História Na sua pele - bughead - Capítulo 16


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Categorias Camila Mendes, Cole Sprouse, Dylan Sprouse, KJ Apa, Lili Reinhart, Madelaine Petsch, Riverdale
Personagens Cole Sprouse, Elizabeth "Betty" Cooper, Forsythe Pendleton "FP" Jones II, Lili Reinhart
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Palavras 6.904
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Espero que gostem. ❤️

Capítulo 16 - 16


BETTY


JÁ FAZIA TRÊS SEMANAS, mais ou menos, que o Jughead não falava comigo. Nada de torpedos, telefonemas, e-mails nem pombos correio… Só um silêncio enorme e, do meu lado, um coração completamente partido. O Cole nem retornou minhas chamadas e mensagens, que mandei pra dizer “tchau” e que ia sentir saudade dele. O cara foi para o deserto louco da vida comigo. Isso me deixava bem chateada, mas a luta que eu travava todos os dias comigo mesma, pensando se devia ligar pro Jughead e implorar que ele me perdoasse, estava acabando comigo. Eu queria explicar que aquele segredo não era meu, e que não podia ter contado, apesar de a gente estar namorando. A Verônica ficava dizendo que, uma hora, ele ia esfriar a cabeça e voltar pra mim, mas a Gladys e o FP achavam que ele nunca mais ia falar com nenhum de nós. Eles estavam  no mesmo barco que eu: nenhum dos irmãos estava falando com eles, e a Gladys quase teve um troço quando o Cole não deixou os pais o levarem até Fort Carson para se despedir. Ele e o Jughead foram juntos, nos deixando de fora. 

Eu estava sofrendo, mas também de saco cheio de meu amor e meus sentimentos não serem suficientes pra ninguém. Eu tinha amado Jughead mais e por muito mais tempo do que qualquer outra pessoa na minha vida, e isso ainda não era o suficiente pra fazer ele olhar através da própria mágoa e daquele sentimento de ter sido traído e resolver as coisas comigo. Ainda estava puta por ele ter passado a semana antes de a bomba estourar se esforçando para agir e se comportar de um jeito que eu nunca pedi nem quis. Mas, quando ficava sozinha na cama, à noite, chorando, tinha que admitir que tinha sido uma atitude fofa, apesar de equivocada. Me lembro de ter pedido para ele não esquecer que as coisas podiam ficar muito feias se a gente tentasse ficar junto e não desse certo. Por algum motivo, até dar de cara com ele na cama um monte de vezes com todas as garotas da cidade nem se comparava à dor daquele gelo que ele estava me dando.

Me esforcei muito para não ficar me preocupando com o que ele andava fazendo ou com quem andava fazendo. Mas, a cada dia que passava, ficava mais pessimista. O que ele sentia por mim não tinha sido suficiente para superar a própria mágoa, e era óbvio que não chegava nem perto daquele sentimento arrasador que eu tinha por ele. Por mais que me doesse desistir do Jughead, eu tinha que esquecer. Tinha que retomar minha vida, porque, mesmo que ele viesse falar comigo, as chances de ter voltado aos velhos hábitos era grande. E eu não ia sobreviver, de jeito nenhum, se alguém de que gosto tanto me traísse. Eu me forçava a sorrir todos os dias, voltei a trabalhar nos turnos que tinha largado por causa dele, me joguei nos estudos e passava todo o meu tempo livre com a Verônica e a Toni.

Quando eu estava com a Toni, tinha todo o cuidado para não dar na vista, e ela tomava o mesmo cuidado pra nunca, mas nunca mesmo, tocar no nome do Jughead ou em nenhum assunto que tivesse a ver com ele na minha frente.

Dizer que meus pais ficaram felizes por que o Jughead não estava mais comigo é pouco. Infelizmente, deixei isso escapar durante uma conversa nada amigável com minha mãe. Meu pai ficou tão feliz que pegou meu carro, que tinha acabado de vir do mecânico, e trocou por uma Cayenne caríssima, só porque comentei que queria um carro mais seguro de dirigir na neve. Tentei recusar. Não precisava mais ser chantageada, já que o Jughead tinha me largado mesmo, mas o documento já estava no meu nome, e meu outro carro tinha sido vendido, então acabei aceitando, mesmo sem querer.

Minha mãe estava ainda pior e me ligava todos os dias. Aquela mulher, que nunca teve tempo para mim, de repente ficou super interessada em tudo o que eu fazia e em todo mundo que eu conhecia. Acho que, sutilmente, estava tentando me dizer que, enquanto eu me mantivesse longe dos tipos desagradáveis, ela ia me aceitar. O engraçado é que, agora que o Jughead não estava mais comigo, eu não queria mais que ela me aceitasse. Preferia ser deserdada e rejeitada um milhão de vezes se isso fosse fazer o cara falar comigo, sentir só metade do que sempre senti por ele. Acho que meu desinteresse deixava meu pai e minha mãe nervosos. Eles estavam tão acostumados a sacudir a aceitação e a aprovação deles na minha frente como se fosse uma cenoura na frente de um cavalo, que não sabiam o que fazer agora que isso não me interessava mais. Ter esse poder devia ser uma coisa sensacional, mas a verdade é que eu só sentia um grande vazio. Devia ter me rebelado antes.

