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História Mystery of Love. - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Ei, essa one shot é originalmente minha e escrita para Camren, e foi publicada no Wattpad. Porém, acho que ela se encaixa muito bem com Villaneve e decidi adaptá-la aqui.

Música: Mystery of Love - Sufjan Stevens ou Visions of Gideon - Sufjan Stevens. Para toda a leitura.

PS: Usei a imagem da Chloe porque, aqui, a Villanelle é mais nova, porém ainda sim não chega a ser a idade de Killing Eve.

Capítulo 1 - Isn't it Strange that I Want You All the Time?


POV VILLANELLE.

O norte da Itália no verão era um dos meus lugares favoritos. Eu amava o cenário extremamente vivo e colorido que me cercava desde a casa de meus pais até o centro da cidade, que não tinha muito a se fazer, apenas uma livraria e cafeteria eram o meu entretenimento durante os dias. De fato, a literatura italiana me apetecia muito mais do que os livros famosos e latino-americanos que eu possuía jogados no chão de meu quarto, entre a porta do guarda-roupa e a parte de trás da porta. Talvez fosse o fato de que eu passava mais tempo aqui do que em qualquer outro lugar do mundo, eu era apaixonada pela forma como a cidade pacata conseguia carregar muito de mim, sendo passiva de todo e qualquer grande acontecimento, levando consigo a leveza e a beleza de algo desconhecido, que encantava poucos e acalentava os dias das pessoas sem muito esforço, e, pensando que eu dividia os meus dias entre leituras, conversas com meu pai, Konstantin Vasiliev Astankova, um historiador e professor de literatura aposentado, e o piano preto que me aquecia com as minhas próprias composições. 

Em uma manhã de terça feira, eu a vi pela primeira vez. Ela chegou em um carro simples, provavelmente algum presente de boas vindas de meu pai, eu me lembro de estar na janela de meu quarto, no segundo andar, e apreciá-la abrir a porta e dar a volta no conversível verde, se apresentando formalmente à meu pai, que a acompanhava na recepção a nossa casa, ela tinha os cabelos beijados pelo sol que resolvia aparecer mais forte, sempre às dez horas, sua pele brilhava um pouco devido a claridade excessiva, e sua voz parecia bonita, vendo-a dali, eu conseguia sentir que ela era muito, mas eu não podia ver se isso era realmente verdade.

No fim da manhã, quase perto de completar meio dia e meio, ela apareceu na porta do meu quarto, eu pude então reparar que seus olhos eram escuros e puxados, eu conseguia ver parte do próprio cômodo dentro deles, inclusive eu mesma refletida na cor cristalina dos mesmos. Ela não disse nada, segurava sua mala marrom em uma das mãos e parecia procurar algo através de mim, e então eu me lembrei, aquele quarto seria dela durante o verão, e o de hóspedes seria o meu, não foi uma grande decisão ou uma que me deixasse feliz, com essa lembrança apenas me afastei do batente, deixando que ela passasse entre a porta de madeira branca, caminhando em passos lentos até a outra porta, dessa vez azul, que dava direto ao outro quarto, antes que ela pudesse alcançar, entretanto, eu me movi minimamente para seu encontro, vendo que ela parou, de costas para mim, não fez menção de virar ou dizer algo, esperou que eu o fizesse, porém, eu não o fiz, apenas fiz meu pequeno caminho até ela, reparando, pela primeira vez naquele verão, que ela teria que passar pelo meu quarto todos os dias para entrar ou sair do seu, visto que um cômodo ficava dentro do outro, a não ser que ela se lembrasse de usar a porta lateral, que dava direto nas escadas que levavam até o corredor da varanda. Eu estava impressionada, com seu cheiro amadeirado, mas não tão forte como esses costumam ser, com a cor de seu cabelo, que agraciava sua pele, contrastando contrariamente na cor preta, na altura de seus ombros, com seus lábios rosados, com a forma que ela se empenhava em passar sua língua neles, molhando-os com maestria e delicadeza, seria delicioso vê-la, se não fosse trágico saber que eu a teria como uma colega de quarto, que estava ali somente para concluir seu mestrado. E eu não podia competir com isso, com sua repentina presença, que parecia encher meus pulmões com tão pouco, eu não podia competir com o quão claro seus olhos pareciam ficar naquele ponto do quarto, de frente para a grande janela que sustentou meu corpo quando eu a vi chegar algumas horas antes, e com esse pensamento, permiti que ela fizesse seu caminho até o outro cômodo, fechando a porta de madeira que se dobrava ao meio e continha uma alça para que fosse puxada em seu meio.
Eu suspirei, como nunca havia feito antes, talvez eu soubesse que não poderia desfrutar muito de sua companhia, talvez eu estivesse começando a odiar o fato de que eu ainda estava pensando em como seus olhos eram tão bonitos quanto a própria Itália na época de seu auge veraneio.

Oh, to see without my eyes

Ela não me dirigiu a palavra, nem quando desceu para a cozinha, onde eu estava encostada no balcão, conversando com Helene, a governanta da casa e grande amiga de minha mãe, nem quando meu pai entrou, com seus óculos escuros e a camisa despojada e bege aberta com os três botões superiores, nem quando ela engatou uma conversa sobre escritores italianos e sua primeira manhã na casa dos Astankova, muito menos quando Konstantin sugeriu que fôssemos até o centro, para que eu pudesse acompanhá-la e lhe mostrar a cidade. Eu hesitei, mas mesmo sem me dizer uma palavra com sua boca, ela me disse muitas com seus olhos, e todas elas eu não consegui identificar, pelo menos não naquele dia.
Ela me acompanhou até a lateral da casa, onde haviam duas bicicletas, uma na cor azul, que era minha, e uma na cor branca, que era de Kenny, o ajudante de meu pai e também um garoto extremamente bonito, de olhos castanhos e cabelos, também castanhos, curtos, ele era um bom amigo e passava as férias de verão conosco, já que era o que sua família permitia. Eu perguntei a Kenny, assim que ele se aproximou de nós se ela poderia usar sua bicicleta, ele nada disse, apenas acenou e sorriu. A forma como ela graciosamente jogou os cabelos para trás, colocando-os atrás da orelha, se posicionou em cima do pequeno banco e se pôs a pedalar até o portão de entrada, me deixou inquieta, seus gestos pareciam calculados e pareciam também querer me ferir, mas eu não sabia se chegava de fato a me machucar.

Eu suspirei com calma, impulsionando meu corpo e me sentando no banco, pedalando em sua frente, e tendo ela me acompanhando ao meu lado direito, na mesma linha, mesma postura, mesma altura onde nossos cabelos insistiam em voar e deixar o clima menos pesado e mais aconchegante, já que a nossa volta a cidade ficava cada vez mais viva, eu queria apenas parar e tentar ver como seus olhos ficaram no meio de todo aquele verde e azul que nos cercava, mas, eu não poderia me permitir sentir esse luxo. Chegamos no centro quase às duas horas da tarde, não haviam quase pessoas ali, visto que essa era uma cidade de temporada, onde as pessoas passavam as férias e depois voltaram às vidas em outros cantos da Europa. Assim como a família Astankova voltava a rotina de serem uma das mais influentes da cidade de Milão.
Em um canto, perto do arco que dividia os dois lados do centro, nos sentamos em algumas cadeiras, eu com meu livro sobre uma história de romance barata que eu peguei rapidamente antes de sairmos, e ela com seu mapa da cidade e uma caneta, suas mãos eram delicadas e seus dedos finos, alguns anéis pairavam nos mesmos, um com uma pequena pérola e outros apenas prateados e sem detalhes, distribuídos em dois dedos da mão direita e outros três da mão esquerda, ela segurava a caneta de forma elegante, sua testa franzia quando fazia algum círculo em uma parte do mapa onde indicava que havia algum tipo de diversão por ali, que geralmente só começava depois das oito horas da noite.

— O que as pessoas costumam fazer em Crema? — ela perguntou calmamente, sua voz escorregando levemente de seus lábios em um tom rouco e, doce. Eu paralisei por dentro, sentindo como tudo parou aos poucos e apenas esse som se fazia presente no lugar de meus órgãos, ossos e veias. Talvez eu devesse falar com ela ao invés de apertar o livro com certa força, vendo que os nós de meus dedos estavam brancos e me desesperando ao saber que ela poderia se virar a qualquer momento para ver se eu ainda estava ali, se eu pretendia lhe responder. Com esse pensamento, abaixei meu livro na altura da mesa, apoiando o mesmo sem força, dessa vez, em sua superfície clara.

— Apenas esperam o verão passar. — eu respondi, sabendo que minha voz saiu sussurrada e também, rouca. Ela riu, um som baixo, gostoso e curto, que me entorpeceu sem que eu pudesse controlar qualquer outro sentimento. Eu a odiava por me fazer sentir algo.

— O que você costuma fazer por aqui, além de esperar o verão passar? — Novamente ela fez questão de falar da maneira que parecia tão normal, mas que me causava todas as borboletas que eu nunca pensei que poderia sentir antes.

