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História Nightmare - Capítulo 1


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Capítulo 1 - One-shot


A primeira coisa que ele percebeu foi a absoluta falta de som.
 

Deveria haver algo ali. Algo para preencher o silêncio; até mesmo o ruído ocioso da cidade preenchendo as lacunas dos sons humanos de respiração e mudanças. Mas ali, parado no corredor da enorme Kamome Gakuen, Minamoto Kou só conseguia ouvir o som de sua respiração cada vez mais acelerada, e quase inaudível.

Ele forçou os olhos para cima de onde estavam desesperadamente focados no chão à sua frente. À primeira vista, o lugar parecia quase abandonado. Havia uma penumbra estranha, embora tudo estivesse em ordem, como se fosse um dia comum depois das aulas terminarem. No silêncio absoluto, Kou só podia acreditar que ele era o único ser vivo em todo o planeta.

De repente, um fedor o atingiu. Era um com a qual ele, infelizmente, estava familiarizado: o cheiro pútrido de cadáveres apodrecidos. O cheiro foi imediatamente demais e ele tropeçou em uma parede próxima, engasgando e tentando evitar vomitar. Quando seus passos vacilantes o levaram ao lado de uma sala de aula próxima que estava com a porta entreaberta, ele imediatamente congelou.

Lá, pela fresta da porta. Um corpo desabou com força no chão. Com a boca aberta e os olhos frios que olhavam diretamente para ele.

Kou soltou um grunhido e recuou rapidamente, caindo de costas. Olhando freneticamente para a próxima sala, ele viu que outro cadáver jazia em cima de uma mesa com os olhos arregalados, caído como se tivesse sido morto durante o processo de organizar seus materiais de estudo. Assim como o anterior, Kou mal conseguia distinguir muitos traços faciais espalhados. A dor o atingiu de uma vez, atingindo seu peito como uma facada. Ele se dobrou onde estava sentado no chão, fechando os olhos agarrando seu cetro com força.

Ele sabia com certeza que, se checasse todas as salas de aula, cada uma teria um corpo. Ele já havia tido esse mesmo pesadelo antes, mas todas as vezes era como se fosse a primeira.

Cercado de cadáveres, o fedor lentamente o sufocava e forçava-o a engolir a bile azeda que subia de sua garganta em um esforço para não vomitar. Kou sabia que se ficasse parado ali, perderia completamente a cabeça. Ele se levantou com um salto e começou a correr, em pânico, pelo corredor interminável.

O mundo parecia mudar ao seu redor, e quando percebeu se viu em um ambiente completamente novo. Reduzindo os passos para uma caminhada cuidadosa, Kou viu algo familiar: a porta do banheiro feminino do terceiro andar. Um pequeno sorriso de alívio enfeitou seus lábios, feliz por ele estar de volta a um território familiar. O som até havia retornado ao mundo ao seu redor; ele podia ouvir murmúrios suaves vindos das salas próximas e uma comoção geral no pátio no andar de baixo. Era quase como um dia comum. Minamoto respirou fundo para limpar o resto do fedor podre de seus pulmões com o ar fresco antes de abrir a porta.

— Ei garoto, está atrasado! - disse Hanako sentado próximo a pia.

— Kou-kun! Finalmente chegou, estávamos te esperando! — Yashiro sorriu deixando o esfregão que usava de lado.

O sorriso de Kou cresceu em um rosto e sentiu seu peito ficar mais leve de alívio ao observar seus amigos ali.

— Desculpem – ele respondeu – Eu acabei tendo que resolver umas… coisas. Fiz vocês esperarem muito?

O céu crepúsculo refletia no lugar dando um estranho ar de familiaridade. Os gritos e vozes distantes vindos do lado de fora acabaram ficando um pouco distantes agora. 

— Sim, muito. Por que não veio antes? – disse Hanako ainda com um sorriso grande no rosto, se aproximando.

— É Kou-kun, por que demorou tanto? Por que não veio para nós antes? – Falou Yashiro, com a voz estranhamente cansada. Mas sua expressão continuava a mesma.

Kou parou aonde estava, de repente sentiu seus pés atingirem algo e uma sensação estranha tomar seu peito.

Congelado, ele olhou para baixo. Seu uniforme, manchado com uma mancha abstrata de vermelho. Abaixo dele, no chão um líquido escuro e viscoso se espalhava por todo ambiente, e aumentava cada vez mais, quase atingido seus calcanhares. Um tremor começou em suas mãos, sua respiração começou a acelerar, os gritos do lado de fora aumentaram de maneira assustadora ecoando incessantemente em seus ouvidos.

