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História Nós - Capítulo 1


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Notas do Autor


Ei, pessoal~!
Escrevi essa one para expressar um pouco dos meus sentimentos. Talvez se identifique com alguém, quem sabe?

Capítulo 1 - Capítulo Único


Foi embora sem nunca dizer “Adeus”.

 

Sabe, essas recordações ainda são muito frescas na minha cabeça. Nós dois estávamos naquela praça, de frente praquele lago..., hm..., ah, desculpa, eu não me lembro o nome do lugar – ter uma “boa memória” nunca foi o meu forte mesmo. Mas era muito especial para nós..., principalmente para você. Lembro que gostava de passar o dia todo lá, sentada no gramado recém-molhado pela garoa, encarando o nada..., literalmente o nada. Só a neblina que ascendia suavemente do espelho d’água, às vezes olhando para o seu próprio reflexo, se remoendo em tantas perguntas..., perguntas que gostaria de ter mais tempo para respondê-las, uma por uma, detalhe por detalhe. Confesso que, no começo, não entendia essa sua rotina estranha..., mas agora..., depois que tudo passa, depois que o fogo apaga e só resta as cinzas..., eu começo a entender. Entender perfeitamente o seu ponto de vista, os seus pensamentos, os sentimentos que escondia de mim.

Eu te entreguei um peso enorme nas suas costas, e não fazia ideia que por dentro você estava sofrendo. Então quis aliviar, quis te conhecer dos dedos dos pés até o último fio de cabelo loiro, quis te estender a mão para que você não precisasse ficar sozinha, no escuro do seu coração atormentado. Você escolheu me acompanhar..., e eu gostei. Aprendi tantas coisas do seu lado..., coisas que um alguém como eu jamais poderia aprender por si só. Éramos a pura sincronia lado a lado, nós éramos peças de quebra-cabeça que se encaixavam, como se já tivéssemos sido fabricados especialmente um para o outro tempos atrás. Na passarela da noite, você era a lanterna e eu era quem te segurava. A sua luz me mostrou possibilidades.

Mas a sua bateria está morta agora.

..., sim..., eu acho. Você não tem mais a mesma luz de antes. E eu..., bem, eu fiquei na escuridão total – era o que mais temia entre tantas possibilidades. É tão esquisito, porque parece que ainda posso escutar a sua voz ecoando de longe, só que... não consigo alcançá-la, por mais que tente e me mova. O meu corpo parece congelado..., não sinto os meus braços nem as minhas pernas, e quem dirá o meu sangue correndo pelas veias.

Você não tem culpa.

Você estava em apuros e se recusou inúmeras vezes a me contar. Eu deveria ter suspeitado – como sou idiota –, o seu sorriso brilhante de toda manhã..., tinha algo errado nele. Estava mais brilhante do que o normal. Quando tudo acabou em um piscar de olhos, me martirizei e te odiei..., me questionava tantas perguntas bobas..., e ninguém poderia me elucidar uma resposta válida o suficiente. Nada mais importava, somente a última imagem sua que jamais se esvaiu dessas doces recordações..., e o seu rosto. O seu rosto era muito bonito..., me faltou coragem para dizer.

O peso que te joguei sem hesitar foi a pior coisa que fiz em toda a minha vida. Você dedicou sua alma e o seu corpo para mim, exclusivamente para mim, para cumprir o propósito que te designei, quando ainda mal sabia o seu nome. Você estremeceu e ficou pálida igual um fantasma..., mas não demorou para aceitar. Você, além de ser prestativa, se aproximou de mim sem temor..., eu, sendo alguém tão diferente de você e toda a sua humanidade. Nunca me incomodei com a solidão – sempre fui um lobo perdido da alcateia –, mas a “Solidão” passou a ser um pesadelo terrível a partir do momento que te conheci. Não existia mais um mundo sem mim e você, juntos. E se existisse, esse mundo era o maior significado de “falsidade”.

O meu desejo era te levar para todos os cantos, para que pudéssemos explorar..., do jeitinho que você tanto amava. Você, que também não teve uma família digna; você, que mesmo assim tratava os seus amigos como se fossem seus irmãos; você... que escolheu me aceitar e me apoiar.

