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História No teu olhar - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Argo Navis


Fanfic / Fanfiction No teu olhar - Capítulo 6 - Argo Navis

“Os argonautas, na mitologia grega, eram tripulantes da nau Argo que, segundo a lenda grega, foi até a Cólquida (atual Geórgia) em busca do Velocino de ouro.

A saga dos argonautas descreve a perigosa expedição rumo a Cólquida em busca do Velocino de Ouro. Conta o mito que Éson havia sido destronado por Pélias, seu meio irmão. Seu filho Jasão, exilado na Tessália aos cuidados do centauro Quíron, retornou ao atingir a maioridade para reclamar ao trono que por direito lhe pertencia. Pélias então, que tencionava livrar-se do intruso, resolveu enviá-lo em busca do Velocino de Ouro, tarefa muito arriscada. Um arauto foi enviado por toda a Grécia a fim de agregar heróis que estivessem dispostos a participar da difícil empreitada. Dessa forma, aproximadamente cinquenta jovens se apresentaram, todos eles heróis de grande renome e valor. Cada um deles desempenhou na expedição uma função específica, de acordo com suas habilidades.

A Orfeu, por exemplo, que tinha o dom da música, coube a tarefa de cadenciar o trabalho dos remadores e de, principalmente, sobrepujar com sua voz, o canto das sereias que seduziam os navegantes. Argos, filho de Frixo, construiu o navio e por isso, em sua homenagem, a embarcação recebeu seu nome. Tífis, discípulo de Atena na arte da navegação foi designado piloto. Morto na Bitínia, foi substituído por Ergino, filho de Poseidon. Castor e Pólux, gêmeos filhos de Zeus e Leda, atraíram a proteção do pai durante a tempestade que a nau foi obrigada a enfrentar.

Em sua primeira escala, aportaram na ilha de Lemnos, habitada somente por mulheres. É que Afrodite, insultada por estas que lhe negavam culto, castigou-as com um cheiro insuportável de forma que seus maridos partiam em busca das escravas da Trácia. Movidas pelo ódio e pelo despeito, assassinaram seus esposos instalando na ilha uma espécie de república feminina, situação que perdurou até a chegada dos argonautas, que então lhes deram filhos.

Na ilha de Samotrácia, segunda escala do grupo se iniciaram nos mistérios dos Cabiros com o intuito de obter proteção contra naufrágios. A seguir, penetrando no Helesponto, mar onde caiu e morreu a jovem Heles, ancoraram na península da Propôntida, no país dos doliones, povo governado pelo rei Cízico. Foram ali recebidos com festas e honrarias e já se fazia noite quando os argonautas partiram para Mísia. Porém, foram obrigados a retornar devido a uma grande tempestade que se abateu sobre eles. Os doliones não reconheceram os argonautas por causa da escuridão da noite e, pensando tratar-se de invasores, atacaram. Instalou-se uma sangrenta batalha que se estendeu por toda a noite. Com o amanhecer, os vitoriosos tripulantes de Argo verificaram o triste engano. Jazia entre os mortos o rei Cízico, que foi enterrado por Jasão e seus companheiros com homenagens e magníficos funerais.

Foi na Mísia que Héracles interrompeu sua viagem. É que Hilas, seu amigo predileto, tendo sido encarregado de buscar água numa fonte, foi capturado pelas ninfas que o arrastaram para as profundezas dos rios. Héracles voltava do bosque onde tinha ido buscar madeira para refazer seu remo partido quando tomou conhecimento de seu desaparecimento através de Polifemo, que tinha ouvido seus gritos de socorro. Saíram então os dois em busca do amigo varando a floresta durante a noite. Pela manhã, Argo partiu com menos três tripulantes a bordo, pois os dois também não retornaram: Polifemo fundou posteriormente naquelas terras a cidade de Cio, onde se fez rei e Héracles seguiu seu rumo de aventuras.

Estranho hábito tinha o rei Âmico ao receber os visitantes que chegavam por suas terras. O rei dos bébricios, gigante filho de Poseidon, os desafiava para a luta e em seguida os matava a socos. Lá chegando, os argonautas foram imediatamente provocados pelo rei que os instigava. Foi Pólux quem representou seus companheiros, aceitando o embate. Ao final da luta, venceu o gigante e como castigo fê-lo prometer que jamais importunaria novamente os estrangeiros que ali chegassem.

