História Não é apenas um número - Capítulo 14


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Categorias Histórias Originais
Tags Amizade, Diferença De Idade, Esporte, Paixão, Romance, Tatuagem
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Palavras 4.176
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Literatura Feminina, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 14 - Adoletá


 Eu viajaria em quinze dias, esse seria o tempo necessário para terminar as tatuagens que eu tinha começado. Ainda naquele dia, Chloe e eu ligamos para todos os meus clientes e reorganizamos todos os horários.

Para o Evandro eu não disse que estava partindo sem certeza de voltar, e como o aluguel estava pago pelos próximos dois meses, ele não me questionou muito.

O dono da Glowing andava estranho, e isso eu notara há tempos. A movimentação no clube durante o dia parecia cada vez mais esquisita, sem contar as discussões que eu ouvira por diversas vezes.

Não que fosse da minha conta, mas nada me tirava da cabeça que ele estava metido em uma confusão das grandes.

Na tarde combinada para terminarmos sua tatuagem, celular dele não parava de apitar avisando o recebimento de mensagens, além das incessantes ligações. A tensão era expressa nos músculos, tão contraídos que chegava a atrapalhar meu trabalho.

—Podemos deixar para outro dia? Eu não me sinto bem, acho que é meu fígado...

Olhei rapidamente para Chloe e ela fez uma careta.

—Pra mim tudo bem, deixa só eu limpar o sangue— concordei e borrifei um pouco de água sobre a parte recém-desenhada das suas costas.

Assim que passei o papel secando-as, ele vestiu a camisa e saiu sem dizer nada. Evandro, que não costumava perder a oportunidade de lançar suas cantadas e insinuações , naquele dia parecia ter perdido a língua.

—Acho que temos problemas no paraíso... —disse à minha amiga ao me aproximar do seu balcão.

— Com certeza. —Ela revirou os olhos e empurrou a agenda na minha direção. —Encerramos por hoje.

—Isso é bom, porque eu preciso mesmo descansar.

—E o João? Não procurou mesmo por você?

Neguei com a cabeça ao mesmo tempo em que puxava o celular do bolso da minha calça.

—Três dias sem contato.

—E você ligou pra ele?

Estalei a boca enquanto deixava que meu coração reclamasse a falta que ele me fazia.

—Não. O João age com tanta infantilidade e eu fico pensando como vai ser quando souber sobre a viagem.

—Ele vai pirar, Dili.

Bati os meus dedos sobre o tampo do balcão por vezes seguidas, olhei para o relógio na parede e tomei uma decisão.

— Já que adulta aqui sou eu, deixa-me agir como tal...

—É isso aí! —Chloe bateu palmas com animação. No fundo eu sabia que ela tinha esperanças de que um possível acerto com o João me faria ficar em Arco Dourado.

Depois que o táxi deixou a deixou em casa eu fui direto para o clube, sabia que ele estaria lá, e na portaria descobri que ele treinava corrida.

Quando cheguei na pista, deparei-me com um grupo de jovens se alongando, enquanto o outro grupo corria em uma velocidade que eu nem achava ser possível para meros mortais.

João me viu antes que eu o encontrasse, ele conversava com o seu treinador enquanto seus olhos estavam em mim. Um minuto depois ele caminhava sobre o gramado, de cabeça baixa, vindo na minha direção.

—Não posso falar agora...Tenho que cumprir mais meia hora de treino—disse seco, com as mãos na cintura.

—Eu posso esperar.

João arfou e depois me encarou.

—Tudo bem, em quarenta minutos a encontro na lanchonete.

—Ok—murmurei impactada com a sua frieza.

Com uma pontualidade britânica, quarenta minutos depois João Victor transpunha a lanchonete. De banho tomado e cabelos penteados para trás, carregava em uma das mãos uma mochila, enquanto a outra segurava seu aparelho celular.

Acenei para ele, que manteve a expressão dura enquanto caminhava até mim.

—Quer sair daqui?

Olhei em minha volta, e espalhadas pelas dezenas de mesas haviam poucas pessoas, todas concentradas em seus telefones e tablets, mesmo assim, achei melhor irmos a um lugar onde pudéssemos ficar a sós.

Depois de levantar-me, João e eu caminhamos lado a lado sem trocarmos uma palavra. No estacionamento ele abriu a porta do seu carro para eu entrar, depois, ocupou seu lugar no banco do motorista e manteve os olhos fixos no volante e as mãos sobre o colo.