Olhando para cima, agora ele via a expressão vazia de Yashiro agora bem próxima a ele. Seu rosto pálido não demonstrava nenhum sinal radiante de vida que um dia já teve. Ao seu lado estava Hanako, com uma expressão de dor que Kou jamais havia visto. Seus olhos também estavam opacos enquanto segurava gentilmente a mão de Yashiro.

— Por que não veio antes Kou? Por que não me salvou...? – A voz sofrida de sua senpai saia falhada fazendo-o se arrepiar. Ele ainda estava parado sem reação.

— Você prometeu que iria salva-la. Eu confiei em você. – Hanako agora olhava diretamente para ele.

Kou balançou a cabeça e finalmente conseguiu se mover  tentando abrir a porta para sair, mas assim que a porta se abriu ele viu uma multidão de cadáveres. Seus rostos mórbidos, uns demonstraram tristeza, outros raiva, e todos olhando diretamente para ele. Seus pés novamente pareciam colados ao piso embaixo dele, seu corpo não respondia mais aos seus comandos.

— Por que Kou? 

— Por que não me salvou? 

— Por que não veio antes?

Várias vozes atingiram seu ouvido ao mesmo tempo como um baque. Gritos e choros de súplica. Ele ainda podia reconhecer algumas vozes como a de Satou e Yokoo e até de seu pai.

— Onde você estava?!

— É por isso que você nunca vai ser o suficiente, nunca vai ser como seu irmão.

— ISSO É CULPA SUA.

Parecia que seu cérebro ia explodir a qualquer momento. Suas mãos tremiam como nunca antes enquanto ele tentava cobrir os ouvidos.

— Por que Kou?! POR QUE?!

— VOCÊ PROMETEU!

Ele precisava acordar. Acordar. Acordar.

— MENTIROSO!

— VOCÊ PROMETEU ISSO É CULPA SUA!

De repente um vislumbre ocorreu em seus olhos quando ele levantou os olhos rapidamente. No meio da multidão de cadáveres, ele viu mais um rosto. Os cabelos rosas e o cachecol ridiculamente familiar, os olhos suaves olhando para ele sem expressão e a boca sorrindo em torno de suas palavras.

— Por que não me salvou, Minamoto-kun?

 

 

•••

 

Kou acordou assustado, um grito há algum tempo treinado para ficar enterrado em sua garganta. Ele não conseguia abafar como sua respiração era ofegante no entanto, enquanto ele arrastava a mão pela testa. Suas roupas de baixo grudavam em seu corpo, úmido de suor.

Ao sentir o toque dos lençóis macios embaixo de si ele se lembrou de onde ele estava. Já haviam duas noites em que ele estava madrugado com seus estudos de exorcismo, na esperança de achar algo que ajudasse Yashiro a estender seu tempo de vida e… Mitsuba. Então de manhã sua cabeça latejava e ele tirou um tempo para ir na enfermaria tentar descansar um pouco, então ele teve aquele mesmo maldito pesadelo.
 

Sua respiração começou a acelerar novamente, suas mãos agarraram com força o lençol embaixo de si e ele podia jurar que seu peito queimava por dentro, como se nos últimos tempos tivesse alimentado um incêndio que seria quase impossível de pôr fim. Sim, era esse o sentimento: fogo. O mesmo fogo que ele estava guardado dentro de si por tanto tempo, estava consumindo-o de uma vez por todas.

Ele queria fazer sair, mas não tinha por onde e nem como. Ele precisava ser forte, ele precisava continuar tentar ajudar seus amigos, ele não queria ficar só. Não adiantava gritar, nem chorar, nem espernear; era só como se aquilo fosse consumi-lo e tornar sua alma em cinzas. Sua bochecha esfregou contra uma mancha úmida no travesseiro, fazendo-o perceber que as lágrimas ainda escorriam lentamente por suas bochechas e suas mãos estavam frias e trêmulas, assim como todo seu corpo. Ele sabia que era o seu maldito psicológico, aquela não era a primeira vez, mas crises de pânico sempre eram uma merda. O oxigênio estava queimando, e aquilo só piorava; era como se não tivesse mais seus pulmões; os sons de sua respiração irregular ecoaram na sala vazia.

— Minamoto-kun? – uma voz o chamou de um canto do quarto, parecendo confusa. Os olhos de Kou dispararam em direção à um espelho próximo a cama aonde estava ao som da voz familiar. Os olhos de Mitsuba se arregalaram, uma pequena respiração presa em sua garganta, e o Minamoto lembrou-se tardiamente que ele deve estar com uma aparência horrível.

— Mitsuba… – Kou sussurrou, se virando rapidamente para tentar limpar as lágrimas que ainda escorriam de seu rosto, tentando fazer a expressão mais indiferente que conseguia no momento. O rosado pareceu hesitar por um momento antes de sair do espelho em passos lentos e se aproximar devagar. 

