História Nas Mãos do Diabo - Capítulo 39


Escrita por:

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin), Personagens Originais
Tags Amor, Artsyedits, Comedia, Erotic!fic, Fantasia, Hoseok, Humor, Jikook, Jimin, Jin, Junggkook!demon, Jungkook, Longfic, Namjoon, Romance, Taehyung, Yoongi, Yoonseok
Visualizações 154
Palavras 10.271
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Mistério, Misticismo, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


OLÁ!
EU NÃO DISSE QUE VOLTARIA EM BREVE?

AQUI ESTOU EU COM A PARTE 3 DO CAPÍTULO 15 DE NMDD. LEIAM AS NOTAS FINAIS, POR FAVOR!

Capítulo 39 - Pt. 3 - n. ê. m. e. s. i. s.


 Pt. 3

N

     Ê

              M

E

   S

                                                      I

            S

Nunca pensei, em toda a minha morte, que chegaria a ver alguém que genuinamente amo morrendo diante de meus olhos, alguém que disse me amar, que sempre me amou. Pensei, todavia, que acordaria de meu sono como Hades e ornamentaria meu plano até sua conclusão com maestria, sendo digno, assim, de comandar os Sete Círculos como o verdadeiro Rei que sou... ou que pensei ser. A verdade é que pensei sobre várias coisas durante os inúmeros séculos de morte que carrego nas costas, desde as mais grandes – como o meu maldito plano – até as mais pequenas e miseráveis – como a roupa que iria usar a cada jantar infernal que se passou. Eu sabia que estava preparado para grandes feitos e grandes responsabilidades, contudo, nunca pensei que chegaria a ouvir a seguinte pergunta, feita por Mino:

— Você sabe conduzir um funeral?

Meu coração bateu minúsculo em meu peito, surrado pelas palavras de consolação de uns, pela comemoração de outros, pelo desânimo em que o Castelo caiu assim que a notícia se espalhou e, sobretudo, pelo luto que consumiu meu coração impiedosamente. Não tinha vergonha em cair no choro diante de Mino, nem de olhar nos olhos de Jennie.

Jennie.

Após os Pecados matarem os demônios que haviam atacado Jungkook, percebi que eles ficaram me olhando de uma maneira diferente. No começo, pensei ser por meu choro descontrolado, porém, logo percebi que era porque eu havia me revelado como Hades, de cabelos pretos e olhos cinzentos. Pensei que iria ser atacado impiedosamente, mas, talvez, minhas lágrimas e minha postura miserável de quem estava sofrendo uma dor profunda tenha-os dado pena. Escutei Mino questionar algo sobre minha aparência enquanto os outros pareceram embasbacados demais para respondê-lo. Eu não poderia lidar com aquilo, com aqueles olhares confusos e de ódio, pois precisava ser tratado apenas como Jimin, o humano inocente que havia acabado de perder o amor de sua vida. Então, retornei à minha forma humana e apaguei, com lágrimas nos olhos, a memória de todos ali.

Afinal, não aquela não era a primeira vez que eu mudava para ser aceito em algum lugar.

Jennie havia conseguido escapar de meu roubo de memória saindo da sala sem que eu notasse. Percebi que ela ainda sabia quando, após receber alguns abraços dos Pecados, ela se aproximou e sussurrou em meu ouvido: “Você vai cair, Hades. Não falarei nada agora, pois prefiro me concentrar no enterro de meu chefe do que em desmascarar um inseto podre como você. Após o funeral, você está morto”. Apesar de suas palavras duras, não a temi. Agarrei-a pelo cotovelo antes que se afastasse e disse calmo e centrado e ameaçador as seguintes palavras: “Eu posso até morrer, mas antes farei questão de esquartejar seu corpo e dar os restos aos corvídeos, sua desgraçada invejosa” e vi, de relance, um olhar assombrado atravessar sua face, este que ela escondeu com um sorriso maléfico antes de se afastar completamente intimidada.

Como um demônio antigo, poucas coisas eram capazes de me afetar, pois já havia vivido muito – bastante, demais até – e o suficiente para saber segredos e mistérios que demônio algum sonha com a existência. Eu era um demônio experiente, sem medos ou vergonhas, entretanto, não pude me impedir de encolher ao balançar a cabeça vergonhosamente à pergunta de Mino, pois nunca havia conduzido um funeral.

— Não, eu não sei conduzir um funeral — respondi.

— Nós podemos deixar a organização com Mortícia, ela acabou de mandar um corvo-correio avisando que está a caminho — ofertou encarando as mãozinhas trêmulas, incapaz de esconder sua tristeza.

Todos ali estavam tristes, pela primeira vez, em toda a minha estadia no Inferno.

Suspirei, concordando.

— Tudo bem.

Mortícia era conhecida em todo o Inferno por suas festas estrondosas cheias de espetáculos pirotécnicos com direito ao seu coral de esqueletos treinados para dançar e cantar qualquer coisa. Eles iriam dançar em um funeral? Na última vez que estive no Hotel Mortal, fui recebido por ela e seu exército em uma recepção calorosamente enervante e desastrada. Infelizmente, não era capaz de imaginá-la tomando parte de um evento tão melancólico e deprimente quanto um funeral, contudo, estava sem condições para negar qualquer coisa.

Só queria estar perto de Jungkook.

— Eu posso vê-lo? — Perguntei em um fio de voz, fungando ao sentir uma lágrima quente descer por minha bochecha.

— Ele está na...

— Eu sei onde ele está — interrompi-o levantando-me de uma das cadeiras do Salão de Refeições.

Mino baixou a cabeça e brincou tristemente com os cadarços de seu sapato. Depois de todo o desastre, ele havia arranjado tempo para caber em um terninho preto, junto de Rubel, que havia tomado a frente de todos os preparativos para o funeral, como os convidados, as atrações, a comida e o caixão. Diferente do Mudo Mortal, as mortes eram vistas, no Inferno, como algo divertido e essencial para qualquer monstro que se preze ter, por isso Rubel estava organizando uma festa até maior que o Baile Infernal e do que tudo o que já haviam feito – afinal, tratava-se do enterro de Jungkook, o Rei do Inferno, seu Rei.

O meu amor.

O veneno que havia o matado funcionava de uma maneira bastante interessante, conforme a gárgula da enfermaria E.U.S.O.U.P.O.C. havia informado. De acordo com ela, ele não era um paralisante, como os demais Adornos Infernais, justamente por vir da Serpente que cuida dos Portões da divisória entre o Mundo Infernal e Mortal, logo, forte o suficiente para matar qualquer coisa que ousasse ultrapassar os portões. Mas Jungkook não era um demônio comum, o que era o motivo da indignação de todos aqueles que haviam visto, ou escutado, o que havia acontecido.

A pergunta era a seguinte:

Como pode o Rei do Inferno, o criador da cobra, ter morrido de seu veneno?

Algo que ele mesmo criou!

Segundo a enfermeira, aquele era um dos fascinantes casos de “o feitiço virou contra o feiticeiro” somando à ajuda do infortúnio de ter todos os Adornos Infernais agindo em seu corpo ao mesmo tempo. O veneno foi catalisado por toda a dor a agir com mais rapidez, matando-o em questão de segundos – segundos estes que utilizou para matar Morfus, o morcego enganador.

Apesar de Morfus ter sido um servidor da corte de Jungkook por séculos, sua traição não foi bem-vista por nenhum demônio ali presente, o que resultou em seu desmembramento e, depois, seus restos em uma fogueira enorme bem no centro do Salão. Demônios eram impiedosos, ainda mais com traidores que matam o monarca de sua sociedade. Eu, por mais que tenha hesitado no começo, pude confessar que senti uma pitada de satisfação em ver o fogo o consumindo aos poucos, por mais que tenha chorado durante todo o momento.

Morfus representava uma parte importante de minha morte, algo que ainda não sabia caracterizar, porém, sabia que estava marcado em minhas entranhas. Desde seu cabelo preto, seus olhos amarelos e seu sorriso faceiro, o que me oferecia sempre que realizava ou estava prestes a realizar uma travessura horrorosa e ultrajante às regras do Castelo. São desses momentos de seus sorrisos desprevenidos e do brilho em seus olhos sempre que me via que irei fazer questão de me lembrar todas as vezes que ouvir a menção de seu nome e até mesmo quando isso não acontecer.

Eu sempre irei me lembrar dele... pois ele é inesquecível.

