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História Never say Never - Clace - Shadowhunters ( Parte 1 ) - Capítulo 16


Escrita por: MaduhSilva2

Notas do Autor


Olá chuchus🧡 Preparem o sofá e a pipoca...🔥

Capítulo 16 - A Queda do Império


        " O afeto pessoal é um luxo que

você só pode ter depois que todos

os seus inimigos são eliminados.

Até então, todos o que você ama

são reféns, adaptando sua

coragem e sua capacidade de

julgamento "


Orson Scott Card🖤, Empire🔥


⟨⟨🧡⟩⟩


        Tudo não se passava de borrões. Para Clary, havia poucas coisas mais aterrorizadoras que seu passado. As obscenidades que carregava não só em seus crimes, mas também em seu nome. O pavor que sentia ferver por suas veias a cada vez que ouvia algo. Um sussurro. Uma omissão. Um diálogo. Uma verdade. Era como fogo correndo por seu sangue todo o momento em que alguém a encarava com decepção. Primeiro vinha o constrangimento, o açodamendo a cada instante na qual inspirava ar em busca de explicar o que quer que tal pessoa tivesse descoberto ou encontrado. Em segundo lugar, vinha as tentativas falhas em argumentar, de modo pulante que nada do que fez foi em vão. Nunca era ouvida, nunca tinha voz. Por isso, e entre outros milhares de motivos, sempre tinha voz quando se completava com sua outra metade; A Rainha Vermelha.

E por fim, o último e mais escabroso lugar; a fúria. Toda a revolta é consumada, como energia para algo pior e nefasto. Na maioria das vezes mortal. Não só para os outros, mas para si mesma também. Muita das vezes, quando tudo resolvia voltar-se contra Clary, ela chegava a um ponto cujo desistia de ser julgada, cessava com os discursos encômios, todos os motivos possíveis na qual ansiava convencer tal alguém de que no fundo, entre a película flácida de desespero, existia aquela simples garota. Que apenas era influenciada pelo passado e a família terrível que tivera. Aquela ataraxia incansável, era exaustiva. Então Clary se transformava.

Muita das vezes, a chamavam de louca. Psicótica. Coisas que tivera se acostumado, pois por um longo tempo, manipulou pessoas para que pensassem aquilo. Então tocavam o calcanhar de Aquiles dela.

- Você é igual ao seu pai! - diziam grotescos.

Ela se ofendia. Paralisava e depois fazia-os sofrer por tal comparação. Ela era Clarissa Morgenestern, poderia, um dia, ter usado do nome do pai, porém, nunca, precisou ou quis, depender dele. Afinal, tivera criado sua própria fama, seus próprios crimes, seu próprio império. Como o pai.

Não era tão impiedosa quanto. Cedeu misericórdia a inúmeras pessoas que passara por seus olhos ao longo de seu império. Seu coração, em momentos que não se encaixavam nos quais havia sangue e batalha, era imenso e misericordioso. Diferente do pai, Clarissa boa parte das vezes calculava apenas as armas para a batalha. A guerra, ela negociava dentro de todos os padrões possíveis, com algumas ameaças aqui e ali, e a Morgenestern conquistava tudo que quisesse. Contudo, a cada passo que deu, como Rainha e com Raphael ao seu lado, Clary pôde perceber o quanto estava sendo sugada para a escuridão. Para algo maior que ela. Para os genes do pai.

- Meu pai é um assassino - Clarissa poderia recordar o exato tom sombrio em sua voz, podia sentir a respiração agitada do homem na qual asfixiava. Podia lembrar do poder. De todas aquelas pessoas curvando a cabeça à ela e oferecendo a própria dignidade em prol dela. O poder que uma vez subiu a cabeça, mas nunca foi eliminado, nunca apagado. Como um espírito incansável de vitória.

- Eu apenas faço a justiça - ela dizia. Conseguia sentir as unhas do homem ameaçarem fincar em sua pele, porém não poderiam nunca se mover mais, não morto. Quando se erguia, simplesmente acenava com a cabeça, e seu império se mexia. Retirando o cadáver e a parabenizando por sua honra e coragem ao derrubar mais alguém que ficaria em seu caminho. E ao virar-se para o trono, que prontamente a esperava, havia Ele, com um sorriso prazeroso e repleto em um orgulho inigualável.

- O mundo tem sorte em ter você para defendê-lo, Mi Cielo...- sempre orgulhoso, sempre esbelto, sempre impassivo, sempre calculista. Sempre com o melhor que poderia dar a ela. Clary caminhava até ele, sentindo toda a angústia que aproximava de seu peito, se esvair ao ouvi-lo. Raphael era tão selvagem, com o instinto maior que o próprio império, e a fala implícita ao definir quem estava no comando. Ele dava tanta liberdade a Clary, sua Rainha e acima de tudo sua parceira em todos os aspectos que se podiam imaginar. Por tantos anos eram Eles, aqueles no qual nem mesmo a Clave ousava mexer.

O problema real era o crime. Afinal, foram por ele que se uniram, talvez quando suas missões acabassem, a criminalidade também se esvaisse, junto ao vosso amor.

Sempre tão ecléticos quando se tratava de comandar um império. Não abusavam do poder, eram uma família. A mais simples e bela família. Aos poucos, foram chegando novos integrantes, pessoas que devotaram suas vidas a eles. Foram meses de discussões e votações até que por fim escolhessem um nome.

- Devíamos nos chamar o Ciclo Negro - sugeriu Camille, com um empolgação nos lábios, seus cabelos negros caiam por cima do óculos de sol enquanto encarava a ruiva que fitava Raphael próximo a churrasqueira, conversando juntamente a Meliorn e Simon. Belcourt podia ver o amor e o desejo em seu olhar, mesmo perto, pareciam estar tão distantes...

Ela sabia que nunca poderia romper aquele laço, não por si só, não até que um deles morresse, afinal, era até que a morte vos separe, não é?

- Por que diz isso? - Clarissa virou-se a ela com um sorriso genuíno. O brilho e o rubor em suas bochechas traziam tanta inocência, tanto carinho. Aos olhos dela era tão bonito, Clary era tão mortalmente sedutora e inocente ao mesmo tempo, que a invejava muita das vezes. A morena desceu os olhos para a bebida sem álcool evidente em suas mãos, deixando escapar um riso discreto.

