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História Nara - Capítulo 5


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Notas do Autor


oioioi

eu sei que estou beeeem da atrasada, mes desculpem por isso, mas já aviso que o capítulo cinco também vai dar uma atasadinha e eu vou postar só na quarta ou quinta, depende do que eu decidir para o final do capítulo.

ah, eu vou ignorar completamente o coronga virus nessa fic, por mais que ela se passe em 2020/21.

é isso, boa leitura :)

Capítulo 5 - Capítulo IV


Capítulo IV - 01110010 01100101 01110100 01101111 01110010 01101110 01101111 00100000 01101001 01101110 01100101 01110011 01110000 01100101 01110010 01100001 01100100 01101111 

 

Londres, 29 de abril de 2020

00:56

 

TEMARI 

 

O fato de ter que sair por um lugar diferente do que entrei só piorou o meu nível de estresse. Me perdi nas galerias subterrâneas que me levariam para algum ponto de ônibus próximo e amaldiçoei toda Akatsuki em todas as religiões conhecidas por mim, e não eram poucas. 

— Temari! — Ouvi a voz doce de Konan ecoar pelas galerias e virei  meus pés, a observando apressar o passo para me alcançar. Eu estava puta, não queria conversar, não queria ouvir Konan dizendo para mim que eu sou a pessoa mais inteligente que ela conhece e que eu não tardaria para descobrir como desarmar aquele treco. — Espera, minha filha! Eu sei que não tem trem para você pegar, por que toda essa pressa? — Ela parou do meu lado com um ar risonho.

— Você está zombando de mim? Porque se isso que eu estiver vendo na sua cara for o esboço de um sorriso, juro que eu arranco seus dentes na mão e faço você engolí-los. — Falei em falso tom ameaçador.

— Relaxa, Matrioska¹. — Konan passa o braço pelo meu pescoço num meio abraço. — Acredito que o material que o Orochimaru vai dar pra você vai ser super completo. Afinal, o cara é um gênio, sinistro, mas um gênio.

Ela não estava totalmente errada. Orochimaru é o que chamamos em filmes de ficção científica e quadrinhos de “cientista maluco”, mas assim como eu seus estudos estão focados na área biológica e pende também para a química. Ele era meio que o “médico da Akatsuki” quando as coisas davam errado, ele inclusive tentou salvar a vida dos meus pais em 2016. Eu cresci no meio disso tudo, Orochimaru foi meu professor de biologia do sétimo ao último ano quando eu estudava no Harrow School. O colégio era secretamente administrado pela Akatsuki, por isso eu e meus irmãos conseguimos estudar lá de maneira gratuita, diferente da maioria das crianças que punham os pés lá. Todos são almofadinhas, filhos de pessoas importantes, igual a muitos outros colégios internos pelo mundo todo, assim como o Itachi que o pai pagava uma fortuna para manter ele e o irmão lá.

— Realmente, o pessoal do colégio tinha muito medo dele, apesar de ele ser um exímio professor. — Continuamos andando pelas galerias escuras até sairmos próximas a Hayward Gallery.

— Você nunca me disse como era a sua vida lá no Harrow ou porque o pessoal tem tanto apreço por você, o que você e seus irmãos faziam naquela prisão? — Eu e Konan nos conhecemos aqui em Southbank, quando eu ainda tinha tempo para hobbies, como andar de skate, e quando ela me viu mandar um Heelflips e torcer o tornozelo quase teve um treco, desde então somos melhores amigas. Eu só fui descobrir que ela também fazia parte de toda essa confusão mais de um ou dois anos de amizade.

Desisti de chamar um táxi quando já haviam passado mais de vinte minutos de espera por um que havia aceitado a corrida e a perguntei se ela dormiria na minha casa. Com a resposta positiva, decidimos ir andando para meu apartamento em Camden Town, eu teria tempo de sobra pra contar tudo.

