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História Não diga que me ama - Capítulo 5


Escrita por: lexiens

Capítulo 5 - 5. Mudança de planos


Delphine POV

– Você teve mesmo azar em pegar fibrose cística¹? É uma doença tão rara!

Eu empurrava a cadeira de rodas em que Max estava enquanto íamos para o jardim do hospital. Onde uma havia Uma estátua, rodeada de banquinhos de madeira e árvores lindas, que sacodiam com o vento, chegando a hipnotizar qualquer um que parasse por apenas um segundo para prestar atenção.

– Pra você ver – respondeu, olhando-me com a cabeça inclinada para trás, e só então parei de empurrar a cadeira e me sentei no banco logo ao lado – Tudo o que sei é que duas pessoas fizeram sexo sem camisinha, e agora tenho que morar em um hospital à espera de um transplante! – ironizou a própria desgraça, e eu nem sabia o que dizer para confortá-lo. Ou se deveria dizer alguma coisa.

– Não sente falta dos seus pais? – ousei em perguntar, apenas para conhecer meu único, e mais legal ''paciente''.

Vi seu olhar pensativo ir longe, e por um instante, arrependi-me da pergunta que fiz.

– Não, não muito – respondeu dando de ombros – Eram péssimos, e não se importavam comigo.

– Sei bem como é – disse baixo, não na intenção de que ele ouvisse, mas mais para mim, do que para ele.

– E os seus pais? Ainda estão vivos? – questionou me olhando de relance.

Apoiei os cotovelos na cabeceira do banco, e encarei a estátua enquanto pensava naquela pergunta. Sim, eu sentia muita falta dos meus pais, e eles sequer estavam mortos ainda. Talvez, para eles, eu e Charlotte estivéssemos.

– Longa história – limitei-me a dizer.

– Não vou a lugar algum, doutora – brincou rindo fraco, automaticamente arrancando uma risada de mim.

– Não sei onde minha mãe está! E não sei onde meu pai está também! – resumi a história, para que não ficasse vulnerável sobre aquele assunto mais uma vez – Não sei se fazem questão de saber como eu estou, então eu não procuro saber sobre eles.

– Sua vida é ainda mais chata do que a minha – debochou rindo, e cheguei a senti raiva de seu comentário.

Max era só uma criança, e estávamos tendo aquele tipo de conversa. Acabei rindo com ele, pois era melhor do que me entregar a outro choro compulsivo.

– Sabe que pode dar tudo errado na mesa de cirurgia, não sabe? – questionei mudando de assunto. Talvez não o melhor para falar com ele, mas queria escapar um pouco da minha cruel realidade, a qual a palavra família, não era um termo muito conhecido e apreciado por mim.

– Eu não tenho nada a perder, e não vou optar pelo tratamento convencional – disse sem pensar muito em sua resposta – Se eu morrer, então morri! Não vou ter meu pai e minha mãe dizendo que me amam depois da cirurgia, ou segurando minha mão. Vou ficar no hospital até completar a maioridade. Então é melhor acostumar-se com a minha presença, e encontrar um bom restaurante japonês para jantarmos após a minha recuperação! – brincou novamente, e pensei que ele seria muito amigo de Cosima, pois os dois eram praticamente iguais em suas falas.

E lá vou eu lembrar dela, mais uma vez.

– Acredito que o refeitório do hospital seja um bom lugar! – brinquei de volta, recebendo uma gargalhada fraca como resposta.

Senti meu celular vibrar no bolso do jaleco, e logo o apalpei e olhei para o visor, sem emoção alguma. Assim que vi que era um email de Cosima Niehaus, pensei que pudesse ser o endereço de onde nos encontraríamos, então tratei de abri-lo, para saber com o que lidaria mais tarde.

– Que cara é essa? – questionou Max, ao ver meu sorriso sumir a medida em que lia a mensagem.