- É um Ciclo - Camille dissera, simplesmente - Uma ordem - pensou em todas as coisas que efetuaram em um exato padrão de perfeição até aquele momento - Algo que leva uma coisa à outra - recordou de cada pessoa, que agora parte da família, que conheceram a cada passo que deram em toda sua longa e perigosa jornada - O Ciclo que jamais pode ser quebrado - falou convicta, passou os dedos pelo vermelho de seus lábios ao seguir o olhar de Clary, a Raphael, como sempre ocorria - Teremos etapas - disse, mal sabiam que era uma profecia - Fartura e amor, luto e ódio, rancor e desejo, e por fim...- suspirara, ganhou o olhar dela, era confiável e estreito, prestava atenção em cada palavra que saia de sua boca. Camille parecia se sentir aliviada a cada vez que notava - Traição e reencontro.

- Cami...- Clarissa sabia que havia algo por debaixo de toda a máscara de Belcourt, sabia que após o roubo que fizeram nada podia ser mais perigoso, mas talvez, os próprios corações fossem armas voltadas a si próprios.

- Mi amor, mi amor - àquele era Raphael, os braços estendidos em pura felicidade ao puxá-la ao seu encontro com delicadeza e carinho - Mi amor, tens que ver isso - ele disse, trazendo as duas mulheres até o centro do campo, onde uma tv improvisada sob uma mesa titubiava o som das notícias de quaisquer que fosse aquela cidade nas Filipinas cujo o sistema judiciário era horrível.

Camille sorrindo e dando risadas juntos aos outros, observava o braço protetor de Raphael pela cintura dela, um gesto terno e amável para um assassino.

- Somos nós - ele sussurrara animado no ouvido de Clary, e então palmas então ouvidas. A imagem do casal resplandecia sob a tela do aparelho, não ligavam de terem seus títulos divulgados, muito menos seus rostos cobertos pela máscara, ou seus corpos com o macacão vermelho. Faziam partes da história, tinham um legado. Um Império, eram o gelo na qual não se preocupavam em quebrar ou escorregar. Eram o perigo - O maior roubo da história, Mi amor.

- Nós conseguimos - ela dissera, feliz e agradecida - Somos o Ciclo Negro agora, Querido.

Talvez o lado sombrio de Clary não tenha sido mostrado nem mesmo para Raphael, independente das mortes, Clarissa nunca se descontrolava tão sombriamente, a última vez que ocorrera algo, foi após sua morte. Quando seu coração se estraçalhou em mil pedaços. Onde os três motivos foram consumidos pelo ódio e a revolta. Onde enfim o título Dona da Morte foi justificado.

Não restava humanidade em seu peito. Não teria mais melhor amigo na qual poderia a socorrer. Não haveria mais Camille cuja poderia a acalmar, ou Meliorn para a aconselhar. Não existia mais A Rainha Vermelha. Era como se tudo tivesse se consumado em uma onda de derrota, aquilo que sentia foi usado como força. Não era uma força revigorante, boa. Mas sim uma amarga. Drenada e endireitada a um único propósito vingativo. Aquilo a consumiu. A dor e a perda fizeram com que a mágoa do luto de nada valesse. Clarissa sempre dizia matar por justiça, porém naquele momento, o luto que devia ser erradicado, foi reposto por uma fúria incontrolável.

Ela se transformou. Sem piedade ou humanidade. Como o pai. Como aquilo que jurara nunca se tornar. Não houve misericórdia. Não houve quaisquer resquício de dúvida ou remorso. A Morgenestern enfim deu honra ao nome.

Entretanto, isto, se tornara o porquê de ter sucumbido. O porquê daquela grande mulher, poderosa e temida, ter morrido. Junto a humanidade de seu império.

- Continua com as pessoas erradas, pequena Clair - a voz de Lucian chegou ao seus ouvidos, era tão calma e controlada para alguém amarrado e ameaçado a ser queimado por uma lareira. Ela o encarou. À luz do fogo, podia reconhecer seus olhos verdes, a pele negra iluminada e coberta por vestes quentes. O relógio de Raphael em seu pulso e o cordão de Jocelyn em seu pescoço.

- Como tem a coragem de falar comigo? - Clary ouviu a própria incredulidade na voz, conseguiu ver o aparente arrependimento no olhar dele, mas nada valia naquele momentos, o choque era grande demais para que conseguisse comandar ou falar algo coerente - Como pode usar o relógio dele? Como pode usar o colar de minha mãe depois de tudo que fez, Luke?

- Já lhe dei todas as minhas explicações, pequena...

- Não me chame assim - ela disse, furiosa, parecia sentir uma ofensa com o peso de uma mentira a cada coisa que saia de sua boca, como algo que queimassem seus tímpanos a cada vez que ouvia. Clary se sentia enjoada, enojada por fazer aquilo, com ele. Luke. Alguém que um dia fora parte de sua família. Agora o prendia e nem saberia dizer o porquê. Era como se todos os seus passos tivessem se tornado infalços. Tudo estivesse à beira do precipício, sendo empurrados ao horizonte, onde o sol raiava junto a tudo o que um dia pareceu ser o certo.

- Não tenho o direito...- Lucian estreitou os olhos, desistindo de tentar se mover, queria passar a confiança que um dia passou, o carinho que um dia foi trocado com ela, e talvez a lealdade que fora entregado a ela - Mas os uso com honra.

- Honra? - repetiu incrédula, seus nervos pareciam recuar da própria pele ao ouvi-lo. Depois de tudo que ele fizera, não conseguia caçar nada que pudesse, por algum motivo, explicar como ainda poderia encará-lo. Como Lucian ainda conseguia olhá-la nos olhos e dizer tais coisas.

- Já basta! - Maryse anunciou, abrindo brutalmente as portas da sala no mesmo segundo em que o trovão assolou a tempestade. Com os olhos pesados de lágrimas, decidida e magoada, ela avançou contra a ruiva, com algo que não poderia explicar - Isso é ridículo - gritou desacreditada, se livrando das mãos que ainda tentavam a alcançar, a sala parecia uma sala de interrogatório, sangrenta e sedenta pela verdade.