— Caramba, como era a minha vida em Harrow? — Perguntei retórica enquanto pensava por onde começar. — Ok, tudo começou antes de mim, com o Kankuro, meu irmão mais velho. Meus pais já prestavam serviços para a Akatsuki, ele nasceu em 1995, não fazia muito tempo que a URSS tinha se dissolvido e tudo na Rússia ia de mal a pior, não tanto quanto nos outros países que compunham o Estado, mas já estava bem ruim. A Akatsuki disse que precisaria de uma nova geração de membros, meus pais ficaram doidos, claro. Eles não haviam colocado uma criança no mundo para ser perseguida, não como eles eram. Em 1998 eu nasci e a Akatsuki voltou a bater na mesma tecla, meus pais cogitaram deixar a organização na época, mas o mundo estava um verdadeiro caos, e eles sabiam que se quisessem ajudar nem que fosse pouco, precisariam continuar. Em 1999, estava impossível continuar no meu país natal, então meus pais fizeram literalmente um contrato com a organização, minha mãe estava grávida de semanas quando pousamos em solo inglês, até hoje eu não entendo porque eles resolveram ter três filhos levando a vida que levavam, mas tivemos uma infância até agradável aqui em Londres, apesar da constante ausência dos meus pais. Até os seis anos, todos fomos educados em casa, depois éramos mandados para o Harrow e vivíamos fixamente lá até os dezesseis, então nossos pais assinaram nossa emancipação e podíamos voltar pra casa nos finais de semana, parecia incrível para quem via de fora, os irmãos russos que tinham pais “desconhecidos” e eram emancipados. O que ninguém sabe é que quando completamos cinco anos, nossas “babás” começavam um treinamento pesado de auto defesa, antes de entrarmos no colégio. Kankuro foi o primeiro, ele é um exímio lutador por causa disso, eu não me lembro de muita coisa, mas eu tinha três anos e era muito próxima de ambos os meus irmãos, não entendia porque Kankuro tinha que ficar longe tanto tempo, eu gostava de brincar com ele e Gaara. Até que ele sumiu, foi horrível e extremamente traumático, três anos mais tarde eu estava adentrando os portões do Harrow e vendo Kankuro conversar com um garoto. Ele estava diferente, ainda era uma criança de nove anos, mas não agia como uma, ao contrário do garoto ao seu lado, que tinha uma aparência séria, mas era um verdadeiro cavalheiro, chegava a ser fofo. O garoto e questão era Itachi e não demorou muito para formamos um trio. Itachi, diferente de mim e Kankuro não morava no colégio, então não sabia o que acontecia nos finais de semana. Nos meus primeiros seis meses, eles me observavam como urubus em cima de carniça, Kankuro havia se mostrado muito habilidoso com facas e lutas corporais, mas eu não era tão ligada em me movimentar quanto ele, eu gostava mais de jogos de lógica e brinquedos como o cubo de Rubik, logo eles me enfiaram nas aulas de informática com os mais velhos, foi onde eu realmente me aproximei do Itachi, ele era o número um da sala e me ensinou a maioria das coisas que eu sei, mas não tardou para eu o ultrapassar, afinal eu tinha aulas de reforço. Quando Gaara entrou na escola, a família russa já era conhecida por todos no colégio. Existiam outras crianças estrangeiras na escola, mas nenhuma era como os irmãos Sabaku, os três tiravam notas altas e se destacavam em todas as atividades extracurriculares, eram o triunfo da escola e tinham um futuro promissor, dentro da Akatsuki, é claro. Nós três somos literalmente as arminhas secretas deles porque quase ninguém sabe da nossa ligação direta com a organização. — Konan estava quieta ao meu lado, ouvindo cada palavra que saia pela minha boca. Em alguns momentos ela parecia realmente chocada, então achei melhor a poupar de alguns detalhes. 

— Nossa, eu não sabia que eles faziam isso. Eu lembro quando meu padrasto me explicou o que a organização era e me coagiu a entrar, foi um horror e eu queria morrer, mas o que eles fizeram com você e seus irmãos é… repugnante. Como você ainda trabalha pra eles? — Seu tom era amargo. Konan é super empática, não foi difícil perceber que ela tomou minhas dores para ela.

