História Narcisos - Capítulo 5


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ação, Adolescente, Aventura, Colégio, Escola, Jovem, Original, Romance
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Palavras 1.946
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção Adolescente, LGBT, Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Insinuação de sexo, Spoilers, Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 5 - À beira de um precipício


Fanfic / Fanfiction Narcisos - Capítulo 5 - À beira de um precipício

Mudança.

Ocorreram muitas ao longo do último ano e Márcia foi a única de nós que a teve ao seu favor. Gui não mudou nada. Sempre foi o exemplo que a humanidade deve seguir e... Isto é entediante quando é expressado por meio da escrita.

Para alguns a mudança é boa. Para outros é bem ruim. O meu caso é o segundo.

Perdi minha mãe e agora moro sozinho. Tenho o suficiente para me sustentar até completar o ensino médio e conseguir um emprego. Gui dorme aqui em casa dia sim, dia não. Márcia dorme umas duas vezes por mês quando convence os seus pais que não confiam tanto nas saídas da filha após problemas com alcoolismo. Provavelmente temem que ela volte grávida para casa no dia seguinte.

Assim vivo a minha vida. Da escola para casa e de casa para o abismo. "Um ciclo sem fim." Ah! Se você leu a frase entre aspas cantando, então comemore, pois teve uma infância maravilhosa.

Nos finais de semana me aprisiono na casinha da árvore do meu quintal quando resolvo não ir a um encontro com meus amigos. É um espaço pequeno, porém confortável. Moraria lá fácil. Quando tenho fome, cozinho alguma besteira olhando a receita na internet. Quase nunca sai bom, mas um dia consigo chegar lá. Soube que as meninas adoram garotos que sabem cozinhar.

Aliás, sou um bom partido até. Eu me namoraria, mas apenas pelo o que tenho por fora. Ninguém merece ficar escutando meus conflitos internos, vamos combinar. Mas como eu disse anteriormente, não estou interessado nisto agora. Claro, às vezes sinto uma vontade ao ver um casal de namorados passando em minha frente, como vejo neste momento. Parecem felizes sentados enquanto vêem alguma coisa em um livro na biblioteca.

Livros! Estou rodeado deles. Lendo um, para ser mais exato. Assim como os filmes e séries, os livros me levam para um lugar onde problemas reais não existem. Onde tudo é feliz no final das contas. Não tenho perspectiva, é verdade, mas ainda espero um final feliz para mim, mesmo com a vontade constante de fazer uma loucura, explodir a bomba que há muito tempo foi acionada.

Me desconcentro da história mais uma vez e observo o casal em minha frente rindo ao olhar algum parágrafo aleatório, pois com certeza não estão lendo o livro por inteiro. Volto a ler o meu, mas me desconcentro mais uma vez ao ouvir a porta ranger enquanto alguém a abre.

É Guilherme que parece ter nascido com sua jaqueta de couro preta colada ao corpo.

O garoto senta em uma mesa perto da porta, mas logo se levanta ao me ver no fundão. Ele vem a minha mesa e senta em uma das cadeiras, de frente para mim. Abre o caderno e pega uma caneta no bolso da mochila que está largada no chão.

— São as curiosidades da Consciência Negra? — pergunto.

— Sim — Gui responde atento as suas escrituras.

— Não vai pegar nenhum livro sobre o assunto?

— Não, peguei alguns esses dias. Como já li, agora estou produzindo a pesquisa.

— Mas não é melhor pegar algum, caso esqueça de algo do que leu?

— Eu não esqueço.

— Certo... — volto a olhar o livro. Já me acostumei com o seu excesso de confiança. Na verdade o invejo.

Permanecemos calados por alguns minutos, cada um focado no que está fazendo.

— Ei — Gui chama a minha atenção e direciono meu olhar à ele — você já notou que enquanto um personagem não é descrito em um livro a maioria das pessoas o imaginam como uma pessoa branca?

— Vai dizer que somos racistas agora? — dou minha risadinha irônica para ele.