— O que devo esperar dessa conversa? —ele perguntou.

—Acho que nada que o interesse muito, já que não me procurou, mas eu aprendi que não se deve partir deixando histórias mal resolvidas para trás, então...

João virou o corpo todo para mim e pareceu desarmar-se.

—O que quer dizer com isso?

— João, eu estou voltando para Tampa dentro de dez dias... —Encolhi os ombros.

Ele franziu o cenho.

—Não. Você não ficaria até o fim do Carnaval?

—Ficaria, mas muita coisa mudou e eu preciso me afastar pra poder colocar minha cabeça em ordem, e me decidir, de uma vez por todas, quais rumos eu vou dar ao meu futuro.

—Então, existe o risco de você não voltar? —Ele cruzou os braços.

—Eu já disse que não tenho nada definido — argumentei com honestidade.

—Tem a ver com aquele cara, não é? —João questionou depois de um tempo em silêncio.

—Não tem. —Fui firme. —O Pedro Paulo faz parte do meu passado e independente de

—Ele se separou para poder correr atrás de você. —João me interrompeu. Sua voz ganhou um tom mais alto e sua respiração ficou mais curta. — Ele foi atrás de você para se declarar, não foi?

—E se for? —Também aumentei a minha voz. —Acha que isso interferiria em nossa história?

—Temos uma história, Dili? Às vezes eu penso que esse mês não passou de uma brincadeira pra você. O tempo todo foi cheio de oscilações, de querer e não querer, de estar e não estar e isso veio de você, alguém que vive me cobrando maturidade.

—Você tem razão, e mais uma vez eu vou pedir algo que talvez eu necessite trabalhar em mim. Eu preciso que você me entenda, me perdoe e se for possível, me espere.

—Te esperar? E como eu vou saber que depois que você organizar toda essa bagunça dentro de você, vai sobrar espaço pra mim?

—E não estou te prometendo nada, como eu disse, eu preciso me encontrar e me entender, mas uma coisa eu posso garantir, você tem um lugar aqui—apontei para o centro do meu peito— , eu só preciso saber qual é o tamanho dele.

—Nesse momento Dili,  se eu te perguntar o que eu signifiquei pra você...Qual vai ser a resposta?

Olhei para fora da janela, o sol começava a se pôr e a paisagem alaranjada, junto da pergunta feita há segundos por João, trouxeram-me lembranças que eu pouco acessava.

—A primeira vez que eu fui à uma praia, foi na Florida, com a Chloe e seus pais. Quando souberam que eu nunca tinha visto o mar, eles fizeram questão de mudar isso. Partimos de carro ainda na madrugada rumo a Miami, me lembro de ter cochilado e assim que eles anunciaram que estávamos chegando, meu coração acelerou, batia tão rápido que cheguei a me preocupar. O sol nascia, eu desci do carro hipnotizada por aquela imensidão de água que mais parecia um espelho gigante refletindo os poucos raios de sol. Caminhamos descalços pela areia clara e pra mim, todas as sensações eram inéditas. Paramos bem onde as ondas quebravam e enquanto a família Silva corria para dentro d’água, eu travei...Tudo era incrível e imaginar o quanto de vida existia naquelas profundezas me fez sorrir. O mar era lindo, intenso, vivo e eu podia fazer parte de tudo aquilo, mas dava medo...Por isso me limitei a ficar contemplando a paisagem e desejando que tal sensação fosse infinita—discursei sem ser interrompida por João, que ouvia tudo com atenção, seus olhos brilhavam, pareciam úmidos. —Com você vem sendo exatamente assim.

 Ele puxou o ar, ensaiou um sorriso e desistiu no meio do caminho.

—Eu preciso pensar um pouco em tudo isso, porque pra mim, Dili, as coisas são bem mais simples. É sim ou não, dois caminhos, duas escolhas e eu não entendo a razão de complicar.

—Seria mesmo muito mais fácil se na vida tivéssemos apenas duas opções pra tudo, só que o tempo vai te mostrar que não é assim. Durante a caminhada as coisas ficam mais complicadas e temos que nos acostumar que existe muito além de certo e errado, e, é nesse momento que uma pessoa pode ficar como eu estou...Um caos, uma bagunça só.

João manteve-se sério, ligou o carro e levou-me direto à minha casa. Despedimo-nos com frieza, e isso partiu dele. Eu sabia que vinha pedindo muito de alguém tão jovem e que seria bem provável que tanta complexidade, acabasse por desencantá-lo.

