História Névoa - Capítulo 8


Escrita por:

Postado
Categorias Yuri!!! on Ice
Personagens Georgi Popovich, Mila Babicheva, Victor Nikiforov, Yuri Katsuki, Yuri Plisetsky
Tags Terror, Yoi, Yurionice
Visualizações 40
Palavras 5.370
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Lemon, LGBT, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Survival, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 8 - Encurralado


A porta do quarto estava trancada. Viktor estava deitado na cama, a cabeça apoiada no colo de Yuuri. Nenhum deles havia questionado o arranjo, ou de onde surgira. Yuuri apenas pediu para que Viktor se deitasse, foi até a porta, fechou-a e, quando voltou, Viktor o esperava, apoiado nos cotovelos como se soubesse o que ia acontecer.

E agora estavam em silêncio. Yuuri mexia nos cabelos louros como quem tenta preservar algo. Uma inocência perdida, uma ingenuidade. Embora, talvez, preservar não fosse a palavra. Recuperar, sim, queria recuperar algo que percebia, ora ou outra, na postura e na voz de Viktor. Mas sempre tão oculto pelas camadas de confiança e autoridade.

Sabia que Yuri estava lá desde o primeiro dia por Viktor. Mas quanto Viktor revelava de si mesmo quando prezava tanto pela imagem?

Quem era Viktor, para início de conversa?

Era estranho. Yuuri não saberia responder. E mesmo assim, era como ter um pacote fechado nas mãos, cujo conteúdo era importante, independente de qual fosse. Iria protegê-lo, uni-lo da melhor forma, garantir que ninguém arrancasse de seus braços. Ao menos enquanto tivesse o direito.

Puxou-o, sem notar, para mais perto. E lembrou-se do tom nostálgico com o qual ouvira sobre sua mãe.

— Nadya. — Murmurou, limitando os movimentos para identificar que reação teria. Viktor ficou tenso, e não relaxou mesmo ao rir.

— Então eu perdi mais do que corpos e monstros.

Yuuri voltou a mexer em seus cabelos. Só conseguia pensar no quão macios eram.

— Você não me contou muito. Me falou o nome dela, mas eu não conseguiria repetir. — Abafou o riso no ombro, sentindo-se mais leve ao ser acompanhado. — E falou que ela te contava histórias antes de dormir.

Viktor fez um som com a garganta, ao mesmo tempo absorvendo a informação e pedindo que continuasse. Yuuri fingiu pensar a respeito, embora pudesse citar quase cada palavra dita por Viktor naquela tarde.

— Você não... Chegou a dizer nessas palavras, mas deu a entender que ela era a pessoa mais próxima a você. Na Rússia.

— São Petersburgo. — Yuuri reparou como seu sotaque ficava mais forte ao falar da cidade. E como isso sempre acontecia quando Viktor falava de casa, ou do seu passado em geral. — Eu disse algo sobre a cidade?

— Não. — Olhou para baixo. Viktor observava uma das janelas com certa nostalgia, talvez. — Só falou da sua mãe. E de uma... Empregada?

— Sasha. — Sim, era nostalgia. O que não aparecia nos olhos, o pequeno sorriso denunciava. — Minha mãe uma vez disse... Viktor, você sabe por que Sasha tem tantas dores de cabeça? É claro que eu não sabia, eu devia ter uns... Oito, nove anos na época. E ela me respondeu que... Havia um cervo. Um cervo que visitava nossa casa todas as noites. E por onde ele andava, deixava um rastro de diamantes. Uma vez Sasha havia dormido do lado de fora de casa, e a neve havia coberto seu rosto quase por inteiro. Então o cervo... Sem querer encostou uma das patas em sua testa. E desde então Sasha tinha que tomar cuidado, pois havia um... Diamante. — Riu, contido e incrédulo. — Escondido em sua cabeça.

Yuuri não soube o que responder. O tom de Viktor apenas transportava-o para uma época desconhecida, um lugar sobre o qual não tinha referências.

— Eu acho que ela só— Nadya, minha mãe no caso. Eu acho que ela só queria trazer algo da antiga vida de Sasha pra nossas vidas. Sabe, minha mãe sempre morou na cidade. Ela foi educada para participar de festas, enaltecer o marido... E meu pai era perfeito pra isso.

— Perfeito para...? — Franziu o cenho, falando tão baixo que foi uma surpresa Viktor responder.

— Casar com ela e receber elogios. — Saiu do colo de Yuuri, apoiando as costas na cabeceira da cama. — Você viu a pintura no meu quarto. Como o descreveria?

