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História My time - Taekook - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá! Bem-vindxs a minha longfic de Taekook :D

Não vai haver apresentação dos personagens nem da playlist como no *outro site*, mas acho que isso não irá interferir na história.

Tenham uma boa leitura!

Capítulo 1 - Um dia igual a todos os outros


[Kim Taehyung]

Insônia certamente é um castigo do universo por ter sido uma pessoa deplorável na vida passada. Não há nada mais extenuante do que acordar três horas e quarenta e sete da madrugada, absolutamente sem quaisquer motivos explicáveis pela natureza, e não voltar mais a dormir pelo resto da noite.

Simplesmente horroroso.

Permaneci deitado de barriga para cima, fitando o teto e suspirando pesadamente, esperando que algum milagre acontecesse e eu voltasse a adormecer num passe de mágica. Como o esperado, esta pequena centelha de esperança esvaiu-se num piscar de olhos, obrigando-me a levantar e enfrentar o gélido ar do apartamento. Antes disso, porém, acendi meu pequeno abajur branco com formato de coração, um humilde presente de Natal recebido a pelo menos três longos anos atrás. A história por trás dele é realmente memorável, mas acabei por ignorá-la com facilidade ao recolher meu celular ao lado, ligando a lanterna enquanto toda e qualquer sentimentalidade ia para o fundo dos meus pensamentos exatamente como acontecia nos últimos meses.

Ultimamente minha vida resumia-se à ausência do sentir, da emoção de viver. Não é como se eu estivesse triste, ou me sentisse vazio, mas pensar nos meus sentimentos era algo simplesmente cansativo demais. Tão fadigoso que chegava ao cúmulo de afetar o meu frágil sono, uma circunstância recorrente e deprimente que coincidentemente estava ocorrendo nesta terça-feira.

Esgueirei-me como um felino ligeiramente desastrado pelo corredor do pequeno apartamento, indo em direção à cozinha para buscar algo que pudesse devolver minha sonolência e tranquilidade. Em frente à dispensa, ponderei por alguns minutos a opção de tomar um remédio, mas acabei optando por um chá de camomila apesar de este não ser o meu favorito. Enchi a chaleira com água, liguei o fogão em fogo alto e fui me sentar numa das cadeiras vermelhas e desconfortáveis que encontravam-se na copa para esperar.

Daqui a aproximadamente quatro horas eu deveria estar desperto e sorridente, pronto para enfrentar mais um dia de estágio e aulas por vezes intermináveis. Não que eu detestasse o meu curso, mas nem todas as disciplinas eram um mar de rosas. Faz quase três anos que estou nesta rotina de universitário, e admito que no começo tudo parecia mais emocionante e promissor. Os veteranos costumam dizer que a euforia dura uma semana após chegarmos na universidade, e só volta no último mês do último ano, quando estamos a um passo do endeusado diploma, aquele que todos almejam.

Para a minha infelicidade, eles estavam certos.

E como num piscar de olhos, ouvi a chaleira começar a apitar, e corri desesperado para desligá-la antes de ferver. Peguei uma porção de camomila e coloquei-a em infusão, desta vez esperando pelo preparo em pé. Estava com fome, e já que eu não iria adormecer tão cedo, fui na geladeira beliscar alguns morangos. Enfiei logo três na boca, constatando que o meu estoque estava no fim.

Fiz cara feia, deprimido.

Amanhã, ou hoje dependendo da perspectiva, eu teria que ir ao mercado comprar mais. E entre tentar dormir e fazer uma lista de compras, fui mais inteligente, ou burro novamente dependendo da perspectiva, e comecei a escrever numa folha de papel quais itens estavam em falta. Não demorou muito e eu já estava na cama, tomando o chá e tentando lembrar daquelas coisas que todo mundo esquecia quando ia ao supermercado. Devo ter pensando tanto que meus neurônios pediram por arrego, pois adormeci sem nem saber como.

— Você acordou durante a noite? — Akin perguntou enquanto estávamos tomando café da manhã. Comemos todos os dias numa espécie de pastelaria que há embaixo do nosso pequeno e antigo apartamento alugado.

— Você me ouviu? — questionei de volta, sentindo-me envergonhado por incomodá-lo tanto com essa rotina interminável de insônia.