Meu pais já dormiam e a Chloe, como de costume, permanecia trancada no quarto do Diogo.

Inquieta e voltei à calçada, a rua vazia fazia minha solidão parecer maior. Sentei-me encostada no portão aproveitando do silêncio que parecia abrandar as vozes que gritavam dentro da minha cabeça.

Um tempo depois, e eu nem sei contar quanto, o som de passos mudou o meu foco. Virei a cabeça devagar e por cima dos meus ombros eu vi alguém se aproximando.

—Boa noite, Dili. —Pedro Paulo parou na minha frente. Ele segurava nas mãos uma pasta escura e sorria de um jeito desarmado.

—Boa noite—respondi sucinta e esgotada. Tudo o que eu não precisava era de mais confusão.

Ele se abaixou e não desgrudou os olhos estreitos dos meus.

—Eu voltei pra casa da minha mãe...Enquanto arrumava as minhas coisas, encontrei isso. —Ele estendeu a pasta para mim.

  Segurando-a, ative-me a etiqueta que anunciava com letras rabiscadas: Pedro Paulo Riggo – 8ºC. Não pude deixar de sorrir. Emoção e nostalgia me contagiam enquanto eu foleava as páginas plásticas que guardavam os desenhos do Pepa e alguns meus também.

Eram personagens do Street Fighter, Cavaleiros dos Zodíacos, e modelos de roupas que eu adorava criar.

—Deus! Eles estão em perfeitas condições...—exclamei depois de uma fungada.

—Sim, e eu nem sabia que os tinha.

—Você é bom nisso, Pedro Paulo. Nunca deveria ter parado de desenhar.

—Eu sei —a voz parecia uma lamuria —, mas pra mim tinha perdido a graça. Levantei meus olhos para ele e flagrei-o me encarando.— Hoje eu fiz uns rabiscos...Me sinto um tanto enferrujado, só que ainda assim saiu alguma coisa.

—Está aqui? —Apontei para a pasta.

Ele negou com a cabeça.

—Não. Eu tenho que trabalhar mais nele, então...

— Quando estiver pronto eu quero ver. Aposto que é algo relacionado a jogos de vídeo game. Acertei?

 Ele jogou a cabeça para trás e riu deliberadamente.

—Errou, mas fique tranquila...Quando eu terminar, faço questão da sua avaliação. —O rapaz esbarrou seu ombro no meu, e naquele momento parecia que havíamos, de fato, voltado no tempo.

Ele era o Pepa de antes e eu me senti a Dili, de 16 anos atrás.

—Nós vivemos bons momentos, não acha?

Olhei a minha volta e suspirei.

—Muitos...Os anos 90 foram fantásticos e eu sinto pena dessas gerações que nunca vão saber como era torturante esperar dias para ter um rolo de fotos reveladas, abrir o envelope e se dar conta de que das 36, apenas duas ficaram boas—disse em tom de escárnio e minha lembrança arrancou uma gargalhada genuína dele. —Agora falando sério...As músicas, os bailinhos de garagem, programas de tevê...Nada vai superar aquela época.

—Eu concordo! Raspar as panelas de doce com você, enquanto esperávamos para assistir aquele programa onde as pessoas tinham que encher carrinhos de compras num supermercado era muito bom.

—Você odiava o Supermarket! — ralhei com ele. —Só assistia, porque depois dele começavam aqueles programas de super- heróis japoneses, e eu era obrigada a vê-los com você.

—Nossa! Como eu gostaria de poder voltar no tempo. Se eu soubesse como seria o meu futuro eu teria feito tudo diferente— afirmou com pesar.

Virei meu corpo todo para o Pepa e abracei as minhas pernas.

—Acho que a graça da vida é exatamente essa...Fazer as coisas sem ter certeza dos resultados, viver sem ter ideia do que encontraremos lá na frente. Isso é desafiador e mesmo quando pensamos estar no controle, a vida dá um jeito de mostrar que não. —Olhei para o céu e depois para o Pepa. —Eu não mudaria nada.

—Já eu, sim. Se pudesse voltar no tempo eu não deixaria você ganhar o concurso de desenho, assim você não teria partido. —Ele fixou os olhos nos meus como se quisesse ler meus pensamentos.

—Eu daria um jeito. Eu precisava ir embora, se continuasse aqui, seria infeliz; por mais que eu tenha vivido bons momentos, eu odiava a minha vida e as perspectivas do que ela parecia me reservar aqui em Arco Dourado.

