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História My street - Capítulo 4


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Capítulo 4 - Capítulo 04: Sensura


  Eu acordei assustado, já eram 14h, eu tava meia hora atrasado e ainda nem tinha comido um miojão.

Eu liguei pro Akin e expliquei a situação, ele falou que tava de boa e que eu podia almoçar na casa dele, então eu peguei a Mona, no caso minha bike e fui pra casa dele.

Quando eu cheguei lá toquei a campainha e uma mulher apereceu:

-Oi, você é o T'alib?- Perguntou ela

-Sim, isso mesmo.

-Prazer. Eu me chamo Sandra.

-Prazer, Sandra.

-Eu sou a mãe do Akin, pode entrar, ele esta te esperando lá encima.

-Licença.

Então eu passei pela cozinha, sala, sala de jantar, lavabo, subi a escada, passei por um banheiro, uma suíte e finalmente cheguei ao quarto do Akin:

-Eae T'alib, carai. Quase que você não vem mano.

-É velho, eu tava dando uma volta com a Liz, fiquei cansado e fui pra casa, dormi até umas horas.

-Sei. Cansado né safado...

-Hahaha. Não man, não rolou nada, sério.

-Vacilou então, eu pegava.

-É, mas tem que ver se ela quer também, mulher é foda, lindas mas complicadas

-Sim mano,- Akin então respirou fundo. -da raiva. Mas olha só, tem um narguile alí, bora fumar?

-Bora, foda-se. Mas eu não quero passar mal man, eu to de estômago vazio.

-Pode crer. Vamo descer, acho que a minha mãe fez comida.

Então nós descemos aquela casa exageradamente grande e fomos até a cozinha. Ao chegar lá, vi toda aquela comida, por Jah, eu queria cair de boca em toda aquela merda. Eu finalmente poderia tirar a barriga da miséria, eu tava com uma fome de 80 medingos.

Nós nos sentamos em volta da mesa, e comemos, haaaaa, tava muito bom, velho.

Então a dona Sandra começou a puxar assunto:

-Então T'alib, você estuda na mesma escola que o Akin?

-Mãe!- gritou Akin -Eu já te falei que sim. Parece que você é surda.

Então eu respondi:

-Sim dona Sandra, dês de segunda.

Ela então perguntou:

-E por quê você mudou de escola?

-Eu tava com alguns problemas e então eu resolvi sair da outra escola.

-Ae T'alib man, mas quais são os problemas? -Perguntou Akin.

Então a dona Sandra disse:

-Filho. Não seja indelicado. São problemas pessoais.

Então eu disse:

-Tudo bem dona Sandra, são problemas familiares envolvendo a minha mãe e a sua situação atual.

-Ela está bem?- Perguntou a dona Sandra.

-Ela se matou dona Sandra,- Disse eu com a voz trêmula me segurando pra não chorar. -Ela tinha depressão... - Eu abaixei a cabeça e me levantei da cadeira -Posso usar o banheiro?

Então a dona Sandra respondeu:

- Pode sim, fica no final do corredor da esquerda.

Eu fui até o banheiro e me encarei no espelho pensando em tudo o que já tinha ocorrido na minha vida, eu estava com uma raiva extrema de mim mesmo. Eu lavei o rosto, me encarei mais uma vez no espelho e voltei à cozinha. Eu ainda estava com fome então voltei a comer. Estava um silêncio ensurdecedor naquela cozinha, mas era justo.

Depois de comermos, eu e o Akin fomos para o quarto dele, ele montou o Rosh do narguile e a gente ficou lá, fumando, conversando e ouvindo música. Foi quando de repente meu celular vibrou, por algum motivo o Marley estava me ligando, ele queria que eu colasse na casa dele quando desse 18h. A casa dele é meio longe, então, quando deu 17h 10min, eu e o Akin fomos lá de bicicleta.

Quando chegamos lá o Marley estava na frente de sua casa, eu o apresentei ao Akin e nós entramos. Dentro de sua casa, Marley me disse:

-T'alib, foi mau pelo vacilo que eu dei.

-Relaxa, eu ja esqueci essa merda.

-Mas olha, não tem o Carlos? Então, bora pixar a casa dele e tacar umas bomba lá?

-Tá louco! Não é porque eu não gosto daquele otário que eu tenho que fazer isso.

