando encontrar compreensão, talvez. Ele estava sem sorte. – Sinto muito.

– Pare.

– Desculpa. Desculpa. – e ele repetiu e repetiu, entoando a mais inútil das palavras de todos os tempos. 

Eu tinha que parar com aquilo. Calá-lo antes que ele me enlouquecesse. Esmaguei minha boca à dele, detendo a ladainha inútil. Ele gemeu e retribuiu o beijo, machucando meus lábios, machucando-me. Mas eu também o machuquei. A dor ajudou. Empurrei a língua na boca dele, tomando o que deveria ser meu. Naquele instante, eu o odiei e o amei. Parecia não haver nenhuma diferença.

Minhas mãos foram libertadas e as enrosquei atrás da nuca dele. Ele nos virou, apoiando minhas costas na parede áspera de tijolos. Seu toque queimava minha pele até atingir meus ossos. Tudo aconteceu tão rápido que não houve tempo para pensar na sensatez daquilo. Ele subiu meu vestido e rasgou minha calcinha. Ela não teve a menor chance. O frescor da noite e o calor das suas palmas resvalaram minhas coxas.

– Senti demais a sua falta. – ele grunhiu.

– Taehyung.

Ele abaixou o zíper e puxou a frente da calça para baixo. Depois ergueu minha perna, levantando-a até seu quadril. Minhas mãos se agarraram ao seu pescoço. Acho que eu tentava escalá-lo. Não houve muita reflexão a respeito. Apenas a necessidade de me aproximar fisicamente o quanto fosse possível. Ele me mordiscou nos lábios, assolando minha boca com mais um beijo ardente. Seu pau me pressionou, entrando devagar em mim. A sensação dele me preenchendo fez minha cabeça girar.

Uma leve dor enquanto ele me alargava. A outra mão escorregou por trás da minha nádega, suspendendo-me, penetrando assim totalmente, e me fazendo gemer. Abracei-o com as pernas e segurei com força. Ele me estocou sem nenhuma finesse. A violência combinou com nossos ânimos.

Minhas unhas se enterraram em seu pescoço, meus calcanhares bateram em suas nádegas. Seus dentes cravaram forte meu pescoço. A dor foi perfeita.

– Mais forte – arfei.

– Pode deixar…

Os tijolos ásperos arranharam minhas costas, puxando os fios do tecido do vestido. As estocadas firmes do seu pau me tiravam o fôlego. Agarrei-me com força, tentando saboreá-lo e a tensão crescia dentro de mim. Era tudo demais e pouco ao mesmo tempo. Pensar que aquela podia ser a última vez, uma união furiosa como aquela… Quis chorar, mas não tinha mais lágrimas. 

Seus dedos se enterraram em minhas nádegas, marcando minha pele. A pressão dentro de mim aumentou exponencialmente. Ele mudou o ângulo com sutileza, atingindo meu clitóris e eu gozei com força, os braços ao redor da cabeça dele, o rosto apoiado ao dele. A barba me arranhou de leve. Meu corpo inteiro estremeceu e eu tremi.

– Evelyn – ele grunhiu, enterrando-se em mim, esvaziando-se dentro de mim.

Todos os músculos do meu corpo se liquefizeram. Só o que me restava fazer era continuar agarrada a ele.

– Tudo bem, gatinha. – A boca pressionou meu rosto suado. – Vai ficar tudo bem, prometo. Vou dar um jeito.

– C-coloque-me no c-chão.

Seus ombros se ergueram e desceram com uma respiração pesada, com cuidado, ele me abaixou. Rapidamente abaixei a saia do vestido, ajeitando-me. Como se isso fosse possível. Aquela situação estava fora de controle. Sem alarde, ele subiu os jeans e se tornou apresentável. Olhei para todas as partes, menos para ele. Um beco. Puxa vida.

– Você está bem? – Seus dedos me acariciaram no rosto, ajeitando meu cabelo para trás. 

Até eu apoiar uma mão em seu peito, forçando um passo para trás. Bem, não forçando exatamente. Ele escolheu me dar meu espaço pessoal.

– Eu… hum. – Lambi os lábios e tentei novamente. – Preciso ir para casa.

– Vamos, vou chamar um táxi.

– Não. Desculpe. Sei que comecei isto. Mas… – Balancei a cabeça.

Taehyung deixou a dele pender.

