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História Noites de Desventuras - Capítulo 2


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Notas do Autor


The 10 Best Chewbacca Quotes.

Capítulo 2 - Aquele em que Chewbacca conhece um urso polar rosa


Fanfic / Fanfiction Noites de Desventuras - Capítulo 2 - Aquele em que Chewbacca conhece um urso polar rosa


"Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável.
Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu." 

- Douglas Adams
 

 

 

Era quase nove horas da manhã quando o carro de Siyeon parou em frente ao portão do internato. As grandes paredes cinzas, que mais lembravam uma muralha, cobertas de musgo e alguma planta espinhosa causaram arrepios em Gahyeon. 

 

    — Então, aqui é algum tipo de penitenciária? Não que eu estivesse esperando uma colônia de férias, mas...

    

Siyeon começou a rir enquanto mandava um sinal para o porteiro que logo a reconheceu e liberou a entrada. 

 

    — Eu também me assustei na primeira vez que pisei  aqui. E todo aquele discurso sobre como seria bom para o meu futuro deixar de ser uma delinquente não ajudou muito.

 

    — Pelo jeito não funcionou muito. — As duas garotas começaram a rir, acordando Yoohyeon que cochilava com o rosto esmagado no vidro do carro. 

 

    — Nos primeiros meses eu até tentei, quando percebi estava metida em mais problemas do que o esperado. Porém, eu nunca fui expulsa. Ponto pra mim.

 

    Assim que os portões foram abertos, o carro voltou a funcionar. O dia estava frio, por mais que os raios de sol estivessem batendo diretamente no rosto meio-adormecido de Yoohyeon, que tentava se localizar no mundo olhando em todas as direções. Não estava acostumada a viagens longas de carro e a maratona de De Volta Para O Futuro na noite anterior não ajudou muito.

 

    — Nós chegamos, Bela Adormecida — Gahyeon riu e jogou a embalagem de chocolate que estava comendo na mais velha — Bem-vinda ao que vai ser a nossa nova casa. 

 

    O som do motor de uma moto se aproximando chamou atenção das garotas. Um vulto preto adentrou a escola em velocidade máxima, passando ao lado da janela de Siyeon. Yoohyeon foi a primeira a gritar e bater a cabeça no teto do carro. Tinham certeza que a velocidade permitida dentro do internato não era a velocidade da luz.

 

    — Primeira lição do dia, crianças: nunca deixe a Han ganhar uma corrida.

 

    E essas foram as últimas palavras antes que Siyeon afundasse o pé no acelerador e Gahyeon começasse a se arrepender de um dia ter concordado com o plano maluco de sequestro. As pedras na estrada, que ligava o portão principal até o estacionamento, faziam barulho de pequenos estalos ao bater na lataria do carro. Os arbustos e placas de bem-vindos agora eram borrões passando pela janela.

 

    — Nós vamos morrer, nós definitivamente vamos morrer! — Yoohyeon gritava enquanto sentia sua alma deixar o corpo.

 

    Mais alguns segundos e elas estavam contornando um prédio cinzento com vários andares e janelas espalhadas por todos os lados, ao longe dava pra ver alguns estudantes em seus uniformes vivendo apenas uma manhã normal da rotina escolar. Contudo, para Gahyeon e Yoohyeon, aquela era a primeira vez que participavam de uma corrida clandestina às 8h da manhã. E, pior, em um carro com menos vida que um senhor de noventa anos em coma. 

 

    Elas seguiram mais um pouco e então pararam subitamente em uma área vazia, apenas alguns veículos e uma placa amarela indicando o limite de velocidade, aquele  era o fim da linha. Gahyeon soltou o aperto no cinto de segurança, os dedos travados com tamanha força que havia feito para não ser arremessada caso a Ferrari de Siyeon resolvesse tentar saltos acrobáticos. 

 

    O apito de um guardinha dizia que estavam em problemas. Os primeiros dez minutos dentro do internato pareciam uma eternidade. 

 

    Siyeon deu um murro no volante e a buzina fraca fez as garotas darem risadas da situação do carro, apenas um transplante de motor seria capaz de salvar o pobre coitado (com muitas sequelas).

 

    — Todo mundo vivo? — A motorista perguntou e conferiu cada uma das garotas.

 

    — Meu cu ficou lá na entrada, será que a gente pode voltar pra pegar depois? — Yoohyeon parecia ter vivido o momento mais traumático de sua vida, enquanto a mais velha se divertia às suas custas. 

 

    — Onde você tirou sua habilitação? Eu preciso denunciar esse lugar, pelo bem da humanidade. 

