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História Noova Online - Capítulo 9


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Capítulo 9 - A Gota De Lágrima Junto Ao Meu Peito


A GOTA DE LÁGRIMA JUNTO AO MEU PEITO

Sob o comando de Derfel, os dois avançaram pela esquerda. O raio de alcance brilhou no solo e as folhas foram disparadas. Assim que os dois pudemos evitá-las, Shun e eu avançamos pela direita.

Conseguimos ganhar um bom tanto de terreno, enquanto subíamos pela raiz elevada, então o raio de alcance surgiu a nossa frente. Desviamos das folhas com muito mais dificuldades que nossos companheiros, mas tivemos sucesso.

A outra dupla avançou novamente, evitando a próxima sequência de tiros, então Shun e eu finalmente alcançamos a face do monstro.

Ambos saltamos e golpeamos seu olho em cheio, mas algo estava errado: A criatura não perdeu quase nada de HP, diferente de outrora.

Pousamos sob a raiz abaixo e imediatamente saltamos para escapar de novos disparos. Em seguida, Derfel e Dagger tentaram a sorte, mas o resultado foi o mesmo.

Recuamos todos juntos.

— Não está funcionando! O que faremos?! — Dagger questionou enquanto saltava para desviar de uma folha gigante.

— O ponto fraco dessa coisa deve ter mudado de lugar! — Eu sugeri.

Eu observei a criatura, procurando uma nova brecha, mas nada semelhante fazia-se notar.

— Tem que haver uma fraqueza! — Derfel insistiu, enquanto ele e Dagger desviavam de uma sequência de tiros.

— Talvez atrás da cabeça daquela coisa!

A sugestão havia partido de Shun e todos paramos para fitá-lo com espanto.

— O que foi?! — Ele perguntou com irritação.

 Creio que todos nós o havíamos julgado igualmente. O sempre impaciente, imprudente e atrevido Shun havia sugerido algo perfeitamente aceitável.

— Bom trabalho, Shun! Nesse caso, só há uma coisa a fazer.

— É Shugoku, seu tonto!

— Preciso do apoio de vocês! Cada um terá que chamar a atenção daquela coisa para que eu possa me aproximar!

— Como você pretende contornar aquela coisa imensa?! — Dagger questionou com temor.

— Apenas confiem em mim!

Foi tudo o que pude responder, pois um novo ataque do monstro obrigou-me a saltar para desviar. Avancei em seguida, sinalizando com a cabeça para meus companheiros.

Derfel foi o primeiro a mover-se: Permiti que me ultrapassasse na corrida, e o novo ataque foi direcionado a ele. Assim que pôde esquivar-se, avancei um pouco mais e esperei ser ultrapassado por Dagger. O monstro tornou a atacar e ela saltou para evitar o dano.

Por favor, que eu possa contar com você, Shun!

Foi minha torcida silenciosa, mas o cavaleiro iniciante estava mesmo inspirado naquele momento.

Shun ultrapassou-me, saltando e gritando, o ataque foi direcionado para ele. Após ter se esquivado por pouco, ele encarou-me diretamente.

— Não se atreva a falhar, seja lá o que pretenda fazer!

— Pode deixar! — Respondi, já o ultrapassando.

Finalmente alcancei a criatura, então saltei, como se fosse golpear seu olho mais uma vez.

O padrão havia mesmo mudado, pois agora a cabeça do monstro deslocava-se em minha direção com a enorme boca abrindo e fechando freneticamente.

— DAIGO!!! — Meus três companheiros gritaram com pura apreensão.

—「Sneak Attack」!

Então meu corpo desapareceu, sob os olhares de todos e a criatura abocanhou o vazio.

Levado até as costas do monstro, percebi uma pequena abertura brilhante em seu tronco. Ignorando a redução de 30% do meu HP, empunhei a Blue Serpent e cravei sua lâmina na pequena fenda.

— AAAAAAAAAHHHHH! —

Eu tentava forçar a lâmina inutilmente na abertura.

— Tsc! Não está funcionando?! — Shun gritou ao perceber que o HP do monstro pouco diminuía.

Talvez o meu nível atual seja baixo demais para encarar um boss desse tipo!

Sob um novo e último padrão de defesa, todos os galhos ressurgiram do solo fazendo o ambiente tremer e miraram suas folhas em nossas direções, incluindo onde eu estava.