— Talvez. Eu não acordei exatamente mas acho que ouvi algo. — deu de ombros, mordendo sua habitual fruta matinal. A escolhida da vez foi uma maçã. — O que quero dizer é: você precisa cuidar logo disso antes que se torne algo crônico.

— Tem certeza? — falei continuando a comer meu kimchi. — Eu acho que é algo apenas temporário. — convenci-me novamente desta meia verdade.

— A quantos meses você diz isso a si mesmo? Sete? Oito?

— Vai fazer oito meses... — mesmo depois de tanto tempo eu ainda conseguia contabilizar os dias.

— Taehyung, eu nunca te disse isso mas por que você não tenta voltar? — ele sugeriu, me fazendo arregalar os olhos e quase me afogar com a comida. — Antes disso tudo acontecer não havia problemas. Não tão grandes quanto agora.

— Eu não posso, Akin. Não posso me arrepender das decisões que já tomei. Não vou ser perdoado por isso. — murmurei a última frase completamente apático, em voz baixa.

— Tudo bem, amigo, foi só uma sugestão. — sorriu grande, falando naquele sotaque peculiar que só ele tinha.

Sotaque da África... Da Nigéria para ser mais específico.

Conheci Akin faz mais de um ano atrás, quando eu simplesmente me autoexpulsei do dormitório universitário por questões sentimentais. Precisei encontrar algum lugar barato para morar aos arredores da universidade o mais rápido possível, uma missão praticamente impossível, e quando estava quase desistindo dessa ideia, uma oferta milagrosa apareceu em frente aos meus olhos. Imediatamente suspeitei daquele valor mas fui conferir apenas por curiosidade, acabando por encontrar um homem negro de quase dois metros de altura implorando por alguém que o ajudasse a pagar o aluguel.

No começo fui extremamente desconfiado para com as suas ações, chegando a quase entrevistá-lo antes de tomar a arriscada decisão de morar junto dele. Mas em menos de uma semana percebi que aquilo era algo ridículo de se pensar, pois Akin é uma pessoa normal como todas as outras, inclusive muito melhor do que várias que andam por aí. Ele é gentil e carismático, um homem muito inteligente, cheio de histórias, tão apaixonado por viajar que já visitou todos os continentes em menos de oito anos. Abri minha mente para novas possibilidades depois desse episódio desonroso, e hoje o considero como um irmão.

— Obrigado por se preocupar comigo. — sorri de volta, terminando de comer o kimchi contra minha vontade. Havia perdido a fome.

— Eu já disse isso umas duzentas vezes, mas continuo espantando em ver vocês comendo a janta como café da manhã. — ele comentou, partindo para a próxima fruta. Uma pera desta vez. — Os coreanos precisam compartilhar essa receita com o resto do mundo, pois magreza é o que não falta por aqui.

— Isso tudo é questão de costume. — respondi simplista, não achando nada daquilo impressionante. — Não adianta impôr a nossa dieta pra um americano. Em menos de uma semana ele enlouquece.

— Depende da pessoa. Há muitos esteriótipos de americanos.

— É. — concordei, encerrando a pequena discussão. — Mas e aí, conseguiu o telefone de alguma no sábado? — perguntei sugestivo.

— Não, as mulheres daqui são muito hostis. E exigentes... Além de eu ser... Você sabe. — apontou para si mesmo, referindo-se ao tom da pele. — Não sou sortudo que nem você.

— Esquece esse negócio de sorte, Akin. Eu só sou um homem coreano que chama mais atenção do que deveria.

— Bem mais, eu diria. Lindo é um elogio muito pequeno para descrever a sua beleza. — falou alegre, sabendo que me deixaria sem jeito. Sou muito sensível a elogios. — Você parece um boneco de porcelana.

— Chega! — exclamei, e ele riu. Fiz cara feia, emburrado, e continuei com o assunto. — Mas e os petit's, hum? Você me disse que também estava interessado.

Petit é o código que Akin gosta de usar quando se refere a nós, homens coreanos. Francês é o idioma favorito dele, então escolheu esta palavra, tanto pela sonoridade agradável quanto pelo significado. Ele não usa esse termo no sentido pejorativo, longe disso, principalmente se considerarmos que não há discussão quando o assunto é tamanho, seja em altura ou o comprimento lá das partes inferiores. Isso fere profundamente o meu orgulho porém como eu disse, não há argumentos contra um fato.

