História Não é uma história de amor - Capítulo 3


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Abuso, Adolescente, Drama, Professor, Romance
Visualizações 9
Palavras 1.842
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção Adolescente, Romance e Novela
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Capítulo 3 - Jantar de Aniversário


É estranho como somos cegos para as diferenças quando pequenos. Como as coisas como cor da pele e dinheiro são irrelevantes. Eu cresci assim, cega para as diferenças.

Minha mãe é fruto de um casamento inter racial, meu avô era um homem branco e minha avó uma mulher negra. Sendo filha de um pai branco, herdei muito pouco de minha avó, tenho lábios um pouco menos grossos e o cabelo encaracolado, mas não crespo como o dela. Já com minha avó paterna me pareço muito, tenho a mesma pele clara, os mesmos olhos verdes e nariz pequeno.

Todos diriam que tenho sorte, que herdei o melhor dos dois lados, mas eu nunca concordei. É verdade que na loteria da genética eu ganhei uma bolada, mas não me sinto sortuda. Queria ser mais parecida com minha mãe.

Minha mãe sempre foi meu exemplo. Ela me ensinou que somos todos iguais, e foi graças a ela que cresci livre de preconceitos. Mas uma coisa aconteceu, uma coisa que acontece com todo mundo, acho.

Eu cresci. E de repente o que antes eu não via começou a fazer diferença, eu comecei a notar, a reparar. Não que eu tenha adquirido ódio no coração ou algo do tipo, mas de repente não éramos mais apenas crianças. Nós éramos negros; brancos; ricos; pobres e mais uma infinidade de rótulos. Eu não os entendia, não entendia por que de repente éramos diferentes, de repente havia uma barreira invisível nos separando, uma barreira completamente sem sentido.

Cresci indiferente às diferenças, e de repente o mundo estava gritando que não éramos iguais. E eu odiei isso.

No fim o que o mundo dizia não importava, aprendi a ignorá-lo, eu tinha minha mãe, e ela tinha me ensinado tudo o que eu precisava saber.

Alisei meu vestido rosé pela última vez, eu ia sair para jantar com meus pais e meus avós maternos. Era aniversário da minha avó, e minha mãe estaria de plantão no fim de semana, assim como meu pai estaria no tribunal em um caso importante, então eles resolveram sair para jantar durante a semana quando ambos tinham um tempinho.

Eu amava os meus avós, eles eram ótimos, passei minha infância na casa deles e de meus outros avós. Por isso quando minha mãe falou em jantarmos com eles em um dia de semana aceitei na hora.

Faltavam 20 minutos para o horário marcado, chamei um Uber enquanto terminava de me arrumar.

Assim que coloquei o Scarpin nude, recebi uma mensagem dizendo que meu carro tinha chegado.

*

- Boa noite - a Hostess disse assim que entrei. - Qual é o nome da reserva?

- Vim jantar com minha família, já devem ter chegado, a reserva foi feita em nome do dr. e da dra. Medina.

- Sim claro - ela disse olhando o livro de reservas -, queira me acompanhar por favor, mostrarei a sua mesa.

A mulher me levou até uma mesa afastada, e como era de se esperar meus pais ainda não tinham chegado.

- Vovó - sorri, ela e meu avô se levantaram ao me ver.

- Atena, minha neta - ela sorriu.

- Parabéns - disse a abraçando, beijei sua bochecha e escondi minha cabeça em seu pescoço por alguns segundos, exatamente como fazia na infância.

Em seguida abracei meu avô.

- Tiveram notícias dos meus pais? - perguntei assim que me sentei.

- Não, querida, sinto muito. - vovó disse pesarosa.

- Tudo, bem. Se eles aparecerem já será vantagem. - dei de ombros.

Meus pais nunca foram presentes, eu nem os esperava aparecer mais. Às vezes minha mãe ficava a semana toda no plantão cirúrgico, e meu pai passava semanas tão envolvido com um julgamento que só aparecia em casa para dormir.