— Nem tudo foi um mar de rosas, realmente, mas eu também aprendi demais. Eles me ensinaram tudo o que eu sei, e depois que os meus pais morreram, me ajudaram a planejar uma vingança, eu não posso cuspir no prato que eu comi, tive ótimos momentos também alguns que eu jamais passaria se não fosse por eles. — Falei sincera. 

— Essa sua Síndrome de Estocolmo² vai acabar te matando, escuta o que eu to te falando. — A empurrei de leve e fechei a cara, mostrando que foi um comentário extremamente infeliz. Ela riu em resposta e nós continuamos caminhando e falando bobagens pelos trinta minutos restantes que levamos para chegar em casa.

Camden Town é bastante movimentada, mas eram quase duas horas da manhã quando viramos na esquina da minha rua e todos os pubs já estavam fechados, afinal era quinta feira e as pessoas tinham que estar em seus trabalhos cedo. Eu estava exausta, o plano todo rodava na minha cabeça como um peão descontrolado com a enxurrada de informações que meu cérebro tentava sem sucesso processar. Konan foi para cozinha dizendo que faria um chá de camomila para tomarmos antes de dormir e eu fui tomar banho. Konan praticamente morava em casa, apesar de dividir um apartamento com Yahiko em Farringdon que era mais perto do centro. Meia hora depois estávamos as duas deitadas na minha cama, prontas ou não para poucas horas de sono.

Quando meu celular despertou de manhã, Konan não estava mais do meu lado. Ela deixou uma mensagem falando alguma coisa sobre o Yahiko achar que ela estava morta e entupiu o celular dela de mensagens perguntando onde ela estava. Yahiko também me mandou mensagem perguntando se nós estávamos juntas, mas como eu só vi hoje de manhã, não respondi. Outra notificação chegou no meu celular e eu lembrei que precisava retornar a ligação do Nara, bufei só de lembrar daquela cara de peixe morto e ar relaxado que ele exalava. Nagato não havia dito muito sobre o suposto cargo que eu teria na Hogo e eu fiquei muito curiosa pra descobrir.

Eu equilibrava meu celular entre a orelha esquerda e o ombro, tentando comer o sanduíche que seria meu café da manhã e um copo de chá preto, enquanto trancava a porta e caminhava até o elevador. Shikamaru não atendeu na primeira vez em que liguei, mas também, acho que não seria possível, eu estava no elevador. Saindo para a rua, não notei nenhum carro parado ao redor e caminhei tranquilamente até o ponto para pegar o ônibus até a faculdade. Dentro do ônibus, cliquei mais uma vez no número mais recente do meu histórico de ligações, se ele não atendesse daquela vez, eu desistiria. Demorou quase dois minutos para que eu ouvisse a voz preguiçosa do outro lado.

— Nara. — Foi só isso, pela sua voz ele parecia ter acabado de ser atropelado por um caminhão.

— Oi, sou eu, Temari no Sabaku. — A ligação ficou muda por uns instantes, então eu emendei — A garota que você abordou segunda. — Eu nunca fui tão cínica na minha vida. Minha voz era doce e suave ao telefone, bem diferente de como eu tinha o respondido no início da semana.

— Olá, Temari. — Sua voz parecia mais desperta agora. — Você pensou sobre a minha proposta? — Suspirei. Não, eu não pensei sobre a sua proposta, eu só estou seguindo um plano suicida.

— Ah, sim. Eu pesquisei um pouco sobre a empresa estampada no seu cartão e me pareceu bem interessante. — Mentira, se tem uma coisa que a Hogo não é para mim, essa coisa é interessante.

— Entendi… — Seu tom era... Risonho? — Você quer saber mais sobre a vaga de emprego? Seria interessante já que você não deixou eu te explicar na segunda-feira. — Quem saiu andando depois de me dar um cartão qualquer foi ele!

— Sim, claro… Seria ótimo. — Como eu falei, muito cínica. — Como funciona o processo seletivo de vocês?

— Ah, é bem simples. Na verdade você foi indicada, então o processo vai ser um pouco diferente. Podemos marcar uma videochamada para eu te contar um pouco mais da vaga e saber sobre você e suas experiências. Como está sua agenda hoje? Tem algum horário disponível? — Tirei o celular da orelha para olhar minha agenda. O único horário que eu teria era o horário do almoço, antes de entrar na farmácia.

