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História Nem Todo o Ouro do Mundo - Capítulo 1


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Notas do Autor


LEIAM AQUI ANTES:

1) História completa em 3 capítulos. Vou postar um por dia =)
2) Contem uma CENA DE AFOGAMENTO que pode ser um tanto agoniante. Saiba que fica tudo bem no final.
3) "Monstrerfuck" é quando temos cena de sexo com personagem não humano, ou seja, o corpo dele e suas partes não são humanas.
4) Esse foi um pedido da @winterboobear que eu me empolguei demais e cá estamos. Obrigada xuxu pelo apoio sempre!
5) CAPA LINDA feita pela Isa Weber, link dela no final pra vc encomendar sua capa ;)

Capítulo 1 - "Alienígenas do Passado"


Fanfic / Fanfiction Nem Todo o Ouro do Mundo - Capítulo 1 - "Alienígenas do Passado"

Oikawa tinha se preparado para aquela expedição a vida toda, e ele sabia que não seria fácil. Todos duvidaram dele, disseram que era louco, que estava caçando uma lenda. Mas sua intuição dizia que ele conseguiria. Com ele seria diferente. 

    Sem medir os riscos, ele se lançou em uma jornada em alto mar. Seu barco não era grande, mas tinha o suficiente para abastecê-lo durante vários dias. O mapa, que ele conseguiu resgatar depois dos esforços e estudos de quase uma vida, apontava que a ilha misteriosa não deveria estar longe agora. 

    Passou um cerco de recifes para finalmente avistar a praia da ilha tropical que ele tinha certeza ser a certa. Ela não constava nos mapas modernos, só poderia ser ela. Podia avistar que depois da faixa de areia, a mata fechada se estendia sem fim aparente.

    Lançou âncora, pegou a mochila preparada (por sorte bem preparada) para explorar o terreno com segurança e desceu do barco com a água ainda passando da cintura e caminhou pelas ondas calmas até a praia. Cansado, molhado e cheio de areia, se permitiu descansar enquanto pensava sobre sua situação. 

Tinha uns dois litros de água em cantis, mas precisaria economizar se não encontrasse nenhuma fonte de água. Comida não seria problema, tinha barras de cereais e conhecimento suficiente para saber o que comer e não comer numa ilha selvagem. 

Facas, fósforos, lanterna, cordas, equipamentos de escalada, rádio, rifle, munição, um sinalizador e, é claro, protetor solar e repelente. Check, check, check! Tinha tudo que precisava para sobreviver e sair daquela ilha um bilhão de vezes mais rico do que tinha chegado. Pouparia as baterias para quando fosse chamar o resgate e tudo daria certo. 

Só precisava agora seguir um mapa desenhado em 1429, encontrar a caverna certa, abrir uma porta supostamente mágica e derrotar um suposto dragão protetor do tesouro. 

Para a porta tida como mágica, ele tinha certeza que seria apenas um mecanismo rudimentar. Junto do mapa antiquíssimo, ele tinha localizado uma espécie de colar que parecia ser uma chave. De mágico não teria nada, com certeza.

Quanto ao dragão... bom, dragões nem existem. Certamente era apenas uma parte da lenda para desencorajar ladrões e caçadores de tesouros. E ainda assim, Oikawa era um excelente atirador, resolveria qualquer ameaça animal com uma bala bem colocada. 

Determinado, colocou a mochila nas costas e partiu floresta a dentro. 

Literalmente a dentro.

O mato era tão fechado que ele precisava abrir caminho entre o emaranhado de folhas e galhos. Era muito mais cansativo e lento do que ele tinha previsto. Segundo seu mapa, deveria cruzar com um riacho em pouco tempo, mas tudo que viu foi pequenas valas de lama. 500 anos depois talvez a geografia do local não fosse mais a mesma.

Não se deu por vencido, optando por tentar descansar ao anoitecer. Subiu numa árvore para ficar longe de potenciais predadores e tentou cochilar como pode. A escuridão da noite na floresta era intensa e o cantar dos animais era quase ensurdecedor mesmo que no aparente silêncio.