— Está tudo bem. – Kou quebrou o silêncio que se estalava entre eles já faziam quase dois minutos. – Eu estou bem.

— Tem certeza? Sua cara está mais horrível que o normal. – respondeu Mitsuba com uma expressão estranha, mas sua voz estava suavemente acolhedora.

— Sim, foi só um pesadelo idiota. – ele sorriu – está preocupado comigo?

— Cala a boca. – Sousuke disse rolando os olhos e se sentando ao seu lado na cama.

Antes que o loiro pudesse dizer alguma coisa, ele sentiu os dedos de Mitsuba roçarem nos seus, então ele percebeu que suas mãos ainda tremiam como antes. Não era um contato íntimo, mas um lembrete silencioso de que ele estava ali. A demonstração fácil de afeto foi demais para Minamoto, principalmente depois de tudo o que ouviu no sonho ainda estava bem vivo em sua memória. Ele sentiu o coração inchar quando outro soluço escapou de sua garganta. 

Conforme os minutos passavam, Kou gradualmente se acalmou. Mitsuba se focava desajeitadamente em encara-lo e encara algum ponto do lado de fora da janela, talvez por não saber o que fazer ou se deveria ou o que deveria falar. Mas o confortando apenas sua presença e o leve roçar de dedos. E para Kou aquilo já era o suficiente.

 

Quando sua respiração e seu corpo se estabilizam, Kou levantou ligeiramente o olhar para encontrar os olhos do garoto a sua frente focados em si, estranhamente mais suaves que o usual.
 

— Você… está se sentindo melhor agora? – ele perguntou.


Ele definitivamente está preocupado comigo. Kou riu em pensamento.

 — Sim, estou me sentindo melhor – respondeu – Obrigado. 

— Eu não fiz nada. – Mitsuba pareceu hesitar em suas palavras seguintes, olhando para ele com curiosidade – Você ... quer falar sobre isso?

Minamoto estremeceu. 

— Não há nada para falar. Está tudo bem. – ele não tinha como explicar que uma das causas daquele sonhos e da maioria de seus pensamentos atualmente era por causa dele.

A carranca de Mitsuba se aprofundou. E ele afastou os dedos que até agora se encostavam e novamente focou sua atenção para algum lugar além da janela, antes de suspirar e começar a falar como se escolhesse cuidadosamente as palavras:

— Sabe… não tem problema em ter medo de pesadelos ou chorar, isso não te faz mais fraco… eu choro o tempo todo – Mitsuba disse seriamente sem o encarar. – Mas não guarde simplesmente tudo só pra você. Você tem amigos não tem? É pra isso que amigos servem, eu acho. E… se você precisar eu vou estar aqui para te ouvir.

Outra dor começou no peito de Kou, embora dessa vez fosse por uma boa e específica causa. Uma onda de afeto cresceu em seu corpo e um sorriso genuíno apareceu em seu rosto. 

— Estou bem agora, sério. Graças a você. – seu sorriso se suavizou ao ver as orelhas de Mitsuba ganharem uma cor rosada como a de seus cabelos. 

Mitsuba era bonito, mas ele jamais falaria isso em voz alta. Kou tossiu.

— Aliás, como sabia que eu estava aqui? – questionou Kou tentando desviar o assunto.

— Vi seus amigos procurando por você, eles estavam preocupados, acho melhor ir vê-los. – Mitsuba deu de ombros.

— Ah certo, eu vou.

Mitsuba assentiu, mas antes que pudesse se levantar sentiu Kou aproximar suas mãos novamente. Dessa vez entrelaçando as duas fazendo ambos coraram. A mão de Mitsuba era fria. Mas Kou não achava desagradável, ela se encaixava perfeitamente bem com a sua.

— Eu… Obrigado. De verdade. – disse Kou sorrindo.

Mitsuba desviou o olhar com uma carranca no rosto, mas sem soltar as mãos.

— Brinco idiota. – resmungou, fazendo Kou rir.

Era improvável que aquela seria a última vez que ele teria aquele tipo de pesadelo, afinal, ele teria que continuar tentando, ele havia feito uma promessa afinal. Mas Kou agora tinha uma certeza; ele não estava sozinho.


Notas Finais


mente vazia oficina do "por que não escrever um angst com o kou de madrugada?"
desculpem se tiver algum erro, eu revisei isso com sono e o spirit cagou a formatação toda.
obrigada por ler!

https://open.spotify.com/track/3ZCTVFBt2Brf31RLEnCkWJ?si=Nv1grqsMQfa1cBFSxwz7bw


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