Aquela nos quais o criminoso era preso e sempre vinha o cônjuge alegar a inocência do amado. Meliorn e Simon – que tentavam a segurar –, eram os familiares que serviria de saco de pancadas ao ter a polícia, Clary, levando sua tão amada pessoa especial a julgamento. Para os Lightwood's, que de alguma forma ainda procuravam entender a razão e o porquê de tudo aquilo, o que estava sendo discutido naquela noite tempestuosa, ainda teria uma explicação. Àquela na qual deveria ser razoável. Isabelle pela primeira vez na vida queria roer as unhas para conter sua ansiedade. Talvez fosse ela mesmo, pensou Izzy culpada, talvez ela fosse a causa de tudo aquilo.

- Desamarre Lucian! - exigiu com fervor, dando passos pesados e incrédulos a Clary, que engolia em seco como se mantivesse uma enorme bomba nuclear longe deles. Maryse era amável e simpática, porém sabia ser severa e impiedosa.

Alexander entrou na frente da mãe, dizendo algo como:

- Não vai acontecer nada de mal a ele.

Entretanto, nem mesmo ele sabia se aquilo era verdade. A reação imediata de Jace, apenas por ver o desespero – que ele não notou – de sua Moranguinho, sem nem mesmo se preocupar com o que viria a seguir, o assustou. O deixou em choque por saber e sentir por cada fibra de seus ossos que o irmão só agiria assim por Clary. Ele era sempre calculista e premeditado. Pouca das vezes agia por impulso. Tinha problemas com a raiva, mas a descontava em momentos certos. O diferencial era ela. Sempre foi ela.

Alexander sentiu cada membro de seu corpo enrijecer ao ter o olhar mortal e ameaçador da mãe, então ele recuou. Tirou as mãos de seus ombros e deixou com que a mãe fizesse o que tivesse que fazer. Nunca a imaginou como alguém violento. Contudo, era o que pensava sobre sua doce Moranguinho... Olha aonde estão agora.

- Se você não o soltar, eu juro que...- Maryse sabia que tinha como andar menos de dois metros até o companheiro, que ela poderia jurar que o viu com lágrimas escorrendo por seu rosto, sabia que ela mesma podia tirar suas cordas e o levar para longe dali. Porém havia algo que ela nunca previu, nunca imaginou; Jace mostrava lealdade a alguém, pela primeira vez. Não era a mãe adotiva ou a um dos irmãos. Mas a uma mulher, que vinheta do nada, por acaso irmã de seu maior rival. Esta, na qual roubou e selou a sete chaves o seu coração.

Embora a tensão entre os dois fosse estupidamente óbvia, ele ainda conseguia confiar nela, mesmo que tudo apontasse para que não. A Lightwood sabia, que até mesmo sua filha, que aparentemente tinha sua lealdade indecisa e a risca, daria do suor e sangue por Clary. E como se não bastasse, Maryse havia notado o olhar pedinte de permissão em todos aqueles que a chamavam de Rainha. O fato de que mesmo estando em uma casa que nem deles são, não hesitariam em atirar uma bala sequer. Independente de que aquilo custasse relacionamentos, famílias, rixas e dinheiro. Nenhum deles pestenejaria em defender sua Rainha.

E eles pareciam desligados de quaisquer resquício de humanidade ou sentimentos cujo pudessem os impedir de cometer tais delitos. Eram como servos, notou Maryse, precisavam de uma ordem vital para que não morressem. Não sucumbissem a própria culpa e amargura.

- O nome dele não é Lucian, Maryse - a mágoa na voz dela foi tomada pela postura ereta, rígida e mandante. Clarissa se virou a ela, com o olhar brilhante em raiva ou dor, piscou ao olhar nos profundos e incrédulos olhos negros tão receosos que lhe encaravam - Ele é um mentiroso - cuspiu as palavras, estava prestes a ir em sua direção. Não tinha intuito de o machucar, não naquele momento, iria o desamarrar e tentar consertar o que ainda tivera restado de sua aliança com o Lado Sul. Mas, Maryse agarrou seu pulso, então ela percebeu o quanto precisava da aprovação e de todo o apoio que ela poderia lhe dar, Clary suspirou desesperada para que tentasse explicar seu feito impulsivo e tomado pela emoção - Ele está usando você, Maryse, se me deixar explicar, juro que...

- Você se arrepende do que fez? - era sombrio o tom de Simon, se agachando a altura de Lucian, com um olhar amargurado e a humanidade em resquícios que ainda existia em gotas no fundo de seus olhos. Lewis já tiveram sentido grande dores em sua vida, toda a natureza de seus crimes tinham se originado neles, tudo o que fizera estava nas mãos de Graymark, há anos. Anos que foram tomados pela fúria flamejante que ardia em seu peito a cada vez que cogitava a ideia de voltar novamente ao seu passado.

Ele não conseguia acreditar no que a namorada fizera, não poderia dizer que não suspeitava de algo, afinal, as indiretas e todas as encaradas antes de dormirem era algo que não poderia negar suspeitar. Isabelle tinha argumentos para tudo que fazia, coisas boas ou não, assim como ele. Simon era um cara de bom coração, o que carregava era um mar de culpa e compaixão, era algo de se admirar em alguém com um histórico daqueles.

Mas agora, era mais uma vez um garoto inofensivo de 14 anos desesperado não só por perdão, mas por alguém que estivesse disposto a ser mais do que amigo. Ser sua família. Ser amado. No momento, a súplica em seu olhar dizia mais do que poderia ser expresso por palavras.

" Por favor, por favor peça perdão. Peça para que nossas vidas prossigam, para que isso não desencadeie a Rainha Vermelha. "

- Clary, pare com isso já - disse Isabelle, entrando na sala, os saltos fazendo um barulho mais alto do que a chuva a fora e o olhar mais decidido do que poderiam cogitar - A única mentirosa aqui é você.

