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História Necroamante - Capítulo 3


Escrita por: e Exo-Lina42


Notas do Autor


Voltamos talvez com um dia ou dois de atraso... Enfim, deixando isso de lado, nós desejamos a vocês uma boa leitura.
Mas cuidado! Acho que vi uma sombra embaixo da sua cama...

Capítulo 3 - Necrógeno


O vento jogou meu cabelo para trás com suavidade e leveza, quase como se estivesse sendo levado pela água. O ar aqui é mais leve, sem a poluição do centro urbano, o que me fez ter gosto em respirar fundo várias vezes.

Se eu pudesse definir essa região em uma palavra, esta seria ‘tranquilidade’. Acho que agora entendo o motivo pelo qual o Sasuke resolveu morar tão afastado, aqui é agradável. Sem buzinas, sem gritos, sem loucuras e nem pessoas apressadas quase te levando junto com elas. Talvez ele precise ficar longe das pessoas para se acostumar que elas morrem, talvez ele precise fugir do próprio trabalho, ou talvez minha imaginação voe demais e não seja nada disso.

Nesse instante eu me encontro em frente ao portão da casa dele, sem a coragem de tocar a campainha. Ainda sinto arrepios que eu sei que não são provocados pelo frio.

Sabe, aquela melodia linda ficou em minha cabeça ao ponto de eu sonhar com ela. É agradável, doce... E até me mantém inquieta em algum momento, mas não deixa de me encantar. É curioso que eu só consigo ouvi-la claramente quando estou aqui.

Eu sei que tem alguém cantando.

Enquanto eu estava perdida em meus pensamentos, a cantoria começou baixinha como se estivesse apenas me esperando chegar. Meu ouvido direito parecia escutar com mais clareza, então me virei subitamente, na esperança de encontrar alguém.

Mas o som parou e deixou apenas um eco longe rondando minha cabeça.

Franzi as sobrancelhas, confusa. Era quase como se a voz estivesse brincando comigo. Um frio correu de um ombro ao outro, arrepiando minha nuca, o que fez com que eu me retorcesse incomodada com essa sensação. A voz, no entanto, retornou pelo lado esquerdo dessa vez.

Fechei os olhos apenas para sentir as emoções que a melodia me passava. Eu sabia que, se eu me virasse, sumiria de novo. Passei alguns segundos assim, em paz, apreciando o canto. E estava tudo bem, até que uma pressão pareceu ter subido no meu pescoço e se instaurado no meu ouvido.

Todo o lado esquerdo do meu corpo começou a formigar, e senti a minha orelha gélida me deixar desconfortável. E então, tirando a atenção dessa sensação estranha, percebi que a melodia ficava mais audível, mais próxima... Próxima quase como se fosse um sussurro bem perto de mim, e a voz já não estava mais melódica. Se transformou em um abafado trêmulo... Assustador.

Meu coração parou de bater no mesmo instante em que senti o fôlego batendo contra minha pele. Alguém está aqui, bem na minha esquerda, e eu consigo sentir a presença quase encostada em mim.

Senti meu rosto empalidecer junto com o medo de abrir os olhos. Porém, era certo que eu não poderia continuar naquela situação, então permiti que as pálpebras tremelicosas se abrissem devagar à medida que o sussurro deu espaço para uma respiração ofegante.

Nada...

Mesmo olhando para a frente não avistei nada pela visão periférica.

Já mais tranquila, soltei todo o ar preso em meus pulmões e virei a cabeça para os lados, apenas para confirmar minha solitude. O coração começou a bater desenfreado, e até soltei uma risada de escárnio, zombando da minha própria paranoia.

— Sakura? – A voz me chamou atenção, e foi aí que vi Sasuke desaparecendo da janela para ir até porta. Aparecendo em sua varanda, ele caminhou até a fachada para abrir o portão para mim. – O que faz aí parada? Por que não tocou a campainha?