A expedição seguiu seu rumo e aportou na Trácia, onde reinava Fineu, o adivinho, que por suas crueldades tinha obtido a cegueira como castigo dos deuses. Vivia atormentado pelas harpias, monstros alados que perseguiam-no e roubavam todo seu alimento e por isso ofereceu ajuda aos argonautas caso estes concordassem em livrá-lo de tão grande desgraça. Calais e Zetes, filhos alados do vento Norte, Bóreas, foram os responsáveis por tal façanha. Atraíram as harpias com o odor delicioso de lauto banquete e depois, com suas espadas fatais cortando os ares, expulsaram dali definitivamente as perversas criaturas.

Conforme o combinado, Fineu revelou aos argonautas a maneira de evitar o perigo das Rochas Flutuantes. As Ciâneas ou Rochedos Azuis, também chamadas de Sindrômades ou Simplégades, eram dois recifes que se fechavam violentamente, esmagando qualquer coisa que entre eles se interpusesse. Disse-lhes que antes de por ali se aventurar, enviassem uma pomba. Se esta lograsse atravessar os rochedos, este seria o sinal de sucesso também para os marinheiros. O pássaro conseguiu atravessar as Simplégades, muito embora, ao se fecharem, as Ciâneas cortaram as pontas de suas penas maiores. Igual sorte teve Argo, que conseguiu ultrapassar o obstáculo com apenas uma leve avaria na traseira. Ao passarem pelas terras dos mariandinos, os argonautas sofreram ainda duas perdas: Tifis, o piloto, e Ídmon, o adivinho, morto por um javali durante uma caçada.

Chegaram enfim à Cólquida, reino de Eetes, onde cabia a Jasão a tarefa mais árdua: capturar o Velo de Ouro. Medeia, filha do rei e conhecida por suas habilidades na arte da feitiçaria, apaixonou-se perdidamente pelo chefe da expedição e por isso, não mediu esforços para auxiliá-lo nas árduas tarefas que o rei impôs como condição para entregar-lhe o talismã.

Jasão tirou proveito dos feitiços e encantamentos da feiticeira e sem esforço partiu da Cólquida levando consigo o Velo de Ouro. Os argonautas ainda passaram por alguns percalços mas enfim chegaram a seu destino final onde entregaram a Pélias o velocino. Jasão partiu para Corinto, onde consagrou a embarcação ao deus Poseidon.”

 

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A estadia de todos na Índia estava findando. Voltariam para a Grécia dentro de semanas para o duelo contra os pupilos de Camus para disputar pelas 3 armaduras de Argo Navis.

 

Alex, agora com 36 anos, observava os 3 adolescentes sentados embaixo de uma árvore nos arredores do hotel. Bruno cantarolava músicas mexicanas com um violão barato que havia ganhado do pai de um amigo de escola, enquanto Lacaille o acompanhava com um violão que conseguira emprestado de um estrangeiro que conheceram anos atrás.

O castellano Tobias, um viajante de meia idade e enorme bigode que ensinara aos meninos seus primeiros acordes no violão, estava a trabalho em Varanasi 3 anos antes. Cantava em um espanhol perfeito junto a Bruno, que pouco se lembrava de sua língua nativa. Foi o suficiente para que o menino se reconectasse com suas raízes. Bruno conseguira um violão para que pudesse aprender e então Tobias emprestava o seu próprio para o menino Lacaille, que balbuciava debilmente algumas palavras em espanhol tentando cantar as músicas que aprendia. Tobias e Bruno se dedicaram a ensina-lo o idioma pois até então seu desempenho era hilário, porém vergonhoso. O castellano foi embora e deixou seu violão com Lacaille alegando que voltaria para buscá-lo e que esperaria ansioso para ouvir a evolução dos meninos. Ele, porém, nunca mais voltou.

 

Lacaille escrevia letras e junto a Bruno começava a dar vida às suas músicas. Ana dançava rodopiando em meio as árvores, adorava os momentos de descanso junto aos outros 3. Todas as letras que Lacaille escrevia falavam sobre o amor por uma mulher inalcançável. Seus olhos brilhavam enquanto cantava em espanhol vendo Ana dançar entre as árvores.

 

Para Alex era visível a paixão que o jovem nutria por sua colega. Lacaille era um rapaz bonito, tinha um rosto fino e delicado com algumas sardas em volta do pequeno nariz, seus olhos verde esmeralda contrastavam com sua pele clara e seus cabelos eram longos em um tom azul escuro. Tinha um olhar felino e profundo que mexia com as meninas que conhecia. Era muito impetuoso mas ao mesmo tempo era ingênuo.