— Não!! — Dagger gritou, cobrindo sua cabeça com as mãos, numa tentativa pouco efetiva de proteger-se.

— Agora já era! — Shun lamentou-se.

— Daigo, use o poder da Blue Serpent!

As palavras de Derfel fizeram com que eu me lembrasse do instante em que ele havia me dito:

— [Não se preocupe, essa espada será seu maior trunfo um dia.]

Aquilo, somado ao desespero dos meus companheiros, fizeram com que algo reagisse em meu corpo e em meu menu de habilidades.

Um dos pontos de interrogação desapareceu na árvore de habilidades atrelada a MAGIAS, e em seu lugar surgiu um nome.

As folhas pontiagudas brilharam e foram disparadas contra todos nós.

No instante extremo, eu concentrei todo o meu MP:

—「Blizzaga」!!

A Blue Serpent brilhou e uma grande massa de ar frio rodeou a arma e espalhou-se por todo o corpo do boss. Imediatamente, blocos gigantes e pontiagudos de gelo formaram-se e cobriram-no por completo.

Apesar do inimigo ter uma proteção especial contra o “elemento gelo”, que reduzia o dano mágico, Blizzaga era a mais avançada e poderosa das magias deste tipo, portanto, nem mesmo tal resistência natural pôde contê-la.

O ataque pareceu ainda mais poderoso do que já seria, então lembrei-me dos pontos extras de magia que havia ganhado dormindo, horas atrás.

O sistema entendeu que o monstro estava com status “Congelado”, tanto ele quanto as folhas, paralisaram, em pleno ar, a centímetros de nos atingirem.

— Agora!! — Eu gritei para meus companheiros.

— Deixa comigo!

Apesar de Shun ter tomado a iniciativa, Dagger havia se recomposto e usado sua agilidade superior para ultrapassá-lo.

— AAAAAHH!!

Ela avançou pela raiz congelada, saltou e cravou a adaga no olho do monstro.

Num segundo, o gelo começou a rachar e quebrar-se. Logo, todo o corpo da criatura desfez-se em vários blocos gigantes.

Conseguimos recuar em segurança, a tempo de ver o HP da criatura chegar a “0”. Partículas brilhantes começaram a cair sobre nós, numa inofensiva chuva de cristais.

Esse foi o fim da “Ancestral Crystal Tree”.

— Vencemos... — sussurrei, ofegando bastante.

— Nós vencemos! — Dagger comemorou, dando-se conta aos poucos, do término da batalha.

Assim que a criatura se desfez em milhares de pixels, Dagger correu em minha direção e abraçou-me.

— Conseguimos, Daigo! Aquilo foi incrível!

— Do que está falando? Você quem deu o golpe final, então a incrível aqui é você, Dagger.

Ela sorriu para mim gentilmente, sem me soltar. Derfel e Shun aproximaram-se, então a mensagem “Quest Azulada Finalizada” surgiu a nossa frente, seguida de uma boa quantidade de XP e DM. Sem pensar duas vezes Dagger optou por dividir tudo.

Derfel upou para o level 13; Dagger pulou direto para o 9, Shun para o 8 e eu para o 7. Foi a distribuição de XP justa que o jogo entendeu, segundo nossas participações na batalha.

— Bom trabalho, pessoal. Em especial você, Daigo. Eu sabia que conseguiria dominar a habilidade especial da Blue Serpent. — Disse Derfel, dando tapinhas em meu ombro.

— O que foi aquilo exatamente?

— Blue Serpent é uma arma mágica, capaz de controlar os elementos “água” e “gelo”. Mesmo que a pessoa a empunhá-la não seja um “Magick-Caster”, ela torna-se capaz de utilizar a poderosa “blizzaga”, a custo de todo seu MP... Ainda assim, você ganhou um extra.

— Como assim?

— A magia está ativa também na sua árvore de habilidades, o que significa que você poderá utilizar esse poder quando atingir a quantidade de MP suficiente, sem depender da Blue Serpent para fazê-lo... Em outras palavras, apesar de não ter uma classe, o jogo permitiu que você se tornasse um “Magick-Warrior”.

Todos me olharam com admiração. Agora fazia sentido o porquê de o sistema evoluir meus pontos de magia sempre que eu upava de level, apesar de eu não pertencer a nenhuma classe mágica.