– Meu jantar de negócios acabou de ser cancelado – respondi, ainda incrédula com a mensagem. Mas compromissos são compromissos, e se é trabalho, eu não posso reclamar. Não tenho o direito de reclamar.

– Sinto que alguém vai ao pub com a Dra. Adele curar a seca deprimente – disse em um tom brincalhão, e não pude evitar de rir.

Talvez não seria tão ruim assim sair com Adele, pois jantar com Cosima, eu não iria mais. Seria até melhor, para colocar a cabeça no lugar e repensar sobre minhas atitudes.

Cosima POV

Enquanto minha equipe tratava de arrancar o forro e até as tábuas velhas do chão, pedi para que Felix encontrasse algumas casas à venda na redondeza, para extrair da Srta. Cormier, fragmentos de seu gosto por decoração e paleta de cores.

– Cosima! – ouvi a voz de Paul me chamar, entrando na casa sem mais ou menos, e eu sequer sabia como ele havia descoberto o lugar onde eu estava.

– Paul? Aconteceu alguma coisa? – questionei preocupada, pois ele nunca aparecia no trabalho, e raramente ia à empresa.

Ele aproximou-se mais, e aliviou sua expressão colocando um sorriso em seus lábios.

– Consegui sua palestra em Chicago – explicou-se ainda muito, muito sorridente.

Fazia muito tempo que eu estava tentando marcar aquela palestra em Chicago, para tratar principalmente do assunto de casas inteligentes, simplesmente para incentivar o mercado de que era uma boa ideia.

O verdadeiro motivo de eu me intrometer naquele assunto, é porque eles provocaram. Bateram o pé dizendo que era uma ideia ruim, e que não acatariam mesmo tendo o dinheiro que tinham. Tudo o que eu precisava fazer, era convencê-los de que estavam errados, e convencer, principalmente, os compradores do mercado de que aquilo, valia a pena.

– Já informei o piloto do jato – continuou Paul – Você embarca imediatamente!

Eu estava tão animada quanto Paul, mas aquilo acabaria com os meus planos de encontrar a francesa.

– Diz alguma coisa Cosima!

– Isso é ótimo! É mesmo – respondi saindo de transe, sabendo que aquela era uma oportunidade única, e que eu não poderia perdê-la – Você vem comigo? – questionei, arrancando as luvas de proteção que usava para tirar as madeiras do assoalho enquanto caminhávamos para fora da residência.

– Sim, e já informei Marion sobre sua agenda e sua ausência – informou parando na frente do carro – Eu te levo em casa. Suas malas já estão prontas.

– Só preciso avisar a equipe – avisei e recebi um aceno com a cabeça como resposta.

Foram questão de minutos até eu informar toda a equipe sobre a nova planta da casa e todos os seus afazeres. Paul me levou para casa, e durante o trajeto, digitei um e-mail um tanto quanto objetivo para Delphine Cormier, dizendo que teríamos que adiar nosso jantar de negócios.

Bom dia, Srta. Cormier.

Perdão por tardar o contato, estive ocupada. De qualquer maneira, sinto lhe informar que teremos que adiar nosso encontro. Digo, jantar de negócios.

Faria bem um pouco de piada. Eu já havia percebido, que Delphine não gostava muito do meu jeito, digamos brincalhão demais. Ou rude demais, como dizem alguns rumores que circulam pela empresa.

Às vezes, eu sentia-me uma babaca por tratar algumas pessoas de um jeito mais insultuoso, sobre tudo com inferioridade. Porém, em contra partida, eu já havia tentado ser a chefe cinco estrelas que todos amavam dentro da empresa, e o resultado disso? Aproveitaram-se de mim. Roubaram meu dinheiro, debaixo do meu nariz. Me passaram a perna, e mandaram informações minhas para pessoas que não queriam me ver bem.

Você colhe o que planta!

Desde já peço desculpas, e entro em contato assim que voltar para o estado.

At.te. Cosima Niehaus.