Pensei que seria capaz de aguentar tudo isso sem sentir o ardor doloroso em meus olhos nem a vontade de cair aos prantos no chão, muito menos o singelo pensamento de acompanhá-los nesse desastre. Morfus estava morto, queimado às cinzas; Jungkook estava morto, guardado na proteção de um quarto vigiado para prevenção de olhos curiosos. Ele ainda estava ali, mas eu sabia que seu corpo seria levado para o Cemitério dos Perdidos em pouco tempo para o velório, então seria enterrado e... não estaria mais ali.

No meio do caminho para a sala onde ele estava, parei em frente a um espelho e encarei meu reflexo com pesar. Ele me encarou com a mesma intensidade, acabado. Minha pele estava mais pálida do que nunca, colada aos ossos evidenciando minha falta de alimentação adequada de dias; meus olhos estavam inchados e minúsculos, afogados por olheiras escuras de quem dormia pouco. O brilho liso de minha tez revelava o suor mesclado às lágrimas de um homem em desespero após perder o amor de sua vida. Meu cabelo, pobres os fios, estava emaranhado de tantos puxões levar em meio à euforia. Eu mais parecia um morto-vivo do que qualquer outra coisa.

Olhar-me doía em minha alma, pois eu estava vivo..., mas eles não.

Nostálgico, toquei no vidro do espelho e chorei baixinho, encarando-me encolher para tentar engolir os soluços pesados. Em meio às lágrimas, pensei ter visto um lampejo escarlate e olhei para trás, pensando, em um ímpeto de loucura, ser Jungkook atrás de mim, mas não havia nada nem ninguém. Tornei a mirar o espelho novamente e o lampejo retornou, mas dessa vez o encontrei dentro de meus olhos. Algo parecido com quando eu perdia o controle e meus olhos passavam de castanho para cinza – evidenciando-me como Hades – entretanto, o vermelho era, definitivamente, uma novidade.

— O que está acontecendo? — Indaguei-me tocando na parede que continuava a descascar. — O Castelo está se desfazendo e agora estou alucinando com olhos vermelhos?

Eu devia estar com muitas saudades de Jungkook, pois estava começando a ver seus olhos dentro dos meus. Quantos níveis de ferrado eu estava? Minha realidade era quase patética... finalmente havia encontrado o amor verdadeiro, mas, subitamente, ele havia escorrido por entre meus dedos como areia.

— Eu não sei se vou aguentar tudo isso — revelei para meu reflexo antes de deixar mais uma lágrima escorrer. — Não sei se posso viver sem ele.

Virando-me para seguir caminho, tropecei em algo volumoso e encarei um quadro jogado no chão do corredor quase sendo engolido pela gosma preta que escorria das paredes. Juntei-o e estranhei ver a pintura de um corpo até o pescoço, pois a parte da cabeça havia sido rasgada. O quatro era tamanho humano, do tipo que os Reis fazem para esbanjar poder, dinheiro e glória. Pensativo, puxei o pedaço rasgado que havia extraído do quadro anterior, tendo a estranha sensação de já ter visto aquele branco par de asas antes. As imagens combinaram perfeitamente como se fossem uma só – a de antes sendo apenas a versão de perfil desta, que a completava com um pedaço do torso. Não pude dizer o que senti, mas foi algo parecido com uma urgência em guardá-la junto da primeira, então rasguei-a da moldura e dobrei-a até que coubesse sem deixar marcas no bolso de meu sobretudo.

Desconfiado, prossegui no caminho.

Ao entrar na sala, encontrei Dong Han terminando de arrumar o paletó de Jungkook e me apressei em empurrá-lo para longe, acertando-o um soco certeiro no rosto. Ele sentiu o impacto com um rosnado, mas não me atacou de volta, pois, assim que se virou, cobri seu rosto com minha mão e comecei a sugar suas memórias como se fossem uma bebida tóxica, parando apenas quando os sulcos de suas bochechas se tornaram mais profundos e sua aparência tornou-se mais morta do que a de Jungkook. Eu podia estar mais confuso do que antes, mas não era burro e sabia que ele só queria meu mal.

— Foi sua culpa — rosnei, vendo-o cair desacordado no chão. — Se você não tivesse me prendido, eu teria encontrado Jungkook antes de Morfus me encontrar — disse entredentes, acertando-o um chute nas costelas, e outro e outro até estar ofegante e minimamente satisfeito. — E Jungkook não vai ser enterrado com essa gravata horrorosa! Vermelho é a cor dele, demônio idiota!

Alcancei a gravata vermelha em um cabide próximo à porta e desfiz o nó da amarela com os dedos trêmulos. Concentrei-me em trocá-la até o final, esquecendo por segundos que o homem que havia jurado me amar não estava mais vivo e era em seu cadáver que eu estava tocando. Com as mãos suadas, toquei suas bochechas, seu queixo, sua testa, suas pálpebras, seus olhos... e caí em prantos, deitando minha cabeça em seu peito.

Pensei que não poderia ficar mais triste, porém seu cheiro, o cheiro que já estava tão acostumado a farejar todas as manhãs ao acordar, impregnou-me o olfato e me tocou a consciência por instantes. Quase pude vê-lo abrindo os olhos, revelando que tudo não passava de uma simples brincadeira, mas o sonho pareceu cada vez mais distante quando, ao abrir meus olhos, vi seu rosto inexpressível com as pálpebras bem fechadas.

— Eu te amo tanto... — solucei, enterrando o rosto em seu pescoço. — O que irei fazer sem você? — Indaguei-o, mesmo sabendo que não iria receber resposta alguma. — Acho que vou ficar aqui até você abrir os olhos e sorrir para mim, tudo bem? Eu acho... — funguei, enxugando seu pescoço molhado por minhas lágrimas. — Eu acho que é só o que preciso, só disso... desporfavor, Jungkook... — Implorei, tremendo.

Peguei sua mão e suspirei assustado assim que imagens de um mundo novo surgiram em minha mente, parecendo inabitado com seu céu escarlate. Nele, não havia nada, nem cabanas ou civilizações... nada, apenas rochas e mais rochas vermelhas por todos os lados. Mais afrente, havia uma pequena rocha que era semelhante a uma bem conhecida no Primeira Círculo, pois tinha o formato de duas presas surgindo do chão. Deduzi que aquele era o Inferno pré-povoação.

Olhei ao redor, procurando Jungkook, pois, certamente, ele estava em algum lugar do Inferno, pensei, mas não estava em lugar algum, nem quando gritei por seu nome. Havia algo errado comigo, pois, ao encarar minhas mãos e braços, vi-os quase transparentes de tão pálidos. Eles passaram a escurecer assim que senti algo começando a crescer em mim. Crescia desenfreado, expandindo-se, tomando lugares, enforcando minhas veias com uma nostalgia avassaladora de que eu já havia visto aquele lugar.

Adiante, avistei os grandes portões do Primeiro Círculo desprotegidos. Procurei pela Serpente protetora, mas ela não parecia sequer existir. Decidi me aproximar, toquei a madeira das grandes portas e suspirei com um arrepio limpo, um sinal de claro pertencimento, como se ele me pertencesse de alguma maneira. Minhas mãos começaram a escurecer, enegrecendo, com a ponta dos dedos tornando-se pontudas e afiadas em garras mortais. Arranhei a madeira e degustei do barulho do atrito agudo produzido. Senti que poderia quebrar aquelas portas com apenas um golpe. Mas algo me chamou ainda mais atenção: na ponta de meu indicador, uma chave se fez de minha própria carne e ossos. Ela ardeu e queimou na direção da fechadura cintilante, num pedido silencioso para destrancá-la. A fechadura rangeu e travou ao engolir a chave, depois a cuspiu e começou a tremer. Diferentemente do que pensei, os portões não abriram, eles cristalizaram em uma superfície fina, brilhante e refletiva. Um espelho.

Foi quando me vi por completo, envolto por uma glória crescente criada por labaredas de fogo azul queimando em minha pele. O espelho refletiu um homem alto, musculoso, cuja pele era tão branca e fina que era possível ver suas veias pretas pulsando veneno, veias que recobriam seu torso, seu pescoço, seu queixo definido, a base de suas bochechas profundas, então cercavam os lábios vermelhos de sangue, e acabavam por afundar em olhos completamente pretos sedentos por carnificinas e pandemônios donos de uma expressão dura e amedrontadora. Seu cabelo era vermelho, um vermelho vivo, curto e espetado como os finos espinhos de uma rosa crescente. Estava nu, exalante de um poder imensurável. O espelho revelou a figura de um ser nunca visto que não era um demônio, muito menos um monstro... era mais, era maior. Era um Rei.