— Hm, quanto tempo levaria essa entrevista? Eu tenho uma janela entre meio dia e duas horas, pode ser? — Perguntei receosa. Ele deveria ter uma agenda muito mais cheia que a minha.

— Não mais do que quarenta e cinco minutos. Quinze para a uma está bom pra você? Eu mando todas as informações necessárias por email, é só você mandar o endereço. 

— Certo, anota aí: [email protected] Meio dia e quarenta e cinco, né? — Perguntei para confirmar.

— Sim, meio dia e quarenta e cinco. Até onze horas o email vai estar na sua caixa de entrada. É isso, tenha um bom dia, até.

— Tchau, tchau. — Desliguei o telefone e marquei o novo compromisso na minha agenda. 

Os duzentos metros de caminhada do ponto até a faculdade nunca me pareceram tão longos. Em que área a Hogo me colocaria? Afinal, eu faço faculdade de botânica, mas também não é como se no currículo que a Akatsuki forjou para mim não tivesse uns quatro cursos diferentes, apenas focados na área de programação e tecnologia, além de cinco idiomas e especializações em tarefas básicas de escritório. Eu nunca fiz realmente nenhuma dessas coisas, mas depois de passar doze anos no mesmo colégio interno sob a direção da organização, eu deveria saber de algumas coisas. A aula estava tão sem graça quanto o tempo lá fora. Como Shikamaru disse, em algum momento entre a hora que eu desliguei o telefone e às onze, um novo email chegou na minha caixa com as instruções da entrevista. Eles fariam a reunião por um aplicativo de videochamadas desenvolvido por eles mesmos e minhas desconfianças começaram aí. A Hogo não mandou alguém para falar comigo à toa, principalmente alguém tão importante para eles, o que estão tramando?  Nagato falou sobre todo o seu plano mirabolante mas não explicou como eu faria tudo o que era esperado de mim sem reforços e em um ambiente completamente hostil, como ele pode ter tanta certeza de que eles também me mandariam para o Japão? Minha cabeça se ocupou com esses assuntos durante toda a aula e eu sequer ouvi o sinal sonoro indicando o fim das aulas.

— O que se passa na Temarilândia? — Elisabeth depositou um beijo na minha bochecha e eu retribui com um pequeno sorriso. A gente tinha alguma coisa implícita entre as duas, não é como se a gente namorasse ou algo assim, mas às vezes damos umas bitocas, de qualquer forma, ela pega quem quer e eu também.

— Nada, eu acho… — Respondi segurando sua mão. Para o pessoal da faculdade nós somos namoradas, é complicado.

— Você passou a aula toda com cara de tacho e não falou nada desde a hora que chegou, tem alguma coisa te incomodando. — Ela afirmou. Infelizmente ela me conhece bem demais.

Eu sorri e a beijei suave, não querendo continuar o assunto e ela me aceitou de bom grado.

— Uh, posso participar? — Um cara qualquer perguntou malicioso enquanto passava do nosso lado fazendo meu sangue subir. Liz percebendo minha mudança de comportamento segurou forte minha mão e mostrou o dedo médio para o infeliz.

— Relaxa, Tema. — Ela disse baixinho. — A gente está na faculdade, o que mais tem aqui é gente escrota.

Fiquei em silêncio com a expressão fechada, afinal ela não estava errada. Seguimos nosso caminho até a estação e eu desembarquei na Leicester Square para fazer baldeação e ela seguiu em frente até Waterloo. Caminhei devagar até o espaço de trabalho coletivo próximo a farmácia e me sentei em uma mesa de frente para uma das enormes janelas.  Meu relógio marcava meio dia e meia então eu ainda teria quinze minutos para um mini surto. Eu não tinha absolutamente nada planejado na minha cabeça e não conversei sobre a entrevista propriamente com o Nagato, o que significa que eu estou por minha conta e risco. Merda, eu teria que reportar isso depois… Tentando sem sucesso espantar minha agonia relacionada à esses pensamentos, mandei um bip para Nagato avisando que faria a entrevista em poucos minutos tirei meus fones de dentro da mochila me concentrando em desenrolá-los. O celular vibrou em cima da mesa, me avisando que falava cinco minutos e um suspiro pesado escapou pela minha boca, é agora.

