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História No fim do ano - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Quando te vi


Gélida como em todos os outros anos, a brisa carregava um perfume adocicado, inundando as narinas de Seokjin o fazendo suspirar em nostalgia. Nada mudou. Suas flores favoritas ainda cresciam ali; enleavam sua mente à calamidade.

– Bem vindo de volta Sr. Kim. – não pode evitar de franzir as sobrancelhas ao ouvir “senhor".

– Quantos anos tenho ? Sessenta? Jungkook, sabe como deve me chamar – seu tom divertido se fazia presente e isso fez o outro jovem sorrir.

– Certo, Jinnie – seus dentes de coelho – assim assimilados por Seokjin – tornaram-se mais visíveis ao proferir o apelido, sendo retribuídos com um sorriso amarelo do mais velho.

O garoto de pele branquinha – outro fato que fazia Seokjin assimila-lo a um certo coelhinho de uma famosa música infantil – inclinou-se para pegar a bagagem de seu hyung, mas o olhar repreendedor do mais velho o fez entender que não era necessário.

– Como ela está? – indagou , Seokjin, enquanto subia os poucos degraus da entrada principal.

A família de Seokjin nunca passou por dificuldades; o capital sempre foi abundante. Tudo conquistado pelo esforço de seus pais; sua mãe sendo uma escritora renomada e seu pai um dos médicos mais conhecidos do estado. Sem contar sua bisavó, que a oitenta anos atrás deixou para a filha uma grande terra e ela, junto com seu marido, durante muitos anos, lá se encontrava o melhor gado e leite. Agora podiam ter várias mordomias. Mas nunca tiveram ajudantes ou semelhantes. A vovó Kim, sempre queria tudo feito por si própria, mas com o tempo precisou de alguém para lhe ajudar. Nos últimos anos de vida de seu marido, ela começou a se esquecer. Esqueceu de como era o preparo do arroz, de quais ingredientes eram necessários para fazer seu sorvete, intitulado “a melhor sobremesa de fim de ano do mundo" por sua família. Com o tempo tudo foi perdendo o sentido. E a única coisa que Seokjin poderia fazer com seu dinheiro, era continuar comprando os remédios. Rezando sempre a mesma prece: “por favor, lembre de mim”

– Ela parece bem. Perguntou-me quando você viria – saltitou animado – ela lembrou que a visitaria.

– “Nos visitaria” – corrigiu com um sorriso casto que foi retribuído por seu saeng.

– Sim, nos visitaria...

Jeonkook abriu a porta principal e ascendeu a luz, dando assim passagem para SeokJin entrar. Ele não pode deixar de transparecer confusão no olhar ao notar que a parede atrás do sofá – originalmente branca – ainda continha inúmeros desenhos em variadas cores, desde bonequinhos de palitinho – que tentavam (e falhavam), em representar a família – , a flores iguais as do jardim.

Elas deveriam ter recebido uma nova camada de tinta anos atrás, pensou.

Se permitir rir ao notar uma casinha torta e borrões amarelos – que deveriam ser as flores – desenhados perto do encosto do sofá. Taehyung e ele realmente não tinham (não têm) dons artísticos.

Taehyung.

Várias memórias boas do irmão vinham a tona, mas as ruins causam maior impacto.

– Jin hyung? – não obteve resposta – se estiver bravo pela parede... é... perdão. Sei que mandou pintar mas sua vó gosta dela assim, eu sei, eu sei, ela não se lembra, mas simplesmente gosta, não pude tirar isso dela, perdão, perdão!

Mesmo tentando Seokjin não compreendeu nem uma palavra proferida pelo outro. Estava totalmente perdido em pensamentos e lembranças ruins. E além de tudo, Jungkook, despejou as palavras em cima de si, foi uma confusão imensa.

– Ei, ei. Diga mais devagar, assim não acompanho seu raciocínio! – abandonou seus pensamentos. Não tinha tempo para o passado, estava ali para ver sua vó, seria algo bom, então nada de ruim que aconteceu poderia desanima-lo, certo?

– Perdão pelas paredes... – repetiu cabisbaixo.

– Tudo bem – olhou uma última vez aqueles rabiscos e tentou sorrir. Esticou seus braços para seu pequeno coelhinho e quando esse envolveu os braços em sua cintura, sentiu sua respiração quente em sua orelha, sentiu o calor de seus corpos se misturando, então sorriu, mesmo com uma parte de si ainda triste – sei que você também a ama... – se afastou do mais novo, vendo seu pequeno sorriso diminuir – vou para o quarto. São quatro da manhã, você deveria voltar a dormir também.

– Certo – Jungkook observou Seokjin subir as escadas com certa dificuldades por conta de suas malas – não quer ajuda com isso?

– Boa noite, coelhinho.


[...]


Seokjin não pregou o olho um minuto sequer desde que entrou no quarto. O banho quente não o ajudou a relaxar, a cama macia não parecia tão confortável e o edredom parecia esfriar ao invés de o manter aquecido. Tudo isso ocasionou em um Seokjin frustrado, direcionando-se a cozinha para preparar um chá – de preferência: mate.

