História Não ouse me esquecer - Capítulo 33


Escrita por:

Visualizações 15
Palavras 2.488
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 33 - Ela foi tirada de mim


Leo

Só quando saí da casa do Icky apenas no dia seguinte foi que a ficha finalmente caiu. Eu recebia diversas ligações de Daiane e ignorava todas, me sentia culpado e sujo. Completamente podre por dentro e por fora.

Não apenas por ter traído ela com o Ícaro, mas por tudo o que fiz e por todos que magoei e machuquei.

Segurei o colar entre os dedos — que peguei discretamente da sua mesa e coloquei em meu bolso durante nossos beijos — e me sentei em um dos bancos da praça dos anjos enquanto finalmente desabava em lágrimas tudo o que estava preso em meu peito.

Ícaro não conseguia me deixar triste. Confuso sim, mas triste jamais. Com ele eu esquecia completamente do mundo a minha volta, das minhas dores, dos meus erros, mas o problema era que eu precisava desse momento. Precisava ficar sozinho com meus pensamentos e procurar colocá-los em ordem para que eu não acabasse enlouquecendo.

Olhei para o parque a minha volta. As crianças não estavam brincando no parque como costumavam estar, devido ao tempo estranho de hoje. O céu estava nublado e com um estranho tom de cinza, exatamente como os olhos de Ícaro, mas eles não pareciam tristes como aquele céu.

Fechei os olhos, tentando me concentrar na imagem dela, como se o seu colar fosse como um passe livre para nos comunicarmos.

Consegui visualizar seu rosto na minha mente e não pude deixar de sorrir para essa imagem. Ela continuava linda como sempre foi e tive que controlar o impulso de abraçá-la, já que eu sabia que não poderia fazê-lo.

— Sinto muito, mamãe — falei mentalmente — Jamais quis te machucar.

Após meu pedido de desculpas, não pude mais ver seu rosto, foi como se eu não merecesse mais vê-lo.

E foi naquele momento que me vi mais perdido do que nunca.

                                                               ***

Depois de passar horas chorando até que eu não tivesse mais lágrimas nenhuma em meu corpo, foi que me sobressaltei com o meu telefone que começou a vibrar.

Estava prestes a ignorar de novo achando que se tratava de Daiane, mas era um número diferente então atendi, fungando.

— Senhor Borges? — uma mulher atendeu, tinha a voz gentil.

— Sim — Enxuguei as lágrimas com os dedos. — Sou eu.

— Desculpe incomodá-lo, estávamos tentando ligar para o senhor há algum tempo, mas soubemos que mudou de número e acabamos conseguindo com o seu novo patrão — explicou, me deixando mais confuso. — O senhor precisa visitar a senhora Borges.

— Minha mãe? Ela está morta — soltei, jamais me acostumaria com esse fato.

— Eu sei que o senhor está abalado, mas ela precisa de uma visita ao menos uma vez por mês. Mesmo que ela não se lembre do senhor, é extremamente importante para o tratamento.

Tratamento? Do que ela estava falando?

— Esse trote não tem a menor graça — falei, irritado.

— Não é nenhum trote, senhor — assegurou a mulher. — Sua mãe está no Hospital Psiquiátrico dos Serafins exatamente onde a deixou.

Senti minha alma revigorar com a notícia.

Minha mãe estava viva!

Eu não a matei...

Olhei para o céu e sorri agradecido a Deus por não permitir que a minha vida fosse totalmente destruída.

— Estou a caminho — murmurei, pulando do banco e praticamente correndo até o hospital onde a minha querida mãe estava.

                                                            ***

Passei correndo pela porta de vidro do hospital e cheguei ofegante e suado, tive que me apoiar na mesa de mogno para recuperar as minhas forças. Nunca fui muito de exercícios e somado com a minha genética que me proporcionava uma barriguinha bem evidente, era muito fácil suar.

— Senhor Borges — uma mulher cumprimentou, satisfeita. Parecia ser a mesma que me ligou.

— Onde ela está? — apressei-me em dizer, tentando pular a enrolarão.

— Me acompanhe — disse com um sorriso e se virou indo em direção ao corredor.

Segui-a, cada vez mais ansioso. Fiquei olhando de soslaio para os quartos onde haviam pacientes sentados na cama ou dormindo.

— Ela está acordada — disse, abrindo uma das poucas portas que estavam fechadas.

Entrei logo depois dela e fiquei meio entristecido com a carga negativa que vinha daquele lugar. As paredes eram brancas assim como todo o quarto. Não havia cor alguma ali, era triste de se ver. A única cor vinha dos cabelos da minha mãe, cujos olhos estavam pousados em mim.

Dei passos hesitantes até ela como se estivesse indo em direção ao Paraíso sem saber se eu de fato merecia.

Cheguei até ela com cuidado, ela não disse nada e nem eu. Estava desgrenhada e pálida, mas continuava a mesma mulher linda de sempre. Me lembrava das maquiagens e daqueles diversos cremes que ela usava. Para mim, as mulheres sempre ficavam mais lindas sem nenhum tipo de cosmético, acho que deveriam ser quem elas são e não mascarar a verdade com produtos caros e inúteis.