 

    Gahyeon sibilou palavra por palavra enquanto respirava fundo. Aquele seria mais um item na sua lista de Motivos Para Raspar O Cabelo de Lee Siyeon Enquanto Ela Dorme.

 

    — Lenta, como sempre — Uma garota alta, usando preto da cabeça aos pés, se apoiava na janela ao lado de Siyeon, dando tapinhas na lataria — Um dia essa barca vai partir em pedaços e não vai sobrar um para contar história —  o sorriso divertido em seus lábios denunciava que aquela era uma guerra antiga entre as duas garotas.

 

    Siyeon empurrou as mãos da inimiga de volante e saiu do carro soltando fogo pelas ventas, odiava perder e tinha o temperamento curto. Gahyeon fez o mesmo movimento dando espaço para Yoohyeon sair e se esticar. Dormir em um carro pequeno, tendo o tamanho de um ciclope, com as pernas encolhidas não foi uma das melhores escolhas da platinada.

    — Nem começa, Han. Você tinha vantagem e essa não foi oficial.

 

    As duas garotas mais novas olhavam a interação entre a recém chegada e Siyeon. Elas pareciam de certa forma, apesar de o nome Han nunca ter sido mencionado pela mais velha que só tinha tempo para falar sobre a namorada nas cartas.

 

    — Claro, é o que você sempre diz, garota emo. — As duas se empurravam e trocavam provocações com o olhar.  

 

    Quando a desconhecida percebeu a presença das mais novas, que observavam a área do estacionamento e cabine do guardinha que olhava feio para o grupo recém chegado, não se conteve em cochichar para Siyeon.

 

     — Então, quem são as novatas? Não sabia que tinha companhia.

 

Ela perguntou enquanto dava um mata-leão em Siyeon.

 

    — São do primeiro ano, primeiro dia nesse pequeno inferno no meio do nada — elas ficaram em silêncio por alguns segundos. — Tatuagem nova?

 

    Siyeon perguntou casualmente, distraindo a mais nova, podendo se soltar do aperto e dar uma cotovelada em seu estômago. 

 

    — Qual é? Golpe Baixo, Lee. — Handong riu e chutou um montinho de areia em direção da mais velha. 

 

    — E elas são minhas protegidas, por sinal. Mantenha suas mãos sujas bem longe.

    A colega de quarto tomou aquilo como um desafio e se afastou, indo em direção às duas garotas que estavam organizando vários papéis referentes à matrícula. Alheias a pequena briga de cão e gato que estava acontecendo.

 

    — Perdão minha falta de hospitalidade, meu nome é HanDong. Estou no segundo ano e divido quarto com a estranha ali atrás. — Apontou pra Siyeon que limpava a poeira das botas militares. — Não acredito que o plano da maluca de sequestrar vocês deu certo.

 

    — Vai por mim, por pouco a gente não chega viva, mas de resto deu tudo certo. Sou Gahyeon, irmã mais nova da maluca. Aquela ali é Yoohyeon, nosso mascote de estimação. Ela não morde nem se pedir. 

 

    Yoohyeon tentou dar um soco no ombro de Gahyeon mas seu corpo estava em migalhas, precisaria de mais que um dia inteiro de sono para poder se recuperar. A presença de Handong a deixou  meio perdida, analisando as tatuagens que cobriam a pele do braço esquerdo quase por inteira. Não esperava menos de uma amiga de Siyeon.

 

    — Não sabia que ela tinha uma irmã mais nova. — Handong olhou novamente para a amiga mais velha que estava retirando as malas do carro. — Bom, vamos nos ver com mais frequência agora, foi um prazer conhecer vocês e a mascote que não fala.

 

    Yoohyeon sorriu sem graça e voltou sua atenção aos papéis referentes à matrícula. Nunca foi de ter muitos amigos e ainda ficava envergonhada com pessoas novas, apesar da garota parecer extrovertida e amigável.

 

    — Onde pensa que vai? Tem muita coisa aqui para carregar — Siyeon surgiu jogando uma mochila para Handong que segurou com maestria. — Preciso da sua ajuda para guardar algumas coisas antes de passarmos pela inspeção. Ainda está com as chaves do galpão?

 

    Handong acenou positivo e olhou curiosa o conteúdo da mochila. Algumas garrafas de bebidas, cigarros e doces. Uma história em quadrinho da Mulher Maravilha que futuramente iria virar pôster nas paredes de madeira.

 

    — Seu gosto para cigarro é péssimo, espero que saiba disso. O galpão tem um cheiro horrível e coloco a culpa na sua conta — Mesmo reclamando, a garota colocou a mochila nas costas e se despediu, andando em uma direção um pouco diferente da estrada para o dormitório. Alguns arbustos escondiam uma pequena trilha entre as árvores que ficavam perto dos muros naquela parte do internato. 