Não havia pedido o número do telefone dela, então o que me restava, era recorrer às formalidades. Disquei de imediato o número de Alison, pois ela precisava saber que eu não estaria na cidade.

Meu objetivo, era tentar fazer Alison reaproximar-se de mim, pois desde que Donnie a deixou, tenho sentido ela distante. Posso não ser ele, mas sinto falta dela com uma força imensa. Tento, portanto, manter o máximo de contato, e usar o máximo de tempo que tenho para ficar perto dela.

Toda vez que ficávamos longe por muito tempo, eu me sentia vazia, e me lembrava de coisas que aconteceram em nossa infância, que nos levaram a ser quem somos hoje. Lembrava, inclusive, do dia em que tudo mudou.

– Eu não vou conseguir Ali – disse respirando fundo, uma e outra vez, sem conseguir controlar a tontura que dominava minha cabeça.

– Você consegue sim, por favor Cos – pediu ela desesperada, colocando as mãos em minha boca para tentar abafar o meu choro compulsivo.

Ouvimos passos, e nos apertamos mais sob os lençóis da minha cama de solteiro do nosso quarto compartilhado.

– Cosima! – gritou uma voz masculina, uma voz que conhecíamos e que nos assustava constantemente.

A porta do quarto se abriu, e aquele verme, com uma garrafa de pinga barata na mão, entrou. Sua sombra se fez na porta aberta, já que as luzes de fora estavam acesas. Eu tentei calar a boca, mas não consegui.

– Eu já disse para não me desobedecer, menina! – esbravejou quando aproximou-se da cama e puxou os lençóis, revelando meu corpo encolhido no de Alison enquanto continuava chorando – Engula a droga do choro, porque eu não te bati ainda!

– Papai, se acalma! – tentou Ali, ficando de joelhos sobre a cama enquanto eu tremia de medo – Fui eu quem quebrei seu controle, eu havia me esquecido de colocar no lugar. Sinto muito.

– Pare de tentar encobrir sua irmã – ordenou, sabendo que ela tentava mesmo me encobrir por ter quebrado a droga do controle – Você vem comigo!

Eu não disse nada, e nem relutei. Escutava, de longe, os gritos de minha mãe e de Alison, pedindo para que ele parasse e tentasse conversar, se acalmar, enquanto me arrastava pelo braço que apertava com uma força desumana. Mas nada acontecia. Eu sabia o que estava por vir, porque não era a primeira vez, e muito provavelmente, não seria a última.

Sendo tirada do meu transe, senti meu corpo cair no chão, e vi meu pai fechar a porta da frente com força. A chuva caía sem pudor, e o vento estava acabando comigo. Ouvi a porta abrir, e gritos vindos de dentro. Alison ajoelhou-se ao meu lado, pois eu ainda permanecia no chão, sem forças, sem conseguir respirar.

– Ei, ei! – chamou ela, segurando meu rosto com as duas mãos para que eu lhe encarrasse – O que fazemos quando estamos assim? – perguntou, tendo conhecimento que eu já sabia a resposta, já que sempre fazíamos aquilo quando a ansiedade e o desespero saiam de controle. Ela passava os polegares em meu rosto, na tentativa de amparar as lágrimas que não paravam de cair.

– Assopramos as velas – respondi àquele exercício, como já havíamos treinado, muitas e muitas vezes antes.

– Isso mesmo! – disse sorrindo, talvez feliz por ao menos eu estar fazendo progresso naquele momento – E você precisa de três, está bem?

Assenti com a cabeça, e junto com minha irmã, inspirei profundamente pelo nariz, segurei, e expirei devagar pela boca. Assim por três vezes. Alison era a única que se importava comigo naquela casa, e a única que faria de tudo por mim.

– Nós vamos embora daqui, e não vamos voltar nunca mais, entendeu bem?

Mais uma vez, assenti com a cabeça. E depois daquele dia, nem a minha vida e nem a de Alison foram as mesmas.