Todo mundo tem a sua própria beleza, a sua própria luz e tentar esconder isso com maquiagens pesadas e outras coisas que não agregam em nada é o mesmo que apagar de alguma forma essa luz, de privar os outros de te enxergar exatamente como você é.

— Mãe? — choraminguei, sentindo um aperto familiar em meu coração.

— Quem é você? — perguntou com naturalidade sem saber o quanto aquelas palavras machucavam.

— Seu filho — eu mal conseguia falar. — Leo.

Olhei para a enfermeira, desesperado por alguma explicação.

— O que houve com ela? — perguntei quando ela não disse nada.

— Um acidente, senhor — levantou uma sobrancelha. — O senhor estava lá, o acidente de carro comprometeu a sua memória. Ela não se lembra de nada e é incapaz de absorver coisas novas também, esquece em poucos segundos.

— Então ela não lembra de mim?

— Não, lamento.

Não sabia se ficava triste ou feliz por ela estar viva. Sentei-me ao lado dela e segurei a sua mão. Era estranho essa coisa de destino que faz questão de pregar umas peças estranhas na gente. Sofri o mesmo acidente da minha mãe e nós dois tivemos a memória comprometida, embora o meu caso não tenha sido tão grave quanto o dela, mas ainda assim era assustador.

Seus olhos, que eram sempre amorosos e maternais não me encaravam da mesma forma, não tinham nem metade do amor que costumava ter, era como se fitasse um desconhecido e esse era um fato que me fazia querer me encolher num canto e chorar.

Agora eu entendia perfeitamente o que Ícaro sentiu, a sensação de ser esquecido por alguém amado é uma dor que te consome e te corrói de dentro para fora como se seu coração e sua alma estivessem sendo massacrados aos poucos.

O esquecimento é algo muitas vezes inevitável, mas quando se esquece justamente aquilo que te definiu por uma vida inteira, é provável que fique um imenso buraco em seu peito entre você e onde aquele pedaço essencial de sua vida costumava estar.

E esse buraco é irreparável.

                                                          ***

Quando saí de lá com o coração na mão depois de dar um beijo na testa dela, que sorriu para mim em resposta, peguei meu celular e disquei o número do meu pai que eu já sabia de cor. Ele tinha uma longa lista de explicações para me dar.

— Pai? — indaguei, assim que atendeu. — Tem como você me buscar?

— Claro — Ele já estava acostumado com esses pedidos, já que eu não dirigia mais provavelmente por causa do acidente que quase matou a minha mãe. Eu sabia que as minhas mãos tremiam sempre que tentava colocar as mãos no volante, como se o meu corpo soubesse de todos os acontecimentos, mas meu cérebro não entendesse o recado.

Descrevi exatamente onde eu estava após andar algumas quadras para longe do hospital para que não se assustasse e nem questionasse o que eu estava fazendo lá.

Enquanto esperava por ele, liguei para Ícaro para tentar despistar o nervosismo que parecia estar me desgastando.

— Oi, Icky — sussurrei.

— Leo! — exclamou surpreso e um tanto aliviado. — Tive medo de que não ligasse.

— Por que eu faria isso? — sorri quase automaticamente, ele me fazia querer sorrir o tempo inteiro.

— Achei que eu tivesse te assustado.

— Ainda estou confuso e preciso de um tempo para colocar a minha vida em ordem e toda essa loucura que aconteceu nos últimos dias.

   Ele não disse nada, então continuei.

— Mas ainda quero te ver de novo, quero muito te ver de novo — Era possível sentir o calor de minhas palavras, mesmo do outro lado da linha.

— Então venha — pediu, pude notar que estava sorrindo, mesmo que eu não pudesse ver. — Estarei te esperando.

— Posso demorar um pouco — alertei, a conversa com o meu pai provavelmente seria longa.

— Leve o tempo que precisar — assegurou — Sempre estarei esperando por você, Leo.

Como era possível que eu gostasse tanto desse menino se o conhecia tão pouco? Talvez fosse o amor que sentia por mim, que estava me afetando também de alguma forma. Era quase impossível não amá-lo e me sentia muito culpado por isso, por estar de certa forma machucando Daiane com o seu cantor favorito. Eu era de fato um péssimo namorado para os dois.

— Não vou deixar que espere por muito tempo — falei quase automaticamente. Era incrível a forma como me derretia quando falava com ele. Será que eu costumava ser assim?

 Ícaro riu, se despediu e desligou na mesma hora em que o carro familiar do meu pai estacionou bem na minha frente. Com um suspiro pesado e repassando todos os meus questionamentos, abri a porta e entrei sem ter a menor ideia do que me aguardava.

— Por que você não está atendendo as ligações de Daiane? — questionou, com os olhos fixos na estrada. Pela sua tranquilidade, nem parecia que mentia descaradamente para o filho.