 

    — Logo vocês vão conhecer o famoso galpão. Feio, com cheiro ruim e caindo aos pedaços. O mais perto que temos do paraíso dentro desses muros. 

 

    — Parece uma bela visão do inferno — Gahyeon fez uma careta imaginando o lugar. — Mas, por agora, quero conhecer minha cunhada fantasma e tomar um banho, estou cheirando a pizza.

 

     Elas arrumaram as malas de maneira mais desajeitada possível e decidiram (de forma democrática, claro) quem levaria os papéis da matrícula para sala do diretor. Siyeon tirou o seu da reta ao dizer que já tinha feito muito por elas, a decisão ficou entre as novatas.

 

    Yoohyeon nunca teve muita sorte.

 

    Gahyeon sempre ganha pedra, papel ou tesoura. 




 

Poucas coisas assustavam Yoohyeon como um corredor vazio. Já havia assistido inúmeros filmes de terror em que as piores cenas aconteciam quando o personagem meio corajoso e meio burro resolvia se aventurar sozinho. Tecnicamente, ela não tinha escolha, os jogos de sorte nunca foram seu ponto forte e Gahyeon sabia roubar como ninguém.

 

    As folhas empilhadas em seu braço eram a porta de entrada para o internato, teria apenas que entregá-las para alguma autoridade responsável, não deveria ser tão difícil assim. 

 

    O corredor estava cheio de portas fechadas com aviso de silêncio, uma cena de crime perfeita. As pessoas que passavam ao seu lado usando um uniforme vermelho e branco, pareciam ter saído diretamente de algum anime escolar que assistiu durante as férias.

 

    Uma porta branca, sem qualquer arranhão ou sinal de velhice, guardava uma sala de espera. Ela estava entreaberta quando Yoohyeon empurrou a maçaneta tentando não fazer muito barulho. Felizmente o local estava quase vazio, com exceção de uma garota sentada em uma poltrona caramelo focada em um livro e um rapaz parado ao lado da janela. O clima era pesado, como se ela estivesse invadindo uma briga que antecedeu sua chegada. 

 

    O garoto estava com o uniforme perfeitamente arrumado e os cabelos firmes com algum gel caro brilhavam como uma capa de revista. Yoohyeon pensou em seu próprio cabelo que deveria estar uma bagunça após a corrida até o estacionamento. 

 

    Após sentar em um poltrona oposto aos dois estudantes, seus pensamentos a levaram até Handong e em como haviam criado uma amizade quase instantânea, talvez as pessoas aqui não seriam tão difíceis de lidar. Errado

 

    — Os uniformes se encontram no primeiro andar do prédio vermelho. A circulação dos alunos desuniformizados apenas é autorizada dentro da área dos dormitórios. 

 

    A voz do garoto assustou Yoohyeon que estava ocupada trocando olhares com a estátua de um cachorro de madeira no canto da sala. Ela olhou para o garoto, que agora a encarava com um olhar ríspido, e sorriu sem graça. era ainda mais fascinante olhar o cabelo engomado de frente. 

 

    — Tanto gel assim deve fazer mal para a raiz — comentou em voz alta, antes de perceber o que estava fazendo.

 

    Todos os ossos da garota gritaram para deixar a sala e voltar a proteção das asas de Siyeon, que facilmente tacava um tijolo na cabeça daquelas pessoas. Mas agora era tarde demais.

 

    A garota, que antes prestava atenção apenas no livro em suas mãos, sorriu para Yoohyeon (que tentava se encolher em uma das poltronas e virar parte da mobília). Sua boca não conseguia ficar calada quando deveria e não funcionava quando precisava, era um talento incrível. 

 

    Em vez de focar em sua vergonha, Yoohyeon passou a admirar a garota na poltrona caramelo. Tinha que admitir, ela tinha um rosto lindo e um sorriso mais ainda, mesmo que fosse causado pela sua falta de trava na língua. O engomadinho, ao perceber os olhares da novata, cochichou algo no ouvido da paixão quase instantânea de Yoohyeon, fazendo com a garota voltasse a leitura. Era quase digno de um vilão de filme adolescente.

 

    Antes que o garoto pudesse cogitar dizer mais alguma coisa, a única porta dentro da sala de espera se abriu e uma senhora de cabelos grisalhos chamou por Yoohyeon. Salva pela matrícula. 