– Isto foi um adeus.

– Foi porra nenhuma. Nem tente me dizer isso. – Seu dedo escorregou por baixo do meu queixo, obrigando-me a encará-lo. – Não terminamos, entendeu? Nem droga nenhuma perto disso. Novo plano. Não vou sair de Portland até termos conversado. Eu prometo.

– Hoje não.

– Não. Hoje não. Amanhã, então?

Abri a boca, mas nada saiu. Eu não fazia ideia do que queria dizer. Minhas unhas se enterraram nas laterais do vestido. O que eu queria estes dias era um mistério mesmo para mim. Parar de sofrer seria legal. Remover todas as lembranças dele do meu coração e da minha cabeça. Conseguir voltar a respirar direito.

– Amanhã – repetiu ele.

– Não sei. – Agora eu me sentia cansada, encarando-o. Eu seria capaz de dormir por um ano. 

Meus ombros penderam e meu cérebro ficou inerte. Ele apenas ficou me encarando, com os olhos intensos.

– Ok.

Onde isso nos deixava, eu não fazia ideia. Mas assenti como se algo tivesse sido decidido.

– Bom – disse, respirando fundo.

Meus músculos ainda tremiam. Sêmen escorria pelas minhas pernas. Merda. Tivemos aquela conversa, mas as coisas tinham sido diferentes então.

– Taehyung, no último mês, você fez sexo seguro, certo?

– Não tem com que se preocupar.

– Bom.

Ele avançou um passo na minha direção.

– No que me diz respeito, ainda somos casados. Então, não, Evelyn, não andei transando por aí.

Eu não tinha nada. Meus joelhos oscilaram. Talvez pela ação que acabáramos de ter. Alívio por ele não ter se apegado às fãs por vingança depois de termos rompido, por certo, não podia ter parte nisso. Eu nem queria pensar em Jaqueline, aquele monstro marinho cheio de tentáculos.

O sexo era tão confuso. O amor era muito pior.

Um de nós tinha que sair dali. Ele não fez menção de ir, então eu mesma saí, recuando para a boate para encontrar Amanda e Jo. Eu precisava de uma calcinha nova e de um transplante de coração.

Precisava ir para casa. Ele me seguiu, abrindo a porta. O baixo grave da música ribombou noite afora.

Apressei-me para o banheiro feminino e me tranquei numa divisória para me limpar. Quando saí para lavar as mãos, olhar no espelho foi difícil. A luz fluorescente berrante não me favoreceu em nada. Meus cabelos loiros estavam revoltos ao redor da cabeça, um emaranhado graças às mãos de Taehyung. Meus olhos estavam arregalados e feridos. Eu parecia aterrorizada, mas pelo quê eu não sabia dizer. 

E também havia a mãe de todos os chupões se formando no meu pescoço. Inferno. Duas garotas entraram, dando risadinha e lançando olhares cobiçosos por sobre os ombros. Antes que a porta se fechasse, captei um vislumbre de Taehyung recostado na parede oposta, esperando, fitando as botas. A conversa animada das moças era irritantemente alta. 

Mas não fizeram menção ao nome dele. O disfarce de Taehyung se mantinha. Com os braços ao redor do corpo, fui ao seu encontro.

– Pronta para ir? – perguntou ele, afastando-se da parede.

– Sim.

Voltamos para o salão principal da boate, desviando de dançarinos e bêbados, à procura de

Amanda e de Jo. Elas estavam no limiar da pista de dança, conversando. Amanda estava com sua carranca.

Ela me avaliou e uma sobrancelha se ergueu.

– Tá de brincadeira?

– Obrigada por me trazerem, amigas, mas vou voltar para casa – disse eu, ignorando o olhar aguçado.

– Com ele? – Ela apontou o queixo na direção de Taehyung, que pairava atrás dos meus ombros.

Jo deu um passo à frente, me envolvendo em seu abraço.

– Ignore-a. Faça o que for melhor para você.

– Obrigada.

Amanda revirou os olhos e a imitou, abraçando-me.

– Ele a magoou tanto…

– Eu sei. – Meus olhos ficaram marejados. Algo muito inútil. – Obrigada por ter me chamado para sair.

