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História Never Seen Before - Capítulo 12


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Capítulo 12 - Doze


Harry tinha amado Ginny Weasley.

Era fácil amar um Weasley. A coisa mais fácil do mundo, talvez. Eles tinham um senso de humor que poderia fazer qualquer um rir e uma coragem mais ardente do que qualquer outro grifinorio que Harry já tinha conhecido e muito mais bondade do que qualquer um que já tivesse passado pela vida dele. Na verdade, por onze longos anos, Harry tinha sido castigado por seu senso de humor e sua coragem, negado qualquer tipo de bondade pelos seus responsáveis.

Então, talvez fosse isso. Os Weasleys eram o exato oposto dos Durlseys, tinham tudo que os Dursleys nem sabia que deveriam ter. Ginny Weasley era o exato oposto de frio e medo e ódio, oposto da infância de Harry. Harry tinha a amado por quem ela era, e ela tinha o amado por quem ele era, não o menino que viveu, mas Harry.

Quando eles se beijavam, ele sentia como se fosse um fogo de artificio e ela fosse a chama o acendendo, e talvez aquele fosse um dos melhores sentimentos do mundo. Fazia ele se sentir melhor do que nunca, com certeza. Ela fazia isso.

E então eles terminaram.

Durante todas as férias depois disso acontecer, antes da guerra, Harry tinha se perguntado porque tinha sido tão fácil para ele só fazer isso. Por que ele tinha conseguido acabar com todo o relacionamento o fazia se sentir tão bem? E se Ginny era tão incrível e tão calorosa e engraçada, então por que tinha sido tão fácil para ele a deixar ir?

Agora, mais velho, ele sabia exatamente porque – ele sabia que não tinha sido nem um pouco fácil, na verdade.

Tinha doído. Ele tinha sentido saudade dela, todo segundo, todo dia, por semanas, e mesmo quando o tempo passou e seus sentimentos foram diminuindo, eles ainda estavam lá, e Harry ainda a checava com o Mapa dos Marotos só para ter certeza de que ela estava bem, seu coração muito acelerado. E tinha doído, mas eles estavam numa guerra, e ficar com Harry era perigoso. Era mais seguro para Ginny se eles terminassem.

Eles são praticamente irmã e irmão agora, um tipo complemente diferente de amor. Mas, tantos anos atrás, tinha sido um tipo romântico. E, tantos anos atrás, Harry tinha a amado tanto que ele colocou a segurança dela acima dos seus próprios sentimentos.

Ele a amou tanto que ele a deixou.

E, de certa maneira, era o mesmo com Draco.

Provavelmente não era amor. Não agora, não tão cedo. Mas era afeição e carinho e algo só tão perto. Algo que fazia Harry se sentir quente e feliz por dentro. Ele não tinha uma palavra para aquele estágio pré-amor, e ele não perdia tempo tentando pensar em algo.

É só, passar tempo com Draco o deixava feliz. Conversar com ele o fazia relaxar. O ver redescobrindo o mundo fazia Harry se sentir mais leve do que tinha se sentido em anos. No final, isso tudo era muito simples, mesmo que Malfoys não fossem nem um pouco tão fáceis quanto Weasleys.

Eles valiam a pena os problemas que eles traziam. Draco valia, pelo menos.

Ele ainda estava machucado. Ele ainda estava traumatizado de jeitos que Harry só podia começar a entender, e ele próprio tinha dito que Harry era a primeira pessoa a o tocar em anos.

Harry não podia se aproveitar dessa fragilidade dele. Não podia se aproveitar de ninguém, nunca poderia, mas principalmente não de Draco. Não podia nem pensar em machucar alguém que o fazia se sentir tão leve.

Então Harry entendeu o que Safiq disse.

E ele decidiu – ele tinha amado Ginny o suficiente para terminar com ela, e ele se importava o suficiente com Draco para só ser o amigo que ele precisava agora.

Mesmo se doesse em si.

Desde que fosse o melhor pra Draco, Harry estaria feliz.

 

 

Ainda haviam um monte de coisas que eles precisavam resolver, porque sempre havia, mas eles passaram mais uma meia hora naquele banheiro, a respiração de Draco se acalmando devagarzinho, o corpo dele deixando de ficar tão tenso. Eles não falaram nada. Harry colocou uma mão no ombro de Draco, sentindo enquanto ele subia e descia conforme Draco respirava, e eles ficaram em completo silêncio. Era o suficiente. Era o que Draco tinha pedido, o que ele precisava.