— Isso é mais difícil do que conseguir uma mulher, mas não posso ignorar o fato que já recebi olhares... Meio... Sugestivos. — falou baixo.

— É... Fica de olho porque há mais interessados do que você pode imaginar.

O homem apenas concordou, crente em minhas palavras, e em menos de cinco minutos já estávamos prontos para ir embora, tomando o mesmo rumo de sempre. Eu já havia pago a conta quando ouvi o sino da porta tintilar, e nem tive tempo de sair da fila quando fui atacado pelo meu melhor amigo, que prontamente agarrou-se ao meu ombro esquerdo, seu lugar favorito no mundo. 

— Oi Taehyungie, tudo bem? — falou casual, como se não parecesse desesperado por algo.

— Oi... — respondi suspeito. — Qual o problema de hoje?

— Ela tá atrás de mim de novo! — sussurrou alto, esganiçado. — Começou a me seguir logo depois que saí do dormitório. Não quero que ela descubra onde é o meu estágio, pelo amor de Deus. — falou nervoso, apertando meus braços.

Suspirei, cansado das tantas stalkers que vão atrás de Jimin com frequência. Ele não é famoso nem nada do gênero, mas tem quase 800 mil seguidores no Instagram, o que deveria de ser digno de um prêmio. O garoto não faz nada de diferente dos outros e recebe cada vez mais mensagens, elogios e é claro, perseguidoras.

— Tudo bem, eu te protejo. — assenti calmo, andando grudado a ele até chegar em Akin. — Quem ousar se aproximar de você vai levar um processo na justiça.

— E sou eu mesmo que vou processar. — riu.

— Olá pequeno Chim! — cumprimentou sorridente. — Bom te ver.

Akin realmente adorava Jimin, sua altura diminuta principalmente, tanto que o apelidou assim.

— Olá. — respondeu simpático, olhando para cima como o habitual. — Pode parar de ser tão alto, por favor? Obrigado.

O outro apenas riu, bagunçando-lhe os cabelos castanhos num gesto amigável de 'desculpa mas eu não tenho culpa por ser mais alto do que você'. Todo dia eles discutiam isso, e ao menos aquilo o entretia, porque eu jurava estar sentindo alguém nos seguindo.


[...]


Cheguei na pequena sala tremendo de frio, e a primeira coisa que fiz foi preparar um mísero copinho de 100ml de chocolate quente, o máximo que a máquina de café conseguia me oferecer sem pagar. Não é caro, mas cada centavo conta quando se quer economizar.

Sentei na minha cadeira rotatória e liguei o computador, pronto para mais um dia digitalizando livros e documentos. Eu trabalho numa espécie de mini arquivo que é acoplado a Seoul National University Library, a biblioteca central da universidade, e no momento estou digitalizando parte do acervo que temos, tudo para alimentar a futura biblioteca digital que está em processo de desenvolvimento. Óbvio que não sou o único fazendo isso, principalmente porque há mais de cinco milhões de livros espalhados entre as prateleiras dos seis andares do prédio principal.

Um trabalho árduo que com certeza valerá a pena.

E por falar nisso, Jimin também trabalha comigo na biblioteca, apesar de não ter muita relação com sua área de formação, e isso apenas ocorreu porque ele implorou para o seu orientador deixá-lo fazer o estágio ali, comigo.

— Você acha que o meu cabelo tá crescendo? — o moreno perguntou, ajeitando suas madeixas em frente à espécie de espelho que há na frente da porta do microondas.

— Você me pergunta isso quase todos os dias, e eu quase todos os dias respondo: sim Jiminnie, ele está cada vez maior.

— Mas maior quanto? — perguntou fazendo bico.

— Não o suficiente para você estragar de novo.

— Ah...

Faz quase quatro meses que Jimin passou por um corte químico devido ao excesso de tintura, resultado de anos pintando, repintando e descolorindo sem parar. Eu avisei várias vezes que isso iria acabar acontecendo, mas ele por acaso me ouviu? Foi muito choro até conseguir ver aquele cabelo crescendo novamente, e agora que os produtos de restauração estavam fazendo efeito, o garoto já estava empolgado novamente para pintá-lo. Algo que eu definitivamente não iria deixar.

Aquele couro cabeludo merece um pouco de paz.

— Seu cabelo castanho é lindo, para de reclamar.

— Você só diz isso porque nunca pintou. — implicou, cruzando os braços.