— Não é isso, Tom — Gui entrelaça os dedos sobre o caderno, parecendo um agente engravatado do governo —, é que em uma boa quantidade das histórias, seja em livros ou na televisão, os mocinhos são idealizados assim. Quando leio um livro onde um personagem não é descrito logo, o imagino branco também, pois já estou acostumado com isso e olha que sou negro.

— Então o foco aqui são os padrões impostos pela mídia e infinitos etcs?

— Não exatamente, mas falando nisso, se a nossa trindade fizesse parte de uma série de televisão, você seria o protagonista, Márcia seria a garota inalcançável por quem está apaixonado desde a infância e eu o amigo engraçadão ou um bad boy.

— Falando no diabo...

— Oi maridos — Márcia põe as mãos sobre os ombros de Gui após chegar por trás do garoto — falando de mim?

— Meio que sim — rio para ela.

— Gui, os meninos estavam te procurando para o treino de futebol — Márcia o avisa.

— Droga — ele se levanta insatisfeito da mesa, põe a mochila nas costas, beija a bochecha de Márcia e sai da biblioteca apressado.

Márcia, a louca com voz maravilhosa, senta na cadeira antes ocupada por Guilherme.

— Você não saiu com a gente de novo, não foi, idiota? — Márcia me diz zangada.

— Ah! Desculpa, Márcia, é só que...

— Eu sei, Tom — a garota rosa me interrompe — sei que ainda não superou muita coisa ou quase nada, mas se não tentar passar por isso, como é que vai conseguir alguma coisa? Você nem se mexe, está um saco. Parece eu na segunda de manhã. Para de se fechar para o mundo e para a gente.

— Eu sei, Márcia, mas é que...

— "que" coisa nenhuma. Você vai com a gente sábado para o parque. Isto é uma intimação — ela ri pegando na minha mão que está sobre a mesa.

— Ok, moça — aperto a mão dela mais forte.

Se tem uma coisa que jamais me darei ao luxo de falar é que estou sozinho no mundo. Sei que não estou. Tenho gente do meu lado me apoiando e torcendo por mim, não por pena dos acontecidos, mas porque me amam. Quero começar a retribuir a atenção, não por obrigação, mas porque os amo.

Fiquei um bom tempo deitado após chegar do colégio e ainda permaneço assim. Observo o teto mirando a lâmpada acesa até que os meus olhos começam a cansar. Então os fecho. Sinto um vazio. Sinto... Não sinto nada. Talvez sono e fome, mas não posso dormir agora. Tenho algumas pendências.

Me levanto indisposto. Gui vai dormir aqui hoje. Ele não gosta nada da ideia de me ver sozinho todas as noites numa casa que era repleta de alegria. Eu mesmo não gosto.

Vou ao armário e pego um biscoito. Ainda estou com a farda azul do colégio. Abro a porta da cozinha vendo imediatamente a casa da árvore no quintal. Pego a bicicleta que se encontra encostada no tronco, encosto a porta, e pedalo.

Liberdade!

A cidade vai ficando para trás e sinto uma estranha vontade de chorar. Faço força, pois quero sentir a lágrima percorrer o meu rosto. Ela cai. Permito que a tristeza que passa o dia inteiro presa dentro de mim saia.

Chego ao abismo e deito a Mike no chão, com a lanterna que está presa nela iluminando as minhas costas. Olho para o nada como de costume. O céu está apagado. Nuvens carregadas me impedem de admirar as constelações presentes aqui todas as noites. O frio é enorme e meu corpo treme. Nem sempre lembro de trazer um casaco. Cruzo os braços e a ventania não deixa meus cabelos em paz. Gosta de lutar contra o meu topete. Me sinto em um iceberg.

Vou para a ponta do abismo ainda com os braços cruzados. Fecho os olhos e fico parado como uma estátua pensando nela, pensando em tudo. "O que farei quando sair do colégio, afinal?" Faltam menos de dois meses para o ano acabar. Em duas semanas começam as provas finais e não faço ideia do que fazer da minha vida além de procurar um emprego que me pague o suficiente para me manter de barriga cheia.

Sinto outra lágrima querendo sair e uma vontade de gritar o mais alto que posso. Gritar para fazer as rochas tremerem. Gritar para amenizar minha dor por alguns segundos. Preciso gritar.