************

– Ali! Estou te ligando para dizer que vou a Chicago hoje – informei através da ligação que havíamos feito.

– E você só me diz agora? Aonde está? – questionou ela do outro lado da linha, com um tom nada amigável.

– Em minha defesa, eu acabei de descobrir. E estou indo pegar minhas malas para ir ao aeroporto.

– Bom, você é a rainha do atraso, e o jato é seu! Então trate de passar aqui para se despedir direito!

Ri de seu comentário, simplesmente por saber o quão certa ela estava naquela afirmação. Eu não era a rainha da pontualidade, então ela, Felix e Alfred, não perdiam uma única oportunidade de caçoarem de mim.

E tecnicamente falando, eu não tinha um jato por ostentação. Eu tinha um jato, porque viajava constantemente para compromissos como esse, pois muitas empresas de fora e eventos internacionais me convidavam para palestrar, ensinar e mostrar o que eu tinha em mente, indo até as mesas redondas com os mais renomados da área.

– Está bem, eu passo aí antes de ir – respondi e finalizei a ligação.

– Fiquei sabendo que liberou Ferdinand mais cedo – comentou Paul enquanto ainda dirigia, mas ao ver o sorriso debochado em seu rosto, soube que alguma piada viria por aí.

– Ele tinha um encontro com os sogros, decidi liberá-lo para se aprontar – expliquei voltando minha visão para a estrada a frente.

– E eu aqui, trabalhando feito escravo – brincou forçando um tom ofendido, e não escondi minha expressão de incredulidade.

– Eu nem te vi semana passada naquela casa, Dierden – lembrei, respondendo àquela implicância – Some quando quer, tira folga sem me avisar, e ainda ganha o mesmo todo mês – continuei retrucando.

– É claro – concordou com o foco na direção – Você trata melhor sua IA do que eu!

– Estamos lavando roupa suja, então? – ironizei, o encarando à medida em que chegávamos na mansão – Minha IA é bem mais fácil de lidar, do que você!

Aquela discussão perdurou até chegarmos em casa. Paul me ajudou a carregar as malas até o carro, e conferi uma última vez todos os meus e-mails e caixas de mensagem, e nenhuma resposta da francesa sobre o nosso não jantar de negócios esta noite.

O voo não fora nada fora do esperado, e dormi até mais do que deveria. Paul aconselhou que eu estudasse um pouco o que diria, mas já estava tão familiarizada com o assunto, que não precisava. Eu sabia o que diria, como agiria e a quem provocaria.

– E essa cliente nova? – puxou assunto Paul.

Estávamos sentados um de frente para o outro dentro do jato, enquanto comíamos nosso almoço e tomávamos champanhe, apenas em prol da comemoração de mais uma conquista.

– Soube que está comparecendo pessoalmente no projeto da casa dela – jogou verde, já que realmente, eu nunca me fazia presente, e apenas ficava na empresa fazendo os desenhos da nova planta.

– É uma casa antiga – respondi dando mais uma garfada no peixe que me era servido – Me interessei pelo projeto, então quis comparecer – expliquei enquanto mastigava.

– Pelo projeto? – questionou de maneira sugestiva, e logo me toquei do motivo daquelas perguntas.

– O que Felix falou?

– Que está interessada em Delphine Cormier!

Ponderei um pouco para responder, pois sabia que estávamos entrando em um assunto que pouco me agradava, mas que eu logo teria que falar, de um jeito ou de outro.

– Se lembra da primeira coisa que te chamou atenção em Beth? – questionei, e precisava que ele fosse claro em sua resposta.

Paul soltou seu garfo com cuidado sobre o prato, e sorriu para mim, enquanto formulava sua resposta.

– A maneira como ela lida com as coisas, e como ela consegue ser corajosa. Mas a primeira de todas, foi o sorriso, e os olhos dela. É, sem dúvida, o sorriso e os olhos! – disse sorridente. Paul era um romântico de carteirinha, isso eu não poderia negar nem se quisesse – Por que a pergunta?