Bruno era igualmente um rapaz bem apessoado com pele dourada, lábios carnudos e um sorriso grande e belo. Estava flertando com uma garota popular da escola e era motivo de inveja para outros garotos. Bruno também nutria sentimentos por Ana embora fosse muito mais discreto que Lacaille. Ana era belicosa, atrevida, imprevisível, dona de si e tudo isso os atraía.

 

Mas o coração da jovem estava secretamente ocupado. Jamais se desvencilhara da paixão que sentia por Shaka e se esforçava para manter isso em segredo.

A verdade é que ela não conseguia disfarçar muito bem seu entusiasmo quando estava próxima do cavaleiro. Mesmo que não tornasse seus sentimentos óbvios, fazia ciúmes em Bruno e especialmente em Lacaille com toda a sua dedicação em agradar e estar perto de seu mestre.

Alex lamentava por sua pupila e rezava para que ela nunca fizesse qualquer besteira motivada por seus sentimentos pois Shaka seria implacável. Sabia que o cavaleiro de virgem tinha encontros íntimos com uma mulher que conhecera em um templo hindu mas não sabia que tipo de relação era aquela.

 

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Indira tinha 36 anos, era viúva e desde a morte prematura de seu marido se dedicava ao trabalho como guia turístico em um famoso templo da Índia. Em suas horas vagas, também era mestra de tantra.

 

O templo de Khajuraho era um dos principais destinos turísticos na Índia devido aos grandes números de esculturas de conteúdo erótico que representam atividades sexuais. O que parece chocante para as centenas de turistas que visitam o local diariamente, é parte intrínseca da filosofia hinduísta. O sexo para os hindus é visto como uma importante e sagrada arte milenar e portanto, é celebrado. Não surpreendentemente o mais conhecido livro com temática erótica foi escrito em terras indianas. O templo de Khajuraho é um ode ao Kama Sutra, estátuas em todas as posições imagináveis retratam diversas faces das relações sexuais e orgias a céu aberto, assim como também possuía esculturas que representavam lutas e até mesmo orações.

 

Indira sabia que seria muito difícil para uma viúva reconstruir sua vida ao lado de um novo marido pois os bons pretendentes estavam buscando noivas jovens e, é claro, virgens. Em visita ao templo, se apaixonou por sua temática e se aprofundou nos estudos sobre a arte do amor. Estudou tantra e tornou-se mestra na arte, dava aulas teóricas sobre o tema para jovens interessadas em “apimentar” seus casamentos.

 

Em determinada tarde, notou um jovem rapaz vagando pelo templo observando atentamente as tão infames esculturas do local. Franzia o cenho como quem tenta entender o que está vendo. A cena era engraçada e Indira segurava o riso enquanto se aproximava do rapaz.

 

- Posso lhe ajudar?

 

Ao encarar o jovem de perto, sentiu um frio na barriga. Ele era absurdamente bonito.

 

- Não, obrigado... Na verdade... – A curiosidade do rapaz fora maior que sua timidez – Estou tentando entender esse lugar, vim atrás de algumas respostas.

 

Indira olhava no fundo dos olhos azuis do belíssimo rapaz loiro e respondeu sem titubear.

 

- Então eu sou a pessoa certa.

 

Shaka escolheu cuidadosamente algumas perguntas sobre as esculturas e aos poucos, guiado por Indira, já fazia as perguntas que realmente fora lá para fazer.

 

- O hinduísmo trata a relação sexual de uma forma muito diferente do budismo. Em minha crença, o sexo é visto como fonte de uma troca sagrada entre dois seres e certos atos são condenados, tidos como frívolos e sujos.

- Na filosofia hindu, o sexo também é algo sagrado, uma troca sagrada de energias e de amor. Porém, ao contrário de sua crença, o hinduísmo é muito mais aberto quando trata das diversas manifestações dessa troca. Quando há respeito e desejo, nenhum ato deve ser condenado e sim abraçado como diferentes formas de proporcionar e sentir prazer.

 

Shaka escutava atento. Estava buscando respostas e aquela era uma mulher paciente e gentil. Haviam se passado dias após ver Ana pela primeira vez. Não tinha muito contato com mulheres e aquela foi uma experiência, para ele, catastrófica. Precisava entender o desejo que sentia e mais do que tudo, direcioná-lo para longe de sua pupila.