...

De frente para aquele lago cristalino, você já tinha ido embora e ainda assim estava lá, comigo. Você tinha um corpo, mas não tinha mais alma para te sustentar. Acho que desde o início você queria ficar perto de mim, seja na saúde ou na doença, e nunca queria me preocupar. “Era desnecessário”, você dizia, com um tom debochado que me fazia rir...

... eu acreditei que era mesmo desnecessário.

“Odeio despedidas” – o vento assustador soprou, balançando os seus cachos, no instante em que admitiu estar tão apavorada quanto eu. Ambos sabíamos que poderia ser a última vez que estaríamos na praça, ouvindo o cantar dos pássaros, sentados embaixo da macieira, aguardando o Sol se pôr no infinito horizonte. Eu não soube o que dizer..., não sem romper em lágrimas ou entrar em desespero.

Mas tínhamos que ser fortes ou senão sucumbiríamos sem sequer tentar. Em plena guerra, tudo o que precisamos é o amor, mas o que realmente queremos é o perigo. O seu cenho não se contorceu em tristeza, pelo contrário: permaneceu intocável e tenaz, e nisso a admirei ternamente.

“Tudo bem” – você emendou logo depois. “Está tudo bem sentir medo ou não gostar de despedidas, sei disso”. Não nos tornamos invencíveis por saber omitir as nossas emoções, mas sim quando sabemos controlá-las e compartilhá-las quando são intensas demais para as nossas mentes frágeis. Você me ensinou estas palavras..., e fiquei atento a vigiar os meus próprios passos. Mas era você, e apenas você, quem já estava presa e se afogando lentamente..., nas suas angústias, nos seus terrores...

Agora tudo é tão, tão óbvio.

Me desculpa, meu amor. Desculpa por não estar lá quando você mais precisava do meu auxílio. Você fez de tudo por mim, tudo que estava ao seu alcance e tudo que não estava, o possível e o que beirava o impossível. Você queria me ver feliz, queria ser útil e não um estorvo, e entendo que não hesitaria em tomar atitudes drásticas se esse fosse a sua vontade. Afinal, a sua maior virtude sempre foi a coragem e a humildade, em cada ato, em cada atitude, em cada sílaba. Me dói pensar em todas as vezes que você me ergueu..., e ninguém – nem mesmo eu – foi capaz de te erguer de volta quando era a sua vez de cair. Você escolheu vender a sua alma para aquela bruxa..., e deve ter pedido para que o seu corpo e os vestígios da sua sanidade ficassem mais um pouco, para me fazer companhia, para que não me sentisse tão solitário repentinamente. Mais importante do que nós dois, era a nossa vitória..., certo?

Na praça, o seu tempo estava se esgotando. Você pegou as minhas mãos e o seu toque era gélido feito um cadáver. Você se transformou em um monstro horrendo, mas ainda podia enxergar a íris azul dos seus lindos olhos naqueles globos penumbrosos e diabólicos. Não sei se posso te perdoar pela sua leviandade, e muito menos sei se posso me perdoar. Você desapareceu diante os meus joelhos, ainda sorrindo..., sempre sorrindo.

Você me deu tanta esperança...

... para simplesmente... sumir...?

A fúria me consumiu. Não estava mais pensando direito..., só queria torcer o pescoço de quem quer que tenha feito aquela barbaridade com você. E eu sabia quem era, exatamente quem era. Então pisei no campo de batalha, totalmente desarmado, arrastando apenas o poder que a sede de vingança me proporcionou. Apesar de cego, podia sentir a sua presença calorosa..., tentando me impedir, me trazer de volta aos sensos que tanto me ensinou ao longo de anos e anos. A minha escolha foi te ignorar.

Você tinha um animalzinho de estimação. Creio que a sua depressão começou após o envenenamento. Eu disse que poderia trazê-lo de volta – queria te animar... – e você gritou comigo. Retrucou que era “estúpido” ..., e que “mesmo que o trouxesse de volta, não seria a mesma coisa”. Custou para compreender..., na chuva, encarando o santuário que tinha feito para aconchegar o corpinho gatuno.