– Porque nunca senti vontade, ou necessidade de conquistar alguém antes – respondi imediatamente, sabendo que era totalmente correto afirmar aquilo – Sinto que quero descobrir mais sobre ela, e quero que ela saiba mais sobre mim também.

– Teria coragem de revelar a ela o seu passado? – questionou, assustado com a minha insinuação. Paul sabia que eu abominava o fato de ter que falar sobre mim. E o assustava também, o meu empenho em sempre esconder a história de todas as marcas espalhadas pelo meu corpo, porque não cabia a ninguém saber daquilo.

– Eu não sei Paul – disse em um tom cansado, pois se tinha uma resposta para dar sobre aquela mulher, a resposta era aquela – Mas aposto que ela namora.

– Não é justo insinuar isso só porquê ela é uma mulher bonita – repreendeu após sorver pouca coisa do líquido em sua taça, e secar a boca com o guardanapo de algodão que estava de prontidão sobre a pequena copa – Você deve ter a mesma idade que ela, e insiste que relacionamentos não te satisfariam.

– Eu tenho os meus motivos, e você sabe disso!

– Mesmo assim! Se você achar que está gostando dela, então vá fundo! – disse, quase em um tom de súplica, apenas por prezar pela minha felicidade – Não há nada de vergonhoso em admitir que está apaixonada por alguém Cos.

– Me erra Dierden! Eu a conheci hoje. Não estou, e nem vou ficar apaixonada por ninguém.

Aquela conversa já tinha chegado ao limite. Não queria que Paul me desse conselhos amorosos, e não podia me concentrar em outra coisa senão em minha palestra. Os mais renomados nomes estariam presentes, e muito provavelmente, surgiriam propostas para novas alianças, para novos contatos e trocas de e-mails.

Aterrissamos no aeroporto, e logo um carro veio nos buscar, em segurança para que fossemos ao hotel. O protocolo de eventos grandes como aquele era bem claro: toda segurança era necessária. Já aconteceram, várias vezes, atentados por pessoas que queriam roubar projetos, tecnologias e afins. E com Alex em meu bolso, eu não poderia dar bobeira.

Nos dirigimos até o hotel, fizemos a última refeição do dia e nos dirigimos, cada um para o seu quarto. Mas ao invés de dormir, fiquei encarando o teto branco. Fiquei pensando, se tudo o que disse durante a viagem para Paul, era verdade. Talvez eu quisesse mesmo conquistar Delphine Cormier. Mas como a mesma já disse, não é como as outras. E conquistar alguém, sem ser da maneira que uso para conquistar as outras, seria algo totalmente novo para mim.

Ouvi meu celular vibrar sobre a mesa de canto, e logo apalpei a superfície. Ainda encarando o teto. Deitada sobre a cama. Sem emoção alguma. Não queria ver mensagem nenhuma, ou falar com ninguém. Mas poderia ser Felix à respeito da empresa, ou Alfred, à respeito do nosso novo projeto.

Apenas e-mails, então era tudo profissional.

Delphine Cormier

Sem problemas, Srta. Niehaus. Eu estaria ocupada trabalhando, de qualquer maneira. Gostaria de saber, com quem eu deveria falar sobre o projeto da casa, já que está fora do estado.

Parecia novela. Realmente ficaríamos trocando e-mails, pois eu não era do tipo que pedia o número de telefone para ligar mais tarde, dizendo que está com saudades e que quero vê-la de novo. Não tínhamos nada além do profissional, então não faria sentido eu pegar o número dela na ficha de cadastro da empresa, de qualquer maneira.

Cosima Niehaus

Com Felix, ou Alfred. São aqueles dois rapazes que estavam conosco no elevador mais cedo. Felix sabe tudo sobre a planta da casa que estou desenhando, e irá levar a Srta. para ter inspirações de decoração e paleta de cores. Aconselho que leve Charlotte, para já escolherem tudo o que querem.