Caminharam por um tempo enquanto conversavam sobre as dúvidas do rapaz. Indira falou sobre o tantra e sobre as aulas que dava para jovens moças.

 

- Saio daqui às 18h. Me encontre na entrada do templo, acho que podemos conversar um pouco mais se você quiser.

 

Indira e Shaka caminharam até o apartamento da indiana. Ela convidou Shaka para entrar e o cavaleiro, que já atiçara todo o tipo de pensamento depois daquela conversa, não pensou muito antes de aceitar.

 

A partir daquele dia, Indira e Shaka passaram a se encontrar. Ela o ensinava todos os meandros e pormenores da arte do amor e Shaka era um aluno receptivo e dedicado. Gostava da companhia de Indira, era uma mulher experiente e muito bonita. Ademais, nunca voltou a nutrir qualquer pensamento sobre Ana. Quando Shaka se despediu antes de voltar para Varanasi, convidou Indira para ir visitá-lo quando pudesse, já que ele estaria impossibilitado de deixar a cidade por tempo indeterminado por causa de seus pupilos. Indira indicou que ficaria feliz em o visitar.

 

- Pupilos... você nunca me disse que era professor!

 

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Ana voltava da escola de dança à noite, eram as últimas semanas que passaria na Índia e já sentia saudade de Lorraine e de todos os dançarinos e professores  a quem se afeiçoara tanto. Entrou no hotel enquanto o recepcionista separava as correspondências no balcão.

 

- Salaam, Kabir! Tem alguma coisa para mim?

- Salaam, senhorita Ana. Não, nada para você, só essa carta para o senhor Shaka.

- Uma carta? De onde?

- Aqui diz “Fundação FMPCS”.

 

Era do Santuário. Não costumavam enviar correspondências em nome de Shaka.

 

- Posso entregar essa carta a ele? Eu estava indo lá agora mesmo...

- Senhorita Ana, não é de bom tom uma garota ir ao quarto de outro rapaz, ainda mais sendo tarde como é agora.

- Ora, Kabir... Sabe que não entendo esses costumes tão rígidos. Para mim isso é uma grande bobagem, não há nada de mal em ir falar com um amigo seja a hora que for.

- Tudo bem, senhorita. Apenas assine para mim o recebimento da correspondência, por favor.

 

Ana, engenhosa como era, arrumaria qualquer desculpa para ver seu mestre. Subiu devagar pelas escadas enquanto ajeitava os cabelos. Segurava a correspondência com o nome de seu amado contra seu peito como se carregasse um tesouro. Chegou ao quinto andar e bateu na porta do quarto de Shaka.

Quando a porta se abriu, viu seu mestre com os cabelos molhados. Shaka havia recém saído do banho e pareceu ter se vestido rápido para atender a porta, visto que sua roupa estava virada. Ana respirou fundo o perfume que emanava dele.

 

- Salaam, mestre. Me pediram para entregar essa correspondência para você.

 

Shaka viu que a carta havia sido enviada pelo Santuário e franziu o cenho. Uma carta enviada diretamente a ele não era algo comum.

 

- Obrigado, Ana.

- Mestre... semana que vem acontecerá o final das regionais de dança, vai ser no centro da cidade. Você ainda estará aqui para assistir?

- Acredito que sim. Você irá participar novamente?

- Sim! Quero muito que vocês 4 estejam lá. Por favor, não esqueça!

- Não esquecerei. Boa noite, Ana.

 

Ana segurou e beijou a mão de seu mestre, sentindo pela última vez naquela noite o maravilhoso perfume de sabonete que emanava do cavaleiro.

Shaka fechou a porta e Ana foi andando pelo corredor sentindo que estava flutuando quando foi trazida de volta por uma voz irritada e inquisidora:

 

- O que você estava fazendo no quarto do mestre a essa hora?

 

Lacaille estava escorado ao lado do elevador observando a cena.

 

- Que susto, Lacaille. Quer me matar? Vim entregar uma correspondência para o mestre, só isso.

- Achei que os funcionários do hotel eram pagos para fazer isso...

 

Ana parou e olhou nos olhos do colega por alguns segundos. As portas do elevador se abriram e ambos entraram.

 

- Você não deveria perturbar o mestre a essa hora, mulheres não devem ir até o quarto de outros homens.