Devia ter me sentido assim no mesmo instante em que eu e Jughead começamos sei lá o que foi que rolou entre a gente. Tinha perdido tanto tempo, e isso só me trazia ainda mais tristeza e arrependimento.

– Obrigada, Lou.

Dei mais um daqueles sorrisos tensos – já estava ficando craque nisso – e deixei o Lou me dar um abraço de urso enquanto me acompanhava até o carro.

 Fazia semanas que não tinha notícias do Gabe, mas me sentia melhor sabendo que alguém gostava de mim e se preocupava com minha segurança, por isso nunca recusava quando o Lou se oferecia para me acompanhar. Não devia trabalhar naquele dia, mas tinha ido porque uma das meninas tinha ficado doente. A Verônica não estava lá, e eu fui sozinha.

Para falar a verdade, ela parecia ter deixado aquela deprê de lado e estava saindo com um menino bem bonitinho da física, que, por acaso, não é nem um pouco do rock. Ela já tinha visto o cara duas vezes aquela semana e quase voltado a ser a velha Verônica de sempre. Eu estava feliz pela minha amiga, mesmo que isso significasse que ia passar mais uma noite sozinha, mergulhada na minha desgraça. Ninguém disse que o caminho da recuperação é bonito, afinal de contas.

 O Lou me soltou e me deu um beijinho na testa.

– Sinto falta daquele seu namorado, Betty. Ele era todo metido a esperto, mas era um cara legal.

Soltei um suspiro, porque o Lou sempre toca nesse assunto, e respondi: 

– Eu sei. Também sinto falta dele.

– Se cuida, menina.

– Sempre tento.

Meu carro novo era incrível, não podia mentir. Roncava como todo bom carro esportivo devia roncar, mas encarava bem as ruas congeladas do centro quando atravessava a cidade para chegar em casa. Fiquei ouvindo as músicas deprê do Avent Brothers, falando de corações partidos, o caminho inteiro. Era bem depois da meia-noite, num dia de semana, e não tinha quase ninguém na rua. Um cachorro latiu em algum lugar, estava frio e escuro, e tremi sem querer. Odiava essa parte do trajeto: simplesmente me caía a ficha de que estava mesmo sozinha, de verdade.

Dei sorte e encontrei uma vaga bem na frente do prédio. Voei até o portão, porque meu uniforme não tinha sido feito para ser usado na rua, no frio do inverno de Denver. Ouvi o “clique” conhecido da fechadura quando digitei a senha e corri pra dentro.

Soprei um ar quente nos meus dedos e fiquei procurando as chaves na bolsa, porque ainda não tinha posto a do carro novo no chaveiro. Sempre saía com elas na mão, pronta para abrir a porta. Mas andava tão distraída com meus pensamentos e o peso no meu peito que cuidar da minha segurança pessoal tinha ido pro fim da minha lista de prioridades. Já tinha colocado a chave na porta e ia abrir a fechadura quando ouvi uma voz profunda dizer meu nome, vinda de trás de mim. Por um milésimo de segundo, fiquei toda animada. Uma sensação absurda de alívio tomou conta de mim, porque o único cara que podia estar me esperando no meu apartamento era o Jughead. Antes que eu pudesse me virar e abraçá-lo, senti alguém me pegar pela nuca com força e me jogar de cara na porta. 

Fiquei sem ar com o choque, e uma parte do meu cérebro me disse que eu devia gritar por socorro, mas a porta escancarou com um movimento rápido de um pulso com um relógio caro que eu conhecia muito bem, e fui cambaleando pra frente, porque o cara me empurrava pra dentro. Minha bolsa saiu voando e fiquei passada quando vi o Gabe parado na minha frente. Ele estava todo arrumadinho, como sempre, mas tinha um olhar de loucura e um sorriso de demente que me deixaram apavorada.

Nem consegui me mexer.

– Como é que você conseguiu entrar aqui?

Eu sabia que aquela situação não era nada boa. Que não estava segura com aquele cara por perto. Não queria ficar sozinha com ele de jeito nenhum, mas meu apartamento era pequeno, e eu não tinha pra onde correr. Meu spray de pimenta estava dentro da minha bolsa no chão, e o Taser que o Jughead me deu estava esquecido no meu carro novo. Eu estava realmente arrependida de não ter permitido que o Jughead deixasse sua arma aqui, todas às vezes em que havia oferecido.

O Gabe passou as mãos claramente agitadas no cabelo e ficou me olhando como um predador olha para a presa.

– Falei pra sua mãe que a gente estava tentando se reconciliar e eu queria fazer uma surpresa. Ela me deu a senha do portão. Segui você do trabalho até aqui, já que aquela aberração obviamente caiu fora e não tenho mais visto o macaco militar. Pensei que agora era um bom momento pra gente se acertar.

Ele falava de um jeito tão frio e objetivo que acho que nem se deu conta de que tinha entrado à força na minha casa e de que eu estava tremendo de medo. Cruzei os braços sobre o peito para tentar acalmar um pouco do terror que estava sentindo, mas ele continuou me olhando como se me dominasse com o poder da mente.