As pantufas de cachorrinho, faziam excepcionalmente bem o trabalho de esquentar seus pés, mais do que gostaria. Nisso, percebeu que a noite não era fria, uma calça e uma blusa de frio fina eram suficientes para o manter aquecido.

Até seu corpo estava confuso!

Teria que admitir: não podia (não queria) dormir. Não podia permitir que suas péssimas lembranças atormentassem seus sonhos. Hoje, não dormiria até resolver seu problema, em outras palavras: não dormiria mais essa noite. Pegou seu celular, que repousava sobre escrivaninha, ligou a lanterna e rumou a cozinha – não queria despertar ninguém, então optou por pouca iluminação no andar de cima.

Já no cômodo desejado, desligou a lanterna do aparelho eletrônico e deixou a luz do próprio cômodo iluminar o ambiente.

O relógio marcava quatro e quarenta e três, quando finalmente teve seu chá em mãos. Conseguiu sentir perfeitamente o líquido descendo por sua garganta, trazendo-lhe um calor confortável. Isso o acalmou, por alguns segundos, entretanto. Apesar da visibilidade dos outros cômodos ser quase nula, ele sabia exatamente o que estava a seu redor, desde as flores – em um vaso delicado de vidro – que ficavam do lado da televisão na sala de estar, ao carpete cinza que combinava com as paredes do cômodo principal de mesma cor.

Ele recordava cada detalhe. E isso era péssimo.

Não hesitou, abandonou seu chá e correu até a porta a abriu bruscamente e assim também a fechou.

A brisa gélida arrepiou seu corpo assim como fez quando o recebeu mais cedo. Seus pés irritaram-se em contato da grama, pinicava, isso era apenas um detalhe, entretanto.

Seokjin tratou de pegar seu celular no bolso do pijama, e ligar a lanterna para iluminar seu caminho. Logo avistou a ponte de madeira e a lago sob ela. Ele subiu ali, sentou na beira da ponte com seus braços sobre a barra de apoio e deixou que seus pés descalços tocassem a água fria.

A verdade é que Seokjin não tinha como fugir. Tudo lhe remetia ao passado. A casa, a ponte, o jardim, absolutamente tudo.

Seokjin desejava esquecer tudo, assim como sua avó esqueceu.

No que estava pensando? Sua avó sofria todos os dias, tentando alcançar as partes perdidas.

Era realmente tão ingrato?

Chorou.

E suas lágrimas misturaram-se na água.

Seus pés queimaram. A água, antes fria, começara a borbulhar lentamente. Seokjin arregalou os olhos quando viu a fumaça densa clarear a noite. O brilho da água poderia ser comparado ao da lua, então, com medo, ele recuou.

Com os olhos focados na água – que imploravam para direcionarem-se a qualquer outra coisa, por conta do brilho forte – Seokjin recuou até chegar a outra beira da ponte.

Tudo se cessou.

Com as costas apoiadas na barra de apoio da ponte, ele soltou o ar preso em seus pulmões aliviado.

Estou louco, pensou.

Estava louco ao ponto jurar de pés juntos e dedos entrelaçados que alguém o chamava.

– Seokjin, você está bem? – a voz ressoou mais uma vez.

É isso, estou louco ou dormindo, concluiu.

– Desculpe ter te assustado, não era minha intenção. Por favor venha até aqui novamente – pediu calmamente.

É um sonho, certo? Que mal tem em ir?

Seokjin o fez.

Em três passos, chegou a seu lugar de início e se apavorou ao ver alguém de dentro da água falando consigo.

Ali se encontrava um homem, também loiro, com óculos pretos de armação redonda. Não era sua imagem refletida como deveria ser. E a luz de seu celular – totalmente desnecessária, já que o brilho do homem (ou da água) era suficiente – quase entrando na água, confirmava isso.

Desligou a lanterna e repousou o celular ao seu lado. Realmente não era necessário.

– O que é você? – indagou. Se não fosse pelo extremo silêncio da manhã – exatas cinco e meia – a pergunta seria inaudível.

– Eu sou sua ajuda – sorriu. A imagem misteriosa sorrio. Aquilo era possível?

– Minha ajuda? Vai me ajudar em que? – a única ajuda que Seokjin precisa era em relação ao seu passado, mas isso é algo trancado a sete chaves em seu ser. Algo que só ele sabe, algo que ele suporta em silêncio.

– Seokjin hyung – hyung? Aquela coisa sabia até mesmo sua idade! Como isso é possível? – por que é tão egoísta consigo mesmo?

– O que está dizendo?

– Deveria permitir que sua felicidade retornasse, hyung.




E aquilo destruiria Seokjin, se alguma vez ele tivesse se reconstruído.


Notas Finais


Obrigado por ler(a estória contém três capítulos) <3


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