Desbloqueei o celular e cliquei no aplicativo baixado por mim no aparelho a pouco. Eu infelizmente não tive tempo para checar alguma ameaça ou programa de monitoramento que poderia agir como um espião mesmo quando eu não estivesse o utilizando, e temia que isso se tornasse um problema mais tarde. 

 

Londres, 01 de maio de 2020

9:57

 

Eu amo feriados, o simples fato de não ter que acordar cedo seja qual for o dia da semana me coloca nas nuvens. Meu celular não despertou às sete horas da manhã como corriqueiramente e eu me sentia satisfeita por não ter um cronograma para seguir hoje, sem ser a reunião da Akatsuki em uma taverna da máfia albanesa, o que era uma boa desculpa para aproveitar e curtir um pouco. 

A minha escala bateu coincidentemente com o feriado então eu tenho o dia inteiro só para mim, eu não poderia estar mais feliz. Levantei da cama e fui direto para o banheiro deixando o chuveiro ligado enquanto me despia, hoje seria meu dia. Escolhi uma música da minha playlist e deixei a batida suave de Heaven's Only Wishful me levar pra longe enquanto molhava os cabelos.

A entrevista ontem foi tensa, Shikamaru é extremamente profissional e admito que me senti um pouco pressionada quando as perguntas começaram. Eu sou uma ótima mentirosa, isso me rendeu muitos papéis nas peças que o Harrow realizava no fim do ano, mas ele parecia saber me ler perfeitamente através das lentes, telas e sinais sem fio que nos separavam, era como se ele realmente estivesse sentado na cadeira à minha frente, fazendo perguntas e mais perguntas sobre mim e o currículo mentiroso que algum espião infiltrado deu para ele. Ele me perguntou sobre todas as linguagens possíveis de programação e pareceu levemente impressionado ao ver o domínio que eu tinha para falar de certos assuntos, me perguntou sobre o meu atual emprego e como eu me sentia em relação a ele, também conversamos em mais três línguas além de inglês, fizemos muita coisa em quarenta e cinco minutos e eu estava apreensiva. Ignorei todas as mensagens codificadas e bips que Nagato, Konan e Itachi me mandaram, deixando para fazer um relatório ontem quando cheguei e  anexar o vídeo da entrevista. Também o assisti duas vezes seguidas, para saber um pouco mais sobre o Nara e também para me auto avaliar naquela entrevista, afinal, eu criei todo um personagem para poder conseguir o emprego. Minha postura durante todo o vídeo era contida, com movimentos suaves; minhas mãos permaneceram descansando em cima da mesa a maior parte do tempo, mas quando eu pensava demais para dar a resposta, eu brincava com os anéis em meus dedos, ou mexia em um dos piercings da minha orelha. Shikamaru parecia totalmente relaxado na segunda e última vez em que eu assisti ao vídeo. Ele provavelmente fez a entrevista de uma das salas de reunião da Hogo, pois a parte inferior de seu corpo era bloqueada pela mesa de madeira, além de ser possível ver mais três cadeiras desocupadas. Ele vestia uma camisa índigo com as mangas dobradas até metade de seus antebraços, deixando suas tatuagens à mostra e seus cabelos estavam presos em um rabo de cavalo que parecia ter sido feito às pressas e de forma desleixada, segundos antes da câmera ser ligada. Ele também mantinha as mãos paradas em cima da mesa e vez ou outra as recolhia e estalava os dedos, seus olhos se mantiveram fixos nas lentes da câmera que capturavam sua imagem, dando a impressão de que ele olhava diretamente para mim o tempo todo, ele não estava para brincadeiras.