– A gente não tem como se acertar, Gabe. Agora vá embora, porque em dois segundos vou começar a gritar o mais alto que eu puder.

O cara sacudiu a cabeça e fez tsc-tsc.

– Bom… Sabe, Elizabeth, as coisas andam uma merda pra mim. Desde o dia que aquele brutamontes do seu namorado me fez passar por frouxo, e meu pai cortou meus cartões de crédito por causa daquela ordem de restrição que você inventou, tá tudo indo ladeira abaixo. Tô indo mal na  aula de teoria política, minha fraternidade quer me expulsar porque, aparentemente, não é legal permitir que um cara com QI de ratazana faça você de otário bem no meio do campus, meus pais estão furiosos comigo por causa da tal ordem, e o estágio que eu queria fazer na campanha da sua mãe já era, porque ela simplesmente não teve tempo de organizar isso. Então, Elizabeth, você pode entender que, desde que resolveu ser uma puta egoísta e dar as costas pra todas as coisas maravilhosas que a gente podia conquistar, estou tendo que dar duro pra conseguir o que mereço.

O Gabe estava louco, completamente fora da casinha. Tentei me afastar dele porque sabia que, se ficasse ao alcance das suas mãos, a situação ia passar de aterrorizante para inimaginavelmente horrível.

– Lamento as coisas estarem difíceis pra você, Gabe, mas você não devia ter acabado com meu carro. Deixou o Jughead louco. Eu te disse pra me deixar em paz, ou não ia gostar nem um pouco do que ele ia fazer.

Soltei um gritinho, porque, pelo jeito, tocar no nome do Jughead não foi uma boa tática. O Gabe se mexeu muito mais rápido do que eu podia imaginar. Me perseguiu quando fui andando para trás, tentando manter o máximo de distância entre nós dois. Infelizmente, o cara conseguiu me segurar na sala. Tentei lutar, mas ele era maior e mais forte do que eu. Me segurou pela garganta e a gente se debateu até o chão. Chutei a mesa, que fez um barulhão, e ele me deu um tapa no rosto com as costas da mão, partindo meu lábio. Aí sentou bem no meio do meu corpo, segurando meus braços nos lados e apertou minha garganta. Meus olhos estavam cheios de lágrimas, de tanto medo, e eu tinha dificuldade de respirar. Afundei as unhas nas mãos dele e sacudi as pernas, mas o Gabe só se inclinou e continuou apertando meu pescoço.

– Você pensa que eu ligo para o que aquele fracassado acha? Você acha que dou a menor importância para o que aquela porra daquele degenerado quer fazer comigo? Ele é um nada. Falei que aquele cara não ia ficar com você por muito tempo. E olha só: você tá sozinha e, finalmente, fazendo o que eu quero. Falei que eu ia conseguir o que eu quero. Sempre consigo.

Eu precisava me livrar do Gabe. Ele ia me matar. Sério, ia mesmo. 

Minha visão estava começando a ficar borrada, e meus pulmões queimavam. O cara ficou me apertando, sentado em cima de mim, falando que a gente ia voltar e que eu ia ligar pra minha mãe e pedir pra ela agilizar a questão do estágio, agora que a gente estava namorando. Fiquei sacudindo a cabeça, tentando respirar, e consegui enfiar as mãos e enterrei as unhas na parte de baixo do bíceps dele. O Gabe franziu a testa e se desequilibrou o suficiente para eu conseguir me afastar um pouco. Cortei a mão em um pedaço de abajur quebrado e tentei ficar de pé, mas ele me arrastou de novo para o chão, puxando meu cabelo de um jeito cruel. Urrei de dor quando o cara sentou com tudo em cima das minhas costas. Tinha batido a cabeça na perna da mesa, e o sangue que jorrava, começou a entrar nos meus olhos, me fazendo piscar.

– A Verônica vai chegar a qualquer momento.

Minha voz estava fina e fraca por causa da pressão que ele fazia no meu pescoço, mas o Gabe nem ligou. Só me pôs de pé e me empurrou. 

Fiquei dobrada ao meio no sofá. Tentei desesperadamente não pensar que meu uniforme não era um grande obstáculo ao seu objetivo. Ele se abaixou e colocou o rosto perto do meu, sem se importar com o sangue que escorria para todo lado.

– E daí? Você é minha namorada, Elizabeth. Você é minha. Se sua amiga chegar, você vai dizer pra ela que as coisas esquentaram um pouco enquanto a gente se acertava.