Ao nascer do sol, se sentia quase mais cansado do que quando dormiu. Retomou a caminhada complicada pelo meio da floresta até finalmente encontrar o verdadeiro riacho que constava no mapa. Aliviado por ao menos ter uma esperança de que estava no caminho certo, se lavou um pouco, bebeu água e encheu os cantis para continuar a jornada. Uma florestinha tropical não o impediria de chegar ao seu tesouro!

Mais algumas horas de caminhada difícil, com os braços e pernas arranhados pela densa vegetação, as mãos cansadas de tanto cortar e abrir passagem, Oikawa repetia um mantra de que tudo aquilo valeria a pena, pelo tesouro, pelo ouro. 

Se fosse tão grande como a lenda contava, teria suficiente para dividir com toda a equipe de pesquisa, compraria uma casa linda para sua irmã e sobrinho, além de poder financiar suas próximas viagens e descobertas e ainda deixar um fundo para exploradores das próximas gerações. 

Focado naquele pensamento, ele avançou e avançou até que no início da tarde, chegou em frente à caverna. Era exatamente como descrita na lenda! Uma grande abertura no chão como uma boca que se abria para as profundezas da terra. As pedras formavam quase que uma escadaria íngreme e perigosa. 

Descer simplesmente na escuridão, mesmo que usasse a lanterna, seria perigoso demais. Optou por prender a corda no tronco de uma árvore robusta e amarrar no seu cinto de escalada. Desceu com cuidado usando a lanterna presa no capacete. 

Quando chegou no que parecia ser o chão da caverna, pegou na mochila sua lanterna de mão, bem mais potente que a pequena do capacete. Pode ver que à frente dele havia mais um curto caminho rodeado de pedras e estalagmites, além de um cheiro muito forte de fezes de morcego. Passou por essa parte cuidando para não encostar nas paredes, pois era nas reentrâncias das pedras que aranhas e escorpiões poderiam se esconder. 

A tal porta mágica só poderia estar ali! Estava tão perto! 

Seu coração quase explodiu quando sua lanterna refletiu em alguma coisa, mas era apenas um sumidouro largo, cheio de água até a borda. Deu a volta com cuidado, prevenindo que as margens desmoronassem para dentro do buraco. 

Usou a lanterna para examinar as paredes em volta e não encontrou nada que parecesse uma passagem. Buscou qualquer corrente de ar, mas nada também. Olhou para o teto, mas ele nem era tão alto, e com a luz da lanterna podia ver facilmente que não havia nada. 

Era o fim da sua jornada? Teria sido tudo em vão? Será que a caverna tinha desmoronado e ele precisaria vir com uma retroescavadeira? Sairia mesmo de mãos vazias? 

Não. 

Ele tinha que estar perdendo alguma coisa! 

Tomando cuidado com o sumidouro, decidiu voltar e refazer os próprios passos. Olhou o mapa de novo buscando por alguma pista perdida, mas não achou nada. Olhou com atenção a parede que tinha descido, qualquer brecha que pudesse encaixar seu colar que funcionaria como chave. Nada.

Olhou para a profusão de estalagmites e tentou imaginar o desenho da caverna 500 anos antes. Considerando que elas cresciam no máximo 25mm a cada cem anos devido a sedimentação dos resíduos cálcicos presentes na água, cada estalagmite teria aproximadamente 1cm a menos do que tinha hoje. 

    Apenas 1cm a menos que hoje. 

Quem ele estava enganando? Aquele crescimento de 1 cm não fazia absolutamente nenhuma diferença. Ele devia estar perdendo algo muito óbvio! Caminhou novamente pelo espaço em volta do sumidouro tentando ver alguma coisa nova, mas nada lhe ocorria. 

    Derrotado, ele se sentou numa parte levemente mais reta do chão e largou a lanterna. O objeto rapidamente começou a rolar pelo chão irregular e por pouco não caiu no sumidouro. 

    O sumidouro!! Era óbvio! Como ele não tinha pensado nisso antes? 

    Empolgado com a possibilidade, largou a mochila no chão, tirou as botas e roupas, ficando apenas com as calças e o cinto de escalada, mas manteve o colar com a chave segura no seu pescoço. Ainda tinha vários metros de corda restando e esperava que fosse o suficiente. 