- Isabelle, poupe-nos de sua crise existencial - Magnus entrou em toda aquela guerra pela razão, por muito tempo quis se manter longe de tudo o que poderia fazer mal aquela família. Sempre era Bane a acalmar os ânimos, sempre era ele a evitar que Jace atirasse em qualquer um deles por puro ataque de fúria. Magnus tinha uma dívida com Clarissa, uma antiga e mais do que isso, tinha uma lealdade e um amor inigualável a ela. Por muito tempo esteve ao lado de Isabelle, mas acreditava que tudo aquilo tivera passado do limite, tudo o que encontrara, os bilhetes e reportagens que conseguira juntar e usar contra a própria amiga se tornara demais para que seu perdão inominável pudesse alcançar.

- Saiam daqui - ordenou Meliorn, havia um tom não de desespero, mas de necessidade para que fizessem o que mandava, talvez até mesmo ele, que era o mais centrado e vingativo dentre eles – exceto por Jace –, temesse o que estivesse para ocorrer - Vocês não tem nada...

- Me soltem, eu não tenho nada a ver com seus problemas - gritou Lucian, com exigência, a atenção dividida de todos se voltaram para ele. Sabia que tinha várias ocorrências e pecados que precisava confessar não só a eles, mas principalmente a Clary, ele olhou com súplica para Maryse, independente do que viria a seguir, temia mais por ela do que por tudo o que fizera no passado. Afinal, ela era a única inocente presente.

- Ele é Luke Garroway - Jace entrou na sala, com um olhar firme e sem qualquer emoção aparente. Havia começado a entender que Clarissa não lhe contaria nada, não em choque, então tratou de fazer sua parte, investigando o que já suspeitava, apenas uma fonte infiltrada e tudo aquilo foi desvendado. Porém, Luke não era alguém inofensivo, não poderia fazer nada a ele, pois talvez, apenas ele pudesse lhe dar as respostas que precisava - Enfim conseguiu invadir minha casa, não é, Tira?

- Ele é do FBI, mãe - Alexander murmurou a Maryse, que piscou chocada, o filho a segurou em sinal de conforto, entretanto, a fúria corroía seus ossos. Garroway era o cara que os perseguia há anos, tudo que tinham era o nome e o histórico com organizações como O Ciclo Negro. Na verdade, muitas vezes foram oferecidas propostas de acordo a Alec, vindas dele, para trair o próprio irmão. O chantageou, Luke – em um telefone descartável –, alegava ser do FBI e querer fazer a diferença. Dizia que queriam o peixe grande; O Herondale. Em troca faria um acordo: Ele, por sua inocência em quaisquer crimes que vinhera a cometer, o acordo incluía Proteção a Testemunha a Alexander, seu noivo, sua irmã e sua mãe, isto, se dissessem diante ao tribunal, sob juramento, que o tempo todo eram chantagiados por Jace Herondale, o Chefe de Nova York.

Por alguns dias, Alec remoeu isso dentro de si, não parecia ser algo tão ruim na época, mas nada compraria sua lealdade e seu amor ao próprio irmão, por um tempo chegou a considerar. Jace era um Rei no submundo, daria certo entre as grades da lidera e a disputa por poder, e eles, tinham todos os meios para o libertar da cadeia, mesmo que isso desencadeasse uma fuga da prisão. Contudo, isso, a ligação de Garroway no passado, só comprovava o desespero deles – os federais. E por mais que o irmão tivesse feito coisas terríveis em sua vida, não merecia ser traído de tal forma, embora, aquele perigo eminente e a ação exagerada fosse algo que Alexander pensava cativar o velho Jace. O novo faria de tudo para escapar dos federais, e não era necessário dizer o porquê.

- Ele está te usando, mamãe - Isabelle sussurrou em derrota, odiava ver a figura materna daquele jeito, ela parecia desorientada com a notícia, aparentava estar realmente gostando e talvez amando Lucian, ao menos a figura de Luke que conhecera. Izzy imaginou como a mãe devia estar se sentindo traída, além de ter sido usada para caçar os próprios filhos, ainda tivera reconhecido uma estranha ligação entre ele e Clary. Era demais para uma noite. Isabelle pensava e negava aquele sentimento; culpa, mas no fundo, ela sabia que quem tivera traído alguém naquele dia, fora ela.

- Herondale, o que acha de uma bebida enquanto matamos o traidor aqui? - ofereceu Peter com a voz embolada ao entrar com uma garrafa de álcool, sua mente girava, ele se considerava fraco, não conseguia suportar situações como aquelas sem um bebida ou drogas no organismo. Acreditava que tudo aquilo passaria tão rápido quanto os efeitos das substâncias ilícitas. Entretanto, tudo era uma ilusão, a felicidade que ele acreditava encontrar nas drogas e na bebida era uma farsa, afinal, aquilo só o fazia ser dependente. Não só das substâncias, mas do caos e da amargura.

Assim como todos, ele queria tapar um buraco. Um buraco feito por cacos de vidro. Deviam se erguer, sorrir, pegar os pedaços de vidro quebrado e traçar um caminho para si mesmos. Mas não era isso que faziam. Preferiram dormir e sonhar. O que não esperavam era pelo pesadelo. Este, que nunca poderia ser apagado da memória.

- Sou inocente! - ele gritou mais uma vez, não conseguiria suportar o olhar de Maryse, uma parte sua temia a morte naquele exato momento, não era tão difícil sacarem uma arma e atirarem, fazerem isso por si próprios. Com as próprias mãos. Como ele o fez.

- Inocente? - a voz de Clary ecoou, em pura incredulidade descabida a própria voz. Lágrimas finalmente escorreram por seus olhos. Ela sentiu suas pernas se moverem, para frente, até ele. Ouvia o agito da chuva, a voz preocupada do filho de Maia vinda da cozinha, e todos os suspiros preocupados dos que estavam na sala.

- Moranguinho, não faça...- Alexander queria a segurar, porém estava ocupado demais mantendo a mãe entre os braços, que ameaçava ir até a ruiva, não saberia dizer em quem temia mais. Seus olhos suplicantes foram em direção ao irmão, que parecia focado demais em Clary, paralisado e imóvel, mas a escuridão que antes tinha em seus olhos azuis, foram substituídas por preocupação, o moreno parecia inerte a uma única razão em manter todos calmos, afinal, Meliorn, que antes discutia com Alaric por algum motivo estúpido de diplomacia, antes o mais calmo, era o que tinha mais ódio em seu olhar.