Então colocou tanto peso nas minhas costas, que a mão que ele torcia para trás não aguentou e, com um estalo horrível que deu um susto em nós dois, meu ombro saiu do lugar. Gritei de dor, e aquele lado ficou paralisado. O medo e o pânico foram subindo rapidamente pela minha garganta enquanto eu me debatia. Sabia que precisava chegar até a minha bolsa para pegar o spray de pimenta ou tentar chegar na cozinha e conseguir pegar alguma outra coisa para usar como arma. O Gabe soltou minhas mãos, já que uma tinha ficado inútil, e segurou minha nuca pra me manter dobrada sobre o sofá. Começou a puxar e arrancar a parte de baixo do meu uniforme, murmurando um monte de frases sem sentido, dizendo que ia me fazer entender de uma vez por todas que a gente estava namorando. Ficou delirando, falando que a gente ia se casar, e nossas famílias iam virar uma só. Comecei a chorar sem parar, porque não sabia o que fazer para impedir que o cara me violentasse daquele jeito. Por sorte, uma parte do abajur quebrado tinha ido parar perto do sofá, e um pedaço ficou enfiado numa das almofadas. Enquanto o Gabe tentava arrancar minha roupa, peguei o pedaço com minha mão boa. Dava pra sentir o short de babadinhos do uniforme começando a rasgar, e isso foi o bastante para me fazer tomar uma atitude. Naquela posição, só consegui acertar a parte mais carnuda da coxa do cara, e não sabia se tinha forças para causar algum estrago de verdade. Mas enfiei o caco de vidro com toda a força que consegui e ouvi ele me xingar enquanto ia um pouco pra trás. Fiquei de quatro e gritei “assassino maldito!” quando caí com todo o meu peso em cima do meu braço machucado. Engatinhei enquanto o cara tentava tirar o vidro da perna e consegui pegar o spray na minha bolsa. Estava tentando ficar de pé, e ele vinha correndo atrás de mim, mas consegui acertar um jato de pimenta bem na cara dele, que ficou uivando como um bicho machucado. Joguei o spray no chão e voei pela porta. Tenho certeza de que estava parecendo alguém que tinha fugido do hospício. Chorava, histérica, tinha sangue pelo rosto inteiro e quase não conseguia falar porque o Gabe tinha machucado meu pescoço. 

Corri até o portão e dei um encontrão na Verônica, que estava chegando em casa. Ela me abraçou e eu desmaiei, meio que balbuciando.

A Verônica gritava o meu nome, queria saber o que tinha me acontecido enquanto ligava pra polícia. Mas, entre a dor e o choque, paralisei. Fiquei piscando para ela, com a cara toda ensanguentada, e mal percebi que um grupo de pessoas tinha saído de casa e estava à nossa volta. Aquilo tinha sido demais para mim, e tudo ficou escuro. Tenho certeza de que a Verônica me encontrou antes de eu cair no chão, mas depois disso só me lembro de  ser colocada na ambulância, toda amarrada numa maca. As luzes e as sirenes faziam minha cabeça doer, e um paramédico bem novinho estava fazendo um milhão e meio de perguntas para a Verônica, que tinha entrado na ambulância comigo. Na mesma hora, ela apertou minha mão. Notei que estava chorando quase tanto quanto eu.

– Gabe?

Minha garganta estava pegando fogo e, quando eu falava, parecia que minhas cordas vocais atravessavam uma floresta de lâminas de barbear.

A Verônica secou as lágrimas com as mãos trêmulas, e eu me encolhi quando o paramédico se virou na minha direção.

– Os policiais pegaram o cara. O pai dele apareceu quando a polícia oestava colocando na viatura. Ele ainda estava sob o efeito do spray de pimenta, então não teve como negar que tinha saído do nosso apartamento. Como é que conseguiu entrar?

Eu me encolhi mais ainda, porque o paramédico mexeu no meu ombro e disse:

– Vamos colocar isso no lugar. Tá deslocado. O corte na sua testa é éprofundo e vai precisar levar pontos. Sinto muito.

Queria responder que estava tudo bem, porque tinha sobrevivido e, pelo menos, o Gabe não tinha se safado de mais esse crime absurdo, mas falar doía demais. Quando ele me perguntou se eu precisava fazer um exame de corpo de delito para estupro, sacudi a cabeça pra dizer que “não”, apertei a mão da Verônica e comecei a chorar de novo.

– Minha mãe – as palavras saíam entrecortadas, não só porque minha garganta estava doendo. – Ela deu a senha para o Gabe porque ele disse que a gente ia fazer as pazes.

A Verônica perdeu a cabeça e falou tanto palavrão que o Jughead ia ficar orgulhoso dela. A gente passou o resto do curto caminho até o hospital só de mãos dadas. As próximas duas horas foram um borrão de médicos e policiais. Depois de quinze minutos, ficou claro que eu não ia conseguir conversar com eles, porque minhas cordas vocais estavam em frangalhos.

Tive que escrever tudo. O Gabe ia passar pelo menos aquela noite na cadeia, e o pai dele não podia fazer nada pra tirar o filhinho dali. Não que isso tivesse alguma importância: eu ia ter que passar pelo menos uma noite no hospital para os médicos avaliarem a extensão dos danos na minha garganta, e precisava tomar remédios fortes pra aliviar a enxaqueca e aguentar a dor de colocarem meu ombro no lugar.

Minha mãe apareceu com o Jack perto do amanhecer, e meu pai também veio me ver. Disse para a Verônica que não queria ver nenhum dos três, e isso foi um drama. Quando minha mãe começou a gritar que devia ter sido um dos brutamontes que conheci quando estava com o Jughead, a Verônica perdeu o controle completamente e informou a todos que, se minha mãe não tivesse dado a senha do portão para o Gabe, nada daquilo teria acontecido. Isso fez todos calarem a boca. Meu pai entrou à força, usando os contatos dele no hospital, e eu passei uma hora ignorando e olhando pro cara, enquanto ele me pedia desculpas. Quando tentou beijar minha bochecha, virei a cara e fiz questão de que visse minha expressão de profundo nojo. 