-Mas você lembra das merdas que ele fazia com a gente?

Então o Akin perguntou:

-O que merdas ele fazia?

-Fala pra ele T'alib! -Disse Marley -Ou você quer que eu falo?

Então eu respondi:

-Não, eu falo. Na outra escola, que eu estudava junto do Marley, o Carlos e o grupinho racista dele fazia bullyng com a gente, quase toda semana ele batia em nós e sempre com um sorriso no rosto.

-Caralho, ele fazia isso com vocês mesmo? -Perguntou Akin

-Sim! -Respondeu Marley - E mesmo depois de todos nós estarmos formados, quer dizer, tirando o T'alib, esse desgraçado pixou o muro da minha casa! Ele escreveu "aqui mora um macaco" na frente da minha casa mano, eu não aguento mais esse cara.

Então Akin disse:

-Caralho, mano! Vocês tem que dar o troco. Esse cara merece isso e muito mais. São 500 anos de luta que um racista transforma em nada em uma hora.

Todas quelas palavras me lembraram de quando eu estava no sexto ano. Em uma sexta feira quando eu estava usando o banheiro da escola, o Carlos e mais cinco caras me trombaram no banheiro, eu fiquei com medo e pedi pra eles não fazerem nada comigo, mas isso não os impediu de me baterem, eles me derrubaram no chão e me chutaram tanto, ao ponto d'eu ficar com um coágulo de sangue na nuca, eu tenho uma cicatriz até hoje. Mas mesmo assim, quem foi suspenso naquele dia fui eu, já que o Carlos e os amigos dele alegaram que fui eu quem começou empurrando eles e os chingando.

Tomado pela raiva que as lembranças provocavam eu falei:

-Foda-se! Foram seis anos sendo oprimido por esse otário, a gente tem que mostrar que somos a resistência!

Então Marley ficou entusiasmado:

-Uuuuuuuh, esse é o T'alib que eu conheço! Ae Akin, você vai com a gente?

-Claro que eu vou. Conta comigo... irmão.

-Irmão. -Os dois então sorriram e apertaram as mãos.

O plano era o seguinte: a gente ia pegar algumas madeiras secas no parque, comprar quatro garrafas de álcool no Barbosa, pegar bomba batom oito, colocar as latas de tinta na mochila e colocar bandanas pra esconder o rosto porque tem câmeras no portão do Carlos.

Nós fomos até o parque de bike, chegando lá fomos pra parte de trás pra pegar as madeiras secas, o Akin colocou elas em uma das mochilas que tínhamos pego na casa do Marley, quando ele colocou nas costas reclamou que tava espetando ele, mas como não tinha outra forma de carregar, teve que ir daquele jeito. Depois de pegar os tocos de madeira nós fomos ao Barbosa comprar o álcool, eu fiquei cuidando das bicicletas do lado de fora enquanto eles estavam comprando o Zulu.

Quando eles voltaram eles estavam com duas garrafas de Askov Blue Barry e três pacotes de Fofura, o Marley disse:

-Vamo comer antes de ir na casa daquele otário!

Então eu perguntei:

-E essas garrafas de Askov?

-É só uma coisa que eu comprei pra gente beber.- Respondeu Akin.

-Ah! É disso que eu gosto, bora então, bro!

Então a gente sentou na calçada e secamos uma das garrafas, nós três ficamos altos, a gente olhava um pra cara do outro e rachava de rir. Então o Akin começou a cantar:

-"Neru rou dou nou...

Então eu o acompanhei:

--Ri de silis rancou...

E então nós três começamos a cantar:

---Anere gueri iu, aanere guere ou... ONERIS UAN AR DE SEIOS JANNOU"

Quando percebemos a merda que estávamos fazendo nós começamos a rir sem parar, a minha barriga doia de tanto rir.

Mas já estava na hora de ir na casa daquele imbecil, já era 21h então nós levantamos da calçada, subimos nas bikes e fomos na direção da casa do Carlos. Antes de chegarmos colocamos as bandanas no rosto, quando chegamos o Akin colocou as madeiras em pilha, fazendo uma espécie de fogueira, eu pixei a parede da casa dele com a frase clássica "Fogo nos racistas" e fiz o desenho de um cara pegando fogo, o Marley jogou álcool encima das madeiras que estavam no chão e tacou fogo, então nós tomamos distância e jogamos as bombas na casa do Carlos. Infelizmente o Carlos estava no quintal de sua casa, então ele saiu no portão gritando:

-QUE PORRA É ESSA SEUS FILHOS DA PUTA!?