— Porque eu não quero — fui sincero, ao contrário dele. — Estava muito ocupado visitando a minha mãe.

O carro deu um solavanco, fazendo com que me recostasse com força no banco. Por algum motivo, aquela cena toda me parecia muito familiar. Coloquei o cinto por precaução, já que foi pela ausência dele que quase morri.

— Sua mãe está morta — insistiu na mentira com tanta convicção que me deu ainda mais raiva.

— Não, ela não está — meneei a cabeça. — Eu a vi no hospital. Por que mentiu para mim?

— Para mim ela está morta — disse com a voz firme, mas era possível sentir o quanto as palavras doíam.

— Não diga isso! — exclamei boquiaberto, completamente surpreso com a sua insensibilidade.

— Ligue para Daiane — ordenou, mudando de assunto de propósito.

— Não vou ligar — me senti uma criança mimada, mas me mantive firme. — Por que não me falou sobre o Ícaro?

Apertou as mãos nos volante assim que ouviu o nome de Ícaro e fez uma careta como se sentisse total repulsa.

— Falar o que? Aquele garoto só te fez mal. Você ter se esquecido dele foi um presente.

— Ele me ama — murmurei — Como isso pode ser ruim?

— Um homem jamais poderá amar outro, tal coisa não existe. Ele só quer você para te ensinar essas depravações imundas. Daiane é o seu futuro, é com ela que deve ficar.

— E se eu não quiser ficar com ela? — Eu já estava quase chorando.

Eu só vivia chorando, tinha que parar de chorar ao menos uma vez.

— Te arrumo outra garota, é o que não falta nesse mundo.

— Ícaro não é nada disso que você falou — protestei — E vou ficar com ele — constatei surpreso, era uma revelação para mim também, mas tive certeza de que era a escolha certa.

— Você não vai, filho meu não fica com homem. É praticamente um crime onde vivemos.

— Onde está me levando? — murmurei quando vi que já tínhamos passado da sua casa e da minha.

— Para onde você deveria ter ido desde o início — disse com um olhar decidido. — Tratar essa doença.

— Pai, me leve de volta! — exclamei — Eu quero voltar!

Não aguentei, comecei a chorar na mesma hora. Não tinha ideia do que estava falando, mas sabia que não era algo bom.

— Você vai ficar melhor, filho — garantiu, assentindo com a cabeça como se tentasse se convencer do próprio argumento. — Vai gostar de mulheres como deveria, como é natural.

— Qual é a diferença? O amor não é o mesmo? — eu já estava desesperado. — Nós nos apaixonamos pelo que as pessoas são e não pelo que ela tem entre as pernas.

— Aposto que foi esse menino que te disse isso — cuspiu, enojado. — Típico!

— Pare o carro, pai — alertei, tentando manter a voz firme. — Ou juro que vou pular.

Ouvi um clique de todas as portas do carro se trancando e quando tentei levantar o pino, nada aconteceu.

— Por favor — implorei, sem saber direito o que fazer. — Só porque perdeu o amor de sua vida não significa que tem o direito de tirar o meu.

Meu pai acelerou ainda mais o carro e olhou para mim no ato. A sua expressão de choque foi o que mais doeu em mim, como se cada palavra tivesse lhe acertado como facadas certeiras.

— Não diga isso — ele choramingou. — Eu não a perdi, ela foi tirada de mim.

— Por minha culpa.

— Não! — negou, balançando a cabeça. — Aconteceu o que tinha que acontecer. Só não consigo lidar com isso.

— Pai, sinto muito — falei com sinceridade. — Sei que não entende, mas também estou sofrendo e muito. Ícaro foi a melhor coisa que já me aconteceu. Tirá-lo de mim não vai me curar de uma doença que nem tenho.

— Mas ele é um menino — insistiu, não parecia tão bravo quanto antes, apenas perdido. — Não deveria amá-lo como se ama uma mulher.

— Mas eu amo — declarei — E posso tentar explicar tudo para você, mas isso não vai fazer você entender. Eu amar ele não vai mudar nada, nossa relação continuará a mesma, você continuará sendo o meu pai do jeito que sempre foi e continuarei sendo o mesmo filho que sempre fui, te amando da mesma forma.

   — Ele não pode te dar filhos — protestou, quase sendo vencido pelo meu argumento.

— Podemos adotar — dei de ombros — Filhos não são bem a minha prioridade no momento, quero mesmo é ter vários cachorros — Isso fez meu pai rir e acabei rindo também, era sinal de que estava conseguindo convencê-lo.

Meu pai abaixou a cabeça para limpar as lágrimas no momento que olhei de soslaio para a estrada. O sinal estava vermelho e meu pai ultrapassou sem ao menos olhar, tinha um carro bem na nossa frente passando quase na mesma velocidade que nós.

— Pai, cuidado! — exclamei, mas já era tarde demais.

Quando as palavras saíram dos meus lábios, o carro já havia colidido contra nós e pude ver a cabeça do meu pai afundar no volante de forma brusca e foi o que bastou para que eu perdesse totalmente a consciência.

                                                   



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...