Então Harry só ficou lá. Ele manteve sua boca calada e deixou Draco secar suas próprias lágrimas e acalmar a si próprio. Ele deixou Draco se reerguer, só sendo uma figura calma no canto.

Era ao mesmo tempo a coisa mais fácil e mais difícil do mundo.

Depois, quando Draco disse que estava pronto para ir, Harry obviamente não o deixou voltar para a sala com Daphne, muito menos, esperando sentado com ele em outro lugar.

Era bem esperado que, quando Florence os encontrasse, fosse para discutir sobre a prisão de Daphne e o que eles podiam fazer agora, depois da confissão. O que Harry não esperava era que, na hora em que ouvisse a palavra "prisão", Draco arregalasse os olhos, se aproximando de Harry quase que instintivamente, pressionando seu ombro contra o ombro dele. Estava tremendo um pouco e, quando Harry se virou para ver o rosto dele, ele ficou surpreso com quanto medo havia naqueles olhos.

"Não Azkaban," Draco disse imediatamente.

Harry se aproximou de Draco em troca, para ele saber que Harry estava ali, que ele estava ouvindo, que ele iria o ajudar. Florence franziu o cenho.

"Eu não estava pensando em Azkaban," ela comentou, obviamente sem entender o que Draco estava pensando e porque ele parecia tão assustado. Eu também não sei, pensou Harry, mas ele se manteve calado. Quando Draco abaixou os olhos, fechando suas mãos em punhos, Florence continuou: "É um pouco demais talvez, mas se você quiser, poderia ser discutido–"

"Não," repetiu Draco, mais firme, finalmente levantando o rosto e olhando Florence nos olhos. "Eu tô falando sério. Não Azkaban. Eu não me importo– a sentença dela pode ser o que você quiser, eu não ligo, desde que ela não vá para Azkaban. É demais."

O rosto de Florence suavizou só um pouquinho.

"Tudo bem," ela disse, suave. "Tem várias outras alternativas."

E ela discutiu dita alternativas com Draco, falando sobre como um possível julgamento poderia ser, mas Harry não prestou atenção mais. Ele não conseguia. Não era capaz de se concentrar em nada a não ser no ato de olhar para o rosto de Draco e pensar no que ele queria dizer com "é demais". Seu coração se apertou. Harry achava que sabia, mas ele não gostava daquilo nem um pouco.

Depois que Florence disse que eles estavam livres para ir e que ela ia resolver todo resto, Harry tinha ordens para voltar com Draco pro Largo Grimmauld. Era o que Harry iria fazer, mas no momento em que Florence saiu, Draco se aproximou ainda mais dele, ainda um pouco trêmulo.

"A gente pode ir fazer uma caminhada?" tinha sussurrado baixinho, incerto. Toda a ideia de poder sair quando quisesse era um pouco nova e estranha para ele, depois de tanto tempo.

Harry concordou com a cabeça, se forçando a o lançar um sorriso.

Eles tinham que Aparatar perto de Grimmauld, no caso de Florence resolver checar, mas depois disso, eles caminharam até o cafezinho para onde sempre iam quando saiam juntos, tanto que a garçonete já os reconhecia e já sabia que mesa eles sempre pegavam. Era um lugar silencioso, o que Draco gostava, mas não era vazio. Ele não falava, mas em algum momento Harry tinha começado a o entender apesar de todas as coisas não ditas, e ele sabia que Draco ficava feliz quando haviam mais pessoas ao seu redor.

Talvez o ajudasse a se esquecer do frio e da solidão de Azkaban. Talvez Harry soubesse disso porque era o mesmo com ele, a razão pra ele amar ficar no dormitório da Grifinoria depois de voltar das férias. Porque eles eram, de certa maneira, dois lados da mesma moeda.

Talvez.

O sol estava quase se pondo. Todo aquele assunto de assassinato tinha feito o dia passar em um piscar de olhos. Só alguns raios de sol passavam através dos muitos prédios no centro de Londres aqui e ali, na posição exata no céu para iluminar tudo e todos com um brilho meio dourado.

Era bonito. Harry se sentia frio, porém. Ele estava pesado com preocupação, olhando para o rosto de Draco a cada segundo. Uma vez que eles estavam sentados e já tinham feito seus pedidos, Harry não aguentou se segurar mais.

"Se você está a perdoando porque você acha que mereceu–"

"Não é isso," Draco cortou, se virando para ele com olhos muito frios. Harry piscou, surpreso. Fazia um bom tempo que ele não o via assim. Um bom tempo que Draco não tinha razões para agir defensivamente quando estavam só ele e Harry.