Isabelle havia parado de gritar argumentos a Magnus, no mesmo instante que ouviu o soluço da amiga, não entender o que estava acontecendo faziam com que a discussão com o cunhado parecesse tola. A morena deixou que seus olhos negros descessem para Luke, que chorava juntamente a ruiva, por algo que ainda não compreendia, olhou para o namorado, que engolia em seco conforme seu olhar fundo em amargura se fundação em lágrimas. Mais uma vez a culpa chegou em seu peito, esteve tão ocupada em discutir com quem quer que fosse, que não se perguntara o porquê de seu namorado estar tão abalado, tão amargamente destruído.

- Você matou o meu noivo - disse por fim.

Alexander arregalou os olhos. Não precisou soltar a mãe, ela já estava ereta e perplexa. Uma onda de compaixão o invadiu. Era por isso que ela agia daquela forma, com tanta mágoa e ódio. A pessoa que mais amava tivera sido tirada dela, morta por ele. Alec não conseguia nem mesmo cogitar a ideia de uma vida sem Magnus. Muito menos cogitar a opção de controle com a pessoa que matara seu noivo. Ele era o menos violento, mas se fosse ele no lugar de Clary, com certeza teria o matado.

Não pelo ódio em si. Mas como um escape para toda sua dor.

Alexander deu passos para trás, desistiu da ideia de a segurar ou a conter. Raphael estava morto. Era a confirmação que acabara de ter, por fim. A rajada de ódio também o atingiu, Luke fizera mal a ela, sua Moranguinho, agora também era seu dever fazê-lo pagar.

- Você o matou - soluçou Clary, seu coração parecia se apertar, a ferida nunca fechada a corroendo por dentro, a cada milímetro de seus ossos, ela estava tão próxima dele, seu olhar era preso nos deles, e pela primeira vez, ela não se importou com quem estivesse ouvindo - Fez aquele acordo estúpido e depois...

- Ele me pediu - confessou, sua garganta se fechou, sua voz mal saia, ignorando todo o instinto de manter o que era confidencial em segredo, era seu dever, porém havia algo na qual não poderia negar, tinha uma dívida eterna com Clarissa - Pequena, eu não tive escolha, ele me contou...

- Você era como um pai para mim, Luke - ela o interrompeu, queria fazer coisas terríveis com ele, o assassino de seu noivo estava ali, na sua frente, amarrado e inofensivo, era o momento que esperava por sete anos, matá-lo a fazia crer que a dor iria embora. Mas não tinha forças, não tinha apoio - Um pai que eu nunca tive...- falou saudosa - Mas então me traiu - o ódio em sua voz não era maior que a dor do luto - Eu o vi. O mandando ajoelhar.

Jace apertou os olhos. Odiava vê-la daquele jeito, não era o único que queria esganá-lo apenas por fazer sua Foguinho sentir aquela dor. E se fosse Clary no lugar de Raphael? E se fosse ele no lugar de Clary? Sua mente começava a trabalhar a cena que Clary ditava, involuntariamente, não conseguia deixar de pensar como se sentiria se fosse a pessoa que mais amava no lugar dele. Negou por muito tempo, mas era óbvio. Clarissa ainda amava Raphael. Até depois de sua morte.

- O vi olhar para as estrelas, dizer as palavras do rito em espanhol - Clary disse, piscou e as lágrimas desceram, com dor, aquela cena retrocedendo milhares de vezes em sua mente - Então vi você...

Meliorn fechou os olhos, odiava chorar, nunca chorava. Podia lembrar o som do disparo. A arma sendo descarregada em Santiago, seu Rei. Lembrava do grito horrorizado de sua Rainha. Conseguia sentir as unhas dela o arranhando enquanto a arrastava para longe do prédio, onde o corpo de Raphael caia no gramado a sua frente.

- Atirando no peito e na cabeça - brandou ela, seu olhar decaiu a lareira acesa, a única fonte de iluminação naquela assombrosa sala de estar - Sem um pingo de culpa.

Abanou a cabeça, Luke estava inconformado, e não era as cordas que estavam o mantendo agitado. Acreditava que tinha muita coisa a ser contada. Coisas sobre Camille, sobre o Ciclo, e quem quer que fosse a nova pessoa ameaçando a segurança de todos. Ali, naquela sala, amarrado e com o coração quebrantado, encarando todos aqueles olhares, pareceu não sentir mais nada que não fosse culpa, esta que o prendia por anos. Acreditava que tivera feito o que fez por um motivo justificável, ao menos considerando as circunstâncias passadas. Não conseguia tirar os olhos de Clary, a menina que era como sua filha, nem mesmo para encarar Maryse, que por sua vez, sentia-se mais traída do que nunca.

- Aquilo foi os federais, eles me obrigaram! - gritou desesperado, mas mesmo assim ainda trabalhava com eles - Foi uma farsa! - explicou, lembrava da arma em sua cabeça, e estava disposto a morrer pelo o noivo da mulher que considerava filha, mas ele não o permitiu - Não queriam apenas a confissão dele, disseram que tinha um código secreto na gravação, e que por isso não podiam deixar que ele viesse para confirmar - Luke sacudiu seu corpo na cadeira, descontrolado - Disseram que a Rainha Vermelha e seu legado morreriam se o Rei caísse. Eles queriam a queda do Império, Clary! - e foi o que aconteceu.

- Raphael se ajoelhou e disse que não permitiria que o peso de seus crimes caíssem sobre você - contou, sonhara todos os dias, incessantemente desde então, com aquela cena - Ele amou você em cada minuto de cada dia, até seu último suspiro - negou com a cabeça, transtornado, talvez tudo não se passasse de um delírio seu - Queria que você o matasse, para morrer com honra - afirmou, culpado - Nas mãos de sua Rainha Vermelha.

Maryse nunca foi alguém que julgava as outras, era uma mulher de segundas chances, porém severa e rígida, contudo, assim como Luke, ou como conhecera, Lucian, considerava Clary uma filha. Com tudo que tivera ouvido sobre o que ela passara. E agora isso. Não podia deixar de pensar que aquilo era premeditado. Como se tudo aquilo tivesse sido planejado para ocorrer daquele jeito, detalhe por detalhe.