    E era esse o plano. Entraria naquela porção de água aparentemente sem fim e acharia a porta nem que tivesse que mergulhar trezentas vezes. Sentou na beirada do buraco e colocou os pés para dentro da água gélida, receoso. 

    Quando nenhuma piranha assassina comeu seus pés, ele respirou fundo, fez uma prece para os alienígenas do passado, segurou firme a lanterna e entrou.

    A escuridão era absoluta, não permitindo que Oikawa visse absolutamente nada que não fosse o foco de sua lanterna. Por sorte, o espaço não era amplo e ele tinha apenas um caminho a seguir. 

    O túnel descia um pouco para em seguida dobrar e ir ao longe. Não havia animais nem plantas, apenas água turva e salina. Ele tinha a habilidade de segurar a respiração por um tempo até razoável e para voltar poderia puxar pela corda, daria tudo certo. 

    Foi nadando como conseguia por entre as pedras irregulares, até que chegou num espaço um pouco mais largo. Seu corpo acabou subindo e por sorte descobriu um bolsão de ar de não mais que alguns centímetros. Com apenas o rosto para fora, respirou fundo duas vezes antes de mergulhar novamente. 

    Quando desceu um pouco, sentiu a cintura ser puxada pela corda, e seus movimentos restringidos. Forçou um pouco caso ela tivesse se prendido em alguma pedra, mas ela não cedeu. 

Se deixou boiar, voltando para o pequeno bolsão de ar e concluiu que realmente, a corda tinha terminado. Respirou fundo tentando manter a calma. Precisava tomar uma decisão. 

Click. 

Num movimento rápido desengatou a corda do cinto e mergulhou de novo.

    Desceu cerca de uns cinco metros para ver o  fundo e, apontando a lanterna percebeu que o chão, diferente das paredes e do resto do túnel, não parecia natural. Parecia que as pedras tinham sido aplainadas ou até mesmo entalhadas. Com certeza era obra humana, e não da natureza. Só podia ser ali a porta que buscava.

 Nadar para baixo não era a coisa mais simples do mundo. Cada vez ele sentia que tinha que fazer mais força para não boiar de volta, sempre batendo os pés. 

Quando finalmente chegou tão próximo do chão que poderia tocá-lo, já não restava muito mais fôlego. De perto e tocando, podia ver que tinha razão, o chão ali não era natural. Haviam entalhes das mesmas runas que ele tinha passado tanto tempo desvendando no antigo mapa.

Precisava saber o que estava escrito ali, precisava saber como abrir aquela porta, senão tudo seria em vão. E precisava rápido pois seu fôlego estava terminando. 

    Tentava identificar as runas pela textura, apontar com a lanterna e pensar no tempo que levaria até a superfície para respirar, tudo ao mesmo tempo. Seu coração começou a bater mais rápido, precisou bater mais as pernas para não boiar e o ar começou a faltar. 

    Identificou a primeira runa que significava ouro, riqueza.

Não precisava voltar todo o caminho, bastava subir até o bolsão de ar acima dele. Ia dar tempo. 

A segunda runa era mais difícil, mas Oikawa tinha certeza que significava monstro, besta, dragão.

Não ia dar tempo. Seu ar ia faltar. Precisava conseguir ler.

A próxima runa era… porta, entrada!  

Em pânico pegou a chave em seu pescoço e tentou desesperadamente enfiá-la em qualquer uma das reentrâncias. Tinha que funcionar, tinha que funcionar, precisava funcionar. Não tinha ar, ar!!

Sua mão acabou perdendo a pegada na lanterna que imediatamente começou a boiar para longe dele. Ele tentou pegá-la de volta, mas não alcançou, e agora sem a luz jamais conseguiria identificar as runas, muito menos colocar a chave no buraco.

Engasgou uma vez e sentiu a chave escapando de seus dedos, mas conseguiu segurá-la de novo e empurrar cegamente contra o piso irregular. 

Oikawa não tinha mais ar, não tinha mais luz, mas algo extremamente mágico aconteceu.