A primeira coisa que vejo é o escuro lá embaixo quando abro os meus olhos, o que me causa uma tontura. Um tanto desesperado e com medo de cair — quem diria... — dou um passo para trás e caio sentado no chão, na área de risco onde costumo ficar. Com a queda, a ponta do abismo desliza e vou junto.

Fecho os olhos automaticamente com a certeza de que encontrei mamãe daqui a pouco. Poderei abraçá-la lá em cima caso realmente exista um "lá em cima". Menos de dois segundos após o deslizamento, sinto um... gramado?

Abro os olhos e vejo a porta de casa enquanto o sol quente brilha sobre mim. Está de dia. Está fazendo calor. Está diferente.

Me levanto olhando tudo ao meu redor, assustado com a mudança repentina. Observo algumas poucas pessoas passando na rua, o portão da cerca de casa não está mais enferrujado como há poucos minutos. A grama onde caí está bem tratada.

Não entendo. "Que diabos está acontecendo?"

Pulo a cerca e vou até a porta que está fechada. Então vou para a lateral da casa e encontro a janela do meu quarto. Abro, pois sempre a deixo sem a tranca. Entro no quarto, caindo em minha cama. Literalmente não quero perder tempo. Tudo está organizando. Cada objeto em seu devido lugar. A casa cheira a limpeza como se alguém a tivesse arrumado decentemente. Vou à sala ainda tentando saber se estou sonhando. Vejo o sofá arrumado, os quadros não estão tortos e o tapete limpo. Já na cozinha não consigo lembrar do cômodo tão limpo quanto da vez que mamãe estava viva. De acordo com o relógio quadrado de parede faltam uns 20 minutos para chegar a hora dos alunos saírem da escola.

"Não. Não voltei algumas horas no tempo. É impossível."

Quer dizer, não exatamente, pois parece que é isso que realmente aconteceu.

Direciono meu olhar para o lado e vejo o calendário. 09 de novembro de 2017. Exatamente um ano atrás.

Corro de volta para o meu quarto e ligo o computador. É horrível ter que esperá-lo ligar quando estou apressado. Já aconteceu várias vezes e agora está infinitamente pior. Ele liga e entro na página do Google. É incrível a quantidade de dúvidas que a internet é capaz de responder. Após algumas pesquisas envolvendo notícias diárias, vejo que realmente... estou muito ferrado!

Voltei no tempo. Pelos meus cálculos, faltam poucas horas para ser exatamente um ano.

Ponho as mãos na cabeça, maluco com a minha atual situação.

"Não! Não! Não! Isso não pode estar acon..." Fico imóvel vendo tudo ao meu redor girando sentindo a minha pressão baixar. "Mamãe." Ela está viva!

Pulo da cadeira, quase caindo no chão, agora comemorando o ocorrido. Sinto minhas pernas bambas enquanto penso apenas nela. Meus olhos se enchem de lágrimas mais uma vez, ansioso para revê-la depois de tanto tempo. Resolvo ir para a porta esperar por ela, mas antes de sair do quarto vejo o meu reflexo no espelho. Não pareço mais jovem e estou com a farda do colégio. "Há um ano eu estava vestido com esta farda a essa hora?" É uma dúvida que some logo da minha cabeça após lembrar que tenho a chance de abraçar a mulher que fez tudo o que podia por mim. Pelo menos acho que tenho e que, por favor, seja isso!

Se tudo isso for uma mentira, de alguma forma, ficarei literalmente maluco.

Corro para a porta da frente e sento na calçada, conseguindo ver a rua através da pequena cerca que está com a pintura tão branca que parece nova.

Ajudava mamãe sempre que podia com os afazeres da casa. Eu mesmo pintei a cerca, e sozinho. Ela me disse que eu já era um pequeno projeto de homem e que sentia orgulho de mim. Fiquei feliz o dia inteiro.


Notas Finais


Oi narcisos, oi narcisas!

ACONTECEU! Tom voltou no tempo!

No próximo capítulo teremos a narração de um "novo" personagem!

Obrigado por lerem! 💙💙💙💙💙


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