—Nossa, eu achei que...Ainda pensa assim, Dili? Acha que os dezesseis anos que passou aqui foram tão ruins?

Neguei com a cabeça automaticamente.

—Não é isso. Hoje eu consigo ver que, apesar de ter sido atormentada pela minha prima, todo o resto valeu a pena, só que não bastava, eu precisava das experiências que vivi, e que aqui eu não as teria. O fato é que essas recordações me serviram de pilares, foram elas que me deram forças pra ficar lá.

—Espero estar incluso nessas recordações de um jeito bom. —Ele lançou-me um sorriso torto e outra vez deu um jeito de esbarrar em mim.

—Se lembra de quando aquela empresa de cosméticos desovou uma carga de maquiagens vencidas no terreno baldio?

—Claro que me lembro. Você pegou um punhado de coisas e me fez dar de presente para a Sabrina.

Joguei a cabeça para trás enquanto gargalhava.

—Foi no aniversário de quinze anos da peste! Eu nunca vou me esquecer de como os olhos e os lábios dela ficaram inchados por causa dos cosméticos estragados.

—Ela quis nos matar.

—A Sabrina tinha roubado meu diário dias antes, foi apenas uma vingança.

— E no fim não tinha nada de mais nele, não é?

—Isso mesmo...Aquele era o meu diário falso. Eu só o usava para escrever as letras das músicas do Bon Jovi...

—Mas no fim ela roubou o verdadeiro, e ele era cheio de segredos...Ali você confessou que namorava o Caio, mas gostava de mim.

Soltei um suspiro sonoro e dei um jeito de me distanciar do Pedro Paulo. Ele levara a conversa nostálgica para outro lugar, e eu não queria ir até lá.

—Eu vou entrar. Amanhã acordo cedo...Tenho peles para tatuar o dia todo. —Levantei-me.

Ele não escondeu a decepção, recolheu a pasta e segurando-a em uma das mãos parou de frente para mim.

—Nos vemos, então...Somos vizinhos de novo.

—É, somos.

Muito sem jeito ele se inclinou para um beijo de despedida, e ainda que eu achasse melhor repeli-lo, permiti que ele beijasse meu rosto.

§§§§§§§§§§

Uma manhã agitada, onde o motor das minhas máquinas, bem como as minhas mãos pouco pararam, era tudo o que eu precisava para manter minha mente ocupada. Consegui terminar as tatuagens de duas garotas e comecei a de um amigo do Evandro.

—Vou te fazer uma pergunta e quero que seja sincera. —Chloe debruçou no balcão e estreitou os olhos de um jeito desafiador.

Terminei de limpar a mesa onde eu derrubara um pouco de tinta preta e encarei-a, pronta para o golpe.

—Anda! Pergunta logo.

—Ficou mexida com a visita do Pepo?

Eu já imaginava que esse seria teor da sua pergunta, por isso não hesitei em respondê-la:

—Não. Eu não fiquei nem um pouco mexida, com a visita do PEPA. —Continuei arrumando a mesa. —Foi bom falar com ele sem aquele clima de ódio, mas foi só. O Pedro Paulo fez parte do meu passado e é bom mantermos esse contato.

—Hum... —ela gemeu sem parecer muito convencida.

—Aproveita a sua desocupação e verifique pra mim, daqui a quanto tempo é a minha próxima pele.

Chloe foleou a agenda de imediato.

—Daqui a uma hora e meia, você tem a Carla, aquela amiga da garota que tatuou a sereia. É sua última cliente de hoje.

—Então vou comprar alguma porcaria pra eu mastigar, e algo bem saudável pra você comer—avisei, caminhando até o banheiro onde estava a minha bolsa, peguei a carteira e enfiei-a no bolso da minha calça.

—Já basta o seu irmão pensando que eu sou um coala ou um macaco...Por ele, eu só me alimento de frutas e verduras.

—Tem um bebê dentro da sua barriga. —Debrucei no balcão e apertei suas bochechas.—E não é qualquer bebê, é o meu sobrinho, portanto, precisa mesmo se cuidar.

 Ela me mostrou a língua como uma garotinha birrenta, depois, nós duas rimos.

—Quer que eu vá junto?

—Não. Eu vou até a padaria da rua de trás...Volto em dez minutos—gritei da porta.

O sol do meio dia queimava com toda a sua potência. Cogitei, depois de alguns passos, voltar ao estúdio e pegar meus óculos escuros, uma vez que a claridade excessiva incomodava meus olhos.