Parte da obsessão do Gabe tinha a ver com o que essas pessoas representavam, e eu simplesmente não podia ficar perto disso naquele momento. Todo mundo foi embora depois que uma enfermeira ameaçou chamar a segurança se não parassem de me incomodar. 

A Verônica puxou uma cadeira e encostou os pés na beirada da cama, e nós duas caímos num sono profundo enquanto a manhã passava. Eu dormia e acordava, porque precisava de mais remédios para a dor no ombro, que incomodava, e eu começava a sentir várias partes do meu corpo que tinham sido machucadas. A Verônica sumiu lá pelo meio-dia, mas tudo bem, porque mais uma tropa de médicos e policiais apareceu.

O pai do Gabe conseguiu soltá-lo sob fiança, mas não tinha o que discutir sobre os ferimentos graves que ele me causou, e a polícia queria indiciá-lo por tentativa de assassinato. Eles me fizeram contar tudo várias vezes, e eu nunca me esquivei daquela realidade brutal. O cara estava doente e precisava se tratar, mas, mais do que isso, precisava ficar num lugar onde não pudesse mais causar mal às pessoas. Se sentir no direito de ser dono de alguém sem levar em consideração os sentimentos dessa pessoa ia muito além de ser emocionalmente instável.

A Verônica voltou, trazendo iogurte e granola, com uma cara envergonhada, e disse:

– Liguei pra Toni pra contar o que aconteceu. Nem pensei que  ela ia surtar no meio do estúdio.

Fiquei bem quieta e arregalei os olhos.

– Pelo jeito, o Jughead pirou quando ficou sabendo. E, não preciso nem dizer, ele vai aparecer aqui em, tipo, cinco minutos. Desculpe, mas pensei que tinha que contar. Acho que posso pedir pro pessoal do hospital não deixar o cara entrar, se você quiser, apesar de desconfiar que barrar a entrada dele quando ele tá assim, todo enlouquecido, vai dar um trabalhão. Aí você vai ter que mandar mais um ex passar a noite na cadeia.

Não sabia direito o que achar daquela visita. Por um lado, passei o último mês querendo ver o Jughead mais do que tudo, querendo que ele viesse falar comigo. Por outro, o cara não devia ter esperado acontecer uma coisa horrorosa dessas pra fazer isso. Soltei um suspiro e fiquei balançando a cabeça. Mas ela tinha razão: barrar a entrada dele, nesse momento em que estava decidido a entrar ali de qualquer jeito, era um incômodo de que eu não precisava.

– Tudo bem. Consigo lidar com ele.

Minha voz ainda estava fraca e rouca, mas pelo menos doía um pouco menos para falar.

– Você não parece ter forças pra lidar com coisa nenhuma.

E ela tinha toda razão: meu braço estava numa tipoia, eu tinha um corte de quase oito centímetros na testa, com um curativo branco, combinando com o da minha mão. Minha boca estava cortada, com uma casca de  sangue, e eu tinha um círculo horroroso de marcas azuladas na pele clara do meu pescoço. Pra completar, ainda estava com os dois olhos roxos, por ter sido jogada de cara na porta e no chão.

– Não tem problema. Ele pode entrar e ver que eu tô bem e voltar pra vida dele. Tenho certeza de que é só isso que quer.

A Verônica me lançou um olhar cético e deu umas batidinhas nos meus pés, que estavam enrolados por baixo daquele cobertor do hospital que pinicava.

– Então tudo bem. Se você jura que vai ficar bem, vou tentar encontrar algum lugar onde o café não tenha gosto de piche e já volto.

Eu nunca ia ficar bem de verdade de novo. Acho que ninguém que passou pelo que passei nos últimos meses ficaria, mas não tinha medo do Jughead. Ser quase estuprada por um doido me fez ver minha vida com outros olhos, perceber o que estava faltando e o que ia fazer dali pra frente.

Queria mexer no meu cabelo, mas ele estava todo emplastado de sangue seco e sabe-se lá o que mais. E, além disso, não tinha muito como melhorar minha cara. O Jughead ia ter que encarar.

Estava mexendo no celular, respondendo as mensagens da Toni e de quase todos os amigos do Jughead, dizendo que estava tudo bem, quando a porta abriu, e ele entrou. Olhei pra cima e fiquei observando, vi a raiva estampada naquele rosto lindo se transformar em horror quando me viu toda machucada. O peito dele subia e descia, dava para ouvir a respiração do cara, que foi para a ponta da cama. A gente ficou se encarando em silêncio, e notei que o cabelo dele ainda estava normal, só meio bagunçado, com a cor natural. Odiava aquilo, porque ele parecia um estranho com aquele cabelo. Estava com um olhar transtornado, aqueles olhos pareciam muito grandes pro rosto dele. Parecia que uma tempestade de neve se aproximava, vinda das profundezas geladas da alma do Jughead.