"Então–"

"Minha prisão não foi sobre mim, mas sobre o que eu representava," Draco disse, frio e sombrio e distante, quase como se ele estivesse fugindo de Harry, e o enchia de pânico, o enchia de gelo e preocupação e uma vontade de abraçar Draco e o dizer para abaixar as suas barreiras, por favor. "A prisão da Daphne não vai ser sobre ela. Me deixa ser egoísta. Me deixa fazer isso ser sobre mim."

O coração de Harry acelerou, sua garganta seca. Era melhor do que ele esperava que ia ser, mas ele ainda não entedia.

"Como assim?" perguntou.

Draco hesitou. Ele abaixou seus olhos e sua voz da próxima vez que falou, seu sussurro quase que desesperado. Ao seu redor, os Trouxas estavam completamente alheios a tudo.

"Eu não conseguiria viver sabendo que ela está em Azkaban. Eu estava lá, Potter. Lembra disso? Eu não consigo." Draco balançou a cabeça. Ele olhou de volta para Harry. Apesar do quanto estava encolhido na sua cadeira, seu rosto estava cheio de certeza. "Então eu não vou a mandar para lá. Esquece o que ela fez. Isso é sobre mim. Isso é egoísmo. É o que eu preciso."

Harry engoliu em seco.

"Tudo bem," disse, levantando as mãos. "Tudo bem. Eu entendo."

Draco revirou os olhos.

"Não," resmungou, "você não entende."

"Mas eu quero."

Harry soou um pouco mais honesto do que planejava. Mas quando Draco o olhou, surpreso com o tom da voz de Harry, Harry soube que não tinha sido um erro falar daquela maneira.

Draco pegou o cardápio muito rapidamente, apesar deles já terem ido lá vezes o suficiente para Draco saber o que queria pedir. Ele se escondeu atrás do cardápio, mas Harry ainda pôde ver que ele estava corando. Ele sabia o que o homem estava fazendo.

"Isso é meio infantil," Harry comentou.

"Eu não sei sobre o que você está falando, Potter."

"Eu vou ter que te perguntar em algum momento. Você não vai poder se esconder."

"Perguntar o meu pedido?" disse Draco, falsa inocência em sua voz. "Eu estou pensando em alguma coisa doce–"

Harry puxou o cardápio para baixo, olhando bem no fundo dos olhos arregalados e intensos de Draco enquanto perguntava:

"Você quer falar sobre Daphne?"

"Não," Draco disse imediatamente. Ele abaixou os olhos, as bochechas ficando ainda mais rosadas. "Eu quero– eu quero comer."

Harry sabia que não podia o obrigar a falar, porque isso ia ser ainda pior. Ele suspirou.

"Tudo bem também," disse.

"Tudo bem," repetiu Draco, a voz oca. "Vamos só comer, então."

"Vamos então."

Havia um pouco de desconforto entre os dois, uma tensão no ar, mas não era tão ruim quanto teria sido se eles tivessem a mesma conversa algumas semanas atrás. Dava para ignorar. Dava para aguentar.

Eles pediram duas fatias de bolo de chocolate, porque Harry achava que, depois de tudo, Draco merecia algo bem doce e bolo foi a primeira coisa a passar pela cabeça de Harry. Foi uma boa ideia, é claro. Você nunca podia errar com bolo de chocolate. Era leve e a cobertura tinha gosto de morango e baunilha. Era tão gostoso que Harry quase conseguiu comer o seu pedaço em paz e ignorar o quão apertado seu estômago estava.

Quase.

Era o suficiente.

 

 

Quando eles chegaram no Largo Grimmauld, o silêncio entre eles estava ainda mais pesado. Draco estava com as suas mãos nos bolsos de seu casaco, parecendo mais tenso e cansado do que Harry tinha o visto em um bom tempo. As olheiras dele pareciam maiores do que nunca.

Ele não queria falar sobre isso.

Harry não queria o obrigar.

Então ele apenas disse:

"Eu vou preparar um banho pra você."

Draco se virou, sobrancelhas franzidas.

"De novo?" ele perguntou.

Eu não sei o que mais fazer para te ajudar, pensou Harry, mas as palavras não saíram, então ele apenas deu de ombros como se não fosse nada demais, como se ele não se importasse tanto que era como se um elefante tivesse se ajoelhado em cima do seu peito. Começou a andar em direção ao banheiro, pedindo para Draco o seguir com dois dedos.