- Eu não estava no quarto dele, eu estava na porta, do lado de fora da porta! Qual o seu problema, Lacaille?

 

A porta do elevador se abriu e ambos estavam novamente em um corredor se dirigindo para seus quartos.

 

- Quem está com problema é você, Ana, que vive em volta de Shaka. Está apaixonadinha pelo nosso mestre por acaso?

- Cala a boca, seu idiota!

- Pois eu acho que você gosta dele, sim. Espere até o mestre Alex ficar sabendo disso!

 

Ana foi tomada pelo ódio e com um soco fez Lacaille voar até o outro lado do corredor, derrubando as finas mesas de flores pelo caminho.

Alex ouviu o barulho e abriu a porta de seu quarto.

 

- O que diabos está acontecendo aqui?

 

Lacaille vinha em direção a garota e gritou:

 

- Ana estava no quarto de Shaka! Está apaixonada por ele!

- Eu vou matar você!

 

Ana avançou em Lacaille, Bruno surgiu correndo segurando a jovem enquanto Alex segurava Lacaille. Os funcionários do hotel surgiram apavorados perguntando o que havia acontecido pois puderam ouvir o barulho lá da recepção.

 

Alex se desculpou pela bagunça e afirmou que iriam arcar com o prejuízo.

No meio do tumulto, Shaka apareceu.

 

- Do que se trata isso aqui?

 

Então se ouviu a voz de Lacaille.

 

- Ana está apaixonada por você, mestre!

 

Todos os presentes ficaram em silêncio. Ana sentiu o sangue ferver como nunca antes, se desprendeu das mãos de Bruno e pulou em Lacaille.

 

Shaka segurou a jovem com a ajuda de Bruno enquanto Alex afastava Lacaille e o colocava dentro do quarto.

 

- Entrem todos no quarto. Agora.

 

A voz rouca e furiosa de Shaka não deixava dúvidas de que as coisas ficariam muito piores do que já estavam.

 

- Vocês tem noção da vergonha que me fizeram passar? Sobrou qualquer resquício de bom senso nas cabeças de vocês?

 

Dentro do quarto Shaka estava gritando, furioso. Lacaille estava tremendo de nervosismo sentado na cama de Alex, que estava sentado ao seu lado com os cotovelos apoiados nas pernas e as mãos segurando sua cabeça abaixada. Ana estava chorando copiosamente sentada no chão do outro lado do quarto enquanto Bruno, sentado ao lado da jovem, tinha o braço esquerdo estendido sobre os ombros da garota.

 

- Por que é que eu ainda perco meu tempo com vocês? Não passam de crianças estúpidas, imaturas. Vocês não apenas destruíram o corredor do hotel mas trouxeram todos os funcionários para que presenciassem a minha desgraça. A mim não interessa os dramas de vocês e pouco me importa que vocês se matem.

 

Olhando para Lacaille, continuou:

 

- Mas eu não admito que me envolvam  nesse circo

 

Lacaille respondeu:

 

- Mestre, eu não disse nenhuma mentira! E no mais, foi ela quem começou...

- Cale-se! Se eu ouvir a sua voz mais uma vez, garoto, não responderei por mim.

 

Alex instintivamente segurou Lacaille pelo braço e o olhou nos olhos. O garoto entendeu o recado, não falaria mais nada dalí em diante.

 

- Muito me supreende você, Ana. O que estava pensando quando agrediu seu colega?

 

Ana não sabia se respondia. Ao ver o silêncio perdurar e os olhos abertos de Shaka em sua direção, entendeu que aguardava uma resposta, embora não houvesse uma.

 

- Me perdoe... – disse aos prantos.

- O que Lacaille disse... é verdade?

 

Ana engoliu seco.

 

- Não.

- Mentira! Ela está mentindo! – Lacaille levantou sua voz novamente sem se dar conta do que fazia.

 

Alex sacudiu o garoto com violência e disse com os dentes cerrados.

 

- Você quer morrer, seu idiota?

 

Shaka fechou os olhos e respirou fundo. Realmente poderia matá-lo ali mesmo com um único golpe, mas isso não melhoraria sua situação, muito pelo contrário.

 

- Ana. Eu vou perguntar novamente. Lacaille está mentindo... ou é você que está mentindo?

- O que importa? – Ana levantou sua voz embargada pelo choro.

 

Shaka entendeu aquilo como uma confissão, a confissão que não desejava ouvir.