— Eu cheguei agora mesmo. – Dei de ombros. Ah, ele não precisa saber do meu pequeno surto sem fundamento.

— Entre – Liberou a passagem e eu agradeci com uma curta reverência, entrando em seguida.

Nós fomos andando até o interior da casa e, assim que entrei na sala de estar, pude notar que a boneca de porcelana não estava mais ali.

— Era um presente. – Ele disse simplesmente, entendendo o meu olhar duvidoso na direção da janela. – Vamos? – Chamou, indo pelo caminho de seu laboratório.

Sem perder mais tempo, fui atrás, dessa vez dando uma olhadela pela decoração da casa. Muitas cores quentes e pouca iluminação... A sensação é de estar avançando por uma gruta. Não vou negar que tem seu aconchego, mas acho brega. Lugares claros são mais reconfortantes.

Bom, mas a casa não é minha, então...

Eu tirei minha camisa assim que entrei no laboratório e foi aí que me toquei que havia esquecido de colocar sutiã. Faz um tempo que estou evitando usar essa peça por conta da dor causada pela infecção.

— Você continua fazendo o tratamento? – Ele perguntou após colocar as luvas.

— Sim. – Respondi simples, me sentando em uma cadeira.

Sasuke se aproximou e se agachou ao meu lado, dedilhando o final da mancha até o meio dela, onde apertou de leve. Grunhi, fechando um dos olhos em uma careta por causa da dor que pareceu se alastrar por todo o meu corpo após esse toque mais forte.

— Ainda dói muito. – O meu resmungo não pareceu ter chamado a atenção dele, que logo apertou mais uma vez. Minha reação não foi diferente da anterior. – O que está fazendo?! – Exclamei irritada.

O Uchiha levantou apenas uma sobrancelha, parecendo mais sério do que antes, e isso começou a me assustar.

— Sasuke... – Chamei em um tom mais baixo. – Por que está com essa cara? Não está me tranquilizando.

— Que curioso... – Murmurou, levando os dedos para uma parte saudável do meu corpo e deu uma apertada ali.

— O que é curioso? Para de suspense, Sasuke!

— A parte doente da sua carne está endurecida. – Explicou, ficando de pé e fazendo um gesto para que eu também me levantasse. – Quase como se o seu peito estivesse em rigor mortis.

Franzi a testa, mantendo uma expressão assustada. Eu não sabia o que exatamente era isso, mas não parecia muito bom.

— E-e o que isso significa? – Gaguejei.

Ele mordeu o lábio inferior e desviou o olhar como se não soubesse como falar isso para mim, então deu a volta no meu corpo e colocou os meus cabelos sobre o meu ombro. Senti suas mãos apertando pontos das minhas costas, mas não senti dor alguma.

— Eu não sei como te explicar isso de um jeito leve.

— Que droga, só fala de uma vez! – Bati um pé no chão, contrariada, e ouvi um suspiro sair da boca do Uchiha.

— É a rigidez cadavérica, Sakura. Ácido láctico é liberado, causando o endurecimento nos músculos do cadáver.

‘’Cadáver’’?!

Me desesperei.

— Como assim ‘cadáver’, Sasuke?! – Me virei subitamente, tentando ignorar a dor ocasionada pela torção que o movimento brusco causou na parte infeccionada. – Eu estou bem viva, como isso é possível?!

— Eu não sei. – Suspirou outra vez, agora tirando as luvas das mãos e a descartando. – Como pode apenas uma parte do seu corpo estar em rigor mortis? – Fez uma pergunta retórica, me estendendo a minha camisa para que eu voltasse a vestir, o que fiz com um tanto de dificuldade. - A boa notícia é que a infecção está controlada, ela não se espalhou para mais nenhuma parte do corpo. – Falou, mas eu não consegui me tranquilizar. Na verdade, eu nem consegui prestar atenção no que Sasuke falava, e acho que ele percebeu. - Você está pálida, Sakura. Quer alguma coisa? – Perguntou compadecido.