— Ler, compôr, tocar, às vezes ir até Dolce far niente. — expliquei sem demorar demais em nenhuma palavra, pois sabia que se o fizesse ela questionaria, apesar de que eu gostaria de estar errada sobre isso. E, bem, eu realmente estava, após isso ela não falou mais nada, decidindo então se levantar e pegar a bicicleta, novamente repetindo os gestos graciosos de mais cedo, antes de murmurar um "Later", provavelmente uma de suas expressões americanas e me deixar ali, com o sol batendo em meu rosto me fazendo querer queimar e com o olhar perdido entre o arco e seu corpo desaparecendo pela lateral do mesmo.

The first time that you kissed me

Voltei para a casa de meus pais e o relógio marcava exatamente quatro horas da tarde, depois de sua ausência eu pedalei calmamente pelo caminho de sempre, onde a única coisa que parecia diferente era a falta que ela parecia fazer ao meu lado, mas isso não supria sua freqüência em meus pensamentos. Meu pai tentou conversar comigo, não obtendo mais do que poucas palavras minhas antes de me ver subir as escadas com passos lentos, eu queria prolongar aquele dia, ou talvez eu só quisesse saber se ela voltaria logo.
Mas, ela não apareceu até, pelo menos, às dez horas da noite, eu não sabia como ela estava, já que ela resolveu utilizar a porta lateral para entrar em seu quarto, eu via a sombra de seus pés se moverem pelo quarto, sua luz acesa e seu cheiro parecia ultrapassar as frestas da porta azul, eu vi o vislumbre de uma peça de roupa ser jogada no chão, devia ser sua camisa social branca e de mangas longas, que ela usava dobrada até os cotovelos, e logo depois outra peça ser deixada no piso de madeira, dessa vez eu tinha certeza que era seu short preto de algodão, tão fino quanto a linha tênue que dividia a minha vontade de bater em sua porta e a de nunca mais ter que olhá-la durante o verão. A luz se apagou e apenas o silêncio restou nos dois quartos, eu me permiti alcançar cautelosamente o móvel ao lado da minha cama, pegando um caderno onde eu costumava escrever minhas composições, e abrindo em uma página qualquer, eu costumava dormir com a janela aberta, deixando que a luz da lua se aconchegasse no cômodo.

O que eu poderia escrever ali? Se eu dissesse que sua presença não me fazia querer escrever e compôr como uma louca por todas as folhas daquele caderno, estaria mentindo. Eu estaria mentindo se dissesse que, de todas as vezes que eu a vi desde que chegou, a tarde de hoje foi a primeira em que ela conversou comigo, me deixando pelo resto do dia com sua voz em cada célula que me compunha.

"você tem os lábios do inferno

gostaria de tocá-los

e se eu não queimar

você faria isso por mim?

você tem os olhos de um pecador

eu consigo ver o meu desejo neles

eu consigo sentir a minha libido neles

eu consigo saborear o meu pecado neles

você tem o corpo da insanidade

gostaria de tocá-lo

e se eu não mergulhar nele

você faria isso por mim?

você tem a forma exata da destruição do meu coração

a sedução escorre dos seus lábios 

a loucura percorre seus dedos 

e eles me tocam

se eu me tornasse santa na sua boca

você se tornaria pecadora entre minhas pernas?"

Eu percebi, então, que aquelas palavras eram mais suas do que minhas, eram do desejo desconhecido que eu sentia, se eu as colocasse em sua boca e deixasse que a rouquidão acariciasse todas elas enquanto seus olhos me analisavam dos pés a cabeça, eu seria inteiramente dela.

Na semana que se seguiu nós não conversamos, não nos olhamos, não nos encontramos entre os quartos, os meus dias se resumiram a ler alguns livros da literatura italiana, conversar com Helene, escrever algumas coisas e rabiscá-las depois, percebendo que em uma dessas vezes eu preenchi a folha amarelada do caderno com seu nome, era um conjunto inevitável de letras que eu fazia questão de completar com a minha voz sussurrada, quando sabia que ela não estava no quarto ao lado para me ouvir. Eu não a vi nos cafés da manhã, nos almoços ou jantares, nem mesmo quando meus pais resolveram fazer um jantar para a família Montero, que era uma velha conhecida dos Astankova, nem mesmo quando Maria, a filha do casal que conversava animadamente com Konstantin e Carolyn, sobre as aulas de violino da filha única, se aproximou de mim e deixou que seu corpo se encostasse no meu, eu não era próxima de Maria, não conhecia quase nada sobre ela além do que meus pais falavam vez ou outra, mas, eu sabia que ela tinha belos olhos marrons e um sorriso muito delicado, ela nada disse, e mais uma vez eu convivia com o silêncio de outra mulher que passava pelo meu verão. Mas, quando meu pai pediu que eu tocasse algo no piano, que ela direcionou seus olhos para mim, e se permitiu mover seu corpo para o lado, vendo que eu não pretendia me mexer, Konstantin então insinuou que eu estava estragando o jantar animado com meu belo e peculiar mau humor, e tudo isso porque eu não a via por uma semana inteira.

Me levantei quando percebi que todos os outros componentes na sala clamavam para que eu me sentasse no banco em frente ao piano e tocasse algo que os agradasse. Não decidi tocar nenhuma de minhas composições, apenas apoiei os dedos sobre as teclas e deixei que a melodia de Piano Sonata No. 16 ressoasse pelo cômodo. Pelo canto do olho pude perceber que Maria me observava com atenção, meus pais sorriam minimamente e a família vizinha apreciava sem esboçar reações, eu também pude perceber ela aparecer no canto do corredor, onde um arco grande dividia a sala do hall da escada, suas roupas casuais e seu cabelo levemente bagunçado denunciavam que, mais uma vez, ela passou parte da noite em algum dos restaurantes que fechavam após às onze da noite, ela não parou na sala, não fez menção de conversar com qualquer um que estivesse ali, apenas subiu e me fez esquecer por alguns segundos que eu deveria dedicar minha atenção em não errar as notas, porém, eu conhecia aquela composição como a palma da minha mão, sabendo que Mozart era uma das minhas maiores paixões e influências no piano. Mais tarde naquela noite, eu assisti calmamente a família Montero se despedir de nós, eu assisti Maria me lançar um breve sorriso antes de partir para fora da casa com seus pais, e eu assisti meu corpo ser o único a restar no cômodo, após meus pais se retirarem para seu quarto, que ficava no andar de baixo. Subi as escadas lentamente, e reparei ao entrar em meu quarto que a luz do quarto dela estava acesa, não havia movimento ou barulho, apenas a sombra de seus pés perto da porta, talvez ela estivesse pensando se deveria falar comigo, talvez ela quisesse realmente falar comigo, ou talvez ela só estivesse esperando que eu entrasse para que sua luz fosse apagada e seus passos calmos acabassem no pé da cama, uma semana inteira que eu não a vi, mas podia novamente me deslumbrar com seu cheiro. Era perigoso pensar que ela estava a uma porta de distância, e o que nos impedia de ter uma conversa era o fato de que nenhuma de nós estava disposta a ceder primeiro, eu não iria ceder até que ela me olhasse nos olhos.

Na manhã seguinte ela se sentou a mesa onde costumávamos fazer as refeições, no jardim dos fundos, seu rosto parecia mais bonito naquele dia, seus olhos forçaram minimamente para nos encarar devido ao sol que estava posto ao seu lado, sem que se fixasse exatamente em alguém, os cabelos presos em um coque e sua voz saindo animadamente quando resolveu ceder as investidas de meu pai para falarem sobre como estava sendo sua estadia em Crema, ela falou brevemente dos dias em que passava na cidade para pegar partes de seu trabalho redigitado, sobre as noites em que sua diversão era apenas se sentar em uma das mesas da pizzaria do centro e conversar com estranhos que ela veria novamente vez ou outra, já que a cidade não era grande o suficiente para se esquecer ou não esbarrar com alguém que já se viu anteriormente. Ela era definitivamente linda.

Naquele dia em questão ela não teria nada para fazer, então minha mãe sugeriu que fôssemos ao lago que ficava no lado oposto de onde estávamos, ela pareceu surpresa no começo, mas logo aceitou a ideia, se colocando ao meu lado quando me levantei para caminhar até o andar de cima, passando pela cozinha, sala e hall, antes de entrar em meu quarto, esperei que ela fizesse o mesmo com o seu, entretanto, diferentemente dos outros dias desde que chegou, ela entrou junto comigo, seu corpo muito próximo ao meu e sua respiração calma, ela observava o quarto e então me olhou quando eu me deitei preguiçosamente na cama.

— Pensei que a ideia do lago era interessante. — ela falou com um tom levemente divertido na voz, mas eu apenas foquei no quanto aquele som me fez falta durante toda a primeira semana em que a vi, no quanto eu queria que ela falasse mais, porém tinha medo de que talvez ela não quisesse falar comigo porque sentia vontade e sim porque devia isso aos meus pais, visto que me tratar com educação era o mínimo que poderia fazer.