Então a gente saiu a milhão encima das bikes. Mas o Carlos não estava sozinho, ele tava com seus amiguinhos brancos que saíram junto dele, todos de bicicleta, atrás de nós três.

Eles estavam quase nos alcançando e o Akin gritava:

-CORRE PORRA, CORRE! SE EU MORRER ANTES DE CHEGAR EM CASA EU TÔ MORTO!

Foi quando chegou um dos amigos do Carlos e colocou um pedaço de madeira no aro da bicicleta do Akin, fazendo assim ele cair no chão. Eu e o Marley paramos pra ajudar o Akin e, quando tentamos fugir de novo, percebemos que estávamos cercados, tinham três caras na nossa frente e sem contar o Carlos, tinham mais dois atrás de nós, a gente tava cercado.

O Carlos então chegou perto da gente, quando ele tirou as bandanas e viu que éramos eu e o Marley ele ficou puto e pediu pra nos segurarem, eles davam socos sem prarar na boca de nossos estômagos, o Akin estava chorando.

Quando largaram a gente, eu e o Marley caímos no chão, eles continuaram segurando o Akin e dando soco nele, então o Carlos falou:

-Então vocês acharam que podiam se vingar assim tão fácil? Além de apanharem, trouxeram mais carne preta pra espancar. Bando de otário!

Eles então bateram cada vez mais no Akin, dando chutes e socos nele e eu e o Marley pediamos incessantemente pra eles pararem, até que o Marley levantou, ele estava com uma Glóck na mão, aparentemente ele estava escondendo o tempo todo. Então todos nós ficamos assustados, com medo da merda que ele podia fazer com aquilo. Então o Carlos foi chegando perto do Marley e o Marley disse:

-Fica parado se não eu atiro! - E o Carlos não parou, continuou se aproximando do Marley.

-Você tem coragem de atirar em mim? Então atira agora! Eu quero ver.

Marley então desviou o olhar, mas continou com a arma apontada pro Carlos. Carlos então chegou mais perto, segurou o cano da arma e colocou na sua testa dizendo:

-Vai, atira, CRIOLO!

Marley ficou tomado pela raiva e atirou, "Pá"... mas felizmente, na hora certa Akin usou o que sobrou de sua força para se levantar e bater no braço do Marley, fazendo assim, a bala desviar de Carlos, então Akin disse:

-Deixa... de ser... burro! Você não ta vendo que é isso que ele quer? Ele morre e você vai pro xadrez, filhão. Além disso, ele não merece morrer, seria fácil demais pra ele, esse cara é um bosta, o que ele não prender sozinho a vida ensina e a rua cobra... irmão

Então nós ouvimos o barulho da cirene dos porcos e eu disse:

-"Vambora"! O "zome" ta vindo aí.

Marley então se virou ainda com a arma na mão, subiu na bike e saiu pedalando, então eu fiz o mesmo após colocar o Akin entre eu e o Guidão da bike, eu conduzia a minha bike com uma mão e a dele com a outra.

Eu falei pro Marley me entregar aquela arma e ir pra casa que no dia seguinte eu conversava com ele, de início ele resistiu, mas acabou entrgando mesmo assim.

Eu levei o Akin pra minha casa, ele então foi tomar banho, enquanto ele tomava banho eu escondi a arma no meu armário, coloquei um colchão no chão e separei uma roupa pra emprestar pro Akin, já que a dele estava suja de sangue.

Quando ele saiu do banho ele me Perguntou:

-Que merda esse seu amigo tem na cabeça?

-Não sei mano.- Disse eu cansado -Ele poderia ter feito uma merda muito grande. Sorte que você estava lá, mano.

-Sim... eu só não entendo o porquê de precisarmos de armas pra nos defender, acho que a maioria dos negros não percebeu que, se tivermos com armas nas mãos, nós nos tornaremos o que o opressor quer que nos tornemos.

-Sim, velho. Isso é racismo estrutural, somos forçados a nos tornar o que odiamos. 



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