Ele me explicou melhor sobre a vaga. Como Nagato disse, se tudo desse certo, eles realmente me mandariam para Nara, as datas batem inclusive com o prazo determinado pela Akatsuki. Descobri que teria esse mês para criar a linguagem que seria responsável por invadir e desligar o dispositivo. Infelizmente Shikamaru não me disse qual é o interesse da Hogo nessa arma de destruição em massa, mas pelas escassas informações que eu consegui tirar dele, eles estavam um tanto desesperados. 

Saí do chuveiro me enrolando no roupão felpudo pendurado no gancho ao lado do box e coloquei uma toalha na cabeça para tirar o excesso de água do meu cabelo, rumando novamente em direção ao meu quarto. Não estava tão frio e o sol começava a aparecer com mais frequência devido a aproximação do verão, então peguei uma calcinha box e uma camiseta velha do Korn, que pertencia à Kankuro antes dele e Gaara sumirem do mapa. O relógio na parede da cozinha marcava dez e quarenta e dois, mas eu insisto em fazer café da manhã como se os raios solares tivessem acabado de despontar no horizonte. 

Saboreando uma torrada com geléia, eu releio o relatório e depois faço uma inspeção no celular que usei para a entrevista. A Hogo realmente implantou um pequeno e leve programa de espionagem no meu celular mas eu preferi fingir que não vi e o deixar lá, deixando-os pensar que têm vantagem, entretanto, me atentei para causar alguns bugs que impedissem meu celular de invadir outros dispositivos por uma conexão sem fio e também não conseguir localizar alguns números salvos na lista de contatos, afinal o nome de pessoas como Elisabeth e o pessoal da faculdade estavam salvos lá. Desligo o notebook e o celular, lavo as louças que eu sujei e me jogo no espaçoso sofá. Meus dedos apertavam o mesmo botão do controle remoto zapeando os canais a procura do que assistir, mas nada parecia interessante o suficiente na televisão, entrei na Netflix e continuei passando pelo canal de streaming a procura de alguma coisa interessante o suficiente para servir de plano de fundo enquanto corrigia os bugs da primeira parte do programa que Hidan me pediu. Gravity Falls foi colocado quase que no automático, eu já havia assistido esse desenho mais vezes do que consigo contar. Pego outro notebook no braço do sofá e começo o martírio de corrigir todos os bugs presentes no programa.

Cinco horas depois, Dipper e Mabel continuam tagarelando na TV e eu a corrigir tudo que eu escrevi errado, isso porque eu estava só no começo… Eu teria um longo trabalho, Hidan me paga, para quê ele precisa de um falso site religioso para tirar dinheiro do Vaticano? Deixo o notebook no sofá e volto para cozinha pensando no que comer, decido por um um shawarma improvisado, já que eu não tinha todos os ingredientes e muito menos disposição para ir comprá-los. Quando eu estava prestes a colocar a assadeira no forno minha campainha tocou, fazendo meu corpo dar um leve sobressalto e o shawarma balançar em minhas mãos. Coloquei tudo dentro do forno rapidamente para evitar sujeira e fui até a porta, vendo o cabelo de Konan no visor da fechadura eletrônica.

— Abre essa porta, bonequinha dos infernos! — Seus punhos se chocaram contra a madeira. Desanimada, girei a fechadura e a encarei com tédio, deixando a porta aberta para ela e voltando para cozinha. — Você acha que pode simplesmente desaparecer depois de uma entrevista importantíssima para o andamento da missão como se não fosse nada? Aliás, como você faz isso? — Ela perguntou tirando os sapatos e os deixando próximos ao batente da porta.

— Eu só queria analisar um pouco a minha performance antes de falar alguma coisa para vocês, inclusive escrevi um relatório sobre. — Respondi lavando os itens que utilizei para fazer o prato.

Ela lavou as mãos na lavanderia e voltou abrindo minha geladeira, tirando duas cervejas lá de dentro, me oferecendo uma. Sinalizei com o queixo para ela deixar na bancada.

— Já que você decidiu dar uma de invisível hoje, vou te atualizar ok? — Ela sentou em uma das banquetas. — Nagato disse que precisamos estar na taverna hoje às vinte em ponto. Eu acho que é uma ótima oportunidade pra gente dar uma azarada, sabe? Você pode até chamar aquela sua ‘colega’ da faculdade, o que acha? 