Ainda estávamos admirados com tudo aquilo, quando mais duas mensagens apareceram:

A primeira, frente a todos nós: “Prêmio pela vitória” >> “Pedra Azulada”. <<

Assim que aceitamos, cada um recebeu uma pedra brilhante, semelhante a um topázio.

A segunda mensagem apareceu para Dagger: “Prêmio pelo ataque derradeiro” >> “Divine Tear”. <<

Ao aceitá-la, um pingente em formato de gota cristalizada caiu sobre as mãos de Dagger. Ela analisou sua descrição com mais calma e admirou-se ao perceber que o objeto dava +10 pontos de defesa e redução de danos contra o elemento “fogo”.

— Parabéns, Dagger. — A cumprimentei, estendendo minhas mãos.

Sem dizer nada, ela deu um leve tapa que desviou minha mão para o lado, então saltou e envolveu-me num abraço.

— Obrigada! Eu nunca me diverti tanto! Ter conhecido todos vocês foram a melhor coisa que me aconteceu!

Derfel e eu sorrimos e Shun desviou o olhar, tentando disfarçar o prazer que sentia por aquelas palavras.

— Isso inclui você, cara do tutorial...! — Ela provocou-o com tom divertido.

— Tsc! Da próxima vez eu darei o último golpe no boss. E não pense que ficará com o level acima do meu por muito tempo!

Todos rimos.

De súbito, algo cintilou a nossa frente e um “Save Point” surgiu. Nossos olhos brilharam, então corremos e tocamos a estátua, registrando nosso progresso de maneira segura, certos de que fomos os primeiros players que desbravaram aquela parte do game.

Novamente minhas mãos tocaram as de Dagger, então nos encaramos. Os olhos roxos de seu avatar fitaram meus olhos azuis com tanta ternura, achei que meu coração fosse explodir de felicidade.

Parecia que tudo melhoraria cada vez mais. Parecia...

BIBIP! BIBIP! BIBIP! BIBIP!

 O perturbador som do despertador ecoou, chamando a atenção de todos.

Eu olhei para o canto do meu cursor e depois para o céu ensolarado.

12:30 na vida real. 15:00 no jogo.

Recuei minha mão sobre a de Dagger e guardei a Blue Serpent na bainha.

— Tenho que ir... — Disse fracamente.

— Ah... Mas não tem problema, podemos esperar até você voltar! Se puder passar seu número de celular, ou seu e-mail, então...

— Impossível... — Eu a interrompi. — Eu não estou com nenhum celular no momento, também não terei acesso à internet por algum tempo.

— Entendi... Quando você consegue logar novamente?

Eu virei de costas para não encarar mais os olhos apreensivos da garota, então acessei meu menu, na parte de contatos e selecionei nossa “partner”. Com muita hesitação, selecionei meu nick e depois em “deixar part”.

— O que está fazendo, Daigo?!

— Não posso prosseguir além daqui... Sinto muito.

— Então você simplesmente vai embora para sempre?! Você vai nos abandonar?! Você simplesmente vai me abandonar?!

— Eu não...

— Você prometeu, lembra?! Você prometeu que ficaria comigo! Aquilo foi tudo mentira?!

“...”

— Você...! Ao menos me deixe te ver na vida real!

“...”

— Eu... estou sendo traída por um amigo, de novo...?!

As lágrimas começaram a formar-se nos olhos de Dagger. Eu simplesmente não pude encará-la.

Eu não estava pronto para contar as coisas pelas quais eu passava em casa, por isso não tinha como explicar que, simplesmente, eu não podia receber visitas de amigos, ou sair livremente, ou sequer ter um celular para ligar e mandar e-mails.

Eu não podia envolvê-la em meu mundo. Ainda que aqueles punhos ferissem somente a mim, eu poderia suportá-los. Mas o que eu faria caso ela se machucasse? Como eu a protegeria daquele homem inconstante?

Eu simplesmente não podia arriscar sua segurança. Não havia pontos de ataque, Blue Serpent ou “blizzaga” no mundo real. Não havia modo de protegê-la.

— Daigo, temos que ir. — Shun alertou-me.

— Sim... eu já estou indo.

— Eu vou na frente. Não demore, ou teremos problemas... Pessoal, vejo vocês em breve.

Shun acessou seu menu e deslogou-se. Seu avatar sumiu em meio a uma luz brilhante.

“...”

— Senhor Derfel, por favor, cuide de Dagger por mim.

— Daigo, você tem certeza disso tudo? — Derfel questionou.

“...”