 

    Sua missão naquele lugar foi fácil até que fácil. O diretor explicou que apenas deveria ser feita a entrega dos papéis, uma vez que toda a burocracia da matrícula tinha sido previamente feita pelos responsáveis (lê-se: Lee Siyeon e uma pilha de mentiras esfarrapadas). Após algumas instruções, foi informado que um dos alunos na sala de espera iria mostrar as principais localidades dentro do internato.

 

    O pânico no olhar de Yoohyeon era quase palpável. Tudo o que não precisava era um engomadinho sendo rude com ela no primeiro dia no internato. Sabia que não tinha muita sorte mas chegava a ser uma piada de mal gosto.

 

    — Olá, novata. Meu nome é Kim Minji, presidente do clube estudantil e aluna do terceiro ano. Vou ser sua acompanhante hoje.

 

    A garota do sorriso bonito anunciou assim que Yoohyeon colocou os pés para fora da sala do diretor. Talvez o universo ainda gostasse um pouco dela, pensou. 

 

    Yoohyeon (1) e Engomadinho (0).

 

    — Obrigada, Kim Minji, presidente do clube estudantil e aluna do terceiro ano. Meu nome é Kim Yoohyeon e... Eu conheço todas as criaturas do universo Star Wars catalogadas.

 

     A prateada deu um último olhar para o rapaz uniformizado que a encarava indiferente, provavelmente debochando de si.  Minji apenas aumentou o sorriso e pediu para segui-la. 

 

    As duas garotas deixaram a sala e caminharam pelo corredor em silêncio até chegarem à saída do prédio. O internato era composto por alguns prédios principais onde aconteciam as aulas, práticas esportivas e áreas de lazer. O dormitório ficava um pouco mais afastado, ao lado do estacionamento, os quartos eram alinhados, formando um quadrado com um pátio no meio. Haviam dois destes dormitórios, sendo eles o masculino e feminino. 

 

    Elas passaram o resto da manhã conversando sobre o internato. Minji estava admirada com o conhecimento de Yoohyeon em poemas e até mesmo convenceu a novata a se inscrever nas aulas extras de literatura. Para Yoohyeon, era incrível ter alguém que entendia suas paixões e não conseguia parar de tagarelar. Apesar de ainda ter uma coisa em mente a segurando.

 

     Alguns alunos encaravam as duas garotas com olhares estranhos, o que não passou despercebido pela mais velha, já acostumada a não ser muito bem—vinda nos grupos de alunos. Enquanto, para Yoohyeon, o que a presidente do conselho estudantil falava era mais interessante do que as pessoas ao seu redor. 

 

    — Por que aquele garoto mais cedo estava me olhando daquela forma? — Yoohyeon questionou quando chegaram no refeitório. Era a última parada da caminhada que estavam fazendo. 

 

    — Aquele é o Minho, ele consegue ser meio idiota com alunos novos mas não vai fazer nada com você. É o vice-presidente do conselho. — Ótimo. Vice-presidente do conselho, pensou Yoohyeon, apenas concordando com a informação. As fileiras de mesas vazias pareciam não ter fim no refeitório branco. — A maior parte dos alunos chegam na próxima semana, agora é a semana de apresentação aos novatos. 


 

    A garota mais alta pensou em todo o trabalho que teria para apresentar o local para Gahyeon que estava arrumando o dormitório. O internato era bem maior do que Siyeon sempre descreveu, talvez não fosse uma ideia tão ruim ter vindo pra cá. A essa altura seus pais já deveriam ter encontrado a carta que deixou no travesseiro avisando que estava partindo, com poucas informações além da promessa de que escreveria para eles sempre que possível. 

 

    — Minji — A voz que aterrorizou Yoohyeon mais cedo despertou ela de seus pensamentos — Seu pai precisa de você na sala dele, agora. 

 

    O tom autoritário não passou despercebido por nenhuma das duas. 

 

    — Já estou a caminho — ela respondeu sem muito humor e voltou sua atenção para Yoohyeon — Espero que tenha conseguido te ajudar hoje, qualquer dúvida você pode me procurar no dormitório — Ela deu o mesmo sorriso gentil de quando haviam se encontrado na sala de espera e murmurou baixinho — realmente, todo aquele gel deixa o cabelo dele horrível.

 

    Elas andaram para fora do refeitório de mãos dadas. A mente de Yoohyeon pareceu entrar em branco por um momento, até o vice-presidente voltar o rosto em sua direção com um sorriso arrogante. 

 

    — Kim Minji, seu namorado é um babaca. 

 

    Yoohyeon riu sem muita animação e olhou todas as sacolas em suas mãos, seu uniforme e o de Gahyeon pareciam brilhar dentro do plástico. Porém, mais ao fundo enrolado em alguns papéis, a garota reconheceu o livro que a presidente do conselho estava lendo mais cedo. 