Eu nada respondi e nem fiz além de ficar olhando para um ponto fixo. Depois de alguns segundos, ele saiu dizendo que ia preparar um chá para mim.

Eu lá consigo pensar em chá?! Eu estou morrendo! O meu peito já está podre! E não há nada que eu possa fazer.

Meu nariz começou a arder, e precisei morder o lábio para que as lágrimas não transbordassem de meus olhos.

O que está acontecendo comigo?

Desabei na cadeira, passando a mão pelo rosto em desolação. A pergunta ‘o que eu faço agora?’ não parava de me assombrar e, quando eu estava quase chorando, meu corpo deu um espasmo após eu me assustar com algo se chocando contra o vidro da porta de correr que levava ao quintal. Levantei a cabeça e enxuguei com os dedos a borda dos olhos que estavam úmidas, tentando entender o que tinha acontecido. Logo o barulho retornou, só que dessa vez eu vi quando uma pedrinha foi arremessada no vidro.

Crispei o nariz e fiquei de pé, me aproximando devagar da porta para ver quem estava ali atirando pedrinhas. Olhei de um lado, olhei do outro, mas não havia ninguém, então dei as costas para voltar à cadeira.

E foi quando escutei outra pedra sendo atirada e me irritei. Já sem paciência, fui para o lado de fora e fiquei um bom minuto parada no centro do deck, esperando alguém aparecer.

— Quem está aí? – Perguntei, indo em direção aos dois degraus mais à frente e descendo até pisar na grama do quintal. Girei ao redor do meu próprio corpo enquanto avançava pelo lugar que parecia realmente vazio. – Tem alguém aq- - Tive que me interromper quando meu quadril se chocou em alguma coisa.

Olhando alarmada por sobre o ombro, percebi que eu tinha esbarrado no poço.

Esse poço... Ele tinha chamado minha atenção da última vez.

Ficando de frente para ele, segurei a borda com as mãos.

— Parece ser bem antigo. – Falei comigo mesma, deslizando os dedos sobre as pedras que o constituíam, onde algumas bem pequenas se soltaram facilmente, comprovando minha teoria. Respirei fundo e dei duas batidinhas, me preparando para dar as costas e entrar novamente na casa.

E foi quando eu ouvi.

A melodia que parecia um eco vindo do interior do poço. Um arrepio correu pela minha espinha e fiquei estática por dois segundos, logo voltando a segurar a borda de pedras.

Engoli em seco, me inclinando para mais perto da abertura.

— Olá? – Minha voz ecoou, fazendo a cantoria acabar. Nessa hora eu já suava frio e faltava pouco para o coração saltar para fora da boca. -  Tem alguém aí dentro?! – Perguntei um pouco mais alto, me inclinando mais. Meus olhos se estreitaram quando vislumbrei uma forma subindo do fundo da água até o começo. Quando emergiu, vi que era a boneca de porcelana.

Uhn? O que ela fazia embaixo d’água? Sasuke não tinha presenteado alguém com essa boneca?

Entortei a boca, me xingando mentalmente por ser tão impressionada. Me sentia tão constrangida comigo mesma que permiti que um riso abafado me saísse pelo nariz.

Quem é que poderia estar dentro de um poço, Sakura? Uma sereia? Eu certamente entendi errado a fala dele.

De repente, um barulho de pingo. Voltei a ficar ereta e levantei a cabeça para o céu, verificando se não haviam nuvens de chuva se formando. Ouvi mais pingos, mesmo que o tempo estivesse tão limpo quanto mais cedo. Dando de ombros e ignorando isso, porque certamente minha mente me pregava peças hoje, girei nos calcanhares para retornar ao interior da casa.

No mesmo momento que me virei, dei um pulo de susto e recuei um passo como reflexo, me desequilibrando e quase caindo dentro do poço se eu não tivesse me segurado a tempo na borda quando esbarrei nele mais uma vez. Havia uma mulher parada atrás de mim e não consegui ter qualquer outra reação que não fosse mirar meu olhar espantado nela.