O cavaleiro veterano caminhou até se posicionar a minha frente. Seus olhos surpresos encararam meus olhos cheios de lágrimas.

— Você quer mesmo isso?

Eu... não quero isso...! Eu simplesmente não tenho escolha!

Pensei, enquanto buscava qualquer resposta efêmera.

— Eu nem sequer tenho um console para voltar ao jogo. Ainda que o tivesse, eu...! — Hesitei, pois estava prestes a revelar a verdade. — Não..., eu simplesmente não tenho o equipamento necessário.

— Entendo. Despeça-se de Dagger como se deve. O que posso dizer por enquanto é que foi um enorme prazer lutar ao seu lado.

Derfel inclinou-se para mim e afastou-se. Por algum motivo, tive a sensação de que ele me entendia profundamente, mas isso seria impossível, pois ele não tinha como saber a verdade.

Ninguém poderia saber a verdade.

— Daigo...

— Sinto muito, Dagger... Por favor, entenda! Eu não estou te abandonando! Eu não menti para você! Eu simplesmente não posso ficar aqui com você...! Está além da minha vontade!

Dagger acessou seu inventário e clicou sobre a “Divine Tear”, em seguida apertou na opção “descartar” e o item saiu de sua lista.

Sem dizer nada, ela aproximou-se das minhas costas, abriu o pingente e o colocou em meu pescoço, prendendo a ponta junto a minha nuca. O item brilhou para mim e o quadro perguntando se eu o aceitava apareceu a minha frente.

— Eu não sei o que está acontecendo, mas eu acredito em você... Eu vi com meus próprios olhos... Foi rápido, mas o garoto chamado Daigo encantou-me de tal modo, que sinto que jamais poderei esquecê-lo. Por isso quero que fique com esse item... Esse pingente será a prova de que estamos ligados.

— Eu não...

— Você o devolverá para mim um dia. — Ela interrompeu-me. — Quero que se lembre de mim e dessa promessa. Você precisa me devolver esse item, Daigo!

— Dagger! — Gritei e aceitei o item em meu inventário.

Eu virei-me e abri meus braços. Ela fez o mesmo, lançamos nossos corpos um de encontro ao outro. No instante em que nossos corpos se tocariam, a luz brilhou sobre mim e meu avatar desapareceu.

Dagger abraçou o vazio.

Ela chorou.

 

Abri meus olhos úmidos de lágrimas lentamente e percebi Shun a minha frente. Ele havia retirado o console de mim, por isso desloguei do nada.

— Tive que fazer isso, ou você estaria com enormes problemas.

Ele apertou um botão que silenciou o bip do alarme.

— Eu sei, desculpe por isso.

Levantei-me, limpei os olhos e o ajudei a guardar os consoles em sua mochila. Saímos do galpão e caminhamos até a parte do caminho para as nossas casas, onde nos separaríamos.

— Aquilo foi divertido. — Ele disse.

— Sim.

— Talvez um dia possamos jogar juntos novamente.

“...”

— Eu tenho que ir... Melhor você correr.

Eu assenti e estendi a mão com o punho fechado para cumprimentá-lo, mas Shun não deu atenção e partiu, dando-me as costas.

Abaixei minha mão e fiquei parado por um tempo, então me dei conta do horário e decidi correr para casa.

Minutos depois, quando cheguei na porta, coloquei a mão sobre a maçaneta, mas hesitei girá-la. Minha mão tremia e o sangue corria para minhas pernas, como se me dissesse para fugir, sem olhar para trás. Ainda assim, eu respirei fundo, girei a maçaneta e entrei em minha casa.

Tudo estava silencioso e escuro. Eu atravessei o primeiro corredor rumo ao meu quarto, alcançando a sala.

Lá estava ele: Okieda Yzukaru.

Sentado numa poltrona, com seu terno elegante e um copo de Whisky na mão, ele fitou-me com um rosto inexpressivo.

— Está atrasado, Daigo...

“...”

Instintivamente, eu levei as mãos ao pescoço, buscando o pingente que Dagger confiara a mim, mas não encontrei coisa alguma.

Apesar de não poder sentir entre meus dedos aquele objeto composto de números e dados de programação, eu guardei-o dentro da minha alma.

A pedra em formato de gota que representava as lágrimas que Dagger derramara por mim, estaria sempre presente, próxima ao meu peito, não importando aonde eu fosse ou o que acontecesse comigo.



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