Eu já estava acostumada, tinha crescido assim, e por mais que minha avó ainda me olhasse com aquele semblantes pesaroso, eu não me importava.

- Já pediram? - perguntei.

- Ainda não, estávamos esperando eles - meu avô disse.

- Por quê não fazemos assim? Esperamos dez minutos, e enquanto isso pedimos bebidas, se eles não chegarem pedimos as entradas. Tudo bem? - propus

- Tudo bem - minha avó concordou.

Fiz sinal para um garçom que passava.

Por mais que talvez para meus avós fosse estranho. Eu sempre esperava muito tempo por eles quando íamos jantar juntos, já estava acostumada.

O restaurante escolhido por meus pais foi um bistrô francês muito agradável, eu já tinha jantado ali antes e tinha meu prato favorito.

O garçom que eu chamei se aproximou.

- Boa noite senhor, boa noite senhoras, gostariam de pedir?

- O que vão beber? - perguntei aos meus avós. - Eu gostaria de um suco de abacaxi e hortelã.

- Gostaríamos da carta de vinhos - minha avó disse ao garçom.

O garçom trouxe a carta e meus avós pediram um vinho branco que não me lembro o nome. Esperamos 10, 15 minutos e nada de meus pais. Pedimos as entradas e esperamos mais um pouco, meia hora mais tarde e nada deles. Quando estávamos terminando a sobremesa avistei o cabelo preto da minha mãe.

- Vocês estão uma hora e meia atrasados. - Foi tudo o que disse.

- Sinto muito querida - ela começou a se desculpar.

- Não - eu a interrompi antes que desse uma de suas intermináveis desculpas. - Eu estou acostumada, mas meus avós não, é o aniversário da sua mãe, e você nem se dignou a telefonar avisando que iria se atrasar.

- Sinto muito querida, mas estou aqui agora.

- Certo, então coma com meu pai - disse com desdém -, porque nós já acabamos. E eu estou indo.

Não esperei minha mãe responder, peguei minha bolsa e saí do restaurante. Ainda podia escutar ela me chamando mas ignorei.

Me encostei no muro ao lado do restaurante e respirei fundo.

Eu odiava jantar com meus pais, eu sempre acabava comendo sozinha enquanto esperava horas por eles, toda maldita vez. Meus pais eram mestres em não aparecer: aniversários, natais, feira de ciências, apresentações de balé, minha formatura do nono ano, eles perderam tudo isso. E por mais que eu dissesse que estava acostumada, ainda doia, doia pra caramba.

- Você está bem? - uma voz grossa e familiar perguntou

Era professor Daniel. O encarei por alguns segundos.

- Sim - disse -, estou bem.

Acho que minha voz embargada não soou muito convincente, porque ele se aproximou e pegou a minha mão.

- Vem, vamos sair daqui - disse me puxando pela mão.

Franzi o cenho, o que ele estava fazendo?

- Professor Daniel, o que você está fazendo?

- Te levando pra um lugar.

- O quê? Não. Para! - quase gritei.

Ele parou e ficou me encarando.

- Eu parei - ele deu de ombros.

- Você não pode sair me puxando por aí. Meu Deus, você é meu professor, eu nem te conheço direito.

Ele piscou, os olhos verdes me encarando.

- Desculpe - ele soltou meu braço.

Nos encaramos por alguns segundos, ele olhou pros lados e colocou as mãos nos bolsos.

- E se nós apenas caminhássemos? - ele coçou o queixo com a barba por fazer - Olha, não posso te deixar aqui desse jeito, eu vi o que aconteceu, estava no restaurante.

- Tudo bem. Eu posso pegar um Uber para casa depois.

- Ok.

Nós caminhamos em silêncio lado a lado por algum tempo.

- Quer falar sobre isso? - ele perguntou após vários minutos.

- Não é nada demais - dei de ombros. - Meus pais são muito ocupados, por isso perderam muito coisa, hoje por exemplo, se atrasaram uma hora e meia para o aniversário da minha avó.