Luke queria que ela acreditasse. Era a verdade, mas não havia ninguém para confirmá-la, afinal, a única testemunha daquilo estava morta. Impaciente consigo mesmo e com seus atos, ele gritou:

- Você estava grávida!

Então o mundo parou.

Os braços de Peter seguiam garrafas de álcool com um sorriso irônico estampado, sua expressão foi de livre e leve, ao aprisionado e doloroso, ele murchou. Incrédulos; Alaric e Meliorn pararam de tentar manter os Lightwood's estáveis. Jordan que se manteve quieto e dividido em quem acatar, arregalou os olhos com a explosão iminente. Magnus, deixou que um ruído apavorado escapasse por sua garganta, enquanto os Lightwood's ao seu lado tinham seu momento de choque.

Simon cambalheou para trás, sentindo os braços de Jace o manterem de pé, que parecia tão chocado quanto. Jace piscou, seu olhar se ergueu de um Luke desesperado, para sua Foguinho paralisada, não conseguia entender como aquilo poderia ser verdade, mas tudo se encaixava. "O hospital", logo após a suposta separação. As indiretas de muitos. Tudo fazia sentido, e o rosto branco de Clary confirmava tudo que quisessem duvidar.

- Rainha, do que ele está falando? - a voz trêmula de Meliorn falhou, ela não conseguia se mexer, não conseguia encará-lo, ou qualquer um deles, mas Meliorn, em especial, Clary sabia que era o que mais se sentiria traído. Não só pelo óbvio dever dela como líder confessar seu estado de saúde, ou até mesmo da possibilidade de mais um integrante ao "trono", mas também, por ser ele, seu conselheiro, e acima de tudo, Meliorn era o único dentre eles, que estaria disposto a esconder ou omitir qualquer coisa por Clary. Meliorn estaria disposto a mentir e matar os próprios irmãos para protegê-la, ela sabia disso, eles sabiam disso, e Raphael sabia disso.

- O que, como você...- Clarissa gaguejou, cambalheou para trás e por instinto, pôs a mão sob o ventre, enquanto observava os olhares inacreditada de cada um preso naquela sala, exceto de Luke. Ele soava desesperado por tentar se explicar, desesperado para que alcançasse seu perdão.

Esse era o maior e pior segredo de Clary, a coisas que mais lhe doía, seu maior arrependimento em toda sua vida. Quando diziam sobre O Hospital, sobre ela quase ter morrido por tal gravidez, ela gelava. Há sete anos, tudo era tão inacreditável, eles eram tão felizes que ela pensava que seriam capazes o bastante para cuidar de um bebê. Ela sempre foi uma mulher forte, destemida, e por alguns anos, sonhadora. Fazia parte do sonho querer ser mãe. Mas, há anos, o sonho acabou.

- Na noite de Ação de Graças - prosseguiu Luke, quase se soltando das amarras de tanto se remexer inquieto na cadeira. Lágrimas suplicantes escorriam por seus olhos verdes. Ele sentia cada golpe de verdade, com a força de uma obscura mentira - Raphael me procurou.

- Isso é impossível - ela gritou, ainda tinha fé, fé que seu melhor amigo não a traiu. Clary, em súplica pela piedade do melhor amigo, se virou para Simon, que tinha um olhar além de choroso, era culpado. E não era apenas por ter traído a melhor amiga, mas porque já tivera concluído o que de fato havia ocorrido na morte de Raphael - Si-Simon, me diz que não...

- Me perdoe, me perdoe, me perdoe - Simon suplicou, as lágrimas pesadas que saiam de seu rosto se perdiam na imensidão culpada, ele dava passos de um lado para o outro, desesperado pelo perdão. Não traira apenas a amiga, traira Clarissa, A Rainha - Ele também era meu Rei. Oh, por favor, perdoe-me.

Jace encarou Simon, e a onda de ódio finalmente o atingiu, ele não fora o único a concluir o que acontecera. Na mente de Jace, o sigilo de uma mulher deve ser respeitado, ainda mais quando trata-se de um bebê. Algo tão pessoal para a mulher. Jace deu seu melhor olhar assassino a Simon, por mais que soubesse que ele já parecia bastantes culpado. Na alma de Herondale, o lado que não tinha sido tomado pelo ódio por Simon e Luke, tinha uma teoria do que acontecera há anos. A dor e a traição no olhar de sua Foguinho o machucava mais do que qualquer conclusão que pudesse ter.

- Disse que você estava grávida, que Simon lhe contara - Luke não se importava com as outras pessoas em choque, algumas sentindo-se traidas, mas para ele, tudo que importava era ela, sua filha - Queria um acordo, para não ter o risco de perder vocês dois - explicou, um tipo de sorriso se formou no canto de sua boca - Ah pequena Clair, ele estava tão feliz! - ele esperava que aquilo a tranquilizasse, contudo, só piorou sua dor e seu ódio - Estava radiante, como eu nunca tinha visto antes... Empolgado porque formaria uma família com você, eu não queria acabar com...

- Ele comprou uma roupinha de neném, Clary - Simon confessou, aparentava estar menos transtornado, por grande parte de sua vida  ele se culpara pela morte de seu Rei, porém pior do que isso, ele permitiu que sua Rainha se culpasse primeiro. Como alguém que fez um juramento, devia colocar as necessidades dela acima das dele, mas ele foi infiel - O flagrei procurando grandes casas na Espanha. Conversando com alguém sobre comprar um hotel para você, o seu sonho - as lágrimas não desciam mais, puxou os fios negros entre os dedos, não devia estar contando aquilo, não era seu segredo, não era a sua vida - Ele sempre amou você, mais do que todos nós juntos. Mas, o bebê foi...