    Mesmo embaixo d'água, sentiu tudo estremecer como um grande terremoto. Pedras começaram a cair do teto e das paredes por sorte não o acertando. Com as últimas forças que tinha, tentou se empurrar para cima. 

De repente toda a água começou a puxá-lo na direção contrária, como se tivessem tirado a tampa de um ralo. Girando e completamente desorientado, Oikawa tentou nadar desesperadamente. 

Mas começou a engasgar.

E não tinha ar.

Não tinha luz. 

Até que não tinha mais consciência.

 

__________


 

Oikawa não sentia nada nem via nada. Era como se estivesse dormindo, mas consciente do próprio estado. Aos poucos tomou consciência do próprio corpo, de seu estômago, de seus pulmões, e de uma dor que começou a subir até sua garganta de maneira violenta.

Acordou tossindo e cuspindo água pela boca e nariz, puxando o ar desesperadamente entre cada tossida. Levou alguns instantes para se orientar e conseguir respirar mais normalmente e abrir os olhos. 

Quando abriu, viu um par de olhos verdes muito escuros o observando de perto. Se assustou e tentou se afastar para longe, apenas para então perceber que não estava no chão e sim no colo desse sujeito. 

- Shhhhhhhh, não se mexa. Eu estou cuidando de você. - o estranho disse. 

- O que aconteceu, quem é você?

Oikawa precisava se reorientar. Sem tentar se afastar, ele percebeu duas coisas importantes. A primeira era que sua perna doía bastante na região do joelho, viu que estava machucado mas não parecia quebrado, só que provavelmente ia ficar bem inchado. 

A outra coisa que percebeu era que o sujeito que o segurava era impossivelmente grande. Ele estava deitado no colo do outro, seu tronco sendo sustentado por um braço forte e sua cabeça recostada no peito musculoso. 

- Meu nome é Iwaizumi Hajime, Primeiro Dragão das Pedras. Primeiro e único depois de todo esse tempo, eu imagino. - o estranho disso ficando de pé e carregando Oikawa como uma noiva. - Você não deve andar com a perna assim, eu vou colocar você num lugar melhor. 

Oikawa não soube exatamente o que fazer com aquelas informações. Piscou os olhos algumas vezes enquanto olhava com mais atenção. Iwaizumi tinha a pele morena, até um pouco esverdeada. Seu cabelo era preto e arrepiado para cima. 

Ele tinha feições másculas e acentuadas e seria extremamente atraente se algumas peculiaridades não fossem consideradas: do meio de seus cabelos pretos, um par de chifres pontudos se erguia acima da altura dos cabelos. Pelas laterais do pescoço até os ombros, a pele era coberta por escamas verdes bem escuras, que iam diminuindo de tamanho até sumirem por completo se misturando com a pele humana antes do início dos bíceps fortes. 

Oikawa não conseguiu reagir nem falar nada e em seguida se viu ser colocado sobre uma superfície bastante confortável. Eram incontáveis tecidos macios que ele percebeu serem da mais pura seda. Alguns tinham bordados complexos em fios dourados tão lindos que mereciam estar expostos em algum museu como tesouros.

O tesouro! Tudo começava a fazer sentido. 

Iwaizumi se afastou um pouco e Oikawa pôde ter uma visão mais ampla dele e de onde estava. O homem (ou dragão?) devia ter mais de dois metros de altura, um corpo forte e musculoso, braços e pernas grossas, e, além dos chifres, tinha um par de asas muito grandes e um longo rabo. Suas mãos e pés eram cobertos por escamas, bem como suas partes íntimas. 

Não que Oikawa estivesse interessado nas partes íntimas dele, claro que não. O ponto era que ele não vestia roupa alguma. 

Em volta deles, a caverna estava sendo iluminada por uma única abertura no teto, por onde o sol entrava. Parecia que uma grande quantidade de pedras tinha desabado e tudo estava meio molhado, como se uma grande quantidade de água tivesse escorrido. Mas nada disso era tão surpreendente quanto a quantidade de ouro e tesouros espalhados pelo espaço todo. 