Era como se eu estivesse vendo tudo através de outros olhos.

Maravilhado e completamente hipnotizado por meu reflexo, toquei minha pele com a ponta de minhas garras. Por ser fina, o simples toque afiado arranhou-a ao ponto de tirar sangue. Coletei uma gota solitária que escorria por meu peito e a provei, fechando os olhos com o sabor inigualável de vida e poder. Arrastei o polegar na superfície do espelho, sussurrando a simples indagação quem eu sou?, mas, subitamente, o lugar que toquei trincou e ele quebrou por inteiro, trazendo-me de volta para a realidade do quarto em que Jungkook estava morto. Assustado, larguei sua mão imediatamente e encarei meus dedos. Estavam normais, redondos, humanos, fracos. Deslizei a mão pelo cabelo, estupefato, pois o sentimento de tristeza ao saber que aquela alucinação não passava de uma simples alucinação havia me desestruturado mais do que ver Jungkook morto.

Quem era ele? Perguntei-me silenciosamente, engolindo em seco.

Kai abriu a porta do quarto com o pedido tristonho de que precisávamos levar o corpo para o Cemitério, pois o velório seria em breve. Concordei com um manejo de cabeça, mas não o encarei de imediato. Àquele ponto, estava começando a desconfiar até de minha própria sombra. Dong Han havia me amarrado, Morfus havia me enganado, Jungkook havia morrido, estava claro que algo muito errado estava acontecendo. Na verdade, tive a sensação de que algo muito pior estava para acontecer e não demoraria. Não relutei para deixar levarem Jungkook para fora da sala nem mesmo liguei quando fui deixado completamente sozinho, pois algo maior estava me tomando os pensamentos. Iria encontrá-los no Cemitério no mais tardar, de qualquer forma.

Quando o castelo se fadou em um silêncio medonho, pois todos haviam se deslocado para o Cemitério para o velório, percebi que estava, finalmente, sozinho. Afogado em um medo desconcertante, mas sozinho. Durante todo aquele tempo, o ser de cabelos de sangue e olhos de ébano passou a assombrar minha alma com alucinações em que ficávamos cara-a-cara e ele me sussurrava com a voz tenebrosa uma ordem que já havia escutado de outra pessoa.

Vá atrás dos espelhos, ele dizia, como Lilith, então completava, diferente dela, com e cole meus pedaços no maior.

Então desaparecia como fumaça, com sua voz sussurrante arranhando meus tímpanos como uma agulha raspando em vidro. Apesar de nunca tê-lo visto, nem mesmo falado com ele, soube, numa necessidade visceral antiga e poderosa, que deveria obedecê-lo cegamente. Soube que deveria libertá-lo.

Entretanto, haviam dois problemas zanzando em minha mente impedindo-me de fazê-lo de imediato: o primeiro era o medo, o segundo era o fato de que eu não sabia que droga de pedaços eram esses que ele tanto falou. Mas, ao enfiar as mãos nos bolsos de meu sobretudo e retirar os pedaços rasgados dos quadros que havia roubado, tive um breve vislumbre de que, finalmente, havia compreendido o que ele queria dizer.

Cole meus pedaços no maior.

Eu já tinha um com a pintura de seu rosto e outro com seu torso, o que me dava uma leve vantagem na busca dos demais. Por isso esperei a saída de todos antes de começar minha busca, pois ninguém poderia, sequer, desconfiar de minhas intenções.

Procurei em todos os corredores possíveis, todos os quartos, salões, cozinhas, mas não havia nenhum com sua imagem. Rasguei todos os que encontrei, todavia, numa esperança cega de que ele estivesse escondido por baixo como estava no primeiro. Nenhum. Deixei para ir no quarto de Jungkook como último recurso, pois sabia que haviam muitos quadros seus nas paredes e tudo o que menos queria era ver seu rosto sorridente eternizado em uma pintura quando sabia que ele estava morto na realidade. Eu estava certo, pois suas fotos me assombraram mais do que a alucinação do Ser Criador de pandemônios e nenhuma estava escondendo a imagem que eu procurava. Minha busca tornou-se enfadonha e improdutiva logo no final, quando, entristecido e indignado, acabei de frente para a porta da sala maldita onde Morfus me acordou de meu sono profundo.

— Eu não posso estar aqui, ainda. Não tenho a imagem completa! — Gritei.

Em um lapso de ódio, parti uma prateleira ao meio e caí de joelhos, puxando meus cabelos com uma raiva suja. Foi quando vi uma bolsa, uma bolsa que havia visto há muito tempo atrás. A Bolsa de Morfus. A bolsa que.... Arregalei os olhos e revirei-a por inteiro, puxando o tecido conhecido até ter o que tanto procurava na palma de minhas mãos. A pintura de Hades. Com pressa, espalhei-a pelo chão, depois catei os pedaços da pintura do Ser dos Pandemônios e as encaixei em cima do corpo de Hades como um quebra-cabeças, surpreendendo-me ao ver que encaixavam de uma maneira absurda como se pertencessem ao mesmo corpo... como se tivessem sido pintadas pelo mesmo pintor...

Morfus.

Eu tenho um plano, ele disse!

Levantei-me com um pulo e corri em direção a sequência de cinco espelhos escondidos na penumbra da sala, analisei-a em busca do maior e, aliviado, acabei encontrando o de formato oval de moldura dourada encrustada de brilhantes. Aquele havia sido o último espelho que Morfus havia utilizado para me acordar, o que eu havia atravessado para me tornar Hades por completo. Ele era do meu tamanho e parecia ter sido feito para que eu coubesse perfeitamente em seu interior.

Como um portal.

Arrastei-o para a luz e peguei as pinturas, jogando-as de qualquer jeito nele. Não funcionou como imaginei porque elas caíram miseráveis no chão. Então, a ideia de colá-las nele me veio como uma faca que destacou toda a minha estupidez de uma maneira dolorosa. No Inferno não havia fita adesiva como no Mundo Mortal, entretanto, havia cera que os demônios usavam para selar cartas e documentos importantes. Peguei um pote de cera e esquentei-a com o auxílio da chama de uma das velas dos castiçais nas paredes. Assim que ela derreteu, aquecida o suficiente, rasguei o pedaço que precisava da pintura de Hades e comecei a colar as extremidades de cada pintura como se estivesse costurando uma roupa de tecido delicado. No final, apliquei uma gota em cada ponta da pintura total e colei em cada extremidade da moldura do espelho, criando uma espécie de quadro com o corpo do Ser dos Pandemônios pintado em sua totalidade imponente.

Encarei-o por bastante tempo, esperando alguma espécie de sinal, como nas últimas vezes, surgir em minha cabeça. Alguma alucinação ou desmaio ou até uma tontura. Nada. Contei até dez e vinte e trinta e cem, mas nada aconteceu. Na verdade, uma das extremidades descolou e tive que usar mais cera quente para pô-la no lugar novamente. Fora isso, nada mais. Quebrei mais prateleiras com a esperança de que alguma pista surgisse, de que qualquer coisa surgisse para me dizer o que fazer ou o qual o significado daquela montagem de pinturas que havia sido instruído a fazer. Nada apareceu.

— O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA? — Gritei para as paredes, desesperado, esperando que o fantasma do Ser dos Pandemônios pudesse me ouvir e vir em meu resgate psicológico.

Mas ele não veio.

— O QUE QUER DE MIM? — Esbravejei.

Suspirando, deslizei pela parede até estar sentado no chão com as mãos no cabelo. Talvez ele não quisesse que eu descobrisse mais nada. Oras! Talvez eu só estivesse louco e tivesse imaginado tudo aquilo. Eu era um demônio velho e talvez os humanos estivessem certos ao dizer que a velhice leva tudo o que há de bom de nós, especialmente nossa sanidade. Para mim não fazia sentido, na verdade, pois eu era um demônio cujo poder era controlar a mente dos outros.

Encarei o espelho.

É... talvez eu já não estivesse no ápice de meus poderes ou de minha morte. Talvez eu já estivesse louco.... Talvez eu nem lembrasse mais quem eu era.

Quem eu era?