Ficou passando a língua no piercing da boca, coisa que sempre fazia quando ficava nervoso, e me dei conta de que, se eu não dissesse nada, era bem provável que a gente passasse a tarde inteira só se olhando meio de canto.

– Você não precisava ter vindo. Tô bem, só um pouco quebrada.

Aquelas mãos grandes dele ficaram tensas no pé da cama, e vi a cabeça da cobra dobrar e esticar com sua irritação.

– Eu queria ver com meus próprios olhos se estava bem. Você podia ter me avisado que estava no hospital.

Me recusei a tirar os olhos dele, que parecia ficar mais furioso a cada parte machucada do meu corpo que via.

– Bom, considerando que faz semanas que você não fala comigo, não me pareceu muito lógico contar o que aconteceu.

A boca dele se retorceu.

– Você tem razão. Eu devia estar lá. Você não devia ter ficado sozinha.

Soltei um suspiro e agarrei o cobertor.

– Você tem razão. Você devia estar lá, mas não porque o Gabe é um doido nem porque eu precisava de proteção. Você devia estar lá porque gosta de mim o mesmo tanto que gosto de você, mas não é o caso. Ninguém tem culpa, só o Gabe. Ele é doente e perturbado. É bem provável que, mesmo que eu estivesse namorando alguém, o cara ainda ia ficar naquela loucura de me perseguir, simples assim. Não culpo ninguém além dele. Além disso, meu corpo já está se recuperando. Meu coração é que parece que foi passado em um processador de alimentos.

– Betty…

O Jughead tentou falar alguma coisa, mas levantei minha mão boa, olhei bem nos olhos dele e continuei:

– Tô cansada do meu amor não ser o bastante. Pensei que, quando a agentecomeçou a sair, eu ia ficar bem com o que você tinha pra me oferecer. Pensei que meu amor ia ser suficiente para nós dois, já que ficou sufocado por tanto tempo. Mas agora percebi que mereço mais do que isso.

Pisquei para disfarçar as lágrimas e fui em frente:

 – Mereço todo o amor do mundo, porque estou disposta a dar todo o oamordo mundo. Eu teria segurado sua mão para atravessar essa escuridão, Jughead. Mas não vou ficar parada olhando você se afastar de mim toda vez que ficar magoado com alguma coisa. Desculpe nunca ter te contado do Dylan, mas falei um milhão de vezes que a gente não namorava. Você teve uma prova irrefutável disso no meu aniversário. Devia ficar puto da vida com ele, por guardar esse segredo, não comigo. Você tinha razão desde o início: a gente não confia um no outro o bastante para essa história dar certo. Acho que eu queria muito que desse. Você, nem tanto.

Quanto terminei de falar, fiquei surpresa de ver que ele estava com os olhos cheios de lágrimas. A única vez que vi o Jughead chorar foi no enterro do Dylan. Ele esticou a mão, como se fosse tocar na minha perna, mas puxou de volta antes de encostar.

– Betty, e se eu te dissesse que te amo? – a voz dele era quase um sussurro. – Ver você desse jeito me dá vontade de matar aquele Davenport com minhas próprias mãos, mas também faz alguma coisa bem lá no fundo de mim doer. Senti sua falta nessas últimas semanas, mas também tava furioso com você. Não consegui equilibrar essas duas coisas.

Sacudi a cabeça de leve, com tristeza, e deixei as lágrimas rolarem pelo meu rosto.

– Isso não me basta. Passei a vida inteira tentando corresponder a expectativas inalcançáveis. Você era a única coisa que eu queria de verdade e, quando consegui, achou que tinha que virar outra pessoa pra ficar comigo. Me recuso a colocar o mesmo tipo de expectativa que sempre pesou sobre mim em outra pessoa, mesmo sem ter pedido isso. Tem partes da gente que se dão superbem, Jughead, mas tem outras que simplesmente não dão certo. Isso tudo – passei minha mão boa pelo meu corpo deitado – vai se consertar sozinho. Vai ficar tudo bem, e a gente vai voltar ao que era antes.

Fiz questão que ele entendesse que eu estava falando de tudo mesmo, do corte na cabeça ao meu coração partido. Eu ia esquecer aquele cara.

Não tinha outra opção.

– Você sempre esteve na minha vida, Betty. A gente devia poder fazer as coisas darem certo.

Tive vontade de encolher os ombros, mas só um se movia, então não rolou. Em vez disso, enxuguei as lágrimas com as costas da mão e dei um sorriso meio trêmulo.

– Tem um monte de coisas que deviam ter acontecido de outro jeito.Sei que a maioria das pessoas achava que nosso namoro não tinha nada a ver. A gente só tem a agradecer pelo pouco que rolou.

– Sinto que estou decepcionando você, decepcionando todo mundo. E,pela primeira vez na vida, isso me incomoda pra caramba. Simplesmente não sei como lidar com o que rola aqui dentro – ele bateu o dedo na têmpora.

Àquela altura, eu estava me debulhando em lágrimas, quase dizendo que ele podia me amar, só isso, e aprender a ser amado como merecia, porque eu queria desesperadamente amá-lo, e aí tudo ia dar certo, mas não era o caso. A gente precisava acreditar em si mesmo, precisava ter segurança de que se bastava sozinho, sem tentar ser outra pessoa. E isso não ia acontecer. Então fechei os olhos e, pela primeira vez, fui eu que deixei o cara no vácuo.