Certamente alguém (Iwaizumi?) tinha organizado aquela quantidade de coisas para que ficassem acumuladas próximas às paredes, e as demais em montes ao longo do espaço de maneira que se pudesse caminhar em volta, senão tudo seria uma grande piscina do Tio Patinhas. 

- Tem alguém com você? Alguém que possa ajudar com seu ferimento? - Iwaizumi perguntou chamando a atenção dele de volta.

- Não, eu vim sozinho. - Oikawa disse prontamente. - Mas na minha mochila tem um kit de primeiros socorros. 

Iwaizumi ficou olhando como se tentasse entender. 

- Eu deixei na entrada da caverna, antes do túnel. 

- Hmmm. Eu vou buscar. Não se mova. 

Oikawa observou aquele ser estranho se afastar na direção do buraco no teto. Chegando mais perto ele abriu as asas e voou para cima como se fosse a coisa mais simples do mundo. 

Ele estava louco, não estava? Tinha batido a cabeça e estava alucinando. Ou talvez estivesse sonhando. Ou talvez tivesse morrido e agora estava no seu paraíso particular com um homem gostoso pra caralho e todo o ouro do mundo. Deus era generoso!  

Continuou tocando na seda extremamente delicada embaixo dele e olhando em volta, desacreditado que aquilo tudo fosse real. Eram barras de ouro, moedas, jóias, cálices, estátuas dos mais variados tamanhos, todos reluzindo dourados e ou brilhantes. 

Não era uma lenda, era verdade, e Oikawa tinha conseguido provar. A porta tinha se aberto de alguma maneira que apenas a magia explicaria, e até mesmo a parte do dragão era verdade. 

Será que era tudo real mesmo ou ele tinha alucinado completamente? 

Como num deboche da vida, o dragão escolheu aquele exato instante para voltar pelo mesmo lugar que tinha saído, pousando graciosamente. Em uma de suas grandes mãos ele trazia a mochila de Oikawa e no outro braço uma boa quantidade de lenha.     

Ele se aproximou deixando a lenha no chão e alcançou para ele a mochila com cuidado, como se tivesse receio de quebrar alguma coisa. 

- Era isso que você precisava? 

- Sim! Muito obrigado. 

Enquanto Oikawa pegava a mochila e a abria, Iwaizumi se sentou na frente dele de pernas cruzadas. Ele dobrou suas asas, apoiou as mãos grandes nos joelhos e ficou olhando com curiosidade. Seu rabo balançava de um lado para o outro quase como uma denúncia da sua impaciência. 

Tooru reparou que mesmo sentado ele ainda era grande, provavelmente se ficassem de pé lado a lado sua cabeça alcançaria no máximo a altura de seus ombros.

Afastando aquele pensamento, Oikawa focou nas suas prioridades. A primeira coisa que fez foi beber água na esperança de, quem sabe, acordar daquele sonho maluco. Mas não aconteceu. Depois encontrou o kit de primeiros socorros e percebeu que não tinha exatamente algo que o ajudasse. Usou uma gaze com antisséptico para limpar um corte no joelho, mas para a torção que era seu principal problema não teria o que fazer.

- Antes de eu conseguir te alcançar, uma pedra caiu na sua perna. - Iwaizumi explicou. - Não parece quebrado. 

- Não… eu ainda consigo mexer, mas dói. - Oikawa respondeu. - Obrigado por me salvar. 

- Não me agradeça. 

Oikawa olhou para ele um tanto confuso. 

- Você é realmente um dragão? Eu não estou alucinando? 

Iwaizumi riu um pouco e Oikawa pôde ver que os caninos dele eram bem pontiagudos.

- Eu pareço humano pra você?

Definitivamente não. Humano nenhum tinha um corpo tão escultural com garras, rabo, asas e chifres, e ainda assim mantinha uma aura que transmitia nada mais que conforto e segurança. Apesar do susto inicial, Oikawa não tinha medo dele. 

Diante da falta de resposta de Oikawa, Iwaizumi voltou a falar.

- Você quase morreu afogado, precisa descansar. Eu posso perceber que sua temperatura está caindo agora que está mais calmo. Vou fazer uma fogueira.