Eu podia apostar todo o meu dinheiro como Amanda estava fritando Taehyung com os olhos por cima dos meus ombros. Quase senti pena dele. Quase. Saímos da boate quando uma das músicas dele começou a tocar. Houve certo número de gritos de “Armys”. A voz de Jimin ronronou a letra: “Droga, odeio aqueles derradeiros dias de paixão, rubros lábios e longas despedidas…”

Taehyung abaixou a cabeça e nos apressamos em sair. Do lado de fora, a céu aberto, a canção não passava das batidas distantes da guitarra e do baixo. Fiquei lançando olhares de esguelha só para garantir que ele estava ali mesmo e não era apenas fruto da minha imaginação.

 Tantas vezes sonhei que ele tinha vindo me procurar. E todas as vezes acordei sozinha, o rosto banhado por lágrimas. Agora ele estava ali, e eu não podia me arriscar. Se ele me despedaçasse de novo, eu não estava convencida de que conseguiria superar uma segunda vez. Meu coração talvez não conseguisse. Por isso, me esforcei e mantive a boca e a mente fechadas.

Ainda era relativamente cedo e não havia muitas pessoas do lado de fora. Estendi a mão na direção do tráfego afluente e um táxi parou logo em seguida. Taehyung segurou a porta para mim. Entrei sem dizer nada.

– Vou levá-la em casa. – ele entrou atrás de mim, e escorreguei pelo banco, surpresa.

– Não precisa…

– Eu quero. Ok. Preciso fazer pelo menos isso, portanto…

– Tudo bem.

– Para onde? – o taxista perguntou, lançando-nos um olhar desinteressado pelo espelho retrovisor.

Outro casal brigando em seu banco de passageiros. Estou certa de que ele deve ver pelo menos uma dúzia por noite.

Taehyung informou meu endereço sem piscar. O táxi voltou para o movimento da rua. Ele devia ter conseguido meu endereço com Sam, mas quanto ao resto…

– Janis – suspirei, afundando no banco – Claro, foi assim que você conseguiu saber onde me encontrar.

Ele fez uma careta.

– Falei com Janis. Olha aqui, não fique brava com ela. Precisei me esforçar para convencê-la.

– Certo…

– Estou falando sério. Ela me falou um monte por ter estragado tudo com você, gritou comigo por pelo menos meia hora. Por favor, não fique brava com ela.

Cerrei os dentes e fiquei olhando pela janela. Até seus dedos escorregarem entre os meus. Puxei a mão.

– Você me deixa penetrá-la, mas não me deixa segurar sua mão? – sussurrou, o rosto triste sob a luz pálida dos carros que passavam e dos postes das ruas.

Estava na ponta da minha língua dizer que aquilo foi um acidente. Que o que aconteceu foi um erro. Mas eu não conseguiria. Eu sabia o quanto aquilo o magoaria. Ficamos nos fitando, minha boca aberta, mas meu cérebro absolutamente inútil.

– Senti tanto a sua falta – disse ele – Você não faz ideia.

– Para.

Seus lábios se fecharam, mas ele não desviou o olhar. Fiquei ali sentada, presa em seu olhar. Ele parecia diferente sem seus cabelos compridos e com a barba curta. Familiar, porém desconhecido.

Não demorou muito para chegarmos em casa, mas pareceu durar uma eternidade. O táxi parou diante do prédio antigo e o taxista nos lançou um olhar impaciente por sobre o ombro.

Abri a porta do carro, pronta para sair, mas hesitante ao mesmo tempo. Meu pé pairou no ar sobre a calçada.

– Francamente, pensei que nunca mais iria te ver.

– Ei! – disse ele, esticando o braço ao longo do encosto do banco. Seus dedos vieram na minha direção, mas pararam pouco antes de fazer contato – Você vai me ver de novo. Amanhã.

Eu não sabia o que dizer.

– Amanhã – repetiu ele, com voz determinada.

– Não sei se vai fazer alguma diferença.

Ele ergueu o queixo, inalando profundamente.

– Sei que estraguei as coisas entre nós, mas vou consertar. Só não decida nada ainda, tá bem? Me dê isso ao menos.

Assenti de leve e me apressei para fora em pernas instáveis. Depois que me tranquei do lado de dentro, o táxi se afastou, os faróis traseiros sumindo através do vidro jateado da porta da frente do prédio.

Que diabos era pra eu fazer agora?


Notas Finais


Um pouco de Drama, só pra sairmos da rotina soft um pouco kkk

💜 Saranghae 💜


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