 

    Agora teria um motivo para procurá-la novamente. Só não sabia dizer se era uma coisa boa ou ruim. 




 

Gahyeon sentia que sua alma havia deixado o corpo de uma vez por todas. 

 

    Enquanto colocava suas mochilas no porta—malas de carro, não tinha percebido quanto estava levando. Era a quarta ou quinta pilha de roupa que guardava dentro das gavetas. Detalhe: durante a semana, ela usaria apenas o uniforme escolar.

 

    Yoohyeon, por outro lado, preencheu quase todas as gavetas com histórias em quadrinhos, livros de poemas  e cartas do seu deck sombrio. As prioridades das colegas de quarto eram um tanto quanto divergentes. 

 

    Já era quase noite quando as duas estudantes terminaram de arrumar toda a bagunça. Nas paredes cinzentas os posters das bandas favoritas de Gahyeon ocupavam a maior parte do espaço. 

 

    A beliche de baixo estava coberta por uma manta com desenhos de espaço naves, onde Yoohyeon iria dormir, já que a mais alta (ironicamente) tinha medo de altura. Gahyeon apenas colocou uma coberta rosa peluda e estava de bom tamanho.

 

    Siyeon passaria no horário do jantar para que fossem comer juntas no primeiro dia. Bora estava ocupada com algumas funções do clube de esportes e passou por um breve momento para dar boas-vindas as garotas, que trocaram olhares desconfiados, poderia ser um holograma muito bem feito tentando enganá-las.

 

    — Você ficou com mais da metade das gavetas, sabia? — Yoohyeon comentou após deitar no colchão. Estava exausta e seu estômago roncava em três idiomas diferentes.

 

    — Que culpa eu tenho se você usa a mesma calça todos os dias da semana? Você não é um personagem de anime, nerd, precisa trocar de roupa.

 

    A mais nova rebateu enquanto terminava de organizar sua coleção de CDs ao lado de um boneco horrível do Chewbacca. Certo, ele não era tão horrível assim, apenas não combinava com a decoração do resto do quarto.

 

    — Você me chama de nerd como se não fosse aluna queridinha da matemática avançada.

 

    As duas garotas já tiveram aquela mesma discussão várias e várias vezes. Um dia Yoohyeon iria convencer Gahyeon de que ela pertencia ao lado nerd da força. Precisava de mais atitude do que gostar de uma banda de pop rock para ser considerada punk. E a coberta parecendo um urso polar rosa purpurinado não ajudava muito. 

 

    — Graças a isso minha bolsa é de 100%, imagina pagar para ver a cara da Siyeon todos os dias. Já basta quando ela enchia meu saco em casa. 

 

    Elas ficaram em silêncio por mais alguns minutos escutando o barulho de algumas pessoas que passavam pelo corredor do dormitório. O lugar era mais silêncioso que o esperado. Porém, o maior inimigo naquele momento, era o número incontável de mosquitos que entravam pela janela semi-aberta. 

 

    O quarto era pequeno, ficar com a porta e janela fechada era quase uma sentença de morte. Trazer um ventilador era impossível, além de fugir estariam furtando coisas. Melhor não abusar. 

 

    — Eu conheci uma garota hoje — Yoohyeon comentou, entediada com o silêncio — Mas ela é tão hetero quanto aquela sua vizinha que deixava o namorado fortão do time de futebol invadir a janela. 

 

    Gahyeon fez uma careta ao lembrar dos sons animalescos que a vizinha fazia quando resolvia se aventurar. Os pais eram tão velhos que quase não escutavam o jornal na televisão, quem dirá a filha gritando o nome do camisa dez.

 

    Não fazia muito tempo que as duas amigas descobriram sobre sexualidade e diferentes tipos de amor que não envolvessem uma vizinha tarada e um bombado da escola. Elas foram o primeiro beijo uma da outra. Depois daquele dia e mais algumas pesquisas sigilosas no computador da biblioteca, decidiram que garotas eram mais interessantes que garotos. 

 

    A presença de Siyeon, como  a figura mais perto de responsáveis que tinham disponível, ajudou a clarear os fatos. Mas, óbvio, que só depois de uma sequência de piadas que durou uma semana inteira. O fato de que sua irmã mais nova e a melhor amiga tinham se beijado causava pesadelos em Siyeon. 