"Vamos lá, Malfoy."

Para sua surpresa, Draco veio.

Harry encheu a banheira até o topo de água com ajuda da sua varinha, a deixando a temperatura mais perfeita o possível, não pelando e não congelando, só perfeitamente morna. Ele também fez um pouco de espuma, só porque ele achou que seria relaxante, e que Draco precisava de algo relaxante em um dia como esse. Enquanto Draco tirava sua roupa e entrava, Harry não olhou, é claro. Ele respeitava o homem. Ao invés disso, ele foi o pegar um novo sabonete, porque o que tinha ali havia acabado.

Quando voltou, Harry se ajoelhou do lado da banheira, passando uma mão pelo cabelo de Draco com um sorriso que ele esperava que fosse amigável e relaxado.

"Seus ombros estão bem tensos." Talvez ele não fosse muito bom com isso. Depois de um segundo, Harry adicionou: "Mano."

Draco se retrocedeu contra si mesmo, cenho franzido.

"Eu sei," sussurrou.

"Quer uma massagem?"

Harry esperou uma confirmação. Draco cerrou os olhos na sua direção, tão suspeito quanto estava surpreso, e ele olha que ele estava muito surpreso com a oferta de Harry.

"Eu não te entendo," ele disse, sua voz deixando claro que aquilo era uma terrível acusação. Draco aproximou seus joelhos de seu corpo e os abraçou com força, tão encolhido que metade de seu rosto estava submerso. Harry deu de ombros, estendendo um braço por cima da banheira e passando sua mão pela água, fazendo círculos com os seus dedos.

Havia um aperto na sua garganta. Havia uma pedra no seu peito.

"Eu sou bem simples, na verdade."

"Não, você não é." Draco segurou o dedo dele bruscamente, os olhos queimando enquanto deixava de se encolher tanto. Ele parecia muito bravo, de repente. Ele estava olhando para Harry como se Harry tivesse, de alguma maneira, o insultado. "Você é a pessoa mais confusa do mundo, Potter. Eu não consigo – por que você iria estar aqui, depois de tudo? É o seu trabalho, eu sei, mas você faz tão mais do que só isso e eu não entendo. Você sabe tudo que eu fiz. Como você ainda consegue me olhar nos olhos?"

Harry piscou, tirando sua mão do aperto de Draco.

"Isso de novo?" perguntou, um pouco de irritação em sua voz. Ele suspirou então, mais cansado do que qualquer coisa, e Draco se virou para ele, ainda parecendo bravo e confuso e como se nada daquilo fizesse sentido. Como se ele esperasse que Harry desaparecesse a qualquer segundo. Era de partir o coração, e também de dar nos nervos. "Malfoy, é porque você é mais do que os seus erros."

O olhar no rosto de Draco, olhos arregalados e a boca meio aberta, deixava claro que ele nunca tinha pensado em algo assim, como se aquela fosse a coisa mais chocante e inacreditável que já tinha ouvido em todos os seus anos de vida.

"Você acha mesmo?" ele sussurrou, mal conseguindo esconder a esperança que transbordava pela sua voz e seus olhos.

De partir o coração.

"Eu acho," concordou Harry. Ele lambeu seus lábios. "E eu espero que as pessoas achem o mesmo de mim e dos meus erros. E, quer saber Draco, alguém uma vez me disse que o mundo não é dividido entre os bonzinhos e comensais da morte. Nós todos fazemos coisas boas e coisas ruins. É inevitável. Desde que a gente se arrependa das pessoas que nós machucamos e tentemos ser melhor hoje do que fomos ontem, é só isso que realmente importa."

Draco piscou.

"Você é bem filosófico," ele disse.

Harry riu. De todas as coisas que ele já tinha sido chamado, como herói e bruxo e aberração, essa talvez fosse uma das mais engraçadas. Quando ele viu que Draco, com as sobrancelhas franzidas e os olhos chocados, estava sendo sincero, Harry fez uma careta.

"Eu só falo um monte de merda e clichês," ele disse sinceramente, "e então eu espero que alguma coisa soe inteligente e bem planejada. Mas obrigado pelo elogio."

Draco balançou a cabeça.

"Não era pra ser um."

Isso fez Harry sorrir, porque é claro. É claro que não ia ser um elogio. Era Draco. Então, Harry observou o rosto de Draco, se endireitando. Houve um segundo de silêncio, uma pausa que parecia mais barulhenta do que uma centena de crianças gritando, e sorriso de Harry foi lentamente desaparecendo, até que ele passou uma mão pelo seu cabelo, decidindo que, valia a pena ao menos falar alguma coisa. Ao menos tentar.