Encarei meu reflexo em outro espelho, vendo meu corpo magro com ossos sobressalentes de mãos trêmulas, olheiras profundas e olhos apagados. Quando meu brilho desapareceu? Eu nem mesmo percebi quando aconteceu. Mas ele sumiu. Levantei os lábios em um sorriso doloroso e forçado e o desfiz assim que vi o quão horrível meu rosto ficou. Parecia que a felicidade era um luxo que eu não podia sustentar. O sorriso desapareceu assim como qualquer sentimento que pudesse me fazer levantar para fazer qualquer coisa. A depressão, impiedosa, atacou-me a alma e prendeu-me os pulsos, fazendo-me pensar que tudo o que me restava fazer era deitar e esperar pelo pior. Por aquela coisa ruim que eu sabia que iria acontecer.

Quem eu era?

Eu já não sabia mais.

Você é um demônio ladrão de memórias cujo desespero por atenção foi grande o suficiente para manipular o Inferno inteiro para amá-lo. Você é podre, sujo, sua alma fede a desespero, sua essência corrói como ácido. O gosto de seu sangue deve ser letal. Você não fez nada de bom a ninguém, pois foi corrompido pelo maior pecado que alguém poderia sucumbir: o orgulho. Você roubou, mentiu, matou, fez matar, e riu como um bastardo doente de manicômio. E, no final, ainda diz que é culpa de sua desgraça não é sua. Você é nojento! Foi o que meu subconsciente rasgou em sussurros pontiagudos como agulhas para mim.

Senti meu rosto queimar quando uma lágrima estrangulada escorreu por minha bochecha.

Ele estava certo.

O barulho da porta abrindo chamou-me a atenção, era Mino chamando-me para o funeral. Quando levantei, ele perguntou por que eu ainda estava ali. Quando o respondi com não sei, pensei estar falando uma mentira escabrosa, mas, ao analisar minha situação e perceber que não fazia, de fato, ideia alguma do que estava fazendo, concluí que não era uma mentira total. Ele me convidou para acompanhá-lo no bondinho até o foço onde todos estavam morrendo para chegar ao Cemitério, mas o dispensei cordialmente e segui em direção ao túnel que levava para o topo do penhasco, seguindo o mesmo caminho que eu, Jungkook e os demais pecados havíamos feito para ir à Feira de Infernovera. Eu queria morrer caindo.

E, durante toda a minha queda, não parei de pensar, nem por um segundo, na imagem do Ser dos Pandemônios que havia deixado para trás.

[...]

Mortícia havia criado uma verdadeira celebração, algo semelhante ao Dia dos Mortos celebrado no México mesclado com o Halloween americano e um baile de formatura miserável de filme adolescente. Haviam balões, tendas com comidas típicas do Inferno, gárgulas marchando como se fosse um desfile de cidade, uma banda de dragões, uma pista tremenda de dança, lustres flutuantes e muita, muita bebida. O céu vermelho estava nublado em uma ameaça de chuva iminente com nuvens cinzentas e pesadas. A lua, semiescondida atrás de todo o cinza e escarlate, estava opaca e tristonha como a lua de Alice, só que sem brilho e com o sorriso do gato de Cheshire virado para baixo.

Apesar do tom festivo do recinto, a melancolia era inegável.

Parei diante do portão de entrada e fiquei encarando tudo por bastante tempo, digerindo todas as informações e... cores vivas pouco a pouco. Ao meu lado, duas pequenas gárgulas passaram conversando.

— Ele morreu tão jovem! — Disse a menor, vestida num terninho rasgado e velho, com um pincel de pintor na mão direita.

— Blu, ele tinha 4,5 bilhões de anos... — retrucou a outra, parecendo entediada.

— E isso importa? — A outra indagou agarrando o colarinho do terninho da amiga, chacoalhando-a. — Idade não é documento!

A outra revirou os olhos.

— Diz isso para a PF Infernal...

Observei-as entrando no Cemitério aos pontapés e, do fundo de meu âmago, uma risada estrondosa escapou de minha língua. Forte, amargurada e intensa ao ponto de chamar a atenção de todos de uma vez. A risada não durou por bastante tempo, pois transformou-se em guinchos e exclamações e, por fim, soluços. Caí em um choro profundo e inconsolável, abraçando-me enquanto sentia as grossas lágrimas escorrendo por meu rosto em chamas. Provei de minha saliva e estranhei o gosto de saudade que ela tinha. Saudade de Jungkook, cuja morte estava sendo pateticamente celebrada.

— ISSO ESTÁ ERRADO, NÃO ESTÃO VENDO? — Gritei, adentrando o Cemitério com passos pesados e a visão nublada por dor e ódio.

Arranquei os primeiros balões que vi e os estourei a mordidas. Fiz isso com vários. Então derrubei todas as mesas com comida pela frente, quebrei as taças de ponche, estilhacei os candelabros com estacas, quebrei todas as mesas e cadeiras e arruinei todos os instrumentos da banda. Ninguém tentou me segurar, me impedir. Em seus olhos e expressões, notei uma espécie de susto misturado à um medo desconhecido, talvez pelo fato de que eu, um humano, havia destruído toda a festa em questão de minutos. Arrastei-me, ofegante, para perto do caixão de Jungkook e descansei sobre a tampa de vidro, abraçando a madeira enquanto tentava acalmar meu corpo e mente com respirações profundas.

— Não estão vendo... — sussurrei, sendo interrompido por um soluço estrondoso. — Que a morte de Jungkook não deve ser festejada, mas, sim, sofrida?

Alguém tocou em meu ombro. Era Wonho e sua expressão estava mesclada em surpresa e melancolia. Encarei os demais. Zen, Jennie, Kai, Mino, Mortícia e suas gárgulas anciãs, todos os monstros ali presentes, todos eles, estavam, finalmente, expressando luto com feições tristes e lágrimas.

— Ele está morto... — murmurei, socando a vidraça, sem esperanças.

— Vamos enterrá-lo logo de uma vez — disse Wonho. — Não sou forte o suficiente para olhar para seu cadáver nem por mais um segundo.

— Mas...

— É o melhor a se fazer, Jimin — disse Zen, puxando-me pelo ombro para que Kai e Dong Han carregassem o caixão para a cova aberta próxima à pista de dança cheia dos destroços de meu surto.

— Esperem! Deixem-me vê-lo uma última vez! — Implorei. — Não me façam passar pelo que passei quando Morfus o matou. Ele me impediu de tocá-lo! Não façam isso! — Me desfiz em lágrimas.

Com as sobrancelhas baixas em tristeza, Wonho concordou e Zen me soltou em seguida. Avancei sobre o caixão e toquei no vidro, bem em cima do rosto de Jungkook, debulhando-me em lágrimas de dor. Ele estava lindo, mesmo pálido e com os lábios roxos pelo beijo da Morte. Seu terno combinava com a gravata vermelha que havia colocado.

Essa gravata combina muito com seus olhos. Gostaria que eles estivessem abertos para que todos vissem como combina, pensei.

Pensei, também, que estava diante de mais um delírio, pois jurei vê-lo abrindo os olhos como um vigilante furioso, olhando diretamente para mim. Somente para mim.

— O que? — Vozes perguntavam ao mesmo tempo surpresas.

Isso significava que eu não estava delirando sozinho.

Não fui rápido nem perspicaz o suficiente para prever o que aconteceu em seguida, apenas escutei o vidro estilhaçando quando sua mão atravessou a tampa e agarrou meu pescoço com punho firme. Ele quebrou o resto do vidro quando se sentou por completo, tendo-me sufocando em sua mão. Seus olhos estavam escuros, sombrios, assombrados. Olhos de quem havia acabado de acordar e não fazia ideia de quem era e de onde estava.

Olhos vermelhos abertos.

Abertos e vivos.

Jungkook estava vivo?

Estava!

Mas estava confuso e não estava me reconhecendo.

Wonho tentou avançar sobre ele para me livrar de seu aperto, mas ele apertou o aperto ao redor de meu pescoço com uma mão e, com apenas um movimento da outra, jogou-o para longe com uma rajada forte de vento. Outros tentaram, mas foram catapultados da mesma maneira. E seus olhos não desgrudaram dos meus por nenhum momento.

— Jungkook... — murmurei em meio ao meu estrangulamento, tentando me livrar de seu aperto com ambas as mãos

Mas ele era forte demais e nem minha força de Hades estava ajudando.