 

    A ideia de conversar com seus pais sobre o assunto nunca passou pela cabeça de nenhuma das duas. Era um segredo e permaneceria assim por um bom tempo. Pense bem, os anos noventa não passavam muita segurança para jovem nenhum. Mesmo que artistas assumidos aparecessem aqui e lá, ainda existia uma sombra por trás de cada olhar. Porém, isso não impedia Yoohyeon de ter um pôster gigante da Princesa Leia colocado, estrategicamente, dentro do guarda-roupa e Gahyeon ser perdidamente apaixonada na vocalista de uma banda de rock. 

 

    A descoberta apenas aproximou as duas garotas que marcavam de passar a tarde no fliperama tomando sorvete de limão e criando histórias de amor com garotas aleatórias que passavam pela calçada. Elas chegaram até a encenar a própria versão de Romeu e Julieta, onde o Romeu virou a doce e queria Romena. Claro, Siyeon jamais poderia sonhar com isso ou passariam por mais uma semana de tortura.

 

    Gahyeon se jogou em cima de Yoohyeon e seus corpos afundaram na cama. Aquela era uma mania comum que a mais baixa adquiriu ao longo do tempo. Por mais que não admitisse, a falta da irmã mais velha foi preenchida por Yoohyeon quase morando em sua casa. Elas passavam mais tempo juntas do que irmãos de verdade. 

 

    — Daria tudo por uma pizza agora. — reclamou, enrolando as pernas na coberta de espaço naves. — Aposto que a pizza daqui deve ser horrível para lembrar os alunos de que não estão tirando férias longe dos pais. 

 

    — Tenho certeza que eles devem ter algum outro tipo de tortura mais cruel —Yoohyeon rolou na cama até sair do aperto da mais nova. 

 

    — Tipo o quê?

 

    — Deixarem um projeto de Hobbit te esmagar enquanto está fazendo um calor desgraçado. — Ela riu, se jogando dramaticamente no chão gelado. 

 

    — Aposto que se fosse a bonitona que conheceu hoje, você não iria reclamar.

 

    Gahyeon rolou o corpo da mesma forma e se jogou por cima dela no chão. Um de seus prazeres pessoais era tirar Yoohyeon do sério, ela era manipulável como um filhote de cachorro. As duas começaram a se debater no chão em meio a risadas.

 

    — Seja lá o que está acontecendo, eu quero fazer parte — a voz brincalhona de Handong preencheu o quarto e as garotas olharam assustadas para a porta, em tempo de ver a recém chegada receber um tapa de Siyeon. 

 

    As três alunas veteranas estavam paradas na entrada do quarto com uma expressão questionadora. Bora acenou para as garotas que se levantavam e arrumaram a bagunça de suas roupas. 

 

    — Se eu não estivesse com tanta fome, sairia correndo para lavar meus olhos no banheiro — Siyeon riu, fingindo vomitar.

 

    — Vamos antes que meu estômago crie pernas e vá sozinho para o refeitório — Handong  anunciou —  Hoje teremos as famosas almôndegas  da Sra. Kim. São consideradas uma especiaria, estão com sorte, novatas — comentou em alto e bom tom, andando despreocupada pelo corredor.

 

    — Não precisamos usar os uniformes? — Yoohyeon perguntou, trancando a porta do quarto e acompanhando o resto do grupo que usava roupas casuais.

 

    O contraste entre Bora, usando shorts claros e uma camiseta colorida, para Siyeon que mais parecia ter saído de um velório, deixava o casal com um ar cômico. Como se fossem seres de mundos completamente diferentes.

 

    — Nunca disse que nós iríamos comer no refeitório — Siyeon piscou, levando um empurrão de Bora. Ela era baixinha mas tinha a força de dez seguranças de banco bem fardados.

 

    — Vocês já conhecem o galpão? — ela perguntou, genuinamente interessada.

 

    Bora parecia gentil demais para estar com alguém como Siyeon, Gahyeon pensou. Alguma coisa naquela história não fechava, se recusa acreditar que estava vendo diante de seus olhos a versão real da Bela e a Fera. 

 

    As duas garotas acenaram em negativo e suspiraram. Estavam cansadas demais para qualquer loucura que envolvesse um lugar proibido, especialmente quando a ideia parecia vir da mente de Siyeon. 

 

    — Hoje é a noite do trote com os novatos. Eu sempre sei onde e quando vai ser por fazer parte do clube de vôlei, vamos garantir que fiquem seguras, pelo menos por hoje.

 

    Apesar da tentativa de acalmar as duas, um frio na barriga tomou um pouco do espaço da fome. Tinham ouvido um milhão de histórias sobre trotes, a grande maioria nunca acabava bem. 

 

    — Não precisa se preocupar, vocês passaram o dia inteiro no dormitório arrumando a mudança. Não tem motivos para ninguém fazer algo contra vocês. Eu espero... — O tom assombroso de Handong fez as novatas engolirem em seco. — Tô brincando, não se preocupem. Os intercambistas já acharam um alvo. Em nome da minha classe, digo que estão seguras. 