Yuuri pensou a respeito. Sabia quais eram as óbvias impressões: um homem sério, autoritário, até controlador. Viktor jamais havia escondido o fato mais do que havia escondido qualquer informação sobre seu passado. Mas para além do que os olhos viam, o que encontraria? Algo na pintura, talvez. Na postura daquele homem, suas roupas, na forma como apertava o ombro de Nadya, como usava a outra mão para segurar a borda do casaco.

— Ele... Era apegado ao que tinha, acho...? Pareceu alguém que possui muito e... Eu não sei. — Começou a roer as unhas da mão livre, distraidamente. — Valoriza o que tem?

Viktor riu. Uma risada quase cruel, que estranhamento não incomodava Yuuri.

— Você deveria conhecê-lo, ele iria amar isso. — Fechou os olhos, balançando a cabeça como se tivesse algo azedo na boca. — Não, esqueça. — Suspirou, voltando a deitar-se no colo de Yuuri. — Mas você não está errado, totalmente. Ele é alguém que quer parecer ter muito.

Yuuri abriu a boca, prestes a dizer algo conclusivo, quando apenas um som surpreso lhe escapou. Agradeceu não estar sendo observado, sentindo-se ridículo, mas ainda confuso acima de tudo.

— Então ele...

— É... Complicado. As pessoas daqui têm muito ou tem pouco. Não é como na Inglaterra, onde o seu nome tem um peso maior que a fortuna. — Buscou Yuuri com os olhos, sorrindo infantil. — Vamos ver se as lições tem surtido efeito. Samuel Richardson, autor de um livro em formato de cartas.

— Eu não sabia que seria testado. — Balançou a cabeça, mas já estava envolto na brincadeira. — Pamela era o nome do livro, e... Ele era sobre... Uma mulher.

— Chamada Pamela, muito bom. — Viktor afirmou com seriedade.

Yuuri riu, cogitando bater de leve em sua testa. E com espanto percebeu que tinha intimidade para tanto.

— E ela escreve cartas para... Seus pais, no começo. — Prosseguiu, afastando a ideia anterior.

— Até o final, eles só param de receber.

— Isso. Porque ela foi... Trancada em casa. Na casa do homem para quem trabalhava.

— E por que isso? — Viktor ergueu o rosto e Yuuri aproveitou para afastar o cabelo de seus olhos. Sua voz estava mais baixa ao responder.

— Porque ele era apaixonado por ela. — Fechou os olhos. — Não. Ele só... Ele a queria. E tentou toma-la. Várias vezes, contra a sua vontade. — Ao abrir os olhos de novo, algo do momento anterior havia se perdido. Expirou, tentando disfarçar o desapontamento. — Mas ela não podia aceitar porque queria ser tratada como igual.

— Mas ela não podia. — Viktor incentivou.

— Não, porque... Ela era da classe trabalhadora. E ele um homem da elite. Viktor? — Interrompeu-o quando este tentou dar continuidade à explicação. — O que isso tem a ver com... O seu pai?

— Verdade! — Seu rosto se iluminou. — Bem lembrado. Então, sobre o meu pai. É, essa história não tem muito a ver com ele.

— Viktor!

— A princípio! — Defendeu-se enquanto ria, erguendo as mãos. — Mas serve pra entender uma coisa, Yuuri. Aqui associamos o poder ao dinheiro. Mas há lugares em que há mais do que isso. Há uma... Imagem. Um nome de família, um título, que te coloca acima dos outros.

— Mas isso é... Ilusório. — Havia uma pergunta escondido em sua fala.

— É, mas ainda existe. E as pessoas usam para tudo. Meu pai, por exemplo, ele... — Viktor abriu a fechou a boca mais de uma vez, e a cada tentativa, a frustração crescia em seus gestos. — Ele só... Eu... — Grunhiu, ficando de pé. Yuuri sentiu falta do peso em suas coxas tão logo o perdeu. — Eu não sei se vai fazer sentido, Yuuri. Mas ele... Ele só me deixou vir até aqui por conta disso. Entende?

Yuuri tombou a cabeça para o lado, deixando claro que não, não entendia. Mas queria entender.

Viktor passou a mexer nos fiapos da camisa, algo a perturbá-lo.

— Eu sou uma aberração, Yuuri.

— Eu não sou como ele. Não que isso diga muito, ele se acha diferente da maioria. — Jogou os ombros. — Mas não é uma questão de dinheiro. — Exclamou algo em russo que Yuuri sabia ser uma exclamação qualquer. — Olhe esta casa! Você pode revirá-la, o máximo que vai encontrar de valor são joias da minha mãe que ela recebeu de herança.