— Sou eu, Jungkook! — Avisei-o sem fôlego.

Seus olhos se estreitaram, malévolos, carnívoros, assim como seu aperto afirmou minha morte iminente. Mas, ainda, e quase sem fôlego, utilizei minhas últimas forças para segurar seu rosto com ambas as mãos e, com lágrimas nos olhos, tentei alertá-lo uma última vez:

— Sou eu, o Jimin!

E seu aperto afrouxou no segundo seguinte. Com os olhos quentes de lágrimas, observei diversas reações atravessando seu rosto. Confusão, raiva, fúria, convicção, confusão, percepção e, por fim, seus olhos clarearam como se o sol tivesse acabado de voltar de suas férias.

— Jimin? — Ele sussurrou e sua voz rouca causou-me arrepios.

— Sim! — Gritei. — Sou eu!

Ele largou meu pescoço imediatamente, encarando-me com os olhos arregalados. Em prantos, avancei sobre ele e o beijei com força, duro, batendo nossos dentes em um choque cheio de saudade, medo e paixão. Agarrei os cabelos de sua nuca e senti quando seu corpo inteiro relaxou ao aceitar meu toque desesperado e ele se moveu para responder ao beijo com um rosnado baixinho e vibrante, envolveu meu corpo em seus braços e me puxou para perto com um puxão delicioso.

Afastei-me e toquei em seu rosto, analisando cada pedaço de pele minunciosamente para ter certeza de que ele estava inteiro.

— Como? — Alguém perguntou, uma voz incrédula e furiosa.

Todos nós nos viramos para encarar Dong Han escorado contra uma lápide de braços cruzados e expressão fechada.

— Talvez o veneno não seja forte o suficiente para matar o Rei do Inferno — disse uma gárgula-enfermeira.

— Talvez nosso rei tenha derrotado a Morte para voltar para nós! — Disse outro monstro.

— E voltado para mim — murmurei para ele, incapaz de conter meu sorriso de orelha a orelha. — Você voltou — disse após dar um beijinho em seu nariz.

Ele fechou os olhos e sorriu para mim, concordando com um balançar animado de cabeça.

— Eu voltei — ele disse com a voz um pouco mais audível e potente. — Onde está Morfus?

— Não sabemos — disse Wonho. — Provavelmente pairando pelo ar nesse exato momento.

— O que isso quer dizer? — Ele perguntou.

— Ele está morto — Zen respondeu. — Você o matou e depois queimamos seu corpo às cinzas.

Jungkook piscou rapidamente, parecendo ter uma rápida epifania do que havia acontecido antes de sua não-morte.

— Oh... — murmurou baixando a cabeça com um ar melancólico.

Senti seu aperto em minha cintura, mas não falei nada. Apesar de ter sido traído, Jungkook e Morfus possuíam uma amizade milenar, o que justificava seu luto imediato.

— Entendo... — murmurou. — E os demais demônios que armaram contra mim?

— Todos mortos — disse Jennie, encarando-me com olhos mortais.

Ela iria dizer algo. Iria revelar tudo.

— Acho que um velório não é mais preciso, não é mesmo? — Perguntei nervoso, tentando desconversar sobre o assunto morte de Rei. — Podemos retornar ao Castelo.

— Você destruiu até os instrumentos da banda, então não vejo graça em ficar aqui — disse Mortícia, pegando sua bolsa.

Ela foi a primeira a sair do Cemitério, logo outros monstros passaram a segui-la.

— Eu preciso de um tempo com Jimin — Jungkook falou aos Pecados. — Podem ir na frente, nos encontramos mais tarde.

— Mas... — Jennie ainda tentou negar sua ordem, porém, ao receber um olhar sério, concordou com um bufar e passou a seguir a fila de monstros em êxodo.

— Você quer falar comigo... aqui? — Indaguei a ele, acariciando seu queixo.

Ele avançou em meu toque e concordou com um murmúrio mansinho.

— Eu preciso de você — disse ele.

E meu corpo acendeu como ferro em brasa.

— Até mais tarde — disse Mino do ombro de Wonho.

Os outros acenaram e se juntaram à fila andando e andando e andando... até desaparecerem por completo pela neblina que cercava os muros do Cemitério.

Na certeza de estarmos sozinhos, ele tocou meu rosto dedilhando cada centímetro de pele até raspar a ponta da unha fina do indicador em meu lábio, então avançou e o lambeu lentamente, provando do gosto de meu desejo com um gemido delicioso.

— Eu preciso tanto de você... — murmurou ele, mordendo meu queixo e descendo para a pele sensível de meu pescoço, a pele que havia apertado com força anteriormente enquanto me atacava.

— Eu também — gemi tombando a cabeça para trás para dá-lo mais espaço para beijos e mordidas suaves.

Em uma velocidade surpreendente, ele levantou comigo em seu colo e nos levou para cima de uma das mesas onde, anteriormente, havia comida.

— Senti saudades — murmurei enquanto abria os botões de seu paletó.

Ele, bruto como sempre, rasgou minha blusa e cravou as unhas em meu peitoral sorrindo.

— Eu estava morto de saudades — disse ele, comprimindo os lábios para prender um riso.

Acertei um soco em seu peito desnudo, incrédulo.

— Isso não tem graça! — Esbravejei. — Agora tira logo minha calça!

Seus olhos acenderam em malícia, assim como um sorriso brilhou em seu rosto.

— Uou... — murmurou. — Desde quando ficou tão mandão?

— Deixe a gravata! — Ordenei impedindo-o de tirar a gravata vermelha de seu pescoço. — E você não percebeu? — Lambi seu lábio inferior, sorrindo ao ver sua boca abrindo em surpresa ao me ver afastar. — Eu sempre estive no controle.

Você não está mais no controle, disse a memória de Dong Han, em minha mente.

— Sempre... — murmurei baixinho, para que somente eu ouvisse.

Um murmúrio que não me pareceu mais uma certeza, entretanto, que foi apagado assim que Jungkook voltou a me beijar os lábios de maneira necessitada, tocando meu corpo como se fosse um músico tocando um instrumento com maestria. Oh! Jungkook era o maestro que ditava a sinfonia de meus gemidos, meus arranhões e arrepios.

Quando ele se afastou para remover sua calça, abri minhas pernas desnudas e me recostei apoiando-me em meus cotovelos para assisti-lo com um sorriso ladino. Ele jogou o tecido para longe e voltou a me olhar, então seus olhos pararam vidrados no tecido vermelho de minha cueca e ele o tocou como se estivesse diante de um brinquedo novo. Seus dedos rasparam suavemente no tecido. Segui todo o seu trajeto quase hipnotizado. Ele agarrou o cós elástico e o puxou apenas um pouco para baixo para revelar minha pélvis, então me encarou como um adolescente pedido permissão. Como resposta, agarrei a ponta de sua gravata e puxei seu rosto para baixo. Ele sorriu, esfregou os lábios em minha ereção coberta e me encarou por baixo de seus cílios, àquele ponto, quase vermelhos pelo escarlate do céu.

— O que você quer que eu faça, maestro? — Sua voz soou baixinha e rouca e provocativamente sensual.

Senti meu corpo inteiro enrijecer em prazer.

— Me coloque de quatro — ordenei.

Ele mordeu o lábio, agarrou minha cintura e me girou no ar com o mínimo esforço, depois agarrou meus quadris por trás e pôs de joelhos, acertando um tapa em minha bunda que me fez ver vermelho por instantes. Surpreendendo-me, agarrou um punhado de meu cabelo e puxou-me para trás até sua ereção encostar em minha bunda e sua respiração ricocheteou contra minha orelha assim que ele se aproximou para morder seu lóbulo. Duro, rude, ele esfregou a ereção contra mim em um aviso delicioso do que planejava fazer com ela e comigo.

Capturei o tecido de sua gravata e o puxei para tê-lo mais próximo a mim, com seu peito colado em minhas costas, e o beijei com força, gemendo.

Lentamente seu indicador e dedo médio serpentearam por meu pescoço, queixo, até que encostaram em meus lábios e eu os abri para acolhê-los.

— Isso, meu garoto... — Jungkook gemeu. — Lambuze eles direitinho.

Acatei sua ordem como um louvor, chupando-o delicadamente, então ele os retirou e meu corpo acendeu em um gemido estrangulado quando ele os usou para me penetrar lentamente. Gritei ao sentir um tapa forte em minha nádega esquerda, seguido de uma ordem:

— Empina essa bunda!

