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História Nevoeiro âmbar - Capítulo 21


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Capítulo 21 - A deusa da morte


Dublin, Irlanda

George e Hermione partiram para a Inglaterra assim que os convenci que seria extremamente perigoso os dois ficarem perto da capital Irlandesa. Dublin está infestada de Banshee e mortes não naturais acontecem com cada vez mais frequência, eu, claro, sei exatamente por qual motivo: a deterioração do Tecido da Realidade, fato que vem se intensificando de maneira absurda depois das duas grandes guerras humanas.

Estou sentada sozinha em um café, diante de mim um descafeínado repousa ao lado de um tomo celta escrito por uma druída quase quinhentos anos antes, os rituais de invocação estão anotados em um guardanapo de papel, após alguns meses de caça percebi que as "fadas" se proliferam como formigas, não adianta expulsar uma, tem que expurgar a rainha para as operárias cessarem o trabalho e é justamente isso que tenho procurado: um meio de interceptar e prender a mandante.

Pego meu celular e disco o número de um antigo amigo meu, alguém que não apenas conhece o mundo espiritual como também costumava fazer parte dele, o anjo renegado, Ablon.

O conheci há mais de seis mil anos nas colinas pedregosas que circundava a antiga Babel, naquela ocasião eu estava fugindo do rei Nimrod e Zamir, seu mago buscador, o motivo foi não ter sido capaz de invocar o espírito do pai do imperador que havia sido morto por um clã chamado Filhos de Jafé, esse clã usava uma técnica de feitiçaria antiga que consistia em carbonizar o cadáver e enviar o espírito direto para o Sheol, libertando as almas que haviam sido mortas pelo indivíduo, assim o pai de Nimrod nunca havia sequer passado pelo astral, impossibilitando a invocação de seu espírito

Nimrod havia descoberto minha existência em En-Dor e mandado uma equipe de busca para me capturar e forçar a invocar seu pai, porém como isso estava fora de cogitação acabou por me prender em seu calabouço e com a ajuda de uma menina escrava eu enfim conseguira escapar da prisão. Ao sair de Babel me deparei com a guarda real e Zamir no deserto, o mago estava prestes a me matar e então o anjo não só me resgatou como me levou para seu covil escondendo-me até que eu recuperasse as forças.

- Não acredito que é você. - diz ele ao atender. - Faz quanto tempo?

Sorrio ao lembrar da última vez que o encontrei.

- Londres, trombamos em um dos pubs mais movimentados, 1947.

- Você estava acompanhada daquele tal Wilson. - diz ele endurecendo a voz - Onde está atualmente?

- Dublin e preciso da sua ajuda.

Ouço o renegado diminuir o volume da tv.

- Pode falar.

- Então, não é novidade que o tecido vem deteriorando.

- Eu que o diga, só essa semana trombei com dois raptores do porão, não sei o que Lucifer planeja, mas ele tem mandado aqueles urubus com cada vez mais frequência.

- E não é só o Sheol que está um caos, Ablon, os espíritos e deuses estão inquietos. A capital Irlandesa está infestada de Banshee e já contei pelo menos vinte mortes envolvendo as moiras.

- Então você está caçando Banshee?

- Sim, mas é realmente difícil, essas coisas parecem se proliferar, eu selo uma e aparecem mais três.

- E como exatamente eu poderia ajudar você? Quer que eu vá até aí?

A perspectiva de rever o anjo me faz ficar eufórica, todas as vezes que nos encontramos no passado era sob alguma circunstância controversa, geralmente envolvendo algum perigo mortal, e sempre acabamos nos separando de forma abrupta. Ver seus olhos cinzentos, cabelos dourados, sorriso duro me anima, porém sei que dou conta sozinha e além disso ainda não é hora de me derreter, é hora de lutar.

- Não é necessário, preciso apenas de informações, você sabe quem controla as Banshee?

- Infelizmente sei. Lutamos contra os deuses celtas nas guerras etéreas e a querubim Varna abriu caminho entre as moiras para chegar na deusa mandante.

- E essa tal Varna... - digo engolindo a pontada de ciúme - O que ela fez para derrotar a deusa?

- Varna cravou uma flecha em sua garganta e ela evaporou fazendo as Banshee recuaram.

- Eu sou péssima em arco e flecha, vou ter que pensar em outra estratégia, você sabe o nome dela?