Yuuri tomou-lhe o pulso, fazendo movimentos circulares com o polegar para oferecer algum conforto.

De repente o rosto de Viktor se abriu.

— Yuuri, eu— Eu já sei.

— O que? — Aguardou ansioso alguma revelação a mais sobre Viktor. Sobre seus pais, ou a família da mãe, quem sabe.

— Quando sairmos dessa casa, e sim, quando, porque já sabemos, bem, em parte ao menos, com o que estamos lidando. Mas não importa, o que eu quero dizer é. — Tomou suas mãos. — Quando sairmos daqui, eu quero que você fique com elas, Yuuri.

— Com elas...? Espera. — Apenas então compreendeu. — Viktor, não, eu não posso—

— Por favor. Olha, eu sei que não é muito—

— Viktor, não é—

— Mas eu quero fazer isso.

Era tão difícil relutar quando ele adotava aquela expressão. Como se o mundo fosse um grande parque e os anos em suas costas não significassem nada. Yuuri tentou relutar, e percebeu que sua voz não saía.

Viktor praticamente saltou na cama, ainda de pernas cruzadas, ao ver sua ideia sendo gradativamente aceita.

— É a melhor coisa que podemos fazer, Yuuri. Digo, dessa situação, eu—

Viktor fez um gesto com a mão, descartando o que havia acabado de dizer.

— A questão é, você precisa ficar com elas.

 

— Como ele está?

Yuuri olhou para trás, surpreso pela voz. Yurio tinha a cabeça baixa e os ombros tensos, desconfortáveis.

— Melhor do que antes. — Afirmou com um sorriso leve. — É muito para absorver numa manhã, mas ele está indo bem.

— Aham. — Yurio mordeu a língua, confirmando algo sem erguer os olhos.

Yuuri não sabia o que dizer, parado no corredor, cogitando a possibilidade de prosseguir até o andar inferior sem dizer uma palavra. Tinha dito a Viktor que buscaria um copo de água, mas suspeitava encontra-lo dormindo quando retornasse. Tinha tempo, em teoria, mas não sabia lidar com a situação. Não devia ser fácil para Yurio não ter a quem confortar naquele momento.

A ideia despertou um pensamento ainda pior.

Não devia ser fácil não ter a quem pedir conforto.

— Talvez... Queira falar com ele? Seria uma bora hora. — Apontou com o polegar para a porta fechada.

Yurio respondeu algo que seria um “não”, fosse a palavra articulada com maior cuidado. Não. Não, de fato. Aquele não era o jeito. Yuuri passou as mãos por cima dos bolsos, sentindo-as úmidas pela ansiedade. Era sempre assim quando estava diante de Yurio. Era absurdo, um adulto com tamanho receio de alguém considerado uma criança pela maioria das pessoas.

Exceto que Yuuri via nele algo que a maioria apenas enxergava de relance. Algo que quase conseguia nomear.

— Quer comer alguma coisa? — Sugeriu numa última tentativa. Yurio finalmente ergueu os olhos, mas torceu o rosto logo em seguida.

— Ta fazendo aquela cara de novo.

— Cara?

— Aquela cara, oi, meu nome é Yuuri, eu sou uma boa pessoa e alimento cãozinhos na rua. — Revirou os olhos. Yuuri riu de imediato, mais pela surpresa do que qualquer motivo.

— Eu alimento cachorros nas ruas. E em casa também, quando visitam.

— Por que isso não me choca?

Rindo baixo, Yuuri passou ao seu lado, chocando os ombros num pedido silencioso que fosse acompanhado.

 

— Eu queria perguntar uma coisa. — Comentou da forma mais casual possível após colocar o prato de comida na frente de Yurio.

— E precisa anunciar ao invés de só fazer a pergunta?

Ignorou, puxando a cadeira ao lado. Tinha pensado em inúmeras formas de trazer o assunto à tona, percebendo, como quem entende o óbvio, que o melhor caminho com Yurio era o mais objetivo.

— Por que você veio com Viktor?

Yurio ficou surpreso. Começou a comer ao mesmo tempo em que tentava formular uma resposta. Aparentemente tinha dificuldade maior em entender o porquê de ter sido feita.

— Achei que ele já tinha te contado a história inteira. — Deu de ombros, revirando os olhos ao ser repreendido por falar de boca cheia.

— Não. Ele não... Ele me contou um pouco sobre... — Ajustou-se na cadeira, insatisfeito consigo mesmo. — Ele nunca me falou muito sobre nada. São mais comentários. Como alguém explicando um livro sem saber que você não leu.