— É, mas, você pode ir, meus pais sabem o caminho, garanto que chegará lá sem se perder. — meu tom de voz saindo do jeito que eu imaginei, com uma pitada de dor e felicidade, dor por ter que conversar com ela e me sentir eufórica, e felicidade pelo mesmo motivo.

— Uh, vamos, eu sei que você quer estar comigo na minha primeira vez no famoso lago. — ela deu uma pequena ênfase no verbo, o que me fez pensar se ela imaginava ou tinha ideia dos sentimentos avassaladores que eu nutria por ela. E então, sem vergonha ou receio algum ela tocou minha perna, já que estava no pé da cama, no meu oposto, me fazendo sentir um arrepio em todo o resto do meu corpo, não deixei que ela percebesse que aquilo havia me afetado de todas as maneiras boas e ruins possíveis, apenas deixei que ela falasse, não me movendo até que ela percebesse que suas unhas curtas faziam um carinho estranhamente bom em mim. — Pode me contar mais sobre Mozart, ou sobre alguma de suas composições. — a maneira como ela falava e combinava os movimentos de seus dedos me deixava com a imensa vontade de nunca mais deixá-la realmente sair de perto de mim.

Boundless by the time I cried

No caminho até o lago nós não conversamos, parecia que uma fina camada de um silêncio desconfortável havia caído sobre nossos corpos, nos impedindo de ter qualquer tipo de diálogo. Ela deixou suas coisas no pé da cadeira onde eu pretendia me sentar e foi em direção ao pequeno cubículo de pedras que guardava as águas cristalinas, sem dizer absolutamente nada, se envolveu em seu mundo onde tudo que existia era apenas ela e seus rascunhos recém retirados da máquina de escrever. Eu me sentei em uma das cadeiras, contemplando o sol como se ele estivesse ali somente por mim, e dessa vez, diferente do caminho que fizemos até aqui, o silêncio que se seguiu foi extremamente útil, não precisávamos de palavras para saber que aquele momento era bom, mágico e calmo.

Sem perceber, eu acabei vendo, mesmo de longe, a forma como ela acabava relendo a mesma folha duas ou três vezes, talvez para enfatizar se o que estava escrito fazia sentido, e foi com esse pensamento que eu me levantei, caminhando até a beirada do lago e me sentando sobre as pedras, o sol ainda parecia me seguir e dessa vez, pousou sobre seu corpo, que estava coberto por um pequeno short de tecido fino e vermelho, e um sutiã branco, a pele dela ficava exatamente do jeito que eu imaginava sob a claridade, se eu pudesse descrevê-la naquele momento, diria que essa foi uma das melhores partes do meu verão, nada se comparava à ela, nem mesmo as paisagens italianas que nos cercavam, muito menos as inúmeras composições de Mozart que poderiam facilmente se encaixar em cada canto de seu corpo, e, definitivamente, nenhuma das belíssimas gotas de água que cobria nossos pés poderia se comparar a cor de seus olhos naquele momento. Eu fielmente achava que divindade alguma saberia descrever o que aquela mulher que franzia a testa a cada cinco minutos e parecia ler em pequenos sussurros, era realmente.

— Você pode ler, por favor, e me dizer se faz algum sentido? — ela perguntou de repente, e me entregou as duas folhas que estavam entre sua mão esquerda, lentamente eu deslizei as folhas para a minha mão direita, percebendo que ela parecia ligeiramente confusa com as palavras que ela mesma tinha escrito.
Então eu pude ler, sem pressa alguma da minha parte, e muito menos da dela, o trabalho que a trouxe até aqui, sua dissertação de mestrado. Ela era uma mulher inteligente, escolheu minuciosamente cada palavra distribuída entre as folhas, e eu finalmente me deixei levar por um breve momento, era mais do que sua espera sobre a minha opinião, era mais do que aquele lago, aquela pequena parcela de tempo que estávamos compartilhando, era mais do que a forma como ela fechou os olhos e deixou que aquela paisagem a acolhesse, como se fizesse parte dela e estivesse faltando para completar o que eu chamaria de simplesmente, um vislumbre do paraíso, era apenas sobre ela me deixando entrar em seu mundo, abrindo as portas e me deixando livre para explorar cada parte que existia ali, sem que sua boca precisasse me dizer onde ir, sem que seus olhos me guiassem, porque, de alguma forma, eu sabia exatamente onde ir.

— Faz total sentido para mim. — eu respondi após algum tempo, não sei dizer quantos minutos, mas foram o suficiente para eu ter certeza que ela estava esperando minha resposta, pois a sua veio logo em seguida.

— O que você acha de irmos até a cidade? Preciso buscar a outra parte dessa dissertação. — simplesmente disse e eu não precisei responder para que nós duas tivéssemos certeza de que eu iria a qualquer lugar com ela.

E sabendo disso ela se levantou, estava no extremo oposto de onde eu me sentei, e se sentou ao meu lado, pegando as folhas com uma das mãos e apoiando sobre as pedras, ela não me encarou ou fez menção disso, apenas deixou que seus pés acompanhassem a leveza da água até que estivessem nos meus, e com as mãos apoiadas nas mesmas pedras que nos sustentavam eu senti meu corpo tremer, um arrepio que se estendeu até o pé que tocava levemente no dela, como uma corrente elétrica que não teria fim, e mesmo que eu me afastasse, como realmente fiz, o formigamento permaneceu em cada célula existente em mim, e eu sentia, por alguma razão, que cada célula que eu tinha, desejava cada célula que a compunha.

Logo após isso, não conversamos novamente no caminho de volta até a casa de meus pais, não conversamos quando eu esperei que ela se vestisse em uma de suas camisas sociais que estava totalmente aberta, não conversamos quando andamos lado a lado até o portão de entrada, onde as bicicletas estavam, não conversamos em momento algum, mas a atmosfera ao nosso redor era mais leve do que todas as outras desde que ela chegou, talvez ela soubesse que precisávamos de um choque de realidade para perceber que o que eu sentia era mútuo, pelo menos era assim que eu queria pensar.
Apoiamos as bicicletas na parede da biblioteca da cidade e eu esperei que ela voltasse com as folhas, dessa vez quatro, e as dobrasse para guardar no bolso da camisa branca, ela não disse nada, mas me acompanhou quando eu decidi que empurrar a bicicleta e andar seria, de alguma forma, útil para que alguma de nós quebrasse o silêncio que havia se instalado por muito tempo, o que definitivamente funcionou.

— Eu te acho muito inteligente. — ela disse quando parou em frente as grades que protegiam uma das poucas estátuas da cidade, que guardava memórias sobre a antiga Itália.

— Eu apenas leio muito, não diria que é inteligência, talvez apenas um pouco de sabedoria. — respondi calmamente, embora eu sentisse que meu coração estava batendo mais leve que o normal e então eu percebi que ele seguia seus gestos e a sua respiração, ela estava apenas sendo sincera.

— De qualquer forma, é inteligente. — apoiou seus braços sobre as grades, ficando estrategicamente longe de mim, mas ainda no meu campo de visão.

— Eu gostaria de trocar essa inteligência pelo mínimo de coragem para dizer o que eu realmente deveria. — dessa vez minha voz saiu quase como um sussurro, e não havia nada ali além de nós duas para que ela não entendesse o que aquilo significava.

— E o que você realmente deveria dizer? — sua voz estava mais próxima e eu não precisei olhar para saber que ela tinha parado ao meu lado, eu conseguia sentir seu cheiro, eu conseguia ouvir a rouquidão que seu tom carregava, e eu rapidamente retornei ao nosso momento no lago, ela sabia o que eu estava dizendo, e ela sabia também que eu não iria dizer tais palavras em voz alta.

— Você sabe. — apenas afirmei, com um fio de voz, vendo que sua mão se encaminhou até meu pescoço, e dedilhou com calma até chegar em meu rosto, ela parecia sentir minha pele, sentir como eu estava em chamas com a ponta de seus dedos, ela queria sentir o que nós duas havíamos sentido quando ela me tocou em meu quarto, quando ela me tocou no lago, e tudo isso em apenas algumas horas atrás.

— Nós não podemos, seu pai jamais permitiria que isso acontecesse. — algo em sua voz me dizia que aquilo não era o que ela queria dizer, meu pai não tinha espaço em qualquer coisa que tivéssemos, esse era um medo dela, e isso ficou claro quando eu me virei, lentamente, encarando seus olhos, eu podia ver suas pupilas dilatadas e como ela não desviava nossos olhares, se eu conseguia ver o meu desejo nos olhos dela, também conseguia ver o dela, se dilatando até que não restasse muito do castanho escuro que estava ali poucos minutos atrás. — Não me faça falar sobre isso de novo, por favor. — ela falou a última frase como um sussurro e se afastou. Eu não deveria, mas eu realmente queria que nosso contato não tivesse tanta carga emocional e sexual para que ela não se afastasse tantas vezes, se eu significava alguma coisa que a fazia querer me manter longe, ela significava tudo o que eu queria por perto, e no meio disso não existia nada além dos nossos toques, nada além da calma e da sinceridade que ela tinha quando não se importava em deixar que sua pele fizesse parte da minha, por breves segundos.