— E nem vou. — aticei, chacoalhando a cabeça para mostrar meus fios enormes e macios, meio encaracolados devido à escova. Eu sei cuidar do meu cabelo.

— Eu ainda vou te convencer a fazer um match comigo. Azul e rosa, lembre-se disso. — ameaçou me apontando o dedo indicador.

— Vai sonhando.

Falsamente irritado comigo, ele foi embora, me deixando trabalhar em paz. Sempre fomos assim, mesmo depois de anos, provocando um ao outro para minutos depois estarmos abraçados no mesmo sofá. Isso acontecia desde os nossos 16 anos, época em que nos conhecemos.

Lembro perfeitamente da nossa primeira troca de olhares, no vestiário do colégio. Foi um encontro muito vergonhoso, pois eu havia acabado de sair do banho, vestindo apenas minhas boxers vermelhas e camisa da mesma cor quando fui até o meu armário buscar o resto das coisas. Completamente despreocupado, pois fui o último a sair da ducha, deparei-me com Jimin, um garoto bochechudo e adorável, todo encharcado de suor por algum motivo que até hoje não sei explicar. Ele não estava fazendo educação física comigo, então não encontrei explicação plausível para vê-lo ali.

Não falamos nada nesta ocasião (ele simplesmente fugiu, envergonhado com a situação estranha), e só acabamos por nos encontrar novamente no dia seguinte, quando ele começou a estudar na mesma sala que eu. Nossa conexão não foi imediata, mas quando vi o Jimin ser excluído pelos colegas imediatamente briguei com eles, acolhendo Park como um amigo. Amigo este que eu não esperava se tornar o melhor dentre todos, minha verdadeira alma gêmea. Em pouco tempo nos tornamos inseparáveis, uma dupla incrível que praticamente pensava usando o mesmo cérebro, sabendo quase tudo sobre o outro. Éramos opostos que se completavam, ele sendo tímido e eu o extrovertido amigável.

Mas como dizem, o mundo dá voltas, e acabamos aos poucos invertendo as posições. Jimin tornou-se a borboletinha social, sempre empolgado com as conversas alheias, enquanto eu me converti num ambivertido, a junção de introversão e extroversão, sendo que ultimamente me considero mais um antissocial do que qualquer outra coisa.

Interagir com pessoas estranhas suga cada vez mais minhas energias, e às vezes só quero me trancar no quarto e relaxar, ser quem exatamente sou. O mundo lá fora é cruel demais, crítico em excesso para que eu, e grande parte das pessoas sejam completamente aceitas. Um sorriso falso já convence, os relacionamentos são baseados na traição, criados apenas para lucrar. Estamos sendo criados para sermos humanos ou criaturas robóticas, todas presas a um padrão?

É por causa dessas reflexões banais que me reclusei dentro de mim mesmo nos últimos meses. Evito conversas aleatórias e sem propósito, não saio de casa sem um bom motivo, tampouco vou à festas e eventos sociais.

Mas às vezes as coisas mudam. O mundo dá voltas, lembra?

Durante a manhã fiquei a sós com meus documentos e ao meio dia almocei com Jimin. Conversamos sobre nossos planos para o final de semana, e eu ainda estava decidindo se iria cuidar de crianças ou não. Como fonte de renda extra (utilizado majoritariamente para pagar minha parcela do aluguel), eu virava babá durante os finais de semana, ajudando muitos pais à se divertirem durante o sábado e domingo sem se preocupar com os filhos e nem com o preço que lhes seria cobrado por causa disso. Geralmente cobro barato pelo serviço, principalmente porque não é nem um pouco sacrificante tomar conta de alguns pequenos durante uma tarde e noite, pelo menos para mim. Simplesmente amo crianças.

Enquanto isso, Park é o completo oposto, não no quesito dos pestinhas, mas à tranquilidade dos finais de semana. Ele geralmente procurava locais agitados, com o envolvimento ou não de bebidas alcoólicas. Apesar disso, Jimin também conseguia ser bem doméstico, passando o dia inteiro enrolado em cobertores com o único objetivo de assistir doramas e comer o máximo de porcarias que conseguisse.

Passamos quase uma hora conversando sobre aleatoriedades, até que à tarde nos separamos, cada um para as suas aulas. Fiquei o período inteiro bocejando, cansado pela má noite de sono.

Eu deveria mesmo ter tomado aquele remédio.

