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História Nightfall - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Addiction x Habit


Os hábitos deveriam ser classificados como vícios, afinal sempre que uma pessoa se habitua a qualquer coisa ou tarefa que a fizesse aproximar-se da sensação de ter aquilo presente em um momento específico a sensação de desfazer-se daquilo era quase impossível e quase sempre inalterável. Ao menos para Osamu Dazai. os hábitos eram vícios infames que a vida e a figura humana precisava se agarrar para a sensação de dever cumprido e, para ele, tê-los como ocupação lhe era útil caso precisasse de esfarrapadas desculpas ou justificativas sem nexo. 

Havia criado um hábito de beber uísque sempre que terminava seu expediente no trabalho da Máfia do Porto, normalmente às seis horas, outras vezes chegava às oito, arrastava-se para seu cafofo, que antes dividia com Nakahara Chuuya — agora não mais porque o ruivo pedira um apartamento privado e exclusivo a Ougai Mori — e lançava-se sobre o sofá, de bruços, normalmente as garrafas de bebida ficavam na mesa ao lado, dispostas em uma caixa com água (antes com gelo, mas sempre que chegava não restava mais nada ali) e em outras tinha que relutantemente caminhar até a geladeira a procura de seu vício. 

De seu hábito. 

Bem, não importa. 

Ele fazia isso ao anoitecer. Sempre que as nuvens ocupavam os céus, que o azul celeste tornava-se cerúleo e que o Lua dava lugar a ausência do Sol ele bebia, encarando vagando o tempo escuro lá fora, o entardecer, a passagem de dia para a noite, o ocaso, chama-se do que quiser, ele gostava de pensar que quando anoitecia, ele era capaz de tornar-se outra pessoa. 

Um estúpido jovem embriagado seminu, era isso que se tornava, porém gostava de crer que a noite trazia a si sua verdadeira essência, ou ainda, a falta de uma personalidade obrigatória que havia tomado posse para carecer de suas preocupações. 

Dazai pegava seu telefone celular, procurava por sua seleção de músicas a que fazia jus a sua sensação momentânea e aumentava o volume, deixando-o na mesa enquanto acompanhava embriagado a letra. 

Ao menos, tentava acompanhá-la.

- I go crazy 'cause here isn't where I wanna be. - Batia os dedos no sofá, como se acompanhasse a batida, balançando ligeiramente seu rosto conforme mergulhava-se na melodia. - And satisfaction feels like a distant memory. 

Ergueu-se sorrindo, com a garrafa de uísque já pela metade entre os dedos, ainda balançando a cabeça no ritmo das batidas e do solo de guitarra. 

- And I can't help myself, all I… Wanna hear her say is "Are you mine?"¹ 

E depois, jogava-se no sofá de costas para o acolchoado, arremessava seu sobretudo escuro longe e sorria consigo, como se aquela visão que tinha de si mesmo, aquele mergulho de embriaguez fosse de alguma forma, proveitoso. Bebia uma, duas garrafas cheias de uísque e depois de certo tempo, encontrava-se a si engasgado em meio a soluços, uma imagem distorcida de si mesmo lhe preenchia os pensamentos e parecia terrivelmente melancólico, chorando baixo, com as mãos apoiadas no rosto e os cotovelos sobre os joelhos.

Alguns botões de sua camiseta estavam abertos, os lábios tremiam fragilmente pelos descompassados gemidos e ficava ali, agora com uma melancólica música como trilha sonora de sua tristeza, encolhido, receoso, deixando que os olhos — agora ambos os olhos já que as bandagens que cobriam um deles havia sido tirado por si mesmo em algum momento de frenesi eufórico — fossem secos e esfregados pelas bandagens ásperas do dorso das mãos. 

Sentia-se em um misto de tristeza e insatisfação pessoal, amaldiçoava a si próprio por ser tão imprudente quando estava sozinho e grunhiu, encarando mais uma vez a janela sem cortinas, observando a escuridão da paisagem lá fora.