Ele se afastou descendo e descendo até que senti sua respiração batendo quente contra minha entrada, depois sua língua e sua saliva e suas mordidas.... Deitei o rosto contra a mesa e tentei lidar com o choque de todas aquelas sensações me atacando de uma vez só, derramando sorrisos de prazer enquanto ele intercalava seus carinhos com dedos, língua e beijos. Parecia estar decidido em me fazer tremer e contorcer e gritar por ele submetendo-me ao seu domínio e poder.

Encarei-o por detrás do ombro e tremi quando ele levantou e me olhou diretamente, então desceu sua cueca até o chão e bateu seu pênis grosso e pesado na palma da mão com um sorrisinho travesso no canto dos lábios, depois bateu-o em minha bunda suavemente. Com um olhar de adolescente indagador, ele o deslizou por minha fenda e o empurrou delicadamente contra minha entrada, entrando, aconchegando-se, enquanto ambos gemíamos com a sensação. Enterrou-se por inteiro, gemendo meu nome arrastadamente, depois se afastou e empurrou duro novamente, jogando-me momentaneamente para frente depois me trazendo para trás pela cintura. Então passou a estocar brutalmente como um animal, arrancando-me gritos de prazer surreal. Sua tez alva brilhava em suor, seus músculos contraíram à cada movimento violento, seu maxilar estava trincado e os olhos pareciam duas pedras preciosas de tão vivos e brilhantes. Daquele jeito, Jungkook parecia um deus.

— Você é um deus, Jimin — ele disse entre dentes, cravando as unhas na carne de minha cintura.

Senti meu ventre puxar e repuxar com fisgadas quentes em um aviso que me fez engasgar e gemer ao mesmo tempo.

— Não vou durar por muito tempo! — Avisei-o com a voz fraca, capturado sua gravata novamente para puxá-lo para mais perto.

Ele encostou o peito em minhas costas e deitou a testa em meu ombro esquerdo, dizendo:

— Eu também não.

Meu orgasmo veio logo em seguida, disparando sem que eu, ao menos, tivesse tocado em meu membro e a sensação foi de que meu corpo estava explodindo em milhões de fogos de artifício culminantes em uma onda de arrepios e um grito estrangulado. Logo depois, Jungkook mordeu meu ombro e gemeu manhoso quando gozou até me encher por completo, esfregando sua pélvis contra mim.

— Porra, você me drenou por completo — Jungkook riu, afastando-se.

Ele me pegou nos braços e nos deitou por cima de nossas roupas amassadas. Pus minha cabeça em seu peito e deslizei meu braço por cima de seu peito largo para abraçá-lo, enterrei meu rosto em seu pescoço e cheirei-o murmurando um agradecimento divino por poder voltar a sentir seu cheiro novamente. Jungkook tinha cheiro de vinho seco misturado com a suavidade algo envelhecido e sabonete de baba de gárgula, entretanto, o gosto de seu suor era salgado e tinto de sexo. Uma combinação perfeita.

Ele me puxou para mais perto e beijou minha testa, acariciando minhas costas com a ponta suave dos dedos.

— Eu nem demorei para voltar, não foi? — Perguntou baixinho.

— Senti como se tivesse demorado uma eternidade — respondi-o incapaz de esconder a dor em meu peito. — Eu achei que nunca mais iria vê-lo...

— Jimin... — ele riu fraquinho e seu peito tremeu com o movimento sutil. — É preciso muito mais do que um veneno para me matar.

Suspirei.

— Ainda bem — murmurei.

Meu plano de vingança – o que eu usava o veneno para matá-lo após revelar minha identidade a todos – não iria funcionar, de qualquer forma, pensei.

— Achei que iria enlouquecer — revelei após um tempo em silêncio.

Seu peito enrijeceu quando ele segurou meu queixo entre o polegar e o indicador e me fez encará-lo. Suas sobrancelhas estavam unidas em confusão.

— Por que?

— Todos estavam me contando coisas que não faziam sentido... Dong Han iria me envenenar, Ruda está agindo como uma louca, o Castelo está derretendo e tudo está uma loucura!

Contei-o tudo o que havia acontecido antes e até depois de sua ausência, desde meu encontro com Lilith, as alucinações com as lápides em que eu via meu nome riscado em sangue, até o fantasma do Ser dos Pandemônios e o espelho-quadro que eu havia montado antes de vir para o Cemitério. Contei-o, também, do que Yoongi havia me falado, sobre a peça, os papeis que todos interpretavam e, por fim, mencionei a existência do Maestro. Eu estava cansado de guardar tudo aquilo para mim. Segurar tal fardo era uma tarefa excruciante e cansativa.

Minha existência podia ser resumida em segredos e mentiras e obsessões e controle. Isso havia me dado a capacidade de segurar um segredo com maestria, mas, estava começando a pensar que tal capacidade possuía um limite e, sinceramente, temia perder o controle de minha sanidade controladora e contá-lo logo tudo de uma vez, desde o início, desde o começo de minha existência. Mas eu não podia fazer isso. Havia percebido tal fato assim que me revelei como Hades a todos quando vi Jungkook morrer horas atrás, quando tive o vislumbre dos olhos assustados de todos sobre mim, susto esse que se tornou ódio e depois migrou para algo mais sujo... e violento. Senti que poderia ser esquartejado naquele momento caso não apagasse a memória de todos aqueles que haviam visto minha verdadeira identidade. Foi naquele momento que percebi que havia me sentenciado desde o princípio a uma vida de mentiras e fingimento, pois não poderia revelar minha identidade a ninguém.

Eles nunca me aceitariam... não depois de tudo o que eu havia feito.

Nunca haviam me aceitado.

Desabafei sobre tudo o que havia sofrido até aquele momento, omitindo apenas o fato de ser Hades. Acreditei que a parte mais difícil foi contá-lo como me senti na Sala Proibida, quando ele me tratou como um nada e depois desapareceu e tudo começou a cair de mal à pior.

— Eu fiquei com raiva — disse ele se sentando.

Sentei-me também, assim poderia escutá-lo melhor.

— Eu sabia que você estava passando por coisas ruins, mas você nunca me contava nada... acho que perdi minha paciência e decidi castigá-lo naquele momento. Peço desperdão por isso, Jimin.

— Mas você... — funguei. — Você me tratou como se eu fosse um pedaço de lixo...

— Eu te amo, Jimin! — Disse ele, de repente. — Eu nunca te trataria daquela maneira se não estivesse tão irritado. Eu não sou capaz de machucá-lo. Morfus se aproveitou dessa minha fraqueza para tentar me matar — suspirou. — Mas acredite em mim quando digo que não irei mais fazer isso.

Fiquei de joelhos e segurei seu rosto com ambas as mãos, então beijei-o com carinho. Um beijo casto que exprimiu todo o meu amor latente.

— Eu te perdoo — afirmei. — E também te amo.

— Eu te amo desde o Baile Infernal, meu garoto — disse ele, puxando-me para um abraço apertado. — Desde quando te vi morrendo e senti a pior sensação do mundo ao perceber que você poderia nunca mais me xingar como você costumava fazer.

Ri baixinho, mordendo o lábio enquanto arrumava os fios desgrenhados de seu cabelo roxo que já estava começando a desbotar para um preto vivo.

— Eu achava que seu cabelo era roxo natural... — murmurei subitamente confuso, tocando os fios negros com a ponta do indicador.

Rindo suavemente, ele recuou de meu toque e deu de ombros.

— Nem todos têm o que querem ao nascer, Jimin — disse ele. — Mas eu consegui o que queria quando um Demônio do Pesadelo apareceu com um negócio chamado Tinta para Cabelo lá do Mundo Mortal.

Nem todos têm o que querem ao nascer...

Realmente, Jungkook, mas eu também consegui o que sempre quis após descobrir a utilidade de minha anomalia.

Sorri e sentei em seu colo, envolvendo os braços ao redor de seu pescoço para beijá-lo novamente. Tê-lo em meus braços, para mim, meu, era a melhor sensação.

— Eu quero ajudá-lo a descobrir mais sobre esse Ser dos Pandemônios — disse ele, jogando-me deitado no chão e caindo por cima de meu corpo, todo sorridente. — Também quero descobrir quem diabos é esse Maestro e o que ele está fazendo em meu reino.

— Você quer? — Uni as sobrancelhas em confusão, porém, sorridente.