Eu estava começando a achar que o silêncio era como uma montanha russa sobre nós, por vezes ele esteve denso e trazia uma atmosfera quase palpável de desconforto, mas, por outras, ele era calmo e me lembrava de que eu não era a única que precisava esconder algo por medo, mas, diferente dela, o medo que eu sentia era de não ser correspondida.

E em meio a esses pensamentos e a mais um silêncio que me castigava, nós voltamos pra casa e a rotina de não ter sua voz me seguindo pelos cômodos voltou. Mais uma semana se passou e eu não podia apreciar sua presença, simplesmente porque ela não ficava em casa quando eu estava lá, nem mesmo nos cafés da manhã, nem mesmo nos almoços onde eu ouvia meu pai perguntando se eu sabia sobre seu paradeiro, e eu sempre dizia que não, porque eu realmente não sabia, embora quisesse, nem mesmo nos jantares, nem mesmo quando por um momento de coragem, que eu não sei dizer qual, esbarrei com Maria no portão de casa e ela me chamou para irmos à cidade, e a sua voz doce e seu sorriso adorável me fizeram aceitar.

Nós pedalamos por um tempo, até chegarmos a uma parte da cidade onde o movimento às duas da tarde era relativamente grande, ela parou sua bicicleta vermelha ao lado da minha e se pôs a andar junto comigo. A grande diferença entre Maria e ela, era que nossa conversa fluía fácil, ela tinha um jeito tímido e muitas vezes leve, o que dissipava todo o meu medo de iniciar uma conversa atrás da outra, e fazia com que eu percebesse que mesmo ela sendo completamente diferente, eu ainda sentia falta do jeito sarcástico e de poucas palavras dela.
Maria era muito boa em tudo, me contava sobre suas aulas de violino e os livros que gostava de ler, nós tínhamos isso em comum, a paixão por romances baratos e pela literatura italiana, e ela vez ou outra deixava escapar um título americano que eu nunca havia lido. Ela tinha um forte sotaque francês, o que me lembrou que suas frequentes visitas à Itália não conseguiam apagar a descendência da nossa vizinha, França.
E nós caminhamos por entre várias pessoas, dividimos algumas confissões, como uma em que ela disse que nunca havia se apaixonado, e uma em que eu disse que os livros eram uma forma de me esconder da realidade, em outras palavras eu apenas queria dizer que me sentia mais confortável lendo um livro do que falando sobre ele com alguém, mas, de alguma forma, ela parecia fazer isso sumir, desde que conversamos sobre quatro livros que eram alguns de nossos favoritos.

Quando escureceu o suficiente para eu perceber que passamos o dia juntas, ela se escorou em uma parede, me deixando próxima à ela, não precisávamos dizer nada para saber que uma leve tensão pairava sobre nós, e então, como se eu sentisse que era isso que ela queria, me aproximei, parando em sua frente, os cabelos jogados pelo ombro direito caiam sobre esse lado de seu rosto, e ela era realmente linda e eu não precisava de comparações para saber disso. Seu olhar escorregou para o meu lentamente e eu apoiei uma das mãos na parede atrás de seu corpo, eu não poderia mentir dizendo que não me sentia atraída por ela, não poderia mentir também dizendo que era uma atração fatal, porque não passava de uma imensa vontade de beijá-la, e foi isso que eu fiz quando deslizei meus lábios sobre o seu inferior, passando a língua suavemente e fazendo o mesmo com o superior, antes de senti-la segurar em meu cabelo para tentar moldar sua boca sobre a minha e iniciar um beijo calmo, e eu digo tentar porque embora ela conseguisse me tirar o fôlego com aquele simples beijo, não diria que nossas bocas tinham o encaixe perfeito, mas, talvez, eu estivesse apenas delirando. Não precisou de muito mais para que eu a arrastasse até a parte mais escura de onde estávamos, até uma construção abandonada de uma casa de dois andares, e a empurrasse contra a parede, sentindo todas as vezes que seu corpo tencionava e suas mãos desciam com cautela pelo meu corpo, e naquele momento eu não queria negar, eu realmente a queria.

I built your walls around me

Maria era incessantemente adorável e talvez eu realmente havia gostado do nosso beijo duas noites atrás, mas, depois dele não vieram outros, não repetimos mais nada que envolvesse aquela noite e seus aspectos de tensão sexual, porque eu a evitei pela próxima semana que se seguiu, mais uma semana onde não tinha a presença dela, e tampouco tinha coragem para encarar a morena novamente, eu sabia que não poderia fazer isso, simplesmente porque se ela peguntasse se algo estava errado eu diria que sim, e isso resultaria em meu peito aberto, dizendo a ela que não eram seus toques, ou ela que me fazia delirar. E então, eu pretendia evitá-la ao máximo, porém, no dia em que Elena, uma outra vizinha nossa veio atrás dela, eu tive a certeza ela estava muito bem sem mim. Maria veio junto, elas eram amigas, afinal, e nós assistimos quando as duas saíram da casa de meus pais, eu não a vi durante duas semanas e ali, bem naquele momento onde eu me dividia entre não pensar em nada que envolvesse ela e pensar em tudo que existia nela, eu me permiti admirar como ela sorria para Elena, não era o mesmo sorriso que ela direcionava a mim, mas ainda era um belo sorriso, e eu não precisei dizer nada nos minutos que se seguiram, a morena encostada no parapeito da janela, ao meu lado, sabia que se tratava de mais do que uma simples relação de hóspede e anfitrião, talvez o que eu sentia estivesse escancarado de forma explícita, e ela era a única que não pretendia ver.

Eu e Maria resolvemos não tocar nesse assunto, mas isso não a impediu de me olhar e silenciosamente dizer que entendia, ela estava querendo me dizer para não desistir, era apenas um verão, eu não pretendia ter a marca de um amor de verão para sempre em mim, bom, era isso que eu dizia antes de ver a morena ir embora com um sorriso e me deixar sozinha com meus próprios pensamentos.

No jantar, ela resolveu aparecer, estava radiante e com os olhos mais escuros do que de costume, os cabelos bagunçados e um perfume que não era seu, e eu não precisava enfiar meu rosto em seu pescoço para ter certeza que seu dia ao lado da garota que eu jamais havia conversado antes fora tão bom quanto o que passamos no lago. E isso não passou despercebido por meus pais, e muito menos por Helene, que viram que eu não conseguia manter meus olhos nela ou meus ouvidos em uma conversa que eles iniciavam vez ou outra, tudo o que eu conseguia pensar era em como ela substituiu todas as coisas que poderíamos ter tido com vários dias ao lado de Elena.
Eu não pretendia ignorá-la, mas foi inevitável pedir licença e me levantar, caminhando para dentro da casa e apressando o passo para que qualquer distância entre nós ficasse maior, eu passei pela porta de seu quarto, na divisa com o meu, vendo que ele estava tão arrumado quanto estava algumas noites atrás, o que me fez pensar que fazia algum tempo que ela não dormia, de fato, ali. Eu sabia que era errado, mas, não deixei de entrar e caminhar até sua cama, onde seu short vermelho estava preguiçosamente jogado na cabeceira, e eu o peguei, não sentindo vergonha alguma de sentir o tecido fino do algodão entre meus dedos, eu já havia escancarado meu desejo por ela alguns dias atrás, então, eu não estava indo tão longe assim sentindo a textura daquela peça, imaginando como seria sentir sua pele naquele local, eu sabia que ela era tão macia quanto aparentava, não precisava tocá-la para ter certeza, mas eu precisava urgentemente tocá-la para cessar todas as dúvidas que eu tinha quanto ao desejo que, de fato, era mútuo. Eu me lembrava da cor de seus olhos quando ela me pediu para não tocar nesse assunto, e não se comparavam a cor de seus olhos essa noite, eu pensava se não estava sendo egoísta quando ela não estava sendo inteiramente minha, enquanto eu não era totalmente dela, quando estava com Maria, porém, a única diferença nessa história era que eu escancarei o que sentia, e ela não me deu abertura alguma sobre a sua versão de tudo isso.