O anoitecer, onde o azul escurecia tão fortemente que tornava-se uma cor similar ao preto.

Ele sabia que não era o preto, mas detestava aquela mudança brusca que atingia os céus de maneira gradativa, tal como atingia a si. 

Então, encostou a cabeça no braço do sofá, encarando o teto, fechando os olhos marejados para que pudesse se atentar a letra da música que agora, parecia resmungar junto de si. 

(Do I wanna know)

If this feeling flows both ways?

(Sad to see you go)

Was sorta hoping that you’d stay

(Baby, we both know)

That the nights were mainly made

For saying things that you can’t say tomorrow day²

Dazai detestava a anoitecer tal como detestava a si; detestava esse série de incontroláveis mudanças que tornavam uma coisa em outra, e uma personalidade em várias delas. Entremeou uma das mãos nos cabelos, jogou-os para trás em um exaustivo gesto e virou a face, agora não observando coisa alguma. 

O celular fez um bipe baixo, em sinal de notificação e seus olhos fitaram o dispositivo por um instante, com certo desgosto. 

Por que receberia uma mensagem? Aquilo não fazia sentido. Já era tarde, o expediente já havia acabado, ninguém se importava consigo. Preocupar-se demais com um bipe definitivamente era irrelevante, por isso agarrou o dispositivo, acendendo a tela. 

Era uma mensagem de Nakahara Chuuya, não, uma resposta dele. 

[Chibbi idiota]: Agora não dá, Dazai de merda, eu tô ocupado

Bebo com você outra hora

Foi quando revirou os olhos, se dando conta de que havia o contactado em meio a embriaguez e a música alta. 

Os olhos ficaram marejados outra vez e amaldiçoou a si por ser tão carente quando ficava em estado de torpor por tanta bebida. 

Deixou-o de volta na mesa, suspirou profundamente e grunhiu. 

E então, outro bipe. 

Céus, havia contactado quem mais? Mori? Hesitante, estendeu a mão até o telefone e novamente, acendeu a tela para visualizar aquela notificação.

Odasaku

Por que ele? Em qual momento de sua sensação de mergulho alcoólico acabou por chamar Oda Sakunosuke? Esticou os braços para o alto, lendo a mensagem de relance como se temesse ser atingida por ela. 

[Odasaku]: Beber tanto assim não faz bem para a saúde, Dazai. 

E não havia nada mais que isso, nada senão um aviso dos perigos que beber demais traziam, de uma mensagem formal despreocupada de um colega de trabalho para o outro. 

Mas bem, era assim que tratavam um ao outro, não? Formalmente e polidamente, porém Osamu estava bêbado demais para explicar ao próprio cérebro a diferença de profissionalismo e sentimentalismo. Devolveu irritantemente o dispositivo na mesa de centro, não se dando conta de que ele havia escorregado e caído no tapete. 

Tudo ali cheirava a álcool e ainda sentia o cheiro amargo do sangue debaixo de suas ataduras, sobre suas feridas. 

Ficava sensível demais aos aromas quando se embriagava tão profundamente. 

Estalou os ossos ao curvar-se sob o acolchoado, — agora apenas encostado sobre parte dele — sentiu as vértebras rígidas e os dedos, tanto dos pés quanto das mãos frios pela ansiedade momentânea. 

Fôra só uma mensagem de aviso, não era como se estivesse realmente preocupado consigo. 

Ah, como detestava quando a tristeza o atacava e chorar parecia tão vergonhoso e sem sentido. Levou as mãos ao rosto, tentando sumir com as lágrimas que escorriam e soluçou, novamente encolhendo-se. 

Desde quando havia se tornado tão patético? Pensava, escorregando o corpo até o tapete, se acomodando ali como uma pequena criança perdida. Detestava a imagem que tinha, principalmente quando anoitecia. 

Mesmo que seus sentimentos estivessem apurados, ele não ouviu a porta se abrir. 

Não ouviu quando alguém tirou os sapatos na entrada, quando os passos se tornaram próximos e logo, havia alguém ao seu lado. 