Bloqueei o telefone, pois de repente, o sono havia me tomado. O coloquei de volta sobre a mesa de canto, e o que era referente à empresa, Paul responderia mais tarde.

Acordei no dia seguinte, com a porta sendo esmurrada. Levantei no susto, e coloquei o cartão de acesso na tranca eletrônica para destravar a porta. E como o previsto, era Paul.

– Você publicou algo em suas redes sociais? – questionou com um tom que eu bem conhecia, e já estava familiarizada.

Paul já trajava-se completamente formal e profissional. Não podia negar, que era um homem muito estiloso, e que presava a própria beleza e saúde. Observei seu tom interrogatório, e quase me intimidei. Me intimidaria se eu não estivesse tão acostumada em ouvi-lo falar comigo daquela forma.

– Só dei um oi para os meus seguidores do twitter! – defendi-me. E não era mentira. Mas de fato, eu não podia muito usar minhas redes sociais para essas coisas, pois já tive muitos problemas com falta de interpretação. O que me gerou uma perda de lucros e credibilidade por meses. Tudo por culpa da imprensa!

– Foi exatamente o que eu disse para você não fazer! – respondeu passando a mão apressada em seus cabelos. Certamente estava furioso comigo, e pudera – Me ajude a te ajudar, Cosima! Você não confia em mim?

– Confio Paul! Às vezes eu não queria nada disso, sabia? – referi-me à maneira como eu precisava levar a vida, seguindo os padrões da alta sociedade metida à risca. Estava na hora de pensar fora da caixa, e de controlar a minha própria história.

– A imprensa quer falar com você – mudou de assunto, sabendo que a minha vulnerabilidade ficaria aparente se continuássemos falando daquilo. E então, nada do resto do dia seria positivo para mim – Você terá a palestra durante a noite, e algumas mesas redondas, sobre os mesmos assuntos depois do almoço.

Logo que ele começou a listar os compromissos, tratei de me vestir. O dia seria demasiadamente cheio, e eu precisava me preparar para apertar mãos, sorrir gentilmente e não surtar na frente de todo mundo. Não falar bobeira na frente das câmeras também faria a diferença, então era melhor eu trabalhar naquilo.

Delphine POV

– Porcaria de aplicativo! – esbravejei, irritada pela minha alienação em algumas tecnologias, o que me desamparava em várias coisas que eu precisava dar conta em meu dia a dia.

Ouvi a porta abrir, e por um instante, senti vontade de jogar aquela escrivaninha para o alto, com o computador e tudo. Parecia que tudo estava dando errado naquele fim de tarde. Já estava quase no fim do expediente, mas eu não conseguia terminar, simplesmente porque nada funcionava. Dei um belo tapa na mesa prateada, passando as mãos nos cabelos, querendo fugir daquele lugar.

– Se você pedir com jeitinho, talvez funcione! – debochou uma voz, a voz que eu sabia ser a de Adele – Precisa de ajuda? – questionou adentrando a sala que os residentes usavam para estudarem as melhores soluções para casos complexos de cirurgias. Eu apenas a usava para confeccionar relatórios do meu estágio.

Assenti com a cabeça, pouca coisa mais calma. Adele logo despiu-se de seu jaleco, o jogando dobrado sobre a cadeira, para sentar na mesma em seguida. Ela virou o notebook para o seu campo de visão, e começou a apertar em botões que eu nem havia pensado em fazer. Ficamos em silêncio mas não demorou muito para que ela conseguisse consertar o problema, e voltasse a tela do dispositivo para mim. Me encarando com aquele olhar curioso. Aquele olhar que eu tanto odiava.