- E eles disseram por quê? - ele perguntou me olhando.

- Não importa o porquê. Já ouvi todas as desculpas, carro quebrado, problema no trabalho. Eles estão sempre ajudando alguém ou salvando uma vida. É sempre a mesma coisa.

- Sinto muito - ele disse.

- Não sinta, não é sua culpa.

Eu não entendia por que ele estava fazendo aquilo, por que estava me acompanhando, por que estava tentando me ajudar. Ele não me conhecia, é claro, nós nos víamos todos os dias e sabíamos uma ou duas coisas um sobre o outro, mas nada além disso.

- Eu li seu conto - ele disse.

- Leu? - arqueei a sobrancelha, desinteressada.

- Sim. É muito bom, você tem talento. É criativo e diferente. A maior parte dos seus colegas escreveu sobre casais inter raciais e romances homoafetivos. Mas o seu foi diferente, mais maduro.

- Maduro? - soltei uma risada - Como assim?

- Sim, maduro. Não só a escrita, o texto todo é mais profundo e maduro. Você escreve sobre um amor capaz de ultrapassar qualquer barreira, e o cenário de guerra? Você o descreveu bem. - ele falou com genuíno interesse - Talvez se você se aprofundar mais na história, se permitir prolongá-la mais, adicionar falas e detalhes. Você pode ter uma grande história nas mãos, Atena.

- Eu não sou escritora, professor Daniel. Era apenas uma tarefa escolar.

- Talvez devesse ser, Atena. Você tem talento.

Nós caminhamos em silêncio novamente, até que eu parei.

- Professor Daniel - eu chamei sua atenção.

- Por favor me chame apenas de Daniel. - pedi.

- Não posso - balancei a cabeça - Seria desrespeitoso.

- Não me sentiria desrespeitado. - ele sorriu de canto.

- Professor - disse o encarando - Fui ensinada a respeitar os mais velhos, você chama um médico e um advogado de doutor, um professor de professor, e qualquer pessoa sem um título de senhor. Foi assim que me ensinaram.

- Mais velho? Não sou muito mais velho que você.

- Não importa, é meu professor. Além disso - desviei o olhar para o chão - seria ultrapassar um limite.

- Ultrapasse o limite - ele sussurrou, dando um passo para frente.

A essa altura estávamos em uma rua afastada que eu não conhecia Eu o encarei, o que ele estava fazendo?

- O quê? - quase gritei, dando um passo para trás.

- Por que não ultrapassa o limite? - ele repetiu.

- Professor Daniel, por que você me seguiu para fora do restante? - perguntei, eu estava assustada, e acho que minha voz demonstrou isso.

Ele me encarou por alguns segundos e em seguida balançou a cabeça.

- Me desculpe - disse, dando um passo para trás.

Um silêncio constrangedor se instalou, eu não sabia o que dizer, e ele parecia tão desconcertado quanto eu. Eu encarei os lados e o chão, qualquer lugar menos ele

- Eu vou chamar um Uber - disse.

- Eu posso te levar em casa - ele ofereceu.

- Seu carro não está no restaurante? - franzi o cenho.

- Não, eu moro aqui - ele deu de ombros enquanto apontava para um ponto atrás de mim.

Virei de costas para ele, era um condomínio formado por 2 prédios de mais ou menos 25 andares cada.

- É um prédio bonito - disse, porque realmente era e não sabia mais o que dizer.

- Meu carro está na garagem, posso te levar em casa. - ofereceu novamente.

Avaliei minha opções; eu podia pegar um Uber com um completo desconhecido e mais uma vez me arriscar; ou, podia entrar em um carro com meu professor de Literatura. De qualquer forma eu estaria sozinha em um carro com um homem sem que ninguém soubesse onde eu estava. Nenhuma das opções era exatamente ideal, mas por algum motivo eu confiava em Daniel.

- Eu moro no Gonzaga. - disse.

Ele sorriu.



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