Foi a primeira vez que fez Yurio rir. Percebeu-se relaxando, orgulhoso por, sem perceber, ter feito o maior avanço até então.

— Devia anotar isso, é a melhor descrição do Viktor que já vi até hoje. — Outra colher de comida, um som pensativo enquanto mastigava. — Não é culpa dele. O idiota acha que todo mundo o conhece. E os amigos da família eram uns imbecis. Completos, sem exagero.

Yuuri estava impressionado. Yurio comia, falava e gesticulava ao mesmo tempo. Era impossível interromper qualquer uma das ações.

— Todos olhavam pro Viktor e falavam a mesma coisa. O filho de Leonov, olhem só pra ele. Um verdadeiro Nikiforov. Quando será que vai arranjar uma esposa? Será que vai estudar fora? Quantos talentos será que tem e por aí vai, dia após dia... Qualquer um ficaria exausto. — Mordeu um pedaço de pão com uma agressividade não merecida pelo pobre alimento. — Mas não foi por isso que ele se mudou. E nem eu, se quer saber. — Seu semblante ficou sério, mas o tipo de seriedade que dificilmente é levada à sério vinda de um adolescente. — Foi tudo político. O pai dele começou a achar que a posição estava ameaçada, que os estudantes de universidades iam acabar com o país, que a família ia perder o nome, coisa e tal. Mas no fundo foi mais uma desculpa pra se livrar de Viktor.

Aquilo chamou a atenção de Yuuri. O choque escapou junto de uma exclamação confusa, assustada. Para Yurio falar daquela forma, ou Viktor estaria em negação, ou já havia admito o fato. De qualquer forma, não podia ser mentira.

— E eu... Eu sei lá, acho que entendia o ponto de Leonov. — Yurio deu de ombros, arregalando os olhos antes de afiná-los, irritado, na direção de Yuuri. — Não sobre essa bobagem de o país está se perdendo, muito menos em querer se livrar do filho. Não, eu só... — Ajustou-se, desconfortável. Por um instante realmente pareceu ter dezesseis, dezessete anos. — Eu só acho que as coisas estão mudando. Não só lá, no mundo inteiro. Pelo menos o que... — Grunhiu, enchendo a boca para evitar prosseguir. Yuuri aguardou, paciente, incapaz de romper o momento. — Eu só acho que não da pra ficar num lugar só se esse lugar não... Diz tanto. Sobre você.

— Mas sente falta de lá. — Não conseguiu deixar de comentar. Yurio fez um som de desinteresse.

— É, tanto faz. É mais uma coisa de família.

Subitamente parou de falar. Uma coisa de família. Uma coisa do avô que havia perdido não há muito tempo.

Tinha de falar alguma coisa, e rápido. Antes que Yurio percebesse, antes que se fechasse de novo.

— Viktor também sente falta de casa. Bem, eu... Eu acho. Ás vezes ele fala da mãe como se quisesse vê-la de novo.

— É claro que quer. — Yurio balançou a cabeça, um tom distraído que passaria por desinteressado. Aquilo era bom. Sinal de que deixava o assunto anterior para trás. — Ele sempre foi apegado a ela. Ainda é.

Ficaram em silêncio. Yuuri queria fisfar maiores informações, mas podia contentar-se com aquilo. Deixou Yurio comer em silêncio e realmente acreditou que a conversa havia terminado.

Então Yurio olhou em sua direção, a colher no meio do ar e uma sobrancelha arqueada. Emitiu um som semelhante a uma risada curta.

— Ele realmente não te contou nada, não é?

Claro. Yuuri era um livro aberto, jamais teria conseguido esconder sua confusão diante de tantas informações. E por ser um livro aberto era lógico, naquele momento, que Yurio conseguiria apontar sua decepção. A sensação de inutilidade que o tomava.

Outro praguejar em russo. Yuuri devia avisá-los que a tradução sequer era necessária.

— Ele é parecido comigo nesse aspecto. Se quiser saber algo, só pergunte. — Yurio desviou os olhos, voltando a comer. Estava embaraçado novamente. Era quase adorável. — E pare com essa cara.

Yuuri riu.

— Talvez eu faça isso. Funcionou bem até agora.

Yurio rosnou. Simplesmente rosnou feito um cachorro e apontou a colher em sua direção.

— Nem comece. Eu ainda não gosto de você. Só é... — Jogou a cabeça para trás, esforçando-se para continuar. — Até que enfim você parou com a sua cara. Aquela de oi, sou Yuuri, não grite comigo ou eu começo a chorar.