– Eu aceito ir ao bar com você! – rendi-me, sabendo que era daquilo que se tratava. Já que na mente de Adele, quem saísse com Cosima Niehaus, segundo ela, não tinha motivos para ter um dia ruim. Não era nada daquilo! Eu estava tendo um dia ruim, simplesmente porque as pessoas podem ter dias ruins.

– E o seu jantar? – perguntou, como quem não queria nada. Adele era enxerida, curiosa. Mas mesmo assim, sua companhia, e seu jeito engraçado somavam em meus dias, e chegava até a me fazer bem.

– Parece que ela viajou. Não vou mais ter jantar algum – expliquei, enquanto continuava a digitar aquelas palavras complexas que Scarlett exigia do meu amplo vocabulário.

– É por isso que está tão irritada? – perguntou, ainda me observando. Com a cabeça apoiada na mão, completamente sugestiva.

– Não, Adele! – esbravejei mais uma vez, de uma maneira que eu não deveria fazer, pois não queria ser rude. Ou mal educada. Talvez fosse tarde demais. Desviei os olhos de minha tela, e encarei a loura mais alta que eu, que mantinha seu sorriso usual no rosto. Mesmo com o meu tom de voz deseducado – Estou irritada por esse relatório ser tão extenso. E por nada nesse computador velho funcionar.

– Talvez devesse comprar um novo, Del! Você usa todos os dias, não é um investimento ruim – aconselhou calmamente, parecendo ignorar a maneira como falei com ela. Agradeci mentalmente por aquilo.

– Não tenho dinheiro. Acabei de investir todas as economias na reforma da casa! – suspirei cansada, pois era uma verdade e agora eu teria que me esforçar muito para recuperar tudo o que estava gastando. Mas era pela Charlotte, e por ela eu faria qualquer coisa.

– Use o meu por enquanto – pediu levantando-se da cadeira, e indo até o seu armário metálico, de onde tirou uma bolsa preta, e de dentro dela, já sobre a mesa, um dispositivo muito melhor e mais bem cuidado do que o meu – E não aceito um não como resposta! Estou muito ocupada com as cirurgias, e não estou tendo tempo para mexer – acrescentou estendendo o aparelho para que eu pegasse.

Respirei fundo, agradecida. Não tinha como dizer não à Adele, ainda mais sobre algo que eu precisava tanto para trabalhar. Não costumava me descontrolar no trabalho, ainda mais na frente dos meus colegas. Mas aquele dia estava completamente cheio, e estava exaustivo. Ao menos com Charlotte dormindo fora, eu poderia ficar mais a vontade em casa. Ao menos isso.

– Obrigada Adele, obrigada mesmo! – agradeci sinceramente, logo salvando os meus documentos em um pendrive para passá-lo para o outro notebook, enquanto Adele ainda me analisava, como se buscasse respostas mais profundas sobre o que eu estava pensando.

– Já abra a agenda, e anote que é para estar no Leda às nove. Sem falta ou desculpas dessa vez! – disse em um tom quase deliberado, e sorri com o seu esforço de me ver bem.

Assenti com a cabeça, e o beep de seu pager ecoou pelo ambiente, alertando que precisavam dela no trabalho, e que novamente eu ficaria sozinha para preencher aquelas linhas extensas e chatas. Tinha sempre que pensar, que eu tinha potencial, e motivos para estar ali. Precisava crescer na vida, fazendo o que eu fazia de melhor. E por não ter experiência prática na área, precisava caprichar naquele estágio por mais quatro meses, se quisesse a minha licença de médica residente oficialmente.

Ela voltou para o seu trabalho, e voltei para o meu. Aproveitei para conferir o telefone, e nada de respostas da Srta. Niehaus ou mensagens de Charlotte. Aproveitaria para terminar o quanto antes aquele documento, e descansaria um pouco em casa antes de me encontrar com Adele.

¹A fibrose cística afeta as células que produzem muco, suor e sucos digestivos. Isso faz com que esses fluidos se tornem espessos e pegajosos. Eles aderem a tubos, dutos e passagens.

 



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