- Claro, sei também como se parece, há um registro com o nome e poderes de todos os deuses que se voltaram contra o céu. A que você procura se chama Morrigan, ela é a deusa da morte e das guerras e comanda as Banshee, Varna disse que onde a deusa pisa o terreno se torna estéril e sua aura incita a batalha, além disso sua arma é uma foice e ela tem asas rubras como o sangue.

- Então não posso me aproximar dela ou morro?

- Não sei muito bem se é assim que funciona, Varna é uma arqueira nata e nem sequer precisou se aproximar para subjugar a deusa, de qualquer forma, acho melhor você montar um ataque à distância e lançar um feitiço de proteção sobre si. Olha Shamira, sei que você consegue sozinha, mas não tenho feito muito aqui então se quiser pego o próximo voo e…

- General! Realmente agradeço, mas não precisa. - digo endurecendo a voz.

- Shamira…

- Não Ablon, o crepúsculo dos tempos se aproxima e terei que me preparar para lutar ao seu lado.

- Você é o ser humano mais forte que eu conheço, feiticeira, não conheço ninguém mais capaz de estar ao meu lado e sei que vai acabar com Morrigan, o que quero dizer é que pode contar comigo tanto quanto eu já contei com você e também… gostaria de sair pra tomar um café para variar.

Olho para o meu descafeínado e sorrio apesar de sentir um peso no meu peito.

- Um café seria ótimo.

- Posso pegar o avião então?

Sinto lágrimas se formando no canto dos meus olhos e as reprimo não poder ficar perto de Ablon sempre foi algo que evitei pensar e ouvi-lo falar tão deliberadamente sobre vir até mim mesmo sabendo que o céu, o inferno, o astral e o etéreo nos caçam é doloroso, pois sei que apesar das palavras tanto eu quanto ele sabemos que é impossível. Pior, sei que ele só está propondo isso por estar preocupado comigo, começo a me perguntar se ligar para ele foi realmente uma boa ideia.

- Que tal se eu for até você quando acabar aqui? - digo depois de tomar um gole da bebida, engolindo a amargura de saber que eu não vou atrás dele.

- Posso ligar pra esse número pelo menos?

- Claro. - minto – Agora tenho que ir. Foi bom falar com você.

- Digo o mesmo feiticeira.

Sorrio e desligo a chamada, respiro fundo tentando controlar as lágrimas, pode parecer idiota evitar o amor da minha vida, ainda mais quando sei que ele sente o mesmo, quando nossas emoções estão ligadas e os dois podem sentir a respiração um do outro mesmo em continentes diferentes; porém há um bom motivo para isso. Antes de Ablon ser expulso do céu, milhares de anos atrás, ele comandava legiões de querubins (anjos guerreiros) e obedecia diretamente a Miguel, o arcanjo mais poderoso e volátil do cosmos, Miguel sentia ódio da humanidade e inúmeras vezes tentou devastar nossa espécie, um exemplo disso foi a grande inundação que matou a maior parte dos “seres de barro”; vendo a crueldade de seu monarca, Ablon reuniu outros dezessete anjos de sua confiança e juntos armaram um levante para derrubar o tirano.

Porém, apenas dezoito querubins não seriam o suficiente para subjugar as hostes de Miguel, assim em uma estratégia ingênua, Ablon acabou pedindo auxílio do arcanjo Lúcifer, a estrela da manhã, que se mostrava contra as intenções cruéis do seu irmão, no entanto o arcanjo sombrio delatou o levante fazendo os dezoito rebeldes serem condenados a ficarem presos em corpos físicos, sem poder regressar ao poleiro ou dissipar sua aura. Além disso, Miguel decretou que os renegados fossem caçados até a extinção e um a um os rebeldes foram mortos, sobrando apenas Ablon com todo o pesar de um levante fracassado.

Após centenas de anos desde a queda dos rebeldes, Lúcifer arquitetou seu próprio levante e convenceu um terço dos celestes a empunhar armas contra o Príncipe dos anjos, seu levante também culminou em fracasso, mas ao invés de lançar os novos rebeldes a terra, Miguel os condenou ao Sheol, uma dimensão escura e estéril a qual ficou conhecida como inferno. Lúcifer culpou os renegados por sua derrota e ordenou que os demônios também caçassem os dezoito rebeldes, fazendo Ablon e seus amigos serem perseguidos tanto por anjos quanto por demônios.

Esse é o principal motivo de nunca termos ficado juntos de fato, nossas energias somadas são um radar gritante em um mar calmo, os ataques quando estamos juntos são tão constantes que a normalidade se torna brigas infindáveis e medo de não sermos capazes de derrotar o próximo inimigo. Tiro o renegado da minha cabeça e foco na missão: invocar Morrigan.