– Às vezes não é pra ser. Tô ficando cansada. Você pode chamar uma enfermeira quando sair? Acho que está passando o efeito dos remédios para dor.

– Betty, eu lamento muito, muito mesmo.

– Eu também, Jughead. De verdade. Lamento muito.

Passei a vida inteira apaixonada por esse cara e, apesar de querer ser forte e deixar tudo aquilo pra trás, esquecer o que sentia por ele ia ser a coisa mais difícil que fiz até hoje.

 A gente ficou se olhando nos olhos por um minuto longo e triste, depois ele se virou e foi embora. Quando a  Verônica voltou, eu não conseguia parar de chorar, e ela teve que subir na cama para me abraçar. Chorei como nunca tinha chorado antes. Até secar a última lágrima. Deixei minha melhor amiga me abraçar enquanto eu me despedaçava. A enfermeira veio me aplicar um remédio para dor, mas, quando viu meu estado, deu meia-volta e apareceu com um calmante.

Fiquei mais um dia no hospital e, quando tive alta, me dei conta de que não queria voltar para minha casa de jeito nenhum enquanto o Gabe estivesse à solta, com ou sem ordem de restrição. Por sorte, a Toni tinha dois quartos livres na casa dela, na região do parque Washington, porque as duas pessoas com quem dividia o aluguel tinham noivado e ido morar juntas. A Verônica me deixou lá e voltou algumas horas depois com uma mala, o básico para eu passar alguns dias. E contou que a administradora do condomínio estava dando um jeito no nosso apartamento, mas que ela estava morrendo de medo de ficar lá sozinha. 

Só demorou uma semana para a Verônica perguntar para a Toni se podia ficar no outro quarto vago.

A imobiliária até deixou a gente romper o contrato sem pagar multa, por causa do que tinha acontecido.

Ficar com as meninas fez maravilhas pela minha saúde física e mental. Elas nunca me decepcionavam, e sempre tinha alguém do meu lado, para lembrar que o que eu estava sentindo era passageiro. E se recusaram a me deixar surtar por causa do processo contra o Gabe.

Estava tudo passando muito rápido, e às vezes parecia que o pai do Gabe ia mexer todos os pauzinhos possíveis pra livrar a cara do filho. O Alex Carsten interveio, e agora o Gabe tava usando uma tornozeleira eletrônica e tinha sido indiciado não apenas por lesão corporal, mas também por violação de domicílio. Nem passou pela minha cabeça que minha mãe poderia ter pedido esse favor para o Carsten. Mas, já que eu o Jughead não estávamos mais nos falando, nunca liguei para perguntar se tinha sido ele, nem para agradecer. É claro que os Davenport contrataram o melhor advogado de defesa da cidade, mas todas as evidências apontavam que eu ia ganhar, então tentei manter o pensamento positivo. Eu estava me recusando a falar com meu pai e minha mãe. Para ser sincera, nem contei que mudei de endereço e troquei o número do celular logo depois que saí do hospital. A verdade é que não tenho mais nada a dizer para eles: tudo o que disse para o Jughead vale para os dois também.

Mereço mais e, se eles não estão dispostos a retribuir o amor que sinto por eles, sem restrições ou exigências, não quero mais nenhum dos dois na minha vida. Sei que minha mãe deve estar se martirizando com o fato de poder ser responsabilizada por ter passado a senha do portão para o Gabe.

Mas, como disse para o Jughead, a única pessoa que culpo é o próprio Gabe. Para mim, é mais importante ela reconhecer que jamais devia ter empurrado o cara para cima de mim quando eu disse que era apaixonada por outra pessoa. Se meus pais não conseguirem descobrir um jeito de me amar pelo que sou, vou me virar sem eles.

Eu e a Verônica estamos nos acostumando à nossa nova rotina, e ela adora a Toni tanto quanto eu. É gostoso morar em casa, em vez de apartamento, e a cada dia que passa fica um pouco mais fácil respirar com aquele buraco no meu peito. Fazia pouco mais de um mês que eu tinha me separado do Jughead, mas parecia uma eternidade. Fingir ficou muito mais difícil, talvez porque sabia que tinha terminado de verdade. Eu não conseguia mais sorrir, nem fazer cara de que estava levando a vida numa boa. Estava sofrendo, e sofrendo muito. Tinha saudade do Jughead, e ainda o amava. Não podia ficar com ele, e isso me matava de um jeito completamente diferente de quando eu amava o cara, sem ele saber de nada. A Toni evitava falar do trabalho e dos meninos, mas, de vez em quando, deixa escapar alguma coisa sobre o Jughead. Sempre que isso acontecia, eu ficava com a impressão de ter um caco de vidro cravado em uma ferida aberta. Devia me sentir um pouco melhor de saber que ele também não estava lá grandes coisas, mas não me sentia. Nós dois merecemos ser felizes. E é uma droga a gente não poder fazer isso juntos.