Decidi que era muito estar ali, em sua cama, sentindo algo que tocava tanto a sua pele quanto eu, e voltei para meu quarto, deitando e tentando inutilmente apagar todas as poucas memórias que tinha dela, mas isso parecia impossível quando tudo voltava de uma vez só, e as sensações de seus toques formigavam em minha pele, como se ela estivesse me tocando novamente, no pé da cama, deslizando seus dedos sobre minha perna, eu senti aquele calor gostoso tomando conta de cada parte de mim e se concentrando no único lugar onde eu queria que ela me tocasse no momento, e eu pouco me importava se a porta azul entre nossos quartos estava aberta, eu queria que ela me visse ali, passando as mãos sobre meu pescoço, seios, abdômen e chegando até meu short rosa claro. Eu queria que ela visse meus dedos se infiltrando entre minhas pernas, tocando o tecido da calcinha branca que estava estupidamente molhado, e assim como eu aproveitei cada canto daquele short vermelho, eu queria que ela visse como tudo o que eu fazia era pra ela, como a fina camada de suor se apossou de minha testa, como os meus dedos se movimentaram de forma desesperada em busca de um prazer que eu gostaria que ela estivesse me proporcionando, naquele momento, não existiam barreiras o suficiente para me fazer não deslizar dois dedos dentro de mim, em movimentos lentos e relativamente fundos, ou para me fazer não gemer seu nome de forma arrastada. Se ela estivesse ali, na minha frente agora, saberia que essa era a minha forma mais pura de expressar o que eu sentia, mas eu sabia que ela não estava, então, eu me permiti explorar os meus pontos fracos, saboreando seu nome em meu tom de voz baixo e rouco, até que meu orgasmo viesse forte junto com o tremor que demorou alguns minutos para esvair de meu corpo. Eu sabia que aquilo era apenas uma forma de tentar esquecê-la, mas que era inútil sabendo que quanto mais eu tentava acalmar a respiração, mais esperanças eu tinha de que ela iria aparecer, encostar no batente da porta e me olhar com seus olhos escuros e dilatados, antes de se juntar a mim.

Na manhã seguinte, embora, eu me sentia extremamente leve, eu lembro de ter pegado no sono minutos depois de ouvir seus passos no quarto ao lado, e de ouvi-la fechar a porta azul com cuidado, porém, eu realmente não me importava com a sua distância, mesmo que eu ainda quisesse que ela entrasse em meu quarto para falar comigo.

Ela esteve presente no café da manhã, conversando abertamente com meu pai e me olhando vez ou outra quando ele direcionava alguma pergunta para mim, até que Konstantin perguntou se ela e Elena estavam tendo algo, e eu não precisei ouvir sua resposta já que no minuto seguinte meu corpo caminhava para longe dali, parecia estúpido, mas eu não pretendia ficar ali para prolongar aquela conversa, no caminho até a entrada eu encontrei Kenny, que estava consertando sua bicicleta branca, que por muitas vezes serviu para ela, para que ela me acompanhasse até a cidade.

— Você pode dizer a ela que a bicicleta já está nova em folha! — Kenny disse animado, e eu o encarei confusa, mas antes que eu pudesse dizer algo, eu a vi se aproximar de nós com a minha bicicleta em mãos, sorrindo para o garoto ao meu lado que sorriu de volta.

— Muito obrigada, Stowton! Agora, pode deixar que eu cuido disso. — ela disse, apoiando a bicicleta azul na parede e acenando enquanto ele fazia seu caminho para o quintal dos fundos da casa de meus pais. — Eu achei que você gostaria de fazer um passeio comigo, e antes que pergunte, eu não sei onde podemos ir, mas, talvez você queira escolher um lugar bom. — continuou calmamente enquanto desviava o olhar do meu, pegando a bicicleta branca e se encaminhando para o portão de entrada.

Eu sabia que não deveria segui-la, depois de duas semanas sem palavras, olhares ou qualquer chance de contato entre nós, mas, alguma coisa me dizia que essa abertura era o que eu precisava para finalmente tocar no assunto, sem que ela fugisse, afinal, ela planejou isso.
Então, pedalamos até metade do caminho que levaria até a cidade, quando eu contornei uma curva e passei a pedalar sobre a grama, vendo ela me seguir lado a lado, a mesma postura, a mesma altura, como da primeira vez. No entanto, quando eu parei e desci da bicicleta, deixando-a cair, ela não me seguiu, apenas continuou montada em sua bicicleta e observando o local onde estávamos, com os pés no chão e as mãos segurando firmemente o guidão, ela não disse nada, até repetir os meus movimentos e se deitar ao meu lado na grama. Estávamos em um dos meus lugares favoritos da cidade, não havia sinal de construções antigas ou arcos dividindo cada espaço, era apenas um imenso campo verde, onde o seu horizonte parecia terminar no céu azul e sem nuvens daquela manhã.

White noise, what an awful sound

Nós realmente não precisávamos de palavras ali, e embora eu quisesse tocar no assunto que mais parecia me perturbar, suas ações me calaram completamente. Eu estava com os olhos fechados, sentindo seu corpo se aproximar do meu calmamente, seus dedos fizeram um caminho curto do meu queixo até meus lábios, ela dedilhou meu lábio inferior, parecia querer gravar a textura deles em suas digitais, e logo o calor de seus próprios lábios vieram, era apenas um toque suave, onde eu tinha meu lábio preso entre os seus, eu virei minimamente a cabeça, inclinando-a para o lado, fazendo com o que contato ficasse mais íntimo, intenso. Ela afastou o corpo, me fazendo subir o meu de encontro ao seu, minha língua procurou a sua em um movimento urgente, ela prontamente colocou seus lábios sobre ela, sugando com cuidado e beijando minha boca suavemente com a sua, e dessa vez, o encaixe de nosso lábios era perfeito.

Eu tentei prolongar aquilo o máximo, porém, ela se afastou e eu pude ver assim que abri os olhos, ela estava sorrindo, mas não me olhava, seu rosto virado para frente e sua boca levemente vermelha, o que me fez soltar um sorriso involuntário também. Ela se sentou e eu fiz o mesmo, naquele momento, todas as dúvidas que eu tinha foram sumindo, desde que seus dedos tocaram meus lábios até aquela pequena parcela de tempo onde eu a vi se virar para mim, o sorriso ainda brincando em seu rosto. Eu tentei beijá-la novamente, o que causou no choque de meus lábios na pele de sua bochecha.

— Foi como eu imaginava. — ela disse, rindo de maneira rouca, e desde que eu a vi pela primeira vez, aquela era a primeira, também, eu a via rir. Seu rosto ali, envolto de todas as partes do meu lugar favorito eram a o cenário perfeito para que aquele momento também ficasse registrado como um dos melhores daquele verão.

— Você imaginou isso? — perguntei, vendo seu sorriso ser direcionado a mim, novamente. Ela não respondeu, apenas se levantou e caminhou até sua bicicleta, e como em todas as outras vezes que pedalamos por algum lugar do norte da Itália, o silêncio nos acompanhou até a casa de meus pais, onde encostamos as bicicletas na parede perto da entrada, e ela seguiu para dentro da casa, depois disso, eu não a vi mais naquele dia. Eu ainda sentia, embora, o toque de seus lábios nos meus, o mesmo formigamento de todas as outras vezes, mas, diferente de todas as fantasias que eu tinha, aquele momento foi tão real quanto a sua quase confissão de que queria aquilo tanto quanto eu.

No entanto, depois de uma longa e preguiçosa tarde onde eu apenas conversei com meus pais, que estavam na sala, e minha mãe lia um livro que era um de seus favoritos, era sobre a história de uma princesa e um príncipe que haviam se apaixonado um pelo outro, mas ele não tinha coragem de dizer a ela o que sentia, então, ela apenas disse a ele "É melhor falar ou morrer?". E não que aquilo tivesse em comum com o momento que eu estava vivendo, mas serviu para barrar a minha mente dos acontecimentos da manhã. Subi para meu quarto, encontrando nada mais do que um bilhete sobre a minha cama, e a porta azul fechada, eu sabia que ela havia saído, desde que eu me dispersei de uma das coisas que Sinu lia, para vê-la caminhar pelo hall da escada, passando pela sala e indo em direção a cozinha.
Em letras perfeitamente desenhadas e alinhadas estava escrito, "Te vejo à meia noite. Later". E mais uma vez ela me deixou com mais dúvidas do que antes, eu sabia que eu não era mais a única a desejar entre nós duas, mas eu não sabia até que ponto ela estava disposta a ir para que aquilo realmente acontecesse, até qual linha teríamos que atravessar para que o medo dela não estivesse tão vivo em seus gestos.

Fumbling by Rogue River

Antes do relógio completar meia noite, eu fui até a varanda que tinha em frente aos quartos, eu não sabia exatamente como me sentir sobre todos os acontecimentos que me envolveram durante o dia, mas, eu senti que ela se juntou a mim, aproveitando a vista que tínhamos da parte de trás da casa, ela não disse nada, e o silêncio era algo que não me afetava mais, estávamos compartilhando de um momento onde palavras não seriam necessárias, eu sentia seu cheiro e a proximidade de seu corpo, ela moveu sua mão esquerda lentamente até que um de deus dedos tocaram os meus, e como na primeira vez, eu sabia que ela sentia o mesmo que eu quando me tocava.
Me afastei para ir até meu quarto, encostando na parte inferior da cama, ela se aproximou e continuou sem dizer nada, encostando ao meu lado, o calor de seu corpo se fez presente, sem que ela precisasse me tocar, e então eu não tive como não ceder, ali, quando me movi para o lado e deixei que seus braços me envolvessem por completo, sem paisagens italianas, éramos apenas nós, completando uma a outra em um cenário muito bem vindo para mim. E aquele se tornou o meu momento favorito do verão.