Pago a conta e pego meu sobretudo, subo na minha Honda preta e acelero até sair da cidade em direção às florestas que a rodeiam, monto acampamento perto de um pequeno lago e começo o ritual de proteção. Primeiro preparo um banho de ervas e lavo todo meu corpo, em seguida com minha adaga de osso faço runas em toda a extensão dos braços, pernas e pescoço. A dor já é uma velha aliada e mal me incomodo com o sangue que escorre dos riscos abertos em minha pele, após desenhar as runas caço um sacrifício e o prendo a um carvalho. Desenho um círculo de sal e pimenta no chão e no seu centro coloco uma tigela de bronze com galhos e carvão crepitando, estou completamente despida e vejo que o sol está se pondo, trazendo consigo o crepúsculo, a lua crescente se exibe no céu e as nuvens pesadas dão lugar a um límpido céu estrelado.

Começo a entoar uma antiga cantiga celta que fala sobre uma mulher vestida de morte e coberta com pranto, pego a lebre e corto sua garganta em cima da tigela, o fogo começa a tremeluzir em tons rubros e eu recuo, todo o cenário está pronto, deixo a carcaça diante da tigela e continuo a cantar com os braços levantados em direção ao céu, o vento fica mais forte e as chamas dançam com ele, acompanho o show e passo a girar e pular ao redor do círculo, fecho os olhos e deixo a natureza chamar por ela, invocar seu nome, atraí-la. Quando volto a abrir os olhos a vejo dentro do círculo sorrindo para mim, sua aparência é de uma criança de pouco mais de doze anos e diferente do que Ablon disse, a menina não empunha nenhuma foice, porém a grama dentro do círculo seca e morre, ela tem asas avermelhadas e veste uma túnica marrom simples, os cabelos negros descem até seus pés e os olhos são buracos sem fundo sugando toda a luz e emitindo escuridão.

- Morrigan, aí está seu sacrifício exigo respostas em troca. - digo tranquilamente para ela

- É estranho ser tão requisitada, será que os deuses celtas estão voltando à moda? Não fazem nem duas semanas que uns bruxinhos me invocaram acidentalmente. - ela sorri como se entendesse uma piada interna – Espera! Qual o seu nome?

- Meu nome não importa, suas Banshee estão causando desordem, quero que me diga o porquê.

- Não tem um porquê, apenas estamos aproveitando a fragilidade do tecido, os próprios humanos causaram isso, por que não posso me divertir um pouco?

- Quero barganhar. O que você deseja em troca de parar suas comparsas?

- Ora, o que eu precisava eu já tenho e melhor foi por um preço bem mais barato, quase de graça, então lamento docinho, dispenso sua oferta.

- Eu já imaginava que não seria fácil. - digo e me afasto até a mochila que havia deixado ao lado da moto, seguro a Beretta e engatilho, aponto para a deusa que ri condescendente.

- Acha mesmo que uma arma humana vai me ferir? Sou uma deusa, sua tola.

Não digo nada apenas miro na sua asa esquerda e disparo, o rosto de Morrigan se contorce numa mistura de dor e surpresa e ela agita a asa direita projetando vento na minha direção, me agacho e atiro novamente acertando de raspão seu ombro, a deusa recua e tenta sair do círculo, porém está presa até que eu a liberte, a dor dá lugar a raiva e novamente ela tenta me atingir com outra rajada dessa vez ainda mais forte, rolo para evitar o contato direto e mal vejo quando ela grita projetando sua voz para o chão, o solo racha e uma enorme cratera engole a deusa, sem pensar duas vezes salto atrás dela.


Notas Finais


Notas de esclarecimento.

*Esse capitulo é baseado nos livros de fantasia do meu mestre Eduardo Spohr, ele conta toda a história do Ablon e da Shamira, então pra quem quiser saber tudo da relação dos dois leia A Batalha do Apocalipse*

Glossário:

Sheol (porão) - dimensão onde Deus prendeu os deuses primevos que comandavam o cosmos antes da criação, agora território do Arcanjo Lúcifer, a Estrela da Manhã e seus duques.

Céu (poleiro) - lar dos anjos, dividido em sete camadas, onde cada casta comanda, seu regente é o arcanjo Miguel, o Principe dos Anjos.

Querubim - casta de anjos guerreiros que habitam o quarto céu, são insuperáveis em batalhas e dominam inúmeras armas.


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