— Ela ainda está aqui em algum lugar, não se preocupe.

A risada de Yurio teve um pouco menos da malícia costumeira. E por ora, era suficiente.

 

Yuuri se perguntou, naquela tarde, quanta proximidade poderia conseguir com todos. Viktor obviamente era aquele mais próximo a si. Tentava não pensar muito a respeito, a coisa toda tendo acontecido com tamanha naturalidade que, só então, perguntava-se como havia conseguido. Viktor não era uma pessoa comum, independente de quantos assim o vissem. Para ter aceitado Yuuri em sua vida, havia encontrado algo que Yuuri, por si, sequer podia identificar.

Sabia que as dúvidas viriam com força total cedo ou tarde. Que duvidaria de si mesmo, que se perguntaria quão útil realmente era na vida de cada um. Mas pela primeira vez havia tomado uma atitude a respeito, e a adrenalina dava-lhe forças para empurrar as inseguranças até um momento futuro.

Restavam, então, quatro.

Podia dizer que havia conseguido alguma amizade com Mila. Companheirismo, no mínimo. E certamente tinha curiosidade quanto ao passado de Georgi. Yakov era o único com o qual jamais tivera uma conversa concreta. Tal fato não era surpreendente.

Surpreendente era como queria romper com as barreiras até então restantes. Como queria ir além de onde havia chegado.

Sempre ouviu pessoas falando sobre como o tempo as havia mudado. Como eram completamente diferentes de suas antigas versões. E imaginava qual seria a sensação, jamais tendo experimentado nenhuma grande mudança.

Pela primeira vez, fazia sentido.

 

Era bom ter respostas. Do ponto de vista objetivo, pelo menos.

Mas agora que haviam confirmado a conexão entre monstro e a casa – qualquer que fosse o monstro –, os espaços não pareciam tão seguros quanto antes.

As sombras não tinham a quietude de outrora. Principalmente perto da noite, antes de acenderem as velas. Quando a penumbra corria pelos corredores, como se a névoa de fora se espalhasse pelos cômodos. Lenta e sorrateiramente.

Podia ser paranoia, mas Yuuri sentia-a cada vez mais forte. Cada vez mais viva.

Questionou se algum dos monstros teria vida. E percebeu que a resposta não faria diferença.

 

— Tem algo que me incomoda. — Yakov anunciou na manhã seguinte. Yuuri mal ergueu o rosto, ranzinza pela primeira vez após uma noite exaustiva. Tinha passado o dia interior numa constante demonstração do quão normal se sentia ao lado de Viktor. Mentiras, vãs mentiras. O medo que sentira da última vez não havia desaparecido, apenas arquivado em um lugar da memória que, de noite, aparecia sem receio. As sombras alimentavam a insegurança, a impressão de ruídos inquietaria até o mais forte. E Yuuri não se envergonhava ao admitir, não era nenhum ícone em força, pra início de conversa.

— Eu acho que sei sobre o que é. — Mila comentou de forma vagarosa, mexendo sem ânimo no prato. Evitava comer desde o dia anterior.

— O quarto do piano? — Yurio sugeriu.

— O quarto do piano. — Foi ecoado por Yakov, que caminhava ao redor da mesa. — Me parece pouco provável que aquela... Coisa não tenha nos visto. Ela já entrou nos quartos antes. Já simplesmente apareceu, do nada, como se nem precisasse caminhar. Por que parar na porta? Por que não simplesmente avançar e conseguir o que quer?

— Ainda mais estando com raiva da gente. — Mila reforçou, franzindo o cenho em seguida. — Digo, ela ou aquela outra coisa dentro dela. Eu sei lá. — Suspirou. — Só acho que, se realmente ficou mais forte, ou mais violenta, não teria motivos pra ficar do lado de fora.

— Yuuri disse que a coisa dentro dela fica mais fraca. — Viktor tinha o tom de quem está imerso em pensamentos. — Se for isso, o monstro é como uma concha. Ou a concha fica mais forte quando destruímos a casa, ou a coisa dentro dela fica mais fraca.

— De qualquer forma, mudamos a dinâmica de poder entre as duas. — Georgi estava de braços cruzados, na porta. Yuuri não se lembrava de tê-lo visto comer, mas sempre que acordava, Georgi já estava acordado e adiantando os afazeres da casa.

— Exato, então por que não ir atrás de nós naquele quarto? — Yakov prosseguiu. — Sempre que alguém abre aquela porta, o monstro aparece. Sempre.

— Ele já atacou alguém lá dentro? — Yuuri perguntou com um bocejo, demorando alguns segundos para perceber o silêncio ao redor. Cautelosamente ergueu os olhos. — O quê?