Tooru nem tinha percebido, mas sim, só vestia as calças pois tinha tirado o resto para descer pelo sumidouro. E agora que estava se acalmando estava ficando com frio no ambiente fresco e úmido da caverna. 

Iwaizumi organizou a lenha numa pequena pirâmide e antes que Oikawa conseguisse dizer que tinha fósforos na mochila, o dragão soprou fogo e em poucos instantes a fogueira estava acesa.

- Me diga se tiver mais alguma coisa que eu possa fazer por você. 

Tooru agradeceu e observou o ser estranho se sentar de volta e ficar observando ele. Tudo indicava que aquela realidade não ia se desfazer tão cedo, então era bom ele começar a aceitar a companhia levemente exagerada do dragão humanóide.

Precisava pensar. 

Assumindo que a história da lenda era verdade, aquele ser estava ali para proteger o tesouro. Poderia estar sendo amigável agora, mas o que faria se Tooru dissesse que queria levar todo aquele ouro embora? 

Ele era obviamente forte, tinha garras que certamente eram bem perigosas, além, é claro, de cuspir fogo. Mas Tooru tinha um rifle e, supostamente, a inteligência humana superior (humanos são tão arrogantes, ele esperava não estar subestimando o ser místico). Precisaria de tempo para pensar em um bom plano. 

- Você está com fome? Eu tenho algumas coisas aqui. - Oikawa disse alcançando as barras de cereal e entregando uma para ele. 

Iwaizumi olhou para o pacote um tanto suspeito, mas estendeu a mão para pegá-la. Oikawa não deixou de perceber como as mãos dele eram enormes comparadas com as suas, e como a barra de cereal parecia diminuta. 

O dragão pegou o pacote e levou até o nariz cheirando e fez uma careta.

- É isso que você come? - ele perguntou duvidoso.

- Você precisa abrir primeiro, assim. 

Tooru abriu o pacote e deu uma mordida na barra. Não era uma iguaria deliciosa, mas era o tipo de coisa que salvaria sua vida em emergências. 

Iwaizumi tentou abrir o pacote da mesma maneira que ele, mas suas grandes garras impediam que ele juntasse as pontas dos dedos na embalagem. Um tanto frustrado ele simplesmente mordeu a embalagem e arrancou um pedaço do plástico fora. E assim como Tooru tinha feito, ele mordeu um pedaço da barra.

Tooru observou ele mastigar desconfortavelmente até finalmente engolir fazendo uma careta. 

- Isso tem gosto de terra. - ele falou mas comeu o resto numa bocada mesmo assim. - Você não come carne? Eu posso pegar algum pássaro, macaco, ou até peixes. 

- Eu como carne sim. Mas essas barrinhas são mais fáceis de carregar e não estragam fácil. 

Iwaizumi ponderou as vantagens por alguns instantes mas não pareceu convencido. Apesar dele olhar para o lado e ter a expressão fechada, até mesmo carrancuda, o seu rabo continuava serpenteando de um lado para o outro, animadamente. 

Se Tooru sabia alguma coisa de comportamento animal, era que aquela agitação não era agressividade. O rabo denunciava que ele estava animado, enquanto suas feições humanas tentavam disfarçar. Era timidez, então? Aquele homem/dragão enormemente sarado e gostoso estava com vergonha dele? 

Poderia Tooru usar isso… a seu favor?

- Tem bastante espaço aqui, você não precisa sentar no chão. 

O rabo dele parou de serpentear ficando reto e elevado. O olhar distante dele se voltou para Tooru e ele pôde jurar que sua face estava um tanto ruborizada. 

- Minha pele é muito áspera... acaba puxando os fios da seda. - ele disse, desviando os olhos de novo. 

- Oh... E eu estou todo molhado e sujo, mas você me colocou aqui mesmo assim. Quem se importa com alguns fios? - e para convencer, Tooru deu algumas batidinhas no espaço ao lado dele. 