Por volta das seis horas foi quando respirei fundo e me preparei para enfrentar a fila lotada do supermercado. Agasalhei-me melhor, pondo meu cachecol amarelo listrado para enfrentar um frio nada exagerado de 8°C. Uma temperatura relativamente alta comparada ao inverno que estou habituado.

E foi a partir dali que minhas programações começaram a desandar, pois todo o sistema de caixas caiu. Tanto o atendimento convencional quanto o autoatendimento, tudo parado. A fila começou a ficar enorme, e eu estava literalmente arrependido de não ter optado por ir numa loja de conveniência qualquer.

Grande parte das pessoas não tinha dinheiro físico para pagar as contas, então o que me restou foi esperar. Em cinco minutos, já havia espiado todo o meu redor, desde o teto super iluminado até as besteiras tentadoras que ficavam expostas nas divisões entre os caixas. Não pude me conter em pedir uma Coca-Cola para a pessoa na minha frente, que estava bem mais próxima do frigobar.

— Com licença. — falei alto, não querendo ter a indelicadeza de cutucá-lo.

O homem não pareceu me ouvir, envolvido demais no ato de bater o pé no chão, tão impaciente com a situação quanto eu.

— Com licença. — repeti, encostando levemente em seu ombro.

— Oh desculpe. — ele disse, virando-se para mim, quase assustado. Seus olhos eram amendoados, chamativos. — O que deseja?

— Só quero que você me alcance uma Coca-Cola, por favor. Não consigo alcançar.

O rapaz apenas assentiu, usando a mão vaga para abrir a portinhola e pegar a bebida gelada. Ele simplesmente entregou-me e voltou ao seu próprio mundo.

— Muito obrigado. — agradeci, encerrando a conversa por ali.

Coloquei a latinha na minha cestinha, e enquanto continuava esperando pelo que parecia ser uma eternidade, comecei a indevidamente analisar aquele que me entregou o refrigerante. Eu sou um observador assíduo do mundo, e como estava entediado, julguei mentalmente suas vestimentas, a única coisa que havia para observar e me entreter naquele instante. Este é um velho costume que carrego da minha infância no interior, quando meus pais davam pitaco das roupas de gente da cidade.

Ele usava calças jeans básicas e sapatos pretos comuns, uma camisa de flanela amarela xadrez e um casaco preto básico por cima. Nada de incomum, anormal ou chamativo. Um coreano que facilmente passa despercebido dentre a multidão.

O que eu não esperava era subitamente me interessar nele, em como a cada minuto seu corpo tremelicava mais, inquieto. O rapaz parecia sofrer de alguma espécie de ansiedade, pois não parava de mover-se, desta vez virando de lado o suficiente para eu notar seu dedão na boca, mordiscando a unha.

Algo nele realmente me prendeu a atenção, como se fosse um imã para os meus olhos de metal, e foi nesse momento que abandonei minha postura de antissocial, voltando aos tempos em que eu era simpático e o mais popular da escola. Conversaria com um estranho por completa curiosidade e um pouco de tédio, quem diria?

— Você está bem? — perguntei em bom tom, chamando sua atenção. — Parece nervoso com alguma coisa. Não que isso seja de minha incumbência. — completei, mais formal do que realmente necessário.

— Odeio esperar. E odeio mais ainda quando minha rotina não vai conforme o planejado. — respondeu meio grosso, me parecendo mais frustrado do que raivoso.

— Paciência é uma virtude. Nem tudo o que planejamos se concretiza exatamente da maneira que esperávamos. Na verdade, às vezes nem acontece. — respondi, me sentindo como um velho sábio apesar de não saber nem metade do que eles sabem. Foi um péssimo começo de diálogo.

— Parece meu amigo falando. — riu de leve, balançando os ombros num gesto que eu poderia vergonhosamente denominar de adorável.

— Seu amigo parece ser inteligente.

— E ele é. O velho de 24 anos mais sábio que já conheci.

Arqueei a sombrancelha, um pouco confuso com sua resposta paradoxa. Apenas ignorei, querendo continuar com o diálogo despreocupado.

— Quais eram seus planos que foram por água abaixo? Se é que me permite perguntar.

— Não precisa ser tão formal, eu só queria estudar. — falou simpático. — Eu preciso me esforçar muito pra alcançar o que eu quero.