— Levar a Lis para uma taverna cheia de albaneses tarados e mafiosos de índole duvidosa para abandoná-la por duas horas? Eu passo. Além do mais, ninguém sem ser você e o Itachi precisa saber desse rolo, principalmente dentro da Akatsuki. — Respondo abrindo a garrafa e dando um longo gole.

— É, vendo por esse ponto você tem razão. Mas qual é a de vocês mesmo? — Por que Konan tem que ser tão curiosa?

— Eu não encaro como nada sério, e acredito que ela também não, é… — Ela me interrompe terminando a frase.

— Complicado, eu sei. Mas você não sente nada por ela? — Konan faz do tipo romântica, fantasiosa. 

— Não é como se eu desgostasse. Sinceramente eu acho que é mais por pura carência de ambas as partes, como um step, sei lá. Ela ainda não superou a ex dela e tenho certeza que um dia elas vão voltar, mas não incomodo com isso.

— Caramba, como você é fria. 

— Eu me importo com ela, de verdade. Mas sempre vi a nossa relação mais como uma amizade colorida, sabe? Inclusive gosto mais dela como amiga do que qualquer outra coisa. — O bipe do forno soou e eu soube que meu “almoço” estava pronto. — Quer um shawarma?

— Eu queria ter evoluído emocionalmente desse jeito. — Ela também desceu da bancada. — Não, valeu. Acabei de comer. — Eu tirei o lanche do forno, coloquei em um prato. Nós sentamos juntas na mesa e ela ficou me encarando. — Sabe… A gente vai sair antes das onze daquela taverna, por que a gente não vai em uma boate depois? Hoje é sexta, amanhã eu treino só a tarde e você não trabalha, o que acha? — Ela perguntou despretensiosa.

Dei de ombros. Com a fase final da faculdade e todo esse drama ao redor da movimentação da organização, eu deixei de fazer muitas coisas que gosto, inclusive sair para dançar.

— Por que não? Faz tempo que não saímos juntas para se divertir. — Ela deu um gritinho de animação e começou uma campanha para comprarmos roupas e irmos gatíssimas.

Konan conseguiu me arrastar para uma galeria e me fazer comprar um vestido para usar hoje a noite na tal boate. Ela disse que depois do meu discurso de desapego, queria me ver azarando máximo de pessoas possível e deveria estar vestida de acordo para tal. Nós compramos um vestido cada uma para usar hoje; seu vestido é azul escuro e vai até a metade das coxas e tem um amplo decote que destaca seu busto num corte ‘V’. O meu é super simples, preto, com um tecido fino e colado ao corpo com duas alcinhas, valoriza as minhas curvas. Nos arrumamos na casa dela e fomos de metrô até a taverna. Nenhuma das duas gostaria de dirigir hoje, já que a meta dela era voltar carregada e a minha também não estava longe disso.

Entramos no estabelecimento albanês as dezenove e trinta e resolvemos “começar os trabalhos” enquanto a reunião não se iniciava. Pedimos um chopp Guinness para cada uma e fizemos um brinde a nossa noite. Konan comentava animada o  London Street League³ e de como ela estava ansiosa e mal podia esperar por agosto, quando o campeonato aconteceria. Nós sentamos no bar, de costas para a porta, por isso não era possível ver a movimentação na entrada da taverna conversando sobre campeonatos de skate e assuntos triviais, quando eu o vi.

O que ele está fazendo aqui? 

 


Notas Finais


link para traduzir o título do capitulo: https://www.invertexto.com/codigo-binario

1 - Uma matriosca ou boneca-russa é um tradicional brinquedo russo. Constitui-se de uma série de bonecas, feitas geralmente de madeira, colocadas umas dentro das outras, da maior até a menor. A palavra provém do diminutivo do nome próprio matriona.

2 - Síndrome de Estocolmo é o nome normalmente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida a um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo amor ou amizade pelo seu agressor.

3 - Uma das fases do campeonato mundial de skate.

até a próxima :)


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