"Ei, Draco?" ele chamou hesitantemente. Draco o olhou, o que quase foi o suficiente para fazer Harry perder a sua coragem e desistir. Se ele não fosse um grifinório, ele provavelmente teria feito isso, mas ele era, e ele era um Potter. Isso o fazia muito burro. Harry disse: "Eu sei que as coisas parecem ruins, agora, e eu sinto muito por Daphne, mas se significa qualquer coisa pra você, mesmo que só um pouquinho, então eu quero que você saiba que você não está sozinho. Ao menos você tem a minha amizade."

E foi isso.

Essas palavras.

Draco estava pasmo. Harry não tinha o visto tão surpreso nem enquanto ele ouviu que Daphne tinha tentado o matar. O coração de Harry estava muito acelerado, tudo dentro dele muito cheio de medo, e aquele talvez fosse o momento mais importante da sua vida, mais importante até do que seu último duelo com Voldemort.

Ele se preparou para ser negado. Para Draco dizer que não queria a amizade dele. Que ele estava praticamente preso a Harry, que Harry era praticamente os novos Dementadores dele.

Lentamente, Draco piscou.

"Amigos?" ele perguntou, e do jeito que ele falou, parecia que aquela era uma palavra completamente alien, um conceito que ele nunca tinha ouvido antes. Harry se encolheu um pouco. "É isso que nós somos?"

"Você não quer ser?" perguntou, sua voz baixinha e cheia de medo.

"Não."

Foi pior do que se ele tivesse sido socado. Harry arregalou os olhos, e ele estava pronto para entrar em pânico, ele estava pronto pra fugir e se esconder em vergonha e sabe se lá o que, mas então um dos dedos de Draco trombaram com a mão de Harry onde ela estava se apoiando na beira da banheira, e– e, por um segundo, Harry quase não sentiu, de tão delicado e tímido que era o toque de Draco. Ele não segurou sua mão, muito menos entrelaçou os dedos deles, mas ele correu seu polegar pelas juntas dos dedos de Harry, muito suavemente, não o olhando nos olhos.

"Não amigos," continuou, baixinho.

A ficha do que Draco queria dizer com isso não caiu para Harry imediatamente, mas uma vez que ele entendeu, juntando as palavras com o toque, Harry olhou pro rosto de Draco de novo, seus olhos arregalados. O homem estava olhando pra baixo, suas bochechas corando, seus ombros encolhidos como se ele estivesse preparado para Harry gritar com ele.

Harry engoliu em seco. Ele não tinha pensado– nunca nem tinha nem passado pela sua cabeça que, talvez, houvesse a mínima possibilidade de Draco gostar dele também. O coração dele acelerou tanto que doeu, quase como se hoivesse uma picareta ligada dentro do seu peito.

O tempo parou.

A respiração de Harry parou.

Tudo parou.

Harry piscou.

Ele olhou para Draco.

Draco olhou para baixo, para água na banheira.

"Posso fazer uma coisa?" Harry perguntou, tão, tão baixinho. Como se ele tivesse com medo de quebrar o momento. As sobrancelhas de Draco se cerraram, mas ele não se virou.

"Tipo o que?" perguntou, sua voz muito defensiva e fechada, indo ficar fria de novo. Aquilo não podia acontecer. Não agora. Harry se aproximou ainda mais, tocando no queixo de Draco e o virando na sua direção com delicadeza.

"Isso," ele sussurrou, e o jeito como ele aproximou seus rostos deixou claro ao que ele estava se referindo. Harry ainda esperou por uma resposta, uma confirmação de que era isso que Draco queria.

Ao invés de o responder, Draco acabou com o espaço entre eles ele mesmo.

O beijo foi suave. Não houve nenhuma explosão, só algo suave e lento e delicado de um jeito que as coisas tão dificilmente eram na vida de Harry, mas que ele tanto precisava. Que ele sempre precisou, que era o suficiente para o querer fazer chorar de alivio, derreter contra Draco. Ele ainda podia sentir o gosto do chocolate, os morangos. O gosto quase bom demais para ser verdade, apesar de que aquilo talvez fosse só Draco.

Talvez fosse só Draco que fosse tão incrível que Harry não conseguia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. Tão incrível e doce. Tão, tão impossivelmente doce. Era como se o mundo inteiro tivesse parado de girar naqueles segundos que pareceram anos em que eles se beijavam.