O rabo dele balançou nervosamente uma vez para cada lado, antes dele se levantar e se aproximar, sentando no local indicado. O dragão agora fazia questão de olhar para o outro lado, bem como cruzar pernas e braços e fechar as asas, parecia que tentava ocupar menos espaço, ou que tentava não invadir o espaço de Tooru. 

- Por que você está cuidando de mim? Sou seu prisioneiro ou algo assim? 

- Não! - ele disse rapidamente. - Não que você tenha como ir muito longe com a perna desse jeito, mas... Se você quiser ir embora, eu posso te levar. Não te prenderia aqui. 

- Como que eu devo te chamar então? Iwa-chan? - ele disse debochado.

- É Iwaizumi. - ele corrigiu sem entender.

- Eu gosto mais de Iwa-chan. - ele disse dando os ombros e voltando a comer a barra de cereal. 

Oikawa ficou olhando ele quieto enquanto comia, percebendo que o silêncio estava fazendo o dragão ficar ansioso novamente, o rabo serpenteando agitado. Esperou paciente enquanto comia, até que ele finalmente cedeu à curiosidade e começou a falar.

- Isso que você passou no joelho não vai resolver, vai? 

- Não, só o corte. Para a torção eu vou ter que aguentar e esperar. Você quer que eu vá embora? 

- Não, eu vou cuidar de você o tempo que precisar. Não precisa se preocupar com isso. 

- Eu fico agradecido, Iwa-chan. Espero que a gente se dê bem! - ele disse sorrindo. 

Iwaizumi ficou claramente constrangido, se virando quase que de costas. 

- Você precisa descansar. - ele se repetiu. - Eu durmo durante o dia, você devia também. 

Tooru concordou. Era bem difícil entender o que passava na cabeça do dragão, mas Oikawa já tinha algumas teorias. Ele parecia saber do valor daquele tesouro, visto o que tinha comentado sobre a seda. Riu um pouco ao reparar que quando ele se virou de costas realmente um dos tecidos delicados se prendeu em algumas escamas da região do rabo, puxando os fios. 

Se ele sabia do valor, então talvez realmente o estivesse guardando. Iria cuidar dele e permitir que fosse embora, mas nada indicava que ele permitiria que levasse o tesouro com ele. 

Iwaizumi parecia ser um monstro pacífico, não queria ter que usar o rifle. 

O melhor plano seria usufruir da hospitalidade dele e quando ele saísse de novo, passaria um rádio para a equipe. Levaria algum tempo até mandarem um helicóptero mas com certeza seria mais fácil lidar com o dragão com algum tipo de arma tranquilizante. Não tinha motivo para machucá-lo sem necessidade.

Olhou em volta ainda admirado pela quantidade de tesouros. Se não estivesse machucado, certamente estaria pulando e jogando as moedas para cima. Precisava fingir desinteresse para que seu plano não fosse percebido. 

Olhou novamente para as costas largas e fortes do homem dragão, que tinha se deitado de barriga para baixo na seda, meio dobrado com as asas caídas por cima. Ele parecia um gigante inofensivo, e lhe dava um pouco de pena de pensar que iria trair sua confiança. 

Bom, ele tinha passado anos pesquisando e arriscando a sua vida por aquela recompensa. Não seria um monstro amigável que ia fazê-lo desistir de tudo, seria? Óbvio que não. 

Se aconchegou na seda bordada caríssima e tentou dormir um pouco.

 

____________

 

A primeira vez que Oikawa tentou contato pelo rádio com Makki foi naquela noite. Iwaizumi se prontificou a buscar alguma comida que não fossem barras. Oikawa não esperava que ele voltasse tão rápido com duas aves que ele suspeitava serem araras.       

Ele trouxe os animais já completamente carbonizados. Com as mãos mesmo, rasgou a carne em pedaços que por dentro estavam assados. Uma técnica no mínimo interessante. Oikawa falou sobre como ele usaria espetos e assaria mais devagar, sem queimar tudo por fora. Iwaizumi achou uma perda de tempo. 

Depois disso foi a vez de Oikawa ficar constrangido, pois precisou dizer que precisava ir ao banheiro. Primeiro o dragão não entendeu ao que ele se referia mas depois de um silêncio constrangedor ele percebeu.