Escutou barulhos de movimentação de tecido, de uma respiração próxima além do próprio soluço e logo, fôra acolhido por um carinho cômodo e morno, sentindo um casaco ser colocado sobre seus ombros e braços compridos envolver-lhe. 

Tinha um aroma suave de tabaco e de shampoo além de algum sabão perfumado, o que lhe fazia questionar que esse pessoa acabara de sair do banho. Mesmo que encolhido, esticou cada um de seus membros como um besouro que antes fôra cutucado, aconchegando-se naquele aperto, afundando o rosto em seu peito e na curva de seu pescoço. 

Ele tinha um cheiro tão tranquilizador para sua alma pesada e sua mente cansada. Os dedos se agarraram às suas vestes, dedo por dedo, respirando fundo próximo a ele, fechando as pálpebras arroxeadas após tanto chorar. 

- Odasaku. - Chamou-o baixo, quase como um murmúrio, deixando que as lágrimas molhassem as vestes de Oda Sakunosuke, deixando que chorasse e fosse abafado por aquele corpo e tecido. 

- Eu te disse que beber demais te faz mal. - Alertou-o, em baixo tom, passando os dedos entre os fios castanhos em tons de avelã, deslizando cuidadosamente uma das mãos sobre eles. Escutava Dazai chorar baixinho, sentia seus dedos forçarem o tecido de sua camiseta e notava, pelo forte aroma que ele bebera mais do que de costume. 

- Eu sou horrível, sou horrível. - Sussurrou, agora ainda mais perto, colocando-se no colo de Oda apenas porque temia ser abandonado sozinho ali outra vez — como no passado. 

- Por beber? - Questionou ele, cobrindo-o com seu casaco ocre, afagando agora suas costas poucas vezes. - Todos bebem demais em algum momento, não há nada errado nisso. 

- Não. Não não. - Meneou com certo desespero, engasgando-se com os próprios soluços e as lágrimas salgadas. - S-Sou horrível. 

Sakunosuke deu um alto e profundo suspiro, aproximando-se de Osamu apenas para depositar um beijo suave no topo de sua cabeça. 

E naquele segundo, os soluços de Dazai cessaram, só por um breve momento. 

- Seja o que fez, nada te faz crer que é horrível assim. - Disse como se explicasse a ele, com um breve aceno. - Mesmo que julguem ser. 

- M-Matar pessoas não me faz crer o quão horrível sou? - Questionou lentamente, com sobrancelhas franzidas, voltando a soluçar como antes. Oda meneou, puxou-o para encará-lo e para explicar-lhe de uma só vez. 

- Não defina o caráter de alguém pelo trabalho que ela exerce. Você nunca sabe o que fez um homem escolher um trabalho que fosse um dos mais hediondos. - Os olhos amendoados do outro estavam esbugalhados, encarando os seus. - Não deixe isso afetar você.

Ah.

As lágrimas pareceram escapar mais e mais do canto dos olhos do moreno, os lábios tremeram ainda mais e pôs-se a chorar alto, escutando apenas os pedidos de silêncio de Sakunosuke e o calor de seus braços aquecer a si. 

Oda tinha razão. 

Não poderia deixar-se ser definido pelo trabalho e suas ações a pedido de um superior maior, nem poderia julgar a si pelo o que fazia quando anoitecia. 

E quando escolhia mergulhar-se em álcool. 

Antes de seus olhos se fecharem, ele encarou de soslaio a janela.

Ainda restava um pouco de azul lá fora. 

Tal como o azul presente nos olhos de Oda. 

Talvez de fato fosse um ser humano horrível, definido pelo trabalho e suas cruéis ações, mas jamais deixaria definir-se pelo fim do dia e pelo anoitecer. 

Não outra vez. 

E jamais se permitiria desviar o olhar da paisagem noturna lá fora.

E dos olhos de Sakunosuke.

- O-Obrigado, Odasaku. 



Notas Finais


¹ Are U mine, Arctic Monkeys
² Do I wanna know, Arctic Monkeys


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