Harry segurou uma das mãos de Draco, porém, e ele hesitou, notando uma coisa além da água indo pra todo lado. "Draco?" ele perguntou baixinho e com preocupação, indo um pouco para trás. Sua mão tocou o queixo do homem de novo, bem delicadamente. "Draco, você quer que eu pare? As suas mãos estão tremendo."

"Não," Draco soltou imediatamente, negando com a cabeça rápida e desesperadamente, "não. Eu – é um tipo bom de tremer."

Harry soltou uma risadinha, se sentindo sorrir, se sentindo ficar tão mais leve, como se o peso do mundo tivesse de repente sido tirado de seus ombros.

"Isso existe?" perguntou.

"Eu não sabia também," disse Draco, e ele olhou para as suas mãos trêmulas, os olhos cerrados quase com indignação, o que fez Harry sorrir ainda mais, "mas aparentemente existe. É só que– eu não sei. Eu queria te beijar fazia tanto tempo."

"Eu também." Era verdade, e tão surpreendente para Harry quanto parecia ser para Draco. Ele sentiu necessidade de repetir, só para ter certeza que Draco acreditava. "Eu também queria te beijar fazia tempo, Malfoy. Eu demorei pra perceber que era isso que eu queria, mas– eu até sonhei com você."

Os olhos de Draco brilharam, tão cheios de esperança, tão incríveis que faziam o peito de Harry se apertar. Ele sorriu para Draco, se levantando de onde estava ajoelhado do lado da banheira e dando um passo para trás.

"Espera um pouco," avisou, já tirando a sua blusa. Ela estava um pouco molhada, mas Harry nunca tinha se importado menos com isso, ainda mais enquanto a jogava pro lado e ia tirar as suas calças também.

Draco se sentou, o encarando com as sobrancelhas franzidas.

"O que você tá fazendo?"

Ao invés de responder, Harry sorriu e perguntou:

"Tem espaço pra mais um nessa banheira?"

Draco soltou uma risada rouca e surpresa.

"Você ainda pergunta?" ele disse, e ele soava um pouco desesperado para beijar Harry de novo, um pouco desesperado para ser tocado e segurado depois de tanto tempo. Harry acelerou para tirar as suas roupas.

A banheira não era tão grande assim. Com certeza não foi feita para duas pessoas e até o menor movimento que eles fizessem era o suficiente para um monte de água esparramar para fora. Draco observou o desastre com um sorriso que estava entre divertido e preocupado.

"Potter," ele chamou. Harry deslizou em direção a ele, o beijando. Draco o beijou de volta, mais profundo do que antes, um pouco mais pesado e com mais firmeza, até que ele foi um pouco para trás e repetiu: "Potter, a água vai ir pra todo lado."

Mesmo com a água da banheira quente como estava, Draco ainda estava muito frio enquanto Harry o segurava em seus braços. Harry beijou o pescoço dele, o dando uma pequena mordidinha, só para ouvir Draco arquejar.

"Foda-se a água," sussurrou.

"Vai ser uma bagunça. Você vai alagar o banheiro."

"Nós somos bruxos. Eu seco tudo com um feitiço depois."

Draco revirou os olhos. Harry deixou a sua cabeça pender um pouco para trás, o observando com atenção. Isso fez Draco se revirar, um pouco de vergonha crescendo em seus olhos. "Potter," ele reclamou, provavelmente tentando soar como um aviso, mas só fazendo Harry sorrir.

As bochechas dele estavam muito, muito vermelhas. Seus lábios estavam um pouco inchados, suas pupilas dilatadas, seu cabelo uma bagunçada molhada e cheia de gotas d'água. Harry queria ter aquela imagem na sua cabeça pro resto da sua vida, queria comprar uma penseira só para guardar aquele momento, e ele não conseguiu deixar de encarar o corpo de Draco, pela primeira vez se deixando o observar de verdade.

A água tinha abaixado um monte, com o quanto eles tinham se movido. Harry podia ver um monte do corpo de Draco, e ele era lindo, ele realmente era, mas não era só isso, e doía. Doía bem dentro de si. Harry colocou uma mão sobre o peito de Draco com cuidado. Ele tinha ganhado peso essas últimas semanas, mas ele ainda estava magro demais. Harry ainda podia contar as suas costelas, colocar um dedo no espaço entre cada uma. O enchia de um instinto protetor, de um calor bem no fundo do seu estômago.

Isso não foi a única coisa que Harry percebeu.