Olhos claros, cabelos negros compridos, corpo magro, roupas velhas. Ela estava encharcada da cabeça aos pés e a água pingava no chão. Mesmo parecendo bonita, a situação em que se encontrava e aquele olhar fixo na minha direção lhe davam um ar assustador.

Depois de respirar fundo, consegui ajeitar a postura e tentei encará-la, mas eu sempre desviava os olhos desses que pareciam ler a minha alma.

— O que aconteceu com você? – Questionei com a voz sutil, disposta a ajudar caso ela precisasse.

Sem resposta.

Ela parecia ter a minha idade, mas não ficaria surpresa se fosse mais nova. Com os ombros caídos e os braços largados ao lado de seu corpo, ela deu a volta em mim com movimentos vazios, ainda me encarando e, quando fui me virar para ver aonde ela estava indo, simplesmente não estava mais lá.

O meu coração acelerado me avisava a todo momento para eu sair logo dali, então segui esse conselho dessa vez e voltei apressada para o interior da casa. Sasuke voltou ao laboratório no mesmo minuto que fechei a porta que dava ao quintal e então me lançou um olhar curioso.

- Estava lá fora? – Perguntou, se aproximando de mim e repousando uma bandeja sobre a sua mesa.

— Uhum – Respondi aérea, dando uma olhada através do vidro. Será se eu devo falar pra ele que uma mulher suspeita estava vagando por aqui?

— Eu trouxe chá e um sanduíche para você. – Apontou para o que tinha trazido.

Claro que você deve falar, Sakura!!

— Sasuke. – Comecei assustada, fazendo ele prestar bem atenção em mim.

— Você está tremendo? – Ele se aproximou, preocupado, e botou uma mão sobre o meu ombro como se fosse um consolo.

— Eu vi uma mulher lá fora, Sasuke. – Minha voz era trêmula e eu sei que ele reparou.

Sasuke deu um passo para trás assim que me escutou. Seus olhos se desviaram sem jeito e suas maçãs do rosto enrubesceram.

— Uma mulher? – Pigarreou. – Deve ser a vizinha de trás, às vezes ela vem aqui pegar água no poço.

E ela pega água no poço se jogando nele? Porque ela estava ensopada, quis retrucar, mas preferi deixar quieto. Se ele sabe quem ela é e o que veio fazer aqui, não preciso me meter nesse assunto.

— Eu também me assustei a primeira vez que a encontrei — ele disse sorrindo — Mas ela é muito simpática.

— Não que seja da minha conta, mas ela simplesmente entra no seu terreno? Não tem medo?

— Está tudo bem — desconversou, me entregando um sanduíche — Espero que goste de atum.

Não é o meu peixe favorito, mas eu gosto. Só que essa mulher me deixou com "uma pulga atrás da orelha", como diz o ditado brasileiro. Infelizmente, isso também me deixou desconfiada do Sasuke. Há uma mulher estranha no terreno dele e ele nem se importa. Bom, ela não parecia machucada, mas isso ainda não deixa de ser suspeito.

A boneca de porcelana… Será se foi para essa mulher? Se foi um presente, então posso assumir que eles são próximos, certo? Mas por que estava no poço?

Perdida nos meus pensamentos, acabei me engasgando com o sanduíche. Mas somente na terceira tosse eu me toquei de algo, meu peito não está doendo. Ainda engasgada, coloquei o lanche no prato e agarrei a gola de minha camisa a puxando para baixo.

Minha mente simplesmente ficou em branco, não consigo pensar em absolutamente nada. Tudo o que eu consegui fazer em meio àquela tosse, era mostrar o que eu estava vendo para o Sasuke e ele ficou tão impressionado quanto eu.

Meu peito estava limpo.


Notas Finais


Bons sonhos~


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