Apesar da motivação bem constrangedora, Oikawa não reclamou de ser carregado pelos braços fortes. Aproveitou para enlaçar o pescoço dele com os braços e sentir a textura das escamas que cobriam a parte de cima dos seus ombros. Eram realmente ásperas, mas formavam uma textura agradável. 

- Não faça isso. - ele disse ríspido.

- Isso o quê? - Oikawa perguntou fingindo inocência, passando a mão de novo. 

- Você sabe. 

- E o que você vai fazer se eu não parar?

Iwaizumi apenas deixou um ar muito quente sair pelas narinas, claramente irritado. Em seguida abriu as asas e saltou, voando pela abertura no teto. 

 

__________

 

Por mais que tentasse dormir durante o dia, não era tão simples. Cansado de tentar lutar contra a própria natureza, ele decidiu se levantar silenciosamente. Mancando com cuidado, ele caminhou pelos estreitos corredores entre as montanhas de tesouro admirando toda a fortuna que tinha ali. 

Às vezes se abaixava e olhava alguma peça de perto, antes de colocar de volta. Olhou por cima do ombro vendo que Iwaizumi seguia dormindo. Continuou mancando e observando tudo. Tinha tantas riquezas ali que ele nem saberia escolher se precisasse. 

Caminhou mais um pouco e avistou algo que parecia uma coroa adornada por jóias de todas as cores e se abaixou para pegar. Na ânsia acabou perdendo o apoio e, para evitar de se apoiar na perna machucada, se apoiou no joelho bom.

- Você não devia estar andando.

Iwaizumi surgiu prontamente do nada e o ajudou a se erguer. Ficou assustado pois a meio instante atrás ele dormia, não entendia como tinha chegado nele tão rápido. Iria ficar bravo por estar mexendo no tesouro? Iria descobrir que aquele era seu real interesse ali? 

Com o coração acelerado, Oikawa se deixou ser levantado e apenas observou enquanto Iwaizumi alcançava a coroa que chamou sua atenção. Ele a olhou por alguns instantes, girando-a nas mãos como se tentasse entender qual parte era a frente, para em seguida erguê-la e colocar sobre a cabeça de Oikawa. 

Em choque, Oikawa abriu e fechou a boca sem dizer nada, ficando totalmente encabulado pela proximidade dele. 

- Combina com você. - ele disse simplesmente. - E você pode se acalmar, eu não estou bravo. Posso perceber sua temperatura subindo bem rápido. 

- Eu não queria acordar você... 

- Eu não durmo de verdade. 

Iwaizumi se virou para o tesouro e Oikawa percebeu que ele buscava alguma coisa. Ele deu alguns passos em volta da pilha e alcançou alguma coisa em meio ao monte de moedas e objetos. Era algo longo, dourado e na ponta tinha uma alça moldada e decorada com jóias tão brilhantes e coloridas como as da coroa. Era uma bengala. 

- Use isto se for ficar caminhando por aí. - Iwaizumi disse alcançando a peça para ele.    

E sem brigar com ele, Iwaizumi se afastou, voltando para onde estava (agora ele sabia) não dormindo de verdade.


Notas Finais


Capas com a Isa Weber: https://www.instagram.com/isa_weber_art/
https://twitter.com/isa_weber_art

Quer ler mais IwaOi?

"Lobo Bom" em que Oikawa é um meio lobo e Iwaizumi um caçador: https://www.spiritfanfiction.com/historia/lobo-bom-18256833

"Want" em que Oikawa é uma estrela do pop e Iwaizumi o câmera de um vídeoclipe: https://www.spiritfanfiction.com/historia/want-19391429

"Na Mira" em que Oikawa é capitão e Iwaizumi soldado no exército: https://www.spiritfanfiction.com/historia/na-mira-21608781

No meu twitter está rolando um SORTEIO de história em celebração dos meus 1000 seguidores aqui no spirit, aqui o link para participar: https://twitter.com/k_ju/status/1363833290545856514?s=20

BEIJOS até amanhã com o Capítulo 2: "Bem vivo e bem rico"


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