Os cortes cicatrizaram nos anos entre o acidente com o Sectumsempra e agora, pararam de ser tão vermelhos conforme se tornaram pálidos e retorcidos na pele já muito naturalmente pálida do peito de Draco, mais brancas do que o resto do corpo dele apesar disso parecer impossível. Apesar de que, no momento atual, ele estava todo meio rosado, corado por causa da sua vergonha e seu desejo.

Harry tocou a maior cicatriz com a ponta do seu dedão, lentamente a traçando e tomando o cuidado para não fazer nenhuma pressão, incerto se ela ainda é mais delicada. Draco ainda soltou um gemido, fechando os olhos e se aproximando.

"Potter," ele arquejou de novo, soando ainda mais desesperado.

Ele estava tremendo. Tudo que Harry tinha que fazer era o tocar, só uma vez, e era o suficiente para ele começar a tremer e desmoronar em seus braços, parecendo tão maravilhosamente, lindamente destruído, cada roçar dos dedos de Harry ao mesmo tempo demais e tudo que ele queria. A ereção dele estava maior, e a de Harry também, quase dolorosa. Quando eles se moveram, se aproximando ainda mais, um monte de água caiu pra fora, e eles não deram a mínima.

"Harry."

Uma única palavra, tão quebrada que quase nem parecia um som de verdade, um ofego de um homem que nem parecia se lembrar como respirar. Talvez fosse muito a cara deles que aquela fosse a primeira vez que Draco o chamasse pelo seu primeiro nome, logo numa situação como aquela. Fazia sentido, de certa maneira. Era bem Draco.

Harry parou.

Os olhos cinzas dele estavam arregalados. Assustados.

"Eu posso parar," Harry disse rapidamente. "Eu posso sair daqui e pegar uma toalha e ir fazer chá pra gente. Se é só isso que você quer, eu posso fazer."

Os cílios de Draco tremeram, e ele deixou sua cabeça pender para trás, respirando bem devagar, bem desesperadamente. Seus braços estavam ao redor do pescoço de Harry, tinham estado fazia um tempo apesar de Harry não se lembrar desde quando, e as mãos dele pararam na cabeça de Harry, se fecharam em seu cabelo.

"Por favor," ele ofegou, "continua."

Harry deu um beijo na cicatriz no ombro dele, sentiu o quão trêmulo e o quão lindo Draco ainda estava embaixo de si, e ele sorriu contra a pele irregular e molhada apesar de não "continuar" como Draco pediu, apesar de ainda querer ter absoluta certa e, por isso, parar e perguntar:

"Tem certeza?"

Através de cílios muito pesados, Draco o lançou um olhar levemente irritado, levemente fraco demais para sentir irritação, piscando. Ele soltou o cabelo de Harry, deixando seu dedo descer pelo maxilar dele e dar um pequeno aperto em seu queixo.

"Você," ele disse, a voz muito, muito rouca, aproximando seus rostos ainda mais, "faz eu me sentir bem– bem seguro, Potter." Algo afiado atingiu Harry no estômago, bom demais para ser chamado de uma dor, desfazendo cada pensamento ou lógica que ele podia ter, o enchendo de tanta felicidade e carinho que ele nem aguentava, não mais. Ele tinha deixado qualquer tipo de racionalidade para trás, qualquer tipo de hesitação. Draco piscou de novo, olhando para seu rosto um pouco, e adicionou: "E quente. Bem quente, por todo o meu corpo."

Harry sufocou uma risada contra o ombro dele, dando uma pequena mordida na pele já sensível de Draco. O homem soltou um gemido baixinho.

"Ah," Harry disse, sorrindo, "eu faço?"

As bochechas de Draco ficaram ainda mais vermelhas. O coração de Harry acelerou, sua pulsação alta em seus ouvidos. Ele faria qualquer coisa por Draco, nesse exato momento. Ele destruiria o mundo bruxo inteiro e o reergueria novinho em folha, para ter Draco embaixo de si como ele estava agora, tão arrasado e ainda assim tão perfeito, vulnerável e tremendo e se sentindo seguro, de acordo com as suas próprias palavras.

"Eu te odeio," ele sussurrou.

O sorriso de Harry aumentou. Ele beijou o ombro de Draco de novo, e foi descendo, beijou seu peito e sua barriga, se submergindo mais na água enquanto ela caia pra fora. Harry beijou e tocou em cada cicatriz que ele conseguia encontrar no meio do caminho, tão lentamente quanto ele queria as beijar, porque Draco era tão lindo, porque eles tinham a noite inteira, eles tinham o resto de suas vidas, da eternidade.