Ela desceu as mãos pelo meu corpo, não havia sentimento que eu pudesse colocar sobre nós para descrever o que aquilo significava. Sua mão direita conhecendo cada canto do meu corpo enquanto a esquerda se infiltrava em meu cabelo, eu me perguntava se qualquer outra mulher que já se permitiu ser tocada por ela se sentia da mesma forma que eu, desejada ao extremo.

— Eu posso te beijar? — ela perguntou em um sussurro, em um movimento lento onde nossos rostos se tocaram. E aquele pedido e a maneira que ela saboreava cada palavra, como se esperasse por isso tanto quanto eu, me fez deixar as mãos no extremo inferior da cama, naquele momento eu era dela.

— Sim, por favor. — eu supliquei, do mesmo jeito que ela fez quando estávamos no centro, a atmosfera era a mesma, e se ela me olhasse nos olhos, veria minha pupila se dilatando com cada gesto, toque e respiração irregular. A única diferença era que o medo não existia ali, e se existisse, ela parecia não ter tempo pra ele quando moveu seus lábios contra os meus, deixando que sua língua fosse a primeira coisa que eu sentisse naquela noite.

Feel my feet above the ground

As horas que se seguiram me fizeram perceber que ela era o oposto do que me apresentava todos os dias. A gentileza e delicadeza de seus toques ainda estavam presentes em mim, como um formigamento que permanecia quando se tratava de nossos corpos juntos. Eu descobri, naquela cama, junto com o vento leve que adentrava pela varanda e o suor de seu corpo, o que era ser amada por ela, o que era ser o motivo de todos os seus baixos gemidos e das suas mãos inquietas, o prazer era apenas uma consequência de todos os nosso atos, onde o que mais se fazia presente era o fato de que sabíamos que não havia como esconder, estávamos gostando uma da outra. E embora fosse a primeira vez que eu admitisse isso durante o verão, ainda não era tarde demais. E mais uma vez, o silêncio era nosso fiel companheiro, guiando nossas respirações até a calmaria, acompanhando nossas mãos deslizando lentamente sobre ambos os corpos, testemunhando nossos sorrisos que se perdiam sob nossos olhares atentos.

— Me chame pelo seu nome, e eu te chamarei pelo meu. — ela novamente sussurrou, parecia que gostava tanto do nosso silêncio quanto eu. E, eu confesso que não entendi, pelo menos não naquele momento, o que ela queria dizer com aquilo. — Eve... — continuou em um sussurro, por conta da luz noturna que entrava no quarto eu consegui ver seus olhos. Nenhuma paisagem italiana conseguia se igualar em beleza aos olhos dela.

 Villanelle... — eu respondi no mesmo tom, sussurrado e rouco, de forma que um mínimo sorriso aparecesse em seus lábios, e se eu já tive inúmeros vislumbres de um possível paraíso com ela, aquele era definitivamente o mais belo e puro. Chamá-la pelo meu nome me acarretou muitos sentimentos, talvez ela também se enxergasse nos meus olhos, talvez ela apenas quisesse se sentir como eu, ou, talvez, tudo o que eu pensava sobre ela até poucas horas atrás não se comparavam ao que eu sabia sobre ela agora.
Eu precisava dela, era desesperador saber disso e mais desesperador ainda saber que era sua penúltima semana em Crema, eu não sabia como as coisas iriam ficar entre nós, mas, diferente de alguns dias atrás, agora eu tinha a certeza de que esse amor de verão ficaria comigo pelo resto da minha vida. Eu jamais iria esquecer alguém que me tocou tão intimamente que fez parecer que eram as minhas próprias mãos em meu corpo, alguém que me fez sair da rotina de composições para escrever poesias, alguém que era tão bom com a boca, que fazia coisas que eu tenho certeza que nem Deus perdoaria, alguém que estava ali, me pedindo com um fio de voz para que eu a chamasse pelo meu nome.

Hand of God, deliver me

Mais tarde naquela manhã, nós conversamos, nós nos olhamos, e nós tomamos café da manhã junto com os meus pais. Ela estava lá quando meu pai recebeu a visita de uma família que também passava o verão no norte da Itália, os Kadomtseya, o patriarca da família era um grande amigo de Konstantin, seu nome era Sebastian, ele tinha uma filha de dez anos, que agora eu não me recordo o nome e sua mulher, Nadia, era incrivelmente bonita e divertida, era uma das poucas famílias que nos visitavam em alguns verões alternados que eu realmente gostava, Sebastian sempre bagunçava meu cabelo quando chegava, Nadia sempre me perguntava sobre alguma composição ou livro, era um assunto que as pessoas realmente gostavam de ter comigo.
Mas, diferente dos outros almoços, eu não me sentei a mesa com eles, estava um pouco distante, em um dos bancos altos de pedra, com meu violão e um dos cadernos de composições, a música que eu tocava tinha sido feita especialmente para o violão, mas eu também tinha uma versão para piano.

— Acho que essa Mozart nunca tocou. — ela disse com um tom divertido em sua voz, se aproximando e se sentando no chão a minha frente. Ela usava uma camisa de mangas curtas com estampas de algumas flores em verde, um short preto e estava descalça, os cabelos pretos bagunçados e um óculos de sol.

Eu não disse nada, apenas apoiei o violão sobre o montante de pedras e caminhei para dentro da casa, passando pela mesa e ouvindo a conversa divertida que meus pais tinham com os Kadomtseya, parei em frente ao piano, me sentando no pequeno banco e vendo ela se encostar no batente da porta, sob o arco que dividia a sala da cozinha. Toquei a mesma composição, só que na versão para o piano, era ligeiramente diferente porque ganhava um tom mais dramático e melancólico, mas não deixava de ser uma das minhas favoritas.

— Se chama Strange Effect. — eu disse quando vi que ela se aproximou o suficiente para encostar o corpo no piano, perto das teclas e muito perto de mim. Ela retirou o óculos, colocando-o sobre seu cabelo, e me encarou sem dizer uma única palavra, e, realmente, não precisávamos disso no momento, porém, eu sabia que meu rosto tinha uma leve coloração avermelhada e isso a fez sorrir, o canto esquerdo dos lábios se moldando em um sorriso de tirar o fôlego.

— Eu vou fazer uma pequena viagem, é a última para terminar a dissertação, gostaria que me acompanhasse. — disse calmamente, debruçando seu belo e esculpido corpo sobre o piano, naquele momento eu poderia compôr as mais belas notas e tocá-las no instrumento, tentando descrever o quão linda e única ela era, mas, eu não conseguiria, e nem se eu buscasse a mais profunda e intensa composição de Mozart eu chegaria aos pés daquela mulher.
Eu sabia que seu convite era apenas porque ela queria estender seu tempo ao meu lado, e eu aproveitaria o tempo que fosse, nem que precisasse enrolar o suficiente para prolongar sua companhia ao máximo.

Nos dois dias seguintes ela passou bastante tempo com meu pai, os dois conversavam sobre sua dissertação e alguns ajustes que ela poderia fazer antes de finalizá-la devidamente. Ela também tocou no assunto da viagem, o que deixou Konstantin feliz, por incrível que pareça, e eu pude ver um suspiro rápido e baixo de alívio sair de seu peito.
No final da semana nós arrumamos nossas coisas, as malas que ela trouxe e duas minhas, eu vi quando ela se sentou no chão para dobrar suas roupas e guardá-las, ela fazia com uma calma e lentidão desconhecidos por mim até então, mas eu tinha certeza que ela apenas sabia que eu estava ali, sentada em minha cama, onde eu tinha total visão da sua e de onde ela estava, mais uma vez, estávamos prolongando nosso tempo juntas. E, quando ela se levantou e saiu em silêncio com uma toalha em seu ombro direito, eu me permiti entrar em seu quarto, algumas semanas atrás eu odiava o fato de que alguém estava conhecendo meu mundo, parte de mim apenas por dormir em um lugar que costumava ser meu, mas agora eu não poderia me importar menos, não quando ela tinha feito o mesmo comigo quando me pediu para analisar sua tese, e a partir dali, nós começamos a dividir nossos próprios mundos uma com a outra, e foi partindo desse mínimo compartilhamento que chegamos ao sentimento mútuo que estava impregnado em nós. Aquele verão não seria inesquecível somente para mim.
Eu me aproximei de uma de suas malas, abrindo-a com cuidado, e colocando, no bolso de uma das camisas que estavam por cima das outras, o poema que eu escrevi algumas noites atrás, afinal, aquelas palavras eram mais dela do que minhas.