— Que curso você faz? — questionei curioso, imaginando que ele deveria ser um calouro. Sua aura reflete o espírito de um universitário.

— Enfermagem, e você? Digo, você me parece ser um universitário. — corrigiu-se rapidamente, roçando a mão na própria nuca e olhando para baixo. — Talvez eu esteja enganado.

Um futuro enfermeiro... O rapaz é realmente esforçado.

— Eu sou universitário. — respondi. — Faço arquivologia. Sabe, aquele curso que todo mundo esquece que existe. — afirmei, sendo minimamente realista. Poucas pessoas conhecem a profissão, e menos ainda sabem o que os arquivistas realmente fazem.

— Ah, já ouvi falar... Parece ser legal. Documentos são mais fáceis de tratar do que pacientes, eu presumo.

— É, hoje em dia tudo fica mais fácil com a tecnologia. Os processos são muito mais ágeis.

— Hmm... Por que escolheu essa área? — perguntou pensativo, talvez querendo continuar com a conversa.

— Não quer tentar adivinhar? — sugeri, querendo entretê-lo.

— É... Não consigo pensar em nenhum motivo imediato, desculpa. — murmurou, talvez um pouco decepcionado. — Quem sabe você goste de livros?

— Quase isso. Quando tive que enfrentar esse desafio de escolher uma profissão, eu apenas pensei que gostaria de um pouco de calma na minha rotina. No sentido de paz mesmo, nada de poluição sonora, essas coisas. Silêncio é algo que nunca quero abrir mão. — admiti. — Junte isso e a falta de vontade das pessoas em visitar arquivos e encontre a possível profissão dos meus sonhos. — resumi, não querendo revelar destalhes desnecessários sobre brigas familiares quanto às essas decisões.

— Acho que vou começar a visitar mais arquivos então. — sorriu pequeno, mostrando seus dentes que notei serem um pouco avantajados. — Q-quer dizer, eu nunca visitei um arquivo então deve ser legal... — corrigiu-se nervoso, novamente pondo a mão na nuca.

Encarei-o com uma expressão confusa, não sabendo identificar se aquilo foi uma espécie de flerte ou apenas um mal entendido. Ficamos mínimos segundos em silêncio, e tratei de comentar algo antes que o clima ficasse estranho.

— Eu não diria que é legal, mas curioso... Se você tiver um bom guia lá dentro, as coisas ficam mais divertidas. — dei de ombros, trocando minha cestinha de braço pois estava ficando pesado demais. — Mas então, você deve ter escolhido enfermagem porque gosta de cuidar das pessoas...? Não sei se essa frase é muito... Genérica.

— Em parte. Eu escolhi Enfermagem porque minha mãe sempre disse que combinava comigo, com a minha personalidade. Acho que sou bom em tratar as pessoas.

— Você tem uma vocação linda.

Sempre admirei o trabalho dos médicos e enfermeiros. É literalmente graças a eles que estamos vivos, e principalmente evoluídos, com tantos tratamentos para as mais pequenas enfermidades.

— Obrigado... Eu-

"Atenção senhores clientes, os caixas já voltaram a funcionar normalmente. Mantenham a fila que logo todos serão atendidos. Muito obrigado pela compreensão." — uma voz masculina e simpática falou pelo microfone, informando todo o supermercado sobre a ótima notícia.

— Finalmente! — exclamei quase agradecendo aos céus. — Ah, o que você estava dizendo mesmo?

— Nada de importante. — negou com a cabeça, voltando a sua posição inicial, de costas para mim. — Tenha uma boa noite.

— Igualmente. — respondi automático, refletindo sobre o tinha acabado de acontecer.

Faz anos que não gosto mais de conversar com estranhos, e agora uma conversa fluiu extremamente bem? Talvez Jimin esteja certo em afirmar que eu ainda tenha talento para isso. 

— Próximo, por favor.

E assim a fila continuou, comigo tomando a Coca-Cola que logo seria devidamente paga e as pessoas tagarelando felizes por finalmente poderem voltar às suas rotinas.

O rapaz na minha frente não demorou a ser atendido, e em menos de dez minutos ele sumiu pela porta de vidro automática, provavelmente para sempre, pois nunca nos veríamos novamente.


Notas Finais


Já exagerei na primeira interação taekook pq vai demorar pra ter próxima vez hihi

Espero que tenham gostado desse comecinho :)


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