- O que ele precisava para se entregar para mim, para fazer a confissão - Luke sussurrou, se inclinou para ela, com uma dor inimaginável - O acordo incluía Proteção a você e ao bebê quando nascesse, ele organizou tudo! - lembrava claramente de todos os passos que Santiago lhe dera, as ameaças embutidas em olhares e avisos caso algo desse errado. Ainda se perguntara como conseguia lembrar de tudo que ele dissera, talvez fosse o peso de sua consciência - Roberts faria o parto. Kyle forjaria sua morte. Alaric promoveria armas e paz com o Praetor. Peter conseguiria todos os meios medicinais que você fosse precisar. Meliorn seria seu apoio emocional para... Evitar que o episódio do Reformatório acontecesse de novo, já que pelas contas dele, você deveria parar de tomar os remédios anti-depressivos - soava incomodado ao dizer tais coisas, Magnus e os outros arregalaram os olhos. Luke não parecia hesitante em dizer nada daquilo, mas sobrara alguém - E Simon...

- Raphael me pediu, antes da Ascensão para...- ele sentia o nó se formar em sua garganta, como um bile subindo por sua garganta, os que presentes na sala soltaram murmurios incrédulos, sabiam o que estavam por vir, estava desconfortável demais para deixar que sua ansiedade consumisse seus ossos e suas lágrimas. O ódio que ele mesmo agora sentia por ele parecia triplicar a cada vez que dizia alguma palavra, alguma verdade.

- Por favor, me diz que não é o que estou pensando - até mesmo Alexander, suplicou a Simon, estava, assim como todos, perplexo e deslocado naquele lugar, naquela conversa ou interrogatório que mais trazia tragédias do que bens. O moreno parecia decepcionado a cada palavra que ele dava, não era o único. Sabia que sua Moranguinho passara por poucas e boas, e a suposta gravidez só piorava e confundia ainda mais eles. Com o que descobrira recentemente, passou a se perguntar até onde iria a lealdade de Simon Lewis à Raphael Santiago.

- Oh, Simon...- Isabelle sussurrou abalada, sua aflição a tocou, por um momento, teve pena e compaixão por ele. Diziam que pena é a pior coisa do mundo, todos o odiavam no momento, mas é melhor do que ódio.

- Seu cretino, filho da mãe - Alaric o xingou com todo o fervor que conseguia, o olharam surpresos por alguns segundos, ele era o mais sereno e sensato, sua fúria era óbvia, mas talvez, não fosse direcionada a ele, mas com o que estavam descobrindo, o que isso significaria a eles, o Ciclo. Ao império.

- Ele me deu uma ordem quando neguei - prosseguiu Simon, em algum momento seus joelhos tinham cedido, e ele estava encolhido no chão, abraçando as próprias pernas e se balançando como uma mãe fazia para acalmar um filho. Não conseguia suportar todos aqueles olhares de julgamento, não conseguia suportar mais aquilo que remoia por anos, seu olhar estava perdido, ele estava desamparado. O encanto havia cedido, e o império havia caído. 

- É por isso que não temos segredos, Simon! - gritou Meliorn, Clary tremeu, que antes estava imóvel, aparentando ser a única na sala que não tinha entendido, ou estivesse se proibindo de concluir o que quer que o moreno tão atormentado ansiava desesperadamente se libertar. Confessar seus pecados. Meliorn estava louco, louco de segredos, louco de cada brecha que davam para se dividirem ainda mais. Contudo, como ainda poderiam discutir sobre segredos? Afinal, eles eram o motivo de tais confissões.

- E-ele segurou meus ombros - ele soluçou, não conseguia impedir a própria mente de formular o que estava dizendo, era como uma barreira começando a ruir, todos aqueles tormentos eram tão obscuros. Mas tudo parecia tão premeditado, tudo aparentava estar decorrendo conforme alguém planejava - Me ameaçou, dizia que era o certo a se fazer.

Luke aparentava ser o único que não fora dominado pelo ódio ou compaixão. Sua cabeça parecia pesar para frente enquanto ele chorava, enquanto a dor também o corroía pela culpa. Maryse estava recuperando seu fôlego sentada ao sofá, começando a finalmente entender o que estava acontecendo, seu olhar preocupado, assim como o de Jace, se ergueu para Clary. Jace, ignorando todo o instinto egoísta e talvez racional que gritava sobre ela não merecer nem mesmo uma palavra sua. Deu passos até ela, segurando-a pelos cotovelos, vendo-a à luz das velas seu rosto molhado pelas lágrimas e o olhar mais perdido que já tivera visto nela. Ele não disse nada, não fez ou moveu algo, apenas a segurou e a encarou. Vendo o desespero que consumia todo o seu corpo, Jace desejou poder abraçá-la.

- Prometa para mim - Raphael lhe dissera, o manteve entre seus braços, com a voz rígida e aflita, os olhos piedosos e calculistas - Jure para mim que fará o que estou dizendo.

- Se assim deseja - disse Simon - Diga e assim farei.

O veneno havia sido entregue. Mas naquela noite de Ação de Graças, há exatos sete anos atrás, foi onde tudo foi decretado, onde tudo mudou. Eram apenas dois homens que amavam uma mulher, que queriam seu bem e do próspero e saudoso legado. Porém tudo aquilo tinha subido a cabeça, teria o enloquecido. O veneno então estava em uma bandeja.

- Ordenou caso algo ocorresse a ele, eu deveria aderir o trono e...

Clary apertou forte a mão de Jace, que já havia deduzido o que ele iria dizer. E não poderia o culpar. Se fosse ele no lugar de Santiago, teria ordenado a mesma coisa a Simon. Afinal, Raphael, aos olhos de Jace, era apenas um louco, cego pelo amor, que faria qualquer coisa pela mulher que ama.

- Assumir o bebê como meu - ele disse, e o silêncio tomou a sala.

- Ah Lewis - suspirou Jonathan ao entrar, bufou claramente bêbado, talvez o álcool tivesse feito com que seu cérebro não calculasse a gravidade do que estava ocorrendo, mas seu lado julgativo estava obviamente em alerta - Você, definitivamente é um babaca.

- Como pôde prometer algo assim? - Clary gritou, se perguntava se existiria traição pior - Sobre o meu filho!

- Eu não podia negar, Clary - disse Simon, desesperado. Ele tivera bebido do veneno, e Clary também - Raphael disse que não poderia tolerar que seu filho carregasse seu nome se isso significasse...

- Mas, isso é impossível - anunciou Meliorn, parecendo não tão incrédulo - O Rei tinha orgulho de quem era...