 

- Ana, temo que você não tenha entendido direito a liberdade que eu lhe dei... – A voz de Shaka soava sarcástica e cruel – você não passa de uma criança. Se existe sentimento de sua parte, ele é injustificado. Jamais haveria qualquer coisa entre você e eu, e sabe o por que, Ana? ... Porque além de você ser uma criança mimada, eu sou o seu mestre. Pelos deuses, eu sou o seu mestre e por mim você deve ter apenas obediência e servidão. Você é mesmo muito tola, menina, se pensa que algum dia essa paixão será recíproca. Jamais me interessaria por pessoas fracas, passionais e tolas como você. Você, para mim, é apenas uma força de trabalho. Se você sucede, eu sucedo. Se você falhar, eu falho também. E é unicamente por este motivo que eu voltei para treinar vocês antes de voltarem para o Santuário, não por me importar com vocês, mas para não deixar que vocês me façam passar vergonha perante a todos. Para que não digam que eu treino perdedores. Mas agora compreendo que não posso esperar nada de nenhum de vocês.

 

Ana estava dilacerada. Lacaille começara a sentir o amargor do arrependimento ao ver o estado em que se encontrava Ana. Bruno apertava os ombros da jovem com força enquanto ouvia as palavras mais duras que já ouviu alguém dizer para outra pessoa.

 

- Se existe alguém mais tolo que essa garota aqui é você, Lacaille. É com esse tipo de atitude que pretende conquistar a garota que você ama?

 

Lacaille foi tomado de susto. Como Shaka poderia saber de seus sentimentos se mantinha-os em segredo?

 

- Não me olhe com surpresa, garoto. Você foi a gota d’água que transbordou o copo. Gosta de dizer verdades sobre os outros em alto e bom som, não é mesmo? Como se sente agora que também teve a sua verdade exposta?

 

Lacaille sentiu seus olhos marejarem. Aquele homem era realmente o mais cruel que já havia conhecido.

 

- Não culpe a garota por não se interessar por você, Lacaille. Mulheres não gostam de homens fracos. Seu ciúme infantil e suas ações impensadas resultaram no que você vê agora. Da próxima vez que resolver se apaixonar, lembre-se de não ser tão tolo. Talvez isso demande muito esforço de você.

- Shaka... – Alex interrompeu – Eles já tiveram a punição que mereceram.

- Você julga que estou me excedendo, Alex?

- Olhe para eles, Shaka. Você os está destruindo. Já chega!

- Humpf... ah, é mesmo? Quem sabe se alguém tivesse ensinado limites a eles nada disso seria necessário, mas para isso eles precisariam de um mestre, não é, Alex? Eu não sei a razão de todo seu instinto paternal com esses moleques, mas ele arruinou todos vocês. Não me surpreendo por Camus o ter enfrentado daquela forma na cerimônia de reconhecimento dos aprendizes.

 

Alex realmente havia cometido erros e sabia disso. Sentia que não havia sido suficientemente duro, que muitas vezes amoleceu perante seus pupilos. Os tinha como seus filhos e Shaka percebeu. Diferentemente de Camus, que era frio e distante, Bruno, Ana e Lacaille eram amorosos e presentes, cada um de sua forma. Sentia-se amado por eles, uma lacuna que há muito não sentia ser preenchida.

 

- Não perderei mais um segundo sequer com vocês.

 

Shaka saiu batendo a porta do quarto. Segundos depois, Ana correu para seu quarto. Bruno também foi para seu quarto, enquanto Lacaille permaneceu sentado em estado inerte. Alex abraçou o garoto. Nenhuma palavra foi dita. Esse era, enfim, o poder destrutivo de Shaka.

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Uma semana depois, o centro da cidade de Varanasi recebia os preparativos para a final do concurso regional de dança, onde seria escolhida a escola que representaria o estado na competição nacional.

Ana estava ensaiando pela última vez seu número solo antes de colocar o figurinho. As mulheres contratadas para fazer a maquiagem e o trabalho com henna haviam chegado, era hora de se aprontar.

Bruno e Alex estavam observando as grandes estruturas do evento a céu aberto que tomavam forma. Desde que Shaka fora embora, não haviam mais tocado no assunto daquela noite, mas dessa vez não havia nenhuma cadeira reservada com o nome de Lacaille e nem de Shaka. Lacaille circulava ao longe, procurando um lugar em meio a multidão em que pudesse assistir as apresentações. Toda a cidade estava lá. Ana sequer olhava para ele desde aquele dia, e isso doía. Ana era o que Lacaille tinha de mais precioso e se arrependia amargamente por ter sido tão irresponsável.