Nos despedimos de meus pais no sábado à tarde e fomos em direção ao ônibus que levaria até a cidade vizinha que, diferente de Crema, era mais populosa e se parecia muito com uma cidade comercial. Sentamos lado a lado no ônibus, ela me olhou e sorriu levemente, sabia que os próximos dias seriam apenas nossos, e consequentemente os últimos que teríamos juntas.
O caminho foi relativamente longo, não conversamos mas eu sentia que ela me olhava enquanto eu apenas apreciava a vista da saída de Crema, as pessoas ao nosso redor falavam abertamente, mas elas desconheciam o quanto o nosso silêncio era único e só pertencia à nós.

Algumas horas depois ela me fez caminhar por quase vinte minutos, até estarmos em um pequeno hostel que ficava paralelo ao centro e a parte residencial da cidade, era pequeno, e no quarto só tinha uma cama, um guarda-roupas, uma janela que vinha do teto ao chão com uma grade média e duas portas de vidro que se fechavam no meio. Nossas malas foram jogadas no pé da cama e ela me segurou pela mão até que estivéssemos encostadas na grade, ela em um extremo e eu em outro, estávamos frente a frente, não precisávamos de palavras, como sempre, mas algo em nós estava diferente, talvez fosse a liberdade que tínhamos para nos tocar, ou fosse apenas o fato de que aquela viagem era muito mais nossa do que apenas dela.

— Você é tão linda. — ela disse baixo, havia algo em sua voz que fez meu coração acelerar, pela primeira vez desde que a vi saindo daquele carro verde. Nós não dissemos mais nada, porque nossos gestos e toques fizeram questão de suprir a necessidade de palavras. Já era fim de tarde quando eu me entreguei a ela, mais uma vez, e o que testemunhou aquele momento foi o pôr do sol, seguido da lua e das paredes amarelas do prédio vizinho.

Era quase onze da noite quando ela decidiu fazer um passeio pela cidade, diferente de Crema, os bares e restaurantes ficavam até meados de duas da manhã, nós fomos em um desses bares somente para ela comprar duas garrafas de vinho italiano, e nós bebemos noite a fora enquanto andávamos sem rumo pela parte da cidade onde a construção era antiga, chegava a lembrar a Itália de alguns séculos passados, mas, eu não saberia dizer o que elas tinham em relação a arquitetura, porque depois de beber uma das garrafas inteira eu já não sabia distinguir muito as coisas, eu apenas sabia que estava apoiada em seu corpo e ela me carregava rindo suavemente.
Em um momento, ela parou e se encostou na parede, e eu me aproximei lentamente, sentindo o calor de seu corpo e meus lábios tocaram seu queixo, uma, duas, três vezes antes dela segurar meu rosto e deslizar seus lábios sobre os meus, não era o mesmo beijo, não era como os outros, sua língua escorregou tão calma e lenta sobre a minha que eu suspirei contra sua boca, nosso encaixe era sempre perfeito.
Ela parou o beijo enquanto descia a mão direita em minhas costas e se apossava da minha cintura, nos guiando pela descida íngreme de uma viela que ao fundo tocava uma música italiana animada. No fim do caminho esbarramos com três pessoas que estavam encostadas em um conversível vermelho, e eu descobri que a música vinha do rádio do mesmo, que estava com as portas abertas, recebendo uma das mulheres sentadas no banco do passageiro, ela se aproximou e me puxou com uma das mãos, a outra apoiou a garrafa em cima do carro, nossos corpos embalados pela música e por seus movimentos, enquanto sua risada baixa ecoava em minha mente como uma pequena explosão em câmera lenta.

Naquela noite em questão, depois de tê-la me segurando firmemente durante o caminho de volta ao hostel, eu percebi, mesmo bêbada, que não havia lugar melhor em toda a Itália do que entre suas duas mãos fortes e possessivas.

Oh, whoa, it's me

Na segunda feira de manhã ela saiu por volta das nove horas, disse que precisava buscar algo mas não fez menção de me esperar para que pudéssemos ir juntas, mas, ela disse onde estaria pelo resto da manhã e começo da tarde, então, eu me levantei, às onze horas e fui até o centro, sua descrição estava realmente certa, ela estava saindo de uma pequena loja de suprimentos quando me viu, uma camiseta preta com o óculos pendurado em sua gola, um short rosa e uma alpargata também preta.

Ela não disse nada, mas, nós caminhamos lado a lado até uma outra viela, menos movimentada que ficava entre os dois lados do comércio da cidade, vez ou outra nossas mãos se esbarravam e em uma delas ela segurou um de meus dedos com os seus, era um toque suave e quente.

— Eu te beijaria, se pudesse. — ela sussurrou, nós paramos rente ao muro que se seguia até o fim da pequena rua, um de seus braços passou ao meu lado, sua mão apoiada na parede atrás de mim, sua respiração leve contra meu rosto e seus olhos, com as pupilas começando a dilatar, perdidos em meus lábios. Eu sabia que ela não iria me beijar, mas, isso não me impediu de deslizar a língua sobre os lábios, vendo que sua reação foi se afastar e continuar andando. Ela não conseguia resistir, como eu, e todo aquele verão foi exatamente sobre isso, resistir e ceder.

Na quarta feira, entretanto, era seu último dia no norte da Itália, nós decidimos apenas aproveitar aquela bela tarde dentro do hostel, deitadas na pequena cama de colchão médio que sustentava nossos corpos com alguns rangidos, naquele curto espaço de tempo ela se dedicou a falar sobre sua dissertação, sobre os livros que leu durante sua estadia na casa de meus pais e sobre uma das conversas que teve com Sir Konstantin, como ela costumava chamá-lo.
Por volta das cinco da tarde, ela se levantou, começando a arrumar as malas, eu apenas observava a maneira delicada e lenta que ela ajeitava suas coisas e as minhas, a lentidão e o silêncio eram testemunhas de que não queríamos ter que sair daquele pequeno quarto para nos despedirmos em breve, ela não queria aquilo tanto quanto eu.

Às seis horas nós chegamos na estação de trem que a levaria até o aeroporto de Milão, para que ela pudesse então pegar um avião até os Estados Unidos para concluir sua dissertação. Nosso verão estava chegando ao fim, afinal, faltavam apenas dois dias para o natal, e embora eu quisesse que ela ficasse pelo menos até que essa data passasse, ela não poderia, como já havia dito ao meu pai em um convite alguns dias atrás.
Ela parou de andar assim que chegamos na plataforma, um trem estava parado ali e parecia apenas esperar qualquer movimento nosso para avisar que já estava de saída, em outro movimento lento, ela passou os braços ao redor dos meus ombros, meu rosto na altura de seu pescoço, meus braços ao redor de seu corpo, minhas mãos se encontrando em suas costas, segurando o tecido de sua camisa azul clara com força. Como em todas as outras vezes, não precisávamos de palavras, nosso silêncio dizia tudo o que estava entalado em nossas gargantas, eu sabia que segurava seu corpo com urgência e desespero, mas despedidas sempre são assim, corações partidos e um leve choro, era isso que eu sentia enquanto ela se afastava lentamente, seu rosto na altura do meu, ela também não queria deixar qualquer resquício de choro escapar.
Antes de se encaminhar até uma das portas do trem, entretanto, eu a puxei de volta, abraçando seu corpo mais uma vez e deixando meus lábios em seu pescoço, um, dois, três leves beijos antes do barulho do trem anunciando sua breve saída. Ela se afastou e me olhou, pela última vez naquele verão, e talvez até a última em nossas vidas, e entrou em uma das cabines, poucos minutos depois a única coisa que restou naquela plataforma foi meu corpo e um choro angustiado que eu deixei escapar, eu não tinha o mínimo de força para resistir contra aquele sentimento.

O caminho de volta para Crema foi extremamente silencioso, na saída da estação tinha uma pequena bilheteria onde continha um telefone em uma das paredes do saguão, ligar para Carolyn foi inevitável, saber que ela também sabia que eu estava chorando foi outra coisa que eu não consegui evitar, perceber que ela deixou que o silêncio fizesse parte do fim da paisagem comercial e do começo das paisagens belíssimas de Crema, foi algo que eu realmente não queria evitar.
E diferente dos outros momentos de silêncio que contemplei, eu não tinha mais ela comigo para compartilhá-lo, eu descobri que o silêncio era algo muito mais nosso, do que já foi meu em outros verões anteriores.

Na manhã seguinte, eu não conversei com meus pais, não me sentei com eles durante o café da manhã, nem mesmo dei atenção a família Issartel, que estava mais uma vez em uma de nossas refeições, no almoço, e embora Maria soubesse que eu não parecia bem, ela se sentou comigo no sofá, éramos apenas nós duas, e mais uma vez o silêncio. A morena não me disse nada, mas ela estava ali, perto de mim, percebendo que muito mais do que uma hóspede, aquela quase mestranda em literatura européia, foi o primeiro amor que eu tive dentre todos os verões italianos que já passei em Crema.