Vidas são preciosas, não são?

Para as pessoas que amamos..., são muito preciosas.

E quando elas se vão..., nós sofremos.

Se sofri..., é porque você foi uma vida preciosa para mim. Uma vida que amei observar.

Se invertêssemos os papéis, se tivesse sido eu a ir embora primeiro..., você também estaria sofrendo?

Eu... gostaria de saber.

Ela pisou na minha frente, rindo um sibilar de víbora. As minhas forças foram drenadas e me senti um lixo por não conseguir te vingar, senti que te traí, que te abandonei, mesmo você não estando lá para me abraçar e me confortar. Toda aquela convicção que tinha..., não era mais nada. A minha visão estava ficando turva e muito sangue escorria da ferida no meu peito. A minha voz era um rasgo seco na garganta.

Mas ela disse algo...

“Esse final não faz jus a uma escória como você”.

“O pior castigo para um homem não é a morte do corpo, e sim a morte da mente”.

... e tudo ficou escuro.

Era como antes, quando não sabia o seu nome. Não enxergava um palmo de distância, sem a minha alcateia, tão solitário. Entretanto, se fosse idêntico a antes, não me importaria..., mas sabendo de você, sabendo que você não poderia mais iluminar o meu caminho..., eu chorei em histeria. Te queria de volta, a minha lanterna, a minha salvação. Não havia mais o que ser feito.

Imagens piscaram como devaneios.

E continuam piscando.

Cada vez mais embaçados...

O seu rosto, o seu sorriso, o seu cabelo, os seus olhos..., estou pouco a pouco, dolorosamente, me esquecendo da silhueta, da cor, do formato, de cada um deles. O que resta..., é a voz..., e até ela..., tem um timbre tão inusual..., como se não a reconhecesse mais...

Você... está se tornando um completo desconhecido para mim.

Junto com a essência da minha alma..., você não é ninguém.

E o seu nome..., o nome que eu adorava pronunciar...

Não me lembro, nenhuma letra.

Então, o destino me levou a essa crueldade, e não posso mais lutar contra. Será fútil.

Me sinto afogado...

Você também se sentia assim?

Afogada nos próprios receios?

Tenho medo de te perder para sempre...

Te de esquecer...

Se eu te esquecer..., o que me resta? Como posso viver sem me lembrar de você? Esse mundo, para mim, não existe.

Os meus dedos roçam naquela pelugem macia do seu gato. Você o amava como se fosse o seu filho..., e quando o toco, sinto uma parte de você, ressoando...

Então...

Se você ainda estiver viva..., sob o lago, cortarei as minhas pernas e me tornarei um peixe. Se você chegar perto de mim, nas profundezas, me tornarei uma sombra, perambulando na escuridão sem fim. Livremente, à deriva, quero me lembrar dos dias que não foram concedidos a nós. E se estas palavras não te atingirem, quero que peguem o meu corpo morto e que o joguem fora. Quero que a minha alma possa flutuar até onde quer que você esteja, a procura e a cobiça de suas emoções..., mesmo que sejam meras ilusões criadas pelo meu ser espiritual.

...

Você está não aqui.

Você não pode mais estar aqui.

Eu sei disso.

Eu sei disso.

O seu calor, desaparecendo, me segue até o meu túmulo, esculpido em azul – a cor dos seus olhos – e é levado embora pelo vento assustador.

Os estilhaços das nossas memórias estão sendo arrancados. Os furos que se acumulam em mim – e sangram – não são o bastante. Estou esquecendo – está obscurecendo.

Sua voz desaparece na gritaria da chuva.

Estão sendo arrancadas, estão caindo, as minhas memórias. Os furos continuam não sendo o bastante. E sem deixar rastros..., estou esquecendo, à mercê.

Sua voz está se tornando uma com a gritaria da chuva.


Notas Finais


Às vezes, até mesmo a morte pode ser bela.


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