Antes que eu pudesse me decidir, um carro parou bem na posição de onde eu estava, o motorista desligou o motor e abriu a porta, tudo isso em uma fração de segundos.

—João Victor... —Deixei seu nome escapar dos meus lábios como uma prece.

—Diana Lima. —Ele caminhou até mim com um charme totalmente dispensável.

De calça jeans escura e camisa social xadrez, parecia estar vestido para uma ocasião mais formal.

“ Por que você fica tão extasiada quando coloca os olhos sobre esse rapaz?”

—Depois da sua despedida vinda direto do Polo Norte ontem, achei que não fôssemos nos ver tão cedo. —Fingi desdém.

 Ele parou bem perto de mim, tirou os óculos de sol e segurou-os em uma das mãos. Os olhos cor- de- avelã pareciam mais claros e irresistíveis.

“Filho da mãe! Precisa ser tão sexy?”

—Eu também achei, mas tenho uma reunião importante com os meus patrocinadores aqui na Glowing...

—Ah... —Murchei com a revelação. — Então não veio por minha causa. —Sequer tentei esconder minha frustração.

João coçou o queixo desviando seu olhar do meu. Cruzou os braços e voltou a encarar-me com a testa franzida.

—Essa reunião era pra acontecer num restaurante no centro, só que eu sugeri que fosse aqui na boate, assim eu teria um pretexto pra te ver.

—Eu... A...Não... —Comecei a abrir e fechar a boca sem conseguir formular uma frase.

—Dili, eu vim até aqui pra te dizer duas coisas: A primeira, é que eu vou te esperar. Eu pensei e repensei tudo o que conversamos e cheguei à conclusão de que prefiro que viaje me deixando um fio de esperança onde eu possa me agarrar, do que ficar aqui sem nada. — Ele encurtou nossa distância com dois passos e seus braços alcançaram minha cintura. João puxou-me contra seu corpo e eu gostei.

— Sei que... —Ele tocou meus lábios, impedindo que eu continuasse falando.

—Vá pra Tampa, tenha seu tempo e quando estiver pronta, volte pra mim. Eu vou estar aqui, não esse mar agitado que você me classificou, e sim, como um lago calmo, onde você pode mergulhar sem medo.

Puxei o ar e respirei seu perfume, embriagando-me com seu cheiro.

—Você nunca vai ser água calma, você é um maremoto e por isso me encanta. —Acariciei seu rosto, e Deus! Como eu gostava dele.

—Eu te amo Dili. —Sua voz rouca chegou aos meus ouvidos, antes que seus lábios tocassem os meus.

Nos beijamos e ainda que fizesse apenas três dias desde a última vez que sentira seu gosto, meu corpo reagiu como se fosse muito mais.

João era vício, dependência e para mim, tudo que me tornava adicta era encarado como um grande problema.

—Você é encrenca, João. Eu soube disso na primeira vez que o vi—retruquei, perdida em seu abraço.

—Que maldade! Como pôde pensar isso de um garotinho de três anos de idade?

—Bobo! Refiro-me ao presente, quando você me cantou na fila do clube.

—Ah, agora eu entendi. Já comigo foi diferente; naquela noite, quando você entrou na minha frente e depois se virou pra mim... Assim que me deparei com esses olhos coloridos...Eu soube que você seria a solução. Ali eu consegui imaginar como seria nossa vida juntos. Namoro, casamento, filhos...E não necessariamente nessa ordem.

—Sabe que eu não estou te prometendo nada, não sabe? —Emoldurei seu rosto com as minhas mãos e achei necessária a ressalva.

Ele ergueu uma das sobrancelhas e deu um sorriso torto.

—Não conhece bem a dona Marian. Ela nunca me deixou a creditar em Papai Noel, coelho da Páscoa, fada do dente, portanto, sou bom nessa coisa de não criar falsas expectativas. Eu costumo trabalhar com oportunidades reais e quando eu as tenho assim, nos meus braços, eu sei quais as minhas chances. Nesse momento estou bem satisfeito com elas.

—Convencido!

—Tenho que ser. Essa é uma das principais características de um bom atleta...Confiança, acreditar em si mesmo.

— E essa reunião? Parece ser importante, já que você está todo bem-vestido.

Joao roubou um beijo rápido e colocou uma mecha de cabelo atrás da minha orelha.

