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História Não sei, mas acho que morri - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Meus caros, eu não faço ideia do que seja isso, mas espero que gostem. Enquanto escrevia essa história, escutei uma música só: Violenza Domestica, do Mr. Bungle. Não tem muito a ver, mas se quiserem ouvir também, indico.
Tem um glossário nas Notas Finais, pra caso não entender os *.
Espero que gostem e boa leitura!

Capítulo 1 - Capítulo Único


Fanfic / Fanfiction Não sei, mas acho que morri - Capítulo 1 - Capítulo Único

 

Aconteceu na última semana, acho.

Eu acordei e senti um cheiro pungente vindo de mim mesmo. Cheguei a pensar que eu havia retrocedido àquela tal idade, pensei que tinha me borrado todo, sujado o lençol de merda, mas quando fui olhar, não tinha nada. O lençol estava bagunçado, claro, porque passei uma (ou seriam mais?) noite lá; mas, além disso, desse vestígio quase vergonhoso da minha antiga vida, a vida em que eu ainda dormia e fazia coisas de vivos como cagar e comer, não tinha realmente nada. 

Talvez esse tenha sido o meu primeiro passo e eu estou com a memória fraca, mas depois de passar um tempo em pé olhando fixamente pra uma parede, lembrando, isso pode ter acontecido antes de revirar minha cama buscando sinais marrons e fedorentos, fui pro banheiro, onde tinha um espelho de corpo inteiro. Eu não ligava pra esse espelho até o dia da minha morte, não obstante, quando o encontrei a sensação foi próxima a ter sido curado do câncer (que não tive, mas minha vizinha Dolores teve. Infelizmente ela não sobreviveu, mas quantas pessoas já devem ter sobrevivido do câncer? Milagrosamente falando), de ter encontrado um oásis no deserto, depois de ter vagado horas e horas; minha gúliver* se iluminou na hora e vi que meu corpo estava destroçado. Putrefato. Horrorshow*.

Minha cabeça se iluminou na hora, mas essa não foi uma sensação duradoura. Deve ter durado, no máximo, uns cinco segundos. O que eu vi no espelho foi o motivo da maioria dos meus pesadelos durante toda infância e adolescência. Il mio corpo era pallido come carta cammex, con pochi viola sparsi, impronte digitali intorno al collo*. Eu nunca quis morrer (às vezes, apenas), e a morte é o treco mais esquisito e natural desse universo. Não é verdade que tudo morre, até as estrelas? Embora elas possam durar muitíssimo mais tempo que nós, um dia elas encontram seu findar, e talvez nem tenham consciência disso. Só que essa falta de consciência também é a sua salvação: elas não têm consciência da própria vida. Tudo o que fazem é existir.

Thánatos*. Morte. Thánatos. Que bizarrice. Foi tão estranho saber que, provavelmente até a última semana, eu ainda estava vivinho da silva. Bater as botas, comer capim pela raiz. Eu sentia os vermes me consumindo pouco a pouco. Que fedor. Não doía. Não fazia sentido a ideia de pensar, quanto mais ser capaz de sentir qualquer coisa. Um estímulo, alguns beliscões, naquele momento, seriam capazes de me fazer lembrar como era estar vivo. Que sensação esmagadora, claustrofóbica. Não vou poder passear com meu cachorro mais. Não posso sair na rua desse jeito. Não vou falar com mamãe mais. Ela não pode me ver nesse estado. Não quero ser responsabilizado por mais uma morte. Não vou poder mais lubilubilar* com qualquer ptitsa* mais, tener algo de pol* ou ver alguns grudis*.

Maldita jizna*. Meu króvi* esguicha.

E então escuto minha mãe gritar do corredor: “acorda, Kevin. Hora de ir para a escola”.

 


Notas Finais


GLOSSÁRIO em ORDEM DE APARIÇÃO
GÚLIVER: cabeça em Nadsat;
HORRORSHOW: legal em Nadsat;
Il mio corpo era pallido come carta cammex, con pochi viola sparsi, impronte digitali intorno al collo: Meu corpo estava pálido como papel chamex, com alguns roxos espalhados, impressões digitais em volta do meu pescoço em italiano;
THÁNATOS: deus da Morte na Mitologia grega;
LUBILUBILAR: fazer sexo em Nadsat;
PTITSA: garota em Nadsat;
Tener algo de: ter um pouco de em espanhol;
POL: sexo em Nadsat;
GRUDIS: seios em Nadsat;
JIZNA: vida em Nadsat;
KRÓVI: sangue em Nadsat.

FONTES:
Frases em italiano e espanhol: google tradutor (infelizmente não sou poliglota).
Laranja Mecânica, livro de Anthony Burgess, tradução de Fábio Fernandes, editora Aleph.

Obrigado e espero que tenham gostado.


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