 

    — Espera, você é estrangeira? — Yoohyeon pareceu interessada no assunto, lembrando das palavras de Siyeon no caminho para o internato. — Achei que todos fossem um pé no saco. 

 

    — Ei, assim você machuca meu coração — Ela reclamou em voz chorosa, fazendo as mais velhas darem risada da pequena confusão. — A garota emo não conseguiu resistir aos meus charmes, esse rostinho lindo vem direto da China. 

 

    — Ela não é uma das vingadores. — Siyeon explicou, chutando a bunda da amiga para andar mais rápido  — Por incrível que pareça, não é mentira. Ela me escondeu no galpão para fugir do trote na minha primeira semana aqui. 

 

    — Olha, minha intenção era ganhar alguns pontos e te beijar depois. Você anda por aí com uma placa na testa dizendo "olá, eu sou gay e gostosa" mas a Bora foi mais rápida. Sempre os atletas. — Handong sussurrou a última parte para as mais novas, apesar de todas estarem perto suficiente para ouvir. 

 

    — Ainda bem que você sabe — Bora respondeu e segurou a mão de Siyeon em sinal de vitória, mas logo voltaram a caminhar lado a lado por estarem no meio do pátio.

 

    — Siyeon sendo domada, essa é nova — Gahyeon gargalhou e passou a andar na frente, arrastando Yoohyeon consigo.


 

    Os alunos que estavam entrando no refeitório pareciam alheios ao grupo de garotas que se esgueirava pelos fundos do prédio, na direção da porta de saída dos funcionários. Não demorou muito para que Bora voltasse com algumas sacolas em mãos cheias de pequenas tigelas do que seria servido no refeitório. 

 

    A mais velha deu de ombros ao perceber o olhar questionador das duas garotas e piscou na direção delas. Já havia anoitecido e pouco dava para enxergar fora do clarão dos postes, além de alguns arbustos que contornavam as estradas de circulação.

 

    — As vantagens de ter uma mãe trabalhando na escola — Handong comentou, guiando o grupo por um caminho duvidoso. Siyeon agora ajudava Bora com as sacolas e mantinham uma conversa paralela.

 

    — Pra onde estamos indo? — Yoohyeon perguntou, olhando mais uma vez para o refeitório que ficava mais distante. Uma silhueta conhecida estava parada sob a luz de um poste, olhando na direção delas. Yoohyeon não sabia se deveria acenar ou não, poderia considerar Minji uma amiga?

 

    — O galpão fica mais ao fundo, atrás do gramado e esse monte de mato. Era usado pelo antigo zelador para guardar algumas ferramentas e máquinas, mas mudaram para o armazém do outro lado do internato, por ser mais prático. — Handong parecia saber mais da história do internato do que sobre as matérias passadas em sala de aula.

 

    Minji havia desaparecido quando Yoohyeon voltou a procurar pela garota, talvez fosse apenas coisa da sua cabeça delirante. E, pior, não conseguia tirar a imagem do engomadinho sorrindo zombeteiro para ela. Era melhor evitar qualquer tipo de problema.

 

    O caminho pela trilha era repleta de galhos e terra. As veteranas pareciam ter um mapa do caminho guardado na memória, pois seguiam sem bater em nada, desviando quando necessário e ensinando sobre as passagens secretas da escola. Bora surpreendentemente era a que mais conhecia sobre os lugares por estudar no internado desde o fundamental e estar em seu último ano do ensino médio.

 

    — A primeira vez aqui é sempre emocionante — Siyeon comentou, segurando um dos galhos para a namorada passar e soltando logo depois no rosto de Handong. — É bom guardarem o caminho, não vamos ser a babá de vocês por muito tempo. A entrada principal foi interditada, por isso usamos essa. Além de evitar a inspetora e os seus diabinhos espalhados pela escola. 

 

    — Vão conhecer eles logo. Não se deixem levar pela cara de inocentes, vão dedurar vocês na primeira oportunidade — Handong parecia zangada pela primeira vez no dia. — Fazem de tudo para ganhar pontos extras com a inspetora e alguns brindes de fora. Qual o problema em só trazer escondido? Gente esnobe me irrita. 

 

    O pensamento de uma Handong se metendo em encrenca era um tanto quanto engraçado para as mais novas. Pelas poucas horas que haviam conhecido a garota já conseguiam perceber o pavio curto e a rotina diária de quebrar algumas regras só para se sentir menos controlada dentro desses muros. 