 

Ao anoitecer, o mestre de cerimônia anunciou a abertura das apresentações. Haviam dois telões ao lado do grande palco que transmitiam as imagens para que todos pudessem acompanhar. Era um evento tradicional aguardado pela cidade todos os anos.

 

Um táxi parou próximo dali. Shaka estava de volta a Varanasi. Não tinha voltado para a Grécia, foi em busca de Indira. Naquele momento, era a única pessoa com quem podia contar naquele país. Quando soube do ocorrido, Indira pediu ao cavaleiro que voltasse a Varanasi antes de sua partida, e que pedisse perdão aos seus pupilos e a seu colega. Shaka não considerou a hipótese de pedir perdão, mas voltou pois precisava se despedir. A carta que havia recebido do Santuário pedia que ele voltasse para uma missão. Também dizia que o duelo pelas armaduras de Argo seria adiada por tempo indefinido, assim como os duelos de outros aprendizes pelas demais armaduras. O Santuário e a cidadela que o circundava estavam passando por modificações e reformas para receber o grande número de aprendizes, e isso levaria mais um tempo. Alex, Ana, Bruno e Lacaille decidiram permanecer na Índia durante esse tempo, amavam aquele lugar.

 

Shaka se aproximou da multidão que estava ao redor da área reservada. Seus olhos abertos encontraram Bruno e Alex já sentados em frente ao palco. Não esperava que houvesse algum lugar com seu nome, mas foi até a área de entrada perguntar ao segurança.

 

- Shaka... Com “S e H”? Não esta na lista. Próximo!

 

Se posicionou novamente em meio a multidão se perguntando se havia perdido a apresentação de Ana.

Do outro lado, Lacaille encontrou uma grade em que podia subir para enxergar melhor. Tomou um gole do refrigerante que segurava e aguardou.

 

Lorraine estava com Ana, seria o segundo número da escola. O primeiro seria coletivo, o segundo seria ela, sozinha.

 

- Está nervosa?

- Estou anestesiada. Nada sinto, Sra Lorraine.

 

Ana disse as palavras olhando para si mesma no espelho. Era uma casca vazia, morta.

 

- Varanasi, primeiro grupo no palco em 10 minutos!

 

Lorraine deu um beijo na testa de Ana e saiu para coordenar a entrada do primeiro grupo.

 

No palco, foi anunciado o primeiro número da escola de Varanasi. Lacaille esticou o pescoço para procurar Ana no palco. Do outro lado da multidão, Shaka olhou atentamente um por um dos dançarinos, tentando reconhecer Ana.

Mas ela não estava lá.

A apresentação do primeiro grupo seguiu impecável, não havia dúvidas dos motivos pelos quais a escola figurava entre as finalistas. Ao som dos aplausos, e grupo saiu do palco e foi anunciado o segundo e último número da escola.

A dançarina se posicionou no centro do palco. Um holofote a iluminou no exato momento em que a introdução da música começou.

 

“aaraju thi hame itanaa zahek se maut mil jaaye.... saari duniyaa mein kisise to muhobbat mil jaaye... jiteji paayaa naa kuch hamane jamaanewaalo... ab janaaje ko to rukhsat ki izaazat mil jaaye”

“Eu tinha apenas um desejo, que eu poderia ser feliz... Se neste mundo eu tivesse encontrado o amor... Mas eu não encontrei nada nesta vida... Pelo menos deixem o meu cortejo fúnebre passar”

 

Ana estava entregue à música e a interpretou com toda a verdade e dor que sentia em seu coração.

 

Na platéia, Shaka e Lacaille acompanhavam pelas grandes telas de led situadas nas laterais do palco. Ana estava mais bela do que nunca, mas em seu olhar não havia nada além de tristeza.

 

“poochh rahe hai poochhanewaale... lekin hum bataalaaye kyaa... daag ye dil ne paaye hai kaise... unako hum samajaaye kyaa... poochh rahe hai poochhanewaale...”