"Não," Harry sussurrou contra Draco, "você não me odeia. Eu faço você se sentir seguro, lembra?"

Draco arquejou, o apertando. Mais um monte de água foi embora. Draco cerrou os olhos, sua cabeça pendendo pra trás e se apoiando na borda da banheira. "Eu espero que você morra."

"Mas se eu morrer, quem vai fazer isso com você?"

Harry se levantou um pouco, deixando sua mão ir pra baixo da água, segurando a ereção de Draco. Ele sentiu Draco parar de respirar, mãos voltando para o cabelo de Harry enquanto Harry o tocava, só começando. Draco gemeu e ele tremeu e ele se desfez ainda mais do que já tinha se desfeito, quebrou em um milhão de pedaços naquela banheira até não ser nada além de um corpo trêmulo.

"Nós não deveríamos," ele sussurrou.

Harry passou seu dedão pela ereção dele.

"Por que não?" perguntou, hesitando.

"Porque você é o menino que sobreviveu e eu–"

Harry revirou os olhos.

"Foda-se isso," cortou. Ele sorriu para Draco. "Seja egoísta Draco. Lembra? Eu vou cuidar de você. Sempre. Então me deixa te mimar."

Draco piscou.

"Você realmente quer isso?"

"Mais do que qualquer outra coisa."

E Harry.

Harry nunca estava tão certo de nada em toda sua vida.

Principalmente quando Draco o puxou para outro beijo.

Principalmente aí.

 

 

No dia seguinte, Draco ficou dormindo até tarde.

Eles não usaram nenhuma cama que já havia no Largo Grimmauld, ainda não conseguiam entrar no quarto de alguém que tinha morrido. Mas, acontece que, e eles realmente deveriam ter pensado nisso antes, Harry podia transfigurar uma cama bem confortável e grande na sala, usando o sofá. Grande o suficiente para eles dormirem lado a lado. Para eles fazerem mais coisas lá, sem terem medo de cair.

Eles ficaram acordados até bem tarde na noite anterior. Usaram vários cômodos daquela casa para fazer várias coisas diferentes. Tinham caído na cama exaustos.

Era quase meio dia, agora. Draco ainda estava dormindo.

Ele ainda estava, tecnicamente, de condicional. A maior parte do mundo bruxo ainda o odiava, e Harry ainda odiava o seu emprego e estava só esperando para se demitir. O banheiro ainda estava bem molhado, porque Harry tinha estado cansado demais para o secar. Florence ainda iria chegar mais tarde aquele dia, e a não ser que Harry quisesse explicar porque de repente havia uma cama na sala – e só uma inclusive –, ele iria ter que acordar Draco e voltar com o sofá. Ele iria ter que o acordar de qualquer maneira, porque Florence ia ver para falar com o próprio Draco. Falar sobre Daphne. Harry iria ter que falar sobre eles com Draco, depois. O que isso significava, o que eles queriam pro futuro.

Tudo isso ainda existia.

Não ia ser fácil, o que quer que eles decidissem.

Ainda haviam um monte de coisas que eles precisavam resolver, porque sempre havia e sempre haveria, mas Draco estava dormindo. Draco estava com a cabeça apoiada em seu peito, confiando em Harry o suficiente para cair no sono em cima dele, completamente pelado e vulnerável e relaxado. O sol estava entrando pelas janelas, os iluminando só um pouquinho. Quando Harry mexia no cabelo de Draco, ele ronronava como um gato, ainda em seu sono, e se aproximava de Harry ainda mais, apesar disso ser impossível.

E Harry podia ser egoísta, só dessa vez.

Draco podia dormir um pouco mais.


Notas Finais


Antes de escrever cada um dos capítulos, eu sempre faço uma descrição bem detalhada para poder me guiar, separada numa lista com vários pontos que, de vez em quando, pode sozinha ter mais de mil palavras. Esse cap. só teve dois pontos: -muitos sentimentos e -sexo na banheira. É um ótimo resumo do que acontece. De primeira eu ia fazer uma descrição bem mais longa do que acontece na banheira, mas eu estava tendo um bloqueio muito grande acabando essa cena e eu decidi que eu preferia acabar ela assim do que escrever algo maior, só que com uma qualidade meio merda.

Esse vai ser o último capítulo, aliás. Eu tenho um epílogo já planejado, mas é isso e depois essa fic tá terminada.


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