Fui ao Saint Patrick’s, uns dias antes do aniversário do Jughead, que ia cair no fim de semana. Como é um dia em que todo mundo sai para beber,  as meninas decidiram que, em vez de ficar, na maior deprê, a gente ia sair e se divertir. Eu não estava a fim, nem um pouco. E não era só porque meu rosto ainda estava meio feio, mas porque achava que não dava conta de ficar no meio de um monte de gente. Eu tinha quase certeza de que ia ser horrível, mas, como amo aquelas duas, acabei concordando. Para minha surpresa, depois de tomar uns martínis num bar meio fora de mão que a Toni conhece, relaxei e comecei a me divertir. Apesar de tudo, foi legal pra caramba. Eu estava mesmo precisando daquilo.

Acordar na manhã seguinte foi péssimo, e fiquei tentada a não ir para a faculdade, mas já tinha faltado a tanta aula por causa do ataque do Gabe que não podia mais fazer isso. Estava na frente do espelho, arrumando o cabelo e tentando disfarçar as manchas amareladas do meu olho machucado, quando tive uma revelação que me deixou passada: nunca foi fácil amar o Jughead. Sempre foi difícil e doloroso. Demorou anos para compensar o investimento, mas nunca cheguei à conclusão de que não tinha valido a pena. Amar o Jughead nunca foi uma escolha, sempre acreditei que era uma coisa inevitável. E sempre achei que ele nunca ia me amar. 

Ontem à noite, tive tanta certeza de que não ia me divertir de jeito nenhum, que sair era uma péssima ideia, que eu ia ficar triste. Mas acabei me divertindo tanto, valeu muito a pena arriscar. Fiz com o Jughead uma coisa que jurei que não ia fazer: me afastei só porque não tinha nenhuma garantia de que nossa história teria um final feliz.

Coloquei meu babyliss em cima da pia e encarei meu reflexo no espelho. Toda a minha tristeza e toda a minha solidão estavam estampadas na minha cara. A única coisa que eu sempre tinha desejado na vida era aquele cara, e, quando ficou difícil lidar com ele, simplesmente desisti, sem lutar. Não estava certo. Eu merecia ser amada, mas também merecia o Jughead e qualquer forma de amor que ele pudesse me dar. Ele não era um cara normal, nunca seria daqueles que desenham coraçõezinhos, mandam flores ou escrevem poemas que fazem as mulheres corarem. O que ia existir entre a gente era aquele toma-lá-dá-cá, cheio de altos e baixos, e uma paixão ardente que queimava até o fundo da alma. Quando ele me perguntou, lá no hospital, “e se eu dissesse que te amo?”, eu deveria ter respondido “acho que ama mesmo”.

Consegui ver isso claramente, tão claro como meu reflexo no espelho: o Jughead me amava, só não sabia que era isso. Nem eu nem ele tínhamos muitos exemplos de relacionamentos saudáveis e afetuosos. Mas, me disse que estava disposto a tentar, eu deveria ter percebido que ele estava se apaixonando por mim, porque o Jughead nunca tinha tentado ter um relacionamento com ninguém.

A Verônica bateu na porta, enfiou a cabeça dentro do banheiro e disse:

– A gente precisa sair daqui a pouco. Falta muito?

Eu só tinha feito os cachos na metade do cabelo, então a resposta era óbvia. Virei para ela de olhos arregalados e falei:

– A gente precisa passar no shopping depois da aula. Vou comprar um vestido novo.

Ela encostou o quadril no batente da porta, fez uma cara séria e perguntou:

– Algum motivo em especial?

– Este fim de semana é aniversário do Jughead.

– Acho que a Toni comentou.

– Ele deve fazer uma festinha.

– Acho que ela comentou alguma coisa sobre isso também.

– Bom, a gente tem que ir.

– Por quê? Pensei que você tinha desistido dessa confusão. Ou será que os martínis de ontem à noite ainda estão fazendo efeito?

Sacudi a cabeça, peguei o babyliss e declarei:

– Preciso dar um presente pra ele.

– É mesmo? E se ele estiver com alguém?

Olhei feio pra ela. Essa possibilidade nem tinha me ocorrido.

– Você acha que vai estar? – perguntei.

A Verônica resmungou alguma coisa baixinho e tirou aquela franja longa do rosto.

– Não. A Toni disse que o Jughead quase virou ermitão desde que vocês terminaram, e que anda no maior mau humor. Quem não tá a fim de ser esfolado vivo tá ficando bem longe dele. Só pra eu saber, o que tá pensando em dar pro cara?

– A única coisa que acho que ele quer.

Ela abafou o riso e perguntou, com um tom de deboche:

– Mais piercings na cara?

Dei uma risadinha e respondi:

– Não… euzinha. Acho que a única coisa que ele realmente quer sou eu. Só que somos os dois muito zoados para perceber isso.

Minha amiga esfregou as mãos e comentou:

– Bom, isso vai ser interessante.

“Interessante” era pouco. Mas, nessa minha nova fase, só vou me importar com gratificações imediatas, e o Jughead ia ser a maior delas. Só esperava que o cara não tivesse se afundado demais naquele túnel escuro, e eu ainda consiga ser a luz no fim dele.


Notas Finais


Comentem e apertem o coraçãozinho. ❤️


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