— Sim — beijou-me. — Me mostre o espelho em que você colou as pinturas — pediu.

Concordei rapidamente, animado por estar, finalmente, recebendo ajuda e por não ter que ocultar mais tantos segredos para ele. Um barulho retumbou violento, soando como o rachar de mil tijolos em sequência. Olhei para frente, para onde a silhueta do penhasco que guardava o majestoso castelo estava. Uma das torres do castelo encontrava-se em queda livre, caindo e caindo e caindo até colidir com o chão e subir pelo plano do Cemitério como uma bola de pingue-pongue que cai na água e depois pula para a superfície pela densidade. Jungkook pegou-me pela cintura e nos afastou rápido o suficiente para não sermos atingidos por uma coluna inteira de tijolos. Os retalhos voaram por todos os lugares, levantando uma neblina de poeira que ardeu em meus olhos.

— Vista-se — disse ele, entregando-me minhas roupas. — Vamos retornar ao Castelo.

— Isso é culpa do Maestro — revelei entre dentes, abotoando minha blusa social.

Virei Jungkook e arrumei o nó de sua gravata, depois beijei seu queixo e segurei sua mão, entregando-o um olhar determinado.

— Vamos atrás dele.

— Vamos — concordou.

— E quando o acharmos, irei arrancar sua cabeça com minhas próprias mãos — rosnei, fechando a mão em punho com força à ponto de embranquecer as juntas.

[...]

Ao chegarmos no Castelo, deparamo-nos com uma aglomeração no Salão Principal, o local onde a torre uma vez esteve. Não havia mais teto e o chão estava às ruínas com os escombros do desabamento. As várias estátuas que adornavam o recinto haviam sido destruídas e os castiçais e candelabros estavam aos pedaços, as paredes estavam rachadas e continuavam a derreter em uma gosma preta viscosa. No centro da aglomeração de demônios estavam Mino e Wonho. Mino chorava lágrimas de sangue em cima do corpo de Wonho que, segundo testemunhas, havia sido esmagado por um dos escombros. Wonho estava estirado no chão, com uma das pernas viradas para outra direção, totalmente quebrada. De sua boca, sangue escorria silenciosamente enquanto ele encarava o céu avermelhado sem dizer uma palavra. Sua respiração era audível e soava como alguém experimentando os primeiros vislumbres da morte.

Ele soava como Jungkook antes de morrer.

Uma ordem de enfermeiros apareceu, colocou-o em uma maca e disparou em direção à enfermaria E.U.S.O.U.P.O.C., levando Mino desesperado em cima dele. Observamos seus gritos tornarem-se apenas finos miados e, então, desparecerem de uma vez. Zen apareceu em seguida, parecendo consternada.

— O Castelo está desabando aos poucos — disse ela. — Está mais rápido do que antes.

— Isso é culpa do Maestro — avisei-a. — Jungkook e eu estamos em busca dele.

— Querem ajuda? — Ela perguntou.

— Não — Jungkook respondeu. — Mas fique atenta, irei chamá-la caso o encontremos.

Ela concordou com um manejo de cabeça e saiu. Pedi para que Jungkook me acompanhasse com rapidez pelos corredores até dobrarmos diante da porta em que o espelho estava escondido. Tive que limpar a maçaneta, pois a mesma estava inundada pela gosma negra que escorria das paredes. Fiquei bastante tímido ao mostrar toda a destruição que meu surto havia causado no interior da sala, ele riu, beijou minha testa e depois parou. Parou como se tivesse levado um choque ou um soco ou os dois ao mesmo tempo, finalmente, diante da pintura do Ser dos Pandemônios.

Seus olhos acenderam como se estivesse tendo uma epifania.

— Então esse é o Ser dos Pandemônios? — Indagou baixinho, tocando a pintura com as ponta dos dedos.

Concordei, esperançoso de que ele pudesse sanar alguma de minhas dúvidas.

— Eu o conheço por outro nome — murmurou, sua voz contendo um tom de mistério que fez meus ossos tremerem.

— Qual? — Perguntei em um fio de voz.

Ele acenou para que eu me aproximasse a ficasse diante da pintura, então apontou para um pequeno colar no pescoço do homem da pintura. Era uma corrente de ouro cintilante com um pingente no formato de um sol de várias pontas ondulares, com um olho central aberto de onde um par de braços e um par de pés se estendiam. Jungkook pegou minha mão e deslizou meu polegar por cima do pingente, tirando o excesso de poeira, revelando uma pequena palavra que me arrepiou a nuca. Um nome.

— Ele é conhecido como Khaos — revelou. —, o primeiro deus primordial a surgir no universo. A mais velha das formas de consciência divina.

— Uou... — murmurei encantado. — Ele ainda está vivo?

— Não se sabe — disse ele, beijando minha testa. — Quando caí no Inferno, não se ouvia falar mais nada sobre ele. Dizem que vive recluso em um Castelo afastado de tudo e de todos, governando o universo à distância.

— Nossa... Ele me parece um general — comentei. — Ele também se parece comigo — murmurei hesitante. — Você não acha?

Seus olhos caíram sérios sobre mim, mergulhados em uma sombra que destacou sua vermelhidão viva. Sua expressão séria me assustou no começo, mas após ser substituída por um sorriso alegre relaxei imediatamente.

— Vocês têm os mesmos olhos, concordo — riu. — Mas, fora isso, nada mais.

— Oh... — balancei a cabeça, concordando enquanto fingia chutar uma pedra imaginária.

Por que não acredito no que ele disse?, perguntei-me. Por que não soa verdade?

— Os cabelos vermelhos dele são irados, não concorda? — Ele perguntou me abraçando por trás.

— Sim, bastante — murmurei.

— Estou pensando em pintar o meu dessa mesma cor. Ela combina com meus olhos.

— Vai ficar lindo, pode acreditar em mim — sorri para ele.

E em mim também.

— Acho que vou pintar na terça... Espera! — Jungkook se interrompeu no segundo em que percebeu que eu não havia dito aquilo, muito menos ele.

Encaramos a penumbra da sala, onde, à distância, havia uma sombra cuja silhueta parecia ser feita de labaredas de fogo preto coberta por um longo capuz com o rosto escondido pelas sombras, flutuando como uma espécie de Dementador. Tive que forçar a visão para poder distinguir o que era ele e o que era escuridão, pois nela ele praticamente desaparecia.

— Fiquei sabendo que estão à minha procura — disse a voz, seguida de um risinho medonho.

Eu conhecia aquela voz.

— Você é o Maestro? — Peerguntou Jungkook, ficando à minha frente como uma espécie de escudo. Talvez nem ele mesmo tenha percebido o gesto automático para me proteger, mas eu odiei.

Queria ficar cara a cara com aquele demônio miserável.

— Precisamente — respondeu ele.

“— Sou um demônio de amizades seletivas — respondeu Morfus.

— Precisamente? — Perguntei-o.

— Precisamente — respondeu ele”.

— Morfus? — Indaguei com a voz falha.

Não era possível... Ele estava morto!

Em resposta, a sombra se arrastou pelo chão com a rapidez de um piscar de olhos, nos arrodeando como um vulto risonho. Agarrei a mão de Jungkook, assustado, tentando encontrá-la, mas era quase impossível. Pensei tê-la visto próxima ao espelho, depois ao meu lado, então de volta contra a parede, em seguida sobre mim, no teto, no chão, próxima à porta, sempre e sempre risonha como um pesadelo.

Gritei quando Jungkook foi praticamente arrancado de minha mão, sendo arrastado para a escuridão assustadora. No chão, a marca de seus arranhões ficou como um sinal de sua luta para não ser levado. Gritei por ele, mas foi em vão. Estávamos só eu e ele.

O Maestro.

— Eu vou acabar com você — resmunguei.

— Vai mesmo? — Disse a voz. — Como? É apenas um humano... ou será que não?

Fechei os olhos e respirei fundo ao me transformar em Hades, fechando as mãos em punhos antes de soltar um risinho furioso.

— Não finja que não sabe quem sou — disse-lhe. — Você sempre soube.

— Eu sei quem você é, Hades... — disse a voz, dessa vez um pouco mais grossa. — Mas você não faz a mínima ideia de quem eu seja. Isso não é hilário?