— Eu entendi, naquele dia quando estávamos no parapeito da janela da varanda, que seu coração pertencia a alguém, e eu realmente aprecio isso. — ela disse calmamente, sua voz estava no tom natural e sossegado que ela sempre falava, mas tinha algo ali, naquela entonação, naquelas palavras, ela não queria me consolar, ela queria que eu apenas vivesse o momento. — Eu não sei muito sobre como é o amor, mas eu sei que um amor de verão pode ser muito mais forte do que qualquer outro, acho que vocês duas perceberam isso. — o mesmo tom, a mesma sinceridade. Eu não respondi nada, porque eu realmente não precisaria de mais palavras do que aquelas, e após um pequeno sorriso ela se levantou e acompanhou seus pais até a porta, outro almoço chegava ao fim, e eu ainda não sabia como me sentir, desde que eu ainda estava presa no corpo dela, naquela estação de trem.

No fim da tarde, meu pai estava em seu escritório, organizando alguns papéis e os livros da estante que ocupava uma parede inteira, eu me sentei em um dos sofás e observei como seus movimentos eram cautelosos, porém despreocupados, ele sabia que eu estava ali, me lançava pequenos sorrisos vez ou outra, e em uma dessas vezes, ele se sentou comigo, ao meu lado, e percebeu que era a primeira vez que eu me permitia chorar em sua frente. A verdade é que aquele cômodo me lembrava ela, sua voz rouca e lenta debatendo sobre o tema de sua dissertação, recebendo as respostas positivas e negativas de meu pai sobre o lhe era dito. Aquela casa já não era mais de meus pais, ou da família Astankova, era muito mais dela, do que de todos nós, desde que cada canto daquela construção parecia ter sido feito para ela se acomodar, porque assim como ela completava todas as paisagens italianas, ela também completava todos os cômodos daquela casa.

The first time that you touched me

— Eu sei o que você está sentindo agora, acredite, eu também já tive amores, nenhum deles foi como esse, nenhum deles foi tão forte quanto o de vocês. — ele falou enquanto me encarava, eu não precisava olhá-lo para saber que seu olhar era doce e terno, assim como suas palavras. — Mas, me escute, eu sei que você não pretendia ter uma paixão esse verão, assim como não pretendemos ter uma em outros momentos de nossas vidas, mas assim como toda e qualquer paixão, você a teve, e você a aproveitou, e eu não precisei estar presente durante a evolução dela para o amor, isso estava escrito em seus olhos, e nos dela também. E eu invejo isso, e eu também poderia dizer que não aceito ou não acredito nesse tipo de amor, mas eu estaria mentindo, e você sabe que eu não sou assim, essa é a sua vida, e foi o seu verão, e consequentemente o seu amor, o que me diz respeito agora é apenas te dizer como lidar com isso, desse momento pra frente. Existe uma dor, mas, não se apresse para curá-la, nem mesmo para não senti-la, aproveite ao máximo o que esse momento está te oferecendo. E se você pretende não sentir mais isso por alguma outra pessoa, não faça isso, enquanto você tem toda uma vida de amores e incertezas pela frente, viva isso, e não tenha medo de sentir, não tenha medo de amar. Não use pessoas para preencher esse vazio, ele não pode ser preenchido se você ainda não se deu a oportunidade de curar, respeite esse limite dentro de você, e antes de partir para outra pessoa, esteja inteira para si mesma, novamente. — ele disse com todas a calma e sinceridade que eu jamais o havia visto ter antes, eu sabia que em algum momento de seu breve monólogo eu me permiti chorar, sem me importar com qualquer outro sentimento, sem me importar de demonstrar esse momento de fraqueza. Eu entendi cada palavra e elas ecoavam em minha mente como uma dança lenta e envolvente, assim como a que eu e ela tivemos na cidade vizinha.

Esse verão era mais do que sobre resistir e ceder, era sobre ser alguém que estava disposto a amar sem saber que aquilo era realmente amor.

Na véspera do natal, minha mãe me chamou para a ceia, éramos nós, a família Montero e a família Kadomtseya, reunidos em volta de uma das mesas grandes, que ficavam na sala de jantar, que era usada apenas nas festividades, já que meus pais achavam muito mais puro e único ter nossas refeições na mesa do jardim dos fundos.
Eu ouvia incessantemente o eco estrondoso de meu nome que Carolyn chamava, Villanelle, se repetia como um intenso e denso martírio, e eu não conseguia me mover, não porque eu não sabia que ela estava no batente esperando para que eu me juntasse a mesa, mas porque, de todas as vezes que eu ouvi esse nome, ele saia de minha boca, eu o pronunciava como se não fosse mais meu, porque realmente não era, ele era dela.

E assim como no dia anterior, meu pai apareceu, me entregando um pequeno envelope em papel branco, e se retirando da sala onde eu estava sentada, vendo como as chamas levemente altas da lareira refletiam o calor que ela havia deixado em mim. Eu não precisava daquele compartilhamento de ceia, não quando eu sabia que precisava apenas ficar sozinha naquele momento, e diferente de todas as vezes naquele, agora, fim de verão, eu me sentei na cama que era sua, não era mais minha desde que seu corpo deitava ali todas as noites, desde que seus inúmeros shorts coloridos ficavam jogados na cabeceira, desde que eu a vi ali quase todas as noites.

O envelope guardava um pedaço de papel, também branco, com as letras que eu já conhecia muito bem, desenhadas e alinhadas da maneira perfeita, que só ela conseguia fazer.

Oh, will wonders ever cease?

"Me desculpe a inconveniência desse verão, eu simplesmente não soube como agir quando descobri que teria que lidar não só com a maldita tese de mestrado mas também com uma doce latina que me roubou o coração. Eu te vi, pelo canto do olho naquele parapeito no dia que cheguei, e eu desejei insanamente que talvez você pudesse descer para me receber, como seu pai fez. Konstantin é um bom homem e tenho certeza de que gostaria de uma ótima pessoa para estar ao lado da filha tão querida e talentosa dele, mas, ao contrário disso, ele teve apenas eu, a mulher que não sabia que a vida era muito mais do que apenas faculdade e trabalho. Eu não devia ter demorado tanto para perceber quem você era, eu suspeitei depois de uma ou duas vezes que te vi tocar, ler e escrever, seu gosto impecável pela arte me deixou fascinada, eu simplesmente não queria que o único lugar a nos testemunhar fosse a querida Crema, e um norte italiano tão bonito que me fez pensar que mais verões ali seriam bastante interessantes. No seu quarto, aquele dia, eu não sei se você entendeu, mas, eu queria ser você. Entende? Eu sempre quis ser como você, como a sua alma, que era tão livre quanto eu poderia ter sido naquele verão, por isso eu pedi que me chamasse pelo seu nome, porque, de alguma forma, eu queria me sentir como você, como uma Astankova, como uma simples e incrível jovem que além de encantar meu coração, tinha o mundo e muito mais para me oferecer. Me desculpe, mais uma vez, pela inconveniência desse verão, eu admiro você, Eve, e eu sempre vou me lembrar de tudo."

As palavras muito bem distribuídas pela folha, sem assinatura, pois eu sabia de quem se tratava. E então eu finalmente entendi, me chamar pelo seu nome se tratava de uma forma que ela encontrou de se sentir como eu, talvez, Eve, agora fosse tão meu quanto era dela, assim como todo o resto do verão foi inteiramente nosso, mais do que já foi de qualquer outra pessoa.

Qual era o mistério do amor, afinal? As pessoas podem simplesmente passar pela sua vida e te fazer ter a maior experiência sobre ele, e depois de algum erro ou afastamento, você ainda as deseja intensamente, como se mesmo com um coração partido, você ainda fosse capaz de remendá-lo para sentir todo aquele alvoroço de novo. Eu não entendi muito bem como foi que nos tornamos isso, ela estava ali apenas para passar um verão, assim como eu, com a diferença de que eu sempre voltava, e é aí que devia estar aquele aviso gigante sobre não se apaixonar por alguém que você sabe que não vai se estender por muito tempo, mas, talvez, o mistério do amor esteja bem nesse curto espaço de tempo, porque eu tive que aprender que o amor não nos é oferecido, nós apenas o encontramos, e ele termine ou não com um final feliz, nós jamais saberemos como lidar com ele durante o tempo que está em nossos corações, o amor foi todo o tempo que passamos juntas, e mesmo depois que ela foi embora, naquele maldito trem, o amor ainda estava entre nós, impregnado tanto nela quanto em mim, nós deixamos o amor entrar quando sufocamos tanto, por algum momento daquele verão, que ele acabou escapando pelas frestas e tomou conta de tudo. No final de tudo, o mistério do amor estava apenas em qual de nós iria ceder primeiro, e, bem, eu sabia que sempre seria a primeira a ceder.

E antes de deixar Crema definitivamente, dois dias depois que eu recebi aquela carta, eu percebi que aquele verão tinha sido belo, quente e de tirar o fôlego, assim como Eve Park, ou melhor, apenas, Villanelle.

Blessed be the mystery of love.


Notas Finais


Espero que tenham gostado e se entretido, sentido e chorado tanto quanto eu.

Confesso que foi um pouco difícil substituir os personagens para as pessoas da série, alguns são originais e outros não, mas acho que não vai ficar tão confuso assim.

Later.


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