“Eles estão perguntando, eles estão pedindo... O que devo dizer-lhes? Que há feridas em meu coração? Como posso explicar isso à eles... Eles estão perguntando, eles estão pedindo”

 

Ana levou ao palco sua alma. Dançou com perfeição e com a sua graça característica. Ao final, fora aplaudida de pé pela platéia. Agradeceu e saudou a todos levando sua mão até sua cabeça e saiu. Para surpresa de Lacaille, Bruno, Alex e Shaka, Ana nem mesmo lembrava a menina alegre e solar que era e que haviam visto em sua primeira apresentação meses atrás.

 

A escola de dança de Varanasi foi anunciada como campeã. Ana abraçou Lorraine, deu-lhe um beijo em sua bochecha e se dirigiu ao hotel.

Em seu quarto, na escuridão, estava sentada em frente ao espelho.

 

- “Pelo menos deixem meu cortejo fúnebre passar” – repetiu em um sussurro a letra da música.

 

Ouviu uma batida em sua porta e foi atender. Quando abriu a porta, se deparou com Shaka.

 

- Ana... Salaam...

- Mestre. Achei que estava na Grécia.

- Não, partirei amanhã. Prometi que estaria aqui para vê-la, não prometi?

 

Ana estava surpresa, mas seu coração nem mesmo ousou acelerar dessa vez ao olhar para seu mestre como sempre fazia.

 

- Posso entrar?

 

Ana deu passagem ao cavaleiro.

 

- Quero lhe pedir perdão pelas palavras duras que proferi. Sei que a machuquei e me arrependo.

- Você não imagina o estrago que causou a todos. Não posso lhe dar meu perdão nem se eu quisesse. Algo em mim morreu, mestre. Jamais irei perdoa-lo.

- Eu entendo...

- Não! Você não entende! Você não entende metade das coisas que você faz! Você tem um coração frio, Shaka, você não é digno de amor ou compaixão.

- Escute, eu não vim aqui para brigarmos, Ana...

- Você veio até aqui e eu não entendo o por que. Peço que vá embora, por favor. Não se preocupe quanto a batalha pelas armaduras, garanto a você que venceremos e não seremos motivo de vergonha para você.

 

Ana foi até a porta e a abriu.

 

- Eu lamento ter ferido você dessa forma. Você não é e nunca será motivo de vergonha para mim, você é a amazona mais poderosa que eu já conheci e eu sei que a armadura será sua. Espero que um dia essa mágoa passe, Ana.

 

Shaka caminhou até a porta do quarto escuro.

 

- Irei embora amanhã no início da tarde. Estarei no aeroporto aguardando caso deseje dizer adeus.

 

Ana não disse uma palavra. Shaka saiu, Ana fechou a porta.

Foi novamente até o espelho. Seu corpo era iluminado apenas pela luz da lua.

 

- Meu coração está morto para sempre, Shaka. Mas vou me reerguer, isso eu prometo.

 

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Shaka também procurou Lacaille para pedir perdão. O garoto foi resistente nos primeiros momentos mas logo aceitou o pedido de perdão do cavaleiro. Não sabia se realmente o perdoava, mas considerou uma atitude nobre.

 

Alex apenas abraçou o cavaleiro. Seu coração tinha portas abertas para Shaka e isso jamais mudara.

 

No dia seguinte, Shaka estava no aeroporto. Antes de embarcar, olhou ao redor, não havia ninguém de quem se despedir.

 

Foi em direção ao portão de embarque quando ouviu um grito:

 

- Ei, Shaka!

- Alex...

 

O cavaleiro vibrou. Alex estava lá para despedir-se, mas rapidamente constatou que vinha sozinho.

 

- Me perdoe por vir sozinho, mas não se preocupe em demasiado. Sei que o tempo tudo curará, meu amigo.

- Cuide deles, Alex. Aguardo vocês no Santuário em breve.

 

Então finalmente Shaka embarcou em seu vôo.


Notas Finais


O lado sombrio de Shaka! Ana sofre tanto por amar o virginiano e ele além de não corresponder, ainda é cruel. Talvez para preservar a si mesmo contra um possível sentimento?

Lacaille é tão explosivo que só mete os pés pelas mãos, coitado. Bruno poderia ensinar um pouco de auto controle para ele.

Gosto da Indira, mesmo sendo bem mais velha do que Shaka que só tem 18 aninhos, ela gosta muito dele! Que Ana não me ouça, hahahahah!

Nossa amazona de puppis vai ter que lutar para seguir adiante depois de tudo. Seu amor por Shaka vai resistir?

Até o próximo capítulo!


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