—Patrocínio dos grandes! —Ele arregalou os olhos.

—Hum...Eu quase tinha me esquecido que estou flertando com um atleta olímpico.

—Pois é... —João riu, daquele jeito que formava covinhas nas bochechas. —E por falar em patrocínio, o que acha de assumir uma cota? No pacote incluiu a sua logomarca na minha camiseta e boné e também em todo o material publicitário que será veiculado durante a campanha das olimpíadas.

— Ink Sky Tattoo, patrocinando João Victor Dellawin? Parece bom. Qual seria o meu investimento?

Ele olhou para cima como se analisasse a pergunta.

—Seria um contrato vitalício...Beijos e abraços ilimitados, por todos os dias, e também... —ele lançou-me um olhar lascivo e eu entendi qual seria a próxima exigência.

—Safado! —Dei um tapa em seu braço. —Confesso que a proposta, embora indecente, me pareceu atrativa. Prometo que vou pensar, mas por hora, desejo que a sua reunião renda bons frutos.

João olhou para o relógio em seu pulso e fez uma careta.

—Já estou atrasado! —Nos beijamos outra vez e ele se afastou. —Torça mesmo por mim, esses patrocínios serão essenciais para o nosso futuro e para o futuro dos nossos filhos—ele gritou enquanto recolocava os óculos escuros.

Permaneci parada, apenas olhando-o caminhar. João era mesmo irresistível. Em todos os sentidos.

§§§§§§§§§§§§§§§

Eu sei que demorei, mas é porque eu encontrei o João Victor quando eu saía daqui, e você já sabe... —Comecei a falar enquanto colocava as sacolas com as compras sobre a minha mesa.

—Pelo jeito se acetaram! Você está radiante.

Cobri meu rosto com as mãos e me joguei em uma das poltronas.

—Sim, ou melhor, não. Eu sei lá Chloe, ele disse que vai me esperar, que não importa o quando eu demore. Ele tem tanta convicção de que eu...Bem, de que eu

—De que você o ama—ela interveio irritada. —Amor. Essa palavrinha simples é tão linda, que basta começar a usá-la e quando se der conta, ela sai com naturalidade.

— Comigo não funciona assim...Ao contrário do que disse, tudo na minha vida parece piorar. É como se eu estivesse submersa em areia movediça...Quanto mais eu me mexo, mais afundo.

—Então deixa eu te dar um empurrãozinho. —Chloe foi para trás do balcão e voltou com um papel nas mãos. —Deixaram isso pra você, e não é uma possível tatuagem...A menos que você queira colocar isso na sua pele.

Tomei a folha para mim e reconheci a imagem. Aquele era o desenho que o Pedro Paulo fizera para concorrer ao concurso de artes.

—Deus! Eu não me lembrava que era tão bonito. Não me diga que...

—O Pepa esteve aqui, logo que você saiu, e agora, sabendo que o João também, consigo entender a razão da carinha de cachorro abandonado que vi no seu amigo.

Fechei meus olhos, minha cabeça girava e a impressão que eu tinha era a de estar em uma montanha russa cheia de loopings.

—Ele deve ter me visto aos beijos com o João, e talvez tenha sido bom, eu não quero, em hipótese alguma, que o Pedro Paulo alimente ideias de que...

—Confesso que agora eu fiquei com peninha dele. O cara parecia outra pessoa, ele em nada lembrava aquele PEPA, amargurado que conheci.

—Realmente o Pep...Espera aí, reparou que você finalmente o chamou pelo apelido certo?

Chloe riu com a cara dentro das sacolas trazidas por mim.

—Ele me corrigiu umas dez vezes, me sinto na obrigação de chamá-lo de Pepa, agora.

—Engraçado que eu passei uma vida corrigindo você, e nada!

Ela deu com os ombros e pôs-se a devorar a salada de frutas que eu comprara. Com o desenho nas mãos, ative meus pensamentos nas chances de aquilo ser alguma mensagem subliminar, algum recado que eu não entendera.

Mais tarde, depois de um longo banho, resolvi me deitar mais cedo. Meu maior desejo era fechar os olhos e dormir de imediato, desligar um pouco a minha mente que parecia estar entrando em curto circuito, no entanto, como se o destino quisesse me dar o golpe final, João me ligou para avisar sobre uma viagem que ele faria ao Rio de Janeiro, e que o tiraria da cidade por cinco dias, portanto, eu podia considerar a experiência como uma amostra grátis de como eu me sentiria longe dele.



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