— Não, ele... — Viktor estava confuso, um tanto perturbado. — Eu acho que ele nunca entrou no quarto.

— Não que eu me lembre. — Mila olhou na direção que Georgi, que negou com a cabeça. O mesmo se passou com Yurio. — Mas isso não... Por que aquele quarto?

— É onde fica o diário. O que leva ao meu ponto. — Yakov sentou-se na ponta da mesa, cruzando os dedos. — Sempre soubemos que aquela coisa não quer que entremos no quarto. Mas digamos que sejam duas. E digamos que elas lutem por poder. Digamos que uma esteja usando a outra, seja lá para o que for. — Encurvou-se. — E se uma delas quer nos impedir de entrar no quarto? E se houver algo ali que uma delas, e só uma delas, não quer que saibamos?

— O diário... Ele continha as instruções. Para voltar no tempo. — Yurio falava com olhos distantes. — O resto eram só relatos. A rotina de alguém que viveu nesse lugar.

— Exato. E sempre descartamos esses relatos porque eles parecem não conter nada. Mas e se tiverem algo? E se enquanto algo tenta nos matar por termos descoberto aquilo, alguma outra coisa—

— Tenta nos ajudar. — Viktor completou.

Não havia segurança naquela hipótese, e era compreensível. A mera ideia de algo naquele monstro ser de qualquer ajuda era risível. Como ser otimista em relação à criatura que havia matado um por um naquela mesma cozinha?

Por outro lado, a hipótese de haver algo no diário que os ajudasse era mais do que plausível. E alimentada pela segurança de que, talvez, e apenas talvez, conseguissem sobreviver à entrada no quarto, fazia que com as consequências soassem bem mais positivas.

— E como faremos isso? — Mila se voltou à Yakov. — Seguimos a mesma divisão de antes?

— Eu ainda não sei. Viktor?

Yuuri massageou os olhos. Conteve um grunhido cansado, frustrado, por Viktor.

— Talvez... É um risco. Mas talvez devêssemos ir todos, eu não sei. — De relance, viu suas mãos erguendo-se. — Não sabemos se pela casa, pelo jardim ou pelo diário, mas o fato é que não estávamos mais seguros da última vez.

Um pequeno debate se formou. Previsível, com argumentos que Yuuri pensava pouco antes de serem ditos. Pois, afinal, nunca estiveram seguros. E Viktor sabia muito bem disso. Mas eles haviam entendido a questão, tinham deixado o monstro mais violento. Que monstro, porém? E será que importava? A questão era a quantidade de pessoas, e aí entrava o detalhe, que bem faria todos reunidos? Não seria apenas uma armadilha mais tentadora?

Yuuri se colocou de pé, chamando brevemente a atenção de todos.

— Viktor, posso falar com você?

Manteve contato visual apesar de desconforto. E apenas respirou quando Viktor confirmou, levantando-se e acompanhando-o até a sala de estar.

Ainda era muito cedo, e Yuuri ainda não sabia ao certo como prosseguir. Passou a mão pelo rosto, respirando fundo e buscando concentrar-se.

— Podemos fazer como da última vez. Três sobem no quarto, três esperam aqui em embaixo. — Viktor concordou com a garganta, caminhando de um lado para o outro. — Podemos chamar a atenção daquilo quebrando a parede de novo.

— Temos um problema nisso, Yuuri. — Cada palavra vinha como se doesse admiti-las. — Nós nunca confirmamos se aquele monstro, criatura, enfim, se lembra do que aconteceu. Eu pensei nisso, repetirmos o cenário, mas e se...?

Yuuri lhe segurou pelos ombros. Não conseguiu conter o tom exasperado na voz.

— Então mais tarde decidimos isso com a maioria. Não precisamos tomar nenhuma atitude hoje.

Viktor ficou desconfiado. Começou a perguntar o porquê, quando pareceu perceber a tensão nos ombros. Relaxou um pouco, fechando os olhos e murmurando um pedido de desculpas.

— Não precisa. — Yuuri afagou seus braços. — Só precisa ser sincero com eles. Diga que não está pronto.

— E quando que eu deveria estar pronto, Yuuri? — Viktor riu, fraco. Metade do rosto estava coberta pelo cabelo, e Yuuri afastou os fios de forma mecânica, familiar.

— Quando estiver pronto.

Viktor riu. E Yuuri acabou acompanhando. Era absurdo. E Yuuri sabia. Se fossem realmente aguardar o momento ideal, aquele no qual se sentissem prontos, jamais tomariam ação alguma. Não queria ter de rir. Não queria sentir a impossibilidade tão logo as palavras eram ditas. Mas ali estava.