- Ele não queria isso para o bebê, muito menos para Clary - Luke retrucou, havia parado de chorar, e aparentava estar aliviado por aos poucos o peso sair de seus ombros, contudo nem tudo tinha sido contado - Ao planejar os riscos da Ascensão, ele fez o que pensou ser o certo - afirmou com convicção, e eles prestaram a mais pura atenção, exceto ela, Clarissa, parecia imersa a memórias - E o legado dele. Um herdeiro Santiago, se tornaria um alvo...

- Um alvo na qual ele estaria disposto a se ajoelhar e a implorar por misericórdia - Jordan murmurou, com o instinto de pai, eles o encararam, ele estava camuflado nas sombras mal iluminadas pelo fogo da sala, e parecia feliz por isso. Kyle e sua culpa, militavam incessantemente um com outro, disputando quem o consumiria primeiro.

- Então ele me mandou assumi-lo, disse que minha fama e meu nome não afetariam na criança, ainda mais se a considerassem fruto de uma traição -...afinal, sempre disseram que eu era apaixonado por você", Simon se calou, os olhares mortais que recebia não o atingiam mais. Por um tempo, achava que ele o tivera humilhado, mas nada iria além da preocupação, da súplica, da ordem, da ameaça, tudo aquilo embutido em seu olhar inesquecível. Então se era para ser o dono do mal e da traição, que ele se tornasse infeliz por sua culpa fiel - Mesmo que a Proteção fosse os esconder, ele acreditava que  o Círculo Vermelho não desistiria de vocês - ele tomou fôlego e apertou os olhos em rendição - Raphael não queria que seu filho crescesse sem um pai.

- E decidiu que você poderia ter esse posto? - Jonathan ironizou, em uma gargalhada transtornada - A pior coisa que ele decretou - avaliou, antes de se jogar na proltona reflexivo - Isso, além de ter pedido minha irmã em casamento.

- Mas ainda não faz sentido - avaliou Peter, focado em outro quesito da história, talvez por isso todos ignorassem os dois mais bêbados, afinal, ninguém ali soava sóbrio. Pete Pete abriu um sorriso malicioso - Como ele não notou que você estava grávida?

- Não ouça eles, pequena - pediu Luke, atraindo sua atenção - Eu sou culpado, Simon é culpado. Mas Raphael não teve culpa, ele só queria o melhor para vocês... Matariam vocês dois - abanou a cabeça, Garroway desistiu - Santiago queria ver o  bebê crescer e eu também! - confessou, um lampejo de esperança passou sob seus olhos, assim como a escuridão no rosto de Clary - Me perguntei por anos onde você o escondeu e... Quando apareceu no radar atrás de Valentim deduzi que cuidava dela na Espanha ou a colocado com sua parceira Blackthorn, na ilha...- sua ansiedade transformou-se em um sorriso - Onde ele está? É um menino? Sempre disse que queria uma...

- Eu perdi o bebê - Clary sussurrou, derrotada.

Jace apertou os olhos, querendo desesperadamente a tirar daquele mundo que não a merecia. Já tinham conversado há uns anos atrás sobre filhos, ele percebera sua hesitação óbvia da parte dela sobre ser tornar mãe algum dia, porém deduziu ser apenas consequência de uma infância péssima, pais péssimos. Mas aquela dor na voz dela, a dor que ele reconheceu, era a de uma mãe.

Maryse sentiu a mágoa dela, aquela ferida nunca sarada. Então ela entendeu tudo, além de Lucian ser o causador da morte de seu noivo, quem mais amou. Era também de seu filho.

- Rainha...- culpa consumiu os corações dos que a julgaram como traidora. Meliorn, Peter e os outros, não podiam acreditar que não haviam notado. Todas às vezes, anos atrás, quando a ofereciam bebidas e ela negava, quando sugeriam saltar de Bunguee jumping ela fazia piadas... Quando ela tentava conversar com Raphael, ele sempre conseguia dizer algo para fugirem um do outro sobre tal assunto. Ambos sabiam. Ambos escondiam. Não haviam notado a dor de sua Rainha, e o que ela suportou para protegê-los.

- Quando matou Raphael, matou meu bebê. Espontâneo - ela disse, entretanto agora não havia dúvida ou mágoa, apenas a ameaça transtornada clara e eminente em sua voz - Simon me levou a um hospital e tudo que havia restado do aborto foi sangue - Clary deu passos até Luke, que paralisado arregalava os olhos - Para me salvar, Maia teve que fazer um procedimento arriscado - desamarrou suas cordas e sentiu seu coração se partir novamente em pedacinhos, como as gotas de suas lágrimas - Queria que salvassem o bebê, não a mim, mas meu corpo não o queria dentro de mim. E nunca mais vai suportar nenhum bebê - falou desesperada, sabia que poderiam a acusar de auto mutilação, com seu histórico horroroso, mas Clarissa amou aquela bebê - Ela era muito pequena, tinha apenas 16 semanas...

- Ela...- a voz, embargada de Luke era muito maior do que apenas culpa. Era puro e profundo arrependimento.

Clary limpou suas lágrimas, sorrindo mortalmente, o humor negro que percorria por suas veias como veneno mortal e viciante. A lareira se apagou e no escuro novamente ela ficou.

- Parabéns, vovô - desejou, amargamente - Era uma menina.

CONTINUA...🔥


Notas Finais


Olá princesos🧡 Como vocês estão? Espero que bem.

Uma observação, é que todas vez que eu me referir a Clary, como: Clarissa, significa que é a ruiva do passado, ou seja, Clarissa Morgenestern, Rainha Vermelha, por mais que soe confuso, acho que é até melhor assim.

Gostaria demais da opinião de vocês sobre esse capítulo em específico, afinal, acho que nem eu esperava a reviravolta do passado da nossa Foguinho, né?

Hoje o capítulo foi só de revelações... Acham que ainda terá algo a mais?

Camille foi esquecida? Não se esqueçam do salto temporal no capítulo passado, acham que terá mais confusões e traições?

E Clace? Será que o coração de Jace aguenta mais alguma traição?

Por hoje é só...🔥 Um beijo no cangote🖤🧡✨


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