 

    O buraco que tinham se enfiado parecia sair diretamente de algum filme de aventura. Algumas cadeiras de praia estavam posicionadas do lado de fora do galpão, garrafas de bebidas e qualquer tipo de tralha estavam espalhadas pelo chão. Elas não estavam brincando quando disseram que era desorganizado.

 

    Siyeon foi em direção a uma enorme caixa preta que ficava mais afastada e ligou alguns botões, fazendo a energia lentamente voltar. Apenas uma lâmpada iluminava o lado de fora para não chamar muita atenção, mesmo que as árvores fossem uma capa de invisibilidade bem funcional.

 

    As chaves estavam escondidas em um lugar estratégico. Bora ensinou os códigos que elas usavam para avisar em qual ponto estaria escondida naquela semana. Tudo parecia um plano muito bem arquitetado, o que deixava as novatas mais animadas. 

 

    O internato tinha lá seus mistérios e aquele era apenas o primeiro dia.

 

    — A energia tem sempre que ficar desligada para não perceberem uma diferença nos gostos, por isso enterramos as bebidas, ajuda a conservar e esconder. — Siyeon explicou, mostrando a terra revirada.

 

    O lado de dentro do galpão era menor do que parecia, mas não deixava de ter seu charme. Um sofá rasgado estava encostado na parede maior, uma mesinha ficava no centro e algumas cadeiras estavam espalhadas ao redor. Enfeites do baile de dia das bruxas estavam pendurados no teto junto a única lâmpada (que precisava ser girada para acender). Aquele era o lugar perfeito para matar aula ou simplesmente ficar de bobeira.

 

    Para o jovem casal, aquele era um lugar seguro onde poderiam ser elas mesmas. 

 

    O internato tinha regras claras sobre namoro: não era permitido. 

 

    Para um lugar cheio de adolescentes, era um tanto quanto inocente acreditar que nada acontecia por baixo dos panos, assim, regras foram criadas. 

 

    Depois das 20h ninguém podia circular no dormitório oposto. Se um garoto estivesse no quarto de uma garota antes de anoitecer, a porta deveria permanecer sempre aberta. Nenhum aluno poderia circular depois das 23h sem autorização. 

 

    Em casos leves, resultaria em uma advertência e serviço comunitário na escola. Ser pego fora do horário, no dormitório oposto com a porta fechada era uma suspensão de uma semana. Nos casos graves, que envolviam bebidas e drogas, era expulsão na certa.

 

    Agora, ser pego fazendo qualquer coisa que não seguisse o padrão de família perfeita da televisão, resultava em uma longa carta enviada para seus pais contando como o filho havia se perdido no caminho. Era um completo caos. O internato tentava abafar a história, mas sempre que um aluno parava de frequentar as aulas sem muita justificativa, os boatos circulavam. 

 

    — O caso mais recente, antes das férias de verão, foi de uma aluna que era colega de quarto de uma das vigias do diabo. Ela ainda não voltou e ninguém sabe o que aconteceu, só que a filha do diretor tem um quarto exclusivo agora — Siyeon comentou em determinado momento, enquanto terminavam de comer e conversavam sobre histórias do internato.

 

    Os responsáveis por vigiar os alunos faziam parte de uma equipe especial, escolhida a dedo pelo diretor e a supervisora. Eram compostos por aqueles com as maiores notas no boletim e as maiores notas na conta bancária.

 

    Os barulhos ao redor do galpão começaram assim que o relógio marcou meia-noite. Dava para ouvir os passos apressados correndo de um lado para o outro, pelo menos um grupo de dez pessoas estavam andando por aquela parte do internato. 

 

    Siyeon e Handong recolheram, horas antes, todos os objetos que pudessem denunciar que alguém frequentava o lugar. Apenas a lâmpada dentro do galpão iluminava as garotas que jogavam cartas e comiam o que restaram do jantar. As novatas assistiam a disputa acirrada entre Siyeon e Handong. Aquela rodada valia o pão de soja do café da manhã. 

 

    — Então... Acho que vai começar — Bora levantou do sofá e colocou o livro que estava lendo na mesinha de centro, ao lado do monte de cartas — Eles não sabem que estamos aqui, mas é melhor não brincar com a sorte. Ser pego fugindo é pior do que não estar preparado. 

 

    Siyeon parou o jogo por alguns instantes depois de jogar a carta coringa contra Handong que abafou um grito, para rodar a lâmpada no bocal, fazendo ela perder o contato com a energia. A escuridão preencheu o ambiente junto com o silêncio, a única coisa visível era a ponta do cigarro que queimava em um vermelho intenso.

 

    — Bem-vindas a primeira noite no internato. 



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