Queria fazer algo. Alguma coisa que provasse sua presença ali, seu esforço para que  a situação fosse minimamente mais tolerável. Ideias brotavam uma após a outra em sua mente, mas nenhuma era ideal.

— Ei. — Chamou por fim, dando um sorriso de canto. — Pode não ser tão ruim. — Viktor ergueu as sobrancelhas, curioso. — Podemos deixar a parede para Georgi dessa vez.

— Yuuri. — A voz baixa de Viktor fingia escândalo, mas o riso falava mais alto. — Deixá-lo fazer todo o serviço enquanto só assistimos.

— Ele parecia interessado da última vez. — Deu de ombros, tentando se apegar àquele momento da mesma forma que tentava ignorar o medo crescente das sombras.

 

Cada vez mais perto, cada vez mais perto.

 

A maioria votou pela repetição do dia interior. Talvez desse errado, mas era a opção mais confiável. E de qualquer forma, haviam iniciado a fase de testes, o que tornava riscos necessários.

Para alívio, embora não surpresa de ambos, Georgi pediu para ser responsável pela parede. Repetiram ação por ação daquele dia, a porta trancada, os móveis servindo de barreira, Mila, Yakov e Yurio aguardando até que pudessem subir. Era tão bem articulado que dava a impressão de ser à prova de falhas. Yuuri chegou a estranhar o conforto ao ouvir o martelar repetitivo, os grunhidos de Georgi junto da respiração ofegante.

— Alguém estava ansioso por isso. — Viktor comentou bem humorado, sentado na cama com as pernas esticadas. Yuuri, ao lado, abafou a risada em seu ombro.

— Eu odeio essa casa. — Georgi passou o braço pela testa. — Quando saímos daqui, me chame pra destruí-la por completo.

Yuuri queria perguntar o que fazia antes de trabalhar para Viktor. Se seus pais também haviam nascido na Rússia, se tinha se mudado jovem, tal como Yurio. Mas ao abrir a boca, apenas um bocejo lhe escapou.

— Eu diria que pode dormir, mas... — Viktor abanou uma das mãos, como se indicando o quarto inteiro. Yuuri voltou a rir, dessa vez mais baixo. Afastou-se alguns centímetros. Os ombros de Viktor não eram mais confortáveis que os de qualquer outra pessoa, mas sua cabeça pesava de sono. — Noite difícil? — Viktor perguntou quando se deixou recostar novamente.

— A comida de ontem não me caiu bem. — Mentiu. Agradeceu que os olhos fechados facilitavam mentir para Viktor. — Ou foi o fato de não poder mais comer maçãs.

— Ou foi isso. — Não podia ver direito, mas Viktor pareceu torcer a boca, concordando. —Devia evitar pensar nisso.

— Ou devia ter aparecido no seu quarto e ouvir mais das suas histórias. Elas me fariam dormir bem rápido.

As batidas ficavam mais fortes e dificultavam a conversa, mas Yuuri estava disposto a distrair Viktor da melhor forma. Ria de suas respostas falsamente escandalizadas, tentava rebater apesar do barulho constante, ignorava os alertas na cabeça de que era tudo passageiro, só passageiro.

— Aposto que está arrasado por termos perdido a sessão de hoje.

— O que tinha preparado... — Outra batida. Yuuri quase revirou os olhos. — Para hoje?

— Shakespeare. — Viktor respondeu sem hesitar. — Macbeth. Uma história de assassinato, traição, culpa, ambição—

— Está me deixando com saudades dos poemas sobre flores.

Viktor encurvou-se, falando mais próximo ao ouvido de Yuuri.

— Não seria pela história. É pela atitude da Lady Macbeth. — Era difícil ouvir todas as palavras, mas Yuuri completava os espaços lendo os lábios de Viktor. — Ela meio que induz o marido a cometer o crime. E mais tarde aparece caminhando e falando durante o sono, dizendo que não consegue limpar o sangue das mãos. Sabe, Shakespeare geralmente usa fantasmas em suas peças. É uma forma de mostrar a culpa. A figura de alguém que te assombra, literalmente. Mas nesse momento ele mostra que essa culpa pode não vir de fora. Pode estar dentro de você, guardada e escondida.

— Por que isso sempre te chama a atenção? — Yuuri perguntou com cuidado. Não queria fazer suposições, muito menos críticas quando nem sabia o que criticava. Mas pensava no pai de Viktor, deliberadamente abandonando o filho. E naquelas palavras...