Tentei atacá-lo com uma nuvem de poeira capaz de sugar toda a sua existência em questão de segundos, gritando com uma raiva suja de desespero, mas ele simplesmente desapareceu e reapareceu próximo ao quadro. Corri para tentar apanhá-lo, mas tropecei em meus próprios pés e tive que me segurar na moldura do espelho para não o fazer. Surpreendentemente, senti meus dedos afundarem na pintura como se ela fosse uma espécie de porta aberta... como na vez em que tive que entrar no espelho para me tornar Hades por completo. Subitamente, fui atacado por um desejo de mergulhar e afundar nela. Algo parecido com uma necessidade primordial.

Mas a sombra agarrou meu tornozelo esquerdo e me puxou para longe, arremessando-me bem próximo à porta, depois me capturou pelo cabelo e me arrastou para o corredor, largando-me próximo à porta que levava ao Salão dos Corredores, depois desapareceu. Olhei ao redor à sua procura, sentindo a raiva subindo por minhas entranhas, e vi-a reaparecer no centro do Salão dos Corredores. Avancei até a sombra, mas ela voltou a desaparecer como fumaça, reaparecendo no corredor que levava ao Salão de Festas, o maior do Castelo.

Ele quer me levar para algum lugar, pensei.

Pensei, também, em Jungkook e em como ele estava naquele momento, mas meu ódio enterrou tal preocupação no segundo fui distraído pelo risinho maléfico da sombra.

— EU VOU MATÁ-LO! — Gritei completamente fora de mim.

Assim que adentrei o Salão, com a visão vermelha de ódio, minha coragem evaporou no segundo que vi a magnitude do que se formava diante de mim. Uma onda gigante e imponente de fumaça erguia-se do chão e fazia tudo ao seu redor flutuar e chacoalhar. As velas que iluminavam o lugar estavam apagadas, mas das janelas, cujo vidro havia sido estilhaçado pela força do vento da onda, uma forte luminosidade vinha da lua e iluminava tudo ao redor. Gritei quando o teto cedeu e foi arremessado para longe, desaparecendo, e o Salão foi banhado pelo escarlate do Céu criando uma atmosfera caótica de destruição. A sombra flutuou ao meu lado e juntou-se à onda, que passou a girar e a girar e a girar até se tornar um furacão mortal. Pensei que ela iria me engolir, mas, então, o furacão foi diminuído e diminuindo até tomar a forma de um homem cujo corpo foi envolto pela escuridão da sombra de um pedaço restante do teto.

Automaticamente, e como extinto de sobrevivência, tentei atacá-lo com minha fumaça sugadora de memórias, mas os jatos de poder foram impedidos assim que ele esticou a mão para fora da sombra e finalmente se revelou.

Da penumbra, ele surgiu. Alto, robusto, imponente, em posse de sua arma que, por tanto tempo, pensei ser inofensiva. Ele por inteiro parecia inofensivo com seu sorriso faceiro, com seus olhos brilhantes e sua expressão amigável. Uma fachada, uma máscara. Grudada em seus pés, sua sombra se estendia completamente deformada na silhueta de um monstro corpulento, distorcido, de pernas longas como as de um ser assustador popularmente conhecido como Slenderman no Mundo Mortal, com os braços musculosos como os de um touro e, na cabeça, apenas um chifre esquerdo torto e pontudo. Sua sombra segurava um tridente. Perguntei-me como nunca pensei em olhar para além de meus pés. Talvez, certamente, teria a percebido logo no início. Ele sorriu, revelando presas salientes de fera que rasgaram seus lábios, onde o sangue as banhou com um fino filete viscoso. Sua pele começou a descascar da mesma forma que as paredes estavam descascando. Era como se, de alguma forma, ele também fosse o Castelo.

A arma era sua bengala.

— Jungkook? — Perguntei em um fio de respiração.

Perdi as forças no momento seguinte, caindo de joelhos totalmente afetado.

Jungkook era o Maestro?

— Olá, Hades — disse ele, dando mais dois passos em minha direção.

Sua voz era forte e poderosa, ecoante, mesmo que estivéssemos em um espaço de pouca acústica e à metros de distância.

— Mas...

— Fico feliz em conhecê-lo mais uma vez — riu.

— Eu não entendo... — funguei, sentindo-me enjoado e apavorado ao mesmo tempo.

Jungkook sabia que eu era Hades o tempo todo!

— O que você não entende? — Franziu o cenho, batendo sua bengala à cada passo dado. — O fato de que eu sou o Maestro ou o fato de que eu o enganei durante todo esse tempo?

Por isso ele nunca demonstrou desconfiar de minha mudança repentina de comportamento...

— Porque você queria que eu não percebesse seu comportamento... — murmurei.

— O que disse? — Perguntou ele, risonho. — Você soa como um cachorrinho resmungão. Sempre soou, desde que pensou estar me controlando quando se autonomeou Horácio.

Desde aquele tempo!

Ele... ele sabia de tudo!

— Sente-se, amor — ordenou.

Uma cadeira foi arrastada pelo vento até mim e meu corpo foi praticamente arremessado sentado nela, de onde amarras surgiram para me prender no lugar. Tentei me livrar do aperto, mas espinhos surgiram das tranças das cordas e perfuraram meus pulsos violentamente, arrancando-me um grito desesperado de dor.

— Espero que você tenha se tornado um demônio paciente depois de todos esses séculos — comentou com um suspiro.

Ele arrastou uma mesa e outra cadeira para sentar-se de frente para mim, com nossos corpos separados pela pequena mesa de madeira. Atrás dele, silhuetas começaram a surgir como um exército em ascensão. Ruda, Rubel, Mino, Wonho, Jennie, Zen, Kai, Dong Han, Yoongi... Yoongi!

Mas Yoongi estava morto!

Todos estavam sorrindo sorrisos miseráveis, como se estivessem sendo forçados àquilo. Suas peles estavam derretendo assim com as paredes do salão, dando-os uma aparência ainda mais macabra além de seus sorrisos costurados.

— Porque a história que irei contá-lo é bastante longa — Jungkook murmurou.

Encarei seu rosto e me assustei quando um pedaço de sua pele caiu na tampa da mesa, revelando uma superfície extremamente branca semelhante à porcelana no lugar. A pele de um demônio albino, assim como havia pensado estar louco ao vê-lo daquela maneira na praia da caverna no Parque dos Horrores.

Outro Demônio Albino.

— E assim que você notar que meu poder principal é o de controlar realidades...

Ele estalou os dedos e, de repente, estávamos no velho salão principal de minha Igreja no Mundo Mortal, onde o calendário marcava o dia 30 de outubro de 2018 com uma gota de sangue. Ao olhar para trás, gritei ao ver Ruda transformando-se em minha mãe; Rubel, em meu pai; Mino, em Jin; Wonho, em Namjoon; Yoongi, em Martha – a garota que eu havia matado no confessionário da Igreja – e todos os outros em pessoas que eu havia conhecido no Mundo Mortal. Da penumbra, Hoseok e Taehyung surgiram após deixarem a forma de Felizinho e Estressadão, com sorrisos costurados e a pele derretendo. Com mais um estalo de seus dedos, retornamos ao Castelo e todos eles voltaram a ser demônios novamente.

Não podia ser...

Vai perceber que nunca deixou o Infernoconcluiu com um sorriso venenoso.

Ele estalou os dedos novamente e um pequeno tabuleiro surgiu no centro da mesa. Cada peça estava nomeada com o nome de um demônio importante, inclusive o meu, a peça do rei. Ela estava cercada pelo rei inimigo, branco, e por um cavalo.

— E então, Hades... — murmurou ele, tilintando a ponta das garras na superfície do tabuleiro. — Sabe jogar xadrez?


Notas Finais


Então, deixa eu explicar o porquê de eu ter separado o capítulo 15 em 3 partes: juntando todas as partes, temos um total de 40 páginas A4 e cerca de quase 40 mil palavras. Ou seja, o capítulo é ENOOOORME! Tive que separá-lo pq sei o quão cansativo um capítulo grande pode se tornar, mesmo para aqueles que adoram desta maneira. Tudo bem?

O próximo, e último, capítulo sairá dia 31 de outubro, pois é o dia que marca o aniversário de 1 ano de NMDD! Ele vai ser grande também, mas não tanto quanto o 15, certo? Espero vocês dia 31, viu?

Beijos, meus diabinhos!

E AGORA QUE VOCÊS SABEM QUEM É O MAESTRO? O QUE TÊM A DIZER?


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...