— Eu sou uma aberração, Yuuri.

— Não chama a sua? — Viktor perguntou, sorris de forma divertida, provocando. Mas havia receio em seus olhos. — Queremos ser donos de nós mesmos. E isso não cansa ás vezes? Todos vivem com medo da... Da falta de controle. E por quê?

Yuuri aguardou. Viktor ficou pensativo, olhou ao redor do quarto. Ajustou-se, apoiando apenas um dos cotovelos no colchão enquanto virava na direção de Yuuri.

— Existe essa escritora, Charlotte Brontë. As pessoas conhecem mais a irmã, Emily, por ter escrito o romance O Morro dos Ventos Uivantes. Eu admito, Heathcliff é um dos personagens mais complexos que já vi. A paixão que ele sente... A forma como pensa, como age, como se... Fizesse parte de uma natureza indomável, isso... É fascinante. — Parou um instante, rindo como se notasse algo ridículo na própria fala. — Enfim, Charlotte. Ela tem esse livro, Jane Eyre. É quase uma autobiografia, mostrando a vida de uma mulher inglesa em 1850. Mas mesmo ali você percebe esses... Paralelos.

Yuuri concordou, fingindo acompanhar. Por dentro, já havia admito que prestava maior atenção no rosto de Viktor. Não podia evitar, muito menos quando falava de algo que despertava-lhe tamanha paixão.

— Por exemplo, quando Jane se muda para a casa de Rochester, o homem para quem vai trabalhar. E de noite a cortina pega fogo, de repente. E mais tarde você descobre que havia uma mulher, a primeira esposa de Rochester, trancada no porão. E que ás vezes ela escapava e caminhava pela casa. Dizem que a trancaram porque havia ficado louca, mas quanto da loucura veio antes do que fizeram? Enfim. — Balançou a cabeça, levemente frustrado. — Meu ponto é que, essa é a questão do livro. Você acha que os eventos não tem explicação, mas todos podem ser explicados. Tudo pode ser só... Humano. E o medo não surge do que é de fora. Ele pode surgir do que—

— Viktor.

Viraram ambos na direção de Georgi, confusos. Então ouviram.

Os passos e a respiração. Do corredor, cada vez mais fortes.

Yuuri tentou engolir em seco, não conseguindo. Procurou a mão de Viktor, apertando-a com força, quase sentindo-se confortado ao sentir a pressão de volta. Iria acabar logo.

 

Precisava acabar logo.

 

Estava chovendo quando chegaram no andar superior. E Yuuri pôde respirar ao ver que o plano havia dado certo.

— Então aquela criatura não se lembra de quando voltamos. — Viktor comentou, ainda que tivesse uma pergunta em sua fala.

— Ou não muda muito o padrão. — Yurio comentou de onde estava sentado, o diário sobre as pernas cruzadas.

— Já encontrou alguma coisa? — Mila andava de um lado para o outro, os olhos alternando entre Yurio e a porta.

— Não da pra saber quanto disso é útil. A maioria é só... — Franziu o cenho. — Informações sobre crimes?

— Como? — Georgi seguiu até estar atrás de Yurio, tentando enxergar o conteúdo do diário.

— É isso, a primeira parte são só relatos sobre a família de quem escreveu. Depois parece que ele deixou notas sobre crimes cometidos nos países pra onde viajou. Eu não sei, é só... Ele não fala muito dos casos.

— Tem algo em comum entre eles? — Mila perguntou, agora também apertando as mãos.

— Nada que ele tenha anotado até agora.

— Isso é bizarro. — Viktor comentou, e parecia conter-se para não imitar Mila.

— Espere, Yurio. — Yakov se aproximou. — Pule para o último crime que ele anotou.

Yurio pulou várias páginas, chegando quase ao final do diário. Foi voltando várias folhas em branco, até chegar numa página com não mais de duas linhas.

Todos perceberam o número de folhas rasgadas entre aquelas linhas e as que se seguiam.

— É o endereço daqui. — Ergueu o rosto, a confusão gritante. — E embaixo só diz... Suicídios desde 1772.


Notas Finais


...o capítulo ficou enorme.
E ERA PRA TER MAIS COISA!
Espero mesmo não ter exagerado nos diálogos e referências de livros, mas na minha cabeça elas são meio importantes pras ações do Viktor no próximo capítulo.
....que AINDA NÃO COMECEI, SOCORRO!
Ta, oficialmente faltam dois capítulos pra história chegar na metade e pra todas as explicações serem feitas. Ou nem todas. Mas vai ficar menos confuso.
...eu acho.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...